sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Da Casa dos Mortos

Albert Speer foi o arquiteto e o ministro de armamentos e produção de guerra de Hitler. Duas características o diferenciam dos demais assassinos nazistas. Primeiro, havia nos sentimentos de Speer em relação a Hitler um núcleo de afeto desinteressado, de calor humano que ultrapassava a fascinação animal. Em 23 de abril de 1945, sendo Berlim um oceano de chamas, todas as possibilidades de escapar em segurança quase esgotadas, Speer voltou à capital para se despedir pessoalmente do Führer. A absoluta frieza na reação de Hitler o abalou. Segundo, Speer conservou dentro de si um pouco de sanidade e senso moral durante o circo absurdo do Reich, e depois durante quase vinte anos de prisão em Spandau. São esses dois elementos — o sortilégio que a pessoa de Hitler exerceu sobre ele e a decisão de emergir mantendo a saúde mental depois de duas décadas de sepultamento em vida — que dominam Spandau: O diário secreto, de Speer (tradução do alemão de Richard e Clara Winton, para a Macmillan).

Albert Speer visitando o campo de concentração de Mauthausen (1943)


Nos julgamentos de guerra em Nuremberg, Albert Speer reconheceu que tinha sido ele, em última análise, o responsável por usar os milhões e milhões de trabalhadores escravos no arsenal do Reich. Não estivera diretamente envolvido na mecânica bestial da deportação que trazia esses pobres seres humanos dos territórios ocupados, nem nos maus-tratos e no extermínio rotineiro que tantas vezes se seguiam. Mas o comando da produção e da mobilização industrial estivera a seu cargo, e nesta medida Speer admitiu — na verdade, pormenorizou longamente — sua culpa. A condenação a vinte anos de prisão pareceu brutal desde o início, e houve quem considerasse que ela refletia a insistência dos soviéticos. Logo após Nuremberg, circularam rumores de que as autoridades russas não tinham a menor vontade de ver um empresário tão brilhante no setor de armas e fornecimento de materiais passar são e salvo para as mãos ocidentais.
Speer deu entrada na prisão de Spandau em Berlim no dia 18 de julho de 1947; saiu de lá em 30 de setembro de 1966, à meia-noite em ponto. Somado o tempo que passou na cadeia de Nuremberg durante o julgamento, foram exatamente vinte anos. Speer cumpriu a segunda década da sentença com apenas outros dois homens — Baldur von Schirach, ex-líder da Juventude Hitlerista, e Rudolf Hess.

Speer entrou no caixão ressonante de Spandau aos 42 anos, no auge de suas forças e após uma carreira meteórica. Foi solto aos 61 anos. Mas, durante o cativeiro, ele escreveu: mais de 20 mil páginas de notas no diário, cartas autorizadas e clandestinas, fragmentos autobiográficos. Escrevia em folhas de calendário, em tampas de caixas de papelão, em papel higiênico (o tradicional papiro do prisioneiro). E, clandestinamente, conseguiu remeter essa prodigiosa montanha de material para fora dos muros de Spandau, apesar da vigilância atenta dos guardas americanos, russos, britânicos e franceses. Speer contrabandeou material suficiente para seu primeiro livro, Por dentro do III Reich, para este diário da prisão e, a se confirmarem algumas insinuações, para um possível estudo completo de Hitler. Como ele fez? A explicação de Speer é ao mesmo tempo arredia e curiosamente pormenorizada. Ele nos conta que precisava proteger a identidade das pessoas que o ajudaram. O canal principal foi um dos médicos assistentes da prisão, o qual, por ironia, tinha sido um dos deportados da máquina de guerra do Reich. Mas devia haver outras vias. É difícil evitar a impressão de que as autoridades, em particular as três potências ocidentais, deviam saber algo sobre o volumoso intercâmbio de Speer com o mundo externo e com o futuro. De fato, já em outubro de 1948 a esposa de um importante editor judeu em Nova York entrou em contato com uma pessoa da família de Speer, a respeito de suas memórias (se não a senhora, pelo menos Speer se sentiu enojado com a sutil indecência da proposta).

Hitler paira neste livro como uma bruma negra. Nos primeiros anos de cativeiro, Speer procurou relembrar e expor metodicamente a história de sua relação com o Führer. Há muitas vinhetas memoráveis. Vemos Hitler planejando transformar sua cidade natal de Linz num centro de arte mundial. Podemos observá-lo durante os anos de ascensão sonambúlica ao poder, entre as multidões enlouquecidas ansiando pelo furacão de sua passagem num carro aberto, ou na íntima companhia de seus capangas — discursando, zombando, pontificando e então caindo bruscamente no vórtice silencioso de suas visões. Há alguns instantâneos extraordinários de Hitler com uma disposição doméstica em Obsersalzberg, trabalhando numa socialidade espontânea entre subordinados, ajudantes, simpatizantes cuja vida dependia do ânimo do líder. Speer registra os comentários de Hitler sobre literatura (o sujeito adorava Karl May, a versão germânica de Fenimore Cooper), sobre escultura, sobre o significado da história. Traz à memória os momentos de generosidade do Führer com seus primeiros apoios e associados, e fala da obsessão de Hitler pelo fogo, pelas chamas na lareira e pelas labaredas na cidade.

Speer sabe que Hitler está intimamente entrelaçado com as raízes de sua identidade. A 20 de novembro de 1952, escreve: “Seja qual for o rumo de minha vida no futuro, sempre que meu nome for mencionado, todos pensarão em Hitler. Nunca terei uma existência independente. E às vezes vejo-me aos setenta anos, os filhos adultos faz muito tempo, os netos crescendo, e aonde eu for vão me perguntar apenas sobre Hitler”. Três anos antes, Speer reflete sobre a lógica predestinada de seu encontro com o Mestre: “Eu via Hitler acima de tudo como o preservador do mundo do século xix, contra aquele mundo metropolitano inquietante que eu temia que se estendesse no futuro de todos nós. Sob essa luz, posso ter realmente esperado por Hitler. Além disso — o que o justifica ainda mais —, ele me transmitiu uma força que me elevou muito acima dos limites de minhas potencialidades. Se assim é, não posso dizer que ele me afastou de mim: pelo contrário, foi através dele que encontrei pela primeira vez um fortalecimento de minha identidade”.

No interminável túnel dos dias na prisão, Speer tenta chegar a um retrato nítido do homem que ergueu e esmagou sua vida. Se havia crueldade — embora de uma espécie estranhamente abstrata, indiferente —, megalomania, vulgaridade grosseria, autopiedade, uma falsidade para além do âmbito humano normal, havia também o exato contrário. Speer conhecia Hitler como “solícito páter-famílias, um superior generoso, amigável, dotado de autocontrole, orgulhoso, capaz de se entusiasmar com a beleza e a grandeza”. Este último ponto persegue Speer. As políticas de Hitler nas artes e na arquitetura podiam nascer de uma miopia brutal. Mas, em outros momentos, havia clarões de um verdadeiro discernimento, altos voos de criatividade e erudição. O carisma do homem era profundo, gélido, ao mesmo tempo magnético e paralisante. E assim era também sua perspicácia intelectual em relação à tática política, ao domínio retórico, à penetração psicológica dos atores cansados ou corruptos naquele teatro de sombras, que o encaravam no país ou no exterior. “Ele realmente vinha de outro mundo. […] Todos os militares tinham aprendido a lidar com uma grande variedade de situações incomuns. Mas estavam totalmente despreparados para lidar com esse visionário.”

Não há nada de novo nisso. Outros testemunhos converteram em rotina a imagem do pesadelo. Mas, quando procura diagnosticar o antissemitismo de Hitler, Speer toca de fato em questões de primeira importância. Mal consegue lembrar uma única conversa que tenha tido com Hitler sobre o tema (no miasma nauseabundo das conversas de Hitler à mesa, dificilmente encontramos alguma alusão ao mundo dos campos de concentração). Mas, vasculhando mais detidamente os grandes destroços da memória, Speer chega à conclusão de que o ódio aos judeus era o eixo absoluto, o pivô inabalável do próprio ser de Hitler. A totalidade da política e dos planos de guerra de Hitler “era mera camuflagem deste verdadeiro fator motivador”. Refletindo sobre o testamento de Hitler, com sua visão apocalíptica da culpa dos judeus pela guerra e do extermínio do judaísmo europeu, Speer vem a entender que, para o Führer, este extermínio era mais importante do que a vitória ou a sobrevivência da nação alemã.

Os historiadores racionalistas discutem esse ponto. Têm se empenhado em encontrar um quadro econômico-estratégico “normal” para a carreira de Hitler. Speer está muito mais próximo da verdade. Não há muito como entender o fenômeno Hitler — seu feitiço venenoso e a enormidade da autodestruição — se não se concentrar rigorosamente o foco sobre o tema central do antissemitismo. De alguma maneira tenebrosa, Hitler via na união messiânica do povo judeu, em seu isolamento dos demais, na metáfora de serem “os eleitos”, um contrapeso inabalável que escarnecia de seus mais íntimos impulsos. Ao proclamar que o nazismo e o judaísmo não podiam coexistir, que um dos dois devia ser aniquilado num confronto final, estava afirmando uma verdade alucinada. Ao saber do julgamento de Eichmann e da quantidade sempre maior de provas do Holocausto, Speer anota que seu próprio desejo de sair da prisão lhe parece “quase absurdo”.

