quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A caça às feiticeiras

O problema é dificílimo. Todo o mundo está de acordo em que o governo precisa identificar e punir os inimigos públicos que estavam leiloando o Brasil a essa espécie de socialismo degenerado que se convencionou chamar "comunismo internacional". Mas todo o mundo também exige que a eliminação dos focos de insurreição se faça sem se cair no erro extremo da caçada cega às feiticeiras, sem se atacar essa cidadela que é o próprio coração da democracia: a liberdade de pensamento e de palavra.

Quando se escutam os aplausos entusiásticos com que nos saúdam a imprensa e os governos de Salazar e Franco, a gente fica de orelha em pé: que é que nós estamos fazendo ou prometendo de ruim, para eles se alegrarem tanto? Será que esperam que a marcha da Revolução nos arraste a uma ditadura semelhante à deles, sem nos sabermos livrar do falso dilema – ou fascismo ou comunismo – deixando de parte a terceira posição, que é a única verdadeira, a simples democracia?

Tenho medo. O doente está grave e a operação é melindrosa. Tanto o pode salvar como acabar de matar. 


E não pode ser adiada, nem torneada, nem desconversada, essa operação indispensável. É imperioso demarcar logo o limite exato, separando o que é crime e o que é direito de homem livre. Quem se provou culpado de conspiração, entendimento com o estrangeiro, desvio de dinheiros públicos para fins subversivos, preparação de luta armada, insuflamento do povo contra as instituições constitucionais, que pague o seu crime. Jornalista que incitava operários e soldados a greves políticas, à insubmissão e ao motim, esse jornalista incidiu em crime, e merece punição, é claro. Mas o jornalista que, usando da liberdade de imprensa, declarava suas convicções políticas, fossem quais fossem – como se pode prender e condenar esse homem, sem lhe cercear a mesma e sagrada liberdade de pensamento e de palavra?

Funcionário que utilizou criminosamente o dinheiro dos contribuintes para subvencionar organizações ilegais ou promover a insurreição cometeu crime e deve ser demitido, julgado, condenado, e com severidade. Porém, se esse funcionário tem apenas "ideias subversivas", como o punir? Ou antes, com que direito o punir? 

Na hora em que se declara, seja qual for o pretexto e o momento, que ter ideias é crime, então nessa hora está tudo muito mal. Quando se exige que um cidadão, para usar dos seus direitos civis, assine um daqueles "atestados de ideologia" de malfadada memória, é sinal de que há um desequilíbrio grave na balança democrática. 

Sob a alçada da justiça revolucionária só pode ser posto o fato atual, o fato concreto, o crime perpetrado. (E há uma legião enorme de candidatos à cadeia, dentro dessa faixa.) Mas ter qualquer ideia dentro da própria cabeça, seja que ideia for, isso só é crime em terras como a Rússia, a China, Cuba, ou na Espanha e no Paraguai.

Ser comunista ou acreditar que o comunismo é a solução para os problemas do mundo pode ser um erro, um engano trágico, mas não é um crime. Democraticamente não o é. Só começa a ser crime quando o cidadão abandona a simples ideologia e entra no terreno da organização revolucionária, da conspiração e da revolta.

Parece tão óbvio tudo isso. Mas tão difícil de realizar com honestidade e justiça. A grandeza da democracia coincide precisamente com a sua maior fraqueza. Na liberdade, que é o seu fundamento e a razão de sua existência, está também o seu maior risco, estão em potencialidade todos os perigos. Mas acontece que, dessa grandeza e dessa debilidade, desse risco, participa a própria natureza humana. O reconhecimento do livre arbítrio, que é a base de todos os códigos religiosos, nasce da ânsia imanente de liberdade da natureza do homem. Deus Nosso Senhor – qualquer que seja o nome sob que o invoquem – consagra essa liberdade essencial: do espírito como fundamento de toda a sua justiça. Deus, em todas as religiões civilizadas, revela a verdade, mas não a impõe, deixando ao homem o direito de errar, numa demonstração de que a democracia é instituição divina, já que se baseia no inalienável livre arbítrio por Deus reconhecido.

Quando leio nos jornais que a casa de fulano de tal foi "visitada pela polícia" que, em suas buscas, apreendeu grande cópia de "literatura comunista", tremo. Apesar de toda a minha gratidão pelo milagre que foi esta revolução, de toda a minha confiança nos homens que a chefiam, tremo. Polícia que censura livros, revolução democrática que tem medo do pensamento e faz autos de fé, assustam. Será que os agentes apreendedores são capazes de fazer a indispensável distinção entre a boçal literatura de propaganda da insurreição, fartamente distribuída pelas agências internacionais do comunismo, e a literatura propriamente dita, os livros onde o pensamento humano se entrega ao seu mais nobre exercício, que é a especulação e a discussão dos problemas eternos – sociais, morais, religiosos? Que qualificação intelectual terão os agentes de polícia que dão as buscas para fazer essa distinção sutil, mas vital?

A caça às feiticeiras é um esporte sanguinário e embriagante. Precisa muita força de alma para lhe resistir, quem tem o dever de caçar simples criminosos. 

E não é ocioso lembrar que, afinal de contas, quem acabou com as bruxas e com a bruxaria não foram as fogueiras dos fanáticos; foi, ao contrário, a razão livre, o pensamento livre, o raciocínio livre dos homens, homens livres.

Engana-se quem quer

Era de imaginar que, a essa altura, a gente tivesse aprendido a lição, tivesse aprendido a dominar as artimanhas com que essas coisas tapeiam a gente, mas as pessoas nunca se fartam.

Elas aplaudem, agitam bandeiras, contratam bandas militares para desfilar. Sim, sim, coisas formidáveis, coisas milagrosas, máquinas de estontear a imaginação
Paul Auster, "Timbuktu"

A sedução do autoritarismo

Eles pertencem a mundos distintos. Humberto Costa, de 62 anos, é psiquiatra e senador pelo PT de Pernambuco. Eduardo Bolsonaro, de 35 anos, é policial e deputado pelo PSL de São Paulo. Na aparência, não têm muito em comum, além do hábito de abusar dos gritos nos ataques aos adversários em plenário. Mas acabaram se encontrando em peculiares interpretações sobre a palavra “liberdade”.

Costa propôs ao Senado a criação de um “órgão independente” para controlar a internet. Pretende liquidar “mídias sociais” que “destroem reputações e disseminam o ódio”.

O senador se esqueceu de definir “mídias sociais” no projeto (PRS nº 56). Nem citou nomes. Só não deixou de lembrar a criação de 24 cargos nessa “instituição” (5) e no seu “conselho multissetorial” (19).

Costa quer impor ordem na “desordem informacional” da rede mundial, que tem 209 milhões de usuários brasileiros. Não é difícil imaginá-lo à frente da brigada de catalogação infinita de sites e mensagens, para intimar provedores à “remoção de conteúdos”, como prevê no seu projeto.

Ao lado, na Câmara, o deputado Eduardo Bolsonaro batalha por uma lei (PL 5358) para “criminalizar a apologia ao comunismo”. Pretende punir quem “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos”, entre eles a foice e o martelo,

O deputado sonha com o impossível, pois “ideias não podem ser assassinadas” — ensinava o presidente argentino Domingo F. Sarmiento (1811-1888), que duplicou o número de escolas e construiu uma centena de bibliotecas públicas no seu país. No caso, uma idealização política inspirada, goste-se ou não, nos Evangelhos e cuja formulação orgânica remonta a Platão, na Grécia Antiga.

Bolsonaro quer proibir, por exemplo, símbolos da China, comunista e dona de 30% da energia, de metade da rede telefonia e com US$ 100 bilhões anuais em comércio com o Brasil.

O senador do PT e o deputado do PSL se encontraram na sedução do autoritarismo. Ficaram caricatos na aposta em censura para impor “ordem” ao século XXI. Podem não ter percebido, mas já foram atropelados pela História.

Mudanças climáticas podem gerar crise financeira sistêmica

As mudanças climáticas podem desencadear uma crise financeira sistêmica, ao menos que medidas sejam tomadas para conter os riscos, alerta um novo livro lançado nesta segunda-feira pelo Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, ou BIS, considerado o banco central dos bancos centrais). E, sozinhos, os bancos centrais não poderão salvar o planeta do caos no clima, alertam os autores.

Em “Cisne Verde”, os analistas traçam um paralelo entre a teoria do Cisne Negro com o caos climático. Em obra publicada em 2007, Nassim Nicholas Taleb descreve que os eventos do cisne negro possuem três características: eles são inesperados e raros, fora das expectativas; seus impactos são amplos ou extremos; e eles só podem ser explicados após acontecerem. Exemplos são ataques terroristas, o surgimento de tecnologias disruptivas ou catástrofes naturais.

Os cisnes verdes, ou “cisnes negros climáticos”, podem ser encaixados nessa discrição. Os riscos se caracterizam pela incerteza e não-linearidade, suas chances de ocorrência não se refletem em dados do passado, e a possibilidade de valores extremos não pode ser descartada. Entretanto, existem algumas particularidades dos cisnes verdes. Apesar de imprevisíveis, existe um alto grau certeza de que os riscos irão se materializar; o potencial para reações em cadeia ambientais, geopolíticas, sociais e econômicas imprevisíveis; e consequências mais sérias que crises financeiras: as catástrofes climáticas são ameaças existenciais para a Humanidade.

