quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sete dicas para descobrir o ladrão

*Tudo o que faz, o faz secretamente
*O que não consegue obter hoje, procura obtê-lo amanhã
*É leal para com seus cúmplices
*Está preparado a sacrificar-se pelo objeto de seu desejo, embora possa não ter valor nenhum para os outros
*Uma vez que o objeto desejado se torna sua propriedade, perde o interesse
*Não teme dificuldades
*Nada pode fazê-lo mudar de ocupação, ou seja, não quer ser ninguém exceto ele próprio
Maguid de Mezeritch século XVIII

Voltar a ser pobre na Venezuela (E aqui?)

A inflação galopante leva milhares de cidadãos a cair na pobreza. Os programas oficiais de ajuda não são suficientes
Com um déficit orçamentário estimado em 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e com os preços do petróleo ameaçando permanecer a menos de 50 dólares por barril nos próximos meses, o ano de 2015 se apresenta para a Venezuela como um ano de perspectivas catastróficas. Mas em um momento em que ainda não se concretizaram as dificuldades previstas para este annus horribilis da economia venezuelana, o relatório que acaba de ser publicado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que estabelece com dados de 2013 que a pobreza está aumentando na Venezuela, representa um revés para o regime bolivariano.

O órgão da ONU destaca a Venezuela como o país com o pior desempenho em uma região caracterizada pelo estancamento do crescimento econômico e, por conseguinte, da mobilidade social. O relatório atinge fortemente o discurso do regime bolivariano, que, durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, legitimou seus atos políticos através da invocação constante de seus êxitos, imaginários ou reais, no combate contra a exclusão e a pobreza. Os porta-vozes governamentais sistematicamente se defendem com reconhecimentos de entidades técnicas da ONU, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) ou a própria Cepal, para dar credibilidade a suas vitórias.

O documento da Cepal sugere que a ascensão dos pobres na Venezuela foi superficial e volátil, sujeita ao vai-e-vem dos rendimentos com o petróleo e da vontade do Estado de repartir os lucros eventualmente produzidos.


Os programas de assistência social do Governo (chamados de “missões”), que em meio à crise poderiam servir para atenuar o empobrecimento, atendem apenas 10% das famílias pesquisadas. E o que é pior: o estudo determinou que quase metade dos beneficiários desses programas não é pobre. “Isso nos mostra que as missões não são abrangentes nem dão proteção social efetiva, porque não estão sendo concentradas no setor mais vulnerável da população”, ressaltou o sociólogo.
(...)
O sociólogo España destaca que tudo isso mostra que durante os últimos 15 anos não houve na Venezuela um programa para combater a pobreza de maneira estrutural, mas apenas uma campanha de distribuição dos lucros do petróleo com um sentido assistencialista. “É preciso criar um plano autêntico de superação da pobreza, baseado no esforço e na produtividade”.


Quem envenenou a Petrobras?


A mídia apenas notícia o que dizem investigadores e delatores premiados, ela não descobriu nada. Felizmente porém divulga o que não foi capaz de descobrir

Felizmente surgiu nestes últimos dias movimentos em defesa da Petrobras. Empresa que orgulha o Brasil e da qual o Brasil depende. Mas é surpreendente que estes movimentos não estejam denunciando quem envenenou nossa empresa.

A Petrobras foi envenenada por diretores corruptos aliados a empresas corruptas. Juntos superfaturaram obras, roubaram dinheiro do País, degradaram nossa empresa.

A Petrobras foi envenenada pelo aparelhamento partidário que escolheu dirigentes despreparados para os cargos, selecionados apenas pela carneirinho partidária.

A Petrobras foi envenenada pelo conluio entre os dirigentes políticos e os diretores aparelhados que ofereceram facilidades e lucro majorado às empresas, em troca de propinas para enriquecimento pessoal ou com o objetivo de financiar campanhas eleitorais.

A Petrobras foi envenenada pela manipulação dos preços de seus produtos reprimidos abaixo das necessidades financeiras, para esconder a inflação. O governo sacrificou a Petrobras com superfaturamento de obras para obter financiamento de campanha e rebaixamento nos preços de seus produtos para enganar a população.

A Petrobras foi envenenada pela exigência de investimentos além de suas possibilidades, como forma de justificar o marqueting de que o Pré-Sal salvaria a Nação, educaria as crianças, construiria a infra-estrutura.

A Petrobras foi envenenada pela teimosia de manter dirigentes que há meses não passam credibilidade, nem demonstram capacidade para conduzir a empresa.

A Petrobras foi envenenada pelo silêncio de muitos de seus servidores que sabiam ou desconfiavam dos mal feitos e da má gestão mas calaram por apego aos cargos, por partidarismo ou por medo.

A Petrobras foi envenenada também pela imprensa, mas não pelo fato de estar divulgando as notícias e sim pela incapacidade investigativa que descobrisse em tempo o que se passava dentro da empresa. Não fizeram com a Petrobras o que fizeram com o mensalão. Não é por acaso que o nome mensalão foi apelidado pela mídia e o nome Lava a Jato pela Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça. A mídia apenas notícia o que dizem investigadores e delatores premiados, ela não descobriu nada. Felizmente porém divulga o que não foi capaz de descobrir.

A Petrobras foi envenenada pela base de apoio do governo no Congresso, que não deixou que a CPI desnudasse em tempo o envenenamento a que ela estava sendo submetida.

E a Petrobras está sendo envenenada agora por aqueles que silenciaram durante todos os meses das descobertas das propinas, dos desmandos e agora dizem defender a nossa empresa, sem identificar os envenenadores, sem denunciar todos os responsáveis pelo crime ainda pior do que corrupção, crime de lesa pátria cometido.
Cristovam Buarque

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Dilma, a breve?

O Brasil evolui pelo que perde, e não pelo que ganha. Sempre houve no país uma desmontagem contínua de ilusões históricas. Com a história em marcha a ré, estranhamente, andamos para a frente. Hoje, sabemos que somos parte da estupidez secular do país. Assumir nossa doença talvez seja o início da sabedoria. O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Chegaremos a uma vida social mais civilizada quando as ilusões chegarem ao ponto zero.
Teremos um 2015 agitado, o que é muito bom. Nunca um governo na História da República esteve tão maculado pela corrupção, nunca. O que o Brasil quer saber é se a oposição estará à altura da sua tarefa histórica. Se não cometerá os mesmo erros de 2005, no auge da crise do mensalão, quando não soube ler a conjuntura e abriu caminho para a consolidação do que o ministro Celso de Mello, em um dos votos no julgamento do mensalão, chamou de “projeto criminoso de poder.”
Marco Antonio Villa

Adeus às ilusões

O Brasil está sem assunto. O governo nos surripiou, entre outras coisas, o “assunto”. Tirando a tragédia da água que pode nos secar, estamos condenados a comentar apenas essa crise política e institucional que vivemos. Descobrimos, de boca aberta, a falência múltipla dos órgãos públicos. O Brasil está sendo destruído diante de nós e não podemos fazer nada. Os petistas no poder roubaram os melhores conceitos de uma verdadeira esquerda que pensa o Brasil dentro do mundo atual e se obstinam em usurpar um genuíno progressismo em nome de uma “verdade” deformada que instituíram. Quem quiser alguma positividade é “traidor neoliberal”, termo muito usado pelos “mestres” militantes que doutrinam milhares de jovens nas universidades.

