segunda-feira, 13 de abril de 2020

'Quovadis-19?'

Eu, na minha pessoa, pessoal e intransferível, Agamenon Mendes Pedreira, o jornalista mais inativo em atividade no Brasil, continuo resistindo ao coronavírus. Inclusive dando furos. Poucos sabem, mas fui eu o primeiro jornalista a dizer que “fui eu o primeiro a dizer” e também fui o primeiro a declarar “esta semana vai ser a pior”.

Já enfrentei muitas tragédias, inclusive a gripezinha espanhola, uma moléstia que começava entre os seios das mulheres do sexo feminino. Também sobrevivi a todos os governos que sugam o sangue dos brasileiros muito mais que o mosquito da dengue, este injustiçado e que, agora, por conta da COVID-19, zumbe em completo ostracismo, coitado.

Estou fazendo tudo que mandam os médicos, especialmente o Dr. Dráuzio Varíola, que me confidenciou que “COVID-19 no Carandiru dos outros é refresco”.

O Papa Francisco em pessoa ligou direto para o Vaticano para me informar que está fazendo uma revisão completa da Bíblia Sagrada de cabo a rabo. Além de reescrever o Apocalipse trocando o 666, o número da Besta, pelo 17.

O Sumo Pontífice também está reescrevendo os Evangelhos, principalmente aquela passagem em que o Pôncio Pilatos lava as mãos. O novo texto sagrado não só absolve o tribuno romano de omissão como também recomenda seguir o exemplo do governador da Judeia: lavar as mãos obsessivamente com água e sabão, sem esquecer o álcool em gel. Por falar nisso, parem de dar esmola pra mendigo que eles acabam gastando tudo em álcool gel para encher a cara, as mãos e outras partes remotas de sua anatomia pedinchona.

É claro que este não é o meu caso, já que parei de beber (e comer) faz tempo. Além do mais, álcool em gel e máscaras protetoras sumiram das prateleiras assim que se tornaram obrigatórios, fato comum no Brasil onde os “riscos” ficam cada vez mais “riscos” e os pobres cada vez mais pobres.

E já que estamos nessa vive de trocadilhos infames, o ministro Manetta avisou que quem tiver mais de 60 anos e ganhar mais de 1000 salários mínimos vai fazer parte do “grupo de ricos”, com direito a UTI e respirador artificial particular.

Cloroquina então, nem pensar. O milagroso medicamento virou uma espécie de caviar malossol do tipo beluga, tanto que que não é mais vendido em farmácias, mas pode ser encontrado nas lojas H. Stern e na Deli Gil da Cobal do Leblon.

E fica a pergunta que não é de um milhão de dólares mas de 600 reais: cadê o meu Bolsa Vírus? Onde vou pegar essa grana? Para provar que sou um desassistido desabonado, já pedi um atestado d’O Antagonista comprovando que nunca me foi pago um tostão pelos meus textos. Para assinar o documento, o meu amigo Diogo Mainardi me cobrou 200 euros, em quatro prestações de 50 sem juros no cartão. Claro que não vou pagar.

Aliás, na fila para se cadastrar como miserável, encontrei atrás de mim um juiz do STF e na minha frente o presidente de um grande banco. Todos respeitando a distância higiênica de 3 metros.

Só não entendo uma coisa: essa campanha de que nenhum brasileiro pode ir pra rua. Como assim? Há tempos que mais de 13 milhões já foram mandados pra rua e de lá não tem mais pra onde ir.
Felizmente também existem as boas notícias e a humanidade continua surpreendendo. Por conta da pandemia, a picaretagem não acabou. Ao contrário, está cada vez mais forte e vigorosa comprovando que é imune ao coronavírus.

Todas as empresas (até os bancos! Pasmem!) viraram bonzinhos e solidários. Mesmo as séries da Netflix ficaram boas de uma hora pra outra. Enquanto isso, o lixo cultural está se acumulando nas ruas porque os lixeiros também resolveram fazer home office.

Por falar em home office, a minha patroa, a Isaura, já adotou essa nova prática de exercício profissional: continua servindo a sua famosa rabada para os entregadores de delivery, técnicos da NET, leiteiros e padeiros, que fazem uma fila para serem atendidos também obedecendo rigorosamente os 3 metros de distância profilática.

Atenção: leiam cuidadosamente estas mal traçadas linhas porque eu sempre fiz questão de dar a última palavra: ZWINGLIANO.

Podem checar no dicionário.
Agamenon Mendes Pedreira já tomou 6 doses da vacina antigripe porque é “de grátis” 

Gripezinha de 'arrependimento'

Se arrependimento matasse... Nunca matou. está mais para "gripezinha" do que para coronavírus. É não ter o que falar da própria burrice, ou do egoísmo, da desigualdade de classe, da falta de cultura poítica, da inteligência microscópica e da própria insignificância.

O "bolsonarismo arrependido" é uma mascarada. Em preces para excomungar o coronavírus de casa, esconde no armário aqueles ideais de autoritarismo e de segregacionismo, e no sangue a desigualdade social, racial e de gênero. É mau caráter de berço que aplaude qualquer Sassá Mutema como ovacionou Collor e se prestou nacionalisticamente para cantar "Pra frente Brasil", quando nas prisões ditatoriais baixavam no pau-de-arara inocentes que apenas cometeram a condenação da ditadura.

Os "arrependidos" queriam o fim da corrupção para livrar o país da praga, elegendo quem usava laranjas e fazia escancaradamente rachadinha em gabinetes políticos. Para a limpeza ética, convocaram os igualmente sujos. E fiéis seguidores da milícia, usaram a tropa para arrebanhar votos.

Aplaudiram os planos mágicos de uma economia de privilégios ao dinheiro para quem o país melhoraria se os fundos de proteção ao trabalhador fossem limpos, seus salários achatados. Como agora, defendem a redução salarial nas empresas com a redução do trabalho, mas descartam qualquer medida idêntica na privilegiatura do serviço público.

Os "arrependidos", diante da pandemia, são a cara daqueles alemães das cidades próximas levados pelo Exército norte-americano para conhecer os campos de concentração bem debaixo de seus narizes. Faziam cara de horror, punham lenço no nariz para tapar a podridão, e na cara de pau diziam desconhecer as atrocidades contra os judeus. Mas as suas cidades muitas vezes eram cobertas de fumaça de cheiro estranho (carne e osso queimados) e fuligem dos crematórios funcionando dia e noite.

Se arrependimento matasse para valer, ao menos serviria para fazer uma limpeza com milhares de suicídios por vergonha na cara. No Japão, o seppuku é a solução dos verdadeiramente envergonhados por mancharem a honra dos ancestrais e familiares em crimes como corrupção ou improbidade administrativa.

Quem acredita que isso aconteceria no Brasil? Resta apenas o arrependimento de carteirada. Em redes sociais e na própria mídia, multiplica-se esse vírus da falta de vergonha, que felizmente não pega, mas é cúmplice por mais que queira se esconder agora entre os mortos, os doentes, os necessitados e todo o sofrimento.
Luiz Gadelha

O bêbado e a borboleta

No livro "O revólver que sempre dispara" (Casa Amarela), Emanuel Ferraz Vespucci analisa as causas, os comportamentos e as consequências para a saúde de diversas dependências químicas, inclusive o alcoolismo e o tabagismo. É um livro despido de preconceito e, do ponto de vista clínico, como não poderia deixar de ser, serve de referência para os que lidam com o problema: usuários em busca de tratamento, seus familiares e terapeutas. O livro explica de maneira clara como as diversas drogas causam dependência física e psicológica, os problemas que acarretam e as maneiras de enfrentá-los, sem moralismo. A perda de controle sobre o álcool, a cocaína, o crack, a maconha, morfina, calmantes, inibidores de apetite e outros psicotrópicos é um problema muito mais amplo do que se imagina.

A dependência funciona como uma roleta russa. Em algum momento a bala que está no cilindro do revólver será disparada, na medida em que o sujeito arrisca mais uma vez. Ou seja, o acaso tem um limite, quanto maior a frequência, maior a probabilidade de ocorrência. Por causa da dependência, algo grave acontecerá na vida da pessoa, pode ser um acidente de carro, a perda do emprego, um surto psicótico, um infarto.

O que interessa aqui é a analogia da roleta-russa, ou seja, do revólver que sempre dispara. Durante a pandemia de Covid-19, por causa do risco de contaminação, sair de casa é uma espécie de roleta russa, mesmo que a pessoa utilize máscaras e luvas. Acontece que o presidente da República — com o objetivo declarado de desmoralizar a política de distanciamento social preconizada pelas autoridades médicas, inclusive seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e responsabilizar governadores e prefeitos pela recessão econômica — resolveu sair às ruas com frequência e, nesses passeios, visitar o comércio local para estimular proprietários e consumidores a manterem uma vida normal. Bolsonaro ignora uma epidemia que está matando mais de 100 pessoas por dia no Brasil, o equivalente a um desastre de grandes proporções.


Desafiar o novo coronavírus se tornou uma espécie de obsessão para o presidente, que se comporta como quem adquiriu imunidade contra a doença, como acontece com aqueles que já foram contaminados, se recuperaram e adquiriram anticorpos ou que, por qualquer outra razão, têm uma sistema imunológico mais robusto, geralmente mais jovens. Não se sabe se o presidente está imunizado; ele se recusa a revelar os resultados dos exames que fez. Bolsonaro age como um jogador compulsivo, o que não deixa de ser uma dependência, sem levar em conta que a maioria das pessoas não está preparada para lidar com o aleatório.