— Cisnes verdes ou cisnes negros climáticos apresentam muitas características dos cisnes negros típicos — afirmou Luiz Awazu Pereira da Silva, vice-gerente geral do BIS e coautor do estudo, em entrevista coletiva, segundo a agência Bloomberg. — As abordagens tradicionais de gerenciamento de riscos, que consistem na extrapolação de dados históricos e hipóteses de distribuições normais, são em grande parte irrelevantes para avaliar riscos futuros relacionados com o clima.


O livro foi publicado na semana seguinte ao anúncio de que a última década foi a mais quente do planeta, com o registro de 19 dos 20 anos mais quentes da História. O número de eventos climáticos extremos quadruplicou nos últimos 40 anos, o que reforça a urgência no trato do tema. A elevação do nível do mar ameaça a existência de cidades costeiras, tempestades e secas mais brutais e frequentes tornam catástrofes o novo normal.

— Acho que estamos prestes a observar algo que poderá estar por trás da próxima crise financeira sistêmica — afirmou Pereira da Silva, segundo a Reuters.

No livro, os autores destacam que os bancos centrais possuem limitações para agir contra as mudanças climáticas. Contudo, se apenas aguardarem por ações de outras agências, eles poderão ser expostos ao risco de não serem capazes de manterem a estabilidade financeira das nações. Os cisnes verdes podem forçar a intervenção dos bancos centrais, com a compra de grandes quantidades de ativos desvalorizados para salvar a estabilidade do sistema financeiro, como já aconteceu no passado.

“Contudo, as fundações biofísicas de tal crise e seu potencial de impactos irreversíveis mostraria rapidamente os limites desta estratégia”, dizem os autores, no livro. “Por outro lado, bancos centrais não podem (e não devem) simplesmente substituir outros atores governamentais e privados em suas ações insuficientes”.

— Não existe bala de prata — alertou Pereira da Silva. — Os bancos centrais não irão salvar o mundo novamente.

Mas isso não significa inação. Os autores recomendam que bancos centrais atuem de forma proativa, contribuindo na coordenação com outros atores, promovendo a integração dos riscos relacionados com o clima na regulação dos mercados e no monitoramento da estabilidade financeira, inclusive com a adoção de novas abordagens na modelagem e de novas ferramentas analíticas que melhor dão conta das incertezas e da complexidade do tema. Eles podem adotar critérios sustentáveis nas suas políticas e, “o mais importante, os bancos centrais precisam coordenar suas ações com um conjunto mais amplo de medidas que devem ser implementadas por outros atores”.

“Essa tarefa de coordenação é urgente, dado que os riscos relacionados com o clima continuam aumentando e os impactos negativos podem se tornar irreversíveis”, dizem os autores. “Existe um conjunto de ações que deve ser consistentemente implementado. As mais óbvias são a necessidade de precificar o carbono e a divulgação sistemática de riscos relacionados ao clima pelo setor privado”.

“A dura realidade é que estamos perdendo a luta contra a mudança climática”, escreveu o governador do Banco Central francês, François Villeroy de Galhau, no prefácio do livro. “Se os bancos centrais querem preservar a estabilidade financeira na era das mudanças climáticas, é de seu interesse ajudar a mobilizar todas as forças necessárias para vencer essa batalha”.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Política diabólica

O demônio irrompe no ser humano não apenas de maneira velada ou encanado em criminosos e psicopatas. Muitas vezes e em alta escala, o diabo faz política e dizima povos inteiros
Hemann Hesse

Seis números que mostram um mundo cada vez mais desigual

“A desigualdade económica está fora de controlo”. É o diagnóstico feito pela Oxfam International, uma confederação de organizações não-governamentais que lutam contra a pobreza. E apesar das diferenças entre os super-ricos e o resto da população serem cada vez maiores, a Oxfam teme que a desigualdade continue a crescer.

“Sem medidas decisivas as coisas ficarão bem piores. O envelhecimento das populações, os cortes na despesa pública e as alterações climáticas ameaçam exacerbar ainda mais a desigualdade económica e de género e alimentar uma crise mais aguda para os que precisam de cuidados e para os que cuidam”, refere a entidade num relatório divulgado esta segunda-feira.

A Oxfam afirma que “enquanto a elite dos ricos e poderosos pode comprar a sua saída do pior destas crises, os pobres e sem poder não o conseguirão fazer”. E pede aos governos que “tomem medidas para construir uma nova economia, mais humana, que dê resposta a todos e que valorize mais a prestação de cuidados e o bem-estar de todas as pessoas do que os lucros e a riqueza”.


Todos os anos esta entidade costuma divulgar um estudo aquando da realização do Fórum Económico Mundial, em Davos, de forma a tentar colocar o problema da pobreza e da distribuição injusta de riqueza na agenda dos líderes políticos e económicos. No relatório deste ano, a Oxfam destaca alguns números para demonstrar que existe uma “crise de desigualdade” que precisa de ser resolvida. A entidade sugere a criação de um imposto adicional sobre as grandes fortunas para financiar mais emprego e serviços essenciais para a população.

2153

Número de multimilionários (com património acima de mil milhões de dólares) no mundo em 2019. Detêm mais riqueza que 4,6 mil milhões de pessoas (60% da população mundial).

22

A riqueza combinada dos 22 homens mais ricos do mundo é superior à de todas as mulheres dos continente africano.

100 dólares

Se todos se sentassem sobre o valor da sua riqueza empilhadas em notas de 100 dólares, a maior parte da população mundial estaria sentada ao nível do chão. As pessoas de classe média dos países mais ricos conseguiram estar na altura de uma cadeira. Mas os mais ricos do mundo estaria sentados no espaço sideral.

10 mil dólares

A Oxfam salienta que poupar dez mil dólares por dia desde a construção das Grandes Pirâmides serviriam apenas para ter um quinto da fortuna média dos cinco mais ricos do mundo.

10,8 biliões de dólares

Um dos problemas salientados pela Oxfam no relatório é o do trabalho não remunerado que envolve as tarefas diárias de cuidar de outras pessoas, cozinhar, limpar e encontrar água e lenha, que na sua grande maioria são desempenhadas por mulheres. A entidade estima o valor monetário destes trabalhos prestados por mulheres acima de 15 anos em 10,8 biliões (milhões de milhões) de dólares por ano. É o triplo do valor estimado para o setor da tecnologia a nível mundial.

0,5%

A Oxfam estima que um imposto adicional de 0,5% sobre a riqueza dos 1% mais ricos seria suficiente para angariar receita que financiasse o investimento necessário a criar 117 milhões de empresa nas áreas da educação, saúde e da assistência a idosos e a outros setores de forma a eliminar as falhas neste tipo de cuidados.

Estudo da Oxfam: 'É urgente encontrar soluções novas para o cuidado de crianças e idosos'

O ponto central do relatório da ONG britânica Oxfam é o trabalho de cuidado a dependentes que não é remunerado. O estudo, que também estima a concentração de riqueza no mundo, revela que esse tipo de ocupação é exercido principalmente pelas mulheres, em especial as mais pobres. São elas que cuidam das crianças e dos mais velhos. É urgente encontrar soluções novas.

Se as horas trabalhadas por elas em casa fossem remuneradas, seriam injetados US$ 10,8 trilhões na economia mundial a cada ano. Esse seria a medida econômica do problema. O assunto também é importante no debate sobre a desigualdade, que a Oxfam considera como fora de controle, em seu relatório.


Faltam políticas públicas. Uma criança deveria ter vaga em creche. Mas o normal hoje é que as meninas cuidem das crianças e dos mais velhos da família enquanto os homens vão para o mercado de trabalho. Faz parte dessa divisão errada dos papeis familiares. É uma visão envelhecida. Os cuidados têm que ser compartilhados dentro dos lares e todos, homens e mulheres, precisam ter a oportunidade de buscar o mercado de trabalho.

As soluções precisam ser modernas. É assim que as economias e as sociedades prosperam. O risco desse modelo é que a mulher passe parte da vida produtiva cuidando dos filhos em casa e outra parte dedicada aos cuidados dos mais velhos.

Remunerar a mulher pelo trabalho doméstico não é uma boa solução. Isso congela a ideia de que o cuidado dos dependentes é uma obrigação da mulher. É um equívoco. A política pública para mudar essa situação é, por exemplo, ter mais creches especialmente em lugares pobres. Uma mãe que sai para trabalhar e deixa a filha mais velha cuidando da mais nova é a superexploração da mulher enquanto ela ainda é uma menina.

O Brasil precisa pensar também em como será a sua organização com o aumento do número de idosos. O estado pode oferecer instituições de longa permanência para os mais velhos, com tratamento mais humano.

As soluções têm que ir no sentido de modernizar as sociedades. Nos países nórdicos, o auxílio-maternidade não existe. É um benefício para o cuidado com a criança, dividido entre o pai, a mãe ou até outra pessoa da família, que passa um período de meses cuidando do dependente. Deixar o auxílio exclusivo para a mãe consagraria o princípio de que só a mãe vai cuidar. Relações intensas com o pai e a mãe formam seres humanos melhores, que entendem os diferentes papeis na sociedade.
Há muito o que ser feito na redistribuição do trabalho doméstico.

