sábado, 7 de novembro de 2015

Unipensemos enquanto é tempo

Com a crise das commodities desencadeada pela sucessão de mordidas e assopros da China ha uma nova onda de fusões e aquisições entre os gigantes globais do agronegócio. Logo logo haverá ainda menos vendedores dos insumos necessários à produção do que o mundo come e menos compradores do que suas vítimas conseguirem produzir suando de sol a sol nas lavouras do mundo do que os já muito poucos que chegaram vivos até aqui.

São esses “campeões internacionais” que decidirão doravante a que profundidade você terá de mergulhar em seu bolso para evitar a única outra “escolha” que restará a sua antiga majestade, o consumidor, que será pechinchar com seu próprio estômago…

Na área de saúde aqui mesmo neste “país de todos” houve 29 operações de fusões e aquisições desde a abertura do setor aos estrangeiros animadas pelas últimas desvalorizações do real.

Se você está entre os famigerados 99% é provável que o SUS acabe sendo a parte que te cabe nesse latifúndio…

Para onde quer que se olhe é a mesma coisa: sinucas. Estas são só duas “chamadas” catadas a esmo nas primeiras páginas dos jornais de hoje. Todos os dias ha diversas desse genero tratando rigorosamente de todos os setores da economia em todo o mundo. Ha 30 anos ininterruptos, desde que a internet conectou os mercados de consumo e de trabalho de todos os “estados unidos” aos de todas as “chinas” da vida, têm havido recordes sucessivos de “fusões e aquisições” como aquelas que, ainda no longínquo século 19, fizeram os sempre execrados “capitalistas ianques” se levantarem contra os “robber barons” e instituir a unica legislação antitruste efetiva que o mundo já viu e que, por algumas décadas, de fato pos a classe operária mais perto do paraíso.


Agora tudo isso, cada vez mais, é passado. E o que embalou esse retrocesso foi o “duplipensar” dos reacionários ditos “progressistas” de sempre. George Orwell, que cunhou a expressão na sua anti-utopia “1984“, explicava assim o seu significado:

“Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza máxima: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra ‘duplipensar’ era necessário usar o duplipensar“.


Cabe, portanto, com os fatos frescos como estão ainda, unipensar enquanto é tempo e registrar os devidos direitos autorais:

Ninguem conseguiu por para rolar uma onda de desnacionalização mais completa e devastadora da economia brasileira que o nosso mais radical partido nacionalista no poder; ou orgia mais desenfreada para bancos e “rentistas” que os nossos mais renhidos “anticapitalistas“; ou ainda, tsunamis de privatizações compulsórias a preço de banana mais vis que os nossos mais ferrenhos defensores de uma economia estatizada.

Ninguem jamais promoveu processo mais amplo, geral e irrestrito de proletarização da classe operária planetária que a “vanguarda internacional do proletariado” esparramando universo afora a miséria dos “paraísos da classe operária“.

Assim é que de fato está sendo.

Como se vê


Nosso Judiciário é caro e não se reverte em serviços prestados. Ele não se vê como prestador de serviço público
Luciana Gross Cunha, coordenadora do Centro de Pesquisa Jurídica Aplicada da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo

Mar de lama: literal e figuradamente


O rompimento de duas barragens de rejeitos tóxicos de uma mineradora nos arredores de Mariana, em Minas Gerais, produziu uma catástrofe de dimensões apocalípticas. Ou bíblicas, já que as Escrituras são ao mesmo tempo cosmorrelato e meganarrativa onde tudo é superlativo, extremado, incomensurável e transcendental.

Cunhada há cerca de 60 anos – em 1954, antes, durante e depois da tentativa de assassinato do jornalista-deputado Carlos Lacerda – e injustamente imputada ao presidente Getúlio Vargas, a expressão “mar de lama” saiu das manchetes dos vespertinos para o vocabulário político, acolhida pela historiografia e pela retórica forense. Resgatada pelas revelações do escândalo do mensalão (2005), voltou a ser usada na cobertura do petrolão (2014) e também agora, na palhaçada parlamentar protagonizada por Eduardo Cunha, a incrível história de um finório que já conseguiu abalar a República e daqui para a frente só poderá produzir algo muito pior.