A academia cultiva a “desigualdade” como uma flor. A miséria tem de ser mantida “in vitro” para justificar teorias velhas e absolver incompetência. Orgulham-se de um maniqueísmo esquemático, como se a verdade morasse no mais raso reducionismo. O capitalismo explica tudo e é tratado como uma pessoa: “Ih... Parece que hoje o capitalismo acordou de mau humor” ou “esse capitalismo é mesmo cruel e incorrigível – não para de explorar os pobres”.

O filósofo João Pereira Coutinho disse outro dia, na “Folha”, uma frase ótima: “Oprimido e opressor não esgotam as relações humanas possíveis, mesmo as desiguais. A luta de classes é uma escolha política, não um dado natural” – na mosca. Somos tecnicamente uma “democracia”, que, aliás, é vivida como porta aberta para o oportunismo: “Ah, na democracia tudo pode, é mais fácil roubar numa boa”. Achávamos a corrupção uma exceção, um pecado, mas hoje vemos que o PT transformou a corrupção em uma forma de gestão, em um instrumento de trabalho. Várias vezes citei uma frase do Baudrillard que explica a esquerda radical e repito-a: “O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não por meio da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas por seu modelo de ‘desfuncionamento’ e da desestruturação da sociedade” – vide o novo eixo do mal da América Latina.

Essa zona geral do país começou com o nefasto Lula (o grande culpado de tudo), que teve a esperteza de transformar nossa anomalia secular em projeto de governo. Essa foi a realização mais profunda de seu governo: a adesão sem pudor do patrimonialismo burguês e o desenho de um novo e “peronista” patrimonialismo de Estado. Essa gente desmoralizou o escândalo, a indignação e a ética (essa palavra burguesa e antiga para eles). A maior realização desse governo foi a desmontagem da razão.

Não é sublime tudo isso?

Nunca antes em nossa história alianças tão espúrias tiveram o condão de nos ensinar tanto. A cada dia, nos tornamos mais desesperados porém mais sábios, mais cultos sobre essa grande chácara de oligarquias. Em nome da esperança, talvez tudo que ocorre hoje nos ensine muito. Estamos progredindo, pois estamos vendo melhor a secular engrenagem latrinária que funciona nos esgotos da pátria. Há qualquer coisa de novo nesta imundície. A verdade está nos intestinos.

A verdade está sempre no avesso do que dizem. São hábeis em criar um labirinto de desmentidos, protelações e enigmas que vão desqualificando as investigações de coisas como a Petrobras e todos os crimes de seus aliados. E a mentira vai se acumulando como estrume durante anos e acaba convencendo muitos ingênuos de que “sempre foi assim” ou de que “erraram com boa intenção”.

Não só roubaram cerca de R$ 10 bilhões (até agora) desviados da Petrobras e de outros aparelhos do Estado, mas roubaram também nossos mais generosos sentimentos – não arredaram os pés dos velhos dogmas da era stalinista, como, aliás, os antigos comunas fizeram desde que se recusaram a votar nos sociais-democratas alemães, fazendo Hitler subir ao poder. Já em 1924, Stálin chegou a afirmar: “O fascismo e a social-democracia não são inimigos, mas irmãos gêmeos”. A verdade é que os petistas nunca acreditaram na “democracia burguesa” – se orgulham de fingir-se de democratas para apodrecer a democracia por dentro. Um professor emérito da USP “se entregou” e disse: “Democracia é papo para enrolar o povo”. Se bem que o “povo” nem sabe o que é isso e prefere mesmo um autoritarismo populista. Um país de analfabetos sempre espera um salvador da pátria. Estamos prontos para ditadores e demagogos; para administradores e reformadores racionais, não. Enquanto isso, intelectuais sonham com um socialismo imaginário, pois têm medo de ser chamados de reacionários ou caretas. Continuam ativos os três tipos exemplares de “radicais”: os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução; outros alucinam e os terceiros zurram. Que cenário maldito...

A “presidenta” está pagando pelo erro de querer ser socialista-brizolista e dirigir um país... ah... capitalista. Ignorou Davos na reunião da cúpula da economia e foi à Bolívia se vestir de inca na posse do Morales. Dilma perdeu o controle da zona geral que Lula sabia “desorganizar” com esmero e competência. Dilma não é competente nem para desorganizar. Não é apenas o fim de dois maus governos; é o despertar de um caos institucional que será mais grave do que pensávamos. Estamos diante de um momento histórico gravíssimo, com a união dos dois tumores gêmeos de nossa doença: a direita do atraso e a esquerda do atraso. Como escreveu Bobbio, se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia.

Arnaldo Jabor 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Definição


A palavra ‘democratizar’ tem sido usada por mentes de pessoas totalitárias para matar aquilo que a democracia tem de melhor, que é a liberdade de expressão. É preciso não esquecer que as ditaduras no Leste Europeu eram chamadas de democracias populares
Senador Jefferson Peres, do PDT do Amazonas (1932- 2008)

'Vamos precisar de um balde maior'

Quem seremos nós, sem água? Caberá a essa geração imperfeita enfrentar os desafios de um futuro que chegou antes
Quando a gente abre a torneira em São Paulo e não sai nada, e sabe que logo chegará o dia que não haverá nada no dia seguinte e no dia seguinte ao dia seguinte e assim por um tempo que ninguém sabe quanto será e quem diz que sabe mente, descobrimos que nos tiraram muito mais do que água. Essa é a parte aterrorizante. E é aterrorizante para além das vidas secas. O terror é menos pelo que só agora faltou, mais pelo que nunca existiu. O terror é dado pela perda das ilusões de que tudo estava sob controle. E, de repente, aqueles que repetiam que estávamos todos bem bem mostraram que, na verdade, estamos todos bem perdidos. O estado de torpor dos moradores de São Paulo foi perfurado pela realidade, abriu-se um rombo que talvez seja impossível fechar. No fundo desse buraco não há vazio, mas espelho. É nesse ponto que existe algo de fascinante. É quando o morador de São Paulo vira todos, encarna o humano dessa época, uma catástrofe diante da catástrofe. Nós, o futuro que chegou primeiro.

São Paulo sem água é uma imagem poderosa. A cidade expandida em que mais de 20 milhões vivem à beira de um rio que matamos. A cidade que virou estufa, abarrotada por carros que se movem mais e mais lentamente, queimando combustíveis fósseis e lançando gases na atmosfera. A cidade que desmatou o entorno dos mananciais e desprotegeu-se. A cidade em que, quando a chuva cai, parece que evapora antes de chegar ao chão convertido em concreto e, nas tempestades, alaga e é destruída porque o cimento não pode absorver a água. As chaminés das fábricas do século 20 da São Paulo “que amanhece trabalhando”, assim como os canos de descarga dos carros de cada dia, são falos decaídos. As ilusões de potência e de superação, o sem limites da modernidade, viram pó na cidade imensa, transformando São Paulo num monumento que ela não sonhou ser – e nós em seres trágicos.

O momento em que a máquina do mundo se abriu para a maioria foi no final desse janeiro, ao ser anunciado que poderia haver um rodízio 5X2 – cinco dias sem água, dois com água. A classe média correu a comprar caixas d’água extras e galões, houve quem estocou centenas de litros, os baldes viraram objetos de desejo. Lembrou “Tubarão”, o filme de Steven Spielberg que talvez tenha inaugurado o conceito de blockbuster, na cena em que o monstro emerge com uma boca capaz de palitar os dentes com o barco que pretendia caçá-lo e o xerife da cidade diz, na frase que ficou antológica para quem gosta de cinema: “Vamos precisar de um barco maior”. Parece que, por aqui, nós vamos precisar de um balde maior.