É aí que chegamos a "O andar do bêbado" (Zahar), o instigante livro do físico Leonard Mlodinow, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, sobre o acaso na vida das pessoas, ou melhor, sobre como funciona a aleatoriedade. O novo coronavírus se multiplica como um “Efeito Borboleta”, descoberto em 1960, pelo matemático Edward Lorenz, base para a Teoria do Caos. Mostra como pequenas alterações nas condições iniciais de grandes sistemas podem gerar transformações drásticas e significativas.

Lorenz, que também era meteorologista, realizava cálculos relacionado a padrões climáticos num computador. Em vez de colocar 0,000001, conforme fez na primeira vez, ele colocou 0,0001, alterando completamente o resultado da simulação, como se o bater de asas de uma borboleta na Austrália provocasse um furacão no Caribe. Foi o que aconteceu com o coronavírus na Alemanha e na Coreia do Sul, países que mais bem monitoraram a epidemia e conseguiram mantê-la sobre controle, com testes em massa e hospitalização dos contaminados. No primeiro caso, bastou que uma pessoa contaminada usasse o saleiro num almoço de família para a epidemia se propagar; no segundo, um único paciente, de 30 casos confirmados, escapou do isolamento e disseminou a doença.

Na Sexta-feira da Paixão contabilizamos 1.056 mortes e 19.638 casos confirmados, 44 dias após o primeiro caso registrado no país e 24 dias depois do registro da primeira morte. São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas estão em risco de colapso do sistema de saúde pública. Numa hora em que o país precisa de coesão social e alinhamento das políticas de combate ao novo coronavírus, para evitar o colapso do sistema de saúde, Bolsonaro aposta na auto-imunizaçao pelo contágio e num medicamento de eficácia limitada nos tratamentos, a hidroxicloroquina, para evitar as mortes, e prega a retomada imediata das atividades econômicas, com adoção do chamado isolamento seletivo ou vertical. Essas apostas foram feitas em outros países, como os Estados Unidos, Inglaterra e Japão, e fracassaram.

'Nautilus' para navegar nestes tempos


Uma loteria macabra

Estranho quem ainda não acredita no poder letal do Covid-19 como se fosse – como se alguém pudesse ser – totalmente imune a ele neste momento entre os mais terríveis da história recente da humanidade. Aposto que apostam em ficarem ricos nas loterias onde realmente a chance de ganhar é uma entre muitos milhares, milhões. Nela acreditam; até pagam por isso. A maior desgraça mundial hoje, além do vírus, é a ignorância, e que aqui no Brasil há anos contamina nossos dias
Tenho tido terríveis crises de ansiedade, que culminam com palpitações, dores de cabeça, pensamentos desencontrados e preocupados, medos e angústias, além de uma revolta especial com ignorantes, que antes até conseguia suportar com alguma paciência, mas que hoje atingem também a minha saúde. Começo com essa afirmação porque creio firmemente que o momento é de sermos sinceros uns com os outros, trocarmos ideias, sensações. Que a gente ponha para fora o que sentimos, em prol até de ao menos mantermos um mínimo de sanidade mental. Estamos – e agora a expressão parece fazer sentido – dentro de caixas, nossas casas, isolados. E mesmo que não totalmente sós me parece que nunca vivemos de tal forma bruta essas sensações todas e elas são totalmente individuais. Difíceis de serem descritas, mas que atingem e por mais que queiramos nos fazer de fortes.

Como você está? – pergunto. Embora não possa ajudar muito e a cada dia esteja mais claro que não temos a menor noção do que realmente ocorrerá nem na hora seguinte, nem no dia seguinte, nem quanto tempo levará. Os inimigos se multiplicam, além do contágio: os boletos chegando, empregos partindo, notícias de um mundo todo em looping contando diariamente mortos às centenas, e especialmente aqui no Brasil a ameaça constante de um governante absolutamente alucinado atrapalhando o serviço de quem está na linha de frente: seus próprios ministros, autoridades em saúde, profissionais, cientistas, imprensa.


Aqui não se trata mais – incrível – de aversão, que é total, de política, direita, esquerda, vitória, derrota, mas chamar a atenção para o caminho que as coisas rapidamente tomarão se mantida essa perigosa toada. Um presidente que dissemina notícias falsas, que atiça confrontos, que alimenta um gabinete de ódio formado por seus filhos e aconselhadores do mal, próximos. Um homem incapaz de movimentos de união, mas capaz de provocar e comandar atos e pronunciamentos que, se mantidos, certamente ou levarão a uma insurgência jamais vista ou a uma desumana catástrofe social. Capaz, como o fez agora, de conclamar o país para um jejum (!) religioso quando dele se esperam determinações, sim, mas para acabar com a fome que já faz roncar barrigas entre os humildes, miseráveis, as primeiras vítimas da desorganização nacional empurrada anos a fio.

Não é normal, gente. Algo precisa ser feito, não sei se é possível interdição, camisa-de-força, forçar renúncia ou impeachment. Ou pedir, em uníssono, com panelas, gritos ou o que quer que seja, que se cale. Que deixe em paz quem está no campo da guerra.

Dele não se ouviu até agora uma só palavra de alento, apenas ironias desrespeitando as centenas de famílias já em luto, algumas com várias perdas ligadas entre si.

Dele não se ouviu até agora uma palavra contra os aproveitadores que cinicamente aumentam barbaramente os preços, somem com insumos. Nenhuma de suas ordens veio para acabar com os abusos, ou para proteger quem precisa. Vive apenas de suas próprias alucinações, rompantes, daquela meia dúzia que diariamente vai saudá-lo no cercadinho improvisado do Palácio, criando fatos que alimentam robôs, que por sua vez alimentam a ira dos ignorantes.

Dele não se ouviu até agora nada que preste.

O inimigo é um vírus que se respira, invisível. Ainda indomável e desconhecido, mutante. Nos Estados Unidos já há mais mortes do que no 11 de setembro. Aqui já há mais mortes do que em quedas de Boeings, barragens rompidas, desabamentos, enchentes. É mais do que uma guerra, necessitando armas diferentes, e guerras não escolhem idades. Todos atingidos – inclusive o bem maior, a liberdade.

A situação ainda está em andamento, advertem os especialistas de todo o mundo que buscam correr para conter, evitar o pior quadro que se aproxima, mais crítico ainda em vários locais onde líderes ousaram desafiar a realidade e que agora apenas correm para não serem julgados pela História como genocidas.

Precisamos continuar no jogo. E para isso marcarmos e seguirmos os passos corretamente, para que não saia ainda mais cara essa loteria em que estamos metidos. Vamos ganhar esse jogo. Todos nós. Dividiremos o prêmio da vida.

Marli Gonçalves

Cenas de uma pandemia de 1.500 anos atrás que se repetem hoje

Uma pandemia que chegou do estrangeiro e que se espalhava rapidamente dos portos onde chegavam os passageiros infectados ― assintomáticos ou não ―, sem nenhum medicamento que pudesse pará-la, todos os habitantes confinados em suas casas para evitar contágios, a paralisação total da economia, o exército vigiando as ruas, médicos infectados trabalhando à exaustão, milhares de mortos diários sem enterrar durante “muitos dias porque os que cavavam já não davam conta...”. Não é a crônica do coronavírus que afeta o mundo em 2020. É o relato feito por Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que assolou o mundo conhecido entre 541 e 544: da China às costas da Hispânia. O estudo La plaga de Justinià, segons el testimoni de Procopi (A Praga de Justiniano, segundo o Testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, devolveu à atualidade esse relato de 1.500 anos atrás, com moral da história. “Em 1 de abril de 2020, determinadas semelhanças e paralelismos do comportamento humano frente a um vírus e suas consequências nos parecem tão próximas e atuais que, apesar da tragédia que estamos vivendo em primeira pessoa, nunca podemos deixar de nos maravilhar de como a história se repete” escreve a arqueóloga e historiadora do Institut de Recerca en Cultures Medievals (Instituto de Pesquisa em Culturas Medievais).


Em 541, durante o reinado do bizantino Justiniano, explodiu um surto de peste bubônica no império. “O alarme surgiu no Egito, onde a infecção se expandiu de modo rápido e letal”. Procópio falou sobre isso em seu livro História das Guerras, no qual relatou as campanhas militares de Justiniano pela Itália, África do Norte, Hispânia... e como os soldados espalhavam a pandemia pelos diversos portos em que chegavam, fundamentalmente da Europa, África do Norte, o Império Sassânida (Pérsia) e, de lá, à China.

Procópio, como conselheiro do general bizantino Belisário, a quem acompanhou em suas campanhas, se transformou assim em “testemunha privilegiada” de uma pandemia que recebeu o nome de praga de Justiniano: “Foi declarada uma epidemia que quase acabou com todo o gênero humano da qual não há forma possível de dar nenhuma explicação com palavras, sequer de pensá-la, a não ser nos remitir à vontade de Deus”, escreveu o historiador bizantino. “Essa epidemia”, continuou, “não afetou uma parte limitada da Terra, um grupo determinado de homens e se reduziu a uma estação concreta do ano [...], e sim se espalhou e se alimentou em todas as vidas humanas, por diferentes que fossem as pessoas das outras, sem excluir naturezas e idade”. Desse modo, a doença não tinha limites, “até aos extremos do mundo, como se tivesse medo de que algum recanto escapasse”.