Eduardo Cunha possui um extraordinário efeito tóxico e maculador – espalha sujeira e emanações por onde passa: poluiu as figuras-chave do seu partido, o PMDB; manchou indelevelmente o PT, com quem tentou se entender para proteger a presidente Dilma Rousseff; sujou e rebaixou o empertigado PSDB, que tenta animá-lo a apressar o pedido de impeachment; contaminou perigosamente a imagem do Congresso; e, com suas diabólicas maquinações, conspurca não apenas os correligionários evangélicos, mas a própria mensagem espiritual da religião, convertendo-a em sinônimo de crueldade e perfídia.
Comparadas com as confessadas roubalheiras praticadas pelos meliantes enroscados na Operação Lava Jato, as denúncias contra Eduardo Cunha poderiam ser avaliadas como irrisórias não fosse a malignidade inerente ao acusado. A presidente da República teme a sua imprevisibilidade, mas o perturbador perfil psicológico, as patologias atenuadas pela fala mansa das aparições televisivas e o tremendo poder de uma autoridade como presidente da Câmara Federal criaram no cenário político brasileiro um personagem único – o homem-bomba.

Pior que um suicida, Cunha é um paranoico capaz de acionar o seu colete com explosivos certo de que sairá incólume da explosão. O problema não é dele, de sua família ou dos amigos. O problema é nosso, porque este é o arquétipo do fanático incapaz de voltar atrás, empurrado pela insana obsessão de seguir em frente.

O mar de lama que enlutou Mariana e o Brasil poderá ser removido, reparado, saneado e servir como advertência aos negligentes e omissos que cuidam da segurança e bem-estar do povo brasileiro. O mar de lama que produziu Eduardo Cunha e ainda o sustenta, embora figurado, metafórico, pode nos empurrar para o abismo.

Apelar para quem?

Em tempo de crise, é natural que pessoas e instituições mudem de postura. Uns cortando gastos, outros trabalhando mais. E vice-versa. Não há empresa ou trabalhador que deixe de aplicar essa lição. Registra-se, porém, a maior das exceções: o Congresso.


Há anos que em tempos de suposta normalidade deputados e senadores optaram por esticar os fins de semana, deixando Brasília às sextas e retornando nas segundas-feiras. Sessões, desde cedo e até de noite, só das terças às quintas. Como a moda pegou e ninguém reclamou, logo ampliaram a folga, fixando as sessões efetivamente produtivas entre as terças de noite e as quintas até meio-dia.

É o que vinha prevalecendo até pouco. Plenários lotados e projetos discutidos e votados, só no período referido. Fora dele, o quorum transfere-se para os aeroportos, as aeronaves e os Estados onde Suas Excelências pousam para gozar do ócio misturado ao contato com suas bases. Pois não é que já estão rifando as terças-feiras? Logo as manhãs das quintas também ganharão a estratosfera, sobrando apenas um dia entre sete, as quartas-feiras, para dedicação às tarefas fundamentais.

São lembranças fornecidas pelos livros de História os tempos em que o Congresso trabalhava de segunda a sábado ou, mesmo,de terça a sexta.

O problema é que vivemos uma crise dos diabos. Seria obrigação de Câmara e Senado estar buscando soluções para os impasses e os retrocessos econômicos em ritmo bem mais acelerado do que durante a rotina. Não é o que se verifica. Esta semana, por exemplo, quantos projetos foram deixados para a próxima? Até mesmo com a desfaçatez de marcarem não para a terça, mas para a quarta-feira que vem, decisões que precisariam ter sido tomadas faz tempo, como a da repatriação de dinheiro sujo dos paraísos fiscais para o tesouro nacional.

