sábado, 9 de maio de 2015

Já faz tempo que escolhi

A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.
Thiago de Mello

Mais e mais paciência

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O segundo panelaço do ano é uma pancada na cabeça do PT. Certo. Mas de qual PT? Pois, agora, é assim: temos o PT de Lula; o PT de Dilma, que pode ser confundido com o governo; o PT dos sonhos, defendido por algumas figuras icônicas da intelectualidade brasileira, e o PT de fato, que reúne todos em uma sigla desnorteada e gera “desertores” como Marta Suplicy e “desolados” como Aloizio Mercadante.

A verdade é que o panelaço acertou todos os petistas, incluindo os de bom coração e os honestos, que se sangram ao ter que sair em defesa do indefensável.

Mas quem se beneficia da sangria deste PT de outro mundo? O PSDB? Mas qual PSDB? Pois, agora, também é assim: temos o PSDB do Aécio, que imagina um impeachment da presidente; o PSDB do Alckmin, que se vira para evitar desgaste e torce para que o aliado mineiro tropece, e o PSDB de FHC, que possibilita coisas estranhas, como se associar ao PT para defender as mesmas coisas. Como o PT, tem ainda o PSDB de fato, que reúne todos os outros e que só sabe que não sabe mesmo o que vai fazer.

Pode-se dizer também que a crise de governabilidade de Dilma e um Lula cada vez mais enfraquecido, além deste PSDB estonteado, beneficiem o PMDB. Mas qual PMDB? Pois, desde sempre, foi assim: existe o PMDB do “bem” e do “mal”, com agravantes, pois, agora, existe o PMDB de Cunha, o de Calheiros e o de Temer. Ah, claro! Existe o PMDB de fato, o que reúne todos os outros e que vai seguindo com seu eterno e “indispensável” fisiologismo.

Com as três principais forças políticas do Brasil tomadas por surtos esquizofrênicos, o que dizer então da economia em frangalhos, do desemprego em alta, das fábricas quase parando e do custo de vida aumentando?

Apesar de parecer, o país não está do lado avesso. Pelo contrário, ele está sendo colocado do lado certo, com empreiteiros sendo presos, escândalos descobertos e uma profusão de democracia, apesar de algumas recaídas (vide agressões aos professores no Paraná), capazes de estabelecer uma nova (des) ordem social. É um novo tempo.

A carência é do advento de uma liderança, como ocorria em outros tempos, capaz de se estabelecer sobre PT, PSDB e PMDB ou aglutinar o melhor de cada uma dessas legendas.

Certamente, ela existe e não é messiânica. Também não está entre os atuais lobos e falsos cordeiros. É preciso que novos lobinhos e cordeirinhos se apresentem para que a população se acalme e o país do futuro que nunca chega tenha ao menos um pouco de tranquilidade para mudar algumas coisinhas e continuar o mesmo, rumando para dias melhores com pernas curtas, passos de tartaruga e muita, mas muita paciência de sua gente.

A duração da travessia

O governo e o PT continuam alimentando a falsa esperança de que a superação da crise atual poderá ser tão rápida como em 2003

Lula-Dilma-e-o-Brasil

Quanto tempo mais será necessário para que o país supere a grave crise em que está mergulhado e volte a ter perspectivas promissoras? É o que, hoje, se perguntam todos: o governo, os partidos que lhe dão apoio, a oposição, o empresariado, os investidores e, claro, cada cidadão que tenta vislumbrar o que o futuro lhe reserva.

Não é indagação para a qual se possa dar resposta clara e inequívoca. Tal é a complexidade com que interagem as múltiplas dimensões da crise, que respostas mais cuidadosas — e, ainda assim, decepcionantemente evasivas — vêm exigindo intrincada conjugação de considerações de ordem econômica, política e jurídica.

No entanto, os que indagam sobre a duração da crise insistem numa resposta simples e direta. Têm decisões a tomar. Pouco ou nada lhes ajuda uma profusão de cenários alternativos, calcados em análises multidisciplinares complexas. Preferem agarrar-se a uma história simplista da qual possam extrair uma resposta inequívoca que lhes pareça plausível.

É o que explica a coexistência no país de vasto leque de narrativas distintas acerca da duração da crise, que não só espelham simplificações diferentes dos seus possíveis desdobramentos, como conveniências e restrições específicas de quem desenvolve cada narrativa. No próprio governo, há narrativas divergentes.

O Planalto ainda não tem ideia clara de quanto tempo mais durarão suas dificuldades. Mas continua tentado a crer que, na economia, pelo menos, a luz no fundo do túnel vai aparecer bem mais cedo do que se espera.

Embora haja, na nova equipe econômica, quem tenha visão mais realista de quão lentos deverão ser os resultados da reorientação da política econômica, tal realismo ainda não pôde ser externado com a devida franqueza ao Planalto. Afinal, a própria reorientação parece só ter sido possível porque a cúpula do governo se permitiu nutrir uma visão fantasiosa sobre a rapidez com que os resultados poderiam vir a ser colhidos.

Mais variadas ainda são as narrativas sobre a duração da crise que prosperam na base aliada do governo. Há grande apreensão no PT com a aposta no ajuste que vem sendo comandado pelo ministro Joaquim Levy. No amplo espectro de posições sobre a questão no âmbito do partido, há quem creia que a aposta não faz sentido. Mas, também, quem veja mérito no esforço de ajuste e esteja pronto a defendê-lo, desde que a colheita de resultados possa ser rápida.

Não obstante as circunstâncias completamente distintas, tanto o governo como o PT continuam alimentando a falsa esperança de que a superação da crise atual poderá ser tão rápida como em 2003. Tudo indica que não será. Em 2003, o ambiente externo era muito mais favorável.

O país estava estava sendo beneficiado pelo boom de preços de commodities. E o problema interno primordial resumia-se à restauração da confiança no governo. Agora, tendo em vista as proporções da devastação fiscal, dos equívocos de política econômica, da demolição institucional e da corrupção, o esforço de reconstrução terá de ser muito maior.