O futuro chegou antes e justamente no momento em que as instituições políticas e os grandes partidos estão desacreditados

Nosso momento presente é enorme. Precisaríamos ter na liderança um estadista, uma pessoa capaz de botar o interesse público acima de suas ambições eleitorais, alguém que compreende a amplitude do que está em jogo, um político com visão de século 21. Nosso desamparo é maior porque não temos essa figura nem no governo de São Paulo nem no governo do país. Temos no comando do estado alguém com uma mentalidade de vereador de cidade pequena. E nada contra vereadores de cidade pequena, existem os bons, apenas que para um governador o olhar precisa ser muito mais amplo e a política exercida num outro nível. E, no Planalto, temos uma presidente vendida como “gerente”, o que não é exatamente o que se espera de alguém que comanda um país, mas, como sempre pode piorar, se mostrou uma má gerente ainda no primeiro mandato.

O futuro chegou antes. E justamente no momento em que as instituições políticas e os grandes partidos estão desacreditados, em que se pode mentir para ganhar a eleição e dizer o contrário em seguida. É assim que a população descobre que as autoridades não só falsearam a realidade como não sabem o que fazer agora que a calamidade se instalou. As autoridades desautorizaram-se, num fenômeno político tão grave quanto complexo. E a população encontrou-se só e com o monstro na sala.

Leia mais o artigo de Eliane Brum

Desculpas, nem morta


Pedir desculpas não está no vocabulário dos políticos, empresários, funcionários públicos e governantes brasileiros. Parece a eles um gesto humilhante. O grande ato de humildade, que revela civilidade, não consta no DNA deles, saturados de arrogância e oxigenados pela prepotência. Enfim, cretinos. A sempre presente autoridade do "sabe com quem tá falando", vício danado de tempos coloniais, se incorpora quando se instalam como servidores públicos, quando se servem à vontade.

Não pedem desculpas, não dão satisfação. Quando alguém viu um desses políticos, de qualquer partido, confessar que sabia sobre o agravamento do problema hídrico e agora se desculpa porque não tomou as devidas providências? Também ninguém sabia de corrupção campeando há anos na Petrobras. Como não há um deles se mostrando consternado com a roubalheira que pode levar o país para o buraco, quebrar a maior empresa do país.

Se dizem autoridade, mas não passam de canalhas.

Dilma dá o exemplo de que não se deve pedir desculpas. Como não se desculpou nenhuma vez, não mostrou indignação com a canalhice vigente no país. É o governo da tirania de quem faz o que quer, quando quer e como acha melhor para sua imagem. Não é exemplo de democrata, mas a imagem de uma ditadora.

Na última semana, quando reinava soberana na Toca de Ali Babá, diante de uma cambada de ministros, se achava a dona da cocada. Era mais uma figura bufona. A democracia estava bem longe em Nova Iorque, onde o prefeito Bill de Blasio dava uma lição aos governantes de republiquetas.

Diante de uma possível meganevasca na cidade, tomou todas as medidas as mais exageradas (como só se viu depois) para enfrentar o temporal. Saíram ilesos a cidade e o prefeito, que junto à equipe municipal de meteorologia foi pedir desculpas na televisão por se prevenir tanto. Mereceu aplausos e apoio.

Um gesto que não se vê no Brasil. Nem falta previsão em casos de desastres esperados, ou em qualquer ato que atinja a população, como se recusam a pedir desculpas quando se mostraram os mais incapazes para administrar.

O idiota da família


É uma derrota se o Estado decide gastar mais do que tem. Isso só é possível tomando emprestado o dinheiro dos outros, roubando sua poupança ou cobrando mais tributos
Nas situações de dificuldade, em que algum princípio é admitido, lembro sempre da vida. Quando o destino é conviver com a existência de quem não tolero, sinto-me de fato governante. A forma sombria de encarar o dever de fazer regime não foi amenizada pelo jantar dedicado a proteger o que é parco sem impor à sociedade o modelo de endividamento que lhe tirou a saúde.

Tantas repartições, leis, um mundo de autoridades que é difícil entender onde está o erro. O contador olha para trás, resolve o problema das contas furioso por ter sido consultado tarde. O balanço só fecha com cortes.

O economista olha para frente, vislumbra novas perspectivas, quer mais receita. A ordem é fazer brilhar o corriqueiro, equalizar despesa e receita. Os dois se encontram. Decidem rodar o carrossel da economia estatal mirando outra vez a sociedade.

República, democracia, cidadania: três formas sádicas que se vingam dos que não dormem, sempre os alvos desta adoração pública pelo bolso dos outros.

Poder, o míssil propulsor entra em órbita, liderado pelos gênios iguais que espalhamos por aí para dar aulas sobre o que acabaram de aprender. Impiedosos, não podem ficar desatentos ao inferior gastador, o homem livre e de desejo infinito.

Consagrado pelo sacramento do mando, o governante não tem um pressentimento complexo de suas próprias limitações. “Pacote”, a bonança econômica da tempestade política, o caro que não adianta, o barato que não funciona.

O que se pode saber de um governo, hoje em dia? A América do Sul só vê perto. Não olha o futuro, não se interessa por enxergá-lo. Quanto de dinheiro deve ser gasto pelo Estado e com quanto você deve ficar para gastar com sua família?, perguntou a dama conservadora ao Parlamento perdido.

A progressista não se sentiu provocada e deixou transparecer que, tradicionalmente, se mete na vida de todos através da bagunça financeira. Esgotamos todo o dinheiro dos impostos e queremos mais quando ele acaba, respondeu.

Mas o Estado não tem outra fonte de recursos do que o dinheiro que as pessoas ganham para si próprias, insistiu didaticamente. É uma derrota se o Estado decide gastar mais do que tem.

Graça Foster é o 'boi de piranha' de Dilma, de Lula e do PT


A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República apertam cada vez mais o cerco à presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, acumulando provas provas de seu envolvimento direto no esquema de corrupção da Petrobras, desde a época em que assumiu a Diretoria de Gás e Energia, em setembro de 2007. E logo em dezembro ela assinou o vergonhoso documento propondo “parcerias” para a Transportadora Gasene, através da criação de uma “Sociedade de Propósito Específico” (SPE).

A Gasene é uma rede de gasodutos construída entre Rio de Janeiro e Bahia, passando por Espírito Santo, e esse ato de Graça Foster (ela prefere ser chamada assim) acabou se tornando mais um escândalo na estatal, com participação efetiva dela.

O Tribunal de Contas da União já enviou à força-tarefa da Operação Lava Jato uma cópia de sua auditoria, que aponta superfaturamento superior a 1.800% em determinados trechos dos gasodutos, além de pagamentos sem a execução dos serviços e dispensas ilegais de licitação. A gigantesca obra foi tocada pela estatal chinesa Sinopec, que era contratada da Transportadora Gasene S/A e fazia as subcontratações das empreiteiras e fornecedores.

A Petrobras (leia-se: Graça Foster) tentou barrar as investigações no Tribunal de Contas, alegando que a SPE Transportadora Gasene é uma empresa privada e foi responsável pelo empreendimento. Mas na verdade a estatal teve total controle da obra e tem a responsabilidade de pagar os financiamentos do BNDES. A manobra dos advogados da Petrobras não deu resultado, porque já existe jurisprudência de que o TCU tem competência do órgão para fiscalizar as SPEs.

No desespero, Graça Foster pediu que os advogados então tentassem impedir que o Tribunal de Contas enviasse os documentos à força-tarefa da Operação Lava Jato, para abafar o escândalo, porque o processo sobre o Gasene ainda é considerado sigiloso e tramita nas sessões reservadas do TCU.

