quinta-feira, 18 de abril de 2019

Chamem o Heleno

Com licença de Otávio Rego Barros, o general que literalmente reproduz o que o chefe diz, o porta-voz de fato do capitão Jair Bolsonaro é o general Augusto Heleno, seu ex-instrutor na Academia Militar de Agulhas Negras, e ministro do Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República.

Heleno é a sombra de Bolsonaro. Aconselha-o em todos os momentos. E quando seu antigo pupilo o contraria ou simplesmente comete asneiras, hábito que cultiva dado ao seu temperamento impetuoso e ignorância inata, lá corre Heleno a acudi-lo. O resultado nem sempre é satisfatório, mas fazer o quê?

Os presidentes João Figueiredo, o último da ditadura de 1964, e José Sarney, o primeiro pós-ditadura, costumavam chamar “o Pires” quando se viam em apuros ou queriam assustar seus adversários. Os generais Walter Pires e Leônidas Pires Gonçalves foram respectivamente ministros do Exército de Figueiredo e Sarney.

Heleno não é chamado para assustar ninguém. Cabe-lhe devolver a razão a Bolsonaro e baixar a temperatura que se eleva por toda parte sempre que Bolsonaro é Bolsonaro. É uma tarefa difícil, essa do general. Mesmo para ele que já comandou tropas do Exército brasileiro em países conflagrados.

Foi decisiva a intervenção do general para restabelecer a paz entre Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, no caso do aumento do preço do diesel. Bolsonaro cancelou o aumento com medo de uma greve de caminhoneiros. Guedes ameaçou pedir as contas, já imaginou? Bolsonaro e Guedes são dois estourados.

Heleno atuou nos bastidores e teve êxito. Mas não é sempre que isso acontece. Na última sexta-feira, depois de seis dias de silêncio, Bolsonaro resolveu comentar o assassinato do músico carioca Evaldo Rosa dos Santos, alvo de 80 tiros disparados por nove soldados do Exército, no Rio. E o fez à sua maneira tosca:

“O Exército não matou ninguém. O Exército é do povo. A gente não pode acusar o povo de assassino. Houve um incidente. Houve uma morte. Lamentamos ser um cidadão trabalhador, honesto”.

Ora, o que um tenente, um sargento e sete soldados do Exército são? Por que estão presos? Traficantes não são. Mas quando traficantes matam é o tráfico quem mata. Quando um grupo de policiais mata traficantes ou meros suspeitos foi a polícia que matou. Não foi o Exército. Nem um comando armado das carmelitas descalças.

Chamado a consertar Bolsonaro, Heleno bem que tentou:

“O que ele disse foi o seguinte: o Exército não matou ninguém, o Exército é uma instituição que respeita profundamente os valores humanos e nunca matou ninguém. Quem matou, se aconteceu de alguém morrer na operação, foi alguém que o Exército vai responsabilizar pela morte”.

Heleno foi mal dessa vez. “Se aconteceu de alguém morrer na operação?” Mas como? O músico não morreu? O sogro do músico que estava com ele não foi baleado? Enquanto durou a ditadura de 64, tortura e morte foram admitidas em quartéis e dependências militares. O Exército, sim, torturou e matou.

O general Heleno sabe disso. Não precisa sacar de falsos argumentos para justificar os tropeções do seu atual chefe.

Fanfarronice

Somos ridículos.
Tonitruamos como deuses
Com nossa voz de ventríloquos.

Raul Drewnick

A linguagem política da era Bolsonaro

A linguagem política é um dos indicadores da qualidade da democracia de uma nação. Sua natureza diz respeito à maneira como os atores políticos e sociais falam, dialogam e negociam. Claro que as instituições políticas são essenciais, pois delimitam os direitos dos cidadãos e os deveres dos governantes. Mas leis e estruturas governamentais não andam sozinhas. O jogo político depende muito de como as lideranças políticas estabelecem um padrão de comunicação internamente à política e com a sociedade. Este é um ângulo vital para entender o inicio do governo Bolsonaro e suas perspectivas.

A construção da democracia é um dos maiores exemplos da relevância da linguagem política. Só foi possível reconstruir o mundo no pós-Segunda Guerra quando a tolerância e a barganha entre os principais atores políticos tornaram-se a regra do jogo. Foi o modelo pluralista que permitiu à Europa se livrar do fantasma dos totalitarismos que haviam vigorado por lá por duas décadas.

Falou-se muito do nazismo nos últimos dias e esqueceu-se que sua superação somente foi possível quando os políticos alemães deixaram de se ver como inimigos e passaram a se tratar como adversários. O mesmo vale para a Itália fascista. Basta ler Norberto Bobbio para aprender como a arte do diálogo foi essencial para a reconstrução da democracia italiana.

A democracia pressupõe mais do que a mudança da linguagem falada entre os políticos. Seu sucesso depende da forma como a política dialoga com a sociedade. A abertura de canais de participação, a maior transparência, o respeito pelo povo e pelas diversas partes que o compõem foram grandes conquistas obtidas em vários países no pós-Segunda Guerra.


Infelizmente, a história não é um processo evolutivo contínuo, como sonhavam muitos dos iluministas. O fato é que o mundo tem esquecido a importância de uma linguagem política democrática. Esse fenômeno começou na década de 1980, mas ganhou contornos mais fortes nos últimos dez anos, com a ascensão de populismos de direita cuja essência comunicativa é autoritária. O maior exemplo disso está, hoje, no centro do poder, nos Estados Unidos.

Donald Trump e seu ideólogo, Steve Bannon, criaram um modelo de linguagem baseada num tripé: propagar cotidianamente a mentira pública - ou a pós-verdade, para usar o termo hipócrita que inventaram - como forma de difamar os adversários; inventar inimigos públicos, que devem ser combatidos violentamente, sem direito ao contraditório; e evitar o diálogo com opositores ou mesmo grupos que pensem diferente, uma vez que não existe espaço para a negociação de posições.

Esse modelo de linguagem política tem se espalhado, levando os seus ideólogos ao poder em países como Polônia, Hungria, Filipinas, Itália e Brasil. Também esteve presente na campanha que produziu o Brexit, o maior desastre político da Grã-Bretanha desde o fim do Império Britânico. E há chances de mais nações embarcarem nessa onda. Isso levaria ao enfraquecimento da democracia em várias partes.

Vale frisar que essa radicalização autoritária da linguagem política se alimentou de erros de liberais e da esquerda. Da parte dos primeiros, o discurso pró-globalização tornou-se muito elitista e perdeu a capacidade de ouvir e falar com a maior parte do povo. E não há democracia sem incluir a voz das pessoas no debate. Os populistas de direita estão ouvindo os "perdedores" da mudança econômica e tecnológica e lhes vendendo um mundo novo, ilusório em grande medida, mas que conversa com as angústias de muitos cidadãos comuns.

Já a nova esquerda tem insistido muito numa visão ancorada na lógica da identidade. Obviamente que é muito importante defender grupos minoritários ou alijados do processo político. A situação das mulheres, dos grupos LGBT, dos negros e de minorias étnicas é um problema muito relevante da democracia e não haverá igualdade democrática sem garantir direitos a todos. Mas a defesa desses grupos deve ser feita em diálogo com os demais, e não os afastando de antemão de qualquer possibilidade de negociação de posições.

Os erros dos liberais e da esquerda, no entanto, não justificam, em hipótese alguma, a virulência e o autoritarismo da linguagem política dos populistas de direita. Por isso, é preciso entender e combater essa nova forma de comunicação seguindo os cânones da democracia. A análise do bolsonarismo deve seguir essa linha argumentativa.

Bolsonaro repete claramente o padrão de linguagem política dos populismos de direita, acrescentando temperos locais, como a questão da violência urbana e o ataque ao "inimigo comunista". Sua forma virulenta e autoritária de expressar-se, aliás, vem de longe. Ele propôs o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso há 20 anos, no mesmo momento que propôs fechar o Congresso Nacional - algo que já não tem feito mais, embora tenha dificuldade de lidar com a legitimidade dos eleitos pelo Legislativo.

Como em outros países, essa linguagem política antidemocrática foi revestida de modernidade durante a campanha de 2018 no Brasil. As redes sociais falam diretamente com o povo, diziam os líderes bolsonaristas. Apesar de o anseio por uma nova política atravessar todo o espectro social, Bolsonaro e seus apoiadores, principalmente o PSL, venderam-se bem aos eleitores como os antípodas da "velha política". Não há dúvida de que é preciso reformar e renovar o sistema político brasileiro, mas isso só poderá ser feito por meio de formas democráticas de exercício do poder, incluindo aqui a linguagem política.

Os primeiros meses do governo Bolsonaro revelam que sua linguagem política é pouco afeita à lógica democrática. O primeiro exemplo disso está no difícil diálogo com o Congresso Nacional. No fundo, o Executivo federal não aceita a legitimidade dos parlamentares, a despeito de terem sido eleitos da mesma forma que o presidente. Por trás da proposta do "voto patriota" e desinteressado dos congressistas está uma visão de mundo que não aceita outra visão que não a do próprio governante e seu grupo palaciano. Negociar se transformou num verbo que só se relaciona com a corrupção, e assim foram fechados os canais de diálogo com os deputados.