‘Desigualdade global está fora de controle’

O Fórum Econômico Mundial começa sua 50ª reunião anual, no pacato resort alpino de Davos, tentando colocar em prática uma cartilha lançada meio século atrás por seu fundador, Klaus Schwab, para guiar as práticas corporativas. Agora, diz o alemão de 81 anos e sotaque carregado, a hora de colher uma reforma do capitalismo finalmente chegou. Tanto que ele lançou o “Manifesto de Davos 2020” para atualizar conceitos pensados originalmente em 1971.

Nunca foi tão urgente, segundo Schwab, dar significado concreto à ideia de um “capitalismo das partes interessadas” (stakeholder capitalism) no lugar de outros dois modelos em voga nas últimas décadas. O “capitalismo de acionistas” teve seu momento de esplendor enquanto centenas de milhões de pessoas prosperavam, tinham acesso a bens de consumo inéditos, empresas abriam novos mercados e empregos eram criados.


Só que esse modelo não é mais sustentável, avalia o fundador do Fórum, que dá as razões. “Primeiro veio o efeito Greta Thunberg: ela nos recordou que o sistema econômico atual constitui uma traição às gerações futura pelo dano ambiental que provoca. Em segundo lugar, os ‘millenials’ e a ‘geração Z’ já não querem trabalhar, investir ou comprar em empresas que não atuem com base em valores mais amplos. Por último, cada vez mais os executivos e investidores compreendem que o sucesso deles no longo prazo também depende do êxito de seus clientes, empregados e fornecedores”, afirma Schwab.Já o “capitalismo de Estado” pode ter colhido bons resultados e cumpriu um papel no desenvolvimento de alguns países, sobretudo na Ásia, mas precisa evoluir para não se corromper, segundo ele.

O novo manifesto estabelece premissas: pagamento justo de impostos, tolerância zero com a corrupção, proteção do meio ambiente para futuras gerações, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético das informações privadas na era digital, vigilância dos direitos humanos em toda a cadeia de fornecedores, remuneração responsável dos executivos. Em um ensaio de construção desse novo capitalismo, dezenas de empresários e banqueiros que estão subindo a “montanha mágica” de Davos receberam, no fim da semana passada, carta assinada por Schwab - tendo como coautores os presidentes do Bank of America e da gigante holandesa Royal DSM - com uma proposta de compromisso: que suas companhias zerem as emissões líquidas de gases do efeito estufa, tornando-se “carbono neutras”, até 2050.As questões ambientais, inclusive, estão transformando a atual edição no que muitos chamam de “Davos verde”. Serão 51 painéis de discussão sobre ecologia, desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas - contra 50 de geopolítica e 27 específicas de economia. Uma iniciativa coordenada pelo Fórum promete o plantio de um trilhão de árvores, até 2030, contra o aquecimento global.

Sem nenhum representante do governo brasileiro, uma sessão na quarta-feira intitulada “Assegurando um Futuro Sustentável para a Amazônia” terá no palco o climatologista Carlos Nobre, crítico das políticas ambientais de Jair Bolsonaro. O ex-vice americano Al Gore também integra essa discussão.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A Terra é chata

Um novo planeta foi descoberto por um satélite da Nasa. Fica na primeira galáxia à direita depois do Sol, a cem anos-luz daqui. É um pouquinho maior que a Terra e, como se constatou, redondo, em forma de globo.

Também como a Terra, gira em torno de si mesmo e de uma estrela e é dilatado nos polos e achatado no equador, ou vice-versa. Eles o estão chamando de TOI 700 d, sendo TOI a sigla em inglês para “Objeto de Interesse do Tess”. Tess é a nova sensação das varreduras espaciais: um satélite caça-planetas. Desde que entrou em ação, em 2018, já achou três.

Para descobrir um planeta, o Tess passa 27 dias observando uma estrela, de olho em qualquer oscilação de seu brilho. O que, se acontecer, terá sido provocado pela passagem de um corpo celeste —um planeta— ao redor dela. A vida é meio parada no espaço, donde não há outras opções. Mas, para não restar dúvida, exige-se que tal oscilação se dê pelo menos três vezes. Cada operação congrega um batalhão de cientistas, quase todos nóbeis, fazendo cálculos fora do alcance da nossa aritmética escolar.

Pois é armado dessa aritmética de ábaco e de contar nos dedos que um grupo de novos pitecantropos afirma que a Terra é plana, não esférica. São os terraplanistas. Indiferentes a 2.500 anos de ensinamentos por gente como Pitágoras, Aristóteles, Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e Einstein, seus argumentos são os de uma criança de babador. Para eles, a Terra é chata e em forma de pizza, como se pode constatar, dizem, olhando pela janela do avião.

Os cientistas de toda parte e de todos os tempos nos mentiram. As estações espaciais que, lá de cima, nos veem redondos e esféricos, não existem. A Nasa é um estúdio de efeitos especiais. A Lua também é chata. Marte, Vênus, Júpiter, idem. Eles acreditam nisso.

Estou propenso a concordar. Mas, antes, meu cérebro também terá de virar uma pizza.
Ruy Castro

Esmiuçando um país

Um país não é aquela roupa velha que se veste de quando em quando, longe dos estranhos, na intimidade.

Um país não é uma saudade, sequer uma nostalgia miúda. Não é uma música que seu pai cantava enquanto preparava o cigarro de palha. Não é a lembrança que sua mãe mantém de um antigo amante.

Não é uma tarde com crianças correndo no quintal. Igualmente não são dois vizinhos batendo papo pela janela de suas casas.

Um país não é uma bola na trave. Não é um grito inesperado daquele homem que caminha em silêncio. Qualquer muleta abandonada na calçada é apenas uma potencial metáfora para o país.

Por mais que se pense que um país seja suas sextas-feiras e feriados, ele não é isso. Tampouco é o domingo, no qual velhos casais reencontram o desejo.


Um país, veja bem, não é o conjunto de suas desgraças. Não é o sorriso do velho banguela ao ver seu neto banguela rindo do vento que lhe assopra o rostinho.

Um país não é nem a chuva ruidosa (muito menos a garoa) nem a mulher que, no meio da rua, parece chorar e ao mesmo tempo sorrir. Não é a gargalhada de um grupo de adolescentes.

Alguns querem que um país seja o aplauso comovido para aquela cantora cuja voz é apenas um fiapo da voz de quando ela estava no auge. Esqueçam. Um país não é a vassoura que varre a calçada.

Um país está longe de ser um assalto a banco. Do mesmo modo, está longe de ser um ato altruísta de um mendigo. Até poderia ser, mas não é, um beijo que o senhor violento, às escondidas, dá em uma flor cujo cheiro é mais intenso que a cor. Um país não é a sua literatura ou seus muros pichados.

Um país não é uma greve geral. Não é um dia sem consumir carne ou um dia sem consumir ou um dia em que se vai de visita ao túmulo dos pais.

Um país não são as crianças na escola. Não são os jovens na escola. Não são os adultos empregados. Não são nossas certezas ou sonhos.

Um país não é um filme de terror — ainda que um filme de terror possa ser um país; ainda que uma comédia possa ser um país. Ainda que a tristeza possa representar o país. Ainda que a alegria faça parte das saudades de um país.

Um país não é a sabedoria. Não são os acepipes servidos em reuniões festivas. Não são as quitandas cuja receita é anterior ao próprio país. Um país não são seus tambores e festas.

Um país não tem o rosto que os mapas dizem que ele tem.

Um país — o nosso — é um daqui a pouco urgente.

Na Secom, Bolsonaro queima junto com assessor

O incêndio que arde na Secretaria de Comunicação da Presidência da República não para de crescer. Avolumam-se as evidências de que o chefe do órgão, Fabio Wajngarten, meteu-se num conflito de interesses que carboniza sua reputação e pode resultar em processo por improbidade administrativa. Como empresário, presta serviços a emissoras de TV e agências de publicidade. Como secretário, gerencia o rateio das verbas publicitárias..

A Comissão de Ética da Presidência da República analisa a encrenca no dia 28. O Tribunal de Contas da União se equipa para perscrutar os contratos firmados por Wajngarten. A oposição prepara representação a ser protocolada na Procuradoria-Geral da República. E discute com aliados do centrão a hipótese de arrastar o secretário para uma inquirição no Congresso.

Alheio à movimentação, Bolsonaro lida com o incêndio à moda de um personagem de anedota de português. Nela, após incêndio no interior de um prédio, os bombeiros verificam os destroços. Encontram apenas um morto: Jair Manoel.


Ele estava de ponta-cabeça, com o dedo indicador apontando para um dos cantos do ambiente. Ao lado de Jair Manoel, havia um extintor de incêndio com a seguinte instrução: "Em caso de incêndio, vire para baixo e aponte para a chama.".

Bolsonaro ficou de cabeça para baixo no instante em que, a despeito do cheiro de queimado, anunciou que manterá Wajngarten no cargo. "Se foi ilegal a gente vê lá na frente", declarou.

No momento, dispondo da caneta presidencial, único extintor capaz de deter o fogo, o capitão limita-se a apontar para as labaredas, sem se dar conta de que está sendo chamuscado.