Manter o PT alinhado ao programa de ajuste do governo não tem sido fácil. Se a equipe econômica não tem podido ser tão franca como gostaria com o Planalto, menos franca ainda vem tendo de ser com o PT.

O quadro é delicado. E todo cuidado é pouco. Se o partido for exposto a uma narrativa realista da provável duração da crise, é bem possível que seu já tépido apoio à política econômica de Levy desapareça por completo.

O problema é que esse jogo não pode ser jogado por muito tempo mais. Nos próximos meses, tanto o Planalto como o PT estarão fadados a se desiludir com a fantasia de que os resultados do ajuste macroeconômico poderão ser colhidos em breve. Aos poucos, vão constatar, afinal, que a superação da crise deverá ser bem mais longa e mais penosa do que imaginavam.

Quando essa dura realidade se impuser, com o PT já mobilizado para a campanha das eleições municipais de 2016, terá o Planalto convicção e respaldo político para persistir no esforço de ajuste que ainda se fará necessário?
Rogério Furquim Werneck

Política de interesse há tempos

Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espetáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.
Eça de Queirós (1845 - 1900), in 'Distrito de Évora (1867)

Eles sabiam de tudo (mesmo)

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O ex-presidente bonzinho do Uruguai, José Mujica, contou que o ex-presidente bonzinho do Brasil, Lula da Silva, se sentiu culpado pelo mensalão. Está registrado e agora publicado em livro: segundo o companheiro Mujica, Lula lhe confidenciou que o mensalão era “a única forma de governar o Brasil”. Que ninguém tome isso ao pé da letra. Não é que o mensalão seja a única forma possível de governar. Tem também o petrolão e seus derivados. Ou seja: a única forma de governar o Brasil é roubar os brasileiros, enriquecer o partido e comprar a vida eterna no poder.

Esse golpe está sendo dado há 12 anos, e há dez o Brasil brinca de se perguntar se Lula sabia. Eis a resposta entregue de bandeja pelo amigo de fé, irmão camarada Mujica: Lula sabia que a única forma de ficar no poder com um grupo político feito de pessoas medíocres, despreparadas, hipócritas e desesperadas por cargos e verbas era se fingir de coitado, chorar e parasitar o Estado brasileiro com todas as suas forças.

O império do oprimido ofereceu ao país incontáveis chances de perceber a sua única forma de governar. Escândalos obscenos foram montados dentro do Palácio do Planalto, envolvendo os principais personagens do Estado-Maior petista. Hoje o Brasil é governado por uma marionete desse sistema único de governo (SUG), uma presidente solidária ao seu tesoureiro preso, acusado de injetar em sua campanha eleitoral dinheiro roubado da Petrobras. Uma presidente que exalta como heróis os mensaleiros julgados e condenados. E que presidiu o conselho de administração da maior estatal brasileira enquanto ela era depenada por prepostos do seu partido.

Foi necessária a confissão de um companheiro uruguaio para desvelar o óbvio: eles sabiam de tudo. Tudo mesmo.

Essa forma única de governar o Brasil só tem uns probleminhas: a economia acaba de registrar sua maior retração em 20 anos, na contramão dos emergentes e do mundo; a inflação avacalhou a meta e taca fogo na antessala da recessão; o desemprego voltou às manchetes, apesar das tentativas criminosas de esconder seus índices durante a eleição; a perda do grau de investimento do país está por uma unha de Levy, após anos de contabilidade criativa, pedaladas fiscais e outras orgias progressistas para esconder a gastança —a única forma de governar.

Com inabalável firmeza de propósitos, o PT chegou lá: tornou-se o cupim do Estado brasileiro. Hoje é difícil encontrar um cômodo da administração pública que não esteja tomado pelo exército voraz, que substitui gestão por ingestão. O Brasil quer esperar mais quatro anos para ver o que sobra da mobília.

Mujica disse que Lula não é corrupto como Collor. Tem razão. O Esquema PC era um careca de bigode que batia na porta de empresários em nome do chefe para tomar-lhes umas gorjetas. O mensalão e o petrolão foram dutos construídos entre as maiores estatais do país e o partido governante. Realmente, não tem comparação.

Os cupins vão devorando o que podem — inclusive informação comprometedora. As gravações da negociata de Pasadena, presidida por Dilma Rousseff, sumiram. Normal. Dilma, ela mesma, também sumiu. Veio o Dia do Trabalho, e a grande líder do Partido dos Trabalhadores não apareceu na TV — logo ela, que convocava cadeia obrigatória de rádio e TV até em Dia das Mães. Pouco depois, veio o programa eleitoral do PT e, novamente, a filiada mais poderosa do partido não foi vista na tela.

Quem apareceu foi Lula, o amigo culpado de Mujica, vociferando contra os inimigos dos trabalhadores, as elites, enfim, toda essa gente que não compreende a única forma de governar o Brasil. E os brasileiros bateram panela em todo o território nacional — o que algum teórico progressista ainda há de explicar como uma saudação efusiva ao filho do Brasil adotado pela Odebrecht.

O ministro da Secretaria de Comunicação disse que é um erro vincular Lula e Dilma ao PT. Já o PT tenta parecer desvinculado do governo Dilma. Pelo menos isso: eles sabiam de tudo, mas não têm nada a ver uns com os outros.

Em meio aos panelaços, foi possível ouvir o balanço da Petrobras contabilizando 6,2 bilhões de reais de corrupção. Ou seja: as informações da Operação Lava-Jato, que apontam o PT e a própria presidente da República como beneficiários do petrolão, foram oficializadas no balanço auditado da maior empresa brasileira. Pena Lula não ter conversado sobre isso com Mujica. Os brasileiros vão ter que perceber sozinhos: esta só continuará sendo a única forma de governar o Brasil se o Brasil não cumprir o seu dever de enxotar um governo irremediavelmente delinquente.

Lula, o Chefe

Povo-Dilma-Lula-PT
O Brasil é o país dos segredos de domínio público, os tais segredos de polichinelo. O da vez foi “revelado” pelo ex-presidente do Uruguai, José Mujica, a quem Lula confessou, em 2010, não apenas saber do Mensalão, mas de tê-lo promovido e sustentado, por entender que “não há outro modo de governar o Brasil”.

O depoimento está no recém-lançado livro “Uma Ovelha Negra no Poder”, em que Mujica conta a dois jornalistas amigos, Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, sua passagem pela presidência do Uruguai. Não o faz com o objetivo de denegrir Lula.

Muito pelo contrário, é seu amigo e o admira – e faz questão de distingui-lo de Collor, que, segundo ele, seria um corrupto de verdade, sem explicar exatamente o que os distingue. Talvez o fato de que Collor não teve sucesso.

E aí está um dos aspectos mais interessantes dessa história. Mujica supunha estar falando do óbvio (e estava): o papel de Lula no Mensalão. Um papel que ninguém ignora, a não ser, claro, a Justiça brasileira e a oposição de então, que evitou pedir o seu impeachment. Se suspeitasse dos problemas que causaria ao amigo, provavelmente não falaria. Mas falou - e, nestes tempos de Petrolão, recolocou em cena o perfil moral do Chefe do PT.

Em 2010, o Mensalão já tramitava há cinco anos no STF. E Lula, em relação a ele, já havia se manifestado das maneiras mais contraditórias. De início, disse que não sabia de nada; depois, que foi traído. Chegou a dizer que o PT devia desculpas ao país.

Mas, à medida em que o tempo passava, convicto de que nada iria ocorrer, assumiu tom desafiante. Disse que o Mensalão jamais havia ocorrido, que era uma invenção da oposição (a mesma que o havia livrado do impeachment) e que estava convencido de que não passara de uma tentativa de golpe de estado.

Mais: prometeu que, tão logo deixasse a presidência, iria se dedicar a investigar por conta própria o caso. Bravata ridícula, na medida em que tal tarefa não cabe a um ex-presidente, que é um cidadão comum, desprovido dos meios de investigação, que pertencem ao Estado. Se queria investigar, o lugar de fazê-lo era na presidência – e não em São Bernardo ou no sítio de Atibaia.

A alegação de que não sabia foi, de imediato, desmentida por dois personagens: o então deputado Roberto Jefferson, delator do esquema (em quem Lula dizia confiar ao ponto de não recear em lhe dar um cheque em branco), e o governador de Goiás, Marcone Perillo – a quem chamava de “companheiro” e a quem agradeceu publicamente a ideia de juntar as bolsas sociais do governo FHC numa só, a Bolsa Família. Tornou-se seu inimigo figadal.

O importante nessa “revelação” de Mujica não é o fato em si, que ninguém jamais ignorou – a não ser o então procurador-geral da República Antonio Fernandes de Souza, que excluiu Lula da denúncia - mas a justificativa do ex-presidente: não há outro meio de governar o Brasil. Só pela corrupção.

Esse modo estrábico (e imoral) de enxergar o país explica as inúmeras denúncias que envolvem os governos do PT, não apenas no âmbito federal, mas também nos âmbitos estaduais e municipais. Explica os assassinatos dos prefeitos Toninho do PT (Campinas) e Celso Daniel (Santo André), até hoje sem solução.

Explica o Petrolão e os saques, entre outros, aos fundos de pensão, BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Dnit, Eletrobras e onde mais haja cofres abarrotados. Só roubando – eis o mote a aplacar eventuais crises de consciência. Lula também disse a Mujica, em relação ao Mensalão, que se sentia “um pouco” culpado. Só um pouco. Quando o caso se aproximava do julgamento do STF, abordou o ministro Gilmar Mendes em busca de adiamento.

Tentou chantageá-lo, sem êxito, por meio da CPI do Cachoeira, o bicheiro que financiava políticos (sobretudo do PT), em que seus aliados buscaram transformar o papel investigativo de uma revista, a Veja, em cumplicidade com o bicheiro.

Também não funcionou. Lula escapou do Mensalão – um crime que, não obstante envolver menos dinheiro que o Petrolão, tem simbolismo mais grave, por se tratar da compra de um poder da República (o Legislativo) por outro (o Executivo). Os ministros Celso de Melo e Ayres Brito, do STF, o classificaram de tentativa de golpe, de crime contra o estado e a democracia. Nesses termos, tudo saiu muito barato: os agentes políticos estão todos soltos.

E aí surge o Petrolão. Lula repete a pantomima: não sabia de nada, não fez nada – não houve nada. Tudo não passa de tentativa para denegrir o PT e derrubar Dilma (cujo impeachment, clamado nas ruas, é mais uma vez blindado pela oposição).

O serviço (involuntário) que o companheiro Mujica prestou foi o de ter revelado (ou confirmado) ao país que o roubo, no PT, não deriva apenas de uma fraqueza humana pelo enriquecimento fácil, mas da convicção ideológica de que é uma ferramenta de governo. Sem ele – eis a lógica - não se governa. Isso explica tudo o que aí está - e deixa claro que, com esses pilotos, não há chance de a embarcação Brasil chegar a porto seguro.

Procura-se


Não são mais apenas notas de 100 dólares com as caras de Lula, Dilma e João Vaccari, jogadas no plenário da Câmara, as boas imagens que o PT recolheu esta semana. Em São Paulo e outras cidades do interior já aparecem colados em postes e paredes cartazes com o título “Procurado” ou “Procurada”, estampadas as fotos de Lula, Dilma e os deputados petistas Vicentinho e Sibá Machado, entre outros, segundo noticia o site do Estadão. O sucesso é total e a iniciativa vai se espalhar pelo país.

Os cartazes são feitos aos moldes dos usados nos Estados Unidos, na época da ocupação do velho Oeste. Com programação visual que lembra papel antigo, Dilma e Lula são retratados como culpados pelo “roubo” de direitos trabalhistas e outras rapinagens que vieram à tona na Operação Lava Jato.

Nada muda no Brasil. E as distorções se eternizam

É engraçado como os comentaristas aqui na Tribuna da Internet, cada um a seu jeito e visão, conseguem enxergar estas obviedades e distorções que ocorrem pela suprema mão do Supremo Tribunal Federal, desde os tempos pré-parados de ontem do Gilmar Mendes e Daniel Dantas e que persistem até hoje, conubiando (se é que o termo existe…) o malfeitor e a Justiça, esta que deveria tão somente punir aquele, mas, muito pelo contrário, não só não o faz, postergando a condenação, como, muito pior, mantém intactos os malfeitos.
Por acaso, as construtoras tiveram suspensas suas obras, orientações, permissões, concessões, dações etc.? Seus contratos foram revistos para serem eliminados os elementares e óbvios sobrepreços propínicos e sem concorrência? Não existe ninguém no próprio Ministério Público que reaja contra estas distorções, como seria natural do seu previsto trabalho?

O próprio juiz federal Sérgio Moro ou alguém de seu grupo ou da força-tarefa, que certamente há, por que não reagem contra esta indevida perpetuação dos malfeitos, como os apelidou de forma carinhosa a presidente? Como enfrentar este verdadeiro e fajuto sistema de acomodação existente?

É verdade que agora, no meio do furacão, já se cogita de impedir que o presidente de plantão nomeie os ministros do Supremo com elementos de sua trupe, que, por óbvio, vão defendê-lo, com unhas e dentes, das culpas por seus deslizes e seus “não sabia de nada”, como ocorre hoje. Já se cogita, mas ainda não se impediu. É bom que se mude isto, e antes tarde do que nunca, claro.

Por fim, há uma realidade constrangedora e assustadora: o furacão já está aí, sobre nossas cabeças… A marolinha, constata-se, era mesmo visão de quem não sabia de nada. 

Os desperdícios do Condomínio Brasil


A imagem, que recebi por e-mail, fala muito ao Brasil sobre o modo como nós brasileiros lidamos com as questões do Estado, do governo e da política.

O que aí está exposto deveria conscientizar-nos da necessidade e das imensas possibilidades que se abririam a um projeto determinado, valente e moralmente indispensável, de redução do tamanho do Estado. Para onde olharmos, o que se agigantou no gigante adormecido, foi o zelador. É como se, na administração de um condomínio, se fossem criando mais e mais funções e cargos com o repasse mensal da conta para os proprietários ou inquilinos. E que isso prosseguisse assim, num crescendo sem limites, através dos anos. De repente, os moradores sustentam uma corte a que todos se submetem, sem saber bem por quê.

O Brasil poderia custar muito menos para todos nós! Os desperdícios estão por toda parte e são maiores onde menos se necessita do Estado. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Quem foi o cafetão?


Haja panelas!

Deputados contrários à Medida Provisória fizeram “panelaço” no plenário da Câmara durante a votação da matéria (Foto:  Luis Macedo / Câmara dos Deputados)
"O PT certamente dirá que só houve panelaço porque as pessoas, agora, podem ter panelas"
 Ricardo Noblat
Será que o Lula já percebeu que neste país ele já não manda? Que dona Dilma notou que a vaca, de tanto tossir, engasgou? Ou será que eles ainda se acham detentores do poder?

Quando pararem de culpar os suspeitos de sempre (que, segundo o PT, são os jornalistas) quem sabe conseguirão ver, através da poeira levantada por suas manobras desajeitadas, que o labirinto em que estamos metidos pode não ter saída?

Que me desculpem os economistas, mas tenho sempre um pé atrás com planos econômicos. Fiquei traumatizada com o maldito Plano Collor e tenho a maior dificuldade em acreditar que alguém, por mais brilhante que seja, possa sentir-se suficientemente seguro para mexer com a vida de todos nós.

Estamos numa fase negra. Basta uma voltinha em cidade grande como o Rio para ver que o desemprego aumenta, que a fome cresce e que os sem-teto invadem as calçadas ao cair da noite.

E, no entanto, foi agora que resolveram mexer com o seguro-desemprego e com o abono salarial, parte do ajuste fiscal. Se há necessidade de ajuste tão severo é porque houve uma esbórnia tremenda no governo Dilma I. Difícil para um leigo compreender: estava certo o ex-ministro Guido Mantega ou está certo o ministro Joaquim Levy? O mal é que, como sempre, o país só tomará conhecimento do acerto ou desacerto dos novos ajustes quando tudo isso já for passado.

Ate lá, percorreremos às cegas o labirinto.

E entregues a quem? Ao PMDB! Você votou no PMDB para que ele envergasse a faixa presidencial? Não? Nem eu. Mas é sob essa batuta que o país marchará até 2018, pelo menos.

Não precisa ser vidente para enxergar o ego de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) quando disse ontem, em plenário:

“Houve uma vitória política de conseguir aprovar uma medida importante e que era simbólica. Eu não diria que o governo está com a base sólida para qualquer votação. Eu diria que se construiu uma maioria que passa a passar (sic) a mensagem de equilíbrio das contas públicas, uma maioria que ficou sensibilizada com o risco que o país teria se perdesse uma votação dessas”. O Globo, 7/5/2015

E do Senado, não veio nada? Veio, sim. O intrépido Renan Calheiros (PMDB/AL) declarou, a respeito do adiamento da aposentadoria dos juízes do Supremo Tribunal Federal de 70 para 75 anos, que pretende regulamentar o tema. “Sua intenção é submeter os ministros a nova sabatina, já que terão mandato adicional”. Ilimar Franco, O Globo, 7/5/2015.

Não é sensacional?

Quanto á tão badalada reforma política, parece que morreu de inanição. Precisamos consultar o senador Sibá Machado para saber se ele suspeita que a CIA foi contra. Como vocês bem sabem, Sibá Machado tem um intelecto exuberante e sua cultura política é notável.

Do PSDB não falo. Esse desfaleceu. Sem panelaço que abafasse o ruído de seu desmoronamento...

O mal dos povos

O mal dos povos, o mal de nós todos, é só aparecermos à luz do dia no carnaval, seja o propriamente dito, seja a revolução. Talvez a solução se encontrasse numa boa e irremovível palavra-de-ordem: povo que desceu à rua, da rua não sai mais. Porque a luta foi sempre entre duas paciências: a do povo e a do poder. A paciência do povo é infinita, e negativa por não ser mais do que isso, ao passo que a paciência do poder, sendo igualmente infinita, apresenta a «positividade» de saber esperar e preparar os regressos quando o poder, acidentalmente, foi derrotado. 
José Saramago 
 

O Chile de Bachelet, uma lição para Dilma Rousseff?

Até quando a presidenta do Brasil vai resistir a tomar uma decisão, pelo menos simbólica, mostrando que aceita com humildade que o país está em crise e irritado?

Chile e Brasil se pareciam muito dentro do continente latino-americano. Ambos os países manifestavam orgulho em se sentir moralmente superiores aos outros e de ter criado um milagre econômico, como destacou neste jornal John Carlin.

Os dois países estão governados por duas mulheres de valor, ambas de esquerda. O pai de Michelle Bachelet foi assassinado pela ditadurado general Pinochet e Dilma Rousseff foi torturada durante outra ditadura militar. Hoje, ambos os países e Governos e suas duas mandatárias vivem momentos de baixa, fustigados por uma grave crise política, econômica e ética. Já não podem se apresentar no continente como líderes da mudança. A popularidade das duas presidentas despencou do céu ao inferno. A de Rousseff, muito mais do que a de Bachelet.

Acusadas de não reagir diante da queda da confiança de seus respectivos eleitores, ambas tentando minimizar uma crise que as pesquisas revelavam com evidência, Bachelet acabou tomando uma decisão drástica como resposta aos protestos populares: substituir todo o Governo e anunciar que o Chile terá um novo ministério em um prazo de 74 horas.

E Dilma? Os últimos eventos mostram um Congresso no qual sua maioria se desgasta a cada hora, ao mesmo tempo em que a presidenta se vê obrigada a isolar-se e a proteger-se da rua por medo de ser criticada. Tudo isso somado a um partido que põe obstáculos às suas medidas de ajuste e a uma opinião pública que continua gritando “Fora Dilma” e “Fora PT”, um partido que é recebido com panelaços em vários Estados durante seu programa transmitido em cadeia nacional na TV, apesar de ter sido protagonizado pelo carismático ex-presidente Lula, diante da ausência da presidenta.

Se as crises nunca são iguais, não resta dúvida que as vividas pelo Chile e pelo Brasil, protagonizadas por dois Governos de esquerda e progressistas, parecem reflexos uma da outra. Assim como Bachelet tentou fazer em vão —acusada de ser lenta em suas reações frente à crise—, Dilma continua na ilusão de negar a crise, classificando-a de “passageira”, sem entender o sentimento das ruas, cada vez mais crítico contra ela e seu partido.

A mandatária chilena rendeu-se e passou uma rasteira em seu Governo para começar de novo. Talvez isso não seja suficiente, mas é um gesto com o qual tenta dizer à opinião pública que entendeu o motivo pelo qual perdeu a confiança dos eleitores. Até quando Dilma vai resistir a tomar uma decisão, pelo menos simbólica, mostrando que aceita com humildade que o país está em crise e irritado, à espera de algo que resgate sua confiança?

Em entrevista recente ao jornalista Roberto D'Ávila na Globo News, o senador do PSDB José Serra afirmou que o problema do Brasil não é apenas a corrupção ou a economia, mas sobretudo a fragilidade do Governo Dilma. “É um Governo fraco”, afirmou. Tão fraco que, como demonstra diariamente, açoitado e humilhado pelo Congresso Nacional, perdeu sua iniciativa diante da crise.

Dilma, em um gesto de Pilatos, lavou as mãos frente à crise terceirizando suas duas maiores responsabilidades: a econômica, nas mãos de Joaquim Levy, mais próximo da visão liberal da oposição do que da sua; e a política, ao aliado PMDB, na figura de seu vice-presidente Michel Temer, do partido que hoje já é de clara oposição no Parlamento.

Será suficiente para Dilma lavar as mãos para recuperar a confiança perdida dos 54 milhões de brasileiros que a reelegeram nas urnas? Ou necessitaria fazer, como no caso chileno, um gesto de ruptura? Um reconhecimento de que a gestão econômica de seu primeiro mandato foi equivocada e que provocou uma crise que a obriga a fazer ajustes que afetarão os trabalhadores e os mais pobres. Reconhecerá que a crise da Petrobras, uma empresa que esteve tantos anos sob seus cuidados, não foi apenas ética, mas também de má gestão e de falcatruas de políticos e de executivos sem escrúpulos, seus aliados, que transformaram a companhia no quintal de sua própria casa?

Quando os brasileiros gritam nas ruas “Fora Dilma”, talvez estejam esperando, pelo menos, um gesto inequívoco dizendo que a presidenta entendeu a crise e está disposta a enfrentá-la. Não enterrando a cabeça, nem terceirizando, mas oferecendo uma medida radical como a de Bachelet.

Dilma Panelaco empregada no fogao fazendo almoco para fazer menos barulho na panela

O PT e o dinheiro dos outros

Os gestores dos fundos são indicados pelo governo, acionista majoritário das estatais, e a maioria deles é entregue ao PT
Dinheiro dos outros (Foto: Arquivo Google)
Definitivamente, estamos num país estranho. Somos governados por um partido de trabalhadores, e o Congresso acaba de aprovar o primeiro item de um ajuste fiscal que restringe alguns direitos dos trabalhadores.

Mais estranho ainda: os aliados sindicais do partido que está no poder ocuparam as galerias do Congresso e fizeram chover sobre as cabeças dos deputados notas falsas com a efígie do fundador e guru do partido, o ex-sindicalista Lula, e da atual presidente, Dilma Roussef. As notas falsas eram chamadas de PTrodólares.

Mas as coisas estranhas não pararam por aí: a primeira medida do ajuste fiscal só foi aprovada porque 16 dos deputados da dita oposição- 8 do DEM, 7 do PSB e 1 do Solidariedade- votaram a favor dela. Mais estranho ainda: da base aliada, 9 deputados do PT fugiram do plenário e 1 votou contra; do PMDB, 13 votaram contra; no PDT, que tem o ministério do Trabalho, os 19 deputados votaram contra; no PP, 18 votaram contra; e no PTB, 12 votaram contra.

Ou seja: o governo só conseguiu aprovar a medida que restringe o acesso ao seguro desemprego e ao abono salarial graças a 16 votos da oposição. Ganhou por 252 a 227. Se dependesse apenas de sua base e se os votos oposicionistas tivessem ficado na oposição, teria perdido por 243 a 236.E o PDMB ainda se vangloriou de ter obrigado o PT “a descer do muro” para conseguir aprovar a medida.

Isso quer dizer que os liberais e os socialistas se juntaram aos peemedebistas e aos petistas para votar contra direitos dos trabalhadores ? Um total consenso, que é bem o retrato da vã filosofia da política partidária no Brasil. Se não fosse assim, disse

Rodrigo Maia, uma das lideranças do DEM que votaram a favor do governo, “o país quebraria no dia seguinte”. Enfim, um patriota ou um traidor?

Haverá, assim, uma espécie de divórcio conceitual entre os trabalhadores reais e o partido que pretende representá-los?

O caso dos fundos de pensão das estatais é um exemplo escandaloso desse divórcio. A maioria deles, vítimas de gestões temerárias, apresentam pesados déficits que ameaçam a aposentadoria complementar para a qual os trabalhadores contribuem mensalmente.

Os gestores dos fundos são indicados pelo governo, acionista majoritário das estatais, e a maioria deles é entregue ao PT. Os fundos estão sujeitos à fiscalização da Superintendência Nacional da Previdência Complementar, que normalmente toma conhecimento dos erros de gestão quando estes já se tornaram escandalosamente irreparáveis.

Foi o que aconteceu com o fundo dos funcionários dos Correios, o Postalis, que acusou um rombo de 5,6 bilhões de reais. Para cobrir esse buraco, os trabalhadores terão que sofrer descontos adicionais no salário durante um prazo de 15 a 20 anos.

Não é tarefa fácil para um fundo de investimentos, com tantas opções no mercado, conseguir perder dinheiro. Só mesmo com uma gestão desastrosamente incompetente, mal intencionada, ou amarrada a motivações políticas inconfessáveis. Algum gestor de fundos, no uso pleno de faculdades mentais, investiria em títulos de bancos liquidados, como Cruzeiro do Sul ou BVA, ou em compra de títulos lastreados na dívida da Argentina (notória caloteira) ou da Venezuela?

A oposição está tentando instalar um CPI dos Fundos de Pensão no Congresso. Se conseguir, mais uma vez o PT será chamado a sentar no banco dos réus para explicar como e por que maltrata o dinheiro alheio- e no caso, especificamente, o dinheiro dos trabalhadores.

O führer de Garanhuns

O que efetivamente mobilizou o nazismo contra os judeus não foram as destrambelhadas especulações biológicas que apenas favoreceram o trabalho sujo dos que executaram as políticas de extermínio. A causa principal foi o mito da "conspiração judaica", difundindo a ideia do poder econômico do povo judeu e a ele atribuindo a culpa pelos males nacionais. Ao longo da história, mobilizações nacionalistas sempre procuraram identificar um inimigo interno ou externo, direcionando-lhe as animosidades. No nazismo, a exemplo do comunismo, foi acionado este fermento revolucionário que excita os piores sentimentos: a falácia de que o outro, como indivíduo, raça ou classe seja, objetivamente, causador da pobreza do pobre.

Observe, então, o que vem sendo proclamado sobre a "elite branca de olhos azuis" pelas personagens mais aguerridas do petismo (do topo lulista à base militante). Lula e os seus não cansam de repetir que essa elite não gosta de pobre, é contra sua prosperidade e se enoja com a presença de gente humilde nos aeroportos e nas universidades. Por quê? Ninguém esclarece. O importante é repeti-lo à exaustão. E o PT é perito em papaguear bobagens tantas vezes quantas sejam necessárias para assemelhar à verdade algo que não tem o menor fundamento. Além de tornar a nação respeitável ao proporcionar a dignidade de todos os cidadãos, o progresso material das classes mais humildes é desejável por todos os segmentos sociais, inclusive por aqueles contra os quais o PT pretende instigar a malquerença dos pobres. Entre os muitos benefícios humanísticos e ganhos de ordem ética, a ascensão social dos mais carentes significa, para todos, maior segurança e maior dinamismo na vida econômica e social. É bom para todo mundo. É assim que a civilização avança. No fundo, até o Lula sabe disso.

No entanto, o führer de Garanhuns e seus propagandistas goebbelianos precisam do ódio como fator de luta (segundo ensinou Che Guevara). E nada melhor do que aprender com Hitler o modo de suscitar ódio contra quem tem mais. Basta proclamar aos pobres que essas pessoas, brancas de olhos azuis, são a causa de sua pobreza, que estes iníquos não toleram conviver com eles e que, por soturnos motivos, querem preservá-los na miséria. Difundir tais teses após as experiências do nazismo deveria ser capitulado como crime. Numa hipótese mais branda, ser tratado como sociopatia.

Tão perigoso quando o que estou descrevendo é não se importar com isso e considerar que se trata apenas de uma estratégia, sem efetivas consequências sociais e políticas. Era exatamente o que pensava a maioria dos alemães até bem perto do final da guerra.

Percival Puggina

Precisamos falar sobre a pobreza

ONG cria campanha para questionar a publicação de notícias 'fúteis' pela imprensa
Veja todas as fotos da campanha
Precisamos falar mais sobre a pobreza. Com esse objetivo, a ONG Teto, que constrói casas populares para pessoas que moram em situação precária, lançou uma campanha que joga luz à banalização do que é notícia, e alertando para a miséria no Brasil.

Lançada há duas semanas, a campanha traz imagens dos moradores da comunidade Malvinas, em Guarulhos. Nas fotos, eles seguram cartazes com mensagens como "Cantora é flagrada tomando água" e "Famosa é vista falando ao celular". As frases, segundo Julio Lima, diretor Social da Teto, foram todas retiradas de notícias reais da internet. "Essa campanha não é uma critica direta às pessoas queconsomem essas notícias, mas é um convite para que elas deem atenção à pobreza também", diz.

A ideia surgiu através do trabalho realizado todos os finais de semana nas comunidades, segundo Lima. "A realidade das favelas mais precárias não vira pauta, por isso quisemos fazer essa jogada". Além de fazer esse alerta, as peças foram criadas para buscar voluntários para a campanha COLETA 2015. Nos dias 22, 23 e 24 de maio, mais de 5.000 jovens voluntários estarão nas ruas das cidades de São Paulo, Campinas (SP), ABC (SP), Rio de Janeiro, Curitiba (PR) e Salvador (BA) para arrecadar recursos para dar continuidade aos trabalhos desenvolvidos nas comunidades.

Um dos exemplos mais clássicos desse tipo de notícia que virou alvo da campanha é uma que envolveu o cantor Caetano Veloso. Há quatro anos, o portal Terra publicou a seguinte notícia: "Caetano [Veloso] estaciona carro no Leblon nesta quinta-feira". A nota vinha acompanhada de três fotos do cantor, uma "se preparando para atravessar a rua", a outra "olhando para o fotógrafo" e a outra "esperando no estacionamento". A banalidade da informação viralizou a "notícia" que, a cada ano, é lembrada por internautas com a hashtag #CaetanoEstacionaNoLeblon. O Terra agradeceu seus leitores por "tornar a data da publicação da matéria tão marcante", como escreveram em um texto fazendo piada com a própria publicação. Segundo o portal, foi uma das mais vistas nas redes sociais. "Nem parece que faz quatro anos! Todo mundo se lembra onde estava quando Caetano estacionou o carro no Leblon", comentou um leitor.

A verdade inconveniente é que não é raro que algum editor de revista ou jornal diga que 'não colocamos pretos e pobres na capa [das publicações]'. Em um país onde mais de 10 milhões de pessoas ainda vivem abaixo da linha da pobreza, uma visita à banca de jornais ilustra bem a ausência de notícias sobre essa realidade.

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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Nem todos têm o direito de pertencer ao mundo globalizado

Enquanto macacos atrasam o plano de internet na Índia, orçado em US$ 18 bilhões (eles comem as fibras óticas…), aqui, em nosso pobre país, empresários e políticos se juntaram para comer um bom naco do nosso dinheiro confiado à Petrobras. Mas quais deles, na realidade, saíram piores? Essa resposta, leitor, você ficará me devendo.


Enquanto você se diverte com isso, reflitamos sobre o seguinte: pertencemos a um mundo globalizado, mas o que isso de fato significa? É simples: fazemos parte de um mesmo mundo, embora o tratamento nem sempre seja igual para todos. Ou estamos nele, ou, embora “vivendo” nele, estamos fora dele. Ou temos condições de nos transformarmos em consumidores, ou não temos e somos, pois, ganga pura. E ganga, você sabe, é resíduo que, de modo geral, não serve para nada.

Segundo o Banco Mundial, 4 bilhões dos 7 bilhões de seres humanos que habitam esse mundo não são consumidores e, por isso, nem sempre são visualizados. Só conhecem guerra, fome, miséria, morte. E o que fazem os que integram o grupo dos 3 bilhões para minorar isso? O que fazem, sobretudo, os ricos – uma minoria, sem dúvida, nesse grupo – para minorar isso? E o que fazem os que (mesmo não sendo ricos, como a maior parte desse enorme grupo) têm acesso, sem constrangimento, a esse mundo cheio de contradições e injustiças?

Essas preocupações tomaram conta de mim depois que li sobre o estrago que os macacos fizeram no plano de internet na Índia e depois que li Leonardo Boff e Márcio Tavares D’Amaral, o primeiro em O TEMPO, o segundo em “O Globo”. Em seu último artigo, ao se referir ao sistema capitalista, disse Boff: “Esse sistema serve bem apenas a 2 bilhões de pessoas, que se afogam no consumo suntuoso e no desperdício atroz. Ocorre que somos já mais de 7 bilhões de pessoas, das quais quase 1 bilhão vive na mais canina pobreza e miséria”.

O colunista de “O Globo” talvez tenha sido mais ameno: “O mundo é habitado por 7 bilhões de pessoas. Mas 4 bilhões de humanos estão fora desse mundo. E, parece, não entrarão se mudanças radicais não se produzirem”. Eles sobrevivem com US$ 1 ou US$ 2 por dia…

Mas essas minhas preocupações se aprofundaram mais depois que assisti no YouTube, enviado pelo meu filho Bernardo, ao filme sobre o “encantador de cavalos”. Exibido outra vez nesse último domingo, no programa do Faustão, que raramente oferece aos que o veem algum alívio ou refrigério, o espetáculo me deixou ainda mais extasiado com o que esse jovem espanhol faz com os equinos. “E eles só fazem o que fazem porque gostam do que fazem”, disse Santos Serra.

Contra eles, não há sequer um gesto de violência. Horas depois, ao insistir para conciliar o sono, obviamente prejudicado pelo que ocorre em nosso país, me perguntei, entre assombrado e perplexo: será o homem a pior das criaturas de Deus? Perguntei, mas deixei de lado esse escárnio, pois, enfim, o que Deus tem a ver com o que os humanos fizeram de si próprios?

Falei de macacos e cavalos, leitor, talvez para conter um pouco minha “indignação moral” contra o que vem acontecendo em nosso país. É difícil (ou impossível?) conservar-se alheio diante do que políticos e empresários pátrios, na mais safada e vergonhosa aliança, fizeram e fazem contra os brasileiros, sobretudo contra os mais sofridos.

Até quando continuaremos nessa derrocada moral?

Nem o Altíssimo sabe!

Acílio Lara Resende

A satanização do marqueteiro do PT

Se os órgãos de defesa do consumidor tivessem poder, o marqueteiro João Santana seria proibido de exercer a profissão pela propaganda enganosa que foi a campanha da doutora Dilma à reeleição. Noves fora isso, há um cheiro de satanização no inquérito que a Polícia Federal abriu em cima de sua empresa.

Pelo que se sabe, ele se tornou suspeito de lavar dinheiro para o PT. O primeiro lance dessa lavagem estaria no fato de ter trazido para o Brasil o equivalente a R$ 33 milhões ganhos na marquetagem da campanha do presidente José Eduardo dos Santos em Angola.

Santana atravessou o oceano para escorregar numa casca de banana em Angola, país governado por Santos desde 1979. A filha do doutor é a mulher mais rica d'África, com uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões. Se isso fosse pouco, em Angola estão fincadas estacas das grandes empreiteiras apanhadas na Lava-Jato.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras desconfiou do internamento do ervanário e comunicou o fato à Polícia Federal. Falta dizer qual é a base da desconfiança. Santana trouxe o dinheiro para o Brasil. Fez isso pela rede bancária, de acordo com as normas do Banco Central, e pagou R$ 6,29 milhões de impostos, equivalentes a 20% da transferência.

Seria coisa “atípica”, porém é lisa e benéfica. Nada a ver com os R$ 10,5 milhões pagos em 2003 pela Caixa Dois do PT ao marqueteiro Duda Mendonça e remetidos para uma conta num paraíso fiscal das Bahamas. São casos diferentes e até mesmo opostos.

A transação seria um disfarce. Em tese, as empreiteiras deram o dinheiro a Santana para cobrir os serviços que prestara no mesmo ano ao candidato petista Fernando Haddad na disputa pela prefeitura de São Paulo. Ao final da campanha, o PT lhe devia R$ 20 milhões, pagos em parcelas mensais de R$ 2 milhões. Documentada a quitação, a suspeita fica capenga.

Quem quiser continuar duvidando pode achar que a transferência do dinheiro angolano foi atípica para os próprios padrões de Santana. O dinheiro ganho em outras campanhas foi deixado em El Salvador e na Argentina. A empresa de Santana tem ainda uma filial na República Dominicana. Nenhum dos três países pode ser considerado um paraíso fiscal. Continua faltando um fiapo de prova do disfarce.

A linha que separa uma investigação de uma acusação é tênue e atravessá-la é perigoso. As diligências da Polícia Federal e do Ministério Público na Operação Lava-Jato prestaram um enorme serviço ao país e é de se esperar que façam mais. Mesmo assim, a transformação de uma suspeita num inquérito que ainda não ouviu Santana e, a esta altura, nada parece ter acrescentado à narrativa, ajuda quem joga com as pretas. Lances desse tipo tumultuam as investigações e beneficiam culpados.

Por exemplo: o policial pulando o muro da casa de João Vaccari Neto, que jamais se recusou a atender intimações policiais, ou a prorrogação da prisão de sua cunhada, confundida com a irmã. Ou ainda a afirmação de que as anotações de “PB” e “0,1” num caderno do “amigo Paulinho” indicavam o pagamento de uma propina de R$ 1 milhão ao ministro Paulo Bernardo.

Talvez “PB” fosse o Papa Bergoglio, porque Paulo Bernardo não foi denunciado pelo Ministério Público. Às vezes o que parece ser a cereja do bolo é apenas um caroço vermelho.

Dá para entender?

Quero saber quanto nos cabe da dívida, quando cada um de nós deve
Julian Barnes, in "O porco-espinho"

Este ano tem sido muito curioso e instrutivo. Toda vez que os petistas alardeiam uma "vitória" vem logo, no dia seguinte ou pouco depois, uma notícia que derruba toda a fantasia marqueteira. Bastou Lula abrir a boca para vociferar o quanto o PT fez em 12 anos de governo em "conquista de uma vida melhor para os trabalhadores" para vir o troco.

Como "quem conquistou tanto não quer e não pode andar para trás", Lula deveria explicar porque pelo terceiro ano consecutivo a Petrobras caiu no ranking mundial e agora despencou de vez com a roubalheira, patrocinada para sustento do PT, e o desastre da administração Dilma. Que conquista é essa que foi para o fundo do poço?

A Petrobras caiu do 30º para o 416º lugar entre 2 mil empresas. em ranking de empresas. No ranking de 2013, a companhia ficou em 20º lugar. Em 2012, a gigante brasileira de petróleo aparecia no 10º lugar.

Curiosamente, quando Lula defendeu a conquista (sic) do crédito consignado como benfeitoria para o trabalhador, a lista da Forbes aponta o Itaú Unibanco (42º) como a brasileira melhor colocada no ranking. Na sequência, estão Banco Bradesco (61º lugar), Banco do Brasil (133º lugar). Lula deve explicar porque num governo do trabalhador as empresas mais bem sucedidas são bancárias e o ralo fica com a estatal aparelhada.

Alto custo