Dão a impressão, os parlamentares, de que nada demais vai acontecendo num país onde o desemprego avoluma-se em massa, os impostos, taxas, tarifas e contribuições sobem sob a inação legislativa, o cuto de vida eleva-se enquanto as greves se multiplicam e a indignação popular parece prestes a tornar-se reação incontrolada. Era para o Congresso estar buscando soluções até nos fins de semana, ainda que o ajuste fiscal proposto pelo governo permaneça dormindo nas prateleiras e que nem o PMDB consegue transformar em projetos de lei as propostas contidas num documento voltado para o futuro.

Houve tempo em que se aventou a hipótese de o então senador Pedro Simon ser lançado para presidir a casa. Ele declinou, afirmando que nem sua mulher, se fosse senadora, votaria nele. Porque sua primeira proposta seria estabelecer sessões deliberativas todos os dias da semana, inclusive sábado e, se necessário, aos domingos.

Em suma, o Congresso comporta-se como se o Brasil não estivesse no pior dos mundos, sempre adiando para mais tarde a adoção de fórmulas essenciais capazes de afastar a crise. Como o governo também prefere a solução de andar devagar, quase parando, sobra a pergunta: apelar para quem?


O lucro dos bancos continua crescendo enquanto o país despenca. O braço do governo não é tão longo nem bastante rígido para abrir os cofres-fortes

Até quando?

Se a crise política em curso assume, com frequência, a mutabilidade de um caleidoscópio – uma hora o impeachment parece iminente; a seguir, afastado -, o mesmo não se pode dizer das outras duas: a econômica, em marcha contínua e implacável; e a policial, centrada na Lava Jato, em que, como numa caixa de lenços de papel, uma denúncia puxa a outra, e mais outra, sucessivamente.

A lógica é que essas crises acabem se fundindo, num big bang institucional, não obstante o empenho do governo em mantê-las separadas. Para tanto, joga as fichas que possui – e não há dúvidas de que ainda as possui – no controle do Judiciário, do Congresso e do Ministério Público. Mas os escândalos superam a capacidade de se ocultá-los. Há mais lixo que tapete para encobri-los.

A semana que se encerra representou um recuo em relação à anterior. O único dado concreto foi a instalação da comissão de ética da Câmara que julgará o deputado Eduardo Cunha. Este continua sentado sobre o pedido de impeachment, sem sinalizar o que fará.

O governo, de um lado, manobra para salvar Cunha; de outro, estimula o PT e seus aliados a atacá-lo. Os petistas “escandalizam-se” com Cunha e suas contas secretas e, simultaneamente, prometem mais uma moção de desagravo ao seu ex-tesoureiro João Vaccari, preso em Curitiba, por participação no escândalo da Petrobras. Comparado a Vaccari, Cunha é um escoteiro-mirim.

No TSE, que definirá as contas da campanha de Dilma - abastecida, segundo denúncias de alguns de seus financiadores, com dinheiro roubado da Petrobras -, seu presidente, ministro Dias Toffoli, decidiu, enfim, a quem entregar a relatoria: à ministra-companheira Maria Theresa, que, alinhada com o Planalto e derrotada por Gilmar Mendes em plenário, se opunha à investigação.

O normal é que Toffoli a entregasse ao ministro Gilmar Mendes, responsável pelo vitorioso pedido ao Ministério Público de abertura de investigações. Mas normalidade tem sido matéria escassa nestes dias. Dilma não queria Gilmar – e Toffoli (e Maria Theresa) não tem o hábito de contrariá-la.

Numa operação policial que corre paralela à Lava Jato, a operação Zelotes, que investiga casos de mega sonegação fiscal na Receita Federal – e que põe sob suspeita um dos filhos de Lula, Luis Cláudio, e alguns personagens do Petrolão -, deu-se outro recuo.