Mas o plenário do TCU, em sessão aberta, acabou derrubando a tentativa da Petrobras de barrar as investigações sobre a rede Gasene. No início da reunião, o ministro-relator André Luís de Carvalho propôs que o recurso da Petrobras fosse apreciado sem sigilo. O plenário concordou. E o recurso da Petrobras foi rejeitado, porque os ministros não enxergaram qualquer irregularidade ou ilegalidade no envio de documentos à PF e ao MPF, que já estão usando os dados da auditoria do TCU para abrir nova frente de investigações.

Detalhe: o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli e o ex-presidente da Transportadora Gasene, Antonio Carlos de Azeredo. Os dois são apontados na auditoria como responsáveis pelas supostas irregularidades. Azeredo disse ter sido só um “preposto” na função. Será?

Mesmo diretamente envolvida nos escândalos da Petrobras, por que Graça Foster não é demitida? Segundo a analista Natuza Nery, da Folha de S. Paulo, o motivo é muito ardiloso. Graça se julga prestigiada, mas está apenas servindo de escudo para a presidente Dilma Rousseff. Enquanto a amiga permanecer no comando da Petrobras, levando pancada de todo lado, Dilma ficará longe do foco das discussões.

Natuza Nery tem toda razão. A estratégia do Planalto é realmente esta, e Lula ficou como “voto vencido”, porque não participa mais das decisões. Se dependesse dele, Graça Foster já teria sido detonada há dois meses e seria formado um “gabinete da crise”, com participação também do PT e do Instituto Lula. Mas Dilma não quer saber dessas ideias de Lula, prefere errar sozinha.

O mais interessante é que Lula acaba sendo beneficiado por essa estratégia do Planalto, já que, enquanto Graça Foster estiver em cena, ele poderá se preservar nos bastidores.

Carlos Newton

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Coisa velha

A corrupção é quase generalizada entre os habitantes do Brasil. (...) A impunidade trata de transformar esse vício num hábito
M. De La Flotte (1757) passou apenas duas semanas no Rio

Se mudar acaba


O Senado perdeu mais uma chance de ficar sintonizado com os gritos de mudança que vêm das ruas. A continuidade do mesmo grupo que há anos, talvez décadas, comanda o Senado, substituindo Renan por Sarney e vice-versa, agora sem ao menos mudar o presidente, representa a perda de uma boa chance de mudança.

A impressão é de que o grupo no poder, PT e PMDB, está amarrado ao continuísmo. Não consegue mudar sem acabar.

A senadora Marta Suplicy disse um dia desses que "ou o PT muda ou acaba". Eu concordei, mas a frase certa é: "se o PT mudar, acaba", porque está viciado na maneira como ele é.

Por mais que desejassem mudar a direção do Senado, como diziam diversos petistas, no último momento os senadores do PT, inclusive os que falam em mudanças, tiveram de barrar a mudança.

Há um imenso peso que não deixa PT e PMDB mudarem sem perder as característica básicas atuais deles. Ambos partidos surgiram de luta por mudanças.

O poder os viciou e amarrou. Não têm forma de mudar nem apoiam mudanças, porque eles acabariam.

O pior é que por estarem amarrados às suas características atuais, que nada têm a ver com aquelas que lhes levaram ao poder, amarram as instituições, desmoralizando a política, corrompendo o Estado.

Dilma se trumbica




Quem não conheceu Chacrinha, o Velho Guerreiro, talvez nunca tenha ouvido seu mote mais popular: “Quem não se comunica se trumbica”. Era um visionário. Ele só não previa que pessoas como a nossa presidente, Dilma Rousseff, usassem a comunicação contra si mesmas. Quanto mais a “guerreira” Dilma se comunica, mais se trumbica. Porque a mentira, repetida ad eternum, é uma péssima arma de comunicação, um suicídio político. Não compensa a longo prazo.

“Você pode enganar todo mundo por algum tempo; pode enganar alguns por todo o tempo; mas não pode enganar todo mundo o tempo todo.” A citação é atribuída a Abraham Lincoln, ex-presidente dos EUA. Dilma descobriu isso a duras penas. Na Base do Planalto, a guerreira foi treinada por Lula a enganar, a gritar bravatas, a prometer fantasias. Mas a longa permanência do PT no Poder, aliada à determinação de alguns juízes, no Supremo Tribunal Federal e no Ministério Público, fez ruir o castelo de cartas marcadas.

“Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação”, disse Dilma a seus 39 ministros. “Não permitam que a falsa versão se crie e se alastre”, exigiu Dilma. “Sejam claros. Sejam precisos e se façam entender” – tudo o que Dilma nunca faz. A presidente se enfureceu com a comunicação dos R$ 88,6 bilhões em “ativos inflados” da Petrobras. Uma expressão em economês que nada significa para a maioria da população. Os discursos do governo têm estado coalhados de “tolicês compliquês”, dialeto criado para despistar a verdade.

Pesquisa rápida revela tantas mentiras de Dilma sobre a Petrobras e sobre as contas públicas que lhe falta credibilidade até junto a seus aliados. Eles vivem levando bronca. Não sei quanto tempo Graça Foster suportará servir de para-­raios para Dilma.

Luta contra a pobreza perde fôlego na América Latina


Os avanços na América Latina na redução da pobreza perigam. O menor crescimento econômico obriga a rever programas de investimento e políticas públicas
A América Latina é conhecida como uma das regiões do mundo onde a pobreza e a desigualdade foram reduzidas com mais intensidade nas últimas décadas e, apesar disso, não consegue deixar de liderar os rankings de pobreza e disparidade de renda entre os países em desenvolvimento. Alguns estudos assinalam que os avanços, realmente, foram menos espetaculares do que podia parecer à primeira vista e que a pobreza “persiste como um fenômeno estrutural que caracteriza a sociedade latino-americana”, conforme aponta a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

Entre 70 e 90 milhões de pessoas deixaram a pobreza na última década, segundo o Banco Mundial, mas os cidadãos da região que ganham menos de quatro dólares por dia são ainda muito numerosos. A CEPAL estima que, em 2014, 28% dos latino-americanos viviam na pobreza, uma porcentagem quase idêntica à de anos anteriores. São 167 milhões de pessoas, dos quais 71 milhões vivem na indigência, no limite da subsistência, situado em dois dólares por dia. E tudo isso apesar de a região ter vivido uma autêntica era de ouro graças ao expressivo aumento dos preços das matérias-primas, impulsionado em boa medida pela demanda da China e a forte entrada de capitais estrangeiros.

“A recuperação da crise financeira internacional não parece ter sido suficientemente aproveitada para o fortalecimento de políticas de proteção social que reduzam a vulnerabilidade diante dos ciclos econômicos”, admitia a secretária-executiva da CEPAL, Alicia Bárcena. “É verdade que se partia de níveis de pobreza e desigualdade muito elevados. Mas se observarmos os ganhos que esses países tiveram graças ao auge das matérias-primas, fica evidente que desperdiçaram os recursos para avançar nesses objetivos, deveriam ter sido muito maiores”, afirma em Washington Ángel Melguizo, chefe da unidade para a América Latina do Centro de Desenvolvimento da OCDE, Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico.