Brasil, ralo amado


Os riscos fatais do planeta Terra

Quando será tarde demais? A pergunta que precisa ser feita diante do aumento do perigo, qualquer perigo, tem que estar conosco como uma inseparável companheira na era da emergência climática. Quando será tarde demais? Fiz essa pergunta a cientistas ingleses quando visitei o Met Office, o Inpe inglês, em 2009. Eles me mostraram as projeções, os cenários, os riscos, os tipping points. Um dos deflagradores desse ponto, a partir do qual nada mais é possível fazer, disseram eles, é a perda da floresta amazônica. O Inpe contou de novo que o desmatamento continua a crescer. Subiu 85,3% de janeiro a dezembro de 2019, comparado com 2018.

Foi exatamente o Deter, sistema de detecção de desmatamento em tempo real, que foi atacado pelo governo, a ponto de o presidente da República demitir o diretor do instituto. E o que o instituto alertou aconteceu. O Prodes já havia mostrado quase 30% de aumento. Esse sistema tem dados mais consolidados sobre 12 meses que terminam em julho de cada ano. O Deter é sistema de alerta, vai na frente, vai avisando. Na semana passada, ele divulgou os números do ano inteiro, de janeiro a dezembro, o primeiro desse governo que deliberada e abertamente estimula o desmatamento.


A economia foi atravessada por essa emergência e não há escolha que possa ser feita sem ter em vista esse perigo. O Brasil subsidia combustível fóssil, reduz imposto sobre diesel, gasta R$ 1 bilhão do dinheiro dos nossos impostos, todos os anos, subsidiando térmica a carvão. O ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, me disse que o subsídio irá, pelo Plano Nacional de Energia, até 2027. Então a sociedade brasileira gastará R$ 8 bilhões até lá e só no segundo mandato presidencial depois do atual é que acabará esse gasto. Ou não. O governo Bolsonaro quer que o BNDES volte a financiar térmicas a carvão. O ministro me disse que não é para construir novas térmicas. É apenas para elas instalarem novas tecnologias. A decisão do banco, na gestão de Maria Silvia, foi não financiar e ponto. Recursos públicos seriam emprestados apenas para energias limpas e novas. Mas o que preocupa alguns economistas brasileiros são incentivos dados, e que existem em todos os países, à energia solar, limpa e sustentável. Eles nunca se incomodaram com o do carvão ou dos derivados de petróleo. Curiosa inversão do olhar.

“Os riscos diante de nós demandam imediata ação coletiva”. A frase, que poderia estar na boca de um ambientalista, foi escrita em documento divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. Quase todos os riscos de longo prazo vistos nos cenários feitos pelos economistas e executivos da economia global são climáticos. Eventos climáticos extremos, grande perda de biodiversidade, crimes ambientais, falha na mitigação, são esses alguns dos problemas apontados por 750 especialistas e tomadores de decisão que responderam ao questionário do Fórum que acontece em Davos.

Se todos eles, que tomam decisões, acham que o perigo é este, se tantas ruas do mundo estão ocupadas por manifestantes, se líderes jovens estão alertando, com uma maturidade que nem deveriam ter, por que mesmo o mundo continua errando?

Em 2009, quando visitei o Met Office, um prédio nas proximidades de Londres com detalhes que lembram seu fundador, o comandante do navio de Charles Darvin, o mundo estava se preparando para a COP-15 de Copenhague. Havia muita esperança de um acordo global do clima que tivesse poder de lei nos países. O desmatamento da Amazônia estava caindo havia vários anos. Grandes empresários, executivos das principais empresas globais ouviam os alertas dos cientistas. Parecia ser o momento em que o mundo começaria a se afastar do perigo extremo. A reunião fracassou. Em Paris, anos depois, se conseguiu fechar o acordo do clima. Mas o governo americano passou a ser ocupado por um negacionista. O brasileiro, também. O mundo andou para trás desde Paris. Nós também. A reunião de Madri, em dezembro, foi melancólica.

Quando será tarde demais? Essa é a pergunta que a humanidade precisa encarar agora porque terá que respondê-la para as gerações que herdarão a Terra. O que estamos entregando aos nossos filhos, aos nossos netos?

Um terreno comum

Sensatez em uma área não é incompatível com sanidade em outra. É possível apoiar o combate a milícias e querer a privatização da Cedae, por exemplo. Ser de centro esquerda e defender votos dissidentes como o de Tabata no caso da Previdência e o de Freixo no pacote anticrime. Ou considerar que alguns excessos ultrapassam linhas a respeitar mas também ter certeza de que a Lava-Jato faz bem em ser firme no combate à corrupção de quem foi convivente e não inocente.

Exercer autoridade sem abuso pressupõe seguir as leis. Mas não significa blindar poderoso. Criticar arbitrariedades na investigação não impede de reconhecer corrupção sistêmica e querer sua punição. Sem jogadas marotas.

Na realidade complexa, circulamos em esferas distintas. Alguém pode ao mesmo tempo querer proteção às reservas indígenas, ser ateu e exigir respeito a quem tem crença. Ou, religioso, pode defender que não se misture fé e política e que igreja pague imposto como todos nós. Garantir o direito de defesa mas exigir que criminosos sejam punidos. Ser ativista dos direitos humanos e admitir que condenado em segunda instância comece a cumprir pena, como em quase toda democracia. Estar alerta para a urgência da questão ambiental, ver que trabalhador rural precisa de amparo e distinguir o agronegócio de sua escória. Ser a favor da autonomia universitária, contra cortes na educação e perceber que sem reformar a Previdência não há dinheiro para investir. Preocupar-se com o desemprego e enxergar que isso não se deve à reforma trabalhista.

Uma coisa não impede a outra. Defender o direito ao aborto não é incompatível com rigor no controle fiscal. Rejeitar discriminação sexual, racial ou religiosa não cega para ver as estruturas de patrimonialismo, clientelismo e corporativismo que mantêm a desigualdade econômica e social — e combatê-las sem populismo.

Ideias progressistas ou virtudes éticas não são monopólio de um só lado. Um terreno racional comum é indispensável para se construir um país melhor.

A semana em que 47 povos indígenas se uniram por um manifesto antigenocídio

Em um momento de pouco diálogo e muitas brigas no meio político internacional, 47 povos indígenas brasileiros se reuniram entre os dias 14 e 17 de janeiro para dar uma aula de diplomacia. O Encontro dos Povos Mebengokrê e Lideranças Indígenas do Brasil era um desejo que o cacique Raoni Metuktire nutria há três anos: um momento em que as diferentes lideranças de povos indígenas que vivem espalhados pelo território brasileiro estivessem finalmente juntos e que, em união, pudessem assinar um compromisso de defesa de seus direitos. Intitulado Manifesto do Piaraçu - das Lideranças Indígenas e Caciques do Brasil na Piaraçu, o documento de quatro páginas sintetiza as principais demandas de todos os signatários e o compromisso de esforço coletivo para construção de uma agenda política nacional e internacional em defesa da natureza.


A construção do texto final se assemelhou aos procedimentos diplomáticos para assinatura de acordos internacionais. Primeiro foram realizadas mesas de conversa por três dias. As grandes pautas abordadas foram os assassinatos de lideranças; os empreendimentos governamentais previstos para serem construídos sobre as Terras Indígenas; a atividade garimpeira e do mercado de mineração; a ação de madeireiros ilegais; a municipalização do sistema de saúde indígena, que ignora o tratamento especial dado atualmente a essas comunidades; e o desmonte da Funai.

O relatório original de trinta páginas foi então finalmente convertido por jovens indígenas formados em Direito em um documento enxuto, apresentado em português, por meio do qual eles denunciavam o “projeto político do Governo brasileiro de genocídio, etnocídio e ecocídio”. “As ameaças e as falas de ódio do atual governo estão promovendo a violência contra os povos indígenas, os assassinatos de nossas lideranças e a invasão de nossas terras", afirma o relatório. “O atual presidente da República está ameaçando os nossos direitos, a nossa saúde e o nosso território. (...) O governo atual está nos atacando, querendo tirar a terra de nossas mãos.”

Sob a cobertura de palha da Casa dos Homens, espaço que usado como plenária ao longo do encontro, Raoni estava cercado de outros caciques Kayapó enquanto os jovens liam a primeira proposta do texto. Os anciões pediram que os 47 povos pudessem se organizar em delegações ―pequenos grupos que se reuniram em rodas pela aldeia―, formados pelos anciões de cada povo e um jovem que pudesse traduzir o documento do português para a língua nativa de cada um. Após cada delegação ouvir a tradução em seu idioma, as lideranças fizeram uma lista de propostas de emenda ao documento.


Com as mudanças solicitadas em mãos, todos os líderes se reuniram mais uma vez na Casa dos Homens e as propostas foram votadas uma a uma. Entre elas, que fosse incluída a frase: “Não admitimos que o Brasil seja colocado à venda para outros países que têm interesse de explorar o nosso território”. Também houve muito debate sobre o título, que foi definido por consenso de forma a deixar claro que as afirmativas ali partiam de inúmeros líderes indígenas, que reconhecem Raoni como a liderança de todos. “Só nós podemos falar sobre nós e por nós mesmos. Não admitimos que nossos caciques sejam desrespeitados, assim como Bolsonaro fez em 2019 em seu discurso durante o encontro na ONU contra o cacique Raoni. Afirmamos que o Cacique Raoni é SIM [em letras maiúculas] a nossa liderança. Ele nos representa!", continua o texto.