O problema na relação com Congresso vai além de uma questão normativa. Há implicações práticas para o futuro do governo Bolsonaro. O chamado Centrão, decisivo em qualquer votação, tem chamado o presidente de "Dilmo". Para além da ironia da história presente neste apelido, afinal trata-se da política contra a qual Bosonaro mais destilou seu ódio, essa situação revela a enorme falta de confiança entre os congressistas e a Presidência da República. Só com o PSL e mais alguns apoios pontuais não se aprova a reforma da Previdência ou qualquer outra medida legislativa importante. Em poucas palavras, sem fazer algum tipo de coalizão formal o presidente não governará o país.

O modelo comunicacional do presidente Bolsonaro também é problemático na sua relação com a sociedade. O fechamento de vários conselhos de participação, sem um estudo maior ou conversa com atores relacionados a tais áreas, é uma forma de se fechar ao diálogo. O modelo participativo brasileiro tem problemas, e muitas pesquisas mostram isso. Porém, para reformá-lo, é preciso acreditar na conversa constante com grupos que nem sempre vão concordar com o governo de plantão. Nessa interação, podem ser construídos novos consensos ou soluções - ou ao menos pode-se dar direito à expressão de posições divergentes, mesmo que minoritárias. Escutar e auscultar o povo ou parcelas dele não significa seguir tal ou qual posição. Bolsonaro tem legitimidade suficiente para ouvir, discordar e arbitrar segundo as regras democráticas. Portanto, não deveria ter medo da ampliação do leque de interlocutores.

A visão bolsonarista é similar ao tripé criado por Trump e Bannon. Primeiro, espalha-se um conjunto de "fake news" para atacar adversários ou para criar confusão no jogo político. A forma de usar as redes sociais, comandadas por Carlos Bolsonaro, espelha bem esse modelo, que faz uma linha direta com os seguidores mais fiéis, mas não tem ajudado a manter a popularidade. Em segundo lugar, é preciso ter inimigos, de vários tipos, como comunistas, imprensa, professores e todo grupo que possa ter uma concepção diferente de mundo. E com inimigos, termina a trilogia, não se conversa nem se negocia. É preciso aniquilá-los.

A dificuldade em usar uma linguagem política mais pluralista vai além do bolsonarismo, atingindo também a oposição e certos atores sociais. Mas é no grupo bolsonarista que esse fenômeno é elevado à enésima potência, tornando-se uma estratégia de conquista e manutenção de poder. Isso gera um duplo problema para Bolsonaro. De um lado, porque isso atrapalha os objetivos de seu governo, porque sem o apoio do Congresso e de outros atores sociais será muito difícil sair da crise atual. Conversar bastante e firmar acordos deveriam ser metas para se alcançar a governabilidade.

Só que o lado mais sombrio do problema é outro: usar uma linguagem virulenta e de combate aos tachados como inimigos, não alimentar o diálogo com outros atores políticos e sociais, isolar-se, enfim, nas suas próprias certezas irrefutáveis é um comportamento antidemocrático. Talvez isso explique porque Bolsonaro não saiba qual é a diferença entre uma ditadura e a democracia.
Fernando Abrucio

Pensamento do Dia


Bolsonaro, Haddad, Shakespeare, minha tia e meu tio

Desdêmona: “Fala em matar?”

Otelo: “Eu falo”

Desdêmona: “Então que o céu tenha pena de mim”

O diálogo é da peça Otelo, o mouro de Veneza. A criação de William Shakespeare é considerada uma obra-prima por mostrar como o mouro Otelo, influenciado por Iago, é consumido por um ciúme infundado e cego até matar a sua mulher, Desdêmona. Eduardo Giannetti, ex-professor da Universidade Cambridge e da Universidade de São Paulo, faz uma referência à peça de Shakespeare para dar um exemplo de como vê o debate hoje no Brasil. Para Giannetti, há uma grande polarização e um enorme vazio no meio do espectro político. De um lado, fica a esquerda representada pelo PT. Do outro lado, a extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro. “Cada um dos polos só presta atenção naquilo que confirma suas crenças e despreza tudo aquilo que pode minar o que acredita, como alguém ciumento que acha que tudo confirma suas desconfianças.”


O Brasil acabou virando um país de Otelos surdos, cegos, intransigentes e encastelados em suas fortalezas. Uma pesquisa do Instituto Ipsos mostra que o Brasil registra um nível de intolerância política que supera 27 outros países analisados. O levantamento mostra que 31% dos brasileiros acham que quem tem visão política diferente não liga, de verdade, para o futuro do país, 32% dizem que não vale a pena debater com quem não tenha as mesmas ideias sobre política e 39% afirmam que quem tem visão política diferente foi enganado. Num ambiente assim, há pouca gente genuinamente se questionando e tentando olhar, com empatia, a situação de quem está do outro lado.

A polarização é anterior à ascensão de Jair Bolsonaro, vem dos tempos do “nós contra eles”, mas acabou se exacerbando. Os eleitores que votavam em partidos de centro correram para os extremos, provocando a erosão do meio. Os efeitos disso vão muito além de estragar a festa de Natal de quem, como eu, tem uma tia petista e um tio bolsonarista. A polarização é certeza de conflito também no meio político, com abusos e baixarias.

O estilo de Bolsonaro e de pessoas de seu entorno é um desafio para quem se opõe a suas ideias. Olavo de Carvalho, o ideólogo do presidente, recorre invariavelmente a xingamentos quando confrontado, numa atitude totalmente estranha ao debate. Por sua presença nas redes sociais, Bolsonaro parece acreditar ter uma linha direta com o “povo” e, por isso, mantém uma postura de “porta-voz das ruas”, o que justificaria não seguir a liturgia do cargo que ocupa. Diante de um quadro desses, a reação automática e fácil é responder na mesma moeda. O problema é que, ao descartar a civilidade, também se abre mão da tolerância, um valor caro a uma democracia funcional. A “cena” protagonizada por Fernando Haddad e Carlos Bolsonaro na semana passado no Twitter na troca de mensagens sobre o Bolsa Família é um exemplo do caminho a ser evitado.

Quem entende que Bolsonaro representa a mudança desejada não pode fechar os olhos para seus equívocos. Quem acha que Bolsonaro precisa ser combatido não deve deixar de reconhecer propostas do governo que podem fazer sentido. Falar de impeachment e de parlamentarismo com três meses e meio de governo é um desserviço à democracia brasileira.

Velhacaria

Assim como ele fala da nova política, da velha política, Bolsonaro é a velha direita
Cesar Maia

Perdendo a confiança

Não está errado dizer que a Petrobras perdeu R$ 32,4 bilhões quando o presidente Bolsonaro suspendeu o reajuste de 5,7% que a estatal anunciara para o preço do diesel.

Mais correto, porém, é dizer que os acionistas da Petrobras perderam todo aquele dinheiro. E não foi apenas por causa dos 5,7%.


Ações caem quando há mais investidores vendendo do que comprando os papéis. E quem vende é porque perdeu confiança. Em geral, só os grandes investidores fazem esses movimentos rápidos. Os outros, entre os quais se incluem quase todos os brasileiros que têm alguma poupança, só podem reclamar ou lamentar. Todos, portanto, perdem dinheiro e confiança.

E quem são os acionistas?

O próprio governo federal, por exemplo. O BNDES tem em sua carteira algo como R$ 40 bilhões em papéis da Petrobras. A Caixa, uns R$ 10 bi. Só aí, portanto, o governo perdeu R$ 4,5 bilhões naquele dia (desvalorização dos papéis de uns 9%).

É dinheiro. Ainda nesta semana, o governo disse que o BNDES vai emprestar R$ 500 milhões para os caminhoneiros comprarem pneus. E que vai procurar no orçamento uns R$ 2 bilhões para arrumar rodovias. Acharia ali na carteira de ações.

Claro que as ações podem recuperar valor – se a Petrobras conseguir reaplicar o aumento do diesel ou se descobrir um baita campo de petróleo ou se o preço internacional do óleo subir – mas a desconfiança permanece.

A versão oficial diz que o presidente Bolsonaro não mandou cancelar o reajuste do diesel. Apenas pediu para suspendê-lo porque estava confuso e queria entender melhor o sistema de preços da Petrobras.

Com todos esses anos de jornalismo, a gente sabe desconfiar de uma versão oficial. E também sabe apurar nos bastidores.

Assim, com boa vontade, podemos fazer duas hipóteses. Primeira, o presidente de fato não entendia o sistema de preços da Petrobras e ficou confuso com o aumento. Segunda, entendia perfeitamente e mandou suspender o aumento porque ficou sabendo da bronca dos caminhoneiros.

Em qualquer caso, é complicado, digamos. Esse assunto dos reajustes da Petrobras não é de hoje. Vem de mais de ano, foi discutido na greve dos caminhoneiros (aliás, apoiada por Bolsonaro) e debatido na campanha eleitoral. Como o presidente poderia não saber?

E se sabia, mandou cancelar o reajuste para, ouvindo as ruas, como disse Paulo Guedes, atender a reivindicação dos caminhoneiros. O que significa que a política econômica liberal tem limites. Até onde?

Tem uma terceira questão: será que o presidente nem desconfiava das consequências de seu ato, a enorme perda de valor da Petrobras?

Acrescente-se ao cenário a confusão na tramitação da reforma da previdência. Claro que não é um problema grave que a votação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara tenha sido adiada para a próxima terça-feira. Mas, caramba, como os líderes governistas não conseguem administrar uma votação que não é das mais difíceis?