A juíza que cuidava do caso, Célia Regina Bernardes, da 10ª Vara Federal – e que teve a audácia de mandar apreender material no escritório do filho de Lula -, foi afastada do caso. Ao juiz Vallisney Souza Oliveira, que estava no STJ, foi entregue a missão. Vallisney tem em seu currículo o arquivamento de processo contra a ex-ministra Erenice Guerra.

A sensação de blindagem geral estabeleceu-se. E o que se constata é que, se o governo fracassa na economia e não domina a Lava Jato, ao menos se sai bem no manejo com os outros dois poderes, Legislativo e Judiciário.

Onde tudo isso vai dar? Um governo sem opinião pública – ou por outra, com uma opinião pública maciçamente contra si -, desmoralizado pela corrupção e sem qualquer projeto para deter a crise econômica, é bem sucedido em cuidar da própria sobrevivência. Para quê? - é o que se pergunta.

O ano está próximo do fim e não há sinais de qualquer desfecho para a crise política – e isso a estica e agrava. A oposição parece acomodada ao processo. Mais uma vez, aposta na decomposição espontânea do governo, como o fez, sem êxito, ao tempo do Mensalão.

Diante do imenso arco de evidências de que o governo cometeu variados crimes de responsabilidade – além das pedaladas fiscais, há o financiamento espúrio da campanha, a roubalheira na Petrobras, os escândalos investigados pela Zelotes, os fundos de pensão espoliados -, há ainda quem pondere que não há motivos para o impeachment.

E, não obstante a responsabilidade direta que a presidente Dilma tem em relação a cada um desses crimes – afinal, é a presidente -, há quem, como Fernando Henrique, faça questão de ressaltar sua probidade pessoal. Baseado em quê?

O nó institucional está dado – e ninguém parece disposto a desatá-lo. É improvável que haja precedente semelhante: povo de um lado, governo de outro. E a ausência de lideranças, dispostas a vocalizar o inconformismo das ruas, cava abismo cada vez mais fundo entre ambos.

A crise econômica, com seu cortejo de mazelas sociais, no fim das contas, dará o desfecho. Mas quando?

Floração no deserto do Atacama

Atacama

O afeto que se encerra

Nas periferias das cidades, a ‘nova classe média’ adquiriu materiais de construção e eletrodomésticos, mas não experimentou mudanças em saúde pública ou mobilidade urbana

O PIB de 2015 apresentará retração em torno de 3%. Há consenso, entre os analistas, de que 2016 conhecerá nova redução do PIB, mas as apostas variam largamente no intervalo de 1% a 3,5%. Na história registrada, só uma vez o Brasil experimentou recessão durante dois anos sucessivos: foi no alvorecer da década de 1930, sob o impacto do crash da Bolsa de Nova York, quando o mundo descia a ladeira da Grande Depressão. Um produto da queda cataclísmica será o cancelamento quase completo das chamadas “conquistas sociais” do lulopetismo.

Os números estão num estudo da Tendências Consultoria Integrada. Entre 2006 e 2012, cerca de 3,3 milhões de famílias ascenderam das classes de renda D e E à classe C, que ganhou o rótulo ilusório de “nova classe média”. No horizonte de 2017, a reversão do ciclo, ritmada pela inflação e pelo desemprego, empurrará 3,1 milhões dessas famílias de volta ao ponto de partida. Segundo Adriano Pitoli, coordenador da pesquisa, “a mobilidade que houve em sete anos deve ser praticamente anulada em três”. Tudo indica que, nas palavras dele, “estamos vivendo, infelizmente, o advento da ex-nova classe C”.

Maria José. Foto: Jair Amaral / EM / D.A. Press
Lula lançou o Fome Zero, em janeiro de 2003, na cidade mineira de Itinga, no Vale do Jequitinhonha. Dez anos antes, na sua segunda campanha presidencial, conhecera Teresa Fernandes Pessoa, que partilhava um cubículo com oito filhos. O candidato pediu-lhe que “rezasse porque, se fosse eleito, iria me dar uma casinha”. Teresa rezou e votou, três vezes, até reencontrá-lo como presidente. Nunca ganhou a casinha, mas obteve o cadastro do Bolsa Família, pelo qual ainda agradece. Agora, contudo, uma reportagem do “Diário de Pernambuco” flagrou-a reclamando das despesas de luz e água, que consomem metade dos R$ 140 transferidos mensalmente pelo programa. Ela não tem outra renda e voltou à antiga prática, quase esquecida, de pedir arroz, farinha e feijão aos vizinhos.