Um ano após ser detectada, a peste chegou à capital do Império, Bizâncio (atual Istambul), “assolando-a durante quatro meses”. “O confinamento e o isolamento eram totais”, descreve Sales Carbonell, “já que era mais do que obrigatório aos doentes. Mas também se impôs uma espécie de autoconfinamento espontâneo e intuitivamente voluntário para o restante, em boa parte motivado pelas próprias circunstâncias”. De fato, “não era nada fácil ver alguém nos locais públicos, pelo menos em Bizâncio, uma vez que todos os saudáveis ficavam em casa, cuidando dos doentes e chorando os mortos”, de acordo com Procópio. E o faziam “com roupas comuns, como simples particulares”, o que a historiadora da Universidade de Barcelona traduz com certa ironia “como o moletom da época”.

A economia, enquanto isso, desabou: “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todos os empregos e os trabalhos dos quais se ocupavam”. Mas ao contrário de hoje em dia, as autoridades foram incapazes de organizar serviços essenciais. “Parecia muito difícil conseguir pão e qualquer outro alimento, de modo que, para alguns doentes, o desenlace final da vida foi sem dúvida prematuro, pela falta de artigos de primeira necessidade”, escreveu o bizantino em História das Guerras. “Muitos morriam porque não tinham quem cuidasse deles”, já que as pessoas responsáveis pela emergência “caiam esgotadas por não poder descansar e sofrer constantemente. Por isso, todos se compadeciam mais delas do que dos doentes”.

Justiniano, pela situação desesperada, distribuiu “pelotões de guardas do palácio” pelas ruas e nomeou seu chefe de gabinete autorizado, que “com o dinheiro do tesouro imperial e até colocando de seu próprio bolso sepultava os corpos dos que não tinham ninguém que os ajudasse”. O próprio imperador se infectou, mas superou a doença e continuou governando durante mais uma década.

Os picos de mortalidade subiram de 5.000 a 10.000 vítimas por dia, e até mais. De tal maneira que, “ainda que em um primeiro momento cada um se ocupava dos mortos de sua casa, o colapso e o caos se tornaram inevitáveis e os cadáveres também eram jogados nas tumbas dos outros, às escondidas e com violência”. Mesmo os ilustres, lembra Procópio, “permaneceram insepultos durante muitos dias”, de modo que “os corpos se amontoaram de qualquer maneira nas torres das muralhas”. Não havia cortejos e rituais funerários para eles.

Quando por fim a pandemia foi superada surgiu, lembra a historiadora, um aspecto positivo: “Os que haviam sido partidários das diversas fações políticas abandonaram as críticas mútuas. Mesmo aqueles que antes realizavam ações baixas e malvadas deixaram, na vida diária, toda a maldade, uma vez que a necessidade imperiosa lhes fazia aprender o que era a honradez”, nas palavras de Procópio, ainda que após algum tempo voltaram aos velhos hábitos. “Esse ponto certo de poesia nos faz vislumbrar o otimismo e a esperança de que talvez nos permitam seguir em frente e não voltar a tropeçar novamente na mesma pedra”, finaliza a especialista com mais expectativa do que certeza.

Covid, 2020

Nosso modo de viver
é agora morrer
ou ver morrerem.
Raul Drewnick 

The Economist: 'Jair Bolsonaro se isola, no sentido errado'

Um a um, os negacionistas fizeram as pazes com a ciência médica. Apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública que a covid-19 representa. Dois são de destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. O terceiro é Daniel Ortega, ditador tropical da Nicarágua. O outro é o presidente eleito de uma grande - ainda que combalida - democracia. O esforço de Jair Bolsonaro para minar as iniciativas de seu próprio governo no combate ao vírus pode marcar o início do fim de sua presidência.

Desde que o novo coronavírus foi detectado pela primeira vez no Brasil, no final de fevereiro, Bolsonaro, um ex-capitão do exército que tem adoração pelos governantes militares, fez pouco caso da doença. Menosprezando seus efeitos como “só uma gripezinha”, ele disse que era preciso "enfrentar o vírus como homem, pô, não como moleque”. E acrescentou, num tom bastante consolador: “todos nós vamos morrer um dia”. Nos quinze meses desde sua chegada à presidência, os brasileiros se acostumaram às suas bravatas de machão e à sua ignorância em questões que vão desde a preservação da floresta amazônica até educação e policiamento. Mas, desta vez, o dano é imediato e óbvio: Bolsonaro juntou a retórica truculenta à sabotagem ativa da saúde pública.

Ele diz acreditar no “isolamento vertical”, na quarentena apenas para os brasileiros com mais de 60 anos, com o objetivo de limitar os danos à economia. Existem dois problemas nesse raciocínio. Os jovens também morrem de covid-19 (10% das vítimas no Brasil têm menos de 60 anos), e a imposição de uma quarentena desse tipo seria impossível.

Os governadores dos estados mais importantes do Brasil tomaram a frente e impuseram isolamento social utilizando seus próprios poderes. Bolsonaro encorajou os brasileiros a ignorá-los. Homem que teme traições e sente uma perpétua necessidade de provocar, ele recebeu com abraços e selfies seguidores que faziam uma manifestação contra o Congresso, em 15 de março. O presidente também lançou uma campanha incentivando as empresas a reabrirem as portas e pediu “jejum e manifestações” nas igrejas em 5 de abril. Ele cogitou decretar, ilegalmente, o fim do isolamento. E, por duas vezes, chegou perto de demitir seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, um médico conservador que se opôs publicamente ao clamor do presidente para afrouxar as restrições.

Ao que parece, Bolsonaro está com ciúmes da ascensão de um ministro que, segundo ele, “não tem humildade”.

Mesmo para seus próprios padrões, a recusa de Bolsonaro em cumprir seu dever primordial de proteger vidas foi longe demais. Grande parte do governo o trata como um tio inconveniente que apresenta sinais de insanidade. Os principais ministros, entre eles o grupo de generais que faz parte do gabinete, bem como os presidentes das duas casas do Congresso, deram apoio ostensivo a Mandetta, que também tem a população ao seu lado. Uma pesquisa realizada neste mês pelo Datafolha apontou que 76% dos brasileiros aprovam a maneira como o Ministério da Saúde vem combatendo o vírus. Em comparação, 33% aprovam o gerenciamento da crise por Bolsonaro.

Os clamores pela renúncia de Bolsonaro aumentaram. E não apenas na esquerda, mas também entre alguns de seus antigos aliados, como Janaina Paschoal, deputada estadual por São Paulo que Bolsonaro chegou a considerar para vice na chapa presidencial. Ela disse que o presidente era culpado de “um crime contra a saúde pública” e acrescentou: “não temos tempo para o impeachment”.

Não há dúvida de que as condutas do presidente justifiquem constitucionalmente um impeachment, destino que caiu sobre dois de seus antecessores, Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016. Mas, por enquanto, Bolsonaro mantém apoio público suficiente para sobreviver. Se, à época, as pesquisas apontaram que a maioria era a favor da deposição de Dilma (por violar a lei de responsabilidade fiscal para ganhar a reeleição), 59% dos brasileiros disseram ao Datafolha que não querem que Bolsonaro renuncie. O índice de aprovação de Dilma girava em torno de 10%; Bolsonaro mantém o apoio de um terço dos eleitores. Poucos em Brasília acreditam que o país queira ou possa arcar com a turbulência de um impeachment enquanto se vê tomado pela covid-19.

Bolsonaro é sustentado por um pequeno círculo de fanáticos ideológicos (entre eles, três de seus filhos), pela fé de muitos evangélicos e pela falta de informações sobre a covid-19 entre os brasileiros. Os dois últimos fatores podem mudar à medida que o vírus começar a ceifar vidas nos próximos meses. Em 8 de abril, o Brasil contava 14.049 casos confirmados e 688 mortos. E pode ser que o presidente não consiga se isolar da culpa pelo impacto econômico. Por sua imprudência com a vida dos brasileiros, Bolsonaro fez com que sua própria queda entrasse na agenda política. É bem provável que ela permaneça ali mesmo depois do fim da epidemia.  

Cloroquina sem paixão

Não sou médico, nem cientista. É uma temeridade escrever sobre a cloroquina agora que sua composição química ganhou componentes ideológicos. Abordo o tema com minha experiência da campanha contra a Aids, que pude seguir ativamente, com mandato e sem estar preso em casa.

Desconfio também da experiência do general que vê na batalha de hoje uma repetição da batalha do ano passado, do político que vê na campanha atual uma réplica da campanha anterior.

Ainda assim, vou tateando. No combate à Aids ficou mais ou menos evidente que nenhum remédio em si era uma espécie de bala de prata contra o vírus. Os remédios eram combinados num coquetel.

Imagino que alguma coisa assim esteja acontecendo no combate ao coronavírus. Quando surgiram os rumores da pesquisa francesa liderada por Didier Raoult, Trump ainda não havia anunciado sua predileção pela cloroquina.

Os rumores na internet eram de que a hidroxicloroquina estava associada à azitromicina e que estava sendo usada no Hospital do Coração.

Liguei para confirmar, e o hospital desmentiu, dizendo que aquilo era fake news. Não noticiei nada, porque achava que, mesmo com desmentido, haveria corrida.

Nos EUA, Anthony Fauci, o homem que comanda a luta contra o coronavírus, fez também uma advertência sobre o perigo da notícia, pois os estoques poderiam ser esgotados.