E assim se vai minando a confiança. A trapalhada na Petrobras ainda não está resolvida, pois não se sabe como a estatal vai sair dessa. É uma sinuca. Se aplicar imediatamente aqueles 5,7%, estará colocando diesel no chope do presidente. Se desistir do reajuste, estará confirmando que isso de autonomia das estatais (e do BC?) não funciona na prática.

Tudo considerado, as expectativas estão piorando. Estavam bastante elevadas logo após a eleição de Bolsonaro e subiram ainda mais quando se formou a equipe de Paulo Guedes. Mais ainda com as juras de reformas macro e micro e privatizações em massa, além de autonomia das estatais e agências.

Aí surgem os “pequenos” problemas. Algumas péssimas escolhas ministeriais, brigalhada dentro do governo, lideranças ineficientes no Congresso, caneladas nos políticos, os da velha e da nova, ataques a Rodrigo Maia, o grande defensor das reformas econômicas, o caso Petrobras, as derrotas na Câmara.

Tudo coisa que pode ser consertada, mas a sequência certamente reduz a crença na capacidade do governo (e de Guedes) de entregar a política econômica tão apoiada.

Não é por acaso que as expectativas de crescimento para este ano são cada vez menores.

Brasil vai bem em ranking da felicidade, mas...

A Organização das Nações Unidas (ONU) publicou recentemente seu Relatório sobre a Felicidade Mundial de 2018. Ele vem com a ressalva de que foi redigido por especialistas atuando de forma independente da ONU e, assim, não necessariamente representa a opinião dessa entidade.

Entre os editores e autores do texto, o mais conhecido é o economista Jeffrey D. Sachs, ex-professor da Universidade Harvard (EUA) e atual diretor do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade Columbia (Nova York). Na ONU dirige a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável. Sachs tem prestígio internacional e em meados dos anos 1980 atuou na Bolívia assessorando o governo local no combate à hiperinflação que lá existia.


Desta vez o relatório foi especialmente focado no tema da migração, de interesse internacional, e em saber se os migrantes, tanto internacionais como os do campo para as cidades, alcançam vida mais feliz. Mas, seguindo relatórios anteriores, logo no início apresenta e analisa seu tradicional ranking dos níveis de felicidade dos residentes, nativos ou imigrantes, de cada país, com base em amostras de mil pessoas por ano, e valores médios dos indicadores utilizados que cobrem o período 2015-2017. Abrangem 156 países alcançados pela Pesquisa Mundial Gallup, a cargo da empresa que tem esse nome.

A felicidade é avaliada inicialmente por seis indicadores, dois deles objetivos, o produto interno bruto (PIB) por habitante e a expectativa de vida, e quatro subjetivos. Ou seja, que dependem da avaliação pessoal: o apoio social, na forma de ter com quem contar em caso de problemas, a liberdade de escolhas ao longo da vida, a generosidade avaliada pela realização de doações e a percepção da existência de corrupção no governo e no mundo dos negócios.

Há também um sétimo indicador, chamado de distopia – o contrário de utopia –, relativo um país hipotético com os valores mais baixos dos outros seis, a cuja média é somado, em cada país, o erro da previsão, para cima ou para baixo, derivado de uma função que estima os pesos que aqueles seis indicadores iniciais têm na felicidade total. A ideia é que esse erro ou resíduo representa o que essa função ou modelo baseado nas seis primeiras variáveis não explicou em cada país, com o que sua adição ao ranking completa o valor médio observado nas avaliações do modelo utilizado.

Complicado, não? Tecnicalidades como essa são inevitáveis num estudo como esse, quantitativo e de um tema tão multifacetado como a felicidade. Não tenho espaço para me estender sobre a distopia, nem interesse, pois o meu se concentrou em examinar a posição do Brasil relativamente a outros países, como essa posição se sustenta e como evoluiu relativamente a um levantamento anterior, mencionado mais à frente.

No relatório de 2018 os dez países mais felizes são Finlândia, Noruega, Dinamarca, Islândia, Suíça, Holanda, Canadá, Nova Zelândia, Suécia e Austrália. Todos ricos, ou seja, ter dinheiro ajuda muito na felicidade, ainda que até certo ponto, conforme pesquisas que já vi sobre o assunto. Na outra ponta da lista de 156 países estão Malavi, Haiti, Libéria, Síria, Ruanda, Iêmen, Tanzânia, Sudão do Sul, República Centro-Africana e Burundi, todos pobres.

O Brasil aparece bem, na 28.ª posição. O usual é o País aparecer em posições intermediárias em levantamentos sobre questões objetivas. Por exemplo, no ranking de PIB per capita medido em termos de poder de compra, da CIA, a agência de inteligência dos EUA, abrangendo 229 países com dados próximos de 2017, o Brasil aparece na 110.ª posição. Portanto, essa 28.ª posição brasileira no ranking de felicidade deve ter sido determinada pela expectativa de vida, em que fica acima da média, e principalmente pelos fatores subjetivos citados.

Na minha avaliação, o Brasil não merece a boa posição em que ficou, pois as coisas por aqui não estão bem a ponto de justificá-la, saindo-se melhor do que países como Portugal, Espanha e Japão. Creio que isso tem que ver com aspectos culturais, como uma avaliação qualitativa a partir de expectativas muito baixas, com o brasileiro contentando-se com condições de vida muitas vezes precárias. E há também falhas no acesso a informações sobre essas condições, em particular por questões educacionais, tudo isso demonstrando as dificuldades de avaliações subjetivas. Estrangeiros que vêm ao Brasil também costumam apontar a cordialidade do povo brasileiro, um sintoma de sua felicidade subjetiva.

Aqui o noticiário sobre esse relatório não se voltou para uma questão importante, a de comparar a posição brasileira com a de relatórios anteriores. Quanto a isso encontrei o relatório de 2015, relativo ao período 2012-2014. Nele os dez primeiros colocados eram os mesmos países do relatório mais recente, com algumas mudanças de posição entre eles. Já nos dez últimos o grupo era outro, com exceção de Síria, Ruanda e Burundi, que permaneceram, juntamente com Chade, Guiné, Costa do Marfim, Burkina Faso, Afeganistão, Benin e Togo.

Nesse levantamento o Brasil estava na 16.ª posição. Portanto, caiu 12 posições no relatório de 2018. Creio que isso reflete principalmente o efeito da crise econômico-social que desde o final de 2014 vem afetando o País. Tive a curiosidade de olhar a Venezuela. Estava em 23.º no levantamento mais antigo e caiu para 102.º no mais recente. Nicolás Maduro, mestre em fazer seu povo infeliz, governa desde 2013.

Assim, mesmo para quem admitir que o Brasil merece a boa posição que ocupa nesses dois rankings de felicidade, essa queda deve ser mais um motivo de preocupação e de engajamento na luta para que nossas condições de vida melhorem, sejam elas avaliadas objetiva ou subjetivamente. No passo atual, a perspectiva é de piora.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Brasil, palácio em festa


Mais um ano no vermelho

O governo Bolsonaro prefere rosa e azul, principalmente na roupa das crianças, mas é vermelho o seu projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) apresentado ontem: a estimativa do deficit das contas públicas no próximo ano é de R$ 124 bilhões, R$ 14 bilhões a mais do que a anterior. Ou seja, o governo está enxugando gelo em termos de ajuste fiscal, mesmo considerando a reforma da Previdência.


O outro lado da moeda é o valor do salário mínimo em 2020, que será de R$ 1.040, um aumento de R$ 42 em relação aos atuais R$ 998. Não haverá aumento real do salário mínimo no ano que vem, que será corrigido apenas pela inflação medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Os números da LDO são um banho de realidade na retórica da “nova política”, que coleciona polêmicas no varejo. No atacado, a opção é quase o “mais do mesmo”: meta de inflação e câmbio flutuante; o superavit fiscal, premissa para a retomada do crescimento, está além do horizonte.

A economia do país está em desaceleração. Em fevereiro, registrou a maior retração desde maio de 2018, quando ocorreu a greve dos caminhoneiros, segundo os números divulgados, ontem, pelo Banco Central. Considerado uma prévia do PIB, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) registrou, em fevereiro, um recuo de 0,73%, na comparação com janeiro deste ano. O resultado foi calculado após ajuste sazonal (uma espécie de “compensação” para comparar períodos diferentes). Maio de 2018 foi marcado pelos efeitos da greve dos caminhoneiros, que resultou em um tombo de 3,11% na prévia do PIB.

A economia está travada. O cenário macroeconômico não mudou, em grande parte, porque o presidente Jair Bolsonaro emite sinais de que não está muito empenhado em aprovar a reforma da Previdência nem acredita nos fundamentos liberais de sua política econômica. No varejo, há sinais preocupantes de que o presidente Bolsonaro governa na contramão do projeto do atacado. O caso da política de preços da Petrobras é bastante emblemático quanto a isso.

Ao intervir numa decisão da petroleira, sustando o aumento do diesel, para atender reclamações de lideranças dos caminhoneiros, o governo meteu-se numa enrascada, porque sinalizou fraqueza e desorientação. Recuou diante de uma ameaça de greve dos caminhoneiros, que foram um esteio de sua campanha eleitoral; agiu de forma extremamente inábil, ao vetar publicamente o aumento, o que desmoralizou a diretoria da empresa e sua política de preços perante os seus investidores.