Os líderes indígenas também decidiram em unanimidade dar destaque para a defesa dos territórios, o combate à atividade minerária, de garimpo e de madeireiras e ao arrendamento de terras. “Nós não aceitaremos garimpo, mineração, agronegócio e arrendamento em nossas terras, não aceitamos madeireiros, pescadores ilegais, hidrelétricas ou outros empreendimentos, como Ferrogrão, que venham nos impactar de forma direta e irreversível”, afirmou o documento. Por fim, as nações indígenas reiteraram esperar que as palavras redigidas em papel ecoem pelas ruas, por meio de manifestações no Brasil e no exterior. “2020 será um ano de muita luta, (...) de muitas mobilizações (...) em Brasília e nas ruas do mundo todo”, diz o documento.

E assim, após nove horas de negociação entre os povos, o texto final foi assinado pelas principais lideranças. Três mulheres kayapó (Maialu, Mayal e Moé) fizeram a relatoria do documento. Maialu, filha do cacique Megaron Metuktire, braço direito de Raoni, foi quem encerrou a mesa. Uma dança marcou a conclusão da elaboração do manifesto e a retomada da aliança dos povos da floresta. O momento retratou a união entre povos fisicamente distantes, do Rio Grande do Sul ao Pará, e de reconciliação oficial entre nações que já tiveram desavenças, agora deixadas para trás.

Pensamento do Dia


Bolsonaro promove a política da presepada

O que acontece quando chega ao governo federal um conjunto de ressentidos que passou a vida gramando para tirar uma nota C na prova, achava que bons modos eram coisa de pessoas frescas e sobrevivia das migalhas do poder?

Acontece o governo Jair Bolsonaro.

A insciência passa a ser vendida como virtude, e o insulto, como método de comunicação. Mas, porque competência não se improvisa, a presepada amiúde vira a resultante do entrechoque entre habilidade de menos e testosterona de mais.

A dicção imperial de Roberto Alvim a interpretar o arauto genocida do 3º Reich, embolado numa maçaroca simbólica, talvez não ache rival na escala de cenas ridículas já originadas na Esplanada dos Ministérios. Mas a distância para outras quixotadas deste governo é apenas de grau.

No Carnaval passado, o presidente veiculou imagens obscenas a pretexto de denunciar o que considera indecência. A escatologia —as alusões a detritos e excrementos— nunca frequentou tanto a expressão de um chefe de Estado brasileiro, o que é tema para psicanalistas.

Grosserias com adversários e profissionais da imprensa se tornaram moeda corrente, cunhada no Palácio do Planalto. Também vem de cima o desapreço pela técnica, pelo estudo, pela argumentação e pelo vernáculo. É apenas consequência um ministro da Educação ignorante do tema, que massacra a língua portuguesa e escoiceia os seus críticos.

Como são mal dotados também de sintaxe institucional, muitos quadros do Executivo apenas dissipam energia governamental. Dão com os burros n`água no Congresso, no Supremo Tribunal Federal e nos demais órgãos de controle. Nem bem se refizeram da trombada de ontem e já se abalam de novo contra o muro.

A estultice resfria o vapor autoritário que lhes sai pelas ventas. A inépcia atenua o efeito da brutalidade e deixa a patetice de subproduto. Mas em quatro anos até camundongo aprende. De pancada em pancada, o bicho começa a acertar os movimentos. Aí é que mora o perigo.

O Real Resiste

Autoritarismo não existe Sectarismo não existe Xenofobia não existe Fanatismo não existe Bruxa fantasma bicho papão O real resiste É só pesadelo, depois passa Na fumaça de um rojão É só ilusão, não, não Deve ser ilusão, não não É só ilusão, não, não Só pode ser ilusão Miliciano não existe Torturador não existe Fundamentalista não existe Terraplanista não existe Monstro vampiro assombração O real resiste É só pesadelo, depois passa Múmia zumbi medo depressão não, não, não, não não, não, não, não não, não, não, não não, não, não, não Trabalho escravo não existe Desmatamento não existe Homofobia não existe Extermínio não existe Mula sem cabeça demônio dragão O real resiste É só pesadelo, depois passa Como o estrondo de um trovão É só ilusão, não, não Deve ser ilusão, não não É só ilusão, não, não Só pode ser ilusão Esquadrão da morte não existe Ku Klux Klan não existe Neonazismo não existe O inferno não existe Tirania eleita pela multidão O real resiste É só pesadelo, depois passa Lobisomem horror opressão não, não, não, não não, não, não, não não, não, não, não não, não, não, não

Arnaldo Antunes

Árvores da Amazônia são mais sensíveis ao fogo, diz estudo de Yale e do Ipam

Estudo de um time internacional de cientistas aponta que a casca das árvores em florestas tropicais, “consistentemente mais fina”, torna a região amazônica mais sensível a incêndios. O grupo inclui pesquisadores da Universidade de Yale, nos EUA, e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), com sede em Belém.

“Os incêndios representam uma acelerada ameaça para a floresta tropical da Amazônia. No período de seca, podem afetar áreas ainda maiores. Neste estudo, mostramos o quanto a casca mais espessa pode proteger as árvores do fogo, mas em florestas tropicais as cascas são consistentemente mais finas”, afirma o texto dos pesquisadores.


O levantamento foi produzido pela professora norte-americana de ecologia e evolução biológica Ann Carla Staver, de Yale, e pelo brasileiro Paulo Brando, do Ipam, além de cientistas colaboradores. Segundo o estudo, a casca mais fina aumenta a mortalidade das árvores pelo fogo – especialmente nas matas mais úmidas.

“A intensidade do fogo afeta claramente a mortalidade das árvores, mas, mesmo assim, diversas florestas podem reagir de maneira diferente a uma intensidade de fogo semelhante. […] As reduções na mortalidade de caules entre árvores com casca mais espessa têm sido extensivamente descritas em áreas mais inflamáveis”, afirma o estudo dos cientistas.

Os pesquisadores explicam que a espessura dessa casca nos troncos varia com as particularidades de cada floresta. Áreas mais úmidas, por exemplo, resultam em árvores com casca mais fina.

Essa diferença é perceptível mesmo considerando um único bioma. Segundo o estudo, as árvores do projeto Tanguro em uma área amazônica do Mato Grosso, por exemplo, são mais resistentes ao fogo que aquelas da região de Manaus, no Amazonas.

O fogo, de acordo com os cientistas, se transformou na principal ameaça às florestas tropicais ao longo das últimas três décadas. O cenário é reflexo de uma combinação entre o desmatamento e o aumento da frequência das secas.

“Ao longo do século 20, os incêndios foram amplamente restritos a áreas com desmatamento ou áreas desmatadas para manutenção agrícola, mas agora os incêndios podem se espalhar prontamente por florestas que não foram perturbadas, aumentando drasticamente as áreas queimadas”, sublinham.

Entre 2000 e 2013, os pesquisadores mediram a espessura média de cascas de árvores em 13 diferentes pontos da Amazônia. Em cada local, os cientistas consideravam uma área total de 1 hectare (10 mil metros quadrados).

A partir da análise por imagens de satélites, percebendo o comportamento de cada uma dessas áreas em caso de incêndios, foi possível compreender como se dava a taxa de mortalidade das árvores locais ao terem contato com o fogo.

Os pesquisadores concluíram, a partir desses dados, que onde havia árvores com cascas mais espessas, o fogo se alastrava com menor propulsão, ou seja, mais lentamente.

Medido no período que vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte, o desmatamento na Amazônia aumentou em 15% no acumulado dos 12 meses de 2019 em relação ao mesmo período no ano anterior, em 2018.

Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon, instituto que não é ligado ao governo. A área desmatada nos últimos 12 meses chegou a 5.054 km².

Já para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Amazônia registrou o índice mais alto de queimadas dos últimos quatro anos, com 30% mais focos de incêndio.
Matheus Leitão

domingo, 19 de janeiro de 2020

Brasil dos trabalhadores


Quanto mais tempo líderes populistas permanecem no poder, mais radicais se tornam

Quando passei um mês numa viagem de pesquisas na Índia, em dezembro de 2014, meio ano após a chegada ao poder de Narendra Modi, os escritores, acadêmicos e intelectuais que encontrei estavam mergulhados numa grande discussão sobre o futuro de seu país.

Todos rejeitavam Modi, nacionalista hindu fervoroso, devido ao seu desdém pela Constituição secular indiana. Mas estavam divididos quanto ao impacto que seu governo provavelmente teria sobre as liberdades fundamentais que eles desfrutavam.

Alguns temiam que Modi pudesse avançar rapidamente para sufocar qualquer dissensão. Outros faziam pouco-caso desses receios, que consideravam exagerados.

Modi causou danos consideráveis em seus cinco primeiros anos no poder, enfraquecendo tanto as liberdades desfrutadas por seus críticos quanto as minorias religiosas do país. Mas o pior ainda estava por vir.


Quando Modi foi eleito com maioria ainda mais expressiva na primavera do ano passado, seu governo começou a tomar iniciativas radicais para desmontar o secularismo da Constituição indiana; pode-se argumentar que ele causou mais danos nos primeiros meses de seu segundo mandato do que havia feito nos cinco anos anteriores. Algumas das preocupações levantadas sobre Modi que pareceram exageradas ao término de seu primeiro mandato agora começam a revelar-se prescientes.