O fenômeno do retorno à miséria lança um jato de luz sobre aquilo que deveria ser descrito como a economia política do lulopetismo. Na tradição do pensamento de esquerda, conquistas sociais decorrem de mudanças econômicas estruturais. Mas, por meio de programas de transferência de renda e políticas de estímulo ao consumo, Lula e Dilma conferiram à expressão uma estreita tradução monetária. Sobre o pano de fundo do ciclo internacional favorável, os aumentos reais do salário-mínimo e das aposentadorias, junto com a expansão do crédito e o Bolsa Família, proporcionaram a dezenas de milhares de famílias uma ascensão social tão rápida quanto precária. Nessa trajetória, encantados pelas luzes do poder, os intelectuais de esquerda rasgaram seus próprios textos teóricos para cantar as virtudes de um modelo orientado exclusivamente por imperativos eleitorais. A Teresa icônica, que volta a se equilibrar na corda bamba da solidariedade dos vizinhos, é uma personificação do fracasso político do lulopetismo e da falência intelectual de seus cortesãos nas universidades.

Nos três mandatos da “era de ouro” do lulopetismo, os serviços públicos permaneceram à margem das prioridades de governo. As “mães do Bolsa Família” ganharam um passaporte para o supermercado, mas as “filhas do Bolsa Família” continuaram excluídas do acesso a escolas de qualidade. Nas periferias das cidades, a “nova classe média” adquiriu materiais de construção e eletrodomésticos, mas não experimentou mudanças nos campos da saúde pública ou da mobilidade urbana. “É bom ver quantos brasileiros sabem enxergar também a metade cheia do copo, e não só a parte vazia!”, tuitou a seus fãs Luiza Trajano, a proprietária do Magazine Luiza, que tem centenas de milhões de bons e sonantes motivos para ignorar “a parte vazia”. Mas é nessa “metade” do “copo” que está fixada a imagem de uma fraude política de dimensões históricas.

No início de 2014, quando a Luiza do magazine difundiu sua mensagem otimista, o IBGE constatou que o peso da indústria na formação da riqueza nacional recuara para o menor nível, desde 2000. A desindustrialização brasileira não provocou, porém, redução significativa do emprego industrial. Atrás da aparente contradição, oculta-se a forte retração relativa da produtividade industrial, que decorre da carência de investimentos em capital fixo e inovação tecnológica. O fenômeno reflete a persistência dos elevados custos logísticos, tributários e financeiros que se agravaram pela política de fechamento comercial. Na base subterrânea da reversão das “conquistas sociais” está uma dramática perda de competitividade da indústria brasileira, que será temporariamente camuflada pela desvalorização cambial. O ajuste fiscal de Dilma e Levy não toca nas raízes da crise, assentadas sobre o lodo ideológico do lulopetismo.

No poder, o lulopetismo deslocou-se sociologicamente dos trabalhadores e das classes médias urbanas para o “povo pobre”, ou seja, na direção das classes D e E em ascensão rumo à “nova classe média”. A reeleição de Lula e os dois triunfos eleitorais de Dilma derivaram da sedução hipnótica exercida pelas políticas de renda, crédito e consumo. Os votos do Nordeste, das regiões deprimidas do Centro-Sul e dos anéis periféricos das metrópoles soldaram a hegemonia lulista. A “era Vargas” durou longos 15 anos, entre 1930 e 1945. Se Dilma sobreviver à borrasca em curso, a “era Lula” completará 16 anos. Contudo, no outono do patriarca, os pobres desertam em massa de sua trincheira.