Ontem, ministros e técnicos do governo passaram o dia discutindo como consertar o estrago, enquanto o mercado aguarda uma decisão sobre o preço do diesel, que deve ser anunciada, hoje, em reunião com o próprio presidente Jair Bolsonaro. A política de concessões do governo Bolsonaro é seu ponto mais forte, administrativamente, mas está batendo no teto, enquanto o programa de concessões e os leilões de petróleo vão muito bem, obrigado. O problema são as privatizações, que estão estagnadas. Os militares ocuparam as empresas estatais e consideram muitas delas estratégicas para o desenvolvimento nacional.

Bolsonaro é um cristão novo do liberalismo, ao qual se converteu mais por conveniência política do que por convicção decorrente do conhecimento: já disse que não entende nada de economia. Entretanto, a política é a economia concentrada, e Bolsonaro não hesita na hora de tomar decisões com base no senso comum de suas bases eleitorais, sem medir muito as consequências, como no caso do diesel.

Enquanto administra no varejo, a inércia começa a mostrar sua cara no atacado. Ontem, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados decidiu discutir a proposta que aumenta os gastos obrigatórios do governo, a chamada PEC do Orçamento, antes de debater a reforma da Previdência. A reunião havia sido convocada para discutir a reforma da Previdência. Foi uma derrota anunciada do governo, pois, desde a semana passada, os partidos do Centrão passaram a articular o adiamento do debate, enquanto Bolsonaro estava mais preocupado com as máquinas e os equipamentos dos ladrões de madeira da Amazônia apreendidos pelo Ibama.

Bolsonaro precisa reavaliar a forma como está conduzindo sua relação com o Congresso. Os partidos do Centrão, como PP, PR e DEM, apoiaram um requerimento do PT para a CCJ analisar, primeiro, a proposta sobre o Orçamento. PSDB, Novo e Patriota votaram contra a inversão da pauta. Até mesmo o PSL, partido de Bolsonaro, votou a favor da mudança. As conversas com Bolsonaro levaram os líderes desses partidos a concluírem que o presidente da República não quer colar seu nome à reforma da Previdência; no jargão parlamentar, “filho feio não tem pai”.

Conseguimos piorar o que já era ruim

Com o brasileiro, não há quem possa, dizia uma musiquinha ufanista —e brega, como todo ufanismo;lá pelos anos 70.


Agora, dá para repetir: tanto é verdade que ninguém pode com o brasileiro que essa nossa formidável tribo consegue, nestes momentos, tornar ainda pior o que já era ruim, muito ruim.

Refiro-me, claro, ao surto censório de ministros do STF, que, primeiro, resolveram sair por aí caçando autores de “fake news".

Depois, aplicaram a censura a duas publicações (Antagonista e Crusoé)</a>, que ousaram reproduzir trechos de um inquérito da Lava Jato em que há uma insinuação da Odebrecht sobre o atual presidente da Corte, Dias Toffoli.

Não é curioso que, quando todas as publicações do mundo usavam trechos da Lava Jato com acusações sobre Lula, Temer, Aécio, Eduardo Cunha e uns “trocentos” outros políticos, o Supremo não censurou ninguém?

Criou-se um tremendo paradoxo, mais uma jabuticaba: um presidente da República, Jair Bolsonaro, notório por defender a ditadura (que censurou a mídia em geral) e a tortura (que matou jornalistas, caso, por exemplo, de Vladimir Herzog), agora vem a público para dizer que a "liberdade de expressão é direito legítimo e inviolável".

Enquanto isso, o STF, em tese o grande vigia do cumprimento da Constituição, a que defende o tal “direito legítimo e inviolável", viola esse princípio. Meu Deus, como é que vou explicar essa bagunça para meus amigos estrangeiros?

Chega-se agora, aliás, ao ponto culminante da bagunça. Já tínhamos um Executivo capaz de meter-se em uma confusão atrás da outra, uma espécie de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, aquele que não veio para explicar mas para confundir.

Não é o caso de repetir todas as barbaridades praticadas nestes cento e poucos dias de governo. Mas é preciso citar a mais recente, a declaração, depois corrigida, de que é possível perdoar o Holocausto, mas não se deve esquecê-lo.

Já seria uma estupidez rematada em qualquer cidadão, mas torna-se aberrante na boca de quem se diz profundo admirador de Israel. Que se ofenda um inimigo, dá até para entender (embora não se justifique), mas que se agrida um amigo, aí é coisa de louco.

Entende-se por isso a reação de autoridades judaicas para dizer que o Holocausto não é perdoável. Não é mesmo.

Trata-se de um crime não contra os judeus —o que já seria intolerável— mas contra a humanidade. Crimes contra a humanidade não são toleráveis nem prescrevem.

Mas o que esperar de quem defende outro crime contra a humanidade, como o é a tortura? 
A bagunça no Executivo estende-se ao Legislativo, como se tem visto dia sim, o outro também.

Aí vem o Judiciário e dá sua inestimável contribuição para a baderna generalizada.

No caso da investigação sobre “fake news", qualquer criança de berçário sabe de cor que quem investiga não julga; quem julga não investiga. Ponto.

O espantoso é que talentos como o dos editorialistas desta "Folha" e os imperdíveis Hélio e Bruno tenham sido obrigados a desenhar essa obviedade para os ministros do STF.

Não sei quem foi que disse que o Brasil é maior que o abismo e, portanto, não pode cair nele. Sei, não. O país está se apequenando tanto que vai acabar cabendo, sim, mais cedo que tarde.

Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa
Cora Coralina

O dilema da responsabilidade

‘Crédito maligno”, a expressão concebida pelo escritor Augusto de Franco, projeta as condições para aquilo que chamarei de dilema da responsabilidade. Qual seja: a situação do indivíduo convicto da necessidade de se aprovar uma reforma da Previdência potente, mas que, ao mesmo tempo, contempla os riscos decorrentes de entregar descompressão fiscal — logo, capacidade de investimento — a um governo cuja natureza autocrática é tão evidente quanto de operação singular.

Não trato aqui de ameaça fascista nem da possibilidade de uma ditadura conforme o modelo clássico, mas de um projeto de poder autoritário cuja dinâmica, a da campanha permanente, do conflito constante, é de emparedamento da democracia representativa e de rebaixamento das instituições republicanas em prol de uma hierarquia submetida ao governante eleito.


O governo Bolsonaro é um terreno para confronto incessante. Os choques não são pontuais nem podem ser compreendidos como típicos de uma administração ainda no início, mas consistem na exata expressão do grupo bolsonarista mais influente, a autointitulada ala antiestablishment, que não existe senão forjando campos de batalha para a tal guerra cultural. O bolsonarismo, comando para combate, produto do colapso político brasileiro, precisa do fomento continuado a rupturas e da conflagração institucional regular.

Já escrevi que o sucesso de um pacote liberal pujante tracionaria as engrenagens econômicas para que o bolsonarismo pudesse brincar longamente no parquinho ideológico. Ocorre que não é brincadeira. Não nos esqueçamos de que um governo pode ser ruim — nocivo — ao ambiente democrático, à qualidade do convívio social, e, concomitantemente, bem-sucedido em matéria econômica, esse bom resultado bancando os olhos fechados à depauperação dos pesos e contrapesos que ancoram a liberdade.

A história é rica em exemplos de quando a mentalidade econômica liberal, tecnocrata, serviu a projetos autoritários de poder. Não seria novidade nem caberia atribuir ingenuidade aos liberais econômicos; mas, antes, refletir sobre se não teriam entendido que fica mais fácil avançar a agenda sob menos contraditório.

Não é mandatório que um programa econômico liberal dependa de instituições democráticas vigorosas nem é certo que liberais econômicos tenham a democracia liberal como padrão inegociável. Certo é, porém, que o bolsonarismo precisa que algo da agenda liberal encaixe como gatilho — “crédito maligno” — para o lastro material de um esquema autocrático a ser acomodado pela tranquilidade concreta proporcionada, por exemplo, pela geração de empregos.

Aí está o dilema da responsabilidade: quanto estaremos dispostos a comerciar da estabilidade — do equilíbrio — institucional em troca de uma reforma cujo impacto abriria os cofres para um governo que funciona, como regra, na lógica da colisão e que tem, por oxigênio, a necessidade de fabricar inimigos?

Sob o bolsonarismo, obrigatoriamente, viveremos num regime de crises, sob o desgaste de um tempo de imprevisibilidade e do que sempre nos parecerão exceções — a própria negação do espírito de ponderação que caracteriza a democracia. O processo de revolução reacionária bolsonarista não é mera retórica eleitoral — no sentido de que não se esgotou com a vitória nas urnas. É perene, agora vertido em guerra interna contra o establishment encrustado na máquina pública. Um governo que, melhor ou pior gestor, é sobretudo oposição.

É batalha sem fim, briga cujo cerne é a infinitude, guerrilha de mobilização cujo norte é criminalizar a atividade política para deslocar o Poder representativo, o Legislativo, tratado como força intermediária e menor, à posição de acuado que se deve encurralar sempre. Isso está dado. Não há República que prospere assim, embora não seja improvável que a economia o faça; de modo que não será ilegítimo um parlamentar pensar da seguinte maneira, o dilema da responsabilidade agravado pelo instinto de sobrevivência: “Se, sob tamanha crise e precisando de mim, o governo me trata como bandido, como me tratará quando estiver nadando em dinheiro e eu não for mais necessário?”