Em seguida, li a história de um médico chinês de pouco mais de 30 anos, imigrante nos EUA. Ele foi contaminado pelo coronavírus e esteve entre a vida e a morte. A colônia chinesa estabeleceu os contatos com Wuhan, cujos médicos tinham já uma grande experiência. Recomendaram hidroxicloroquina com Kaletra, um remédio usado também contra a Aids. Isso fortaleceu para mim a ideia de que a cloroquina estava associada a um outro remédio, uma tática combinada como foi, guardadas as proporções, no caso da Aids.

Continuei atento ao movimento dos chineses, com os poucos recursos que tenho para segui-los. Li que a China pirateou outro remédio experimental contra o coronavírus, o Remdesivir.

A patente é da empresa americana Gilead, que deve faturar mais de US$ 2,5 bilhões com ele, apesar do avanço chinês sobre sua fórmula.

O Remdesivir é um antiviral mas não pode também ser considerado uma bala de prata. Seu uso foi aconselhado pela Agência Europeia de Medicina em casos muito graves, como um tratamento compassivo.

De novo, apesar de serem batalhas diferentes, a experiência da luta contra a Aids ilumina o caminho, até que uma outra luz mais forte e direta me conduza.

O Brasil resolveu inicialmente o problema da cloroquina comprando-a da Índia. Esse país vende remédios assim como a China vende equipamentos médicos. O Ocidente se aproveita dos preços baixos de ambos até que descobre sua dependência.

Mas em breve poderemos chegar à possibilidade de um coquetel ou uma simples associação de remédios. Nesse momento, veremos a possibilidade de distribuí-los gratuitamente.

Foi assim com o coquetel da Aids. Muita discussão com a equipe econômica por causa dos custos. O problema seguiu adiante mesmo depois da vitória da gratuidade.

Apareceu então, com intensidade, o problema das patentes. Até que ponto um respeito religioso pelos direitos dos laboratórios multinacionais não era um obstáculo para a salvação das vidas?

Felizmente, na época, tínhamos um ministro da Saúde, José Serra, que compreendeu bem o dilema e soube defender o que me parece uma posição correta no debate planetário sobre patentes.

A cloroquina, graças ao empenho de Trump e Bolsonaro, ganhou destaque na cena, mas o Remdesivir, a julgar pela apropriação chinesa, também merece um exame.

Na verdade, há pelo menos oito atores, remédios em teste, que foram ofuscados pela cloroquina e mereciam mais atenção. Nenhum deles é de direita ou de esquerda. São fórmulas químicas, e sinto-me meio acaciano a formular essa frase.

No entanto, o vírus já foi politizado, os remédios são politizados de uma forma equivocada. A questão que nos espera é testá-los adequadamente e garantir que cheguem às pessoas e discutir os direitos de patente num mundo devastado pela pandemia.
Fernando Gabeira

domingo, 12 de abril de 2020

Insensatez versus insensatez

Na Sexta-feira Santa, enquanto o Brasil contava mais de mil mortos pela Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro chocava o país ao dar a mão a uma idosa depois de esfregar o nariz no antebraço, próximo ao pulso. Voltava às ruas não só pela birra de desobedecer às recomendações de seu ministro da Saúde, mas principalmente para acirrar o confronto com o seu desafeto-mor João Doria, que no dia anterior ameaçara prender quem violar a regra de isolamento.

Erros abissais de ambos.

O governador paulista, que em 2018 surfou na popularidade de Bolsonaro para se eleger, viu na incapacidade do presidente de lidar com a pandemia o cavalo arreado que tanto os políticos almejam. Montou. Mas depois de saltar com sucesso alguns obstáculos está prestes a tomar um tombo feio.

Assim como Bolsonaro não pode desfazer unilateralmente as determinações de isolamento tomadas por governadores e prefeitos, tema já analisado pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes, Doria não pode lançar na cadeia quem desrespeitar a quarentena.

Não à toa, Bolsonaro lembrou o direito de ir e vir ao ser criticado pelos passeios matinais em Brasília. A não ser em estado de exceção, ninguém pode cassar esse direito, embora ao exercê-lo contra tudo o que a ciência dita, o presidente coloque pessoas em risco de vida e escancare o descaso que tem por elas.

Ainda que alguns juristas defendam a competência legal do governador de mandar prender, um decreto para tal é polêmico e, na prática, criaria uma situação surreal: lotaria delegacias e ampliaria o contágio que se quer deter com o isolamento.

Doria vinha tendo um comportamento irrepreensível. Um exemplo de liderança centrada versus um presidente obtuso que insistia em tratar a peste como “gripezinha”, “resfriadinho”.

Enquanto Bolsonaro aprofundava-se no negacionismo, perdendo credibilidade e pontos de popularidade, Doria cresceu. Arregimentou um grupo técnico de qualidade indiscutível, montou um modelo de isolamento invejável, implantado gradativamente a partir do dia 16 de março. O anúncio da suspensão das aulas foi feito com uma semana de antecedência para que as famílias se preparassem, e, paralelamente, criou uma rede de amparo social e à saúde. Tudo seguindo os preceitos da Organização Mundial da Saúde e de acordo com o ministro Luiz Henrique Mandetta.

Encarnando a razão contra a incendiária bipolaridade do presidente que nada comanda, a não ser showzinhos para a plateia de fãs no portão do Palácio da Alvorada, Doria não precisava exacerbar. Bastaria continuar na sua correta pregação, diária e didática, sobre a necessidade de as pessoas ficarem em casa. No máximo, acenar com multa para os desrespeitosos. Ultrapassou limites ao falar em prender desobedientes, dando munição para quem já havia se autoabatido.

Talvez o maior erro seja imaginar que as preferências eleitorais se moldam no decorrer da crise. Ninguém em sã consciência tem ideia de como será o próximo mês, quanto mais 2022.

Doria ocupa uma posição confortável. Sua pretensão é a de se firmar como o defensor da vida acima de tudo. Mas governa o Estado epicentro da endemia no país. Mesmo se continuar a fazer tudo certo – e prender gente está longe disso -, São Paulo terá números recordes de doentes e mortos. Se relaxar, amontoará corpos como a Espanha, a Itália e os Estados Unidos. Quadros dantescos, incapazes de gerar dividendos eleitorais.

Bolsonaro, que pressupunha uma reeleição tranquila a partir de bons indicadores econômicos (resultados que não conseguiu começar a entregar antes mesmo do coronavírus), sabe que no final de seu mandato, se chegar até lá, terá nas mãos um país em frangalhos. Quer porque quer pôr o dinheiro para girar ainda que isso acelere a pane no atendimento à saúde e, consequentemente, custe mais vidas

Transgressor por natureza, Bolsonaro tem testado limites. Todos os dias manda seu ministro da Saúde às favas, desrespeita todas as regras.
Irresponsavelmente, incita as pessoas a ir às ruas. Está doidinho para ver Doria fazer a primeira prisão por violação ao isolamento. Ganharia assim um parceiro na insensatez.

Erros e acertos no espelho da história

O que fizemos certo como país e o que não fizemos aparecem agora diante de nós. O coronavírus trouxe um enorme espelho onde vemos com lucidez aguda os acertos e os erros. A democracia criou o SUS, formulou programas de transferência de renda e fez um cadastro dos mais pobres. Isso é a base para o trabalho de proteção dos brasileiros. A desigualdade, a falta de moradia decente, os esgotos não tratados e a má distribuição da água ameaçam transformar essa pandemia numa enorme tragédia social. E são os pobres e os negros os mais ameaçados. Como sempre.

O Brasil tem feito a si mesmo perguntas profundas neste tempo extremo. Uma delas é: onde estão os invisíveis? O país sempre conviveu com um fosso social imenso que divide os incluídos dos excluídos. Os com e os sem. No mercado de trabalho sempre houve os com carteira e os sem carteira. Dentro e fora das leis trabalhistas. Os sem carteira se dividem em vários grupos: trabalhadores informais, os que trabalham por conta própria, os empregadores sem CNPJ, os desempregados, os desalentados, os nem nem, os subutilizados. É uma multidão. São, evitando dupla contagem, 64,8 milhões. É a soma de toda a população da Argentina, de Portugal e da Áustria. Eles de alguma forma iam vivendo e gerando sua própria renda. O choque de realidade que a pandemia provocou trouxe todos eles para a cena principal. Quem são, onde estão, como fazer um caminho para entregar a eles os recursos públicos? Dúvidas do tempo presente.

Tudo o que foi feito nos governos democráticos nesses últimos 35 anos ajuda muito. É o que temos. Não é suficiente. O governo Sarney começou com o programa do leite, evoluiu para cestas básicas. Betinho avisou que a fome de outro brasileiro era inaceitável e nos ensinou a solidariedade. Cidades testaram a transferência de renda vinculada à presença da criança na escola, o Bolsa Escola. Para isso foi necessário fazer a ficha dos beneficiários. Campinas, Distrito Federal, Belo Horizonte passaram a criar cadastros. Outras cidades as seguiram. Depois veio o Bolsa Escola Federal, no governo Fernando Henrique, que fez o primeiro cadastro geral. Em seguida o Bolsa Família, no governo Lula, que unificou programas federais, ampliou a transferência e incluiu mais brasileiros no que se chamou de Cadastro Único. É incompleto, mas é a base que está sendo usada agora no auxílio emergencial.