Na economia, voltamos ao ponto de partida. Na política, porém, o porto original não mais existe. Maurício de Almeida Prado, de uma consultoria com foco na renda baixa, explica que a “ex-nova classe C” adquiriu nos anos gordos, junto com os celulares, uma experiência indelével: “É um novo tipo de classe baixa: mais conectada, escolarizada e, de certa forma, até mais preparada”. Há futuro, Lula, apesar de você.

Demétrio Magnoli 

O mal que insiste em nos habitar


A sociedade brasileira tem assistido nos últimos anos à desconstrução sistemática dos valores políticos que foram propostos para amoldar o novo regime político e jurídico a partir da redemocratização do país. O que está em xeque é a condição de nossa sociedade de se governar e cumprir os fins colimados com as bases do Estado de Direito, pois a corrupção parece espalhada endemicamente em toda a máquina pública, impondo corrosão ao sistema político e administrativo do Estado.

O destino de um povo é delineado a partir de suas experiências, do amadurecimento de sua participação política e, assim, de suas instituições. Mas o retrocesso moral que se está vivendo é alarmante, colocando o Estado brasileiro diante de uma encruzilhada, numa crise profunda de valores e legitimidade institucional.

As últimas gestões do PT, seguindo seu “plano perfeito” de concentração de poder, contribuíram para intensificação de tal processo. Seja pela adoção de aparelhamento do Estado — lançando seus tentáculos hegemônicos sobre o Legislativo e o Judiciário, cooptando-os, corrompendo, adotando políticas populistas direcionadas aos setores humildes da população e interpretando o direito de acordo com seus interesses —, bem como pela negligência moral estampada em denúncias de corrupção, com negativas e minimização declarada de fatos graves. A oposição, por sua vez, segue acuada, intimidada por suas próprias ações passadas e presentes, ligadas igualmente à impunidade e corrupção em seus mandatos, estando simbioticamente vinculadas à participação de políticos destacados no petrolão, no mensalão e em outras negociatas que deveriam combater. Ainda, quando se espera uma posição sensata, diante de situações sociais complexas, assiste-se a notícias de insensibilidade administrativa juvenil, como o fechamento de escolas e viagens paradisíacas com dinheiro público. O mal uso da coisa pública coloca todos numa fétida vala comum.

O Legislativo virou feira livre do chamado baixo clero, desmoralizou-se por aceitar um papel de subserviência ao mensalão, barganhar claramente, aos olhos da sociedade, cargos e ministérios em troca de apoio partidário. Tornou-se um balcão de negócios, emendas e contratos públicos, distanciando-se da população.

O Judiciário, por sua vez, embora seja a única instituição que dá sinais de resistência, entrou nesse jogo sórdido: decide-se em muitas esferas à conveniência do autor e da demanda, descartam-se as normas em razão de valores tortos e justificativas não jurídicas. Alguns membros do Judiciário, para obter promoção, curvam-se à troca de favores e, ainda, como se estivem num Olimpo, tribunais seguem construindo palacetes num país cujas escolas são mal estruturadas; seguem praticando nepotismo cruzado, defendendo privilégios injustificáveis à luz da sociedade, como a aposentadoria por corrupção patenteada pelo CNJ, enquanto o cidadão comum é massacrado quando deixa de cumprir um contrato; compram potentes frotas de carros oficiais e reivindicam auxílio-moradia cujo valor supera o salário da maioria dos brasileiros, num país com grave problema de distribuição de renda e déficit habitacional.


O brasileiro perdeu o pudor, o tipo do “malandro esperto” deu lugar ao “malandro mau caráter”. Seus representantes são o modelo real do descaramento, do “eu não vi”, “eu não sabia”, “fiz, mas tive meus motivos”. Seu sistema judicial foi construído para processualistas habilidosos, com regras flexíveis e extremamente tolerante com malfeitos e mecanismos antipunitivos e protelatórios.