Como editor e jornalista, tenho pensado: devo apoiar — devo me empenhar por — uma reforma da Previdência trilionária, que sei necessária, se também sei que é a condição fundamental para o financiamento de um projeto autoritário de poder? Tenho pensado, admito, sobre se não haveria solução intermediária capaz de minimizar o problema e empurrar o enfrentamento estrutural da Previdência para uma ocasião mais saudável politicamente.

Nunca tive dúvida de que a democracia liberal — como a temos hoje — não é valor para o bolsonarismo. O ponto é que talvez seja mesmo o empecilho.

Toffoli, uma caricatura de ditador

De duas uma. Ou falta conhecimento jurídico ao ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ou sobra vocação para ditador. Há uma terceira hipótese: à ignorância jurídica e à vocação para ditador alia-se o medo de ser flagrado em ato ilícito.

Está na Constituição: “Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social&#8221;. Está lá também: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.

E como se não bastasse, outro artigo da Constituição determina: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Seria preciso dizer algo mais a respeito? Por desnecessário, não.

Pois bem: Toffoli pediu e seu colega Alexandre de Moraes ordenou à revista eletrônica Crusoé e ao site O Antagonista a retirada do ar de uma reportagem onde o empresário Marcelo Odebrecht revela quem era o dono do codinome “amigo do amigo do meu pai”.

O pai de Marcelo se chama Emílio. O amigo de Emílio era Lula. O amigo de Lula era Toffoli. Foi o que Marcelo contou em depoimento à Lava Jato. Toffoli foi o advogado-geral da União entre 2007 e 2009 enquanto Lula presidia o país e a Odebrecht ganhava dinheiro.

Ganhou muito nos dois mandatos de Lula, inclusive superfaturando o preço para a construção de uma hidrelétrica no Rio Madeira. A Odebrecht pagou propina no contrato firmado com o governo. Marcelo disse não saber a quem a propina foi paga.

O mais escandaloso nisso tudo, para além da censura, foi que o depoimento de Marcelo, uma vez tornado público, acabou retirado dos autos da Lava Jato depois que juiz da 13ª Vara, Luiz Antonio Bonat, pediu informações a respeito. Quem retirou? Por ordem de quem?

Em resumo: a Lava Jato quis saber quem era “o amigo do amigo do meu pai”, fato; Marcelo respondeu que era Toffoli, fato; a Crusoé e O Antagonista limitaram-se a contar o que havia ocorrido, fato. Então a censura proibida pela Constituição foi restabelecida no país, fato.

Uma aberração deu origem a outra. A censura é filha da portaria baixada por Toffoli para apurar “notícias fraudulentas, denunciações caluniosas e infrações revestidas de animus caluniador, difamador e injurioso que possam atingir a honorabilidade e a segurança do STF, de seus membros e familiares”.

Alexandre de Moraes foi designado por Toffoli para presidir o inquérito aberto. Ele pode convocar juízes para auxiliá-lo – e já o fez. E acionar a Polícia Federal, e já acionou. Alexandre é quem dirá se uma notícia é fake, caluniosa, e se põe em risco a segurança do STF enquanto instituição, ou dos seus ministros e parentes.

A portaria de Toffoli envergonhou vários dos seus pares, a maioria deles, contudo, sem coragem suficiente para declarar que ela é simplesmente bizarra e deve ser revogada o mais rápido possível. Se não for, melhor que se reconheça que no país da jabuticaba brotou mais uma – a ditadura da toga.

Gente fora do mapa


As três categorias de pessoas que Bolsonaro tem pressa para 'facilitar a vida'

Fiquei curioso ao ler no último dia 11, quinta-feira, que o presidente Jair Bolsonaro, em meio ao caos que vive seu Governo, acabara de anunciar que tinha decidido, em caráter de urgência, primeiro com um decreto e em seguida com um projeto de lei, “facilitar a vida” de três categorias de pessoas. A notícia foi dada por Manoel Ventura no jornal O Globo.


O presidente devia ter consciência de que o fato não era banal já que antecipou que o decreto-lei “dará o que falar”, mas que ele “havia decidido democraticamente” a favor dessas três categorias, depois de ter consultado “membros do Exército e da Polícia Federal”. Vocês imaginam quem o presidente deseja, e com urgência, favorecer? Trata-se dos “colecionadores de armas, dos atiradores e dos caçadores”.

Fui ingênuo quando, por um instante, cheguei a pensar que poderiam ser medidas importantes do presidente em matéria social para favorecer as categorias mais sofridas e abandonadas da sociedade. Por exemplo, esses seis milhões de brasileiros que, contra o que exige a Constituição, que obriga a garantir a todos trabalho e moradia, ainda carecem de um lugar para morar. Ou aos que se refugiam nas grandes periferias violentas das cidades, em casebres que os pecuaristas recusariam para seus animais pelo seu grau de insegurança, como vimos dias atrás na tragédia da favela de Muzema, no Rio, dominada pelas milícias, onde dois edifícios acabaram em pó sob o pânico de seus moradores com um balanço até agora de onze mortos.

Imaginei, também em vão, que outra categoria que Bolsonaro decidiu facilitar a vida era a desses milhões de trabalhadores que vivem todos os dias o drama de ter de se deslocar de periferias distantes e violentas para o centro da cidade para ganhar seu pão. Falem com eles e contarão histórias que ferem a dignidade humana, tendo de usar até três meios de transporte, sempre os piores, superlotados, perigosos pelos assaltos, sem um mínimo de conforto. E depois um árduo dia de trabalho, voltar a empreender o retorno para casa com o acréscimo do cansaço do dia. E assim semanas, meses e anos.

Pensei, finalmente, que o Presidente, com a sua obsessão pelo tema da educação, poderia ter decidido redimir esse exército de professoras que cuidam de 24 milhões de alunos e sobre as quais recai a responsabilidade de construir o Brasil do futuro. Acreditei que, em vez de se perder nos labirintos da Escola Sem Partido e outras loucuras que ofendem o bom senso, teria decidido redimi-las pelo menos da miséria de seus salários que lhes impede de continuar se atualizado em uma matéria em evolução no mundo. Que havia decidido, como nos países modernos, acabar com seus salários de miséria. Enquanto, por exemplo, no Canadá, uma professora primária pode ganhar como um juiz ou um senador, aqui no Brasil, pasmem!, o Estado gasta para pagar o salário de uma professora primária durante oito anos o mesmo que gasta com um deputado em um mês entre salário e privilégios. Difícil encontrar um adjetivo para tamanha injustiça.

Só que o meu foi apenas um sonho. Quando li a notícia completa das três categorias às quais Bolsonaro havia decidido, e com celeridade, “facilitar a vida”, não eram nenhuma daquelas que havia imaginado. Eram três categorias de pessoas que cultuam as armas, todas elas objetos criados para matar. Evocam a morte mais que a vida.

Não entendi por que ajudar os que colecionam não obras de arte, mas pistolas e fuzis. Ou como favorecer os atiradores, a não ser que, em vez de multiplicar nas cidades as creches e os centros de emergência médica, prefira multiplicar as academias de tiro. E os caçadores? O presidente já havia anunciado que queria favorecer o turismo na Amazônia. Será que está pensando em organizar, como em alguns países africanos, o turismo de caçadores de animais selvagens, onde existem até listas de preço de acordo com o tipo de animal que se escolhe para matar, por exemplo, um elefante, um leão, uma girafa ou um chimpanzé. Matar um filhote de elefante é geralmente mais barato, por exemplo, do que um elefante adulto. Na Amazônia, os caçadores furtivos da onça pintada estão extinguindo um dos animais mais belos do mundo. Será que o presidente quer regularizar a caça dessas joias da nossa Amazônia?

Lembro que, a respeito dos países que permitem aos turistas, pagando, abater animais selvagens, quando em abril de 2012 se descobriu na Espanha, que o então rei Juan Carlos I, que gozava da estima até de muitos não monarquistas por seu equilíbrio em manter a unidade do país, tinha ido às escondidas a Botsuana, na África, para matar um elefante. Ele sofreu a vingança dos animais ali mesmo. No hotel da reserva, quebrou uma perna. Um avião teve de ir de Madri para buscá-lo e a notícia se tornou pública. Desde então, coincidência ou não, uma série de reveses foram caindo sobre a figura do Rei, que se eclipsou e acabou abdicando dois anos depois em favor de seu filho, Felipe.

No Brasil, hoje, milhões de pessoas precisam e com urgência de que se lhes facilite a vida mais do que aos colecionadores de armas ou aos caçadores de animais. Neste país em que se tenta mudar a legislação para que cada vez seja mais fácil caçar humanos impunemente, Bolsonaro manifesta pressa em facilitar também a vida dos caçadores de animais. Os valores da vida e da dignidade da pessoa vão se desvanecendo a cada dia, enquanto cresce a paixão por armas e pela violência. Agora também contra os animais. Falta algo mais?

O culpado do mundo

Pela lógica deste sistema, toda a culpa é da pessoa. Se não tem um bom emprego, a culpa é tua; se o salário é baixo, a culpa é tua; se a Bolsa caiu, a culpa é tua; se aumentou a expectativa de vida, a culpa é tua; se não há um sistema de proteção, a culpa é tua
Andras Uthoff, professor da Universidade do Chile

O pastel e a crise

Quando a crise convida ao pessimismo ou ameaça descambar na depressão, está na hora de ler. Poesia ou prosa, tanto faz.