Mas o desejo persistiu, claro. Este é o ponto central de toda a literatura do cárcere: a esperança contra todas as esperanças de que mais de 7 mil dias inalteráveis vão se passar e será possível atribuir ao tempo algum sentido ou algum feitio consolador num vácuo de vinte invernos. A asfixia de Speer apenas piorava com os surtos de boatos que se sucediam. John McCloy, o alto-comissário dos eua para a Alemanha, estava fazendo pressão para a soltura ou a redução da pena; Adenauer estava solidário com ele; o Departamento de Relações Exteriores da Inglaterra tinha abordado os russos. Certamente a Guerra Fria levaria à evacuação de Spandau e a uma avaliação mais oportuna dos crimes de Speer. Por que as potências ocidentais deixariam o grande gênio dos armamentos alemães apodrecer na cadeia, quando elas mesmas estavam remilitarizando a Alemanha? Mas, uma a uma, as esperanças se revelavam falsas, e Speer veio a se resignar com a certeza de que teria de cumprir sua pena até a última e quase inimaginável meia-noite.

Ele manteve a sanidade por meios consagrados nos anais do sepultamento em vida. Diariamente fazia caminhadas vigorosas pelos terrenos de Spandau, mantendo uma contagem exata das distâncias percorridas. No final, ele tinha andado 31.936 quilômetros. Mas essa marcha forçada não se resumia a um exercício abstrato. Speer se imaginava andando pelo globo, saindo da Europa, passando pelo Oriente Médio, chegando à China e ao estreito de Bering, então descendo e atravessando o México. Enquanto andava, invocava com os olhos do espírito tudo o que sabia sobre as paisagens, a arquitetura, o clima dos lugares por onde estava passando imaginariamente. “Já estou bem adiantado na Índia”, diz uma anotação típica do diário, “e segundo a programação chegarei a Benares em cinco meses.” E havia também o jardim da prisão. Da primavera de 1959 em diante, Speer passou a devotar cada vez mais tempo e energia ao trabalho de jardinagem. Cada arbusto, cada canteiro se converteu em objeto de persistente atenção e dedicação: “Spandau se tornou um sentido em si. Muito tempo atrás, tive de organizar minha sobrevivência aqui. Não é mais necessário. O jardim se apoderou totalmente de mim”.

Speer era um leitor incansável: história, filosofia, literatura e, algo um tanto sinistro, livros sobre acontecimentos nos quais ele mesmo tinha desempenhado papéis drásticos. Depois de lhe permitirem o acesso a revistas de arquitetura e engenharia, ele se esforçou em retomar suas habilidades e em manter alguma espécie de contato com o mundo em transformação lá fora. Speer fazia projetos residenciais, muito apreciados por seus carcereiros russos, perfis e contornos de monumentos agora em ruínas, e de vez em quando desenhava estranhas cenas alegóricas, de uma solidão gritante. Mais que tudo, ele escrevia, milhares e milhares de páginas. Foi esse fio sólido que lhe sustentou a razão.

Mesmo assim, era acometido de acessos de desespero e chegava à beira da loucura: no final do décimo ano, quando os almirantes Dönitz e Raeder foram libertados depois de cumprir a pena; em junho de 1961, quando o medo de ter perdido uma de suas cartas clandestinas se converteu em pânico descontrolado. Quando parecia iminente o colapso nervoso, Speer se entregava a uma “cura pelo sono”, permitindo-se três semanas de soníferos que lhe garantiam noites bem dormidas e dias vagos e indistintos. Mas ele recorria principalmente à sua tremenda resistência. Depois de uma semana numa solitária, sentado imóvel durante onze horas diante das paredes nuas, Speer saiu “disposto como no primeiro dia”.

Os expedientes usados pelas autoridades aliadas — agindo, claro, em nome da humanidade ultrajada — nem sempre são de leitura edificante. Depois de onze anos de encarceramento, Speer pediu tela e tinta a óleo. Essa perigosa solicitação foi negada. Os prisioneiros nunca eram tratados pelo nome — apenas pelo número que traziam nas costas —, pois chamar um homem pelo nome é honrá-lo em sua humanidade. As visitas dos parentes eram curtas e esparsas. Deviam ocorrer na presença de observadores soviéticos, americanos, franceses e britânicos.

Passaram-se dezesseis anos antes que Speer, graças a um bondoso descuido, pudesse ter um momento a sós com a esposa. Na ocasião, ele estava entorpecido demais até para lhe tocar a mão. Há vários estereótipos nacionais caracterizando os diversos carcereiros e encarregados da prisão (o controle de Spandau tem um rodízio mensal entre as quatro potências ocupantes). Os ingleses são meticulosos. Os franceses ostentam uma arrogância fácil. A inocência e a espontaneidade americana frequentemente têm uma ponta de brutalidade. Em todo “mês russo”, a dieta da prisão despenca verticalmente. Mas o pessoal soviético é avidamente letrado. Enquanto os colegas ocidentais folheiam histórias de detetives ou cabeceiam de sono em cima de palavras cruzadas, os russos em Spandau estudam química, física e matemática, ou leem Dickens, Jack London e Tolstói. Dependendo das oscilações da Guerra Fria, as relações entre os aliados no cárcere ficam tensas ou se distendem, e os prisioneiros são tratados de acordo com essas variações. Na crise dos mísseis em Cuba, a tensão dá aos prisioneiros um centro de gravidade. É o guarda russo que traz as notícias de paz.

São instantâneos como estes, risíveis e trágicos, que tornam suportáveis essas páginas claustrofóbicas. Speer tem olho treinado. Em Nuremberg, ele passa pelas celas de seus colegas à espera da forca: “Como prescrevem as regras, estão na maioria deitados de costas, as mãos por cima do lençol, a cabeça virada para o outro lado. Uma visão fantasmagórica, todos eles na imobilidade; é como se já estivessem no caixão”. No inverno de 1953, o prisioneiro número 3, Konstantin von Neurath, por algum tempo ministro das Relações Exteriores de Hitler, recebe uma poltrona (a saúde do velho estava se deteriorando). Speer reconhece a poltrona: era uma peça que ele tinha projetado para a Chancelaria de Berlim, em 1938. “O forro adamascado está em farrapos, o brilho desbotado, o verniz riscado, mas ainda gosto das proporções, sobretudo da curva das pernas de trás.” As orgulhosas monstruosidades que Speer tinha construído para o Reich, os pilares em vermelho vivo e os pórticos do triunfo em mármore, caíram no esquecimento. Restam duas coisas: a lembrança da impalpável “catedral de gelo” que Speer criou usando as faixas de luz de 130 holofotes durante uma reunião do partido em Nuremberg, e essa poltrona.

Conforme se aproxima a data da libertação, o espírito de Speer começa a lhe pregar peças sinistras. Deixa de ouvir rádio. Manda que a família interrompa toda a correspondência. Sonhos vívidos lhe dizem que nunca voltará ao lar, que a vida que não viveu nunca poderá se converter em algo bom. Faltam três dias: mais uma vez arranca as ervas daninhas do jardim, para que tudo fique em perfeita ordem. Ele sente, como todo prisioneiro de sentença longa, que o relacionamento com a prisão se tornou “semierótico”, que, de alguma maneira absurda, não quer mais sair do caixão do qual se assenhoreou. No último dia, aguardando sua soltura e a de Schirach, Speer acrescenta dez quilômetros à sua viagem pelo mundo. O clímax é um toque de terror e desolação humana que supera qualquer ficção. Estão descarregando grandes montes de carvão no pátio da prisão. Speer fica ao lado de Hess, olhando: “Então Hess disse: ‘Tanto carvão. E a partir de amanhã só para mim’”. Era 30 de setembro de 1966. O velho rufião alucinado, que não chegou a se envolver na pior das atrocidades nazistas pois tinha fugido para a Escócia, ainda está em Spandau, sozinho, guardado por quatro exércitos em miniatura e 38 mil metros cúbicos de espaço murado. As potências ocidentais insistem há tempos que seja libertado. A União Soviética não aceita, para não perder o único ponto militar que ocupa em Berlim Ocidental. Nossa aquiescência à chantagem russa em tal nível de desumanidade está além de qualquer comentário.

Mas dito isso, e reconhecida a força da narrativa e da sobrevivência de Speer, cumpre frisar mais um ponto. Em Spandau havia livros, música, cartas da família, atendimento médico. Em três de quatro meses, a comida era excelente. Havia água quente para o banho, um jardim para cuidar. Ninguém era açoitado, ninguém era mergulhado em excrementos, ninguém era queimado pedacinho por pedacinho até se converter em cinzas. Em suma, vinte anos em Spandau eram literalmente um paraíso em comparação a um único dia em Belsen, Majdanek, Auschwitz ou qualquer uma das centenas de antecâmaras do Inferno construídas pelo regime a que Albert Speer serviu com tanto garbo. A força, a dor deste livro consiste em termos de lembrá-lo a nós mesmos, se não a ele (que agora afirma saber disso). Mas lembrar não basta. Não é apenas em comparação a Belsen que Spandau parece uma estação de repouso: em comparação ao gulag, às prisões psiquiátricas soviéticas, aos cárceres do Chile e aos indizíveis campos de morte da Indonésia, Speer foi apenas um dos construtores — mesmo que, talvez, o mais severamente punido. A arquitetura da morte ainda prospera.
George Steiner, "Tigres no Espelho e Outros Textos"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Litania dos pobres

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
Cegos a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos espaços.

Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do esquecimento.

Perdidas na correnteza
Das culpas da natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios
Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos destinos!

Ó pobres! O vosso bando
É tremendo, é formidando!

Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo…

Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.

Nos areais e nas serras
Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
Das esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece,

Ó pobres de ocultas chagas
Lá das longínquas plagas!

Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho…

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, de indolências
E graças e quint’essências.

Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vêm nimbadas de magia,
De morna melancolia !

Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
Dos sopros que vêm do largo…

Radiantes de ilusionismos,
Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
Boiam nelas cisnes vagos…

Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente
Do velho sonho dolente.

Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.
Cruz e Sousa (1861/1898), "Faróis"

Gaza e o preço da nossa indiferença

A Faixa de Gaza tornou-se o espelho mais brutal da falência moral da comunidade internacional. O que ali se vive, supera a linguagem diplomática e dissolve qualquer eufemismo político. Chamemos pelo nome, trata-se de um massacre. Um massacre prolongado, sistemático e amplamente documentado, que transforma civis em alvos, hospitais em ruínas e bairros inteiros em lembranças de um lugar que já não existe.

A resposta israelita ao ataque de 7 de outubro foi apresentada como uma operação de legítima defesa. Contudo, a escala da destruição, o colapso completo dos serviços essenciais, a deslocação forçada de quase toda a população e o número inaceitável de mortos civis mostram que esta narrativa, repetida incansavelmente, já não suporta os factos. O direito internacional não desaparece em tempos de medo. Muito menos autoriza punição coletiva e é exatamente isso que se observa quando água, eletricidade, alimentos, medicamentos e corredores humanitários são transformados em instrumentos de pressão militar.


Paralelamente, assiste-se a outro processo silencioso, mas igualmente devastador, o massacre da narrativa. A linguagem torna-se arma quando suaviza a violência, quando substitui “crianças mortas” por “danos colaterais”, quando trata zonas densamente povoadas como “infraestruturas terroristas” ou quando relativiza ataques a escolas e hospitais com explicações que mudam consoante a conveniência política. O controlo do discurso permite controlar a indignação pública, e isso explica por que razão parte do mundo assiste a esta catástrofe com desconforto, mas não com urgência moral.

A construção de um consenso cúmplice é agravada pela posição ambígua, quando não abertamente permissiva, de várias democracias ocidentais. Países que se apresentam como guardiões dos direitos humanos continuam a fornecer apoio político, militar e diplomático a uma campanha que viola esses mesmos princípios. Ao fazê-lo, corroem a legitimidade da ordem internacional baseada em regras e reforçam a perceção de que o valor da vida é variável: umas são choradas, outras contabilizadas.

Importa sublinhar que defender a vida dos civis palestinianos não implica negar o sofrimento dos civis israelitas, não há competição na dor. O que há é uma responsabilidade ética elementar, a de reconhecer que nenhuma sociedade. por mais traumatizada que esteja, tem o direito de destruir outra. Manter esta ideia é essencial para recusar a lógica desumanizadora que transforma populações inteiras em obstáculos a eliminar.

O que se vive hoje em Gaza não pode ser tratado como um episódio inevitável de um conflito insolúvel. É uma catástrofe humana que exige ação política imediata, cessar-fogo permanente, libertação de reféns, acesso humanitário pleno, fim do cerco e mecanismos credíveis de responsabilização por crimes de guerra. Estas medidas não são radicais, são o mínimo ético exigível.

A maior derrota não será apenas a destruição de Gaza, será permitir que este massacre se torne normal, que a dor alheia deixe de nos comover e que a vida humana perca o seu valor universal. Quando o mundo aceita o inaceitável, deixa de ser apenas espectador, torna-se cúmplice.

Um inferno demográfico

“Inverno demográfico”, que se tornou uma expressão com a qual passámos a conviver, é uma metáfora que indica uma tal diminuição da taxa de fecundidade que a população entra em decréscimo.

No tempo em que a população do planeta estava em aumento acelerado e ainda não se tinham tornado completamente caducas as previsões “científicas” de Malthus, segundo as quais iríamos atingir uma situação em que faltariam ao planeta os recursos mínimos para alimentar tanta gente, o que agora é designado como “inverno demográfico” era uma aspiração primaveril. Os processos drásticos de engenharia social na China para evitar o crescimento da população foram uma experiência exemplar, pelos efeitos negativos que produziram e que o governo chinês tenta corrigir, recuperando o imperativo que diz: “Crescei e multiplicai-vos”. Mas parece que nem assim está a conseguir restabelecer a quantidade de força de trabalho necessária para alimentar a sua economia, que já não cresce como antigamente.


Uma observação empírica de quem vive numa cidade como Lisboa é a de que os bebés e as crianças quase desapareceram. Os espanhóis, os italianos e muitos europeus dizem o mesmo das cidades onde habitam. É verdade que as crianças e até os adolescentes saem pouco de casa (a não ser no carro dos pais para ir à escola e regressar), razão suficiente para não serem vistos na rua. Mas se fizermos um pequeno inquérito, como o que já fiz, olhando à minha volta, para o universo de amigos e amigas, verificamos que muitos não têm filhos e quando têm ficam-se pelo filho único — essa instituição narcísica do nosso tempo. E na sua maioria já se divorciaram uma ou duas vezes e alguns até regressaram à casa dos pais. Perante este panorama, dá vontade de rir quando ouvimos os políticos falar nas “famílias”.

Do processo demográfico que já se estende a quase todo o planeta, podemos deduzir esta regra: à medida que as populações vão ascendendo no bem-estar económico e social, diminuem os incentivos para ter filhos. É verdade que é cada vez menor a homogeneidade social, já que onde cresce a riqueza também cresce a pobreza. Mas o ambiente assim criado faz com que actualmente aos que não querem ter filhos se juntem os que não podem ter. Este fenómeno, como tudo o resto, também está globalizado: o que começou no hemisfério Norte estende-se agora para o Sul.

Mas a noção de “inverno demográfico” só tem sentido em função de um regime económico cronofágico, isto é, que devora o tempo e antecipa o futuro sob a forma de dívida. Cada um de nós está em dívida, e essa dívida só pode ser paga por aqueles que vão nascer. E como não é possível parar este processo de endividamento a não ser por ação de uma enorme catástrofe, a corrida continua em grande velocidade mesmo que saibamos que se caminha para o desastre.

A diminuição da população seria uma realidade a festejar se não estivéssemos a consumir tempo futuro. Assim, só os nascituros nos podem salvar. E estes, uma vez nascidos, têm de procurar salvação nos novos nascituros. Eis como uma expressão que inundou a nossa linguagem e parece descrever um estado de coisas objetivo — “inverno demográfico” — tem um sentido ideológico muito forte, oculta a realidade e constrói um cenário baseado numa falsa construção.

É verdade que, para além da cronofagia, há outros factores que desequilibram a balança demográfica (por exemplo, o aumento da esperança de vida). Mas que até um governo neofascista, como é, em Itália, o de Giorgia Meloni, tenha de abrir portas à imigração porque os italianos estão a desaparecer e os que existem não asseguram os serviços que permitem o país subsistir, mostra que nalguns casos já estamos a entrar no estado de catástrofe. Devemos perguntar: os imigrantes vão finalmente passar da condição de indesejáveis para a categoria de salvadores? Nem pensar nisso. Os imigrantes são considerados como um fator logístico, à semelhança das máquinas, das ferramentas, das infra-estruturas. Eles estão em todo o lado em que o trabalho físico não pôde ainda ser eliminado. Mas no fundo são invisíveis. Tão invisíveis como esses novos escravos que entregam refeições ao domicílio. Não é que uns e outros não andem nas mesmas ruas onde nós andamos. Mas foram relegados para a invisibilidade.

Outra lição do “inverno demográfico”: ao decrescimento da população não corresponde um decréscimo da economia, até porque isso significa “crise”. Pelo contrário, enquanto de um lado há paragem, do outro continua a aceleração. Devemos então concluir: afinal, o aumento da população não é um verdadeiro problema. Quantos milhares de africanos são precisos para perfazerem uma pegada equivalente à de Elon Musk? O seu peso já é quase o de um continente inteiro. E virá o tempo em que, observando a Terra do seu observatório espacial, ouvirá uma voz que lhe diz: “Um dia, tudo isto será teu”.

Quando é que o Brasil se perdeu

Vendaval, voos cancelados, tempo perdido nas cadeiras de Congonhas. A única saída é pensar. Uma palavra me veio à mente diante das crises sucessivas do poder em Brasília: entropia. Não a uso com o rigor da termodinâmica, mas no sentido de que algo está se decompondo, como uma barra de gelo. O governo em crise com o Congresso em crise com o Supremo parece ter entrado num labirinto assustador.


Minha tentativa, num canto do aeroporto, é tentar achar a gênese dessa crise, reproduzir a frase inicial do romance de Vargas Llosa: “Quando é que o Peru se fodeu?”. De modo geral, em livros e artigos aponto o custo das eleições no Brasil, um dos mais altos do Ocidente. Ele acabou afastando os políticos do povo. Na verdade, os meios para alcançar o povo — marqueteiros e caros programas de TV — passaram a dominar o imaginário político. Hoje, para reparar isso, o país dá R$ 5 bilhões aos partidos em cada eleição.

No caso específico do Congresso, um marco importante foi a descoberta de que o fisiologismo é a grande alavanca para eleger presidentes. Desde Severino Cavalcante, isso ficou claro, e o tipo de líder que surgiu não é só o que abandona os escrúpulos, mas o que interpreta bem os interesses pessoais dos congressistas. Não há mais grande debate sobre os rumos do país. Isso é poesia diante da tarefa principal: obter o máximo de dinheiro e dar o mínimo de transparência a sua aplicação.

O Supremo tentou conter esse movimento, desde Rosa Weber. Mas em vão. O STF tem uma retaguarda frágil. Os supersalários do Judiciário são um ponto de vulnerabilidade. Mas o que corroeu seu prestígio foi a decisão de que parentes podem advogar, e os ministros não precisam se declarar impedidos ao julgar as causas de clientes de escritórios em que seus familiares trabalham.

A primeira grande crise se deu quando a Receita pesquisou as contas das mulheres de Gilmar Mendes e Dias Toffoli, ambas advogadas. Toffoli era presidente do STF e designou Alexandre de Moraes para instaurar o inquérito das fake news, que perdura até hoje. No princípio, chegaram a censurar a revista Crusoé por ter falado das ligações de Toffoli com o dono da Odebrecht.

