terça-feira, 9 de abril de 2024

Novos ditadores evitam violência para fingir que são democráticos

O livro "Democracia Fake", publicado recentemente no Brasil, alerta para nova estratégia de ditadores contemporâneos. Buscando forjar um verniz democrático que possibilite o estabelecimento de relações com países liberais, esses líderes abandonam a repressão violenta e se voltam para táticas de manipulação menos escancaradas.

Uma multidão se aglomerava na praça principal da capital do Congo. Era 2 de junho de 1966 e o ditador Mobutu havia declarado feriado naquele dia. Ele queria que todos acompanhassem o que aconteceria ali.

Sob um sol escaldante, desceram de um jipe militar quatro homens que usavam capuzes pretos, como descreve reportagem publicada no dia seguinte pelo jornal americano The New York Times. Eles caminharam até o centro da praça e, um a um, subiram os degraus de um andaime improvisado, onde havia uma grossa corda pendurada. Na frente de todos, foram enforcados.

Os quatro eram inimigos políticos de Mobutu, que ordenou a execução sob o argumento de que o grupo tentaria matá-lo para dar um golpe.

Sessenta anos depois, demonstrações ostensivas de violência como essa são mais raras, mesmo entre ditadores —no século 21, eles perceberam os benefícios de posar como democratas. É essa a tese proposta no livro "Democracia Fake" (Vestígio), de Sergei Guriev e Daniel Treisman.


A obra opõe dois tipos de ditadores. O primeiro, mais comum no século 20, governa pelo medo. Tem como marcas a repressão violenta (como torturas, prisões e assassinatos), a censura generalizada e escancarada, a imposição da ideologia oficial do regime e o culto à personalidade.

O outro tipo, mais contemporâneo, é chamado pelos autores de "ditadores do spin" —não existe uma tradução literal para o termo, mas o sentido é semelhante a ditadores da manipulação. Esses governantes escondem a violência estatal, disfarçam a censura, cooptam empresas de mídia privada e mantêm uma fachada democrática.

Os dois representam um tipo distinto de perigo, diz Guriev em entrevista por videochamada à Folha. "Os ditadores do spin são menos perigosos por serem menos violentos. Há menos pessoas morrendo e sendo torturadas nas prisões", afirma. "Por outro lado, são mais perigosos porque fingem ser democratas e às vezes são bem-sucedidos em enganar o Ocidente. Esse é o propósito do livro: alertar o mundo democrático que eles, ainda assim, são ditadores."

O modus operandi de líderes como Lee Kuan Yew, ex-primeiro-ministro de Singapura apontado no livro como precursor do modelo, envolve manipular a opinião pública para ganhar popularidade. "Os ditadores do spin sobrevivem não por destruir a rebelião, mas por remover o próprio desejo de rebelião", escrevem os autores.

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán é citado por Guriev e Treisman como um exemplo desse tipo de ditador. Ele não adotou a censura declarada, mas, segundo organizações que defendem a liberdade de imprensa, tomou controle do mercado da mídia por meio de oligarcas aliados, que teriam comprado empresas do setor. A ONG Repórteres sem Fronteiras afirma que 80% dos veículos de comunicação húngaros estão, na prática, nas mãos do partido de Orbán.

O primeiro-ministro também disfarçou o autoritarismo no método que utilizou para expulsar do país a Universidade Centro-Europeia, fundada pelo magnata George Soros, alvo frequente de sua retórica populista. Para viabilizar a expulsão, o Parlamento governista aprovou uma lei que criava um motivo burocrático que impossibilitaria a continuidade do funcionamento da universidade na Hungria.

Orbán minou o sistema de freios e contrapesos, mas não derramou sangue para isso —em primeiro lugar, porque não precisou. Para líderes como ele, a violência é o último recurso. Não necessariamente por uma questão moral, mas estratégica.

"A globalização hoje oferece muitos incentivos para um país abrir as fronteiras e atrair investimentos estrangeiros, porque isso cria empregos e crescimento econômico. Para conseguir isso, eles têm que fingir ser democratas", diz Guriev. "Para viajar para Davos [onde acontece o Fórum Econômico Mundial], eles precisam usar um terno, não um uniforme militar. As pessoas não vão apertar a mão deles se eles tiverem torturado milhares."

A globalização é um dos componentes do que os autores chamam de "coquetel da modernização", uma junção de forças que empurraria algumas ditaduras rumo à democracia. A ditadura do spin seria uma forma de adaptação e sobrevivência em meio a esse novo cenário.

"Se você quer transformar uma economia de renda média em um lugar próspero, você vai precisar de crescimento econômico baseado em inovação e conhecimento. Para isso, você precisa de pessoas com ensino superior", afirma Guriev. "Essas pessoas não querem trabalhar em uma ditadura do medo. Então, você precisa ser mais aberto, fingir que é um democrata."

Guriev e Treisman criaram uma base de dados utilizando uma série de critérios para distinguir os ditadores do medo e os do spin. Os números corroboraram a tese deles: o segundo tipo é o mais frequente entre as novas ditaduras. Nos anos 1970, 60% dos ditadores que assumiram um governo se utilizaram do medo. Nos anos 2000, essa porcentagem caiu para menos de 10%. No mesmo período, o percentual que governa pelo spin subiu de 13% para 53%. Os demais são de um tipo híbrido.

Guriev fala em duas maneiras comuns para a ascensão de um ditador do spin. A primeira acontece após o declínio de uma ditadura do medo. Por exemplo, um líder dessa linha morre e o seu sucessor conclui que, no mundo contemporâneo, é mais estratégico ser um ditador do novo tipo.

A outra, explica ele, ocorre quando um governante, frequentemente populista, chega ao poder por eleições regulares e então subverte as instituições democráticas. Os autores afirmam que o ex-presidente Donald Trump tentou fazer isso nos Estados Unidos.

Treisman diz que, se Trump for eleito novamente neste ano, o cenário se repetirá. "Ele vai tentar minar o sistema de freios e contrapesos, vai tentar colocar ainda mais comparsas leais nas cortes, vai tentar reduzir o acesso à mídia. Ele vai politizar o serviço civil, a burocracia [do Estado]", afirma. "A equipe dele já anunciou que tem planos de, no primeiro dia, demitir um grande número de funcionários federais e introduzir novas pessoas leais a ele."

Isso não significa que, caso eleito, Trump será bem-sucedido em sua tentativa. Os autores escrevem que a maior resistência contra líderes como ele está no grupo que chamam de "bem-informados", subconjunto da população com "educação superior, habilidades de comunicação e conexões internacionais", que documentam e denunciam os abusos do governante.

"Não apostaria contra a sociedade americana, que é muito resiliente e está mobilizada. Existem advogados, jornalistas, juízes, funcionários do governo e ONGs que estão determinados a impedir a erosão da democracia", diz Treisman. "Mas vai ser perigoso e destrutivo se ele tentar. Uma vitória de Trump seria ruim para o mundo todo. Encorajaria os ditadores de todos os tipos a aumentar a pressão. A gente viu evidências de que o envolvimento americano ajudou a impedir a tentativa de golpe de Bolsonaro."

Em alguns casos, um ditador do spin pode recorrer ao medo —um caminho sem volta. Os autores afirmam que isso aconteceu na Venezuela. Hugo Chávez, um ditador do spin, foi substituído por Nicolás Maduro, que, pressionado por uma grave crise econômica, aumentou a repressão. O russo Vladimir Putin seguiu o mesmo caminho após iniciar a Guerra da Ucrânia, diz Guriev.

Putin teve grandes ganhos de popularidade com a anexação da Crimeia em 2014. Em um cenário de estagnação econômica, o russo pode ter calculado que uma nova guerra voltaria a unir a população em torno de uma causa em comum, fortalecendo seu governo.

"Ele viu que não estava funcionando, que as pessoas estavam protestando e que a mídia independente estava ganhando influência", afirma Guriev. "Na primeira semana, ele fechou a mídia e bloqueou o Facebook e o Instagram, e o Parlamento aprovou uma lei que determina que, quando alguém critica a guerra ou usa essa palavra, pode ir para a cadeia por até oito anos. Isso é censura declarada, algo que nunca tinha sido usado."

Putin foi, inclusive, o motivo pelo qual os autores começaram a escrever o livro. Guriev é um economista russo, hoje diretor de estudos de pós-graduação em economia na Sciences Po, em Paris. Crítico do governo, ele foi aconselhado a sair da Rússia em 2013. À época, um amigo afirmou ao New York Times que o economista tinha motivos para acreditar que seria preso. Já Treisman é professor de ciência política na Universidade da Califórnia e especialista em Rússia.