Para ampliá-lo o governo pede, no meio dessa crise, que estejam todos, até as crianças, com os seus CPFs em dia. Essa exigência coloca os pobres em risco de vida. A mãe ou o pai de família precisam ir até um órgão público, aglomerar-se, para registrar aquele pequeno ser humano como contribuinte. Pronto. Se é um pagador de impostos então ele passou a existir. Essa exigência seria apenas surreal, se não fosse desumana. Na fila eles podem se infectar. A burocracia estatal, um dos nossos defeitos mais velhos, de novo coloca pedras no caminho.

Derrubar a superinflação indexada deixada pelo regime militar, e que virou hiperinflação, foi uma saga que consumiu dez anos de esforços. O real permitiu que mais brasileiros tivessem acesso a bens de consumo. A privatização produziu uma enorme inclusão no mundo da telecomunicação. Hoje é com esses celulares em mãos que os pobres estão tentando inscrever-se no auxílio emergencial. Na venda das teles criou-se um fundo cujo dinheiro deveria ter sido usado para informatizar todas as escolas públicas e universalizar a banda larga. É o Fust, Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicação. Arrecada R$ 1 bi por ano e tem R$ 20 bilhões em caixa. O governo acaba de decretar o seu fim. Se a tarefa tivesse sido executada, seria possível hoje ter todas as crianças na escola, ainda que remotamente.

Fizemos casas para os pobres e nem de longe foi o suficiente. Nas favelas, o risco é aterrorizante. O serviço de água tratada é irregular. Como lavar as mãos? Nas moradias não há espaço. Como isolar algum eventual infectado? As falhas da política habitacional e do planejamento urbano cobram a conta. O SUS espalhou-se pelo país e com todas as suas falhas é a melhor rede que temos para acolher os brasileiros.

O que fizemos de certo nos 35 anos de democracia nos ajudará nessa emergência humanitária. O que deixamos de fazer cobrará a conta e ela talvez seja alta demais. Que a dor dessa travessia nos ensine.

Brasil convid 17


O cisma de Bolsonaro

O desagregador do Planalto consegue provocar cismas até mesmo entre instituições sólidas como a Igreja Católica. Na quarta-feira, enquanto o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o progressista Dom Walmor Oliveira, criticava Jair Bolsonaro por desinformar o país e “provocar um itinerário para a morte”, católicos da ala conservadora foram para a porta do Alvorada rezar pelo “enviado por Deus para salvar o Brasil do comunismo”.

Verdade que as duas alas da Igreja não se bicam há anos, mas com a chegada de Bolsonaro a separação entre elas voltou a ganhar conotação política. Lembra a guerra de 24 anos entre a CNBB e os religiosos que apoiaram a ditadura de 1964, como se fosse possível homens que acreditam em Deus aceitarem governo que censura, tortura e mata. Esta turma não se envergonhava antes e não se envergonha agora em defender intervenção militar se essa for a forma de evitar a volta da esquerda ao poder.

A ala conservadora da igreja no Brasil vê comunistas em todos os lugares. Até mesmo na Santa Sé, já que muitos chamam o Papa Francisco de comunista e enxergam em alguns de seus atos manobras para sabotar o governo de Bolsonaro. Trata-se de uma bobagem sem tamanho, mas os cristãos da Renovação Carismática Católica que louvaram o presidente na porta do Alvorada disseram que mensagens de Francisco nesse sentido seriam ouvidas durante as pregações da Semana Santa. São tolos, como Bolsonaro.


O grave é que por serem tolos são também perigosos. Defendem as mesmas teses do presidente e concordam com a cruzada pelo fim do isolamento, permitindo que as pessoas “voltem a trabalhar, produzir e salvar vidas”. E, por mais absurdo que pareça, na vigília do Alvorada disseram fazer parte de uma certa “milícia celeste” de apoio ao presidente. Estes fundamentalistas carismáticos brincaram com fogo, fizeram trocadilho com a morte, já que se conhece a proximidade de Bolsonaro com a violenta milícia do Rio.

A CNBB, por sua vez, sempre esteve ao lado da democracia, dos mais fracos, dos excluídos, dos esquecidos. Foi assim durante todo o regime militar, continuou assim ao longo do período democrático inaugurado com a eleição de Tancredo Neves e a posse de José Sarney, em 1985, e segue da mesma forma sob Bolsonaro. Sempre, sob qualquer governo, foi crítica e contundente. Em 2004, atacou o governo Lula por se distanciar dos movimentos sociais. Não é preciso ser muito sabido para dizer quem está com a razão.

Esta divisão alcança também as igrejas evangélicas. Coloca de um lado os que o ex-deputado Chico Alencar (PSOL) chama de “bolsocrentes” e do outro as igrejas evangélicas históricas. Os primeiros acham que o coronavírus é jogada política, acreditam que conseguem exorcizar a praga e vão ao Alvorada pregar ao “escolhido por Deus”. Em 5 de março, um pastor, que tomou meia hora do presidente e o fez ajoelhar no asfalto em frente ao Alvorada, disse a seguinte barbaridade: “Em nome de Jesus declaro que no Brasil não haverá mais mortes pelo coronavírus”.

As igrejas históricas entendem que o presidente precisa ser freado. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil repudiou em nota oficial o pronunciamento em que Bolsonaro disse que se fosse acometido pelo coronavírus teria apenas uma gripezinha em razão de seu passado de atleta. Na internet, alguns grupos afirmaram que Bolsonaro “segue o delírio de poder e vaidade” e defenderam a renúncia.

O cisma religioso de Bolsonaro lembra a metáfora que Frei Betto construiu no seu mais novo livro, “O diabo na corte - Leitura crítica do Brasil atual”. Ele descreve um reino em que o diabo dissemina “a confusão semântica”, onde as palavras perdem os seus significados ou os têm trocados. E cita uma princesa que diz ser uma pessoa “terrivelmente religiosa”. Certamente a palavra “terrível”, que é aquilo que causa ou infunde terror, não deveria combinar com “religiosa”. Mas naquele reino combina, graças ao diabo. E nesse aqui parece que também.

'A batalha política do século será entre humanos e transumanos desumanos'

O filósofo italiano Franco Berardi, o "Bifo", aproveitou a quarentena em Bolonha para escrever um “Diário da psicodeflação”, publicado em inglês no blog da editora britânica Verso.

— Nosso psicológico vem experimentando uma “deflação”, no sentido de uma bola que está soltando ar, caindo no chão, flácida — disse.

Essa “deflação” é consequência da quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus, que obrigou aqueles que podem ficar em casa a desacelerar e esvaziar as ruas para manter a saúde.

Autor de livros como “Depois do futuro” e “Asfixia”, publicados no Brasil pela Ubu, Bifo participou de coletivos operários nos anos 1960 e sustenta que as novas tecnologias roubaram dos homens a possibilidade de sonhar futuros não previstos por algoritmos. Apenas a “reativação poética do corpo social” pode vencer a crise da imaginação, diz ele.

Em troca de e-mails com o GLOBO, Bifo afirmou que a recessão provocada pela epidemia pode inspirar arranjos sociais mais igualitários e sugeriu que a principal batalha política do novo século não será entre direita e esquerda, mas entre humanos e transumanos desumanos. Calma, nenhum ciborgue está vindo nos matar

— “Transumanos desumanos” são os que exploram as novas tecnologias para criar um sistema tecnototalitário.

Quais serão os efeitos desta quarentena prolongada?

O capitalismo como nós o conhecemos vai desmoronar. Os economistas negam os indícios de uma longa estagnação, mas está cada vez mais claro que não existe crescimento infinito. Os recursos do planeta — e os recursos do nosso sistema nervoso — são limitados. Temos uma alternativa: construir um novo paradigma de produção baseado na frugalidade, na reciclagem, na distribuição igualitária dos recursos, na redução da jornada de trabalho, na adoção completa das tecnologias que substituem o trabalho humano e em renda básica para todos. Ou seremos submetidos a um capitalismo tecnototalitário extremamente desigual e violento.

E a política? A epidemia vai reconfigurar a disputa política?

O jogo político do passado, baseado na oposição direita-esquerda, acabou. Donald Trump, Jair Bolsonaro e Matteo Salvini (ex-primeiro-ministro italiano) e outros líderes patéticos não são um retorno da velha direita, mas uma reação à humilhação e à impotência da maioria da população. A pandemia está revelando a inaptidão desses líderes. Alguns tiveram a decência de seguir as instruções da ciência. O primeiro-ministro italiano(Giuseppe Conte), na minha opinião, agiu com responsabilidade, ainda que com certo atraso, e está fazendo o que os especialistas recomendam. Outros líderes, como o presidente do Brasil, falam besteiras, temerosos de que a epidemia os derrube — o que eu suspeito que vai acontecer logo. Repare em Boris Johnson (primeiro-ministro britânico), aquele palhaço arrogante, que estava negando os perigos da epidemia e se recusando a agir, até ele próprio pegar o vírus e precisar de tratamento médico. Creio que o jogo geopolítico do século será a batalha final entre humanos e transumanos desumanos. A não ser que o conoravírus destrua todos os transumanos desumanos, o que é possível.

A que você se refere quando diz “transumanos desumanos”? Ciborgues? Inteligência artificial?

Não acho que os ciborgues ou a inteligência artificial sejam os vilões. A tecnologia pode ser uma ferramenta para o progresso e o bem-estar social. Só a ciência pode nos salvar da pandemia. A salvação certamente não virá dos políticos ou do mercado. Quando falo “transumanos desumanos” me refiro aos que exploram as novas tecnologias para criar um sistema tecnototalitário de controle do nosso trabalho e das nossas vidas.

O que é “psicodeflação”?