Toffoli e Moraes se fortaleceram. Coube ao primeiro anular processos e multas da Lava-Jato. Ao segundo, coordenar a luta contra o avanço da extrema direita. A eclosão do escândalo do Banco Master traz à tona os problemas que resistiram à Lava-Jato e à própria derrota da extrema direita. A questão inicial, soterrada por tantos fatos históricos importantes, continuava viva: os parentes e as fortunas que se fazem nessa advocacia familiar.

Toffoli anulou multas bilionárias da JBS, e sua mulher chegou a trabalhar para a empresa. Toffoli viaja em jatinho com um advogado do Banco Master e resolve impor sigilo ao escândalo financeiro. No celular do dono do Master aparece um contrato com a mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, num valor de R$ 3,6 milhões por mês.

Olhando para trás, vê-se que a Receita estava num caminho válido. As contas das mulheres dos ministros saíram de cena e entraram as fake news. Mas o problema que se queria evitar ressurge com toda a força no escândalo do Master. Bem que Freud lembrava o famoso retorno do reprimido. Aí está ele de volta.

A consciência das palavras

Nós, escritores, ficamos preocupados por causa de palavras. Palavras significam. Palavras apontam. São flechas. Flechas cravadas na pele dura da realidade. E quanto mais portentosa, mais geral for a palavra, mais também se parecerá com um quarto ou um túnel. Elas podem expandir-se, ou bater em retirada. Podem impregnar-se de mau cheiro. Muitas vezes nos farão lembrar outros quartos, onde gostaríamos de morar, ou onde achamos que já estamos vivendo. Elas podem ser espaços onde não podemos habitar, pois perdemos a arte ou a sabedoria para tal. E por fim aqueles volumes de intenção mental que não sabemos mais como residir serão abandonados, lacrados com tábuas, trancados.

O que queremos dizer, por exemplo, com a palavra “paz”? Uma ausência de conflito? Um esquecimento? Perdão? Ou um grande cansaço, uma exaustão, um esvaziamento do rancor?

Parece-me que o que a maioria das pessoas entende por “paz” é a vitória. A vitória do seu lado. É isso o que “paz” significa para “eles”, enquanto, para os outros, paz quer dizer derrota.

Se predominar a ideia de que paz, embora em princípio desejada, acarreta uma inaceitável renúncia de demandas legítimas, então o rumo mais plausível será a prática da guerra por todos os meios possíveis. Se não fraudulentos, os apelos de paz serão tidos certamente como prematuros. A paz se torna um espaço onde as pessoas não sabem mais como habitar. A paz tem de ser repovoada.

Recolonizada...


E o que entendemos por “honra”?

Honra como um exigente padrão de conduta privada parece pertencer a um tempo muito remoto. Mas o costume de conferir honrarias — lisonjear a nós mesmos e uns aos outros — continua inabalável.

Conferir uma honraria é confirmar um padrão que, supostamente, compartilhamos e defendemos. Aceitar uma honraria é acreditar, por um momento, que o merecemos. (O máximo que podemos dizer, com toda a decência, é que não somos indignos da homenagem.) Recusar uma honraria parece rude, insociável, pretensioso.

Um prêmio acumula honraria — e a capacidade de conferir honrarias — pelas escolhas anteriores de seus vencedores.

Segundo esse critério, examinemos o polemicamente chamado prêmio Jerusalém, que na sua história relativamente breve foi conferido a alguns dos melhores escritores da segunda metade do século XX. Embora seja, por todos os critérios óbvios, um prêmio literário, não é chamado de prêmio Jerusalém de Literatura, mas prêmio Jerusalém pela Liberdade do Indivíduo na Sociedade.

Será que todos os escritores que ganharam o prêmio lutaram de fato pela Liberdade do Indivíduo na Sociedade? Será isso o que eles — agora devo dizer “nós” — têm em comum?

Creio que não.

Eles não representam apenas um amplo espectro de opiniões políticas. Alguns deles mal tocaram nas Grandes Palavras: liberdade, indivíduo, sociedade...
Mas o que importa não é o que um escritor diz, é o que um escritor é.
Escritores — assim denomino os membros da comunidade da literatura — são emblemas da persistência (e da necessidade) de visão individual.

Prefiro usar “individual” como adjetivo a usá-la como substantivo.

A propaganda incessante em nosso tempo em favor do “individual” parece-me profundamente suspeita, pois “individualidade”, em si mesma, se torna cada vez mais um sinônimo de egoísmo. Uma sociedade capitalista parece agir em interesse próprio quando elogia a “individualidade” e a “liberdade” — que pode significar pouco mais do que o direito de engrandecimento perpétuo do eu, e a liberdade de fazer compras, adquirir, esgotar, consumir, tornar obsoleto.

Não creio que exista nenhum valor intrínseco no cultivo do eu. E acho que não existe nenhuma cultura (empregando o termo de modo normativo) sem um padrão de altruísmo, de consideração pelos outros. Creio de fato que existe um valor intrínseco em ampliar a nossa ideia do que a vida humana pode ser. Se a literatura me mobilizou como um projeto, primeiro como leitora e depois como escritora, ela é uma extensão da minha solidariedade aos outros eus, aos outros domínios, outros sonhos, outras palavras, outras áreas de preocupação.

Como escritora, criadora de literatura, sou tanto uma narradora como uma pensadora. As ideias me põem em movimento. Mas romances são feitos não de ideias, e sim de formas. Formas de linguagem. Formas de expressividade. Não tenho uma história na minha cabeça antes de ter uma forma. (Como disse Vladimir Nabokov: “O padrão da coisa precede a coisa”.) E — implícita ou tacitamente — romances são feitos da noção que o escritor tem daquilo que a literatura é ou pode ser.

A obra de todo escritor, toda performance literária é uma justificação da literatura em si, ou redunda nisso. A defesa da literatura tornou-se um dos temas principais do escritor. Mas, como observou Oscar Wilde, “uma verdade na arte é aquela cujo oposto é também verdadeiro”. Parafraseando Wilde, eu diria: uma verdade sobre a literatura é aquela cujo oposto é também verdadeiro.

Assim, a literatura — e falo de forma prescritiva, não apenas de forma descritiva — é autoconsciência, dúvida, escrúpulo, rigor. É também — de novo, de forma prescritiva e também descritiva — canto, espontaneidade, celebração, êxtase.
Ideias sobre literatura — à diferença das ideias sobre, digamos, o amor — quase sempre surgem como uma reação às ideias de outras pessoas. São ideias reativas.
Digo isso porque tenho — ou a maioria das pessoas tem — a impressão de que você está dizendo aquilo.

Desse modo quero abrir espaço para uma paixão maior ou para uma prática diferente. Ideias dão permissão — e quero dar permissão a um sentimento e a uma prática diferentes.
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Digo isso quando você está dizendo aquilo não só porque os escritores são, às vezes, adversários profissionais. Não só para compensar o inevitável desequilíbrio ou unilateralidade de qualquer prática dotada do caráter de uma instituição — e a literatura é uma instituição —, mas porque a literatura é uma prática enraizada em aspirações intrinsecamente contraditórias.

Minha opinião é que qualquer explicação da literatura é falsa — ou seja, redutora; meramente polêmica. Para falar de forma verdadeira sobre literatura, é preciso falar por meio de paradoxos.

Assim, toda obra de literatura importante, que merece o nome de literatura, encarna um ideal de singularidade, de uma voz singular. Mas a literatura, que é uma acumulação, encarna um ideal de pluralidade, de multiplicidade, de promiscuidade.

Toda ideia de literatura que podemos ter — literatura como engajamento social, literatura como busca de intensidades espirituais privadas, literatura nacional, literatura mundial — é, ou pode tornar-se, uma forma de deleite espiritual, vaidade ou autocongratulação.

A literatura é um sistema — um sistema plural — de padrões, ambições, lealdades. Parte da função ética da literatura é a lição do valor da diversidade.

Claro, a literatura deve agir dentro de fronteiras. (Como todas as atividades humanas. A única atividade sem fronteiras é estar morto.) O problema é que as fronteiras que a maioria das pessoas quer traçar sufocariam a liberdade da literatura de ser o que ela pode ser, com toda a sua inventividade e capacidade de se agitar.

Vivemos numa cultura empenhada em unificar as cobiças, e uma das línguas que compõem a vasta e gloriosa multiplicidade de idiomas do mundo, aquela em que falo e escrevo, é agora a língua dominante. O inglês passou a desempenhar, numa escala mundial e para populações muito maiores dentro dos países do mundo, um papel semelhante ao desempenhado pelo latim na Europa medieval.

Porém, como vivemos numa cultura cada vez mais global e transnacional, estamos também atolados em demandas cada vez mais fragmentadas, feitas por tribos reais ou auto-instituídas há pouco tempo. As antigas ideias humanísticas — da república das letras, da literatura do mundo — estão sob ataque em toda parte. Para alguns, elas parecem ingênuas e marcadas por sua origem no grande ideal europeu — alguns diriam ideal eurocêntrico — de valores universais.

As ideias de “liberdade” e de “direitos” sofreram uma degradação chocante nos anos recentes. Em muitas comunidades, os direitos coletivos têm mais peso do que os direitos individuais.

A esse respeito, o que os criadores de literatura fazem pode, implicitamente, fomentar a credibilidade da expressão livre e dos direitos individuais. Mesmo quando os criadores de literatura consagraram a sua obra em favor de tribos ou comunidades a que pertencem, sua realização como escritores depende de conseguir transcender esse objetivo.

As virtudes que tornam um dado escritor importante ou admirável podem, todas elas, ser localizadas no âmbito da singularidade da voz do escritor.

Mas tal singularidade, cultivada em particular e fruto de um longo aprendizado na reflexão e na solidão, é constantemente testada pelo papel social que os escritores se sentem chamados a desempenhar.