Os dois começaram a observar que as táticas de manipulação de Putin —antes da guerra, considerado por eles um ditador do spin, não do medo— eram semelhantes àquelas usadas por outros líderes, como Orbán e Chávez. Então decidiram juntar forças para montar um modelo que explicasse esse processo e testasse as comparações entre os governos.

Depois de publicar uma série de trabalhos acadêmicos, Guriev e Treisman decidiram que o livro seria uma forma de chegar a um público mais amplo.

Expor as táticas dos ditadores recentes é justamente uma das soluções para lidar com eles. Outra, segundo os autores, é limitar as sanções econômicas apenas contra indivíduos e empresas. Os autores lembram que o crescimento econômico é a melhor esperança para transformar as autocracias em regimes menos violentos e, finalmente, em democracias.

Os dois também advogam pela reparação das instituições nos países democráticos, restaurando a confiança da população nelas; que advogados, banqueiros, lobistas e outros integrantes da elite ocidental parem de capacitar ditadores; e que empresas ocidentais deixem de vender a eles tecnologias utilizadas para espionagem doméstica.

Apesar dos alertas, o livro tem uma nota otimista: a ditadura do spin é tratada quase como um modelo de passagem em direção à democracia. "A gente especula que [esse tipo de ditadura] não é sustentável, mas não temos dados, uma prova empírica", diz Guriev.

Os autores afirmam que não existe nenhum antídoto conhecido para o "coquetel de modernização" que empurra as nações em direção à democracia.

Isso porque, ao mesmo tempo que o desenvolvimento econômico ameaça os ditadores, já que os cidadãos têm mais acesso à educação e à informação, ele também é necessário para que esses líderes se mantenham no poder, já que crises econômicas ameaçam a popularidade do governo.

Ou seja, ditadores até poderiam atravancar o crescimento para frear a democratização do país, mas isso também os prejudicaria.

Em um momento de descontentamento, os ditadores precisam de mais repressão para se manter no cargo —só que foi justamente a inadequação da violência na sociedade globalizada o que os levou a abandonar o medo e a escolher a manipulação.

Resta saber se esse dilema não resolvido de fato levará o mundo a um cenário mais democrático.

Extrema-direita tenta reescrever a história das ditaduras na AL

Março é o mês para se rememorar os crimes da ditadura na Argentina (1976-1983) e no Brasil (1964-1985). Tempo de denúncias e valorização da democracia, para que a história não se repita. Nesses dois países entretanto, essas ações restringiram-se a parte da sociedade civil. No Brasil, Lula decidiu silenciar eventos críticos aos militares. Na Argentina, Javier Milei optou pelo negacionismo.

No dia 24 de março, quando se completaram 48 anos do golpe no país, o presidente argentino postou um vídeo tentando reescrever fatos históricos do regime, pedindo para que haja “verdade e justiça” e uma “memória completa”.

Batizado de “Dia da Memória pela Verdade e Justiça”, traz o depoimento da filha de um militar assassinado por guerrilheiros. Ela diz que as organizações de direitos humanos jamais acolheram sua família. E argumenta que pessoas “de ambos os lados” foram mortas. A peça afirma ainda que o número de 30 mil mortos no período é uma invenção.

Não surpreende, já que durante a campanha eleitoral Milei já havia ensaiado esse discurso, dizendo que houve uma guerra entre os militares e os grupos terroristas e que aconteceram excessos dos dois lados. A maior entusiasta dessa versão é sua vice, Victoria Villaruel, filha de militar que lutou na Guerra das Malvinas.

É difícil precisar o alcance dessa mensagem negacionista, sobretudo imaginado que boa parte do eleitorado de Milei é de jovens. Para muitos, pode ser uma história exausta, contada um milhão de vezes pelo movimento progressista argentino, que conseguiu julgar e condenar seus militares. Tantas demandas atuais e ficam remoendo essa história? Em nossos tempos, parece que a democracia perde seu valor quanto mais estabelecida – sinal de um sistema que não representa seus cidadãos.


No Brasil, o governo Lula decidiu pelo silenciamento. 60 anos do golpe e não houve uma palavra oficial contra a ditadura. As vozes destacaram-se na imprensa e em algumas manifestações pelo país. É uma ferida que jamais cicatriza.

A anistia de 1979 antecede o discurso de Milei. Houve excessos dos dois lados, os exilados podem voltar e os militares podem marchar impunemente. Nenhum fardado julgado, nenhum condenado. A Comissão da Verdade, durante o governo Dilma, foi ignorada.

Em parte, esse é o combustível que alimenta, há décadas, a visão popular de que “na ditadura era melhor”, “na ditadura as pessoas tinham mais respeito”. Anos sem eleições, parte da população vivendo com medo e uma crise econômica que abalou o país foram esquecidos. É uma nostalgia inventada que quase nos levou ao golpe em 8 de janeiro.

O jogo é esse. Neste março de 2024 os militares podem comemorar. Seus privilégios e impunidades foram protegidos. A História é um campo minado de versões em que vence a verdade mais difundida.

A ditadura militar e da 'burguesia nacional' criou uma sociedade desastrosa

A ditadura de 1964-1985 foi de mortos, desaparecidos, tortura, estupro, exílio, censura, propaganda parafascista, imposição militar de brucutus-presidentes, eleições fictícias, fraudadas ou muito limitadas. A grande massa de analfabetos não votava nem ao menos no elenco de candidatos autorizado pelos brucutus, a casta militar ignorante, bruta e ignara até hoje.

Menos se recorda que foi um período de repressão de sindicatos, de movimentos sociais, em particular os populares; de repressão salarial, de seguros sociais limitados e que excluíam os mais pobres.

Quase pouco se nota, na conversa mais comum, que a ditadura produziu uma sociedade desastrosa, mais do que um desastre social. Por um tempo disfarçada por taxas de crescimento econômico altíssimas, a ruína perdurou.


O que é uma sociedade desastrosa? Um exemplo muito claro são as grandes cidades, embora cidades médias mimetizem o arranjo perverso das metrópoles.

São monstros praticamente inadministráveis. É impossível reformá-las sem grande custo econômico e sem transformação social forte, em um esforço de décadas. São a essência da desigualdade de renda, de patrimônio (propriedade imobiliária), de acesso a serviços públicos, do racismo. O pobre é discriminado até no uso da rua, o que se evidencia no transporte público ruim e nas ruas tomadas por carros.

A grande cidade brasileira é resultado de uma urbanização desastrosa. Por um lado, até meados do século 20, havia uma grande população largada no campo, sem terra, sem escola, sem saúde ou mesmo sem voto. Não tivemos reforma agrária quando isso poderia provocar transformação socioeconômica profunda: multiplicação do número de proprietários, criação de meios de subsistência que poderiam dar pão ao povo enquanto se educavam crianças e jovens, com algum atendimento de saúde, e melhora na distribuição espacial da população.

Por outro lado, a industrialização foi limitada. A partir dos anos 1970, não absorvia o êxodo dos desesperados da miséria rural (e menos ainda depois dos anos 1980 e 1990, com o enxugamento tecnológico do emprego industrial).

A ditadura sobreveio como um modo extremo ou final de impedir esses mínimos progressos: reforma agrária, aceleração da oferta de escola, de direito a voto etc. Extremo, pois a oposição à reforma social é sempiterna no Brasil.

O debate político das reformas possíveis foi interditado nos 20 anos de domínio dos brucutus e de seus beneficiários civis, aquela "burguesia nacional" com a qual a esquerda tanto se preocupa.

A população rural excedente, como se dizia, lotou uma periferia sem casa decente, sem saneamento, sem luz, sem escola. A saúde pública não era universal (não havia SUS). Esse povo vivia de emprego mal pago em serviços ou de subemprego, se tanto. A partir dos anos 1970, mais e mais ficaram sujeitas à violência e à organização do crime. A partir dos anos 1970, parte desse povo cria as igrejas neopentecostais.

É fácil perceber que o Brasil de agora se formou também na grande aglomeração dos deserdados da sorte rural, na urbanização selvagem.

A ditadura fez muito mais pelo atraso. Criou um sistema em que a "burguesia nacional" vivia de rendas, de proteções contra a concorrência externa (por vezes, também doméstica), de estatais ineficientes, de bloqueios de importação de tecnologia. Criou um sistema de baixa produtividade e ajudou a enraizar o protecionismo. Alimentou a inflação, que se tornou hiper nos primeiros anos da democracia, sob políticas populistas e doidivanas. A estabilização econômica foi um processo que levou quase 15 anos, de 1985 a 1999.

O desastre social brasileiro se entrincheirou entre 1964 e 1985. Parte do povo continua morta e desaparecida sob essa ruína duradoura.