A fronteira entre essa pobreza moderada e o que Melguizo denomina setores médios – “quem ganha entre 4 e 50 dólares por dia, realmente não se pode falar de classe média”, matiza – é definida basicamente por ter ou não ter emprego. Nos países desenvolvidos, as políticas sociais, as transferências do setor público e o denominado Estado do Bem-estar Social representam um fator muito importante na hora de diminuir as diferenças e garantir níveis mínimos de renda para seus cidadãos. Mas em economias emergentes, com seguro desemprego incompleto e acesso limitado a instrumentos de poupança, estar empregado pode representar a diferença entre uma renda de nível médio e uma transferência pública de subsistência. Inclusive em economias, como as latino-americanas, marcadas pelo elevado grau de informalidade, que persiste na região.
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Chegou a hora


Quando eventualmente este artigo vier a ser lido, a Câmara dos Deputados estará escolhendo seu novo presidente. Ganhe ou perca o governo, as fraturas na base aliada estarão expostas. Da mesma maneira, o esguicho da Operação Lava Jato respingará não só nos empresários e ex-dirigentes da Petrobras nomeados pelos governos do PT, mas nos eventuais beneficiários da corrupção que controlam o poder. A falta de água e seus desdobramentos energéticos continuarão a ocupar as manchetes. Não se precisa saber muito de economia para entender que a dívida interna (três trilhões de reais!), os desequilíbrios dos balanços da Petrobras e das empresas elétricas, a diminuição da arrecadação federal, o início de desemprego, especialmente nas manufaturas, o aumento das taxas de juros, as tarifas subindo, as metas de inflação sendo ultrapassadas dão base para prognósticos negativos do crescimento da economia.

Tudo isso é preocupante, mas, não é o que mais me preocupa. Temo, especialmente, duas coisas: o havermos perdido o rumo da história e o fato da liderança nacional não perceber que a crise que se avizinha não é corriqueira: a desconfiança não é só da economia, é do sistema político como um todo. Quando esses processos ocorrem não vão para as manchetes de jornal. Ao entrar na madeira, o cupim é invisível; quando percebido, a madeira já apodreceu.

Por que temo havermos perdido o rumo? Porque a elite governante não se apercebeu das consequências das mudanças na ordem global. Continua a viver no período anterior, no qual a política de substituição das importações era vital para a industrialização. Exageraram, por exemplo, ao forçar o “conteúdo nacional” na indústria petrolífera, excederam-se na fabricação de “campeões nacionais” à custa do Tesouro. Os resultados estão à vista: quebram-se empresas beneficiárias do BNDES, planejam-se em locais inadequados refinarias “Premium” que acabam jogadas na vala dos projetos inconclusos. Pior, quando executados, têm o custo e a corrupção multiplicados. Projetos decididos graças à “vontade política” do mandão no passado recente.

Pela mesma cegueira, para forçar a Petrobras a se apropriar do pré-sal, mudaram a lei do petróleo que dava condições à estatal de concorrer no mercado, endividaram-na e a distanciaram da competição. Medida que isentava a empresa da concorrência nas compras, se transformou em mera proteção para decisões arbitrárias que facilitaram desvios de dinheiro público.

Mais sério ainda no longo prazo: o governo não se deu conta de que os Estados Unidos estavam mudando sua política energética, apostando no gás de xisto com novas tecnologias, buscando autonomia e barateando o custo do petróleo. O governo petista apostou no petróleo de alta profundidade, que é caro, descontinuou o etanol pela política suicida de controle dos preços da gasolina que o tornou pouco competitivo e, ainda por cima (desta vez graças à ação direta de outra mandona), reduziu a tarifa de energia elétrica em momento de expansão do consumo, além de ter tomado medidas fiscais que jogaram no vermelho as hidrelétricas.

Agora todos lamentam a crise energética, a falta de competitividade da indústria manufatureira e a alta dos juros, consequência inevitável do desmando das contas públicas e do descaso com as metas de inflação. Os donos do poder esqueceram-se de que havia alternativas, que sem renovação tecnológica os setores produtivos isolados não sobrevivem na globalização e que, se há desmandos e corrupção praticados por empresas, eles não decorrem de erros do funcionalismo da Petrobras, nem exclusivamente da ganância de empresários, mas de políticas que são de sua responsabilidade, até porque foi o governo quem nomeou os diretores ora acusados de corrupção, assim como foram os partidos ligados a ele os beneficiados.

O céu (ou, agora, o inferno), é o limite

Os registros contábeis da Petrobras vêm se mostrando incapazes – tamanho o torrencial assalto ocorrido na estatal nos governos Lula e Dilma – de determinar, com precisão, a perda patrimonial provocada pela corrupção nos “governos” petistas. Se a administração desonesta colocou em risco a sobrevivência da empresa, a ausência e não divulgação correta desses registros contábeis, em tempo aceitável, rotineiros em toda administração empresarial honesta, vem tendo como resultado o despencar do valor das ações da Petrobras nas bolsas de valores, a nível nacional e internacional.

Porém, os meios de comunicação – felizmente ainda não controlados pelo lulopetismo – divulgaram a descoberta de um descomunal prejuízo originário da interferência direta de Lula, no exercício do cargo de presidente da República, ou seja, R$ 2,7 bilhões jogados no lixo na tresloucada iniciativa política de construir duas refinarias cujos estudos haviam chegado à conclusão de serem inviáveis técnica e economicamente. Uma no Ceará e outra no Maranhão.

A do Ceará, para agradar aos irmãos Gomes, a do Maranhão, para fazer um cafuné na família Sarney. As duas, para arrebanhar votos da população nos dois Estados. É patente a interferência política e partidária nesse ato no qual Lula dispôs e usou como se fosse seu dinheiro alheio, dos acionistas da Petrobrás.

Tudo indica que esse ato de imoralidade, improbidade e falta de zelo com o patrimônio da empresa seja apenas um grão de areia no oceano de corrupção que invadiu e cobriu a Petrobras. E, sejamos sinceros, poucos brasileiros acham que Lula será alcançado por qualquer ato punitivo pela Justiça brasileira. Nem ele nem nenhum predador de alto porte político.

Os fatos conhecidos fazem escapar da imaginação de qualquer mortal a perda total da empresa (e de seus acionistas) oriunda da administração petista para comprar poder político. Comprar e pagar com dinheiro alheio. Nesse mercado dirigido e viciado de compra e venda surge, com brilho de estrela de primeira grandeza, a importância da nomeação de diretores selecionados para efetuar o superfaturamento dos contratos com o objetivo de abastecer o caixa dos partidos, aumentar o patrimônio dos políticos e, é claro, como não há otário nesse meio, encher os próprios bolsos. Os astros mostram que ainda virá muita “baianada” por aí.

É emblemático o caso do funcionário subalterno que, para se livrar da cadeia, propôs devolver cerca de US$ 100 milhões provenientes do assalto realizado na Petrobras. O cabo corneteiro quer devolver US$ 100 milhões; dá para imaginar em quanto os generais da corrupção foram “remunerados” ?