Um grande movimento de protesto tomou forma nas últimas semanas para se opor a essas medidas radicais. Em cidades e universidades de todo o país, cidadãos de todas as religiões vêm protestando contra o governo de Modi. Sua reação tem sido brutal: em alguns estados o governo evocou estatutos da era colonial para proibir reuniões com mais de cinco pessoas. Outros estados fecharam o acesso à internet. Vídeos brutais mostram policiais agredindo estudantes suspeitos de ter protestado contra o governo.

Muitos observadores da Índia se surpreendem pelo fato de Modi ter ficado tão mais extremo em seu segundo mandato. Mas uma comparação traçada com governos populistas em todo o mundo sugere que a Índia está seguindo um roteiro previsível do que fazem candidatos a líderes autoritários quando são reeleitos.

Como já vimos em países que incluem a Hungria, Turquia e Venezuela, inicialmente os líderes populistas são limitados em sua capacidade de concentrar o poder nas próprias mãos. Muitas instituições essenciais, incluindo os tribunais e as comissões eleitorais, ainda estão dominados por profissionais de mente independente e que não devem sua nomeação ao novo regime. Veículos de imprensa ainda conseguem e se dispõem a noticiar escândalos, forçando o governo a agir com alguma cautela.

A partir do momento que esses governos são reeleitos, essas limitações à sua ação começam a desaparecer. Com a saída dos juízes e servidores públicos de pensamento independente, os líderes populistas se sentem fortalecidos para tentar concretizar seus sonhos despóticos.

Trata-se de um aviso para os Estados Unidos. Em seu primeiro mandato como presidente, Donald Trump causou prejuízos graves ao estado de direito. Mesmo assim, algumas das previsões mais extremas traçadas sobre seu governo mostraram-se infundadas até agora. Por exemplo, o aviso lançado por Madeleine Albright sobre fascismo iminente mostrou ser excessivamente dramático.

Talvez seja por isso que o medo e o repúdio que impeliram protestos tão grandes nos primeiros meses de 2017 pareçam ter se dissipado. Muitos americanos hoje supõem que a reeleição de Trump trará nada pior do que mais quatro anos do que estamos vendo até agora —terrível, sem dúvida, mas hoje um terrível que já conseguimos imaginar.

Mas o que vem acontecendo na Índia e Polônia deveria chocar os americanos, arrancando-os da complacência. O primeiro mandato de Trump é na melhor das hipóteses um indicativo imperfeito dos horrores que podem estar à espreita dos americanos se ele conseguir conquistar um segundo mandato.

Isto também é um aviso ao Brasil. Com Jair Bolsonaro agora no poder há pouco mais de um ano, é tentador supor que os acontecimentos dos últimos 12 meses constituem um indício confiável do que ainda vem pela frente. Mas a trajetória de outros líderes populistas sugere que supor isso seria um erro grave: quanto mais tempo líderes populistas permanecem no poder, mais radicais e perigosos eles se tornam.
Yascha Mounkprofessor associado na Universidade John Hopkins e autor de "O Povo contra a Democracia"

O Brasil está a caminho da distopia?

Procurei em vários dicionários, incluídos os dedicados aos sinônimos e aos antônimos, mas encontrei em apenas um, o Houaiss, o significado de distopia. Está lá explicado tratar-se de “localização anômala de um órgão”. Já para o Google, trata-se de um lugar ou Estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão.

Parece ser esse o sentido emprestado ao vocábulo pela seção Estante, do caderno Aliás, publicado pelo Estado de 21 dezembro de 2019, que versa sobre alguns livros a respeito da chamada “literatura futurista distópica”. Segundo definição da matéria, “a distopia parece ser o oposto de utopia, já que esta descreve um mundo ideal alcançável, enquanto a distopia fala de um mundo árido”.


Seria a antítese do sonho, da esperança, do otimismo. A descrença, a visão catastrófica, a hecatombe de um porvir indesejável e temido, por vezes inimaginado. Por estar fora de nossas previsões, foi sempre colocado na forma de obras ficcionais, na literatura ou no cinema.

Pois bem, os livros comentados confirmam a síntese da matéria. O mundo distópico é cruel, marcado pela supremacia absoluta do Estado, em substituição ao querer social e ao livre-arbítrio, com consequências nefastas sobre os direitos humanos. A vontade dos governantes prevalece sobre tudo e todos, deixando de lado o ordenamento jurídico, os princípios que preservam a dignidade da pessoa e as liberdades públicas e individuais.

O empenho pela imposição da vontade estatal, muitas vezes apenas a vontade pessoal do governante de plantão, de um lado, e a intenção de controle social pelo mesmo Estado, do outro, constituem os dois pilares de sustentação desse tipo de Estado e do governo que o representa, que se mostra absolutamente incompatível com o Estado democrático.

O fecundo e ousado poder de criação dos autores dos livros mencionados previu no mundo da ficção aspectos que estão se tornando marcantes nos nossos dias. Não se pense que algumas semelhanças entre a realidade de nossos dias e as muitas situações retratadas pelas obras sejam mera coincidência, pois não são não. Há previsões de situações futuras que hoje se aproximam da realidade. Para um atento observador não faltarão assustadoras similitudes entre o ficcional e o real.

Chama a atenção o livro Laranja Mecânica, obra de Antony Burgess, amplamente difundida e estudada, sobre um governo autoritário que para enfrentar a violência desenfreada se utiliza de ações agressivas, que estimulam o aumento da intolerância social e não diminuem as condutas violentas, mas, ao contrário, as estimulam.

Não se esqueça a política atual que incentiva a utilização de armas por parte dos cidadãos e apoia as ações de confronto das polícias como meios de combate à violência.

Outro clássico do gênero é Farhrenheit 451, de Ray Bradbury, impressionante narrativa da queima oficial de livros, e da proibição da publicação de novas obras, para manter a sociedade em conveniente estado de ignorância.

A fantasia literária nos faz lembrar as políticas de destruição dos nossos valores culturais e do cerceamento da criação artística e intelectual, divulgadas amplamente e sem disfarces pelos responsáveis pela educação e pela cultura em nosso país.

George Orwell, em seu magnífico 1984, conduz o “Grande Irmão” à condição de fiscal geral da sociedade, tentando impor os seus padrões morais, éticos e comportamentais por meio de uma vigilância que invade os lares e castra os indivíduos. Essa fértil criação ficcional nos remete ao discurso pretensamente moralizante, contrário às opções individuais e impositivo de preferências pessoais, de quem nos governa.

A guerra ideológica travada entre o mundo capitalista e o comunista foi descrita por Ursulak Le Guin no livro Os Despossuídos, escrito no auge da guerra fria. A obra mostra os inconvenientes e as vantagens de ambos os sistemas.

Tenha-se presente a pregação doutrinária, hoje amplamente difundida, que, ao fazer a apologia de uma corrente ideológica, provoca a polarização e a discórdia no seio da sociedade.

A matéria jornalística sobre a distopia narrada em livros, aponta também a obra de Octavia Butler, Parábola do Semeador, que apresenta uma incrível e espantosa narrativa ficcional pela semelhança com o que acontece em nosso país a respeito de duas questões: as mudanças climáticas e a ilusória segurança de quem vive atrás de muros, evitando misturar-se com minorias e imigrantes.

Lembre-se o verdadeiro apartheid provocado pela desigualdade social, que deveria envergonhar a sociedade brasileira, mas, ao contrário, conduz à separação cada vez mais acentuada dos estamentos sociais. Essa situação é agravada pela carência de políticas sociais sérias e eficientes. Lembre-se, ainda, o desprezo dos nossos governantes pelas questões ligadas ao clima, ao meio ambiente e à preservação de nossas florestas.

Alguns outros livros mencionados pela referida matéria, tais como Nós, Admirável Mundo Novo, Kallocaina, Os Despossuídos, O Conto da Aia, A Fila, narram situações ficcionais de opressão que atingem mortalmente as liberdades individuais e o querer social. Assim, cada um deles narra os meios e as consequências das ações que silenciam e sufocam a sociedade; extinguem o livre-arbítrio, substituído pela vontade do Estado; impõem o controle social absoluto por meio da ciência; descrevem a supremacia e o império da burocracia – dentre outros flagelos que ameaçam a nossa civilização.

Detectados os sinais de distopia como uma realidade dos nossos dias, só nos resta resistir para evitar que ela sufoque e nos retire os ares da liberdade e da democracia que ainda respiramos. Vamos continuar perseguindo as nossas utopias, para alcançarmos os sonhos e transformá-los em realidade, pois sem os sonhos estaremos sujeitos à ruptura, que pode levar-nos ao caos e à barbárie.
Antônio Cláudio Mariz de Oliveira

'Santo' eleito

Eu não sei como pessoas de bem possam ficar felizes com o cargo no Executivo
Jair Bolsonaro

Livros saídos do horror de Auschwitz

'O bunker', de Halina Olomucka, desenhada em 1944,
quando.prisioneira e morta em   Auschwitz
Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz, sobrevivente de Auschwitz, autor de livros como Noite, Amanhecer e Dia, acabava de voltar de Sarajevo, então sitiada (em 1992) pelas hostes genocidas sérvias. Visitou Madri e falou do longo século XX, no qual a violência parecia não ter fim. Perguntado sobre o campo de extermínio nazista, respondeu: "Ainda não conseguimos abordar este tema. Fica fora de todo entendimento, de toda percepção. Podemos comunicar alguns retalhos, alguns fragmentos, mas não a experiência. O que vivemos ninguém saberá, ninguém entenderá".