O fascismo vive?

No clima da radicalização atual, o fascismo se despe das origens históricas e dos significados atuais e se resume a uma colagem infamante no confronto das ofensas predominantes o que deveria ser um debate público. Por conta do seu rastro demolidor das democracias, das liberdades e de uma sociedade aberta e livre, terá sempre uma carga destrutiva do pensamento e do ambiente pacífico da civilização.

A resposta mais consistente à reflexão filosófica e política aos que estudam o fenômeno, desde seu nascedouro, consta da conferência pronunciada por Umberto Ecco, em 25 de abril de 1995, na Columbia University para celebrar a libertação da Europa ao afirmar “Aqui estamos para recordar o que aconteceu e declarar solenemente que ‘eles’ não podem repetir o que fizeram. Mas quem são ‘eles’”?

Responde Umberto Eco: “Toda a segunda guerra foi definida no mundo inteiro como uma luta contra o fascismo […] Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria: tinha apenas uma retórica [..] O fascismo sequer era uma só essência; não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de ideias políticas e filosóficas, uma alveário de contradições”.

De outra parte, assinala Eco, “Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa da ‘arte degenerada’, uma vontade de potência do Super Homem” […] O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos”.

Diz o autor que, apesar dessa confusão é possível indicar uma lista de características típicas daquilo que chama de “Ur-Fascismo” (ur, prefixo que significa origem) ou “fascismo eterno”, características que não podem se reunir num sistema, mas qualquer delas que se apresente pode formar uma “nebulosa fascista”.


Alguns autores enumeram onze, outros treze e Umberto Eco, quatorze, a saber:

– Culto à tradição. A verdade já foi revelada e anunciada. Comporta apenas interpretações da obscura mensagem.

–Recusa à modernidade. O novo é uma perversão à ordem natural. Prevalência do negacionismo. Irracionalismo.

– O culto da ação pela ação. Para o fascismo “pensar é uma forma de castração”.

– Recusa ao pensamento crítico. Para o fascismo, desacordo é traição.

– A repulsa à diversidade. Medo natural da diferença. Racista por definição.

– O apelo ao sentimento de frustração e ressentimento. Mobilização do ódio.

– Nacionalismo como identidade social. Estrangeiros são inimigos. Apelo à xenofobia para superar a obsessão da conspiração.

– A vida como uma guerra permanente. Não há luta pela vida, mas a “vida para luta”. O pacifismo é um conluio com o inimigo.

– O inimigo e sua força humilhante deve ser batido, porque na essência são fracos. Os fascistas têm uma incapacidade real de avaliar a força do inimigo.

– O heroísmo como norma. A educação cultua a mitologia do ser excepcional, estreitamente ligado ao culto da morte. Na guerra da Espanha, os falangistas tinham como mote “viva la muerte”.

– O machismo é uma virtude. Desdém pelas mulheres, condenação da homossexualidade. As armas refletem um simbolismo fálico.

– O elitismo reflete a visão reacionária. Pregam o elitismo popular identificado no homem de bem, forte e um consequente desprezo pelos fracos.

– O populismo qualitativo. O povo é uma ficção teatral. Deveria exprimir uma vontade comum. Mas é o líder quem interpreta a vontade comum.

– O Ur-Fascismo fala a “novilíngua” inventada por Orwell no clássico 1984.

Ao concluir, adverte: “O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo”.

E acrescenta sabiamente: “Liberdade e libertação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: Não esqueçam”.

Antonio Maria cunhou a expressão ‘malamada’ para irritar Carlos Lacerda

Sexta-feira, 3 de abril de 1964. Entro na redação sobressaltada por ameaças que não deixam seus telefones em paz. A maioria das vozes, sempre anônimas e uma oitava acima, é feminina. São as “malamadas” xingando o jornal e seus profissionais em repúdio a um editorial, Terrorismo, não!, contra as arbitrariedades e violências cometidas pelo governo do então Estado da Guanabara (leia-se Carlos Lacerda) nas primeiras horas do regime militar.

“Isto mostra o fanatismo e a intolerância das lacerdistas”, reagiu o jornal, acrescentando-lhes mais um defeito: a puerilidade de crer que alguma ameaça pudesse atemorizar o Correio da Manhã, amainar-lhe a indignação e fazê-lo recuar de uma guerra que apenas iniciara seus estragos irreparáveis.

Foi o cronista Antonio Maria quem cunhou a expressão “malamada”, para irritar Lacerda e tipificar o mulherio sexualmente recalcado que o idolatrava.


Quando delas me lembro, penso em Wilhelm Reich e suas teorias sobre psicopatologia social & sexual. Pois malamadas também saciaram sua recalcada libido venerando Mussolini e Hitler. As nossas foram assaz atuantes naquelas passeatas com Deus pela democracia e contra o comunismo que preambularam e atiçaram o golpe, com o incentivo do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), núcleo de conspiração putschista basicamente sustentado pelo empresariado de direita dos EUA e daqui.

Entrevistada pelo Roda Viva da última segunda-feira, a historiadora Heloisa Starling referiu-se ao referido instituto como “Ípes”, sigla que 60 anos atrás a gente acentuava oxitonamente, com um circunflexo no e, como a árvore cujo tronco inspirou Alencar, o José, não o também cearense Humberto (Castelo Branco), que foi apenas o primeiro ditador fardado (e sem pescoço) que o poder moderador de araque nos legou.

Ípes ou Ipês, muito estrago ele fez. Além de palestras e publicações mal-intencionadas, produziu filmetes de propaganda alarmista, com garantida exibição nos cinemas como parte de uma lavagem cerebral coletiva cuja eficácia só seria superada em paranoias e capilaridade pelas fake news da era digital.

Dois anos antes do golpe, com a Garota de Ipanema no início de seu reinado, outra habitante do mítico bairro carioca, chamada Amélia, que nem era linda, nem cheia de graça, promovia em sua casa os primeiros conchavos que redundaram na Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), turbinada por passeatas de pias senhoras de rosário na mão. Elas não rezavam para pneus, mas em defesa da família, da religião e de vagos “princípios anticomunistas”.

Em nome de tais princípios, o regime militar mergulhou o País nas profundezas do obscurantismo e da repressão, concretizando o que alegava combater. O que levou a maior expressão do pensamento católico a confessar, publicamente: “Até hoje nunca tive medo do comunismo no Brasil. Agora começo a ter”.

Gaza: diagnóstico e um olhar sobre o futuro

Passaram seis meses desde que o Hamas perpetrou um horrendo atentado terrorista que matou aproximadamente 1200 pessoas e fez mais de 250 reféns, levando o Estado de Israel a declarar guerra contra aquele movimento. Esta guerra muito rapidamente passou a ser também uma guerra contra Gaza e a sua população civil, com mais de 2,3 milhões de habitantes — as estatísticas oficiais estimam que mais de metade é composta por crianças menores de 18 anos, que viram o cerco de mais de uma década imposto por Israel a tornar-se num bloqueio quase total de entrada de bens básicos à sobrevivência, como comida, água e medicamentos, assim como de saída de pessoas.

Os dados disponíveis são aterradores. Desde 7 de outubro de 2023, mais de 33 mil palestinos morreram, dos quais mais de 12.300 eram crianças — note-se que este número não inclui os quase sete mil desaparecidos nos escombros da destruição. A ONU estima que 85% da população de Gaza está deslocada, tendo mais de um milhão e meio de civis ido buscar refúgio no Sul, zona indicada por Israel como segura e que atualmente está a ser alvo de uma incursão terrestre que se pode antever como catastrófica. Quando o conflito terminar, muitos destes deslocados não terão casa para voltar.

Em Gaza, a ajuda humanitária é escassa, seja porque Israel não autoriza a sua entrada, seja porque não há meios de distribuição, tendo quase todo o aparato da ONU sido destruído e as operações internacionais suspensas no seguimento do assassinato pelas forças de defesa israelita nesta semana, seis dos quais eram estrangeiros.


De acordo com o secretário-geral da ONU, António Guterres, registra-se em Gaza o maior número de pessoas enfrentando níveis de fome catastrófica e má nutrição alguma vez visto em qualquer lugar, a qualquer altura, num contexto em que Israel utiliza a fome como arma de guerra. Hospitais, universidades, escolas e infraestrutura civil foram totalmente destruídos. O trabalho jornalístico e de informação livre tornou-se quase impossível, na medida em que os media internacionais têm sido impedidos de entrar na região — dezenas de trabalhadores do sector dos media foram mortos, naquele que já é o conflito mais mortífero do século XXI para os jornalistas de guerra.