O céu (ou, agora, o inferno) é o limite.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Lata d'água na cabeça


Os governantes devem ao país uma informação cristalina sobre o que está se passando e um detalhamento das ações de resposta à crise que não deixem a sensação de que, de novo, há algo escondido. O problema é técnico, de difícil entendimento? Não nos subestimem, aprendemos depressa o que é crise hídrica e volume morto: falta d’água para milhões de brasileiros, para a indústria e agricultura. E a proximidade do fundo do poço.
A política de ocultação que precedeu as eleições, impedindo as medidas preventivas necessárias, erro gravíssimo imputável a gregos e troianos, deu no que deu: agravamento do problema e desgaste da credibilidade de todos. Sem credibilidade, vai ser difícil pedir ajuda à população para diminuir o consumo, dividir com ela as responsabilidades no enfrentamento da crise. Sem a certeza de que os governos estão dizendo, enfim, a verdade, não haverá mobilização nacional. E é certo que ela será incontornável.
Leia mais o artigo de Rosiska Darcy de Oliveira

Humanidade a qualquer custo

Arthur Timotheo da Costa (1922), A prece
E se eu lhe dissesse que mesmo naquela época, mesmo lá, aqueles que você espancou, aquelas que você humilhou permaneceram mais humanos do que você? Lastimáveis, aqueles homens e aquelas mulheres salvaguardaram sua humanidade chorando, enquanto você perdeu até o menor vestígio da sua? Consegue entender isso?
Elie Wiesel 

O fim iminente da Revolução Bolivariana


Situação pela qual a Venezuela atravessa atualmente não só demonstra seu déficit fiscal, como também seu déficit democrático.
Não sei quantas vezes acreditamos, ao longo dos últimos 15 anos, que a Venezuela está à beira da mudança, que já não pode suportar mais, que algo precisa ceder. O regime chavista, entretanto, persistiu apesar dos augúrios que desde seu começo vaticinam o fim iminente da revolução bolivariana. O que explica essa resiliência? Como é possível entender que um sistema claramente antidemocrático tenha conseguido resistir a tantas pressões e continue, pelo menos até agora, recebendo o apoio do eleitorado?

Sobre isso foram escritos volumes e ainda se escreverá muito mais. A Venezuela do começo do século XXI ainda continuará fascinando os acadêmicos e os analistas por décadas. Mas é inegável que duas pedras angulares da sobrevivência do regime chavista foram o desempenho econômico, sustentado pelo comércio do petróleo, e a popularidade de seu líder (Hugo Chávez em sua época e depois, em menor escala, Nicolás Maduro). Acredito que todos podemos concordar que estas duas forças encontram-se hoje no pior estado registrado desde 1999.

A acelerada queda no preço internacional do petróleo, e a consequente deterioração das condições fiscais de um governo que monopoliza quase a totalidade dos serviços essenciais, impactaram a vida cotidiana dos venezuelanos de uma forma que, agora sim, parece insustentável.

É um clichê dizer que o dilema atual do chavismo é a “crônica de uma morte anunciada”. Mas é a verdade. Maduro pode fazer todas as contorções retóricas possíveis, chamando a situação de “guerra do petróleo” e de tentativa de “colonização mediante o colapso econômico”, mas nenhum outro país em anos recentes dispôs de maiores recursos com resultados piores.

Nenhum outro governo dilapidou sua renda de maneira tão temerária. Ninguém além do regime chavista é responsável por isso. Não existe conspiração internacional que explique porque as filas para comprar farinha ou sabão duram dois dias. Isso só se explica pela existência de um governo corrupto, ineficiente, dedicado ao culto da personalidade e obcecado em ocultar o fracasso de um modelo que já não há como subvencionar.

Leia mais o artigo de Oscar Arias Sánchez ex-presidente da Costa Rica de 1986 a 1990 e de 2006 a 2010 e Prêmio Nobel da Paz 1987

Tem que explicar


Embora ela não tenha sido acusada diretamente de envolvimento, como conselheira durante grande parte do tempo em questão, ela [Dilma] precisa explicar o que sabia e quando soube. (...) A Lava-Jato deve pedir a cabeça da presidente e dos diretores. Dilma Rousseff está defendendo eles. O tempo para esta indulgência já passou.

A Petrobras é muito grande para fracassar. Mas também é muito corrupta para seguir desta maneira.

Editorial do jornal Financial Times

A pergunta que não quer calar

Antigamente, a rapina ao patrimônio público era ação de indivíduos, solitária ou em pequenas quadrilhas. Hoje, é sistêmica e se dá na casa dos bilhões
A ruína do projeto político do PT – e o governo Dilma é sua mais eloquente síntese e tradução - dá-se em meio ao silêncio de entidades da sociedade civil, que, ao longo da história contemporânea, tiveram amplo protagonismo na cena pública.

Onde estão a OAB, a ABI, a UNE e a CNBB, entre outras siglas que se associaram à história da reação popular aos maus governantes? – eis a pergunta que não quer calar.

No momento em que a corrupção sistematizada, comandada de dentro do Estado, apresenta sua conta – Mensalão, quebra da Petrobras, violação da Lei de Responsabilidade Fiscal, falência da economia -, é no mínimo ensurdecedor o silêncio de quem sempre soube falar tão alto em momentos de crise e de má governança.

O final do governo militar deveu-se a uma conjunção de fatores, que se resumem na falência de seu modelo econômico e na falta de representatividade de seu modelo político.

Foram essas entidades que romperam a mordaça da repressão, articularam a sociedade e levaram às ruas o “basta” da população. Exerceram, naquela oportunidade, uma vigilância cívica decisiva para que o país se reencontrasse com a democracia.

Mas essa vigilância, que prosseguiu nos primeiros governos civis – os de Sarney, Collor, Itamar e FHC -, começou a minguar até desaparecer por completo desde a posse de Lula, festejada por elas como se o país, enfim, tivesse chegado ao Paraíso.

O que se constata é que, a exemplo do que aconteceu com o próprio Estado brasileiro, essas entidades foram mutiladas na sua essência. Transformaram-se em células partidárias, corresponsáveis pelo projeto político em curso, de índole revolucionária.

A lógica revolucionária, como se sabe, é a da ruptura, que começa por dividir a sociedade e a colocá-la em conflito. Promove o caos e depois acena com a ordem totalitária para consertar o que ela mesmo quebrou. O país está em meio a esse processo.

O projeto do PT postula uma “sociedade hegemônica”, que é o avesso de uma sociedade democrática, em que o poder se alterna entre os diversos partidos que se organizam para exercê-lo. Numa sociedade de pensamento único, não cabe a liberdade de imprensa, o que explica a obsessão petista por controlar a mídia.

Esse projeto de poder, gestado no Foro de São Paulo – entidade criada por Lula e Fidel Castro em 1990, para reunir as esquerdas do continente em torno de um projeto único de poder, a Grande Pátria -, já está em estágio mais avançado em países vizinhos, menos complexos que o Brasil.

Ruy Fabiano

sábado, 31 de janeiro de 2015

Nascer na pobreza 'prejudica ascensão social'


Estudo afirma que viver em um bairro pobre durante os primeiros 16 anos de vida afeta a renda por muitas décadas. Na hora de determinar nosso destino econômico, poucas coisas importam tanto como o bairro em que nascemos e crescemos.
Todos sabemos que viver em uma região mais pobre reduz as possibilidades materiais de seus habitantes. Por isso, muitos sonham ir para uma parte mais afluente da cidade onde vivem.

Mas um estudo recente dos pesquisadores americanos Douglas Massey, da Universidade de Princeton, e Jonathan Rothwell, do Instituto Brookings, vai além: traz novas evidências de que simplesmente se mudar de um bairro precário para um melhor não é suficiente.

De acordo com a pesquisa, o local específico da cidade onde uma pessoa passa os primeiros 16 anos de sua vida é determinante na renda que ela terá muitas décadas depois, mesmo que mude seu local de residência diversas vezes.

A conclusão é uma má notícia para os que acreditam na possibilidade de ascensão e mobilidade social. E pode fornecer mais argumentos às discussões sobre propostas polêmicas de vários países, incluindo alguns latino-americanos, de levar habitantes de bairros pobres para viver em regiões mais ricas das cidades.

"O bairro é o ponto crítico onde se bloqueiam as aspirações das pessoas para subir na vida", disse Massey à BBC.