Não se vislumbra, no cenário, nenhuma esperança: todos os setores representativos da República estão enlameados pela corrupção, e a crise de valores parece ser estrutural, como expressão cultural arraigada no corpo da nossa sociedade, desde as relações sociais mais simples — nas escolas, no trabalho, nas empresas — às mais complexas. Os políticos são expressão inequívoca da sociedade que os elege, mas esta sociedade, reflexivamente, age de acordo com o modelo desenhado por aqueles que são seus representantes nos mais altos escalões. E a corrupção parece estar continuamente adensada à cultura brasileira. Não existe espaço para idealismo ou ideologias, bem comum, mas apenas para o interesse próprio e sem freio moral.

É de se acreditar que esse conjunto de denúncias e exposição de crimes seja de fato ponto positivo, uma oportunidade para nosso amadurecimento como sociedade. Mas é inegável que precisamos de uma mudança profunda em nossas bases estruturais e de uma tomada de postura daqueles que se propõem a liderar nosso país. Agora, mais do que nunca, é a hora das pessoas de bem, mas onde elas estão?
Wagner Menezes

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Lula ainda goza com o Brasil

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A grande lição de Justin Trudeau para o Brasil

Aqui e ali a presidente Dilma deixa entrever que não apresentou em campanha o mesmo programa que, supostamente por motivos supervenientes, tem agora de aplicar ao país. E ainda ousa dizer que foi legitimamente eleita, como se a legitimidade de uma eleição derivasse, pura e simplesmente, do número de votos obtidos. A legitimação é obra diuturna e consiste em dar a todos a certeza do que o governante vem fazendo.


Na semana passada, perante o PT e com todas as letras – embora atravessado pelo apelo de apoiá-la de qualquer jeito, para dar a ele a chance de voltar em 2018 –, Lula reconheceu que ela disse uma coisa e que agora pratica outra. Essa seria a origem da crise política, que não se restringe apenas a isso, mas também compõe-se de elementos vários, como a disparidade de pensamentos e atos entre os que supostamente comporiam a “base de apoio”.

Já me referi aqui algumas vezes ao susto que tomei certa vez no meu antigo partido quando alguém, vitorioso em campanha, me declarou: “Não ganha eleição quem não vende ilusão”.

Naquela altura dos acontecimentos, já grassava em nosso país a mania de botar marqueteiros de plantão nas campanhas. De forma que, de um salto, saímos das amarras da Lei Falcão – aquela que só permitia propaganda eleitoral com o retratinho do candidato e umas poucas palavras sobre sua vida – para os agora usuais programas de TV, nos quais minutos preciosos se transformam em moeda de troca para partidos de aluguel se amontoarem à volta de quem quer mesmo entrar para ganhar. Tudo o mais, comícios, debates em colégios ou universidades, visitas a locais de grande concentração popular, o corpo a corpo de antigamente, passou a ser substituído pelos programas gravados de antemão, com cenas geralmente montadas para dar a entender apoio de gente famosa ou de populares, prontos a darem testemunho das maravilhas já feitas pelo candidato. Ademais, o teatro maior fica por conta dos chamados “debates”, em que quase nada se debate, pois, ora o tempo é pequeno demais para o tamanho da pergunta, ora entra em cena o descaramento com que alguns falam sobre o que não conhecem ou fingem saber o que nunca souberam. Quem pode dizer algo que preste em dois minutos, com réplica de um minuto?! Claro que, quanto mais cara de pau é o postulante, mais ele consegue fazer daquele tempo um momento para dizer o que quer, e não o que lhe foi questionado. Paulo Maluf que o diga.

Mas, se aqui as coisas degringolam, no Canadá, o candidato Justin Trudeau teve a coragem de afirmar e reafirmar, antes de os eleitores irem às urnas, que o país terá três anos seguidos de déficit fiscal diante do programa que pretende executar. E seu partido, o Liberal, de centro-esquerda, colheu magnífica vitória, que o levou ao cargo de primeiro-ministro. Que tal começarmos a exigir dos mandatários e dos candidatos dizer “a verdade e tão somente a verdade”?!