Verdadeiro sábio era o Rubem Braga. Tinha com a vida uma relação direta, sem intermediação intelectual. Houvesse o que houvesse, trazia no coração uma medida de equilíbrio que era um dom de nascença, mas era também fruto do aprendizado que só a experiência dá. No pequeno mundo do cotidiano, sabia como ninguém identificar as boas coisas da vida. E assim viveu até o último instante.

Certa vez, no auge de uma crise, crivada de discursos e de diagnósticos, o Rubem estava de olho nas frutas da estação. Madrugador, cedinho já sabia das coisas. Quando o largo horizonte nacional andava borrascoso, ele se punha a par das nuvens negras, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da crise. Baixava o olhar ao rodapé, pois o sabor do Brasil está também no rés do chão. Num dia de greve geral, inquietações no ar, tudo fechado, o Rubem me telefonou: "Vamos ao Bar Luiz, na rua da Carioca? Vamos ver a crise de perto".

E lá fomos. O bar estava aberto e o chope, esplêndido. Começamos por um preto duplo, que a sede era forte. Depois mais um, agora louro. E outro. Claro que não faltou o salsichão com bastante mostarda. Calados, mas vorazes, cumpríamos um rito. Alguém por perto disse que a Vila Militar tinha descido com os tanques. Saímos dali e fomos a um sebo. O Rubem comprou Xanã, do Carlos Lacerda, com dedicatória. Depois pegamos o carro e voltamos pelo aterro, onde se pode exercer o direito da livre eructação. Tinha sido um perfeito programa cultural. E sem nenhum incentivo do governo.

Vi agora na televisão que o maracujá está em baixa e me lembrei do velho Braga. Nem tudo está perdido. Fui à feira e comprei também dois suculentos abacaxis. Caem bem nesta hora de atribulação nacional. Só falta agora descobrir um bom pastel de palmito na zona norte. Se o Rubem estivesse aí, lá iríamos nós atrás da deleitosa descoberta. Depois, de cabeça erguida, enfrentaríamos a crise e até o caos.

Otto Lara Resende

Não tem colorido na aquarela do Brasil

Nem precisava. Mas por via das dúvidas ou talvez esperança, fizeram pesquisa. E descobriram o que somente precisava ser confirmado. O Brasil é intolerante. Segundo o Instituto IPSOS e provavelmente qualquer outra pessoa ou organização. O problema é que mesmo o óbvio pode ser perigoso. É grave.


Uma nação onde não se ouve só pode mesmo resultar nestes tempos estranhos que vivemos. Se é que algum dia toleramos, hoje em dia está claro que opiniões diferentes é algo que o brasileiro combate até o fim no país tropical. Diferente é errado por definição. Pelo menos é o que acreditamos.

O resultado é o que está aí. Uma (quase) nação onde o consenso se tornou impossível. Discutir virou esporte. E ganhar a discussão, questão de honra. Não há qualquer coesão possível. Vivemos fragmentados, frustrados e infelizes com as diferenças.

Também não aprendemos. Não conseguimos ouvir crítica. E, portanto, não enxergamos os próprios erros. Vivemos sob a ilusão que, de alguma maneira que não requer explicação, estamos sempre certos. E todos os outros, errados.

Em nossa autoproclamada democracia, não existe espaço para liberdade de opinião. Depois de gerações crescendo sob ditadura, a gente não entendeu que eleição não é o suficiente para chamar um regime ou uma nação de democrática.

Ruminamos o ressentimento com aqueles que não acreditam nas mesmas coisas. E transformamos este sentimento em ação política. Por isso, ou também por isso, não conseguimos selecionar nem escolher bons candidatos.

E ficamos empacados, sem ir nem vir, em eternas discussões sem fim cujo objetivo jamais é explicar. Apenas queremos convencer. Tudo é preto ou branco. Não gostamos mais de cores. Temos horror a diversidade. Até zona cinzenta incomoda. Eliminamos há espaço para dúvidas. Não tem colorido na aquarela do Brasil.

Elton Simões

terça-feira, 16 de abril de 2019

A hora escura em que vivemos

Em um dia qualquer do século passado, Louis Brandeis, o mítico juiz da Suprema Corte americana, cunhou uma frase lapidar que ganharia para sempre seu lugar na história. “A luz do Sol é o melhor detergente”, elaborou Brandeis, partindo de um raciocínio simples, mas fundamental para iluminar tempos sombrios como os que agora vivemos.

Crusoé foi lançada há menos de um ano. Ao longo de sua existência, conseguiu amealhar um número expressivo de leitores. Nesta segunda-feira, 15, a redação da revista viveu seu momento mais difícil. Uma funcionária do Supremo Tribunal Federal bateu à porta para entregar três folhas de papel que, em resumo, mandavam retirar do ar, imediatamente, a reportagem de capa da mais recente edição.

A capa em questão estampava o rosto do presidente da corte, Dias Toffoli. O texto revelava o teor de um documento em que Marcelo Odebrecht, empreiteiro-delator da Lava Jato, contava tratar-se de Dias Toffoli um personagem que, em mensagem eletrônica enviada por ele, era chamado de “amigo do amigo de meu pai”.

A reportagem foi elaborada com cuidado. Em nenhum momento Crusoé fez ilações ou atribuiu ao ministro qualquer tipo de relacionamento escuso com a Odebrecht. Limitou-se a informar o conteúdo do e-mail e, como mandam as normas do jornalismo, contextualizou a história, explicando quem era quem e informando o papel de cada um quando a tal mensagem foi enviada. É preciso, sempre, situar o leitor.

O mais importante, do ponto de vista da notícia, era o que constava do documento, que acabara de ser apensado aos autos de um dos muitos inquéritos da Operação Lava Jato. Lá pelas tantas, o texto informava que, por mencionar Dias Toffoli, o ofício de Marcelo Odebrecht, entregue aos investigadores por um de seus advogados, havia sido remetido (frise-se, remetido) à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, responsável por investigar quem tem foro privilegiado.

A procuradora-geral, no dia seguinte à publicação, divulgou nota negando ter recebido (frise-se, recebido) cópia do documento de Odebrecht. Era de se imaginar que o papel talvez ainda não tivesse chegado ao gabinete de Dodge. Poderia estar transitando entre Curitiba e Brasília. Mas, como publicou Crusoé, havia sido enviado à procuradora – isso, havia.

Eis que foi justamente à nota de Raquel Dodge que o ministro Alexandre de Moraes, um dos onze integrantes do Supremo, recorreu para censurar a revista, alegando tratar-se de fake news a reportagem publicada. Raciocínio tortuoso. Dodge não ter recebido o documento, para ele, era motivo suficiente para colocar em xeque a integridade do texto, que em momento algum dizia que o papel havia chegado às mãos da procuradora.

Na decisão, aliás, havia zero palavra sobre a afirmação de Marcelo Odebrecht acerca de Dias Toffoli. Esse era um não-assunto na ordem de censura. A questão central era a nota de Dodge. O esforço para descredibilizar a reportagem, ainda que baseado em uma premissa artificial, estava patente.

Relator no Supremo de um inquérito sigiloso aberto pelo próprio Dias Toffoli para investigar agressões a integrantes da corte, Moraes agiu a partir de uma provocação do próprio presidente. Horas após a publicação da reportagem de Crusoé, Toffoli lhe enviara, do exterior, uma mensagem pedindo a “devida apuração das mentiras recém divulgadas por pessoas e sites ignóbeis que querem atingir as instituições brasileiras”.

Logo se descobriria, ao menos em parte, a razão do misterioso inquérito instaurado em março, e que tanto chamou atenção por seu caráter atípico: uma investigação aberta de ofício pelo presidente do tribunal, que escolheu Alexandre de Moraes a dedo como relator, sem passar pelo sistema de sorteio comum aos demais procedimentos, e sem o necessário acompanhamento do Ministério Público.

A censura determinada por Moraes, se não disse tudo sobre o inquérito, mostrou que um de seus propósitos é intimidar – ou, ao menos, tentar intimidar — jornalistas que fazem seu trabalho. Crusoé foi censurada a partir de um salto interpretativo, uma pirueta. Como não havia o que questionar sobre a questão central, optou-se por criar um incidente lateral, motivado pela nota de Dodge, que nem sequer condiz com o que consta do texto publicado.

Não fosse suficiente a ordem para retirar a reportagem do ar imediatamente, o que foi feito, cerca de sete horas depois um outro oficial de Justiça chegava à redação, agora para entregar uma intimação em que o gabinete de Alexandre Moraes comunicava que a revista será multada por descumprir sua decisão. O despacho de seis linhas não explicava quais bases serviram ao entendimento do ministro de que sua ordem fora desrespeitada.

Como o tal inquérito corre sob sigilo, ao menos por ora é impossível saber o que Alexandre de Moraes viu para concluir que houve descumprimento da ordem de censura. Significa dizer que estamos expostos a novas ordens, a qualquer momento – e, de novo, sem mais explicações.

Sim, estamos no escuro. Nunca a luz do Sol, aquela a que se referia Brandeis, foi tão necessária. De tudo, uma coisa é certa: a jovem e corajosa redação de Crusoé seguirá fazendo seu trabalho como deve ser feito. Sem se curvar, sem temer as arbitrariedades, sempre em busca de luz para iluminar as trevas.