Não questiono o direito de um escritor empenhar-se em debates sobre questões públicas, de assumir causas comuns e exercitar a solidariedade com pessoas que pensem como ele.

Tampouco quero dizer que tais atividades levam o escritor para muito longe do local interior, solitário, excêntrico, onde se faz a literatura. O mesmo acontece com quase todas as outras atividades que constituem a vida.

Mas uma coisa é participar voluntariamente, movido por imperativos de consciência ou de afeição, do debate público e da ação pública. Outra coisa é emitir opiniões — tiradas moralistas — sob encomenda.

Não: Estou farto de tudo. Mas sim: A favor disso, contra aquilo.

Porém o escritor não deve ser uma máquina de opinar. Como disse um poeta negro do meu país, quando criticado por outros afro-americanos por não escrever poemas sobre as crueldades do racismo, “um escritor não é uma dessas maquininhas em que a gente escolhe a música que vai tocar”.

A primeira tarefa do escritor é não ter opiniões, mas dizer a verdade... e recusar-se a ser cúmplice de mentiras e de informações falsas. Literatura é o lar da nuance e da oposição às vozes da simplificação. A tarefa do escritor é tornar mais difícil acreditar nos saqueadores da mente. A tarefa do escritor é nos fazer ver o mundo como é, repleto de muitas e diferentes demandas, partes, experiências.

É tarefa do escritor retratar as realidades: as realidades sórdidas, as realidades que causam enlevo. É da essência da sabedoria fornecida pela literatura (a pluralidade da realização literária) ajudar-nos a compreender que, o que quer que esteja acontecendo, sempre se passa algo mais.

Sou assombrada por esse “algo mais”.

Sou assombrada pelo conflito entre os direitos e os valores que prezo. Por exemplo, às vezes, dizer a verdade não favorece a justiça. Às vezes, favorecer a justiça pode acarretar a supressão de boa parte da verdade.

Muitos dos mais notáveis escritores do século XX, em sua atividade como vozes públicas, foram cúmplices da supressão da verdade a fim de favorecer aquilo que entendiam ser (e era, em muitos casos) causas justas.

Minha visão pessoal é de que, se eu tiver de escolher entre a verdade e a justiça — claro, não quero escolher —, escolherei a verdade.

* * *

Claro, creio na ação íntegra. Mas será que é o escritor quem age?
São três coisas diferentes: falar, o que estou fazendo agora; escrever, aquilo que me confere o direito que eu tiver a este prêmio incomparável; e ser, ser uma pessoa que acredita na ação solidária com os outros.

Como disse Roland Barthes, certa vez: “Quem fala não é quem escreve e quem escreve não é quem é”.

E é claro que tenho opiniões, opiniões políticas, algumas formadas com base na leitura e na discussão, e na reflexão, mas não na experiência direta. Permitam-me compartilhar com os senhores duas de minhas opiniões — opiniões bastante previsíveis, à luz das atitudes públicas que tenho tomado em assuntos sobre os quais possuo algum conhecimento direto.

Creio que a doutrina da responsabilidade coletiva, como um argumento para a punição coletiva, nunca é justificada, nem militar, nem eticamente. Refiro-me ao emprego de um poder de fogo desproporcional contra civis, a demolição de suas casas e a destruição de seus pomares e bosques, a supressão dos seus meios de vida e do seu direito a um emprego, à escola, aos serviços médicos, livre acesso às cidades e comunidades vizinhas... tudo como castigo por uma atividade militar hostil que pode estar ou não nos arredores da área habitada por esses civis.

Creio também que não pode haver paz aqui antes que a implantação de comunidades israelenses nos territórios seja suspensa e que depois — mais cedo ou mais tarde — sejam desmanteladas essas colônias, com a retirada das unidades militares lá acumuladas com a finalidade de protegê-las.

Aposto que essas duas opiniões minhas são compartilhadas por muitos aqui neste salão. Para usar uma antiga expressão americana, desconfio que estou pregando para convertidos.

Mas, como escritora, defendo essas duas opiniões? Ou não as defendo como uma pessoa de consciência e depois uso minha posição como escritora para somar minha voz à de outros, dizendo a mesma coisa? A influência que um escritor pode exercer é puramente ocasional. Hoje, é um aspecto da cultura da celebridade.
Há algo de vulgar na disseminação pública de opiniões sobre assuntos a respeito dos quais não se tem um conhecimento direto e amplo. Se falo do que não sei, ou só sei por alto, será um mero tráfico de opiniões.

Digo isso como uma questão de honra, para voltar ao princípio. A honra da literatura. O projeto de ter uma voz individual. Escritores sérios, criadores de literatura, não devem apenas exprimir-se de forma diferente do discurso hegemônico dos meios de comunicação de massa. Eles devem estar em oposição à lengalenga comunal dos telejornais e dos programas de entrevistas.

O problema com as opiniões é que a pessoa fica presa a elas. E toda vez que os escritores agem como escritores, sempre veem... mais.

O que quer que exista, existe sempre mais. O que quer que esteja acontecendo, algo mais está acontecendo, também.

Se a literatura em si, esse grande projeto que foi conduzido (até onde podemos abarcar) ao longo de três milênios, corporifica uma sabedoria — e eu creio que sim e que isso constitui o cerne da relevância que atribuímos à literatura —, é por ela demonstrar a natureza múltipla de nossos destinos privados e comuns. A literatura vai nos lembrar que pode haver contradições, às vezes conflitos irredutíveis, entre os valores que mais prezamos. (Eis o significado de “tragédia”.) Ela vai nos lembrar do “também” e do “algo mais”.

A sabedoria da literatura é inteiramente antitética às opiniões. “Nada é minha última palavra em nenhum assunto”, disse Henry James. Fornecer opiniões, mesmo opiniões corretas — sempre que pedirem —, deprecia aquilo que romancistas e poetas fazem de melhor, que é patrocinar a reflexão, buscar a complexidade.

A informação jamais substituirá a iluminação. Mas algo que parece informação, exceto por ser melhor do que ela — refiro-me à condição de ser informado; refiro-me ao conhecimento concreto, específico, detalhado, historicamente denso, conhecimento de primeira mão —, é o pré-requisito indispensável para um escritor exprimir opiniões em público.

Deixemos que os outros, as celebridades e os políticos, façam pouco de nós; mintam. Se ser escritor e ser também uma voz pública pudesse ter alguma serventia maior, seria para que os escritores considerassem que a formulação de opiniões e juízos é uma responsabilidade difícil.

Um outro problema com opiniões. Elas são fatores de auto-imobilização. O que os escritores fazem deveria nos libertar, nos sacudir. Abrir avenidas de compaixão e de interesses novos. Lembrar-nos que podemos, simplesmente podemos, aspirar a ser diferentes, e melhores, do que somos. Lembrar-nos que podemos mudar.
Como disse o cardeal Newman: “Num mundo mais elevado, é diferente, mas aqui embaixo viver é mudar, e ser perfeito é ter mudado muitas vezes”.

E o que entendo pela palavra “perfeição”? Não tentarei explicar, mas apenas dizer: a Perfeição me faz rir. Não de modo sarcástico, apresso-me em acrescentar. Com alegria.

Sou grata por ter recebido o prêmio Jerusalém. Aceito-o como uma honraria para todos aqueles comprometidos com o desígnio da literatura. Aceito-o em homenagem a todos os escritores e leitores em Israel e na Palestina que lutam para criar uma literatura feita de vozes singulares e da multiplicidade de verdades. Aceito o prêmio em nome da paz e da reconciliação das comunidades feridas e temerosas. A paz necessária. Concessões necessárias e disposições novas.

Anulação dos estereótipos. A necessária persistência do diálogo. Aceito o prêmio — este prêmio internacional, patrocinado por uma feira internacional de livros — como um evento que honra, acima de tudo, a república internacional das letras.
Susan Sontag, discurso ao receber o prêmio Jerusalém em "Ao Mesmo Tempo — Ensaios e Discursos"

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Murar o medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam a diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre
segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples fato de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.” E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe…

Mia Couto

Patologia brasileira

Durante quatro anos, dia a dia, fomos testemunhas de ações liberticidas que intencionavam abater quaisquer laços orgânicos em nossa vida comum, negando-se realidade fática à existência dessa coisa chamada de sociedade. O fascismo e sua pregação neoliberal das hostes bolsonaristas só admitiam o indivíduo isolado, mônada de interesses privados somente postos em ordem pela intervenção mítica do chefe da nação. Nesse sentido, havia algo de misticismo no chienlit brasileiro de 8 de janeiro, em que uma massa de indivíduos ignaros, à falta física do seu chefe, tentou baixar o seu espírito como num culto religioso a fim de realizar a obra que lhe cabia no sentimento de todos. Bolsonaro encarnou, assim em unção mística, a depredação em que cada manifestante em êxtase destruía um ícone nacional.

Os alemães, depois de 1945, solenemente prometeram que sua tragédia nacional não mais se repetiria, e conseguiram. Seremos capazes do mesmo?

Luiz Werneck Vianna, “A patologia brasileira e seus remédios”

Desordem e progressão

A palavra do ano, para a equipe do dicionário Cambridge, foi parassocial (aquela sensação de intimidade — não recíproca — com figuras públicas). O Oxford veio de rage bait (conteúdo criado para gerar engajamento na força do ódio). No Brasil, segundo a consultoria Cause e o instituto de pesquisa Ideia, foi “incerteza”. Eu teria votado em “progressão”, com novo sentido, o de retrocesso.

Na cadeia, progressão é o regime que permite ao condenado cumprir apenas 1/6 da pena. Na escola, o que empurra o aluno adiante, mesmo que ele não tenha aprendido nada. É o Estado não educando no sistema educacional nem reeducando no sistema penitenciário. A aposta é que o aluno incapaz de entender a tabuada do 2 se recupere magicamente mais tarde, quando chegar à tabuada do 7. Que o criminoso adquira, na rua, os princípios morais que lhe faltavam antes do curto estágio de confinamento.