Nos últimos 30 anos, nós fomos obrigados a acelerar, competir, vencer a guerra diária da precariedade. No livro “24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono”, Jonathan Crary (crítico de arte britânico) estima que dormíamos, em média, 10 horas por dia no começo do século passado, oito horas nos anos 1960 e seis horas e meia em 2000. Em “Sex by numbers” (Os números do sexo), David Spiegelhalter (estatístico britânico) afirma que, em média, fazíamos amor cinco vezes por semana nos anos 1990, quatro nos anos 2000 e 2,5 na década de 2010. A economia neoliberal somada à tecnologia tem nos levado à infelicidade. Assista ao último filme de Ken Loach (cineasta britânico) "Você não estava aqui". O filme descreve a vida precária de quem trabalha com entregas, a ansiedade infernal. Depois da ansiedade, vem a exaustão e as convulsões do corpo coletivo, expressa nos protestos do semestre passado em Hong Kong, Santiago, Barcelona, Paris, Quito, Beirute, etc, etc. Estamos exaustos, nervosos e deprimidos. O coronavírus e a quarentena diminuíram a tensão. Nosso psicológico vem experimentando uma “deflação”, no sentido de uma bola que está soltando ar, caindo no chão, flácida, e também no sentido econômico de diminuição da demanda.

Você diz que, além do coronavírus, há um psicovírus se espalhando. O que é esse psicovírus?

O conceito de vírus foi usado por William Burroughs (escritor americano, 1914-1997) para definir tudo o que induz a uma mutação, seja ela cultural, linguística ou social. Um terço da população mundial está em quarentena, está tudo paralisado, a produção, as interações sociais, o tráfego aéreo, a vida urbana. Para entender o que está acontecendo, temos que levar em conta a mutação psicológica que o vírus produziu e seus efeitos sociais no futuro próximo.

Com a pandemia, ficou mais difícil imaginar o futuro?


Por um lado, o futuro é tão sombrio que nos aterroriza só imaginar o que está por vir. Por outro lado, a pandemia reativou o imprevisível. Ontem, o poder tecnofinanceiro bloqueava toda possibilidade de agir e de imaginar algo diferente do que a repetição algorítmica. Com a pandemia, começou um jogo totalmente diferente. O imprevisível superou o inevitável.

Você prescreve um remédio para a crise da imaginação: a “reativação poética do corpo social”. O que isso quer dizer?

O que é um movimento social? É o agrupamento consciente de corpos no espaço público e o compartilhamento de afeto, solidariedade, prazer e sensibilidade estética. Reativação poética do corpo social é isto: um movimento que vence o medo e torna possível a emergência da esperança, de novos estilos de vida e maneiras de organizar o conhecimento e a tecnologia.
Ruan de Sousa Gabriel

O dilema moral dos sem moral

Se você não entrar em quarentena por causa da pandemia, ela causa mais problemas e mais danos econômicos.
(...) Se você não implementa uma quarentena porque quer economizar dinheiro, está enfrentando uma questão moral e não econômica
Richard Baldwi, professor de Economia Internacional do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e Desenvolvimento em Genebra

Ganância também pode matar

O lucro líquido registrado em 2019 por Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco e Santander foi de R$ 86,6 bilhões . Esses quatro bancos, que dominam o mercado nacional, cresceram 18,4% no ano passado e arrecadaram para seus caixas o maior valor nominal da história.

Com esse resultado, esperava-se um apoio forte deles e de outros agentes do mercado no combate ao avanço do novo coronavírus. Nas últimas semanas, várias instituições financeiras anunciaram doações para combater a pandemia. O valor estimado, de R$ 230 milhões, parece ser expressivo. No entanto, representa apenas 0,4% do lucro líquido registrado em 2019 pelos quatro gigantes da área.

Nesse sentido, a filantropia bancária poderia ter muito mais resultado se revertida em efetiva facilitação na concessão de crédito com juros menos extorsivos, garantias mais flexíveis e simplificação da burocracia. Isso ajudaria muito neste momento de crise.


E quem está sofrendo com o excesso de exigências dos bancos são justamente aqueles que estão na ponta do combate ao tratamento de brasileiros diagnosticados com a Covid-19: as 2.100 Santas Casas de Misericórdia espalhadas por esse Brasil afora. Elas atendem mais de 54% da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda em 2018, aprovamos no Congresso Nacional medida que autorizou a criação de linha de crédito de R$ 5 bilhões com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para socorrer as santas casas e os hospitais filantrópicos que atendem pelo SUS. A proposta foi sancionada no mesmo ano e, em 2019, precisou de regulamentação, feita por meio de uma medida provisória. Para reforçar essa ajuda, ainda aprovamos agora em abril, já no meio da pandemia, a transferência de R$ 2 bilhões da União para as santas casas.

No entanto, como declarou nesta semana o presidente da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB), Mirocles Véras, as linhas de crédito não estão atendendo às santas casas. De acordo com ele, as condições impostas pela Caixa Econômica Federal estão impedindo que os recursos cheguem às instituições, que seguem endividadas e sem capacidade de se financiar.

A Confederação alega que o banco público está propondo juros que ainda são proibitivos para as entidades. Além do mais, o processo é muito burocrático e com exigências de garantias suplementares. Outro problema enfrentado é a falta de informação nas agências. Muitas superintendências regionais sequer conhecem as regras. Na prática, segundo Véras, o empréstimo é inviável na maioria dos casos.

Ou seja, trata-se de um dinheiro que deveria chegar rapidamente na ponta para os que fazem o enfrentamento da pandemia, mas que fica represado no caixa dos bancos.

Enquanto isso, mesmo no meio da crise, os maiores bancos da América Latina voltaram às graças de analistas. O Goldman Sachs está recomendando a compra de papéis do Itaú Unibanco e Banco Bradesco, enquanto o Bank of America adicionou o Itaú ao portfólio recomendado na região.

“Agora é a hora de comprar bancos”, disse para a Bloomberg Tim Love, diretor de ações de mercados emergentes da GAM Investments, de Londres, com cerca de US$ 1 bilhão sob gestão. Segundo ele, os grandes bancos brasileiros “são conhecidos por serem capazes de manter margens e dar lucro em qualquer ambiente”.

Os bancos lucram e o Brasil perde vidas em uma das maiores tragédias de sua história.
Rubens Bueno

O papel de cada um

Uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em caráter liminar, impede que o presidente Jair Bolsonaro suspenda unilateralmente as medidas de isolamento tomadas por Estados e municípios para enfrentar a pandemia de covid-19. No entender do ministro, o presidente da República, caso resolva levar adiante sua ameaça de realizar esse tipo de intervenção nos entes subnacionais, estará violando preceitos constitucionais como a proteção à saúde e o respeito ao federalismo e a suas regras de distribuição de competências.

O ministro enfatizou que é justamente em “momentos de acentuada crise” como este que se faz mais necessário o espírito de cooperação entre os Poderes e os entes federativos, “em defesa do interesse público” e “sempre com absoluto respeito aos mecanismos constitucionais de equilíbrio institucional”, de modo a evitar o “exacerbamento de quaisquer personalismos prejudiciais à condução das políticas públicas essenciais ao combate da pandemia de covid-19” – referência clara às atitudes de Bolsonaro, que vive a se jactar do poder da caneta presidencial.

Em seu despacho, o ministro Alexandre de Moraes observa, no entanto, que “lamentavelmente” é “fato notório a grave divergência de posicionamentos entre autoridades de níveis federativos diversos e, inclusive, entre autoridades federais componentes do mesmo nível de governo”, aludindo ao confronto público entre Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, acerca do melhor modo de conter a pandemia. Na opinião do ministro do STF, isso acarreta “insegurança, intranquilidade e justificado receio em toda a sociedade”.

O ministro salientou, ademais, que as decisões tomadas por Estados e municípios são “reconhecidamente eficazes” contra a epidemia, em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde e da maioria absoluta dos mais respeitados institutos científicos do mundo.

Em resumo, a decisão do ministro Alexandre de Moraes é essencialmente correta nos seus aspectos legais e muito oportuna em suas observações a propósito da necessidade premente de unificar o discurso das autoridades na sustentação do isolamento social como única forma efetiva, no momento, de atrasar o previsível colapso do sistema de saúde.

O presidente Bolsonaro havia dito, há alguns dias, que tinha pronto sobre sua mesa um decreto por meio do qual obrigaria Estados e municípios a suspenderem as medidas restritivas. Na ocasião, ele mesmo reconhecia que o decreto poderia ensejar “sanções” contra ele e que esperava “o povo pedir mais” para assiná-lo. Anteontem, voltou a tocar no assunto, para dizer que estuda transformar o decreto em projeto de lei, “e mandar para o Parlamento decidir”. Ou seja, não desistiu da ideia de atropelar a autonomia de Estados e municípios para estabelecer medidas de isolamento social.

À TV Bandeirantes, na quarta-feira passada, Bolsonaro voltou a dizer que governadores e prefeitos que “tomaram medidas em desacordo com a população têm que refazer seu programa e voltar a abrir o comércio”. Mais tarde, em pronunciamento em rede nacional, Bolsonaro disse que “o governo federal não foi consultado” pelos governadores a respeito das medidas de isolamento social e que, portanto, essas “são de responsabilidade exclusiva dos mesmos”. Aposta assim, mais uma vez, na politização da crise, ao jogar na conta das autoridades estaduais e municipais os terríveis efeitos econômicos do isolamento, como se houvesse alternativa a essas medidas, adotadas em quase todo o mundo ante a escalada da pandemia.