Rodrigo Rangel, Diretor de redação

Imagem do Dia


Censura togada

Há uma campanha injusta contra o Supremo Tribunal Federal por parte de uma militância de extrema direita, que chega a falar em "fechar o STF". É um eco da ideia lançada pelo deputado Eduardo Bolsonaro de que, caso a Suprema Corte se colocasse contra a Presidência de seu pai por qualquer motivo, bastaria mandar "um cabo e um soldado" para dar conta dela.


Dito isso, é impossível não se revoltar contra o próprio Supremo quando ele veste a carapuça do poder quase ditatorial que lhe é atribuído, e em benefício de seus próprios membros. Ao proibir que a revista Crusoé e o site O Antagonista veiculem o conteúdo do depoimento de Marcelo Odebrecht à Lava Jato, em que ele menciona o ministro Dias Toffoli, os ministros do Supremo Tribunal Federal mostram que, de fato, se julgam acima das liberdades e direitos que valem para o resto dos brasileiros.

A informação veiculada pela Crusoé consta dos autos da Lava Jato. Não é uma invenção do jornalista (caso em que, aí sim, seria razoável vedar sua reprodução). Dias Toffoli errou, portanto, ao caracterizá-la de "fake news". Pode inclusive ser que Marcelo Odebrecht tenha mentido, mas isso em nada altera a verdade do fato noticiado: ele de fato se referiu a Dias Toffoli em seu depoimento. Inevitavelmente, a tentativa de calar a imprensa produz a suspeita contrária na mente da população: se Toffoli é mesmo inocente, por que manda barrar o conteúdo da reportagem?

Além disso, a própria eficácia da decisão do STF é dúbia. Não é porque um site tira um conteúdo do ar que ele deixa de circular pelas redes. Na verdade, ter sido alvo de censura só aumenta o interesse das pessoas pela matéria, que hoje em dia —ao contrário de décadas atrás— tem meios pelos quais circular. Nos grupos de WhatsApp que formam a opinião pública, a matéria censurada circula livremente. Quem originalmente não se interessou agora vai atrás; e vai encontrar.

No Brasil, o braço armado do Estado, que deveria ser o último recurso para a resolução de conflitos e de problemas sociais, costuma ser o primeiro. Em março, Dias Toffoli abrira um inquérito amplo, sem objeto específico, para investigar supostos ataques ao STF. Agora os poderes dados por esse inquérito são finalmente trazidos à prática, e o resultado é assustador.

Como bem sintetizou o advogado Horácio Neiva, em seu Twitter, "o STF é, ao mesmo tempo, i) o autor da denúncia; ii) o responsável pela investigação; iii) quem decide os fatos relacionados à investigação; iv) quem determina atos judiciais no curso da investigação; v) quem define o escopo da investigação."

Ao agir de forma tão descarada em sua própria defesa, num processo em que ele próprio é acusador e juiz, o STF conseguiu um feito raro: a unanimidade da opinião pública, da esquerda radical à extrema direita, voltou-se contra ele. O que não deixa de ser grave, num momento em que instituições que contrabalanceiem o poder do governo federal se tornam mais importantes para lidar com a combatividade que dele parte.

Uma sociedade bem ordenada e com direitos individuais depende de um equilíbrio de forças sempre precário. É preciso evitar que qualquer líder ou grupo concentre poder demais. Em tempos de polarização ideológica e em que cada um puxa seu lado da corda com mais força, o cuidado é redobrado. Um STF forte e respeitado nos interessa a todos. Para isso, a tentativa de censurar uma revista é um tiro no pé.

A falta que a política faz

Além das seguidas capitulações espontâneas do presidente o que mais tem comprometido a reforma da previdência é a “embriaguez da onipotência numérica” vivida pela família Bolsonaro. Trata-se de uma confusão que decorre do encantamento com a contagem de numeros absolutos revelados pelo súbito destampar de panelas ha muito forçadamente lacradas operado pelo aprendizado no uso das redes sociais, que tem levado a trágicos erros de avaliação política pelo mundo afora, da Primavera Árabe em diante.

Depois do salto proporcionado pela ânsia do Brasil de livrar-se da venezuelização que elegeu Bolsonaro, as pesquisas indicam uma volta da opinião pública ao leito da normalidade. Cada vez mais as manifestações de radicalismo só repercutem no gueto da direita incondicional que não precisa ser conquistada pois já é e nunca deixará de ser dele assim como os 30% da esquerda incondicional foram do PT e são hoje dos seus sucedâneos. Para tudo mais elas só prejudicam. Como chegar a 308 deputados (partindo dos atuais 190) mais 49 senadores que a reforma requer carimbando qualquer conversa com eles como “prova” de corrupção?

A próxima parada, diz Paulo Guedes, é o Novo Pacto Federativo que reservará 70% do dinheiro dos impostos para estados e municípios e 30% para a União. A distribuição do dinheiro dos impostos em consonância com a quantidade de assistidos por cada ente de governo, entretanto, é produto, onde ocorre, de um arranjo político revolucionário e não o contrário. Na repartição do que quer que seja a parte do leão fica com quem detem o poder. É uma lei da natureza. Logo, para inverter a distribuição do dinheiro é preciso antes por o povo no poder.



O federalismo foi o arranjo institucional que deu consequência prática a essa inversão. A fórmula que criou governos dentro de governos, cada um deles soberano na sua esfera de atuação mas dividido em três poderes encarregados de filtrar as decisões uns dos outros foi, pela primeira vez na história da humanidade, uma teoria criada para ser posta imediatamente em prática estritamente dentro da característica pragmática da cultura anglo-saxônica. Não para “criar uma nova humanidade”, à latina, mas para resolver um problema específico: como montar um esquema funcional para transferir o poder do monarca absolutista humano para o conjunto da população, também humana, e evitar o retorno à condição anterior de opressão, agora por uma maioria. Esse o ponto a que chegou a Democracia 3.0, modelo século 18, que nós nunca alcançamos. E não foi suficiente. Ele teve de evoluir, no século 20, para a Democracia 4.0 que pôs o indivíduo reinando soberano sobre todas as outras soberanias ao reforçar dramaticamente os poderes dos eleitores antes e depois do momento das eleições, com os direitos de cassar mandatos a qualquer momento, dar a última palavra sobre as leis que se dispõem a obedecer e submeter até os juízes, periodicamente, à confirmação do seu beneplácito. Por o carro adiante dos bois com um eleitorado inteiramente desarmado e legalmente proibido de defender-se contra a violência legislativa e regulatória dos donos do poder (como nos querem até em relação à própria vida os radicais desarmamentistas) só levará a uma multiplicação desastrosa dos focos de corrupção.

A maior dificuldade para arrumar o Brasil não está no confronto entre visões divergentes, está em formular uma visão divergente de fato, coisa que não poderá ser aprendida na práxis política corrente que, pela direita e pela esquerda, vive da distribuição de pequenos privilégios. Vai requerer um longo mergulho no estudo da teoria política, assunto hoje anatemizado como sintoma de propensão à corrupção, e da história da evolução da democracia pois em todos os países os problemas foram os mesmos que enfrentamos e muitos conseguiram supera-los. Não é preciso reinventar a roda. A questão é como fazer isso num país que socializou o pequeno privilégio numa extensão inédita no mundo e onde todos amam o seu, cujas escolas ou estão destruídas, ou estão censuradas pelo aparelhamento ideológico, o que nos leva ao outro grande foco de ruídos dos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro.

Nas democracias de DNA saxônico vigora um princípio que explica a resiliência delas e tem tudo a ver com federalismo. O controle da educação deve ficar o mais longe possível de quem já tem o controle da força armada, explicitamente como elemento básico de prevenção contra a sede insaciável de mais poder que todo poder tem.

De fato não faz nenhum sentido, senão como instrumento de perpetuação no poder, que num país continental cheio de itaócas e de megalópoles plantadas em realidades culturais, geográficas e de vocação econômica radicalmente diversas umas das outras, um único órgão centralizado, como o MEC, imponha o mesmo currículo e os mesmos métodos pedagógicos para todo mundo em todos os níveis de educação. Por isso, naquelas democracias, o controle das escolas públicas não fica sequer na mão do poder municipal, fica a cargo da menor unidade do sistema, os conselhos (school boards) eleitos por cada bairro entre os pais dos alunos que frequentarão aquela escola. Com sete membros com mandatos de quatro anos desencontrados, metade eleita a cada dois anos, são esses boards que contratam os diretores de cada escola pública e aprovam (ou não) os seus orçamentos e os seus programas pedagógicos.

Um conjunto de “distritos escolares”, o primeiro elo do sistema de eleições distritais puras, único que cria uma identificação perfeita entre os representantes eleitos e cada um dos seus representados permitindo o controle direto legítimo e seguro de uns sobre os outros, constituirá um distrito eleitoral municipal. Uma soma destes fará um distrito estadual, um conjunto dos quais dará um dos distritos federais que elegerão os deputados do Congresso Nacional.

A política, o patinho feio de todo o drama brasileiro, não pode, portanto, ser o último fator a ser considerado. Se for para curar o país, terá de ser o primeiro.

Censura até aonde?