A falta de avanço nas negociações entre as partes mediadas por intervenientes regionais e internacionais — que nem durante o mês do Ramadão foram capazes de encontrar um consenso que pelo menos levasse a uma pausa humanitária e à libertação de reféns — faz com que uma perspetiva de futuro diferente pareça muito longínqua. Ainda assim, face à destruição e terraplenagem bélica de Gaza, com ameaças constantes de escalada regional e estando à frente de Israel o Governo mais radical da sua história, nunca é cedo de mais para se pensar quais são as possibilidades de futuro para esta região e o que podemos esperar, virada a página destes seis meses de guerra.

Com a aproximação deste meio ano de conflito, o cenário internacional parece estar a mudar. Depois de várias tentativas falhadas iniciadas ainda em meados de outubro de 2023, o Conselho de Segurança da ONU aprovou finalmente, a 25 de março, uma resolução exigindo um cessar-fogo imediato, embora temporário, e que teria lugar durante o mês do Ramadão, que termina na próxima terça-feira. Esta aprovação foi possível com a abstenção dos Estados Unidos, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, que detém, juntamente com o Reino Unido, a França, a China e a Rússia (os chamados P-5), o poder de veto.

Pese embora o desrespeito pré-anunciado pelo cumprimento desta resolução por parte de Israel, a sua aprovação representa o culminar do isolamento internacional do Governo de Benjamin Netanyahu, que vem tomando proporções nunca vistas antes. Isto inclui uma alteração profunda (ainda que, para já, apenas ao nível discursivo) da posição norte-americana, expressa nas declarações do líder da maioria democrata no Senado dos EUA, o judeu Chuck Schumer, que defendeu eleições e uma mudança de liderança em Israel; bem como no telefonema de Joe Biden desta semana, que desencadeou a decisão de abertura temporária da passagem de Erez para a entrega de ajuda humanitária no Norte da Faixa de Gaza; e na declaração pública de Anthony Blinken durante o Conselho da NATO, na qual o secretário de Estado dos EUA afirma que, se Israel não mudar a sua postura, os Estados Unidos vão modificar sua política relativamente ao país, acrescentando que Israel se arrisca a tornar-se indistinguível do Hamas se continuar a não proteger as vidas humanas.

Por um lado, esta aparente mudança de posição ainda não parece representar uma esperança para o futuro do povo palestiniano. Os EUA continuam a ser, para todos os efeitos, os maiores apoiantes morais e financeiros de Israel, não tendo ainda prescindido do último, o mais importante no contexto do esforço de guerra. Contudo, se a ambiguidade norte- americana pode deixar os mais céticos de olhos revirados, a verdade é que Netanyahu tem esticado a corda a níveis tão extremos que posiciona Joe Biden como um líder fraco e contraditório. A aproximação de eleições norte-americanas em novembro deste ano não traz bons augúrios para quem espera que a superpotência venha a transformar a sua coação em ação e possa alterar o equilíbrio de forças em Israel. No entanto, justamente por causa do cenário eleitoral que se aproxima, podemos passar a ver as ações de humilhação constantes do Governo de Netanyahu contra o Presidente dos Estados Unidos levarem a uma mudança concreta de posicionamento.

Uma coisa, pelo menos, é certa: os cidadãos do Estado de Israel já começam a verbalizar que este Governo, cuja contestação já era enorme antes de outubro de 2023, está a comprometer a relação especial com o principal aliado histórico do país. Além disso, cresce a percepção de que a guerra de Netanyahu tem contornos pessoais, visando a sua manutenção no poder no contexto das investigações de corrupção que enfrenta, e tendo pouco ou nenhum interesse no resgate dos reféns. O movimento “not in our names” tem ganhado força. E isto, sim, pode ser um divisor de águas em termos de mobilização social com eventual impacto eleitoral, levando a uma alteração de liderança que poderá modificar o rumo deste conflito.

domingo, 7 de abril de 2024

Fé no golpe continua

No processo dos surpreendidos nos atos delinquentes da intentona política de 8 de janeiro de 2023, a variedade de tipos vai se tornando clara. Da multidão, as evidências indicam que essa variedade ganha perfil na mentalidade dos envolvidos de uma cultura de baixa classe média que tem componentes bem nítidos. Um deles, o componente religioso, sobretudo fundamentalista e pentecostal, do medo ao inferno e satanás.

Não é de agora que a mobilização popular se dá na cultura de medo e do pavor à modernidade e, aqui, na problemática modernização dos costumes. Os democratas prestariam um grande serviço à democracia se em sua militância levassem em conta a importância do diálogo respeitoso com a cultura anacrônica e tradicionalista dos simples. Que é, na verdade, repositório de valores sociais populares e insurgentes, socialmente criativos, em vez de desprezá-los e abandoná-los à voracidade de poder da classe média reacionária.

Convém ler Gramsci e Henri Lefebvre para compreender esse Brasil misterioso, um país do avesso.


Uma cultura de pavor começou a ganhar corpo e sentido há mais de meio século em uma anômica consciência de fim de mundo, de que a modernização dos costumes seria um sinal. Sinal, também, de que essa modernização se explicaria pela recusa de Deus e consequentemente pela vitória de satanás.

Não só entre católicos do catolicismo popular mas também entre protestantes e evangélicos. Entre esses, na concepção de que é possível assegurar a salvação enquanto há tempo, coisa de um deus mercenário vulnerável à venda de um lugar de primeira classe da carruagem de fogo de Elias. Ou mesmo para nela acolher os destituídos de meios, no pagamento por meio do sofrimento voluntário, como a fome por opção penitencial.

Foi o que aconteceu em Minas Gerais, em meados dos anos 1950, em Malacacheta, quando na Semana Santa um grupo de adventistas da promessa entrou em vigília de oração, à espera do profeta que viria buscá-los. E acabou matando crianças e animais, que estavam com fome porque perturbavam a celebração do arrebatamento próximo e a ascensão dos crentes ao céu.

Esse episódio está documentado num estudo de cientistas sociais da USP que foram ao local quando a polícia prendeu os participantes. Nesse estudo inspirado, Jorge Andrade escreveu a peça de teatro “Vereda da Salvação”, que Anselmo Duarte adaptou para o cinema no filme do mesmo nome.

Livrar o país desse satanás apocalíptico é o mote de uma cultura persistente e disseminada, herética, que tem contaminado vários âmbitos da realidade brasileira e desde os anos 2018, o âmbito das seitas religiosas instrumentalizadas pelo nosso autoritarismo político saudoso da ditadura militar.

Nos depoimentos divulgados do processo de 8 de janeiro, vários são de evangélicos que alegam ter ido a Brasília e participado da invasão dos palácios do Executivo, do Legislativo e do Judiciário para orar pelo Brasil, de joelhos. O que é perda de tempo pois Deus está do lado da democracia e do direito. Os fiéis dessa religiosidade tosca não sabem é que o cristianismo pressupõe que Deus é onipresente e onisciente. Brasília foi, portanto, um pretexto inútil.

Se o Estado brasileiro não fosse o de um país possuído pelo satanás do oportunismo, do autoritarismo e da saudade pela ditadura da repressão, da tortura e dos assassinatos, do republicanismo forçado, do capitalismo rentista e anticapitalista, provavelmente não teria havido o 8 de janeiro.

Teria em tempo tomado providências enérgicas e sérias para impedir que os lugares do poder fossem transformados em templos heréticos de uma religiosidade tosca e materialista. Se nesse sentido a Constituição e nela a separação entre Estado e religião fosse observada com rigor.

Um eloquente exemplo dessa religiosidade partidária foi a manifestação da então primeira-dama, em 7 de agosto de 2022, na igreja batista pentecostal da Lagoinha, em Belo Horizonte: “Vamos continuar orando, intercedendo em todos os lugares, sabem por quê? Por muito tempo aquele lugar (o Palácio do Planalto) foi um lugar consagrado a demônios e hoje consagrado ao Senhor Jesus. (...) Essa cadeira é do presidente maior, o rei que governa esta nação”. Bolsonaro ajuntou: “A função que ocupo é função de Deus”.

A baderna de 8 de janeiro foi momento de uma conspiração para transformar o Brasil numa república teocrática, antidemocrática, para colocar o país de joelhos. Sua lógica não é política porque imune à lei e às instituições. O castigo da punição dos que foram presos apenas lhes confirma que não se trata de punição educativa, mas provação justa e redentora, prêmio divino, pela transgressão da Constituição e pela violência contra as instituições.