Setenta e cinco anos depois da liberação do campo nazista alemão, em 27 de janeiro de 1945, Auschwitz-Birkenau gerou uma enorme produção literária e histórica, milhares de volumes em todas as línguas. Os livros sobre o campo de extermínio podem ser divididos em três categorias. A primeira, a fundamental, os relatos dos que estiveram lá, entre os quais se contam algumas quantas obras-primas, como as de Wiesel, Primo Levi (a trilogia de Auschwitz) e Imre Kertész (Nobel de Literatura, autor de Kaddish por uma Criança Não Nascida). À medida que o século XXI avança e as testemunhas vão desaparecendo, suas palavras ganham maior importância. Dentro desta categoria poderiam ser incluídos também a HQ Maus, de Art Spiegelman, ganhadora do Prêmio Pulitzer, que relata a vida do pai do autor, sobrevivente do campo, e O Diário de Anne Frank, que permite compreender o terror vivido pelos judeus europeus fora dos campos.

Todos esses livros de testemunhas, entre outros, são marcados pelo que Wiesel expressou: reúnem uma experiência impossível de transmitir, impossível de entender, e que, entretanto, está nas suas palavras. Além disso, 80% dos deportados que chegavam a Auschwitz eram enviados imediatamente para as câmaras de gás, e nenhum deles sobreviveu. Não existe, portanto, nenhum testemunho da experiência que mais define o horror de Auschwitz, do centro do extermínio industrial que transforma o Holocausto em um crime sem comparação na história. Sobreviveram, isso sim, alguns poucos sonderkommando, os detentos obrigados pelos nazistas a se ocuparem dos cadáveres. Dois deles deixaram suas lembranças por escrito, as quais, de novo, vão além do compreensível: Shlomo Venezia, em Sonderkommando, e Filip Müller, em Sonderbehandlung: drei Jahre in den Krematorien und Gaskammern von Auschwitz (“tratamento especial: três anos nos crematórios e câmaras de gás de Auschwitz”).Elie Wiesel.GARY CAMERON (REUTERS)

A segunda categoria se centra nos livros de história, os ensaios que tratam de reconstruir o funcionamento do campo baseando-se em depoimentos —de sobreviventes e também de algozes—, bem como em documentos. Destacam-se dois especialmente importantes: Auschwitz— the Nazis & the ‘Final Solution’ (“Auschwitz – os nazistas e a ‘solução final’”), do historiador e cineasta britânico Laurence Rees, e Auschwitz: Geschichte und Nachgeschichte (“Auschwitz: história e posteridade”), da historiadora alemã Sybille Steinbacher. Este último consegue, em 216 páginas de formato pequeno, reunir com inúmeros dados e um rigor implacável e eficaz o horror administrativo do campo. Steinbacher resume em um dado a banalidade do mal: os judeus tinham que pagar os trens que os levavam à morte, um bilhete de terceira classe, com desconto para os menores de 10 anos. As SS obtinham um desconto de grupo para transportes de mais de 1.000 pessoas, e os trens de volta, vazios, eram gratuitos. "Trata-se de um dos detalhes mais horripilantes da organização do assassinato maciço", escreve Steinbacher.

E por último estão os romances, a ficção que Auschwitz gerou, tanta que se converteu em um gênero por si só. Alguns venderam milhões de exemplares em dezenas de idiomas, como O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne, e O Tatuador de Auschwitz, de Heather Morris. Sobre estes dois livros, o Memorial de Auschwitz, que se ocupa da conservação e gestão dos restos do campo de extermínio, patrimônio da Humanidade da Unesco, desaconselhou sua leitura para entender a realidade histórica, devido aos erros factuais contidos. Outro romance, A Bibliotecária de Auschwitz, do espanhol Antonio Iturbe, também foi um sucesso internacional. Trata-se de uma reconstrução rigorosa de fatos reais baseando-se em entrevistas com seu protagonista. Apesar de ser ficção, A Escolha de Sofia, de William Styron, é um grande romance sobre o Holocausto e os trágicos dilemas decorrentes do sistema criado pelos nazistas para desumanizar suas vítimas.

Ao final, frente ao silêncio da poesia previsto pelo filósofo Theodor Adorno, ficam as palavras dos sobreviventes, a viagem ao incompreensível, ao território da morte e a desumanização.

"Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último rastro de civismo tinha desaparecido ao redor de nós e dentro de nós. É homem quem mata, é homem quem comete ou sofre injustiças; não é homem quem, perdido todo recato, divide cama com um cadáver; quem esperou que seu vizinho terminasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem culpa, mais longe do homem pensante que o sádico mais atroz". (Primo Levi, É Isto um Homem?)

"Nosso primeiro gesto como homens livres foi nos lançarmos sobre as provisões. Não pensávamos em outra coisa. Nem na vingança, nem em nossos pais. Só em pão." (Elie Wiesel, Noite)

“Ao final daquele dia senti, pela primeira vez, que algo havia se degradado no meu interior, e a partir daquele dia todas as manhãs eu me levantava com o pensamento de que aquela seria a última manhã em que me levantaria”. (Imre Kertész, Sem Destino)

Ciclo das lorotas chega ao fim

As lágrimas do comediante escorrem do cérebro; as do homem sensível, de seu coração, dizia o filósofo Denis Diderot. Na política também é assim. Políticos vivem de representações e criam projeções que se confundem com seus personagens. Poucos podem dizer que o “eu” e o “ele” são a mesma coisa. Alguns construíram perfis sobre conceito negativo que, banalizado, passou a ser aceito. Exemplos são aqueles popularizados pelo “rouba, mas faz”.

Muitos esticam seu ciclo político graças à caricatura. São conhecidos como “estradeiros, pai dos pobres, desenvolvimentistas, heróis da pátria”.

Comediantes impressionam plateias não pela verdade, mas pela performance. O ciclo dos histriões está chegando ao fim. A máscara cai nessa quadra em que grupos e movimentos clamam por atitudes éticas e morais.

Antonio Lucena
A quebra de paradigmas sinaliza o enterro da era do engodo, da mentira, das promessas mirabolantes. Escasseiam as águas do populismo, que ganhou culminância na era getulista (anos 30) e prosseguiu com o desenvolvimentismo de JK, o trabalhismo de João Goulart, o autoritarismo de Jânio Quadros, o nacionalismo, de viés esportivo, de Médici nos anos de chumbo, o olimpismo-modernizante de Collor, o apartheid social (“nós e eles”) de Lula, para registrar apenas alguns.

Nos Estados, casos mais emblemáticos vêm de São Paulo, nos governos de Adhemar de Barros e Paulo Maluf. O primeiro marcou o “rouba, mas faz”, refrão que colou depois na imagem do segundo, em razão do seu obreirismo faraônico e o slogan “Maluf fez, Maluf faz”. O tempo aliviou essa carga negativa. O país abriu os cofres da corrupção, e casos antigos foram considerados de pequena monta em face dos atuais.

No passado, o populismo se banhava nas grandes mobilizações. Hoje, não há mais comícios, e as manifestações de rua ganham outros focos, a partir dos serviços públicos. A massa está desconfiada, a mídia assopra a fogueira de escândalos, e a operação ícone do momento, a Lava Jato, esfumaça o ambiente. Espectadores, sem ilusões, exercitam seu espírito crítico, puxando atores do palco e denunciando a encenação.

Nos últimos tempos, multiplicou-se a violência; os serviços públicos se deterioraram; o desemprego chegou ao pico de 12 milhões de desempregados, enquanto a extrema pobreza aumentou para 14 milhões. A renda mensal inferior a R$ 145 (R$ 4,80 por dia), é insuficiente para necessidades básicas. A moldura é feia: saúde precária, remédios caros e a vida insuportável para milhões de pessoas. O povo quer um ator despido de demagogia. Que chore com o coração, e não com o cérebro. A indignação popular atinge o pico. Um sentimento de revolta oxigena a democracia.

John Stuart Mill, em “Considerações sobre o Governo Representativo”, distingue duas espécies de cidadãos: ativos e passivos. Os governantes preferem os segundos, por serem mais fáceis de dominar, mas a democracia necessita dos primeiros. Os passivos mais parecem ovelhas dedicadas a pastar capim, nunca reclamam.

O povo percebe a enganação e não quer mais pagar tributo por uma expressão caricatural, grotesca, mímica, demagógica.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Insegurança (sic) eleita

Passei a conhecer um homem que tentou vencer uma insegurança com os meios errados, sabe? Ele poderia ter tido nesse percurso um processo de engrandecimento, mas não foi isso que aconteceu. Ele tentou vencer aquela insegurança dele na marra, passando por cima de críticas em vez de se engrandecer e governar sem as ideologias, obsessões e fantasmas que ele trouxe quando assumiu. Acho que isso ainda pode acontecer, mas o que aprendi foi isso, um homem que não se engrandeceu no cargo, que perdeu essa oportunidade, de fazer um governo melhor do que ele
Thaís Oyama, autora de "Tormenta", livro sobre o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro

A luta entre razão e emoção

O mote da década de 50 acompanhou por anos a vida dos consumidores: “vale quanto pesa”. O símbolo da balança na embalagem garantia a legitimidade do sabonete e reforçava o conceito da “verdade verdadeira”. De lá para cá, a verdade passou a perder substantivos e a ganhar superlativos, dando vazão ao bordão desses tempos virtuais: “vale muito mais do que pesa”. Que embala propagandas, expressões sobre pessoas, políticos, jogadores de futebol etc.