Mas o presidente, já se sabe, só está preocupado em afastar de si qualquer responsabilidade pela crise. Para isso, não se importa em ameaçar o princípio federativo previsto na Constituição nem em estimular, em rede nacional, o consumo de um remédio cuja eficácia ainda não foi comprovada e que, por outro lado, provoca perigosos efeitos colaterais.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro exigiu de seu ministro da Saúde que passe a adotar um discurso otimista. Não será fácil. Se algo inspira algum otimismo neste momento, é a certeza de que as instituições, como o Supremo e o Congresso, são capazes de proteger o País das investidas irresponsáveis do presidente.

sábado, 11 de abril de 2020

O mundo não pode voltar à 'normalidade'

Não são poucos os religiosos que apontam a ressurreição de Cristo como sendo o principal pilar da Igreja. Sem ela, argumentam, a fé cristã simplesmente não existe. Alguns chegam a apontar a Páscoa como um evento mais central na vida do cristianismo que o próprio Natal.

Mas, ao longo dos séculos, o Natal foi reinventado. O historiador Stephen Nissenbaum, em sua obra The Battle for Christmas: A Social and Cultural History of Our Most Cherished Holiday, relata como a festa de final de ano foi secularizada e transformada praticamente em um feriado burguês. A festa ainda passou a se desenvolver de mãos dadas com um “novo” fenômeno: a ascensão de uma classe média a partir do século 19 e a celebração da infância.

Ainda que os tetos de supermercados sejam tomados por ovos de chocolate, a realidade é que a Páscoa e seu sentido de ressurreição não tiveram o mesmo destino do Natal. Em compensação, elas mantiveram o significado teológico preservado.

Neste ano, tal evento religioso ocorre em igrejas vazias, salvo em alguns rincões de radicais que se recusam a acreditar na ciência. O vazio não ocorre pela falta de fé, transferidas para redes sociais e grupos de WhatsApp. Mas por culpa de uma pandemia que levou religiosos e agnósticos a buscar um sentido para o momento de transição no planeta.

Enquanto bilhões de pessoas estão confinadas, governos buscam formas para sair da crise e retomar a normalidade. Descobrimos que existe um enorme vácuo de liderança e que, mesmo na crise definidora de nossa geração, políticos mergulham na busca por poder e influência global.


Lenta e descoordenada, a comunidade internacional eventualmente conseguirá chegar a um plano de ação. Provavelmente tardio. A incapacidade de agir de uma maneira mais eficiente custará muitas vidas. Já são mais de 100.000 mortos.

Mais cedo ou mais tarde, a retomada virá e pacotes avaliados em mais de 5 trilhões de dólares já foram anunciados por governos para resgatar suas economias e, em alguns casos, seus trabalhadores. A meta de todos: voltar à normalidade.

Mas será que convém ao mundo retornar a tal situação pré-pandemia?

A “normalidade" consistia em aceitar que cerca de 4 bilhões de pessoas não estavam cobertas por quaisquer medidas de proteção social.

A “normalidade” significava que 821 milhões de pessoas ―aproximadamente uma em cada nove pessoas no mundo― estavam subnutridas. Depois de anos de queda, a curva da fome voltou a aumentar no mundo desde 2015.

19,9 milhões de crianças não receberam vacinas durante o primeiro ano de vida. Em 40% dos países do mundo, existiam menos de 10 médicos por cada 10.000 pessoas.

Apenas 60% das pessoas em todo o mundo contavam com uma pia, com sabão e água, em casa. Ou seja, 3 bilhões de pessoas viviam sem instalações básicas para simplesmente lavar as mãos em casa.

Um terço de todas as escolas primárias carecia de água potável, saneamento e serviços de higiene. Uma em cada quatro centros de saúde no mundo não tinha água.

Como ousam, portanto, falar em voltar à normalidade?

Pacotes para sair ao resgate de milhões de pessoas serão necessários. Mas não darão conta de transformar às condições de base que deram, justamente, uma avenida para que a pandemia tomasse a dimensão que ganhou.

Abreviando a vida de milhares de pessoas e se transformando num espelho de um modelo de mundo esgotado, a morte anunciada em forma de números revelou a profunda vulneralibilidade do planeta. Ninguém mais pode dizer que tem um sistema de saúde sólido. Ninguém.

O inimigo invisível nos exige fazer perguntas incômodas. Não vamos precisar de pacotes de resgate. Mas um plano de ressurreição, que exigirá a humildade de líderes, planos, dinheiro e novas prioridades. Vai exigir coordenação entre países rivais, partidos rivais, ideologias rivais.

Enfim, um novo pacto social, capaz de conduzir o mundo a um compromisso para reduzir suas desigualdades. Caso contrário, estaremos apenas estabelecendo uma nova base para a próxima pandemia.

“Os seus mortos viverão. Os cadáveres do meu povo se levantarão”, diz um dos versículos do Livro de Isaias. “E a terra deixará que os impotentes na morte voltem a viver”.

Os impotentes na morte são os bilhões de seres humanos que, ainda que vivos, estão num limbo existencial permanente. Uma prisão perpétua, onde a única liberdade que têm é a de morrer.

Não há como aceitar voltar à “normalidade”.
Jamil Chade

Precisamos falar sobre a renda básica permanente

Há poucos dias, foi sancionada a lei que institui a renda básica emergencial (RBE) de R$ 600 por mês, a serem pagos durante 3 meses prorrogáveis. Como eu já havia escrito neste espaço, a RBE tem por objetivo atender pessoas que não poderiam permanecer em casa para se proteger da epidemia caso não houvesse um programa de governo que as sustentasse durante o período de necessário distanciamento social. Embora a RBE em forma atual seja um benefício temporário, há muitos motivos para torná-la permanente.

O Brasil é um país espantoso. Segundo dados do IBGE, cerca de 50% dos trabalhadores com carteira assinada recebem entre um e dois salários mínimos, enquanto 80% recebem menos de dois salários mínimos. Apenas 10% dos trabalhadores formais ganham mais de R$ 3 mil por mês. De acordo com cálculos feitos por Marcelo Medeiros, metade da população brasileira vive com menos de R$ 1.000 por mês. Estamos falando de cerca de 100 milhões de pessoas que recebem tão somente cerca de um salário mínimo mensal per capita.


Agora, considerem: de acordo com o IBGE, 70% dos redimentos das famíllias de baixíssima renda são destinados a alimentação, transporte e moradia. Ou seja, a maior parte do fluxo mensal dessas pessoas é usada para a subsistência mais básica. Não estão incluídos gastos com vestuário, medicamentos ou itens de necessidade básica para cuidados pessoais. Essas pessoas vivem sem qualquer colchão de segurança, o que significa que, se o chefe de família adoece ou se há algum gasto extraordinário no mês, não há espaço no orçamento mensal para absorver o ocorrido.

Reflitam por um momento sobre isso. Em nosso país há cerca de 100 milhões de indivíduos que vivem na mais precária condição econômica, algo que muitos de nós não têm a capacidade de contemplar. Imaginem a diferença que faria na vida dessas pessoas receber uma transferência de renda sem qualquer condicionante todo mês. A renda básica permanente, pensada desse modo, é mais do que uma ajuda econômica, um assistencialismo. Ela confere dignidade.

Há quem se oponha à renda básica permanente argumentando que ela seria um desestímulo ao trabalho. Entendo o argumento se estamos tratando de pessoas com renda mais elevada do que o montante módico que mencionei anteriormente. Contudo, nem mesmo esse argumento encontra respaldo na literatura acadêmica existente. De acordo com vários estudos, o efeito de programas de transferência de renda sobre os incentivos ao trabalho são, na melhor das hipóteses, ambíguos. No caso brasileiro, quem em sã consciência realmente acredita que alguém que já vive com tão pouco vai deixar de trabalhar porque passou a receber um complemento do governo? A ideia é quase estapafúrdia.

Portanto, vamos ao outro lado da questão: quanto custaria esse benefício incondicional para os cofres públicos? Se 100 milhões de pessoas recebessem uma renda básica de R$ 600 mensais, o montante total no ano alcançaria cerca de 10 pontos percentuais do PIB, valor bastante alto. Com R$ 500 mensais, ou metade do salário mínimo, o custo cai para 8 pontos percentuais do PIB. Com R$ 350 mensais, ou um terço do salário mínimo, o custo seria de pouco mais de 5,5 pontos percentuais do PIB. Evidentemente, parte do gasto com a renda básica é revertido para os cofres públicos na forma de receitas mais altas provenientes de um impulso ao consumo. Afinal, são as pessoas de renda mais baixa que consomem mais como proporção da renda — o que os economistas chamam de propensão marginal a consumir.

Essa população não apenas sofrerá os efeitos mais diretos da epidemia e da crise econômica, mas tais efeitos serão prolongados dadas as curvas epidemiológicas e o curso da doença cujos dados estamos a observar. Mas a defesa da renda básica permanente transcende a crise humanitária que atravessamos.

De uma ótica mais pragmática, a renda básica permanente contribui para a estabilidade da economia e a cidadania na democracia. Já da perspectiva dos valores que compartilhamos, é uma questão de justiça, inclusão e liberdade nesse país tão profundamente desigual que é o Brasil. Chegou o momento de tratar desse tema com a importância e o senso de urgência que ele sempre mereceu.
Monica de Bolle

11.04.01 d.c.