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E vai crescendo


Crie um partido e ganhe R$ 600 mil por ano


Fundo partidário distribuiu 371,9 milhões de reais às legendas brasileiras em 2014. Só o PT ficou com 50 milhões de reais, 16% do valor a que os partidos têm direito
A legislatura que se inicia no domingo no Congresso Nacional será a mais fragmentada desde a redemocratização do Brasil, em 1990, com seus 594 representantes eleitos por 28 partidos diferentes — seis a mais que na eleição de 2010. Faltou espaço para quatro das 32 legendas existentes atualmente no Brasil frequentarem o Parlamento, mas outras 42 alimentam a pretensão de fazê-lo daqui a quatro anos.

Existem 42 partidos políticos em formação no Brasil, segundo os dados disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre legendas com registro em pelo menos um dos 27 tribunais regionais do país. Desses projetos, o que causa mais expectativa atualmente no Congresso Nacional é a recriação do Partido Liberal (PL), que, depois de ser extinto em 2006 para dar origem ao PR, promete atrair de 20 a 30 parlamentares logo que ressurgir — o pedido de registro ao TSE deve ser apresentado após o Carnaval. Mas, se já existem 32, e nem todos conseguem eleger representantes para o parlamento, para que mais partidos?

A resposta pode estar no bolso. Os partidos políticos brasileiros dividiram 371,9 milhões de reais reunidos pelo Fundo Partidário em 2014. O fundo é composto por dinheiro público, previsto no orçamento da União (313,5 milhões de reais), e por multas eleitorais (58,4 milhões de reais), que foram tantas no ano passado que os partidos devem receber um "extra", ainda não calculado, em abril deste ano.

Esses valores são divididos de acordo com o número de deputados eleitos por cada partido, o que valeu ao PT, que tem a maior bancada da Câmara, 59,7 milhões de reais (16% do total) em 2014. Sem representação parlamentar, o Partido da Causa Operária (PCO) entra na disputa dos 5% do fundo a serem partilhados igualmente por todas as legendas e ficou com a menor parte do bolo (0,16%). Mesmo assim, recebeu 610.097,61 reais. Mas o dinheiro explica apenas uma parte do fenômeno de surgimento de novos partidos no país.

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Dica de uma lenda


Nossa liberdade como nação descansa na liberdade de imprensa
Ben Bradle, morto aos 93 anos no ano passado, foi o lendário editor do jornal Washington Post, que dirigiu a cobertura do escândalo do Watergate que culminou na queda do presidente americano Richard Nixon, em 1974

Trocar a diretoria? Ou Dilma pede para sair?


O governo Dilma produziu um déficit de 17 bilhões de reais em 2014. O Bradesco, no mesmo ano, apresentou lucro de 15 bilhões. Por mais que se exalte a livre concorrência, a prevalência do mercado, a excelência do sistema capitalista e tudo o mais que for, qual a conclusão? Que o banco foi bem administrado, e o país, não? Que os correntistas do Bradesco estão felizes, mas os brasileiros, não?

Tendo o ministro Joaquim Levy sido alto funcionário do Bradesco, presume-se que tenha levado para o governo a experiência da iniciativa privada e que, no final do ano, possa divulgar números compatíveis com a eficiência contábil. A solução seria transformar o país num grande banco?

Ironias à parte, os acionistas do Bradesco estão mais ricos, mas os sócios do Brasil S.A., no prejuízo. Optaram por Dilma, na última assembléia geral, mas ela demonstra não ser nenhum dr. Trabuco, tanto que o chefão do Bradesco rejeitou o convite para tornar-se ministro da Fazenda. O remédio foi convocar um de seus auxiliares, Joaquim Levy.

Por mais que a presidente da República proclame que nossas dificuldades devem-se à má conjuntura internacional, a verdade está aqui mesmo. É a diretoria que vem fracassando. Na empresa privada, quando isso acontece, trocam-se os diretores. No governo, há que esperar as eleições. Ou aguardar que os fracassados tomem a iniciativa.

A pergunta que se faz é se vai dar para esperar quatro anos. No parlamentarismo as mudanças acontecem à margem de prazos fixos. No presidencialismo, não. Mas como aguentar uma situação onde o déficit é apenas um dos fatores da bancarrota? Anos atrás, num plebiscito, o eleitorado optou por rejeitar o governo de gabinete. Só uma nova Constituição, quer dizer, apenas com a ruptura das instituições, seria possível mudar o sistema vigente. Recursos extremos, como o impeachment, parecem fora de cogitações. O velho Sobral Pinto, na sua última e magistral intervenção, lembrou que todo poder emana do povo. Pois está aí a solução: Dilma, ficando sem povo, perceber que deve e que precisa sair, pela impossibilidade de permanecer. Por mais estranho que pareça, conforme inconfidência das paredes do palácio da Alvorada, foi assim que ela explodiu esta semana, claro que por apenas dois fugazes segundos. Achou melhor aguardar o superávit…

Em 1985, na véspera da convenção do PDS que escolheria o candidato presidencial, Paulo Maluf e Mário Andreazza jogaram a cartada final. Ofereceram em dois clubes de Brasília monumentais jantares para os convencionais. O paulista conseguiu mais adesões do que o gaúcho, mas conta o folclore que muita gente jantou duas vezes.

Hoje, Eduardo Cunha e Arlindo Chinaglia promovem banquetes para os deputados que amanhã escolherão um deles presidente da Câmara. É bom ficar de olho nos cardápios.

Carlos Chagas

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Das pessoas que atingem posições elevadas

Das pessoas que atingem posições elevadas,
cerimônias, riqueza, erudição, e similares:
para mim tudo isso a que chegam tais pessoas
afunda diante delas — a não ser quando acrescenta
um resultado qualquer para seus corpos e almas —
de modo que elas muitas vezes me parecem
desajeitadas e nuas, e para mim
uma está sempre zombando das outras
e a zombar dele mesmo ou dela mesma,
e o cerne da vida de cada qual
(a que se dá o nome de felicidade)
está cheio de pútrido excremento de larvas,
e para mim muitas vezes esses homens e mulheres
passam sem testemunhar as verdades da vida
e andam correndo atrás de coisas falsas,
e para mim são muitas vezes pessoas
que pautam as suas vidas por um hábito
que a elas foi imposto, e nada mais,
e para mim é gente triste muitas vezes,
gente afobada, estremunhados sonâmbulos
tateando no escuro.
Walt Whitman (1819 – 1892)

'Eu não erro'



Parte dos efeitos da crise foi amenizada pelo modelo de desenvolvimento econômico que adotamos, com forte ênfase na inclusão social e nas políticas anticíclicas no que se refere ao crescimento econômico
 Dilma em discurso na III Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos

Dilma continua em campanha. A primeira reunião ministerial desse segundo mandato não foi mais do que outro palanque para requentar as proposições que dão ibope. Sabem o mundo e o universo que a presidente não erra. Os problemas, segundo o dilmês, são causados pelos outros: mercado externo, a oposição (sempre ela), a direita, Deus e agora até São Pedro. Freud explica essa necessidade de se afirmar superiora e eximir-se da responsabilidade. Perdeu a grande oportunidade de se chancelar como presidente. Passou a imagem de mera ocupante do cargo.

Pela enésima vez falou em ajuste de rumos para continuar o plano petista entronado há 12 anos. Mas que plano? Em 2005 foi jogado no lixo e se tornou estratégia de poder. O que se fez foi usar os pobres, os tais programas sociais, como massa de manobra, cortina de fumaça e cabide eleitoral para estabelecer uma dinastia em Brasília quiçá em todo o país.

Dilma na reunião demonstrou a arrogância de que fará o diabo custe o que custar ao povo, para transferir o cargo ao patrão. Não está nem aí para o sofrimento da população, em especial os pobres, com a desastrada administração. É como sempre afirma: “Eu não erro”.

Brasil de hoje


Sabedoria vegetal

Se as mangueiras atinavam com a escassez das chuvas, por que não sabiam os homens, aparelhados com tecnologias ultrassofisticadas?
Sou um especialista em “mangomancia”. Não sei se na literatura profética existe essa modalidade, mas aprendi, ainda criança, com os caboclos da colônia italiana de Rodeiro, a arte de adivinhar o regime de chuvas por meio da quantidade de frutos das mangueiras. E compartilho com o leitor esse conhecimento que acredito milenar, pois a manga, originária do sudeste asiático, já é citada em poemas clássicos indianos do século IV a.C. Antecipo também uma possível explicação lírico-científica para compreender o comportamento desse vegetal, e arrisco, enfim, uma moral, como aquelas encontradas nas fábulas antigas.

Viajei bastante nos últimos meses do ano passado pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais, muitas vezes por rodovias secundárias, cruzando enormes áreas desabitadas. De vez em quando, surgia à beira da estrada uma casa simples, sempre no quintal um cachorro e uma galinha e sua ninhada, uma mangueira a protegê-los, os bichos e os moradores, do sol impiedoso – a temperatura facilmente ultrapassa, nesses lugares, os 30 graus. O carro avançava e por todos os lados a mesma desolação: as mangueiras, árvores exuberantes, mostravam-se anêmicas, com poucos e pequenos frutos em seus cachos.

Comentava então com os motoristas, Este ano será de pouca chuva. E eles, curiosos, indagavam, Como você sabe? Eu respondia, É só ler as mangueiras. Em ano de fartura de água, elas exibem cachos carregados com enormes pomos, que de tão pesados vergam os galhos mais robustos. Fica parecendo uma sombrinha de abas largas voltadas para o chão. Em época de escassez, lembram uma boca quase sem dentes ou a tosse intermitente de alguém enfermo ao longo da madrugada. Eles me miravam com um misto de desprezo e admiração. Assim são encarados os vaticinadores no século XXI...

Mas, talvez, a explicação para esse sortilégio seja bem mais pedestre. As mangueiras, como organismos vivos, necessitam de estratégias para garantir sua sobrevivência e conservar a espécie. Prospectando o futuro, com instrumentos por nós desconhecidos, percebem se o ano será de estio ou de umidade, definindo, a partir do resultado desse exame, a intensidade da floração. Se a perspectiva for de seca, a floração será minguada – se for de chuva, abundante. De nada adianta uma floração copiosa em tempos ruins, pois sem água não há vida – portanto, elas acumulam forças para tempos melhores... Essa é uma explicação lírico-científica...

Se as mangueiras atinavam com a escassez das chuvas, por que não sabiam os homens, aparelhados com tecnologias ultrassofisticadas? A eufemisticamente intitulada “crise hídrica” despontava no horizonte desde 2013, quando o regime de águas mostrou-se irregular. Mas, claro, em 2014, além de termos sucumbido traumaticamente à Copa do Mundo (e não estou falando de futebol, apenas), tivemos eleições. E os governantes, todos, trataram de camuflar a situação para garantir mais um mandato.

A “crise hídrica” não implica somente ausência de água em nossa residência – para beber, cozinhar, tomar banho, limpar a casa –, como impacienta-se nosso egocentrismo. A “crise hídrica”, para além da sensação de desconforto pessoal, significa inflação nos preços dos alimentos e dos serviços, e desemprego. Significa, principalmente, crise energética (90% da produção brasileira provém de geradores hidráulicos), que também, por sua vez, gera carestia e diminuição de postos de trabalho.

Por fim, a moral da história: as mangueiras não mentem jamais!

Luiz Ruffato

Vencerá a propaganda?

Do discurso da presidente, o único apelo que pode surtir algum efeito é o que conclamou os ministros a lutar para vencer “a batalha da comunicação"

Se a comunicação for entendida como propaganda, como foi na campanha eleitoral, o governo pode vencer de novo, com ajuda do alquimista João Santana.

E o País continuará perdendo.

Descaso pela educação é causa dos nossos males


A principal causa do abastardamento da “vida pública” no país, com uma ou outra exceção, resulta do descaso de todos os governos, não apenas pelo o ensino em si, mas pela educação, do primeiro e segundo graus à universidade. Além de sempre malremunerada, não há, hoje, profissão mais ingrata e difícil de ser exercida do que a de professor. O respeito entre mestre e discípulo acabou faz tempo, mas, ao que parece, ninguém se deu conta disso ou, então, concorda com isso.

Esse descaso pelo que deveria ser a primeiríssima preocupação de todos os governos leva ao desinteresse por nossa história. E o povo que não conhece sua história não tem como pensar nem encarar seu futuro. Ou, dizendo melhor: não tem projeto de futuro.

O slogan “Brasil, Pátria Educadora”, reeditado agora pela presidente Dilma Rousseff, cheira a achincalhe. Já nada inspirava quando foi criado e, agora, com a nomeação de alguém totalmente estranho ao setor, é mais uma confirmação de que a educação só serve mesmo como moeda de troca. Só pode merecer, portanto, o descaso!

Tanto isso é verdade que, mesmo eleita prioridade máxima deste segundo mandato, a educação foi duramente atingida pelo decreto presidencial, que valerá até a aprovação do Orçamento, com um corte de R$ 7 bilhões (dos R$ 22,7 bi já cortados). O decreto bloqueou, na realidade, um terço dos gastos administrativos das 39 pastas (um número absurdo, que só faz dificultar a administração pública). É essa, então, a prioridade das prioridades da recém-eleita presidente Dilma?

Se o corte na educação é mais uma prova do descaso que se tem por ela, a nomeação do novo ministro é outra zombaria. O ministério entregue a Cid Gomes é a contrapartida do apoio eleitoral que ele e seu irmão deram à presidente no Ceará. Diante das 529 mil redações que obtiveram nota zero no Enem, além de afirmar que “os estudantes estão lendo pouco” (que achado, hein?!), o próprio ministro concluiu: “Não dá para fugir, camuflar e dizer que o ensino público é bom. Está aquém do desejável. Estamos aqui para lutar para melhorar”.

Com que autoridade, porém, o novo ministro fará isso?

É evidente, caro leitor, que o histórico descaso pela educação nos levou à corrupção generalizada e sem limites que vivemos hoje. Embalada pelo princípio do “salve-se quem puder: dinheiro público não tem dono”, tomou conta, praticamente, de todos os nossos órgãos estatais. Os agentes públicos, por sua vez, com honrosas exceções, se transformaram em intermediários de negócios criminosos. A revolta surda que isso tem provocado entre os brasileiros, se não abrirmos os olhos, transformar-se-á numa avalanche, que, mais dia, menos dia, desencadeará reações fratricidas, como sempre ocorreu no mundo todo.

O brasileiro não é nenhum songamonga, incapaz de reagir aos constantes ataques a seus direitos, a seu dinheiro e a sua respeitabilidade, como, às vezes, pode dar a entender. A raiva perigosa e crescente que tem demonstrado por meio, sobretudo, das redes sociais, é assustadora. E, como se sabe, a raiva é inimiga terrível que se cozinha em fogo brando e provoca reações imprevisíveis, quase sempre trágicas. Nunca foi fácil controlar o desespero de ninguém. É ele que nos obriga a cometer atos que, em sã consciência, jamais seriam imaginados. É nessa hora que o ser humano se transforma em animal irracional.

Os exemplos estão na nossa cara!