Pensamento do Dia

 


Homem, 'casa' perfeita para vírus

Somos perfeitos como alvo não apenas para os vetores, mas para os agentes causadores de doenças em si. O ser humano é tudo o que vírus, bactérias, parasitas e fungos precisam para viver e se multiplicar. Somos extremamente numerosos, estamos em toda parte, nos adaptamos a qualquer lugar, comemos de tudo. E os agentes infecciosos têm vida curta, não têm tempo a perder. Por isso, mesmo se adaptam depressa. E produzimos o lugar ideal para eles.
Marcia Chame, bióloga e pesquisadora titular da Fiocruz

A data que nunca podemos esquecer

Existem datas que, pelos malefícios ou maldades provocados, jamais podem ser esquecidas. Uma delas é o 1.º de abril de 1964, que instituiu uma ditadura que durou 21 anos e completou 60 anos há poucos dias.

Não pretendo substituir-me à ampla e minuciosa rememoração daqueles acontecimentos publicada dias atrás por este jornal, mas relembrar certos períodos e fatos ocorridos ou que eu próprio presenciei. Eu era jornalista em Brasília e recordo com nitidez a sessão do Congresso Nacional em que o senador-presidente, sem qualquer debate, declarou “vaga” a Presidência da República – numa sessão em plena madrugada e que durou no máximo dez minutos. O pretexto invocado fora uma carta ao Congresso em que o então chefe da Casa Civil informava que o presidente da República iria transferir o governo para Porto Alegre, “em vista dos últimos acontecimentos militares”.


Consumava-se, assim, a tentativa de dar aparência legal ao levante militar iniciado em 31 de março em Minas Gerais, pelo general Mourão Filho. Era o começo de um longo período, marcado pela derrubada da frágil democracia na qual vivia o Brasil e implantada pela Constituição de 1946, após a destituição de Getúlio Vargas no ano anterior.

Daí em diante, ocorreram atos nefastos ao longo de mais de duas décadas. Começaram com prisões a esmo e a cassação de mandatos parlamentares ou a tortura como método de interrogatório dos presos políticos, e logo a censura na imprensa, rádio e televisão. Tudo se fazia por meio dos “Atos Institucionais” impostos pelos comandos do Exército, da Marinha e Aeronáutica. Era o início da ditadura militar, que se ampliou com o Ato Institucional número 2, ao extinguir os partidos políticos e anular a projetada eleição presidencial de 1965.

Os golpistas protestavam contra as “reformas de base”, especialmente contra a reforma agrária e a reforma financeira e fiscal, que eles apresentavam como a “comunização do País” e o início da “extinção da propriedade privada”. O pretexto fora o comício de 13 de março no Rio de Janeiro, em que o presidente João Goulart anunciou a estatização das refinarias privadas e a desapropriação das áreas rurais não cultivadas junto das rodovias federais.

Dias antes, em São Paulo, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade reuniu dezenas de milhares de pessoas (encabeçadas por dona Leonor de Barros, esposa do então governador Adhemar de Barros) para protestar contra o governo federal. Já pré-candidato à Presidência da República, o governador paulista era conhecido pelo lema “rouba, mas faz”.

A pregação do sacerdote irlandês-americano Patrick Peyton, vindo ao Brasil para preparar a marcha, mostrava a escondida influência estrangeira nos acontecimentos.

Anos depois do golpe, a historiadora Phyllis Parker descobriu, nos arquivos da CIA e do Departamento de Estado, a Operação Brother Sam, que descrevia a participação americana no golpe. Naqueles tempos, em pleno auge da guerra fria, a paranoia anticomunista dominava os Estados Unidos e o mundo Ocidental. Em meu livro 1964 – O Golpe, exponho parte daquela documentação, que agora não cabe detalhar.

Mostro aqui, no entanto, um fato que define a raiz do movimento golpista. A esquadra americana partiu da base naval de Norfolk, com o portaaviões Forrestal à frente, com destino a Santos, para intervir no Brasil. Indago: o portaaviões não indicaria até um eventual bombardeio aéreo?

Dia 2 de abril, a esquadra recebeu ordem de voltar, pois o presidente João Goulart tinha desistido de resistir e o movimento golpista já havia triunfado.

Meses antes do golpe, o embaixador Lincoln Gordon (em reunião com o então presidente John Kennedy) tinha logrado substituir o adido militar dos EUA no Brasil pelo coronel Vernon Walters, que falava perfeitamente nosso idioma pois fora oficial de enlace dos EUA com as tropas do Brasil durante a 2.ª Guerra na Itália. Lá, fez-se íntimo do então coronel Castello Branco, seu colega no lado brasileiro.

Castello Branco foi o primeiro ditador, eleito pelo Congresso como candidato único numa verdadeira simulação em que o voto era cantado publicamente sob ameaça de cassação do mandato. Até o ex-presidente e então senador Juscelino Kubitschek votou em Castello, que, meses depois, cassou seu mandato parlamentar.

Desde a consolidação do golpe, incorporou-se ao nosso idioma o não usual verbo “cassar”, nunca com o sentido de “caçar” animais ou criminosos, mas de terminar com mandatos parlamentares ou suspender direitos políticos ao longo de dez anos.

O golpe no Brasil serviu de modelo para que em diferentes países da América do Sul ocorressem movimentos militares semelhantes, em que as Forças Armadas assumiram o poder político e aplicaram todo horror possível. Os mais notórios golpes de Estado ocorreram no Chile e na Argentina e, logo, se estenderam a outras nações.

Por tudo isso (além de outros detalhes), os 60 anos do golpe militar não podem ser esquecidos e são uma data a sempre lembrar.

À direita da extrema direita

Em 1932, um jornalista português, António Ferro, 37 anos, conseguiu o que era dado como impossível: entrevistar o quase inatingível António de Oliveira Salazar, todo-poderoso de um governo que se definia como ditadura. Ferro teve com Salazar longas conversas, reunidas num livro de 300 páginas com o pensamento do ditador de Portugal.

Como foram essas conversas? A bordo de carros em movimento, à mesa de jantar, em torno de "fumegantes caldos verdes" e em passeios a pé por estradas, às vezes "à beira do anoitecer" ou sob "uma chuva miudinha e enervante". As perguntas de Ferro eram curtas, como sói, mas as respostas de Salazar eram caudalosas e demoradas, de páginas e páginas.

Como veterano entrevistador, tiro o chapéu para António Ferro. Em 1932, não havia gravadores, os alemães só lançariam o magnetofone em 1935. Ferro teve de anotar tudo a lápis ou caneta, nas terríveis condições descritas, e Salazar não as deve ter ditado com vagar. E eu queria ver Ferro taquigrafar no escuro, debaixo de chuva.

Donde só há uma explicação: todas as palavras atribuídas a Salazar são de Ferro. Por que Salazar se submeteria a tal? Porque confiava nele. Ferro era culto, ladino, muito inteligente —aliás, amigo dos modernistas brasileiros e colaborador da revista Klaxon. E os dois tinham muito em comum: desprezo pelo povo português, aversão ao Judiciário, ódio à democracia e admiração por Mussolini e Hitler.

A extrema direita costuma ser creditada a certos governantes. Mas eles talvez fossem apenas os executores da estratégia de um pensador maléfico, à direita da extrema direita. Ferro pode ter sido para Salazar o que Marinetti, criador do futurismo, foi para Mussolini; Oswald Spengler, para Hitler; Steve Bannon, para Donald Trump; e Olavo de Carvalho, para Bolsonaro. O que nos salva é quando esses governantes se empolgam e resolvem pensar por conta própria.

O Brasil é um conluio

Certa vez, um amigo meu, de um país da Escandinávia, que aqui morava há algum tempo, da representação diplomática, me falou que “não conseguia entender como funciona o Brasil”. Disse-lhe, lacônico e com certa ironia, que ele não conseguia entender porque “o Brasil não é um país, é uma bagunça”. Não tem forma, não há um projeto de nação.

Philippe Schmitter, brasilianista, de quem fui aluno em Chicago, dizia em aula que o Brasil era o caso mais bem sucedido do Ocidente de controle social por uma elite. Que os partidos políticos podiam mudar ao longo do tempo, alteravam-se as siglas, mas as elites continuavam as mesmas, sempre no poder, na carniça do Estado. Os partidos políticos eram variações, dentro do tempo, daquilo que as elites permitiam.

Max Weber nos fala de três tipos de dominação política: a racional-legal, caracterizada por burocracias estáveis no atendimento das demandas dos cidadãos; a carismática, com líderes emocionais que alteram os rumos das sociedades, para melhor, ou para pior; e a patrimonial, onde o estado é o fim em si mesmo, o estado como gerador e hospedeiro da riqueza, na anteposição ao cidadão. Este é o caso brasileiro.