Ambas as progressões são bem-intencionadas: não fazer da reprovação um atestado de fracasso, favorecer a ressocialização. Na prática, são uma pedagogia do faz de conta. Uma adia o insucesso, a outra induz à reincidência. O resultado é o analfabetismo funcional, a sensação de impunidade. Os que roubaram os pensionistas do INSS logo estarão soltos (isso se um dia chegarem a ser presos). Idem para o político corrupto ou golpista, para o homicida, o traficante, o miliciano.

Quando o poder público se omite, o desejo de justiça, inerente ao ser humano, vira sanha de justiçamento. Nas redes sociais não faltam vídeos de reações violentas a assaltos e de espancamento de assaltantes e estupradores — a maioria com comentários do tipo “vídeo satisfatório”, “cervejinha cancelada com sucesso”, “quem tem dó é piano”, “adoro finais felizes”. É a sociedade se adaptando “à subsombra desumana dos linchadores”.

Recentemente, um juiz do Rio mandou soltar um “suspeito” de 21 anos, com 86 passagens pela polícia (preso sete vezes nos últimos três anos) e seu comparsa. O argumento:

— Não se pode presumir que os acusados retornarão a delinquir, posto que no Estado Democrático de Direito não há espaço para exercício de futurologia.

A 87ª prisão (quem diria!) veio cerca de um mês depois. Uma juíza de Goiás liberou outro “suspeito”, com histórico de homicídio, porte ilegal de arma, roubo e tráfico.

— Você de novo, Kaique? Me ajuda a te ajudar — pediu a magistrada, na audiência de custódia.

Solto, o rapaz, também de 21 anos, foi morto seis meses depois, em confronto com a polícia. Ter sido posto em liberdade certamente não o ajudou muito.

Toda a justa indignação pela quantidade de feminicídios e de atos de violência contra a mulher deveria vir acompanhada de uma reflexão sobre a política de devolver prematuramente os agressores às ruas e sobre o que leva tantos homens a se sentir seguros para fazer o que fazem. Talvez incivilidade, por falta de educação, em casa e na escola. Talvez a certeza de impunidade.

O lema positivista que inspirou o dístico da bandeira nacional era “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. O amor ficou de fora logo de cara. A ordem foi confundida com autoritarismo e desdenhada. Sobrou o progresso, aquela marcha inexorável rumo a um mundo melhor — que pegou um retorno, ganhou um aumentativo e deu nisso: bandido bom é bandido solto x bandido bom é bandido morto, e a escola como tempo jogado fora entre a matrícula e o diploma.
Eduardo Affonso

Evolução harmônica

Nesta semana, a UnB comemorou trinta anos do Centro para o Desenvolvimento Sustentável (CDS). Quando concebido, em 1990, e quando criado, em 1995, mesmo ano da COP1, em Berlim, o CDS apresentava duas ousadias: do ponto de vista da estrutura universitária, adotava o estudo multidisciplinar, fora dos departamentos especializados por categoria do conhecimento; e do ponto de vista da concepção de progresso, adotava a crítica ao desenvolvimento baseado no crescimento econômico. Passados trinta anos, a própria ideia de desenvolvimento sustentável está em crise. Os conceitos de “desenvolvimento” e de “sustentabilidade” deixaram de indicar rumo desejável para o progresso. Apesar do sucesso de centenas de egressos de cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior, surgiu a ideia de o CDS se transformar em um Centro para a Evolução Harmônica da humanidade — entre os seres humanos, e deles com a natureza e seus povos.

A COP30 mostrou a dificuldade em cuidar do planeta quando as decisões dependem de países independentes, e também a impossibilidade de superar a ânsia consumista dos eleitores. Tudo indica o agravamento das mudanças climáticas e suas catástrofes associadas. Por isso, durante as celebrações do CDS alertou-se para o fato de que o desenvolvimento sustentável pode ser obtido imoralmente pela exclusão de parte da humanidade — um crescimento sustentável, mas restrito a poucos. Essa parece ser a proposta oferecida pelas forças conservadoras: sendo para poucos, o crescimento econômico ficaria sem limites. Bastaria impedir o ingresso no mundo desenvolvido dos imigrantes — geográficos, de outros países; geracionais; ou sociais, saídos da pobreza.

A mentalidade atual que considera o mundo como a soma dos países e que adota o conceito de desenvolvimento centrado no aumento do PIB levou a humanidade a uma encruzilhada: rumo à catástrofe ecológica ou rumo à catástrofe moral do acirramento da desigualdade social, a ponto de apartar definitivamente os seres humanos entre beneficiados e excluídos do progresso. A ideia de evolução harmônica afastaria o duplo pessimismo atual: seja a catástrofe moral da aceitação da desigualdade, seja a hecatombe ecológica das mudanças climáticas. Mas a alternativa considerada no CDS para uma reorientação buscando evolução harmônica para a humanidade exige mudança de mentalidade por meio da educação para formar novas gerações que vejam seus países como pedaços do mundo e que substituam o desejo de crescimento sustentável pelo objetivo de ampliar o bem-estar de todos.

A utopia estaria na construção de uma sociedade com um “piso social”, assegurando que todos tenham acesso aos bens e serviços essenciais, e com um “teto ecológico”, acima do qual ninguém teria o direito de consumir, devido aos riscos para a natureza. Entre o piso e o teto, uma “escada de ascensão social” — garantida pela oferta de serviços educacionais e de saúde com qualidade e equidade para todos. Seria atalho para um nível decente de desigualdade decorrente do talento e do esforço usados com liberdade comprometida com harmonia, sem exclusão social e em equilíbrio ecológico.
Cristovam Buarque

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Ei, você. Sim, você. Você existe mesmo?

Improvável leitora, improvável leitor. Tento imaginar seus olhos percorrendo estas mal digitadas linhas. Visualizo suas pupilas indo e vindo, despertas, acesas. A cena me comove. É de manhã. Nas suas mãos, um jornal de papel se abre sobre a mesa. O cheiro de café aquece o seu entorno. Torço para que você não desista do meu artigo já neste primeiro parágrafo, mas me falta convicção. Por motivos que vou explicar, você é um ente que some na bruma da História. Em tempo: você ainda está aí?

Sob o risco de pedantismo, lembro uma passagem de Hegel que tem sido citada amiúde. Num dado momento entre 1803 e 1805, o pensador da dialética anotou que a leitura do jornal seria uma “oração matinal realista”, ou, em outra versão, a “oração matinal do homem moderno”. Penso nisso quando penso em você.

Hegel sempre teve parte com a razão. Nessa nota em especial, tinha razão de sobra. Há dois séculos, o noticiário e os artigos de fundo davam o contexto em que se movia o cidadão da modernidade, esse amuleto da utopia liberal. Acima da palavra de Deus, o cidadão descrito por Hegel valorizava os fatos e os argumentos. Com base nas informações do dia, calibrava sua postura diante dos dilemas da política e dos impasses do mercado. Lendo as folhas impressas, ele se localizava.


Hoje, quando um motoqueiro empurra o exemplar de um diário para dentro da sua caixa de correio, alguma coisa do século 19 acontece no seu portão. A simples existência de alguém que toma pé dos acontecimentos antes de pôr o pé para fora de casa faz perdurar entre nós um resto do iluminismo. Um resíduo mínimo: esse alguém se tornou uma raridade. Nos nossos dias, uma pessoa com esse perfil, mais do que improvável, é uma relíquia de um realismo cívico pretérito, quase uma peça de museu.

Os meios impressos também tornaram-se uma raridade, mas isso não revoga a fórmula de Hegel. Você, desde que existente, pode muito bem ver as notícias numa tela de celular e, ainda assim, encarnar o “homem moderno” ou a “mulher moderna”. A única diferença é que, se você for mesmo um leitor ou uma leitora digital, a probabilidade de seus olhos terem me seguido até aqui se reduz impiedosamente. Na internet, o leitorado escapole na primeira vírgula. Um raciocínio mais longo, num arco de abstração estendido, como este meu aqui, espanta afreguesia. Jamais será trending topic. Na ciberesfera, a pressa aumenta e a paciência diminui. Falando nisso, cadê você?

Nenhum jornal do presente esconde a saudade dos leitores idos. A audiência debanda, e em ritmo acelerado. O discurso jornalístico, essa língua exótica falada pela imprensa, carece de olhos. O público invocado pelas manchetes não está mais aqui. Nem aí.

Se você olhar para a primeira página do seu jornal – ou para a home na tela do computador, tanto faz – vai notar que tudo ali parece gritar à procura de alguém em estado de inabalável prontidão cidadã: alguém que não se cansa de fiscalizar o poder, de protestar a todo fôlego e de exigir que consertem as instituições. Sim, trata-se de um tipo ideal: o leitor assim sonhado preza a democracia, tem cultura considerável e desprendimento de espírito. Se as evidências desmentem suas presunções, ele muda o ponto de vista e evolui, sem dramas.

Esse tipo ideal não deve ser entendido como uma pessoa, não é bem isso. Ele é, antes, uma das dimensões que habitam o interior de cada pessoa. Explicando melhor: o ser leitor é uma dimensão ao lado de outras dimensões dentro da mesma subjetividade, como a dimensão do torcedor de um time, a do ser místico (umbandista, católico, budista, etc.), a do ser profissional, a do cônjuge ou do celibatário. O ser leitor de jornal é uma dimensão a mais. Nosso trauma é que ela entrou em declínio – dentro de você, inclusive.