E cai bem no momento em que a política começa a rejeitar velhos paradigmas. Nesse ano eleitoral, enquanto o superlativo dominará a política, a verdade se cobrirá de "fake news", dividindo os mundos real e virtual, a serem guiados por três ferramentas cognitivas: a razão, a emoção e a polarização.

O cenário da razão abriga eleitores conscientes, autônomos, que já não agem ao estilo “Maria vai com as outras”. Esse campo disputará o processo decisório com o da emoção. Basta medir a temperatura ou ver o desfile de adjetivos nas redes sociais entre bolsonaristas e oposicionistas.



Indignação, revolta, ódio se amalgamam nas bandas que dividem a sociedade: os adeptos do presidente Jair; os oposicionistas que não leem pela cartilha da direita-radical-conservadora; e os centristas, que olham em volta à procura de novos protagonistas.

Bolsonaro e Lula lideram o cabo de guerra, com linguagem embalada em celofane emotivo. Ambos se esforçam para antecipar a campanha usando metralhadoras expressivas para agregar parceiros e encantar as turbas com uma semântica desarrumada e destemperada.

Ora, quando falta razão, valem-se da emoção em mensagem subliminar, querendo dizer “somos gente como vocês”. Metáforas se produzem aos montes para garantir um suporte de simpatia.

Mas a movimentação social no Brasil mostra que a razão, no processo de tomada de decisões, amplia adeptos até nos setores populares, tradicionalmente emotivos. Os comportamentos racionais hoje em dia indicam reordenamento de valores, princípios e visões dos grupamentos sociais sobre sua cidadania.

É o caso de perguntar: que vetor influenciará mais na campanha deste ano? Atente-se para o ethos nacional, que agrega valores como cordialidade, improvisação, exagero, paixão, solidariedade. A “alma caliente” dos trópicos se contrapõe à frieza anglo-saxã. Ou seja, a emoção ganha da razão.

Mas o processo racional se expande ao correr do avanço civilizatório. As mudanças começam no campo individual. A pessoa, escondida no anonimato, descobre que pode ser cidadã. A cidadania deixa de ser bandeira de instituições e se torna desejo. Isto é, amplia-se a consciência do “EU" em contraponto ao conceito do "NÓS", esteira da propaganda política.

Maior autonomia desenvolve autogestão técnica, pela qual os indivíduos traçam rumos e selecionam meios de atingir seu intento. As pessoas já não aceitam as regras do poder normativo e fogem dos "currais" psicológicos que enclausuram pensamentos.

O campo social alarga os discursos, propicia a rebeldia das formas e provoca a rejeição a tudo que se assemelhe a totalizações. Classes sociais e categorias profissionais desfraldam suas bandeiras. Se muitos ainda votam com a emoção, outros fazem uso da razão: o voto sai do coração para subir à cabeça.

Foi-se Alvim, permaneceu política cultural tóxica

A presença de expressões de Joseph Goebbels, ex-ministro da Propaganda de Adolf Hitler, nos lábios de uma autoridade do Brasil não poderia ter outro desfecho senão a exoneração de Roberto Alvim da poltrona de secretário Nacional de Cultura. Apesar de a ficha de Jair Bolsonaro ter demorado algumas horas para cair, foi ao olho da rua um assessor que não deveria nem ter sido nomeado. Mas há um problema: permanece intacta a pretensão do presidente de colocar em pé uma política cultural tóxica.

Os detalhes da nova política foram aprovados por Bolsonaro. O secretário demitido esteve com o presidente na véspera. Participou de uma live. Recebeu efusivos elogios do chefe. A política do governo para esse setor parte de um diagnóstico segundo o qual a "cultura está doente". E seria necessário promover um "renascimento da arte".

Esses conceitos mimetizam, macaqueiam a teoria nazista da "arte degenerada", cujo expurgo Hitler promoveu na Alemanha. A pretexto de estimular um nacionalismo de viés governista, conspira-se contra a essência da manifestação artística, combate-se tudo o que possa parecer crítico, transgressor ou plural.

A ideia de que o Brasil precisa ser salvo de sua própria cultura —respeitada mundialmente pela diversidade— sobreviverá à saída de Alvim. O que nos conduz ao miolo da encrenca: o problema está no bunker do Planalto, não nos subúrbios do governo. Sob Bolsonaro, o palácio convive com a patologia da guerra. O lema de Bolsonaro é: "Nós estamos certos e todos os outros estão errados".

Estabelecida a lógica do bunker, o mundo ao redor deixa de ter importância. Guerreia-se pelo gosto de guerrear. Podendo se concentrar em guerras relevantes —contra a paralisia econômica, contra a corrupção, contra o analfabetismo— o governo dispersa energias com guerras imaginárias —contra coisas como o globalismo e o marxismo cultural. Bolsonaro e seus ideólogos criam os fantasmas que assustam o governo. 

Pensamento do Dia


Bolsonaro e sua circunstância

Não causa surpresa o derretimento acelerado da popularidade do presidente Jair Bolsonaro detectado por uma pesquisa XP/Ipespe recentemente divulgada. O levantamento mostrou que, em um ano, a expectativa positiva em relação ao desempenho do governo para o restante do mandato caiu nada menos que 23 pontos porcentuais, de 63% para 40%. O índice de entrevistados que consideram Bolsonaro “ruim” ou “péssimo” passou de 20% para 39% no mesmo período. Pode-se dizer que esses números refletem não um ou outro problema em especial, mas o conjunto da obra.

O governo Bolsonaro parece se esforçar para inspirar em cada vez mais brasileiros a sensação de que suas decisões estapafúrdias, que carecem de lastro jurídico ou mesmo de racionalidade, não são meros acidentes ou fruto de circunstâncias passageiras, e sim reflexo preciso daquilo que o presidente é.


Não se trata apenas de despreparo para o cargo, dificuldade que se poderia amenizar com alguma dedicação aos livros e atenção aos conselhos de quem já viveu a experiência de governar; a esta altura, passado um ano de mandato, já está claro que Bolsonaro desacredita deliberadamente o exercício da Presidência porque não saberia fazer de outra forma e, graças a essa limitação insuperável, convenceu-se de que foi eleito para desmoralizar a política e sua liturgia institucional, algo que ele faz como ninguém. Vista em retrospectiva, a reunião ministerial em que o presidente apareceu de chinelos e camisa (falsificada) de time de futebol logo nos primeiros dias de governo parece hoje, perto do que já vimos, um encontro de estadistas.

Num dia, o ministro da Educação aparece num vídeo dançando com um guarda-chuva, numa imitação circense do filme Dançando na Chuva, para acusar seus críticos de difundirem fake news; noutro, o secretário da Cultura toma emprestado trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, para anunciar o advento de uma cultura “nacional” financiada pelo Estado, causando horror e estupefação no País e fora dele. Entre um e outro desses momentos nada edificantes de seus assessores, o próprio presidente Bolsonaro achou tempo e oportunidade para fazer piadas de mau gosto sobre um vasto cardápio de temas grosseiros, como se estivesse em um churrasco com amigos.

Enquanto isso, sempre que pressionado a tomar decisões realmente relevantes para o País, como autorizar privatizações potencialmente polêmicas, cortar privilégios de servidores públicos e reduzir subsídios, o presidente hesitou. Mesmo a reforma da Previdência, que o governo celebra como um feito de Bolsonaro, foi sabotada em vários momentos pelo presidente, tendo sido aprovada graças à mobilização de parlamentares e alguns técnicos do governo. Preocupado em construir seu próprio partido e sua candidatura à reeleição, sobre a qual fala quase todos os dias, Bolsonaro dedica todo o seu tempo não a pensar em maneiras de promover o desenvolvimento do País, mas a alimentar polêmicas de cunho claramente eleitoreiro, enquanto assina medidas destinadas à irrelevância – mas só depois de causar tumulto e insegurança jurídica no País.

Quando confrontado pelos jornalistas a respeito disso ou a respeito dos cada vez mais volumosos problemas do clã Bolsonaro e de alguns de seus assessores mais próximos com a Justiça ou com a lisura administrativa, o presidente reage de forma truculenta. Mais recentemente, disse que os jornalistas são uma “espécie em extinção” e mandou que a imprensa tomasse “vergonha na cara” e tratasse de “deixar o governo em paz”.

Não são rompantes, e perde tempo quem acredita na possibilidade de que, com o tempo, Bolsonaro vá temperar seu comportamento. O assessor que se inspirou em Goebbels para anunciar o “renascimento da cultura nacional” só foi exonerado porque houve uma grita generalizada diante de tamanho absurdo. Noves fora o plágio nazista, o conteúdo da fala que custou o cargo ao tal secretário é essencialmente o que Bolsonaro já disse e repetiu inúmeras vezes, mesmo antes da eleição. Portanto, ninguém pode se dizer surpreendido, nem mesmo os eleitores mais ingênuos. Bolsonaro é Bolsonaro há muito tempo.