Vejamos os números. O Brasil é a 9ª economia do mundo, com PIB de US$ 2,1 trilhões. Em renda per capita, estamos na 63ª colocação, com US$ 11.073,00 anuais. No IDH, que mede a qualidade de vida em função de bens e serviços para 191 países, o Brasil encontra-se na 87ª posição. No índice de GINI, que mede a distribuição de riqueza para 162 países, o Brasil encontra-se na 154ª posição. No PISA, que mede o desempenho de alunos do ensino médio em 81 países, o Brasil encontra-se na 52ª posição em leitura, 61ª em ciências, e 65ª em matemática. Na renda per capita, estamos atrás de Barbados, Trinidad e Tobago, e Costa Rica. No IDH, atrás da Rússia, China, e de Cuba. No índice de GINI, atrás da Nicarágua, Venezuela, e do Zimbabwe. No PISA, atrás da Colômbia, Tailândia, e do Cazaquistão.

No Brasil, a carga tributária, uma das maiores do mundo, é de 33,71% do PIB, ou seja, o Estado administra US$ 707,9 bilhões por ano. O número de funcionários públicos é de 11 milhões no país, na remuneração por serviços. No Congresso Nacional, são 513 Deputados Federais e 81 Senadores, em sua maioria eleitos e representantes de grupos econômicos que, no geral, usufruem de reservas de mercado. Como diz Wright Mills em A Elite do Poder, manda o econômico e executa o político. Entre o executivo e o legislativo, podemos estimar em cerca de 10 mil pessoas que participam do jogo político e econômico das verbas no país, ou seja, cerca de 5/1000 de 1% de nossa população para 1/3 dos recursos totais. É uma briga ferrenha na manutenção do poder. Como diz a música na Marquês da Sapucaí, “quem comeu, comeu, quem não comeu não come mais”. E o resto, que se lixe. Vide a Dengue.

Por sinal, prolifera no mundo a perda de projetos de nação, devido à concentração da riqueza e aumento da desigualdade, com ideologias esdrúxulas na deterioração social.

Difícil saída.

O espetáculo da morte estúpida

"Viver é muito perigoso." É o mote repetido insistentemente no monólogo de Riobaldo no "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Não deixa de ser uma tirada à conselheiro Acácio, como notou Nelson Rodrigues, mas revela uma realidade inescapável. "São demais os perigos desta vida", confirmou Vinicius de Moraes no "Soneto do Corifeu". Conselhos desnecessários para quem habita qualquer canto do Brasil.

Não é só a guerra entre bandido e polícia que mata gente inocente. Estão aí, soltas, as pedras portuguesas. Apesar da beleza, elas são conhecidas entre os cariocas como pedras assassinas. Desapareceram os mestres calceteiros, que consertavam com perícia as ondas do calçadão de Copacabana ou uma simples passagem. O poeta Hermínio Bello de Carvalho, que acaba de completar 89 anos, levou um tombo em Botafogo, feriu a vista, lesionou a coluna e está no estaleiro.


Além das calçadas, há os choques mortíferos. Uma vítima recente foi Leonardo da Silva, porteiro em Ipanema, casado, pai de uma adolescente de 14 anos, que encostou num poste, recebeu uma descarga e bateu com a cabeça no chão. O ano passado registrou 853 acidentes graves por choque elétrico no país; 592 pessoas morreram. Na maioria dos casos os fios de postes, desencapados, são os vilões.

O cenário criminoso é aquele que todos estão cansados de saber: ligações clandestinas, sobrecarga, falta de manutenção preventiva, a exposição e o furto de fios e cabos e, sobretudo, o péssimo serviço prestado pelas distribuidoras de energia. Se não conseguem fornecer nem a luz, quanto mais garantir a segurança da população.

No espetáculo da morte estúpida, as selfies são imbatíveis. Em 2023, 17 pessoas perderam a vida tirando fotos de si mesmas em encostas e mirantes do Rio. Há um termo em inglês para definir a fatalidade: killfie. Pensando bem, Riobaldo estava certo em seu acacianismo: "Viver é muito perigoso".

terça-feira, 2 de abril de 2024

Pensamento do Dia

 


A arrogância dos 'povos escolhidos'

Agradecemos a Deus pela bomba atômica
ter vindo para nós, e não para os nossos inimigos;
e oramos para que Ele possa nos guiar
para usá-la em Seus caminhos,
e para Seus propósitos.
Harry, S. Truman, citado in Perry Anderson, “A política externa norte-americana e seus teóricos”


Do ponto de vista estritamente lógico, é impossível de imaginar um Deus que seja único e absoluto, e que ao mesmo tempo faça escolhas de qualquer tipo que seja. Mas esta ideia da monopolização unilateral da “vontade divina” por alguns povos parece ser muito antiga e persistente, sobretudo entre os que professam religiões monoteístas. O exemplo mais conhecido talvez seja o do povo hebreu, como aparece descrito num dos cinco livros de Moises, o Êxodo: “Então Javé chamou a Moisés e lhe disse: agora, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade peculiar entre todos os povos, porque a terra é minha. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êxodo, 19). Mas esta mesma convicção pode ser encontrada no Zoroastrismo, e na relação preferencial de Ahura Mazda com o povo persa e com o Império Aquemênida, de Ciro, Dario e seus descendentes; na relação de Alá com os sucessivos impérios islâmicos, desde o século VII d.C; ou na relação do Deus cristão com os povos europeus e seu projeto de expansão e conversão do mundo, a partir do século XVI. E esta mesma ideia está por trás da certeza norte-americana a respeito do seu “destino manifesto” a liderar a humanidade. Uma visão construída pelos seus founding fathers, e que permanece viva até hoje, como se pode ler na epígrafe do presidente Truman, acima; ou na idéia do presidente Kennedy, de que “os EUA deviam seguir em frente para liderar a terra… sabedores de que aqui na Terra a obra de Deus deve, em verdade, ser obra nossa” (op cit p 43); ou ainda, na certeza do presidente Bush, de que “a nação americana foi escolhida por Deus e comissionada pela história para ser um modelo para o mundo” (idem, p:43).

Esta monopolização da “verdade divina” pode ser absurda do ponto de vista lógico, mas de fato se transformou numa “ideia-força” que cumpriu um papel decisivo através de toda a história humana, tanto dos “povos escolhidos”, como dos “povos não escolhidos” por Deus. Sem esta imagem de si mesmo, talvez o povo hebreu não tivesse conseguido resistir ao assédio dos assírios, dos romanos e de tantos outros povos mais poderosos, superando seu sentimento milenar de inferioridade e de cerco; os persas não tivessem conquistado seu gigantesco império de oito milhões de quilômetros quadrados, na África, Europa e Ásia; o Islã não tivesse se expandido de forma tão continua e vitoriosa, a partir do século VII; e os europeus não tivessem conseguido impor sua dominação colonial ao redor do mundo, a partir do século XVI. Sempre movidos pela mesma certeza ética que levou George Kennan a afirmar, olhando para a destruição alemã, depois da II Guerra Mundial, “que ele se tranquilizava com o fato de que os EUA tivessem sido os escolhidos pelo Todo-Poderoso para ser os agentes daquela destruição”. (op cit, p:42)

Nesta história, entretanto, é fundamental distinguir o papel decisivo das religiões na construção das civilizações humanas, da sua monopolização e instrumentalização pelos poderes territoriais e pelos grupos humanos que se autoproclamam superiores e com o direito exclusivo a impor os seus valores aos demais que forem sendo submetidos, convertidos, ou exterminadas pelo avanço e pela “tranquilidade ética” dos “povos escolhidos”. Esta visão unilateral e monopolista da “escolha divina” sempre esteve – e segue estando – por trás de todos os fundamentalismos religiosos responsáveis pela demonização, pela desqualificação, pela humilhação e pela exclusão de todos os que pensam diferente. Uma radicalização que parece se repetir através da história, em todos os grandes momentos de ruptura e “perda de horizonte” por parte da humanidade, como está acontecendo de novo, neste início do século XXI.

Depois do fim da Guerra Fria, e em particular nesta terceira década do século XXI, os EUA estão vivendo um momento sem precedente de fragmentação do seu establishment, do seu sistema político e da sua sociedade mobilizada por um fundamentalismo religioso cada vez mais agressivo e excludente. E o mesmo está acontecendo na Europa, onde o esvaziamento ideológico do projeto de unificação abriu portas para um aumento contínuo da intolerância dentro do seu próprio território e dentro de toda sua antiga zona de dominação colonial, em particular no Grande Oriente Médio. Um panorama regional que se agrava ainda mais com o distanciamento recente entre EUA e Israel, dois povos que se consideram “escolhidos” e que compartilham a mesma genealogia divina. Mas esta fragmentação e esta radicalização não se restringem mais a estes pontos estratégicos da geopolítica mundial, e tem avançado mesmo em sociedades que pareciam imunes a este tipo de fundamentalismo e que agora aparecem divididas pela intolerância e pela proposta explicita de negação do diálogo e da convivência, e de exclusão – muitas vezes – da própria pessoa física dos adversários. Como é o caso mais recente da sociedade brasileira, que até hoje se considerava “cordial”, e apenas “abençoada por Deus”. Frente a esta situação que tende a se agravar em todo mundo só cabe resistir à intolerância com a tolerância, à irracionalidade com a razão, ao fanatismo com a tranquilidade dos que sabem que não existem os “escolhidos” nem existem pessoas superiores aos demais. Junto com a defesa intransigente, no plano internacional, de que chegou a hora de enterrar de uma vez por todas, na relação entre as nações, a fantasia arrogante e absurda dos “povos escolhidos” por Deus.

Nunca esqueça


Há no nosso passado histórias muito dolorosas. Lembrar é construir valores para o futuro
Míriam Leitão, "O país que não sabe lembrar"

Algo de podre perceptível de forma aguda no Rio de Janeiro

"Há algo de podre no reino da Dinamarca". A célebre frase de Marcellus (em "Hamlet", de Shakespeare) não conota nenhuma sensação física, mas moral, relativa a um mal oculto e manifestado em homicídios e traições. É o tempo de incubação da violência, de cuja regra maléfica se alimentam feras à espreita de vítimas. Há algo de podre no Estado brasileiro, agora perceptível de forma aguda no Rio de Janeiro, no episódio do assassinato de Marielle, em que os fios da meada criminosa, separados na aparência, se entrelaçam.

Esse odor já feria narinas sensíveis depois do crime, quando em palanque público se quebrou uma placa de rua que homenageava a vereadora. Como num pesadelo delirante, pessoas distantes da materialidade da execução, exultavam em pisotear a memória da morta. Um ato tão torpe quanto a motivação do atentado. Mas elegeu deputados e um governador de estado. Se alguma explicação racional para o crime se obtém com a prisão dos mandantes, a anomalia da placa permanece, para além da razão, como puro sintoma de apodrecimento.

Esse olfato crítico ancora numa paisagem política que relega os mais pobres a guetos desemparados. Como formigas que convivem com pulgões para torná-los reservas de proteínas, as classes dirigentes segregam pobres e pretos, rareando a presença do Estado e confinando-os a formas marginais de poder. Acontece no Rio, também em São Paulo, onde atualmente a polícia tem licença para matar.


Por perversa simbiose, essa marginalidade pactua com dispositivos oficiais de controle da população, como administrações e polícia, encarregadas de impostos e penalizações. Bicheiros, traficantes e milicianos transformam o pacto em extorsão, constituindo um tipo de poder capaz de competir pelo domínio territorial e pela oferta de serviços na cidade.

Não à toa, o ex-presidente, em plena febre do poder, disse que não renunciaria à indicação de um superintendente da Polícia Federal no Rio. Atraído pelo odor, claro, mas moldado pelas características vantajosas do estado aberto à ampliação como reduto da ultradireita. Um bolo de padaria confeitado com leite condensado e sobrevoado por moscas varejeiras.

"Toda família tem uma hora em que começa a apodrecer", descortina o espírito penetrante de Nelson Rodrigues (em "Flor de Obsessão"). A boutade retórica enseja um paralelo realista com o Estado. Recentes governadores cariocas pareciam inspirar-se em Bokassa, o esdrúxulo e corrupto imperador da República Centro-Africana: um deles, sem pudor, importou por 100 mil reais um vaso sanitário polonês que aquece as partes pudendas. À sua sombra, expandiu-se e se entranhou nas instituições a cultura do crime. Esse pútrido aparelho burocrático, carta branca para a morte de Marielle, continua corrompendo e matando.

As ditaduras do medo e as ditaduras da manipulação

Escritor, historiador, professor de literatura comparada, João César de Castro Rocha (1965), destacado intelectual brasileiro é o autor da apresentação do recém-lançado livro dos coautores Serguei Guriev&Daniel Treisman, "Democracia Fake: a metamorfose da tirania no século XXI".

Uma tarefa gigantesca. O livro é uma obra consistente sob qualquer ângulo que venha a ser observado. A conclusão de Castro Rocha é precisa: “Sergei Guriev e Daniel Treisman realizaram uma anatomia brilhante das ditaduras do spin, revelando suas entranhas. O primeiro passo foi dado, mas não há garantia alguma no êxito na tarefa (infinita) de fortalecer instituições democráticas. Por isso mesmo, Democracia Fake é um ensaio urgente. Não perca tempo: comece agora mesmo a leitura”.

(Um parêntesis para a nota do tradutor: “a expressão ‘spin doctor’ não possui equivalente satisfatório em português. Este termo é utilizado para se referir a um lobista [….] com o intuito de manipular e distorcer informações desvantajosas […] pode ser entendido como um ‘mestre em manipulação’”).

No título original, o fake substitui a expressão spin e, ao longo da narrativa, é utilizada a expressão manipulação e, algumas vezes, o vocábulo enganação.

Para facilitar o mergulho na leitura densa de quase quinhentas páginas e a consulta na variedade de dados, tabelas, gráficos sobre ideias-chaves, este material encontra-se no fechamento de cada capítulo. Por sua vez, a apresentação e o prefácio dão a dimensão da amplitude do trabalho que abrange uma realidade global resultante de distintos contextos históricos, conjunturas e diferentes padrões culturais.


Tomando como ponto de partida o início do século XXI, o panorama político apresentava uma situação inédita: o número de democracias ultrapassava a contagem de estados autoritários (fonte: V-Dem versão 10). Não durou muito. Em 2019, o número de democracias havia caído para 87 enquanto o de ditaduras voltou a subir para 92. A “recessão democrática” mostrou sua face ameaçadora.

A aguda percepção dos autores usa o olhar comparativo e constroem a hipótese de que o século XX testemunhou o fortalecimento das ditaduras do medo enquanto o século XXI inovou na forma de ditaduras da manipulação (spin).

Em que se assentavam as categorias na percepção e nas evidências empíricas? Embora existam sinais de um certo hibridismo, há diferenças evidentes: as ditaduras do medo flertavam e flertam com o totalitarismo, aplicam um manual perverso para se manter no poder que se manifesta na repressão violenta, ostensiva, pública, truculenta para gerar tremor e terror, bem como dissuadir uma forma de pensar ou agir que contrarie o tirano. Acresce que a ostentação do poder revela os efeitos da tortura, da perversidade que negam totalmente o valor dos direitos humanos. A vida real é a réplica perfeita da “sociedade orwelliana”.

Por sua vez, a ditadura da manipulação ou da enganação é centrada na mentira, no faz-de-conta que esconde a monstruosidade explícita por uma opressão que busca se associar a mecanismos de feição liberal a exemplo dos sepulcros caiados, aparentando uma limpeza externa que encobre a podridão dos porões ditatoriais. Os adversários, em geral, são acusados de outros crimes que não políticos e a eliminação é seletiva com métodos cruéis. Asfixiam, liquidam por inanição qualquer resistência política, dialética, cooptando as mídias e usando o “estado profundo” com arma eficaz da repressão.

Outro forte vetor da ditadura da manipulação é o verniz da popularidade que mascara o espírito ditatorial. A arma é o discurso populista cuja mensagem recheada de emoções, frustrações e rancores vem superando a capacidade de mobilização do centro-direita/centro-esquerda que parece não empolgar o eleitorado. São fatos que estimulam a aventura autocrática, mentindo sobre eleições livres e equilíbrio entre poderes, especialmente, o Judiciário que é sistematicamente cooptado e devidamente aparelhado.

Neste sentido, o mais grave sintoma aparece quando o manipulador sequestra de tal maneira seus seguidores que os contaminam com o sério risco de uma crescente dissonância cognitiva a ponto de embarcar na canoa furada do negacionismo das evidências científicas e no delírio mitológico do líder que salva.

No crescente extremismo político, seja pelo uso do terror ou pela maquinação manipuladora, o espertíssimo Viktor Orban é um exemplo conspícuo do autocrata manipulador. Inventou, com sucesso, que a Hungria é uma “democracia iliberal”. Haja dissonância!

E o que fazer? Uma luta desigual e sem bala de prata. Os autores mencionam, como possível antídoto, a figura dos “bem-informados”, ou formadores de opinião de modo a usar tenazmente a capacidade crítica para mobilizar e enfrentar, não poucas vezes, a popularidade do autocrata.