Você cobra notícias isentas. Disso já sabemos. Mas você sabe ler as notícias com isenção? Você lê com a curiosidade de quem quer aprender? Ou você lê, quando lê, com o único propósito de patrulhar a opinião alheia? Você posta emojis de caretinhas ferozes em links de textos jornalísticos? A sua relação com o noticiário é pensante ou é pautada pelas mesmas emoções que você experimenta numa celebração mística, num estádio de futebol ou no cinema? Ao ler o jornal, você é um cidadão hegeliano ou um devorador de sensações?

O discurso dos jornais se dirige a um adulto livre, racional e responsável: o titular do direito à informação. Há dois séculos, esse adulto moderno foi consagrado cidadão e deflagrou a ascensão da imprensa. Agora, o sumiço do mesmo cidadão, diluído no entretenimento e no fanatismo, faz eclodir a crise da imprensa. Por isso pergunto: você existe? Ou será que escrevo aqui para uma ficção? Ou para ninguém?

Nota: Sabemos que os jornais passaram a ser lidos por dispositivos de inteligência artificial a serviço dos algoritmos. Se você for uma simples máquina, desconsidere, por favor, os parágrafos acima. Não são para você. Da sua existência eu não duvido nem um pouco. Você não apenas existe – você se expande. Eu estava pensando em gente de carne e osso, gente que evanesce. Eu tinha na cabeça uma quimera.

O Natal antes do Natal. O peso invisível da pressão de estar feliz

Há uma altura do ano em que as pessoas começam a falar mais alto, as lojas brilham mais do que o necessário e a playlist do supermercado decide que estamos felizes, mesmo que não estejamos.

Ainda nem chegámos ao Natal, mas já estamos a viver num ensaio geral permanente com luzes ligadas, euforia suposta, expectativas a subir…E nós, no meio disto, a tentar perceber se o que sentimos é espírito natalício ou só cansaço acumulado.

A verdade é que existe um Natal antes do Natal e é aí que muitos de nós começamos a tropeçar emocionalmente. Não porque falte vontade, mas porque sobra pressão. A pressão de parecer animado, disponível, radiante; de estar “no mood”; de corresponder a um entusiasmo que nem sempre é sentido.

Depois, ainda há o Natal que imaginamos e o Natal que realmente temos.

Na imaginação, tudo é bonito, alinhado e afetuoso. Na vida real, o Natal chega com tensões antigas, logísticas impossíveis, saudades de quem falta, famílias que não “cabem” bem na mesma mesa, crianças excitadas, adultos exaustos e relações que sobrevivem em silêncio.

Há magia, sim. Mas também há ruído, cansaço e um aperto silencioso.

Como se não bastasse a exigência emocional, dezembro acrescenta outra: a obrigação de estar feliz.

Clinicamente, chamamos-lhe dissonância emocional, quando o que sentimos não combina com o que achamos que devíamos sentir. Gera culpa, irritabilidade, comparação constante. “Porque é que eu não estou tão feliz como os outros?” Porque talvez os outros também não estejam. Só não dizem.

Nesta espiral de imposições ainda há o consumismo emocional, que nesta época atinge o seu pico.


Compramos para aliviar. Compramos para compensar. Compramos para não sentir culpa. Compramos porque “é só mais um presente”. No final da lista percebemos que na maioria das vezes não compramos coisas, compramos segundos de dopamina. Funciona por instantes, depois passa e ficamos nós… e a fatura.

Tudo isto acontece enquanto tentamos gerir o excesso: tarefas, jantares, planos, expectativas, tradições, comparações.

Não é falta de espírito natalício. É o sistema nervoso a avisar que talvez estejamos a pedir mais do que conseguimos dar.

O que fazemos com este pré-Natal emocionalmente exigente?

Talvez possamos começar por baixar a guarda.

Lembrar que alegria não é obrigatória. Que o Natal perfeito não existe. Que dizer não é saudável. Que presença não substitui amor e presentes menos ainda. E que sentir-nos mais lentos, mais silenciosos ou mais cansados não significa falhar… significa ser humano numa época que pede demasiado.

Entre o Natal ideal e o Natal real existe um espaço possível com menos ruído, mais verdade, menos exigência e mais empatia.

Talvez seja isso que este Natal nos pede. E talvez seja suficiente.

Concentração de renda: 10% mais ricos têm 75% da riqueza, e metade mais pobre fica com 2%

A desigualdade de riqueza no mundo atingiu o maior nível em três décadas. Os 10% mais ricos da população detêm hoje 75% de toda a riqueza global, enquanto a metade mais pobre fica com apenas 2%. Quanto mais se sobe na pirâmide, a concentração é maior: menos de 60 mil pessoas — um grupo seleto que pertence ao 0,001% mais ricos, que caberia dentro de um estádio de futebol — têm três vezes mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas.

É o que apontam os dados da terceira edição do Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026, elaborado por um grupo de pesquisadores da rede World Inequality Lab, liderado pelo economista francês Thomas Piketty.

O estudo considera riqueza como o patrimônio líquido das pessoas. Isso inclui a soma de ativos financeiros, como ações e títulos, e não financeiros, como imóveis e terras, já descontadas as dívidas.

A concentração também aparece quando se observa apenas a renda, e não o patrimônio. Nesse caso, os 10% mais ricos do mundo ficam com 53% da renda global, enquanto a metade mais pobre recebe apenas 8%. Já os 40% do meio detêm 23% da riqueza e 38% da renda global.

O relatório mostra que, nos últimos 30 anos, a riqueza cresceu em ritmo muito mais acelerado entre aqueles que já estavam no topo. A parcela da riqueza pessoal detida pelo 0,001% mais rico aumentou de 3,8% em 1995 para 6,1% em 2025.

A fatia dos 50% mais pobres, por sua vez, teve um leve avanço no fim dos anos 1990, mas está estagnada desde o início dos anos 2000 em torno de 2%.

Os economistas também analisaram como as políticas públicas podem reduzir a desigualdade, e identificaram que a tributação progressiva, mas especialmente as transferências de renda, tiveram papel pra minimizar parte da desigualdade considerando dos anos 1980 até hoje.

Na Europa, América do Norte e Oceania, impostos e programas redistributivos reduziram a desigualdade em mais de 30%. Na América Latina, políticas adotadas após os anos 1990 também provocaram avanços.

Segundo o estudo, na Europa, América do Norte e Oceania, impostos e programas de transferências reduziram consistentemente as disparidades de renda em mais de 30%. Na América Latina, as políticas redistributivas introduzidas após a década de 1990 também provocaram avanços.

Mas o efeito tem limites, conforme aponta o estudo. As políticas redistributivas não conseguiram compensar o aumento acelerado da riqueza no topo da pirâmide, aonde a tributação não chega.

O relatório mostra que, na prática, os bilionários e centimilionários pagam proporcionalmente menos impostos do que famílias com rendas muito inferiores. As alíquotas efetivas sobem para a maior parte da população, mas despencam entre os ultrarricos.
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“Esse padrão regressivo priva os Estados de recursos para investimentos essenciais em educação, saúde e ação climática. Também prejudica a justiça e a coesão social, diminuindo a confiança no sistema tributário”, dizem os autores.

Em conversa com jornalistas, Piketty alertou para a piora da desigualdade nos próximos anos, especialmente no Sul Global. Ele lembrou que muitos países pobres gastam mais com juros da dívida do que com educação e saúde somadas. E, tanto países ricos quanto emergentes, têm evitado aumentar a tributação sobre os grupos mais ricos.

— Precisamos fazer com que os grupos mais ricos contribuam, particularmente no Norte, mas também no Sul, onde temos contribuintes bastante ricos no Brasil, na África do Sul e na Índia que também precisam contribuir. Essa é a única solução — avaliou.

O economista francês observou que algumas iniciativas vindas do Sul Global tentaram chamar atenção para o tema. Ele lembrou que o Brasil, sob a presidência do G20 no ano passado, pressionou por um imposto mínimo global sobre a riqueza, enquanto a África do Sul sugeriu a criação de um painel internacional sobre desigualdade.

— E a realidade é que os países europeus não responderam de fato. Certamente havia alguns menos hostis do que Donald Trump, o que é uma boa notícia, mas, no fim das contas, tanto a Europa quanto os EUA simplesmente ignoram essa demanda vinda do Sul Global — destacou.

O relatório apresenta três propostas de tributação global sobre altas fortunas. A mais moderada, que prevê um imposto anual de 3% sobre cerca de 100 mil bilionários e milionários, calcula que poderia ser arrecadado US$ 750 bilhões por ano, valor equivalente a todo o orçamento global de educação de países de baixa e média renda.

Num cenário mais modesto, um imposto de 2% sobre patrimônios acima de US$ 100 milhões já seria capaz de trazer uma receita de US$ 503 bilhões por ano, o equivalente a 0,45% do PIB mundial, destacam os economistas.

Já uma tributação de 5% arrecadaria, por ano, US$ 1,3 trilhão, o que representa 1,11% do PIB mundial.

Segundo os autores, tributar uma parte das fortunas daria aos governos mais capacidade fiscal para enfrentar desafios estruturais — seja da educação, saúde ou até transição climática —, sem aumentar o ônus sobre a classe média ou os mais pobres.
Carolina Nalin e Mayra Castro

O Congresso contra o Brasil

Justamente no momento no qual o Brasil tenta reassumir um papel de liderança internacional na agenda ambiental e climática, o Congresso – dominado por forças conservadoras, ruralistas e setores alinhados à extrema direita – age para sabotar o país. A derrubada dos vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL 2.159/2021 representa um dos maiores retrocessos ambientais desde a redemocratização. Não à toa, o texto ficou conhecido como "PL da Devastação ".

E não são apenas os movimentos ambientais que soam o alarme. Também a Anistia Internacional, setores da Igreja Católica, pesquisadores, cientistas e um relator especial da ONU alertam para as consequências da proposta.