Será que eles também não podem censurar comentário de senador? De repente, o STF pode determinar que um jipe com um cabo e dois soldados encoste no Senado
Major Olímpio, senador líder do PSL

O achismo mata a imprensa

Sou um sobrevivente da era de ouro do jornalismo, quando os repórteres dos jornais diários não tinham que competir com as notícias 24 horas da TV a cabo, quando os jornais ganhavam muito dinheiro com propaganda e classificados, e quando eu era livre para viajar para qualquer lugar, no momento que desejasse, por qualquer motivo, com o cartão de crédito da empresa. Havia tempo suficiente para cobrir notícias de última hora sem ter de ficar constantemente relatando as novidades no site do jornal.

Não havia mesas-redondas com especialistas e jornalistas na TV a cabo que começam a responder a qualquer pergunta com as duas palavras mais mortais do mundo da imprensa: “Eu acho”. Estamos saturados de notícias falsas, informações exageradas e incompletas, e asserções falsas feitas sem parar nos nossos jornais diários, nossas televisões, nossas agências de notícia on-line, nossas redes sociais, e pelo nosso presidente.

Sim, é uma bagunça. E não há nenhum passe de mágica nem um salvador à vista para a imprensa séria. Os jornais, as revistas e as redes de TV mainstream continuarão demitindo repórteres, reduzindo a equipe e encolhendo o orçamento disponível para uma boa reportagem, especialmente para reportagens investigativas, cujo custo é elevado, o resultado é imprevisível e ainda têm grande capacidade de irritar leitores e atrair processos caros. Muitas vezes os jornais de hoje correm para imprimir notícias que mal passam de indícios ou suspeitas de algo tóxico ou criminoso. Por falta de dinheiro, tempo ou de uma equipe habilidosa, estamos cercados por histórias com “ele disse, ela disse”, nas quais o repórter não passa de um papagaio. Sempre pensei que era a missão de um jornal buscar a verdade e não apenas registrar a discordância. Houve um crime de guerra? Os jornais agora dependem de um relatório negociado pelas Nações Unidas que aparece, no melhor dos casos, meses depois para nos contar a história.

E a mídia fez algum esforço significativo para explicar por que relatórios da ONU não têm sido considerados a palavra final por muitos ao redor do mundo? Há relatórios críticos sobre a ONU? Posso ousar perguntar sobre a guerra no Iêmen? Ou o motivo pelo qual Donald Trump tirou o Sudão da sua lista de países cujos cidadãos têm restrições para entrar nos Estados Unidos? (A liderança em Cartum, no Sudão, mandou tropas para lutar no Iêmen em nome da Arábia Saudita.)

Minha carreira sempre girou em torno da importância de falar verdades relevantes e que ninguém queria ouvir, e tornar os Estados Unidos um país mais instruído. Não estava sozinho nesse objetivo de fazer a diferença; penso em David Halberstam, Charles Mohr, Ward Just, Neil Sheehan, Morley Safer e dezenas de outros jornalistas do mais alto nível que fizeram tanto para nos ensinar sobre o lado sórdido da Guerra do Vietnã. Sei que não seria possível ter tanta liberdade nos jornais de hoje quanto eu tive até uma década atrás, quando começaram os cortes financeiros. Lembro vividamente do dia em que David Remnick, o editor da New Yorker , me telefonou em 2011 para perguntar se eu podia fazer uma entrevista com uma fonte importante pelo telefone em vez de voar 5 mil quilômetros para realizá-la ao vivo. David, que fez todo o possível para apoiar minha cobertura dos horrores da prisão de Abu Ghraib em 2004 — ele pagou caro para permitir que eu publicasse reportagens em três edições consecutivas —, me implorou no que julguei ser uma voz envergonhada, dolorida, quase um sussurro.

Onde estão as matérias de peso sobre as operações das Forças Especiais dos Estados Unidos que continuam sendo realizadas e a disputa política sem fim no Oriente Médio, na América Central e na África? Com certeza continuam ocorrendo abusos — a guerra é sempre um inferno —, mas os jornais de hoje e as redes de TV simplesmente não têm dinheiro para manter correspondentes lá, e quem ainda faz isso —, basicamente o New York Times , onde trabalhei alegremente por oito anos na década de 70, sempre causando encrenca — não consegue financiar as reportagens de longo prazo necessárias para mergulhar a fundo na corrupção dos militares ou dos serviços de Inteligência. Como você lerá aqui, demorei dois anos para aprender o que precisava para relatar a espionagem doméstica ilegal que a CIA realizava nas décadas de 60 e 70.

Não finjo ter a resposta para todos os problemas da imprensa nos dias de hoje. O governo federal deveria apoiar a imprensa, como a Inglaterra faz com a BBC? Pergunte a Donald Trump. Deveria haver alguns poucos jornais nacionais financiados pelo público? Em caso afirmativo, quem poderia comprar ações dessa empreitada? Este é claramente o momento de renovar o debate sobre o que fazer a seguir. Acreditei por anos que tudo se resolveria, que os jornais americanos decadentes seriam substituídos por blogs, coletivos de notícias on-line e por semanários que preencheriam as lacunas das reportagens locais, assim como das notícias nacionais e internacionais, mas, apesar de alguns poucos casos de sucesso — VICE , BuzzFeed , Politico e Truthout são os nomes que me ocorrem —, isso não está acontecendo; em consequência, a mídia, assim como a nação, está mais tendenciosa e estridente.

Pensamento do Dia


O ministro antiFalcone

Sergio Moro sabe que:

1 - As milícias são organizações criminosas controladas por policiais civis e militares corruptos e violentos;

2 - Esses policiais utilizam o aparato do Estado, como armas, helicópteros e caveirões, para expulsar o tráfico e dominar as favelas;

3 - As milícias cobram por proteção e dominam atividades econômicas importantes nas áreas que controlam: distribuição de sinais de TV e de gás de cozinha e transporte alternativo;

4 - As milícias decidem quem faz propaganda eleitoral nas suas áreas e financiam campanhas políticas;

5 - Milicianos e políticos ligados a milicianos foram eleitos no Brasil para cargos legislativos e executivos em níveis municipal, estadual e federal.

Mesmo sabendo de tudo isso, o ministro Sergio Moro declarou que as milícias representam a mesma coisa que as facções criminosas dentro das prisões, sugerindo que esses grupos operam como o varejo do tráfico de drogas.



Ora, o leitor sabe que sempre apoiei a operação Lava Jato e que chamei Sergio Moro de “samurai ronin”, numa alusão à independência política que, acreditava eu, balizava a sua conduta. Pois bem, quero reconhecer o erro que cometi.

Digo isso porque não há outra explicação: Sergio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família "Bolsonaro". Flávio não foi o senador mais votado em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras por acaso.

O pacote que Sergio Moro enviou ao Congresso —embora razoável no que tange ao combate à corrupção corporativa e política— é absurdo no que se refere à luta contra as milícias. De fato, é um pacote pró-milícia, posto que facilita a violência policial.

Se Sergio Moro tivesse estudado os autos de resistência no Brasil teria descoberto que:

1 - Apenas no Rio de Janeiro, a cada seis horas, policiais em serviço matam alguém;

2 - A versão apresentada por esses policiais costuma ser a única fonte de informações nos inquéritos instaurados em delegacias para apurar os homicídios;

3 - Como policial tem fé pública, a sua versão embasa a excludente de ilicitude, evitando a prisão em flagrante;

4 - A Polícia Civil, além de raramente escutar testemunhas ou realizar perícias no local dos assassinatos, tem mania de desfazer as cenas do crime para prestar socorro às vítimas, apesar de a maioria delas morrer instantaneamente em decorrência de disparos no tórax;

5 - Desde 1969, quando o regime militar editou a ordem de serviço 803, que impede a prisão de policiais em caso de “auto de resistência”, apenas 2% dos casos são denunciados à Justiça e poucos chegam ao Tribunal do Júri.

Aprovado o pacote anticrime de Sergio Moro, esse número vai tender a zero. Isso porque o pacote prevê que, para justificar legitima defesa, bastará que o policial diga que estava sob “medo, surpresa ou violenta emoção” —ou, ainda, que realizava “ação para prevenir injusta e iminente agressão”.

O hábito que os policiais milicianos têm de plantar armas e drogas nos corpos de suas vítimas para justificar execuções é tão usual que deu origem a um jargão: todo bom miliciano carrega consigo um “kit bandido”. Aprovado o pacote de Moro, nem de “kit bandido” os milicianos precisarão mais.

Sergio Moro nunca sofreu atentados e nunca lidou com a máfia. Mas o juiz Giovanni Falcone, em quem o ministro diz se inspirar, foi morto aos 53 anos de idade na explosão de uma bomba colocada pela máfia em uma estrada. Sua mulher e três seguranças morreram com ele.

O crime foi uma reação da máfia à operação “Maxiprocesso”, que prendeu mais de 320 mafiosos na década de 1980. Ela deu origem à operação “Mãos Limpas”, que mostrou que a máfia elegia e controlava políticos importantes na Itália.

Ora, no contexto brasileiro, é óbvio que o pacote anticrime de Moro vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política. Sergio Moro foi de “samurai ronin” a “antiFalcone”. Seu pacote anticorrupção é, também, um pacote pró-máfia.

Só perigoso?

Esse cara é um ser humano muito perigoso. Eu certamente peço ao museu que não permita que ele seja recebido lá. Se você está falando de uma instituição apoiada publicamente (o museu) e está falando de alguém que está fazendo algo tangivelmente destrutivo (Bolsonaro), fico desconfortável com isso
Bill de Blasio, prefeito de Nova York