Falar do quê?, eis a questão. De coisas sérias, consequentes, duras, quiçá úteis e até edificantes ou adoçar a boca do leitor com o mel de fait divers escapistas? Remoer a deprimente arenga sanitária martelada ininterruptamente pela TV ou buscar um ponto de fuga lenitivo e psicologicamente profilático?

Sintetizando a questão em dois filmes sobre enfrentamento ao nazismo: vamos de Kanal ou de A Noviça Rebelde?

(Kanal, informo a leigos e desmemoriados, é um filme tenebroso do polonês Andrzej Wajda, sobre a resistência de seus patrícios à invasão nazista. É quase todo ambientado nos esgotos de Varsóvia. Já a fuga da família Trapp, como até as vacas do Tirol sabem, deu-se através das verdejantes colinas de Salzburgo.)

Como as colinas pós-pandêmicas tão cedo não irão revivescer ao som da música, kanalizemos nossa pauta. Ao esgoto, moçada.

Quem chegar vivo ao final da pestilência em curso poderá testemunhar algo que até recentemente parecia ainda um tanto longínquo, embora visível no horizonte: a morte da agenda de austeridade econômica, a vítima mais alvissareira do novo coronavírus.

Mas não se empolguem. A dívida pública de todos os países deverá atingir níveis assustadores, as economias mais frágeis, esse eterno grupo de risco, verão suas desigualdades aumentarem.


Pelos depoimentos que tenho lido, já é quase consenso que aquele mundo que até algumas semanas atrás desfrutávamos, com menos e mais dificuldades, algumas superáveis, deixou de existir. Desapareceu. E não mais voltará.

A nostalgia encurtou seus prazos; saudade não tem mais idade. Neste primeiro ano da Era Coronavírus, Ano 1 d.c., até crianças já suspiram pelo carnaval de 2020. Ou pelo Natal de 2019.

Sinto-me como se tivesse mudado para outro planeta, cujos habitantes não se interagem, não se confraternizam, não se tocam, onde todos desconfiam e se repelem mutuamente. Até quando seremos (ou nos sentiremos) todos leprosos?

Vejo fotos e filmes em que as pessoas conversam, cumprimentam-se, abraçam-se e dividem a mesma mesa ou o mesmo sofá, e, do alto (no meu caso, nove andares) da minha também pobre experiência quarentenal, me pergunto: qual mundo nos é mais estranho, este que estamos vivenciando ou aquele que, para o nosso bem, teremos de esquecer?

Nunca pensei que um dia fosse experimentar na vida real o que tão marcadamente me intrigou ao ver, em criança, O Dia em que a Terra Parou, a versão original, dirigida por Robert Wise. Como seria se nosso planeta fosse, como no filme, inteiramente paralisado por uma força superior, no caso, a mente de um ET benigno, chamado Klaatu? Todos os aparelhos elétricos são súbita e misteriosamente desligados, exceto os de hospitais e aviões em voo, resultando num breve mas incisivo apagão global, para que os terráqueos aprendam a viver em harmonia, em paz permanente. Não aprendemos.

A espaçonave que até nós trazia Klaatu e seu fiel robô Gort aterrissava em Washington, e como em 1951 a Guerra Fria já estava amornando, tomaram-na por um disco voador soviético, despachado do Kremlin para destruir a América e o resto do Ocidente. As xenófobas imputações feitas à China, nas últimas semanas, por conta do novo coronavírus, aqui e lá fora, seguiram portanto um padrão de idiotia paranoica e anticomunismo fuleiro coberto de mofo.

A covid-19 é um Klaatu em forma de microrganismo; quem sabe não iremos tirar proveitosas lições de sua disseminação. Já aprendemos a revalorizar a solidariedade, o papel da imprensa e o heroico SUS; pouca coisa não foi. Mas ainda é pouco.

Das mil e uma ideias implementadas para amenizar o claustro pandêmico e desentediar a mídia impressa, uma das mais fagueiras foi a série Janelas Para o Mundo que um consórcio de jornais europeus, encabeçado pelo alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung e o italiano Corriere della Sera, bolou com a participação de escritores e filósofos europeus. Cada convidado conta o que tem visto de sua janela ou nela tem corvejado sobre a vida, os últimos acontecimentos e o que mais lhe aprouver.

Residente em Milão, Antonio Scurati, o festejado autor da mais recente biografia de Mussolini, M, o Filho do Século, testemunha de sua finestra o que ele define como o fim de uma era, “a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da humanidade”. É com tristeza e uma pitada de ironia que ele acompanha e narra a transformação da cidade mais rica, privilegiada e evoluída da Itália, polo mundial da moda e do design, em capital mundial da contaminação virótica.

Pouco importa que Nova York já a tenha ultrapassado nesse ranking sinistro. Scurati não mora em Manhattan, é milanês adotivo. A Milão que ele descreve – com seus ricaços fazendo fila para comprar um pão ordinário na mercearia de imigrantes que antes olhavam com desprezo, mas hoje é a única em funcionamento nas vizinhanças – me pareceu a que vimos em A Noite, de Antonioni, metamorfoseando-se na proletária periferia que De Sica retratou em Milagre em Milão.

A um metro de distância um dos outros, “ao mesmo tempo ameaçadores e ameaçados”, os ricaços na fila do pão formam uma felliniana farândola de mascarados. Suas improvisadas máscaras em nada lembram as dos carnavais venezianos. São precárias gazes meio desfiadas, que pendem de rostos transtornados pela “melancolia mole dos restos de uma era acabada”, arremata Scurati.

Da minha janela eu ainda vejo o Corcovado e o Redentor, que lindo. É um consolo. Boa sorte a todos.

Pensamento do Dia


Jim Jones tupiniquim

O presidente Jair Bolsonaro está cavando um abismo a seus pés lutando contra a realidade trágica da Covid-19. Não há saída honrosa para ele diante da perspectiva de recessão econômica - o ministro da Economia Paulo Guedes já teme um PIB negativo de 4%, há bancos prevendo até 6% - e de um dramático número de mortes, que já está na casa do milhar antes de um mês de quarentena. 

As demonstrações diárias de irresponsabilidade acintosa vão ganhando perigosos ares de desequilíbrio comportamental que, em vez de aumentar suas chances de concorrer à reeleição, vão lhe retirando essa possibilidade, reduzindo seu apoio a um grupo de fanáticos. 

A mais recente pesquisa DataFolha mostra que 17% dos eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno estão arrependidos, o que quer dizer que cerca de 10 milhões de pessoas o abandonaram, fazendo com que tivesse hoje, teoricamente, menos votos do que obteve no primeiro turno. 

Não quer dizer, porém, que todos os que não se declararam arrependidos estejam contentes com o governo Bolsonaro. Muitos, certamente, não se arrependeram porque consideram que o principal papel de seu voto foi derrotar o PT. 



Pesquisas de opinião pública mostram que Bolsonaro mantém um apoio em torno de 30% da população, o mesmo índice que o PT costumava ter antes de chegar ao poder, igual ao percentual de votos que o candidato petista Fernando Haddad obteve no primeiro turno. 

Não há indicações de que o PT tenha mantido seu nível de apoio de lá para cá, e o desgaste de Bolsonaro é nítido. Por isso a polarização contra o PT é bom, teoricamente, para os dois, mas especialmente para Bolsonaro se ele já não tivesse provado que não é apenas um antipetista, mas um desequilibrado, técnica e emocionalmente incapaz de enfrentar crises como a que atravessamos, e moralmente corrupto. 

Não acredito que o PT tenha, nesses anos recentes, recuperado a imagem de honestidade e credibilidade que conseguiu introjetar no eleitorado, e acho, portanto, que uma repetição da polarização dificilmente acontecerá. Os extremos já se mostraram incapazes de dar uma solução para o país.

O desgaste de Bolsonaro só se acentuará nos próximos anos, já que ele é incapaz de ser outra pessoa. Já era assim antes da campanha, mas era o que tinham os que queriam alijar o PT. O centro político foi incapaz de apresentar uma alternativa ao eleitor de centro-direita que demonstrasse viabilidade eleitoral, diante da radicalização que tomou conta da eleição. 

Abre-se um caminho largo até 2022 para candidatos de centro se firmarem no cenário político nacional, e os governadores, que são protagonistas dessa guerra contra a Covid-19, podem colher resultados positivos, como já demonstram as pesquisas de opinião e as redes sociais. Por isso, a cada vez que surge um político que se destaque, passa a ser potencial candidato a presidente: é assim com Mandetta, é assim com Moro. 

O comportamento do presidente Bolsonaro, ao sair às ruas em Brasília, é acintoso, atitude que não pode ser vista como normal. Por causa desse comportamento, nossa política de isolamento social está começando a afrouxar, a ser rompida por grupos incentivados pelo presidente. 

Não é assim que a economia vai melhorar, e esse afrouxamento provocará mais mortes, mais sofrimento. Não é à toa que a embaixada alemã está recomendando a seus cidadãos que regressem ao seu país. 

Bolsonaro será responsabilizado pessoalmente pelo aumento das mortes. Não é possível ter um presidente que estimula a população a se arriscar numa pandemia, como um líder místico levando seus seguidores para o suicídio coletivo. Bolsonaro, nosso Jim Jones tupiniquim, será o PT da próxima eleição, aquele a quem será preciso afastar do poder.

Medicina BBB

Estamos na época da medicina BBB, feita por votação. Medicina e pesquisa de rede social. Você não consegue mais não dar cloroquina para um paciente meio grave. A família pressiona e, se você não der, no dia seguinte você não é mais o médico
Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein