terça-feira, 9 de abril de 2019

Plebeus do Brasil inteiro, uni-vos!

O presidente ainda não decidiu o que quer ser depois que cresceu. Sob a regência dele e família a “direita” e a “esquerda” velhinhas esbofeteiam as paixões vintage uma da outra via internet. Já o Brasil “indignado” ataca pessoas mas não ataca problemas. E a imprensa, participando ou não dela, só vê a política como disputa. Abriu mão do 4º Poder. Dispensa-se de buscar soluções; de informar como funciona o mundo que funciona. “O governo ganhou…”, “O governo perdeu…”. Brasil e brasileiros nem há…

É tudo isso junto que proporciona que a privilegiatura não seja denunciada como sistema e possa continuar defendendo anonimamente os seus privilégios.

Na tradição política brasileira onde quem não pede, aceita, da extrema direita à extrema esquerda e mais quase tudo que há no meio todos mutuamente se arrimam no quesito defesa de privilégios. O instinto natural do Congresso é ver como entregar o mínimo pra não matar a galinha dos ovos de ouro já e o resto é circo. É uma cultura. O que é a debandada dos substitutos dos médicos cubanos três meses depois de contratados senão o aproveitamento de mais uma oportunidade de por um pé dentro da nau dos exploradores pelos “concurseiros”, seguido do efeito obrigatório da garantia de que nada, pela eternidade, poderá tirar de lá quem conseguir essa proeza? O que mais é preciso para explicar porque mais de 100% do que arrecada o país expulso do mercado global pelos impostos mais altos do mundo já não basta para pagar os privilégios dos “embarcados”, aposentados ou não?


A “desarticulação política do Planalto” se dá em torno daquilo que nem ele, nem a oposição, nem a imprensa estão pedindo que mude desde a raiz, nem hoje, nem muito menos quando o problema era o excesso de “articulação política” entre o Palácio e o Congresso. Não há “desinteresse do presidente pelas tarefas inerentes ao cargo que ocupa”. O que há é o desinteresse de Brasília inteira, e adjacências, em acabar com esse nosso feudalismo extemporâneo.

O Congresso é a frente mais vulneravel dessa resistência. Todo mundo exposto ao voto sabe que o que lhe está sendo pedido não é nenhuma revolução, é apenas, como já tinha sido na reforma trabalhista, que remova da cena institucional aquilo que já está morto e nada poderá fazer reviver porque o dinheiro acabou. A confusão do presidente com seu novo papel é que reabriu a controvérsia. Jair Bolsonaro nunca saiu do território da privilegiatura. É até por balda, mais que por convicção, que é ele quem rege a pauta das capitulações. Ninguém exigiu nenhuma, ele é que ofereceu todas. Mas agora passou da conta. O sistema de capitalização é a fronteira real entre o fim previsível e o nunca acabar da privilegiatura. O regime de repartição mantém aberto o componente aleatório da conta da previdência que os políticos “arbitram”, ou seja, mantém aberto o comércio de favores que cria castas privilegiadas e arrebenta países como o Brasil. O de capitalização impõe o realismo matemático que mata esse comércio e, de troco, cria uma poderosa rede de fundos de poupança que provê o financiamento barato do desenvolvimento futuro. O “elevado custo de transição” alegado é pra quem tem o que perder nessa parada, que certamente não é o povo que já não tem nada.

Paulo Guedes também nunca saiu do País Real, esse mundo onde a realidade é senhora e ninguém dá murro em ponta de faca. Mas na arena da luta pelo poder aquilo que parece pesa muito mais que aquilo que é. Logo, submeter-se a longas seções de teatro sem ser ator não é o melhor meio de passar a reforma. Convencer o povo, que tira e põe políticos no poder, da indispensabilidade e da boa fé dos componentes essenciais da sua proposta é que é o caminho para extrair indiretamente dos deputados o voto que o Brasil precisa.

Uma imprensa que se negasse a disparar tiros alheios pelo “acesso” a dossiês nunca 100% desaloprados montados pelas facções em luta pelo poder; uma imprensa que resistisse a tomar 200 milhões de brasileiros por otários voluntários recusando o mito da “impopularidade” do fim da privilegiatura que todas as pesquisas mostram que não vai além das salas onde deveriam trabalhar mas estão dispensados de fazê-lo os “estáveis no emprego” para todo o sempre; uma imprensa que tudo referisse, enfim, à meta sacrossanta do privilégio zero, poderia fazer essa ponte. É pela falta dela que o povo tornou-se uma ficção distante para Brasilia assim como Brasilia tornou-se uma ficção distante para o povo. Não há nenhuma comunicação entre eles porque a intocabilidade de todos quantos conseguem por um pé dentro do estado, um dia, nunca é posta em cheque. Excluído o único remédio que cura, tudo que resta para a análise dos eruditos do nada são os protocolos da Corte. O que diz a regra (que nos mata)? De quem é a competência (de nos ferrar desta vez)? Os parênteses não sobem nunca às manchetes. Só o que não interessa interessa.

Levantar a censura sobre como funciona o mundo que funciona pouparia o país de ter de reinventar a roda. Mas se apenas a imprensa passasse a atribuir o comportamento da Corte às suas causas evidentes já começaríamos automaticamente a nos dirigir para a saída, que consiste apenas e tão somente em condicionar todos os dias, dia após dia, a permanência no emprego de políticos e funcionários públicos à obrigação de agradar os “clientes” que lhes pagam os salários como acontece aqui fora.

Democracia, no más…

Plebeus do Brasil inteiro, uni-vos! Este país está aquém do século 19 das revoluções democráticas. A parada aqui ainda é “nobreza, unida, jamais será vencida”. Pelo povão ninguém “é” senão o ministro que os deputados hereditários da bancada dos gigolôs de miséria querem carimbar como “rentista” ou “agente dos bancos”, a apelação que resta no seu arsenal esvaziado de argumentos. Paulo Guedes terá de recorrer a uma campanha profissional de esclarecimento do povo se quiser conseguir dar o seu recado inteiro. Nenhum dinheiro público poderia ser mais bem gasto.

Opção preferencial pelo abismo

Não vejo como alguém na plena posse de suas faculdades mentais pudesse esperar um governo de boa qualidade depois de uma eleição polarizada entre o petismo e o bolsonarismo.

O barco que temos é esse aí: um rei-filósofo na Virgínia, uma tetrarquia familiar (Jair e filhos) no Planalto, dois ministros sérios tentando trabalhar — mas enfrentando as pirraças habituais dos três Poderes — e algumas almas penadas que até agora não encontraram seus respectivos papéis na peça. Três meses se passaram e só com muito esforço consigo acredito que possa melhorar.


Seria melhor com Haddad e o PT? Quem afirma isso o faz como ato de fé, pois nada do que fizeram em seus dezesseis anos e meio de governo autoriza tal crença. Com o agravante, é claro, que o PT tem um arremedo de ideologia imprestável e um projeto de permanecer indefinidamente no poder.

Mas o que acima foi dito é só uma parte, não necessariamente a pior, de um quadro muito mais amplo que deveríamos examinar com seriedade, não fôssemos um País de irresponsáveis. Chegarmos a 2022 com um resultado medíocre significa postergar mais uma vez a recuperação econômica do País e reduzir a pó o que nos resta de esperança. Hoje, além dos problemas reais que nos assustam a cada dia, temos uma penca de problemas imaginários, frutos amargos de nossa insanidade, de uma sociedade que se tornou raivosa e se recusa a imaginar o futuro que a espera.

Aqui mesmo neste espaço, já escrevi várias vezes, mas faço questão de repetir. Com a renda anual medíocre que temos hoje e prevendo o mesmo crescimento a passos de cágado para os próximos anos, levaremos uma geração inteira para dobrá-la. Algo entre 25 e 30 anos.

Para não nos precipitarmos nesse abismo, temos que elevar vigorosamente a produtividade, o que significa, em primeiro lugar, um sistema político muito mais confiável, com os três Poderes fazendo jus à elevada missão que a Constituição lhes confere. Significa investimento, muito investimento. E um programa enérgico de qualificação de força de trabalho, o que desde logo requer uma revolução organizacional e pedagógica em nosso sistema educacional.

A iniciativa de tudo isso cabe, evidentemente, ao governo, mas as elites também são responsáveis. Deveriam, no mínimo, forçar o Executivo a sair de sua letargia, mas nem isso fazem.

80 tiros e o risco da impunidade

O músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, levava a família para um chá de bebê de uma amiga no último domingo quando teve o carro alvejado por mais de 80 balas disparadas por militares que patrulhavam a Estrada do Camboatá, no bairro de Guadalupe, zona oeste do Rio de Janeiro. Foi atingido por algumas dessas balas e, pouco antes de morrer, ainda virou o carro na tentativa de proteger a esposa, o filho de sete anos e a afilhada de 13, que estavam no banco traseiro. Eles saíram ilesos, mas o padrasto da esposa de Evaldo, que estava ao lado do motorista, ficou ferido, assim como uma pessoa que passava pelo local no momento em que os militares abriram fogo, segundo eles em resposta a uma "injusta agressão" de "assaltantes" que teriam iniciado o tiroteio.


A versão dos militares, porém, contrasta com os depoimentos dos vizinhos e com a perícia que a Polícia Civil teve que realizar por conta da dificuldade dos próprios militares para examinar a cena do crime diante da revolta da população. O delegado Leonardo Salgado, que assumiu os trabalhos, disse que tudo indica que os militares fuzilaram o carro da família por "engano". Já o Comando Militar do Leste, que investiga o caso e havia emitido nota corroborando com a versão dos membros que participaram da operação, precisou voltar atrás "em virtude de inconsistências identificadas entre os fatos inicialmente reportados e outras informações que chegaram posteriormente". E determinou o afastamento imediato e a prisão de dez dos doze militares que participaram da operação por "descumprir as regras de engajamento".

Tanto as investigações quanto os possíveis processos criminais gerados por elas estão a cargo das Forças Armadas, conforme estabelece uma lei sancionada pelo então presidente Michel Temer em 2017. Nos últimos três anos, o Exército vem ganhando protagonismo em ações de segurança pública no Brasil. Foi nesse contexto que os militares conseguiram aprovar a lei 13.491/2017, que transfere para as Forças Armadas os casos de crimes dolosos contra a vida de civis durante operações de garantia da lei e da ordem. A legislação é interpretada como uma espécie de foro privilegiado para os militares por ativistas de direitos humanos. Agora, o caso de Guadalupe reabre o debate sobre a possível falta de isenção da Corte Militar para investigar e julgar membros da própria corporação, e entidades de direitos humanos pedem a revogação da lei.

"Existe um risco maior de impunidade quando você tem pessoas da mesma corporação julgando seus colegas", argumenta o advogado e diretor-adjunto da ONG Conectas, Marcos Roberto Fuchs. Ele chama atenção para a letalidade em ações de segurança pública desenvolvidas pelo Exército no Brasil, com vários casos de morte nos últimos anos. É o caso, por exemplo, do assassinato do capixaba Matheus Martins da Silva, de 17 anos, com um tiro de fuzil disparado por um soldado a um quarteirão de sua casa em fevereiro de 2017 durante uma ação de segurança pública. "Existe um procedimento padrão para abordar. Agora, dar 80 tiros [como fizeram no domingo] é uma letalidade abusiva e desproporcional. Esta é a nossa primeira preocupação. A segunda é a de que o crime vai ser levado à Justiça Militar, então não vai ser um julgamento isento e imparcial, já que os próprios militares vão julgar os colegas", diz Fuchs.

No caso de Guadalupe, o Comando Militar Leste instaura o inquérito e designa um encarregado para apurar o crime militar através do Inquérito Policial Militar (IPM), que, assim como o Inquérito Policial, reúne os elementos necessários para propor uma ação penal. É nesta fase que se colhem dados e se realizam diligências que seriam difíceis ou impossíveis de ocorrer no curso do processo, como exames periciais, interrogatórios e reconstituições. Esta peça é então encaminhada ao Ministério Público Militar, que oferece a denúncia na Justiça Militar. O prazo para conclusão do inquérito quando os supostos autores do crime estão presos — como é o caso dos militares que participaram do fuzilamento em Guadalupe — é de 20 dias. Mas, segundo fontes da Justiça Militar, não há um prazo específico para finalização do processo judicial.

A Human Rights Watch Brasil, entidade que atua na defesa dos direitos humanos, emitiu uma nota pedindo a revogação da lei de 2017 que coloca nas mãos das Forças Armadas as investigações de homicídios cometidos por membros das Forças Armadas em operações, como a de domingo. "Qualquer julgamento seria realizado perante um tribunal que também não é independente, pois é composto por quatro oficiais militares e um juiz civil", alega a entidade. O pesquisador sênior da Human Rights Watch Brasil, César Muñoz, afirma que a lei brasileira vai de encontro ao que defende o direito internacional, de que as justiças militares devem julgar apenas infrações internas, como por exemplo desacato e indisciplina. "Os juízes militares estão numa hierarquia e têm que obedecer seus superiores. Talvez não haja uma pressão direta, mas há uma relação ali. Não é uma situação que tem um juiz independente", diz.

Muñoz diz que é difícil para as entidades da sociedade civil acompanharem os casos investigados e julgados pela corte militar. "Não é uma justiça muito aberta ao olhar externo", avalia. E levanta questionamentos sobre a atuação dos militares na condução de um caso emblemático: o da chacina de Salgueiro. Em novembro de 2017, um comboio de dois blindados do Exército e um da Polícia Civil entrou no complexo de favelas do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, e realizou uma operação que terminou com sete mortos. Uma investigação conjunta entre Polícia Civil e Exército foi criada para investigar o primeiro caso concreto desde a sanção da lei que amplia a jurisprudência da corte militar, mas os responsáveis por essas mortes ainda são um mistério.

O caso foi acompanhado de perto pela Human Rights Watch. Um ano depois do episódio, a Justiça Militar sequer havia ouvido todas as testemunhas e sobreviventes. "Nós, uma entidade da sociedade civil, entrevistamos essas pessoas, como eles não conseguiram?", questiona Muñoz. A Polícia Civil ficou com parte das investigações, mas, como envolvia militares, não pôde avançar nas investigações. Testemunhas contaram às autoridades que os atiradores vestiam roupas pretas, tinham fuzis com mira a laser e capacetes luminosos. A descrição bate com os equipamentos disponíveis aos militares, mas a Polícia Civil não pôde apreender as armas para averiguar se os tiros foram disparados por eles, e o Exército deu poucas respostas sobre isso. "A gente já teve esse problema [de risco de impunidade na investigação de crimes praticados por militares pelas Forças Armadas] antes. Foi uma investigação que até hoje não foi esclarecida", declara Muñoz, ressaltando que a corte militar não tem um sistema adequado para julgar crimes que ferem os direitos humanos.

Marcos Roberto Fuchs, da ONG Conectas, teme que o discurso do presidente Bolsonaro de parabenizar oficiais que matem bandidos em serviço e mesma a proposta do pacote anticrime do ministro Sérgio Moro para que agentes de segurança tenham a pena reduzida ou eliminada caso matem em serviço pode agravar casos como este. "Parece que vai ser um expediente recorrente no Rio de Janeiro. Quando não se tem mais poder da Policia, se usa o Exército. É uma política que está errada no nosso modo de vista. Tudo isso junto com governantes que dizem que pode reagir e atirar. Há um impulsionamento que pode agravar esses casos sem dúvida", avalia.

Pensamento do Dia


Pobre Brasil do aqui e agora

O que fazer quando o presidente e o chanceler de seu país dizem, em Israel, que o nazismo foi um movimento de esquerda? O ideal é dar de ombros e seguir na vida cotidiana. Essas afirmações bombásticas são feitas para provocar debate. Não tenho tempo para ele.

Sinto muito pelos professores de História no Brasil. Terão de explicar como um movimento de esquerda invadiu a União Soviética, uma espécie de meca da esquerda mundial naquele período. E como milhões de pessoas morreram a partir desse fogo amigo.


Os professores de História terão de se consolar com os de Geografia, que ainda acham que a Terra tem uma forma arredondada. São colegas com uma tarefa mais dura: explicar que a Terra não é plana, como querem os novos ideólogos.

Estamos passando por uma revisão completa. Seus autores se acham geniais. O chanceler Ernesto Araújo disse que o nazismo é de esquerda, dentro do Museu do Holocausto, em Israel. Ali, o nazismo é considerado um movimento de extrema direita.

Mas o chanceler disse que há teorias mais profundas. Os judeus, que sofreram com o nazismo e ergueram um museu para lembrar suas vítimas, são superficiais: ainda não descobriram a verdade das obscuras teorias conspiratórias que embalam o governo brasileiro.



A direita embarca na canoa usada pela esquerda no passado recente. Não há mais respeito às evidências ou provas científicas. O que importa é a versão. Não houve desvio de dinheiro público, apenas procuradores e juízes perseguindo honestos políticos.

Eles convergem na tentativa de conformar os fatos às suas convicções ideológicas. O que foi aquela gritaria na Câmara? Nada mais que uma aversão compartilhada à palavra tchutchuca.

Suspeito que direita e esquerda são machistas da mesma maneira que suspeito que a Terra seja arredondada, e o nazismo tenha sido um movimento de extrema direita. Tenho pavor dessas gritarias noturnas na Câmara. Na minha época descobri: servem apenas para prejudicar o sono. Saem todos tensos e irados e têm dificuldade em dormir. Só isso.

Uma reforma da Previdência é coisa séria. É possível alterar a proposta do governo. Mas é muito difícil negar a importância de alguma reforma, antes que a Previdência quebre como na Grécia.

Há mais de um século a esquerda desenvolve suas técnicas de provocação. Guedes precisa mais que o curso de alguns dias para enfrentá-la com êxito.

Minha experiência mostra que nessas constantes trocas de insultos, sempre alguém vai insinuar que o outro é gay. Com o tempo, certas pessoas se acostumam. É o meu caso. Tive a sorte, como na música de Cazuza, de ser chamado de viado e maconheiro. O único problema era ser chamado de apenas um desses dois nomes. Ficava esperando o outro como se estivesse faltando algo.

É como a piada de um homem que vivia no andar de baixo, e todas as noites o vizinho de cima chegava meio bêbado e tirava as botas ruidosamente. O homem reclamou. O bêbado voltou do botequim, jogou a bota esquerda com força, mas se lembrou do vizinho. Tirou a bota direita com muito cuidado, silenciosamente. O vizinho de baixo não dormiu esperando que ele jogasse a outra.

Todas aquelas pessoas xingando as outras na Câmara: não há nada de pessoal naquilo. Apenas histeria política.

É preciso superar logo essa fase de sensibilidade à flor da pele. Entender que é o país que está em jogo. E não depende apenas da reforma da Previdência.

A política externa toma um rumo radical, sem que o tema seja discutido adequadamente no Congresso. Nesse sentido, é uma política tão autoritária como a que nos ligou ao bolivarianismo. Não expressa a visão nacional.

O Ministério da Educação não funciona. Todos as semanas demitem e contratam. A ida do ministro Vélez à Câmara mostrou que não tem projeto. Exceto o de reescrever sua parte da história do golpe militar. Ele é modesto diante do chanceler que quer reescrever a história da Segunda Guerra Mundial e levar sua mensagem cristã a todos os recantos do mundo.

O velho cardeal Richelieu já dizia no século XVII: o homem é imortal, sua salvação está no outro mundo. O Estado não d ispõe de imortalidade: sua salvação se dá aqui ou nunca.

Fernando Gabeira

O incrível homem que derreteu

A queda na popularidade de Jair Bolsonaro após os primeiros três meses de governo era esperada. O fenômeno é universal, atingindo democraticamente todas as gestões. O que talvez tenha surpreendido é a intensidade com que a avaliação do presidente se desmilinguiu.

O índice de ruim e péssimo de Bolsonaro atingiu a marca de 30%, a maior de todos os dirigentes eleitos em seu primeiro mandato, desde a redemocratização. Num distante segundo lugar vem Fernando Collor com 19% —e Collor, vale lembrar, confiscara a poupança.


Há dois fatores que, creio, ajudam a entender o derretimento. O primeiro é que o governo é mesmo um caos. Despreparo e foco nas coisas erradas resumem bem esses três meses iniciais. O segundo é que há um descasamento entre as ideias defendidas pelo presidente e as preferências do eleitorado. Isso já ficara claro na pesquisa Datafolha de janeiro, que mostrou que a maioria das bandeiras do dirigente —coisas como Escola sem Partido, política ambiental, indígena, facilitação do porte de armas— era rejeitada pelos eleitores, por margens às vezes graúdas.

Basicamente, as pessoas votaram em Bolsonaro não pela pauta que ele propôs, mas por ele ter sido o candidato que melhor encarnou o papel de antípoda do PT e do próprio sistema político, percebido como corrupto pela população.

Bolsonaro não vai mudar. É da natureza do neopopulista insistir na retórica inflamada, apostando em criar inimigos, mesmo que imaginários, para agregar aliados. O problema é que essa tática antissistema se torna meio autofágica quando se é governo, isto é, quando se está no centro mesmo do sistema.

Acho até que Bolsonaro conseguirá, aos trancos e barrancos, atravessar os quatro anos de mandato, se não houver uma piora notável da economia. Mas, se vier uma deterioração, em especial se a inflação de alimentos voltar a subir, o jogo muda, e a impopularidade pode tornar-se letal.

Bolsonaro demite Vélez e oferece mais do mesmo

Um dia depois da divulgação da pesquisa do Datafolha que atribuiu a Jair Bolsonaro a pior avaliação de um presidente em início de mandato desde a redemocratização, em 1985, o capitão começou a se mexer. Mandou para o olho da rua o ministro Ricardo Vélez, da Educação. Vélez revelou-se uma experiência trágica. Desgovernou uma das pastas mais estratégicas do governo durante três meses.

Vélez era desconhecido antes de Bolsonaro achar que ele poderia ser um fabuloso ministro da Educação. Volta para casa sem que se saiba quais são suas ideias para o setor educacional. Mas todos aprenderam duas coisas sobre Vélez: 1) Trata-se de um súdito do polemista Olavo de Carvalho. 2) Enxerga o "marxismo cultural" como o grande inimigo da educação no Brasil.

Pois bem. Ninguém conhece ainda com clareza os planos que o novo ministro, o economista e professor Abraham Weintraub, pretende implementar na Educação. Mas duas coisas já são conhecidas sobre ele. Trata-se de um fiel seguidor das ideias de Olavo de Carvalho. Ele também enxerga as universidades brasileiras como templos do "marxismo cultural".

Quer dizer: vem aí mais do mesmo: intrigas e fantasmas ideológicos. Se você acredita em Deus, reze para que o novo ministro encontre algum tempo para cuidar de Educação. A nova troca de ministro, a segunda em menos de 100 dias, indica que Bolsonaro dá de ombros para os 61% de brasileiros que disseram ao Datafolha que ele fez nos primeiros dias de governo menos do que todos esperavam. Diante da insatisfação, o capitão decidiu dobrar a aposta. É como se Bolsonaro desejasse provar que é errando que se aprende... A errar.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Brasil na real


Bolsonarinho paz\ e amor

Piadas, tapinhas nas costas, abraços efusivos e fotos. O mesmo Jair Bolsonaro que até poucos dias atrás enxovalhava políticos e jornalistas agora é todo sorrisos. Na quinta-feira, passou o dia recebendo presidentes de partidos, fez carinho, falou coisas em que ele não crê, pediu desculpas em particular pelas caneladas públicas que distribuiu. Na manhã seguinte divertiu-se em um café da manhã com a imprensa. Respondeu a mais de 30 perguntas, disse frases de efeito, brincou e gargalhou como se amigo fosse de gente que ele cansou de xingar. 

Não há como maldizer uma conversão para melhores modos, especialmente se eles podem pacificar ânimos, destravar o governo e fazer o país andar. O problema é acreditar em mudança de humor tão repentina e radical. E que a tal transfiguração exibida tenha alcançado o espírito do presidente. Pouco ou nada provável. 

Nem os mais próximos creem nessa metamorfose.



Gustavo Bebbiano, escudeiro desde a primeira hora, demitido da Secretaria-Geral da Presidência porque tinha em sua agenda um encontro com a “inimiga” TV Globo, não deve ter entendido nada. Foi punido por uma condescendência que agora o presidente pratica. Nas redes sociais, os combatentes amenizaram o tom de repente, encolheram os palavrões e as agressões gratuitas aos que até ontem eram os diabólicos representantes da velha política. Tudo a confirmar a existência de uma ordem unida.

Sem ter o que mostrar 100 dias depois de tomar posse e com estilo populista que o aproxima do seu maior rival, Bolsonaro parece ter sido aconselhado a encarnar algo semelhante ao “Lulinha paz e amor” que a marquetagem do ex criou. Mesmo sem ter a ginga de Lula, o capitão, quando quer, consegue manejar tiradas para construir narrativas que o interessam. 

“Tem vídeo meu que circula e eu penso: falei isso mesmo?”, disse aos jornalistas, debochando de si. Ao mesmo tempo rejeitou a hipótese de se redimir ou, pelo menos, se explicar pelos impropérios que vomita: “Vou me arrepender porque fiz xixi na cama aos 5 anos? Saiu, pô!”. 

Com esse discurso, ele se coloca como ingênuo, como quem fala sem pensar e deixa escapar frases como a lançada contra a deputada Maria do Rosário, que não merecia ser estuprada por que era feia, ou a de que ele não conseguiria amar um filho homossexual – “prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”. Imagina que pode colocar todas as ofensas que imputou a muitos na categoria do “saiu, pô!”.

Seus fiéis torcedores dirão que é o jeito Bolsonaro de ser, “sincerão”. Mas não conseguem explicar por que só agora, depois de se ver encurralado por não conseguir adesão no Congresso nem de seu próprio partido, o PSL, a sinceridade perdeu a beligerância.

Há quem garanta que o presidente se assustou com a corrosão veloz de sua popularidade. Ou que tenha sido convencido pelos militares depois de a sirene de risco disparar quando o seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes, foi escorraçado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara sem que uma só alma servisse como extintor. 

Parte do quebra-cabeças será resolvido nesta semana, quando o destino do ministro da Educação Ricardo Vélez for selado para o bem ou para o mal. No digladio escancarado, a turma da farda, que prega a tolerância, pode ou não vencer os seguidores de Olavo de Carvalho, catequista do caos adorado pela prole do presidente. 

Nesse puxa e estica, é arriscado apostar se o Bolsonaro dócil da semana passada vai resistir ao fel que os fundamentalistas, temporariamente sob controle, adoram esparramar. A conferir se sua conversão à realidade tem alguma chance de ser fruto do juízo ou se é mera enganação. 

Pobre Brasil do aqui e agora

O que fazer quando o presidente e o chanceler de seu país dizem, em Israel, que o nazismo foi um movimento de esquerda? O ideal é dar de ombros e seguir na vida cotidiana. Essas afirmações bombásticas são feitas para provocar debate. Não tenho tempo para ele.

Sinto muito pelos professores de História no Brasil. Terão de explicar como um movimento de esquerda invadiu a União Soviética, uma espécie de meca da esquerda mundial naquele período. E como milhões de pessoas morreram a partir desse fogo amigo.

Os professores de História terão de se consolar com os de Geografia, que ainda acham que a Terra tem uma forma arredondada. São colegas com uma tarefa mais dura: explicar que a Terra não é plana, como querem os novos ideólogos.

Estamos passando por uma revisão completa. Seus autores se acham geniais. O chanceler Ernesto Araújo disse que o nazismo é de esquerda, dentro do Museu do Holocausto, em Israel. Ali, o nazismo é considerado um movimento de extrema direita.


Mas o chanceler disse que há teorias mais profundas. Os judeus, que sofreram com o nazismo e ergueram um museu para lembrar suas vítimas, são superficiais: ainda não descobriram a verdade das obscuras teorias conspiratórias que embalam o governo brasileiro.

A direita embarca na canoa usada pela esquerda no passado recente. Não há mais respeito às evidências ou provas científicas. O que importa é a versão. Não houve desvio de dinheiro público, apenas procuradores e juízes perseguindo honestos políticos.

Eles convergem na tentativa de conformar os fatos às suas convicções ideológicas. O que foi aquela gritaria na Câmara? Nada mais que uma aversão compartilhada à palavra tchutchuca.

Suspeito que direita e esquerda são machistas da mesma maneira que suspeito que a Terra seja arredondada, e o nazismo tenha sido um movimento de extrema direita. Tenho pavor dessas gritarias noturnas na Câmara. Na minha época descobri: servem apenas para prejudicar o sono. Saem todos tensos e irados e têm dificuldade em dormir. Só isso. Uma reforma da Previdência é coisa séria. É possível alterar a proposta do governo. Mas é muito difícil negar a importância de alguma reforma, antes que a Previdência quebre como na Grécia.

Há mais de um século a esquerda desenvolve suas técnicas de provocação. Guedes precisa mais que o curso de alguns dias para enfrentá-la com êxito.

Minha experiência mostra que nessas constantes trocas de insultos, sempre alguém vai insinuar que o outro é gay. Com o tempo, certas pessoas se acostumam. É o meu caso. Tive a sorte, como na música de Cazuza, de ser chamado de viado e maconheiro. O único problema era ser chamado de apenas um desses dois nomes. Ficava esperando o outro como se estivesse faltando algo.

É como a piada de um homem que vivia no andar de baixo, e todas as noites o vizinho de cima chegava meio bêbado e tirava as botas ruidosamente. O homem reclamou. O bêbado voltou do botequim, jogou a bota esquerda com força, mas se lembrou do vizinho. Tirou a bota direita com muito cuidado, silenciosamente. O vizinho de baixo não dormiu esperando que ele jogasse a outra.

Todas aquelas pessoas xingando as outras na Câmara: não há nada de pessoal naquilo. Apenas histeria política.

É preciso superar logo essa fase de sensibilidade à flor da pele. Entender que é o país que está em jogo. E não depende apenas da reforma da Previdência.

A política externa toma um rumo radical, sem que o tema seja discutido adequadamente no Congresso. Nesse sentido, é uma política tão autoritária como a que nos ligou ao bolivarianismo. Não expressa a visão nacional.

O Ministério da Educação não funciona. Todos as semanas demitem e contratam. A ida do ministro Vélez à Câmara mostrou que não tem projeto. Exceto o de reescrever sua parte da história do golpe militar. Ele é modesto diante do chanceler que quer reescrever a história da Segunda Guerra Mundial e levar sua mensagem cristã a todos os recantos do mundo.

O velho cardeal Richelieu já dizia no século XVII: o homem é imortal, sua salvação está no outro mundo. O Estado não dispõe de imortalidade: sua salvação se dá aqui ou nunca.

O show do trilhão

Na audiência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, na última quarta-feira, falou-se 44 vezes sobre a necessidade, exposta pelo ministro Paulo Guedes, de a reforma da previdência gerar uma potência fiscal de R$ 1 trilhão nos próximos dez anos. Aliás, "potência fiscal" foi outra expressão muito utilizada nos debates: 19 vezes.

Descontadas a baixaria de alguns deputados e a falta de tato do ministro - que acabaram dominando a cobertura da mídia e a atenção do público -, o debate foi um belo exercício democrático. Mas expôs o muito o que ainda temos que avançar em termos de concepção de políticas públicas e transparência no Brasil.


Quem só assistiu aos "melhores momentos" da audiência não percebeu que, logo antes da sua desrespeitosa crítica do tigrão e do tchuchuca, o deputado Zeca Dirceu (PT/PR) pediu a Paulo Guedes a apresentação dos estudos e projeções que levaram o governo a eleger a reforma da previdência como sua prioridade para este início de governo, em detrimento da reforma tributária. Sua fala veio logo após o deputado José Nelto (Podemos/GO) perguntar ao ministro por que ele não resolveu buscar o tal R$ 1 trilhão na revisão dos incentivos e benefícios fiscais, que sangram R$ 300 bilhões por ano aos cofres públicos federais.

Atribui-se a Winston Churchill a ideia de discutir detalhadamente num documento os prós e contras de uma decisão governamental complexa. Em 1922, quando era Secretário de Estado para as Colônias, o futuro primeiro-ministro publicou uma análise profunda a respeito de qual posicionamento a Inglaterra deveria seguir em relação à Palestina e ao movimento sionista. Como o documento tinha a capa branca, ficou conhecido como "White Paper".

Desde então, governos de diversos países (Canadá, Austrália, Nova Zelândia, União Europeia) têm desenvolvido a cultura de publicar "livros brancos" sobre políticas públicas e regulatórias de grande impacto social, com o objetivo não apenas de explicar em pormenores a natureza das mudanças, mas também para colher sugestões de melhorias.

Um século depois, no Brasil impera a cultura do "powerpoint". No programa de governo do então candidato Jair Bolsonaro, as propostas para a economia se resumiam a 17 slides - sendo apenas um deles dedicado à reforma da previdência. Ao consultar os sites do Ministério da Economia e da Presidência da República, não se encontra muito mais do que um arquivo com 41 slides para explicar o alcance da reforma e suas implicações na vida dos cidadãos.

Não é sem razão que a falta de dados foi a principal queixa apresentada pelos parlamentares na audiência, tanto de oposição quanto do centro. Deputados do PT, do PSOL e do PDT cobraram à exaustão a memória de cálculo dos custos de transição para o regime de capitalização. Pompeo de Mattos (PDT-RS) exigiu detalhamentos sobre o novo sistema: se haverá contribuição dos empregadores, como será a administração dos fundos. Gilson Marques (Novo-SC), por sua vez, quis saber sobre os impactos esperados da reforma em termos de investimento e crescimento no curto prazo.

Eduardo Braide (PMN-MA) e Gil Cotrim (PDT-MA) questionaram sobre o impacto das mudanças do BPC e da aposentadoria rural na economia dos munícipios pequenos do Norte e Nordeste. O deputado Luizão Goulart (PRB-PR) queixou-se da falta de dados sobre o impacto da reforma nos Estados e municípios.

Na sua intervenção, a deputada Clarissa Garotinho (Pros-RJ) metralhou o ministro com perguntas diretas e objetivas: quantos brasileiros se aposentam por idade? Qual o percentual daqueles que se aposentam hoje com menos de 20 anos de contribuição? Quais as projeções de aumento da idade mínima para os próximos anos em caso de aumento da expectativa de sobrevida? Quantos são os brasileiros que só recebem um salário mínimo de pensão como benefício? Qual é o valor médio da aposentadoria do trabalhador, em relação a seu salário do ativa, antes e depois da reforma?

Na sua vez de faltar, Paulo Guedes fugiu das respostas. Depois de ser cobrado em muitos apartes e questões de ordem, o ministro mobilizou sua equipe, que preparou uma resposta por escrito às dúvidas da deputada fluminense. Ela se declarou satisfeita com os dados recebidos. Mas o restante da sociedade não teve acesso a eles.

Apesar da boa vontade e da coragem de Paulo Guedes de comparecer a duas audiências no Congresso, falta transparência e comunicação para destacar o alcance e a importância da reforma proposta. Paulo Guedes explicou na audiência que foram traçados vários cenários possíveis sobre a opção ou não de trabalhadores jovens pela capitalização. O deputado Subtenente Gonzaga (PDT-MG) cobrou coragem ao governo de publicar esses dados, pois a reforma não pode ser tratada como um cheque em branco dado ao governo.

As críticas ao governo partem, inclusive, daqueles que se dispõem a apoiar o governo pela aprovação da reforma. Do Dr. Frederico (Patriotas-MG) à deputada Adriana Ventura (Novo-SP), o ministro Paulo Guedes foi cobrado pelas falhas de comunicação dos benefícios da reforma para a população. Na visão deles falta ao governo uma "narrativa de justiça e de transparência atuarial, (...) uma narrativa propositiva ao cidadão", nas palavras do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP).

Paulo Guedes, ao longo de sua intervenção na Câmara, disse que sua equipe estudou "o sistema norueguês, o sistema sueco, o sistema canadense, o sistema italiano, o sistema chileno, o sistema brasileiro. Olhamos várias propostas e tentamos combinar algumas coisas". Seria muito bom para a população ter acesso a esses estudos.

Faltam números, simulações. Faz muita falta um Livro Branco da Reforma da Previdência.

Imagem do Dia

Iain Stewart

Bolsonaro não vê o problema, que dirá a solução

Confrontado com as más notícias contidas na pesquisa do Datafolha, Jair Bolsonaro fugiu da realidade à moda do avestruz. Enfiou a cabeça nas profundezas de sua autoestima. E apertou o botão de dane-se: "Não vou perder tempo comentando pesquisa Datafolha", disse aos repórteres.

Numa de suas revelações mais ruinosas, a sondagem informou que, para 61% dos brasileiros, Bolsonaro fez menos do que se esperava dele nos primeiros dias como presidente. Entretanto, a notícia que mais atormentou Bolsonaro foi a de que os brasileiros consideram Lula e Dilma mais inteligentes do que ele.

Não é que Bolsonaro tenha ficado mal na foto. Para 58%, ele é muito inteligente, contra 39% que o consideram pouco inteligente. O problema é que, no início dos seus mandatos, Lula e Dilma eram vistos como muito inteligentes por um contingente maior de pessoas: 69% e 85%, respectivamente. O capitão gargalhou no Twitter: "Kkkkkkkk".

Ao fugir de uma análise mais qualificada da pesquisa, Bolsonaro perde a oportunidade de constatar que pode estar sofrendo precocemente os efeitos de uma presidência atípica. Em 2018, parte expressiva do eleitorado votou no capitão não por gostar dele, mas por odiar o PT. Bolsonaro venceu porque seus votos foram vitaminados pelos eleitores que não votavam de jeito nenhum em Fernando Haddad.

Quem escolheu um vitorioso por exclusão, saiu das urnas com um pé atrás. E passou os últimos 100 dias olhando para o Planalto de esguelha, à espera de que o novo inquilino provasse ser capaz de encarar o ofício de presidente. O diabo é que Bolsonaro passou a impressão de que, quando não estava na cama, estava fabricando crises nas redes ou distribuindo caneladas em aliados.

A boa notícia é que 59% dos entrevistados do Datafolha ainda cultivam a esperança de que Bolsonaro consiga fazer um governo ótimo ou bom. Tempo não lhe falta. O que o presidente não tem é discernimento. Não pode ter solução um presidente que não consegue enxergar nem o problema. Ou Bolsonaro fecha a fábrica de crises e começa a trabalhar ou seu governo tomará o rumo do pântano da ineficiência.

Viva o povo brasileiro

(Em memória de João Ubaldo Ribeiro)

Sob cerrada pancadaria o governo Bolsonaro se lança com as velas pandas em alto-mar em busca do Santo Graal, antes perseguido sem êxito por alguns, sempre na crença de que deslocar o leito da nossa História do seu curso de 500 anos é matéria afeta apenas a uma acendrada vontade política que não recue diante de circunstâncias adversas. Trata-se, sob o governo de Bolsonaro, de um plano de guerra sem quartel com a intenção de remover obstáculos à sua imposição, sejam políticos, econômicos ou culturais. Tais obstáculos estariam dispostos em camadas, acumulados ao longo de gerações, e se antes funcionais como a ação indutora da economia pela política, estariam agora travando o desenvolvimento do capitalismo, cujas forças de mercado estariam a exigir plena liberdade de movimentação. A declaração do ministro da Economia, sr. Paulo Guedes, nesse encontro de Washington, ao identificar no condestável do regime, Olavo de Carvalho, o chefe de uma revolução que estaria em curso não poderia ser mais esclarecedora.


Para o condestável do governo Bolsonaro, as bêtes noires a serem removidas para o sucesso da revolução em marcha seriam as vetustas corporações que conformaram o corpo e a alma da História do País, a saber, os militares, os juízes, o corpo diplomático do Itamaraty e a instituição da Igreja Católica; cada qual teria repassado em boa medida seus valores a um fundo que teria como que constituído o cerne da nacionalidade, em comum a todos eles, embora com pesos variados, a distância dos valores capitalistas. O diagnóstico não é original, pois vem rondando a tópica do pensamento social brasileiro, ao menos, talvez, de Tavares Bastos, um americanista e feroz anti-ibérico de notável talento, que defendia, entre outros temas, a erradicação do catolicismo em favor da doutrinação protestante, segundo ele, mais propícia a uma cultura de liberdades e de um regime de livre-iniciativa. Notar que Tavares Bastos, cultor da obra de Tocqueville, era como ele um cultor da liberdade e jamais, em sua curta e prolífica vida, se associou a projetos autoritários em defesa de suas posições doutrinárias.

Como se sabe, o seu grande antagonista na publicística brasileira foi Oliveira Vianna, um cultor da obra do visconde de Uruguai, discípulo do estadista Guizot, especialista em Direito Administrativo e ministro de Estado sob o regime da Restauração na França, das primeiras décadas do século 19. Nas pegadas de Guizot e do visconde de Uruguai, Oliveira Vianna mobilizou sua crítica ao regime da Primeira República em torno de dois grandes eixos: a crítica da descentralização – tema maior de Tavares Bastos, que lhe dedicou seu importante ensaio A Província – e do idealismo constitucional na forma em que foi arquitetada a primeira Constituição republicana, em 1891, sob a inspiração de Ruy Barbosa.

A Revolução de 30 atestaria o fracasso da experiência constitucional anterior, com o retorno às políticas de centralização administrativa, herdadas do Império, e a partir dela o Estado passa a exercer de modelagem da sociedade civil por meio não só da legislação, como de práticas administrativas. A modernização do País torna-se o eixo orientador das ações estatais; os militares fornecem quadros qualificados e de suas lideranças são selecionados muitos dirigentes das empresas estatais que então são criadas para o esforço da industrialização, são recrutados do seu meio; não se pode falar da Petrobrás, talvez a mais estratégica das estatais, sem o papel decisivo da corporação militar na sua criação. No desbravamento do hinterland, com que se começou a incorporação do oeste ao processo de modernização capitalista, somente concluído no recente regime militar com as estradas que abriram os sertões à ocupação do que viria a se tornar o agronegócio e a pecuária de hoje, essas foram obras que contaram com sua participação, inclusive na política de colonização levada a efeito naquela região, conforme registra a bibliografia especializada.

Tal história de construção do capitalismo brasileiro, que conheceu momentos épicos, como, entre outros, as jornadas do marechal Rondon sertão adentro e a construção de Brasília, não conheceu Henry Ford e Nelson Rockefeller, que aqui não encontrariam território fácil para prosperarem. Nossos heróis empreendedores não vieram do mercado, salvo honrosas exceções, mas de agentes do Estado, como sanitaristas, engenheiros e militares, não se podendo omitir os cientistas e técnicos que criaram a Embraer e a Embrapa. Nesse sentido, é quase assustador que nosso ministro da Economia, que jamais produziu um prego, ouça sem protestar declarações inóspitas à rica História do País de um ideólogo capaz de subir nas tamancas e chamar de idiota um general do Exército Brasileiro, aliás, atual vice-presidente da República.

Outra peça forte de sustentação da tradição brasileira é a sua magistratura, cuja história está bem descrita pelo historiador José Murilo de Carvalho em A Construção da Ordem. A Regência, com sua política de descentralização, tinha exposto o País a rebeliões que ameaçavam a unidade territorial, objetivo estratégico do Estado imperial, que tinha braços curtos, na caracterização do visconde de Uruguai, sem ter meios de alcançar os longínquos rincões, confiados aos poderosos locais, que ignoravam as políticas e as leis do poder central, favorecendo a emergência do caudilhismo como na América hispânica, perigo maior a ser evitado. O remédio heroico para esses males foi a criação de uma magistratura de Estado, desvinculada dos poderes locais, que agora passariam a conhecer o braço longo do Estado.

O enraizamento do Judiciário aprofundou-se na vida social com a modernização que nos trouxeram, depois da Revolução de 30, a Justiça do Trabalho e a Justiça Eleitoral, ambas hoje inerradicáveis, pelas nossas circunstâncias, do nosso tecido institucional.

Por fim a Igreja Católica, mas essa tem 2 mil anos, é uma pedra que não se remove. E não cabe no bico do ideólogo.

Saudade da tirania em ursos e humanos

É difícil associar Donald Trump a Miguel de Cervantes, e mais difícil ainda associar qualquer expressão verbal do presidente americano ao estilo de “Dom Quixote”. Ainda assim, esta semana, o ocupante da Casa Branca falou de moinhos de vento com um grau de desvio da realidade só comparável à do cavaleiro fictício assombrado pelas gigantescas pás rodantes encontradas no caminho.

Foi num discurso para o Partido Republicano que Trump nomeou as turbinas de energia eólica — os moinhos de vento dos dias de hoje — como o mais novo inimigo da propriedade privada, da saúde humana e da vida animal. Numa sucessão de enunciados fáceis de serem repetidos e tomados como verdades por ouvidos crédulos, ele afirmou: “Se você mora perto de um moinho destes, a sua casa passa a perder 75% do valor”, “Os moinhos geram verdadeiros cemitérios de aves”, “Alguém também me disse que o ruído dos moinhos provoca câncer”.

Havia um emaranhado de interesses por trás dessa nova trincheira, sustentada na determinação de nada ceder a políticas ambientais de energia não fóssil. Havia também rancor pessoal: quatro anos atrás Trump fora condenado a aceitar a instalação de várias dessas odiadas turbinas eólicas nas proximidades do seu campo de golfe de Aberdeen, na costa da Escócia.

Mas o que inquieta, no caso, é a sedutora simplificação verbal de questões complexas como a dos muitos impactos de geradores eólicos, alvos de estudos e levantamentos permanentes mundo afora. Condenar o seu uso, assim como o de vacinas, é treva. Simplificações e reducionismos têm alto potencial multiplicador em tempos de medo.

Pelo menos neste quesito, o presidente Jair Bolsonaro ainda é um discípulo pouco promissor de Trump. Mesmo para seguidores convictos, torna-se difícil alinhar o passo quando o Mito brasileiro embaralha palavras e gestos, como na recente viagem a Israel “...Não interessa quem está na frente ou atrás, se é maior ou menor, se é magrinho ou gordinho, o importante é que quem está atrás confia em quem está na frente. E eu, que estou na frente ou no meio, confio em quem está na frente. Isso desperta a confiança entre nós...”, discursou para uma plateia de atônitos empresários. Já em território nacional, mais à vontade, Bolsonaro esclareceu não ter nascido para ser presidente, apenas para ser militar. Poderia ter avisado antes.

Vive-se tempos em que o ministro da Educação anuncia para 209 milhões de brasileiros a necessidade de mudanças no conteúdo de livros didáticos para deletar a existência do golpe militar de 1964. Tempos em que o americano Steve Bannon, guru do nacionalismo ideológico de Trump e Bolsonaro, proclama que o vice-presidente deste mesmo Brasil deveria renunciar. Tempos em que a sociedade como um todo parece tatear para encontrar alguma verdade.

Momento oportuno para ler a obra do repórter polonês Witold Szablowski intitulada “Dancing Bears: True Stories of People Nostalgic for Life Under Tyranny” , sobre povos e pessoas nostálgicas de regimes tirânicos. Aterrador e original, o livro é dividido em duas partes. Na primeira, o jornalista descreve a trajetória de ursos mantidos em cativeiro para uso pessoal e circense na Bulgária, até a posterior alforria e difícil adequação à “liberdade” em reservas animais. A segunda parte descreve o cotidiano de vários países da antiga órbita soviética em sua transição do comunismo à democracia.

É fascinante a história dos ursos dançantes revisitada pelo autor. Por tradição secular só interrompida com a implosão do comunismo, famílias de ciganos assentadas na Bulgária domesticavam filhotes de ursos e ensinavam-nos a dançar em condições cruéis. Com as duas patas traseiras pisando em chapas de metal quente, o resto do corpo permanecia erguido. Eram puxados pelas ruas das aldeias por uma corrente que lhes atravessava as narinas, parte mais sensível do animal, e exibidos em feiras, farras e labutas. Aprenderam a viver em condições humanas, comendo pão e bebendo álcool, e eram submetidos a trabalhos contínuos, roubando-lhes a inclinação natural à hibernação no inverno. Desaprenderam a ser ursos. Foi extremamente difícil ensinar liberdade a animais que jamais foram livres. Alguns desses ursos chegavam a erguer o corpanzil para equilibrar-se em duas patas quando se deparavam com humanos. Tornaram-se nostálgicos da tirania, assim como os personagens da segunda parte do livro.

Alegoria ou parábola, uma edição brasileira da narrativa de Szablowski seria bem-vinda.

domingo, 7 de abril de 2019

Gente fora do mapa

Crise na Argentina leva 2,7 milhões à pobreza em seis meses 

Das bizarrices e das mentiras

O que é espantoso neste governo é como ele é capaz de perder o próprio tempo e o nosso. Bizarrices, debates ociosos ocupam as horas e consomem energias que deveriam estar dedicadas ao esforço de enfrentar os inúmeros problemas que o país tem. Perder tempo quando se tem tanto o que fazer é ruim. Mas são as mentiras que mais ameaçam. Se a ditadura foi ditadura, se o Hitler era de direita ou esquerda, se é melhor ir aos bancos para saber o número de desempregados em vez de consultar o IBGE, se o diálogo do presidente com os partidos é velha ou nova política. Esses são exemplos de temas pautados por este governo. Parecem só inutilidades, mas são, muitas vezes, mentiras perigosas.

O presidente dizer que não se arrepende de ter feito xixi na cama com cinco anos é bizarro. Quando ele compara esse ato infantil involuntário com a defesa que fez na vida adulta de fechamento do Congresso passa a ser ameaça. Ele nunca soube dar peso às próprias palavras, mas exibir, como presidente, essa desordem no sistema de valores é assustador.


É preciso saber separar. De tudo o que fez, falou e provocou na última semana, a mais perigosa é a revisão do passado. Quem diz que não houve golpe nem ditadura no Brasil não está provocando polêmica, está mentindo. Algumas questões da História comportam interpretações, outras, não. Esta é uma república que já viveu dois graves e longos ciclos autoritários.

Um regime que fechou várias vezes o Congresso, interferiu no Judiciário, suspendeu garantias constitucionais, impôs uma constituição autoritária, cassou, prendeu, torturou, matou e ocultou cadáveres de opositores, proibiu estudante de estudar, suspendeu eleições, censurou a imprensa é uma ditadura. Não cabe relativizar. É fato absoluto. Relativa é a tendência política de cada um. O presidente Bolsonaro gostou do período, acha que foi um bom momento, e que os atos do regime não foram crimes. Cada um é livre para ter a própria opinião. Pode gostar ou não. No caso de um presidente da República, essa preferência tem que pôr em alerta as instituições.

A discussão não é apenas bizantina, não é mais uma esquisitice do governo, nem deve ser vista com a condescendência que se dedica aos loucos. Na quarta-feira, Vélez Rodriguez falou em mudar livros escolares. A ideia de impor aos jovens uma versão mentirosa dos fatos históricos é criminosa e ataca a ordem constitucional. Tratar como sendo mais um sintoma de sandice pode ser o pior risco. A queda do ministro não resolve o problema, porque a ideia pode sobreviver a ele.

A revisão histórica em relação ao nazismo é horripilante, porque é a tentativa de reescrever uma das páginas mais dolorosas do século XX: o holocausto dos judeus na Alemanha de Hitler. Não se brinca com questão de tal gravidade. Relativizar o que houve é o primeiro passo para esquecer o que jamais pode ser esquecido.

Na extraordinária capacidade de o governo nos fazer perder tempo, apesar da agenda lotada de questões urgentes, há uma enorme dose de falta de noção. Dias e dias foram perdidos com ofensas em redes sociais de pai e filhos a potenciais aliados na agenda econômica, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. As lutas travadas entre olavetes e não olavetes, os tuítes mal escritos, insensatos e agressivos dos filhos do presidente, a criação de entidades desconhecidas do mundo real são exemplos do mais puro desperdício de tempo.

O perigo é o país se cansar de tanto assunto sem sentido que o governo traz à tona e deixar de reagir com a veemência necessária àquelas questões que realmente nos ameaçam. Intervir na metodologia do IBGE, reescrever livros de história, deixar a educação à deriva, fazer apologia de crimes políticos passados são riscos graves contra os quais o país precisa se proteger.

Quem foi eleito governa durante o seu mandato, cumpre sua agenda, monta sua aliança, nomeia os ministros, tenta passar no Congresso as medidas que acha relevantes para seu projeto. Esse é o jogo democrático. Quem foi eleito não vira dono do país. As instituições precisam estar atentas aos perigos reais que podem estar atrás de uma frase sem noção, de um ato descabido, uma leviandade, uma mentira que se tenta impor como verdade. A democracia em tempos modernos não tem morte súbita. Morre aos poucos.

Frustrações de 2019 podem levar país à fadiga de um ajuste econômico que nem houve

“Fadiga de ajuste” é o nome elegante que se dá ao fim da paciência com o corte de gastos públicos de governos com dívidas excessivas. O Brasil está no quinto ano de um ajuste que não houve e no sexto ano do que se pode chamar de depressão, na falta de termo melhor.

Caso houvesse algum crescimento econômico, igual ou maior que 2,5% ao ano, o custo do ajuste talvez fosse em parte compensado por renda e emprego.

No entanto, o estoque de estrago socioeconômico é muito grande, o ajuste no Brasil ainda está para começar, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) deste ano tende a 1,5% e começa a se discutir se 2,5% é uma estimativa realista para 2020.

Talvez tenha havido paciência e esperança no fim de 2018 por causa da eleição, como de costume, e porque muita gente acha que, “acabando a corrupção”, haveria dinheiro. Não haverá.

Há é nova frustração: baixa da confiança econômica, desprestígio crescente de Jair Bolsonaro e uma piora das condições financeiras que vai começar a incomodar, em breve, “se persistirem os sintomas”.

Na “fadiga de ajuste”, a irritação social, econômica e, enfim, política provoca a suspensão ou o retrocesso do programa de ajuste fiscal (o plano de levar o governo a gastar menos do que arrecada, o bastante para fazer com que, em algum momento, a dívida pública comece a cair). Mas não houve ajuste ainda.

O gasto federal apenas parou de aumentar. Está no mesmo nível de 2014, final de Dilma 1. Como proporção do PIB, é maior. O que encolheu foi aquela despesa que sobra quando se pagam Previdência e salário dos servidores.

O déficit primário ainda é enorme e não deve ser zerado antes de 2021. Depois disso, seria preciso ainda fazer poupança a fim de abater a dívida.

Se vier de fato ajuste, as aposentadorias ficarão para mais tarde e muitos benefícios previdenciários terão seu valor contido ou reduzido. O salário mínimo deve ficar estagnado, em termos reais, por um par de anos, pelo menos. Dificilmente o gasto em educação e saúde, per capita, vai aumentar, sendo otimista. Não vai haver ampliação de outros programas como o Bolsa Família.

Caso as concessões de infraestrutura para empresas privadas tenham muito sucesso, as obras em estradas, ferrovias etc. começarão de modo mais notável apenas em fins de 2020.

Portanto, há motivos plausíveis para uma “fadiga de ajuste” ou, pelo menos, para o fim da paciência de muita gente. Difícil é saber como o desespero viria a se manifestar e o que se vai fazer politicamente do assunto. Vão surgir ideias, com apoio político, de mudar o programa econômico vitorioso desde o processo de deposição de Dilma Rousseff?

Em caso de retrocesso na arrumação das contas públicas, haveria crise recessiva. Suponha-se que o ajuste prossiga. Alguma irritação popular de fundo tende a permanecer, pois nem haverá crescimento suficiente tão cedo nem derrubada do programa “liberal”, “austericida”, de “consolidação fiscal”, “reformas”, o nome que se dê.

Ou o povo vai se escorar na fé, na revolução moral? Maluquices sempre podem acontecer. A Venezuela faminta está sendo reduzida a pó e não explodiu.

Uma revolta popular é sempre imprevisível. Sem esse tumulto furioso, é possível que o Congresso tenda à inércia, ainda mais porque será cada vez mais pressionado pela elite econômica a fazer o ajuste.

O desgosto vai aparecer nas urnas de 2020? Com um voto ainda mais à direita ou de desconfiança em quem foi eleito em 2018? Algo pior?

Os 100 dias de governo Bolsonaro em versos

Cem dias sem glórias

Na sexta-feira, Jair Bolsonaro refletiu em voz alta sobre os primeiros meses no poder. “Desculpem as caneladas. Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar”, disse. Diante de uma plateia de servidores, ele emendou outra inconfidência: “Eu às vezes pergunto, olho para Deus e falo: ‘Meu Deus, o que é que eu fiz para merecer isso?’ É só problema!”.

Se Ele for mesmo brasileiro, já deve ter se cansado de ouvir essa pergunta nos últimos tempos.

Bolsonaro está prestes a completar cem dias no Planalto. Ainda é cedo para julgar o governo, mas já ficou claro que o presidente não estava preparado para o cargo.


O presidente passou os últimos 28 anos no Congresso, quase o dobro dos 15 que viveu nos quartéis. Dedicou sete mandatos à fabricação de polêmicas e à busca incessante pelo confronto. A vocação para a guerra o ajudou a se eleger, mas tem se revelado um obstáculo para governar.

Até aqui, o capitão já abriu fogo contra adversários reais e imaginários. Bradou contra o socialismo, atacou países vizinhos, ofendeu parceiros comerciais e brigou com políticos que se dispunham a apoiá-lo.

Um deles foi o presidente da Câmara, que revidou as provocações com derrotas amargas para o governo. Num dos capítulos do bate-boca, ele disse que Bolsonaro “está brincando de presidir o Brasil”. Não é o único a fazer o diagnóstico.

Além de manter o tom belicoso da campanha, o presidente permitiu que a Esplanada virasse um parque de diversões da extrema direita.

Nos episódios mais caricatos da disneylândia olavista, a ministra das Mulheres disse que as meninas deveriam vestir rosa e o ministro das Relações Exteriores prometeu libertar o Itamaraty do “marxismo cultural”. No mais perigoso, o ministro da Educação ameaçou mudar os livros didáticos para exaltar o golpe de 1964.

O Planalto dá aval às maluquices quando o presidente reverencia um guru desbocado e a Secretaria de Comunicação divulga vídeo apócrifo com elogios à ditadura.

As confusões da largada produziram um desgaste precoce no governo. A popularidade do presidente despencou 15 pontos, e o mercado financeiro começou a trocar a euforia pela cautela. As previsões para o PIB deste ano caem há cinco semanas seguidas, de acordo com o boletim Focus do Banco Central. Na edição passada, o índice estreou abaixo dos 2%. O relatório é anterior ao tchtchucagate, que expôs o pavio curto do ministro Paulo Guedes e a falta de articulação para defendê-lo na Câmara.