O discurso tenta vender a ideia de "modernização" das regras de licenciamento ambiental . Mas o conteúdo real do projeto revela outra lógica: acabar com os estudos de impacto ambiental e social, justamente o coração de qualquer sistema democrático de proteção ambiental. Pela nova regra, empresas poderão "autorizar" seus próprios empreendimentos por meio de simples autodeclarações: sem análise técnica independente, sem transparência pública e sem participação da sociedade. É a porta aberta para abusos, fraudes e destruição acelerada.


A supressão da participação social é um dos pontos mais graves. Povos indígenas, comunidades quilombolas e populações tradicionais perdem não apenas o direito à consulta, mas também o acesso a informações que lhes permitiriam contestar violações. Sem estudos prévios, resta um vácuo institucional no qual interesses privados passam a prevalecer de forma absoluta.

O PL 2.159/2021 não enfraquece apenas o licenciamento: ela fragiliza pilares elementares do Estado Democrático de Direito.

O impacto concreto pode ser ilustrado de forma simples: imagine um empresário adquirindo uma vasta área numa terra indígena ainda em processo de demarcação – processo conhecido por sua lentidão burocrática e vulnerável à pressão política. Com a nova legislação, bastará uma autodeclaração para desmatar, converter o território em pasto ou instalar monoculturas de alta degradação. Erosão do solo, contaminação de rios, perda de biodiversidade, agravamento do calor e redução das chuvas – todos esses efeitos deixam de ser analisados. E o modo de vida das populações originárias simplesmente desaparece do mapa.

O ataque legislativo recai principalmente sobre dois biomas cruciais: Amazônia e Cerrado . Ambos já enfrentam pressões históricas; ambos desempenham funções ecossistêmicas essenciais para o regime de chuvas no Brasil e para o equilíbrio climático global. Essa regressão normativa, além de colocar o país no caminho da devastação interna, prejudica os esforços internacionais para limitar o aquecimento global.

A ironia é que até o próprio agronegócio será a vítima. A ciência é unânime: o aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a intensificação das secas afetarão profundamente a produtividade agrícola. Hoje, cerca 60% das terras agrícolas brasileiras já apresenta algum nível de degradação. Projeções indicam que esse número pode chegar a quase 75% até 2060, com prejuízos bilionários. A bancada ruralista está destruindo a base material de seu próprio negócio.

No plano jurídico, a perplexidade é igualmente grande. O PL cria insegurança ao invés de solucioná-la: fragmenta competências entre União, estados e municípios; elimina parâmetros mínimos; abre brechas para interpretações contraditórias; e estimula um ambiente normativo caótico. Essa desorganização não é um acidente, mas arte do objetivo central: criar um cenário em que fiscalização se torne inviável. As comunidades tradicionais ficaram expostos a uma anarquia de um capitalismo sem regras.

Não surpreende, portanto, que o Supremo Tribunal Federal (STF) deva ser acionado. Há sólidos argumentos constitucionais para questionar a PL, sobretudo sua violação ao princípio da proibição do retrocesso ambiental que impede o Estado de desmontar proteções essenciais sem motivação constitucional robusta.

Mas talvez o aspecto mais estarrecedor seja outro: o PL 2.159/2021 representa o oposto do que a sociedade brasileira quer. Pesquisas de escala nacional mostram 94% dos brasileiros reconhecem que o aquecimento global é real e já sentem os efeitos das mudanças climáticas, 74% afirmam que a proteção ambiental deve prevalecer sobre o crescimento econômico; mais de 90% consideram fundamental a defesa da Amazônia, mais de 80% da população mundial exige ações mais firmes dos governos em defesa do clima.

Em outras palavras, a população brasileira apoia de forma esmagadora a proteção ambiental. Quem sabota essa agenda é o Congresso, uma instituição hoje blindada contra a vontade popular, capturada por interesses privados e dominada pelas mesmas oligarquias que, há décadas, impõem seus privilégios ao país: homens brancos, ricos, herdeiros de clãs políticos e representantes de setores econômicos poderosos.

O paradoxo persiste: uma sociedade que defende massivamente a natureza e um Parlamento que age sistematicamente para destruí-la. A pergunta inevitável ecoa: por que o país continua elegendo representantes que não refletem seus valores nem seus interesses de longo prazo? Trata-se de um dos enigmas mais persistentes do cenário político brasileiro contemporâneo.

O mundo mais autoritário

A constatação é triste: 72% da população mundial vive hoje em países não democráticos, ditaduras ou autocracias eleitorais. Na última década, as ditaduras subiram de 22 para 33, enquanto os sistemas democráticos caíram de 44 para 32. Sobe também o número de democracias falhas, um modelo híbrido que abriga componentes de regimes autocráticos e democráticos, onde ocorrem falhas na aplicação de princípios e valores, como liberdade de imprensa, independência entre os Poderes, repressão policial, ameaças de golpes, integridade do sistema eleitoral, entre outros.


Tal constatação tem como fonte uma pesquisa feita pelo instituto sueco V-Dem, da Universidade de Gotemburgo. A escalada autoritária é uma ameaça ao equilíbrio entre as nações. Nos últimos tempos, o planeta vive sob o temor de uma nova Guerra Fria, que poderá ser o estopim de um conflito de proporções mortíferas para a humanidade. China e Rússia, juntas na estratégia de eliminar o poderio ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos, e tendo como pano de fundo a tragédia que se abate sobre a Ucrânia, empurram o planeta na direção do precipício. Semana passada, vimos Vladimir Putin, o todo poderoso mandatário-mor da Rússia, falar alto: “Se a Europa quiser guerra, estamos prontos”.

Afinal, o que ocorre com as democracias? Estão morrendo? Assistem, inertes, ao desvanecimento de sua base? Não têm resistido ao volume crescente da violência, que invade os ares da liberdade? A luta do poder pelo poder, sem as luzes das ideologias e doutrinas, seria uma volta ao nosso passado ancestral?

São questões cruciais. Que já mereceram análises de cientistas políticos. A afamada obra Como as democracias morrem, dos professores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, faz importante observação para entendermos a vida contemporânea. A tese principal dos dois autores é a de que os sistemas são corrompidos por meio da perversão do processo legal, significando que os governos legitimamente eleitos subvertem os meios que os levaram ao poder.

Na América Latina, basta ver os golpes militares, no Brasil (1964), na Argentina (1966), no Chile (1973), no Uruguai (1976) e os movimentos de tendência golpista, que ocorrem aqui e ali, a escancarar a instabilidade das instituições representativas, a militarização da vida política e o cerceamento da liberdade política e de expressão.

Até a maior democracia ocidental, a norte-americana, tem sofrido ameaças, a partir da eleição de Donald Trump e sua pregação antidemocrática. Ali, nunca se viu tanta pregação contra os eixos da democracia.

A crise, como se sabe, é crônica, se arrasta há tempos. E onde estão suas raízes? Norberto Bobbio, o cientista social e político italiano, em sua clássica obra O futuro da democracia, levanta a questão: as democracias não têm cumprido seus compromissos para com as comunidades.

Promessas não cumpridas caracterizam uma sociedade pluralista, com seus vários centros de poder, com o domínio das oligarquias que procuram preservar suas tradições e, ainda, com a força do poder invisível, que age nos subterrâneos do poder visível, representado pelo Estado. Basta ver a expansão das gangues e do crime organizado, hoje presentes em praticamente todos os países da América Latina. Calcula-se que cerca de 40% dos homicídios globais estão ligados ao crime organizado e à violência de gangues, que são prevalentes nas três Américas.

A incultura política campeia. Bobbio é enfático: a apatia política chega a envolver cerca da metade dos que têm direito a voto. É pouco. Em nosso Brasil, a imensa maioria do eleitorado ainda vegeta no terreno que se chama de “cidadania passiva”.

As promessas não têm sido cumpridas por causa dos obstáculos e desafios impostos por uma sociedade que saiu de uma economia familiar para uma economia de mercado, ou seja, uma economia planificada, que abriu a era do “governo dos técnicos”, e trouxe, em seu arcabouço, sérios problemas como desemprego, inflação, aumento das desigualdades, competição desvairada, violência.

O rendimento do Estado democrático sofre queda e, em muitos países, os sistemas governativos tornam-se ingovernáveis. As tensões entres Poderes (caso do Brasil) contribuem para a instabilidade institucional. As ingerências de um Poder sobre outro se tornam constantes, a ponto de se considerar que funções legislativas são absorvidas pelo Poder Judiciário, como ocorre, hoje, por nossas bandas. Basta olhar para a recente querela entre o STF e o Senado Federal e sua acusação recíproca de invasão de competências.

O STF até parece uma gigantesca delegacia de polícia, a julgar vândalos. O Poder Executivo, por sua vez, encabresta o Poder Legislativo, com sua articulação para cooptar parlamentares com liberação de recursos e outros meios de atração, como cargos e espaços na estrutura administrativa.

Em um ensaio alentado, os professores e pesquisadores Fernando Limongi e Angelina Figueiredo explicam: “O padrão organizacional do Legislativo brasileiro é bastante diferente do norte-americano. Os trabalhos legislativos no Brasil são altamente centralizados e se encontram ancorados na ação dos partidos. Ademais, enquanto o presidente norte-americano possui limitados poderes legislativos, o brasileiro é um dos mais poderosos do mundo. […] da mesma forma, não é possível desconsiderar os poderes legislativos do presidente”.

O fato é que o exercício da governança se torna cada vez mais complexo. Os interesses grupais e individuais suplantam as demandas coletivas. A conquista do poder, a qualquer custo, é a meta que transforma a política em uma arena de lutas. Sob essa paisagem conflituosa, golpes, insurreições, movimentos de ruptura, ancorados nos quartéis e nas armas, são os novos componentes que corroem os vãos e desvãos das democracias, tornando o mundo mais autoritário.