No enfrentamento, é preciso unir a força das convicções em torno de lideranças firmes e comprometidas com a defesa da democracia liberal que, apesar de seus defeitos, construiu, alicerçada em valores, a grandeza do mundo ocidental.

Percebendo-se numa 'fake'

Os eleitores de 2022 começam a perceber a "fake" em que entraram, ao votar naquele pleito, que oferecia apenas dois candidatos com ampla visibilidade, e que, segundo avaliação do experiente jornalista e editor Carlos Brickmann, um era louco e o outro corrupto. Passadas as eleições, declarado o vencedor, os cidadãos começaram a cair na real, ao tomarem conhecimento de veladas intenções do vencedor .

O circo foi se esvaziando. Aos poucos, a população desapareceu das manifestações de rua convocadas pelo vitorioso, e passou a receber mal as visitas e exposições do casal presidencial. As redes digitais reproduziam entre si , amplamente ,as críticas severas às leviandades públicas cometidas pelo eleito contra pessoas internamente e países em conflito sem qualquer relação com a governabilidade no Brasil . Sem qualquer pejo ou ética, os governantes tentam transformar, em inimigos da população, adversários pessoais ou partidários, estratégia que repete na história alguns regimes ditatoriais longevos, e que, percebida, vem sendo rechaçada, interna e externamente.Os empresariado e as categorias médias estão assustados com as mudanças inesperadas na política brasileira, sem se enxergar nada sendo colocado no lugar. Há uma repetição sistemática do já conhecido e, de algumas coisas até fracassadas no passado. Descrentes de um futuro ainda não anunciado, as empresas convivem inseguras com os indicadores da economia divulgados por vozes oficiais: crescimento de 2,9 do PIB em 2023; redução do desemprego no primeiro trimestre de 2024 para 7,8% (8 milhões de trabalhadores), sem referência ao tão criticado emprego informal - "Todo mundo vai ter carteira de trabalho assinada" -, representado hoje por perto de 25 milhões de trabalhadores, número e condição omitido nas estatísticas de governo. Evita-se comentar ainda sobre o encerramento das atividades produtivas de centenas de empresas , confundindo -o com com a história da oneração e da desoneração fiscal das empresas. Não se fala também muito sobre os investimentos, tanto internos quanto externos. O que surge aí , vez por outra, vem, virá ou veio da China .

Ambiguamente, recolocando o desemprego no cenário da economia, o ministro Luiz Marinho, do Trabalho, alimenta-se da hipótese de um orçamento de R$ 111.9 bilhões, em 2024, para o Fundo de Apoio ao Trabalhador - FAT . Concorda, entretanto, que desse valor, quase imaginário, R$ 78.9 bilhões seriam destinados ao pagamento do seguro- desemprego e do abono salarial, esta ajuda direta às famílias sem renda própria: um crescimento contraditório.

O Ministério prenuncia a expansão do emprego, e faz de conta de que desconhece dados mais reais . Confia, sem entrar em detalhes, que as eleições municipais deste ano vão abrir muitas vagas de trabalho. É verdade. só que serão de trabalho temporário, sem carteira assinada. Provavelmente, esses empregos surgirão nos meses de agosto e setembro, que antecedem às eleições.


Poucos são os dirigentes empresariais que acreditam e manuseiam com seguranças os indicadores macroeconômicos divulgados oficialmente, em que pese a seriedade histórica das instituições que os calculam e configuram: IBGE, FGV, IPERJ, IPEA. Inseguros, questionam a sua validade para o planejamento de expansão dos negócios. Alguns chegam a projetar uma crise econômica para o período pós eleitoral. Um terceiro grupo fecha as portas, muda de atividade, e demite o pessoal. Os estrangeiros, a exceção da China, não desembarcam por aqui. O Banco Central teme, inclusive, que a redução da SELIC (taxa básica de juros), de 10,75 hoje, não vá se sustentar mesmo, e já está falando em uma retomada da dos níveis anteriores.

Estão todos receosos de avançar nas gastanças, como recomenda o governo. Os estrangeiros inclusive. Não há no horizonte nenhuma preocupação do governo com a possibilidade de um déficit fiscal avantajado. Os dados do IBGE parecem estar revestidos de uma roupagem populista, quase vazia, marquetologicamente institucionalizada. Não se deve dar um tostão para as falas de Macron, Presidente da França, que veio passar três dias no Brasil para corrigir algumas disfunções retóricas. Mas, parece ter seguido o cinismo corrente. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Lavrov, também passou rápido e sorrateiro por aqui.

A máquina do Estado revela a cada dia a carência de profissionais e técnicos habilitados para formular e administrar o conjunto das políticas públicas , todas submetidas , artificiosamente, a contingenciamentos e cortes orçamentários mesmo . Os cargos de gestão, com raras exceções, estão sendo ocupados vagarosamente por representantes partidários, nem sempre qualificados. Os concursos públicos arrastam-se retoricamente no tempo, desde a campanha eleitoral de 2022, frustrando a esperança de emprego de milhões de jovens recém saídos das universidades.

Os descrédito das iniciativas discursivas vem maculando inclusive até as decisões do Poder Judiciário, com credibilidade baixíssima. Servidores mais antigos , sobretudo no Executivo, reivindicam, sem sucesso, reajustes de salários, ameaçados de congelamentos. Percebe-se que o governo está adotando uma política de arrocho no serviço público. Nada impede que, a partir do segundo semestre, o funcionalismo publico comece a fazer paralizações de advertência e greves mesmo.

Outro problema grave são as viagens presidenciais com o propósito, propagado amplamente, de situar o Brasil como ator no cenário mundial. Opiniões pessoais, altamente contraditórias, às vezes sem sentido, são emitidas em nome da Nação. Essas tiradas inconsequentes e sem a legitimidade - que viria do Congresso - estão aparentemente desconstruindo a imagem carismática construídas pelo atual governante. "Ele mente ", já advertia, na oposição, Geraldo Alkmin - essa personalidade claudicante - há dez ou quinze anos atrás A imagem do País e dos brasileiros piorou sensivelmente depois dessas aventuras oficiais , de caráter quase nupciais. Parece que a Nação vem caindo numa "fake".

Lima Barreto e o mar de lama

Em "O Único Assassinato de Cazuza" Lima Barreto, faz através de um de seus personagens uma afirmação de grande atualidade: "Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na presidência da República se alicerça no crime, no assassinato, que acha você?". Ao que seu interlocutor retruca:

- Já houve quem dissesse que, quem não mandou um mortal deste para o outro mundo, não faz carreira na política do Rio de Janeiro.

Mas o ponto que escolhi para uma análise mais detida vem depois:

- Você sabe o que dizem esses políticos que sobem às alturas com dezenas de assassinatos nas costas?

- Não.

- Que todos nós matamos.

A primeira reação do autor de um crime é a negação; a segunda, que todos fazem o mesmo. A crença de que a fortuna e a carreira política assentam-se no crime não é sem consequências. Se todos acham que a corrupção é a regra do jogo, estamos em uma armadilha. Quando práticas escusas são percebidas como a regra, o ator que joga limpo se verá como um "otário". Os incentivos nessa situação são para jogar sujo (recorrendo à violência ou a corrupção), esperando que os demais também o façam.


Há forte correlação entre a crença de que "a corrupção é generalizada" e a de se considerar que "pagar propina é justificável". Um estudo experimental mostrou que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção na Costa Rica produzia aumento de 28% na propensão a pagar propina em relação a um grupo de controle.

A cientista política Nara Pavão em estudo experimental mostrou que quando todas as alternativas são vistas como corruptas, o efeito da corrupção desaparece. O impacto da informação que um gerente da Petrobras havia devolvido meio bilhão de reais e que a Odebrecht tinha um departamento inteiro, com servidor na Suíça, dedicado a propinas foi avassalador. Após o caso JBS-Aécio a crença em um mar de lama se generalizou. A ascensão de Bolsonaro e a renovação parlamentar em 2018 não são consistentes, no curto prazo, com a ideia do efeito "mar de lama".

A atual reação contra a Lava Jato é marcada pela negação. Mais importante, vai contra as crenças do eleitorado e mostra a resiliência da aversão à corrupção. Em nosso país, o hiato entre expectativas normativas e crença sobre a prevalência da corrupção política é o maior da região. Enquanto apenas 10,1% dos entrevistados do LAPOP 2023 afirmam que é admissível pagar uma propina, o menor percentual da região (México, 22%; Uruguai 11,4%; Chile, 12.5%); só somos superados na percepção da corrupção entre os políticos pelo Peru (78.8%). A Argentina (71%) e Chile (70%) têm percentuais próximos ao nosso (75%).