Talvez começássemos assim a construir uma cidadania ativa e um governo mais previsível do que o furacão que rodopia hoje sobre todos nós.

O assaltante assaltado

Na América Latina, os regimes militares mandavam queimar os livros subversivos. Nas democracias de agora, queimam-se os livros de contabilidade. As ditaduras militares faziam desaparecer pessoas. As ditaduras financeiras fazem desaparecer dinheiro.

Um certo dia, os bancos da Argentina recusaram-se a restituir o dinheiro aos seus clientes.

Norberto Roglich depositara no banco todas as suas economias para evitar que os ratos as roessem ou que os ladrões as roubassem. Quando foi assaltado pelo banco, o senhor Norberto estava muito doente, porque os anos nunca vêm sozinhos e a sua reforma não bastava para pagar os medicamentos.

Não tinha outra opção: desesperado, entrou na fortaleza financeira e, sem pedir autorização a ninguém, abriu caminho até ao gabinete do gerente. Fechada na mão, empunhava uma granada:

– Ou me devolve o meu dinheiro, ou vamos todos pelos ares!

A granada era de plástico, mas realizou o milagre: o banco restituiu-lhe o seu dinheiro.

Depois, prenderam-no. O procurador sentenciou dezesseis anos de cadeia. Para o senhor Norberto, não para o banco.
Eduardo Galeano

O desgoverno a dois

Dilma e Lula

A solução mais provável da crise brasileira pode ser inesperada

Aqui e no exterior perguntam ao jornalista qual pode ser a solução mais provável da crise, cada dia mais emaranhada e complexa.

E o jornalista encaminhou a pergunta para alguém que está na política há várias décadas, que já foi presidente da República e que dessa vez preferiu o anonimato.

Sua resposta, por escrito, foi: “Estamos no meio de uma crise nacional que ninguém sabe como vai acabar”, e acrescentou, enigmático: “A solução mais provável é o inesperado”.

Afirmou ainda: “De qualquer forma, este não é o Brasil que nós sonhamos”.


Confesso que a palavra que me impressionou na boca de um político com tanta experiência de voo foi “inesperado”.

Como o Brasil é uma democracia, com uma Constituição sólida da qual ninguém pode escapar sem romper as instituições do Estado, essa possível solução inesperada deveria acontecer dentro desses limites constitucionais: o Governo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Qualquer solução imprevista deveria vir de um deles para que não possa ser condenada como um golpe.

Tal como a crise está configurada hoje, a solução imprevista para a crise por parte do Governo poderia ser apenas a renúncia da presidenta Dilma Rousseff, já que hoje ninguém acredita nela por mais que já tenha sido alvo da oposição.

E o Congresso? Difícil imaginar uma solução por parte do legislativo que não seja a aprovação do impeachment de Dilma, que deveria ser apresentado por um presidente como Eduardo Cunha, execrado pela opinião pública e por todos os democratas do país. Além disso, essa solução está prevista, não seria inesperada.

Sobraria apenas a possibilidade de que o Supremo Tribunal Federal acabasse surpreendendo com uma solução — essa sim, inesperada —, como ocorreu com o caso Collor, e que aponta com sagacidade neste jornal o meu colega Rodolfo Borges — à época, o STF adequou a lei do impeachment, de 1950, à Constituição de 1988, alterando a forma do julgamento no Congresso.

Seria constitucional porque o STF tem poderes especiais para isso, e seria ao mesmo tempo inesperada e não golpista porque hoje, apesar de todos os problemas e críticas, a mais alta corte do país ainda possui o último halo de credibilidade por parte da opinião pública — 75% dela não confia nos partidos políticos nem no Congresso, e dá à presidenta da República e ao Governo as migalhas de uma das mais baixas aprovações da história da democracia.

Qualquer outra solução passaria, inevitavelmente, pela humilhação de um golpe, seja qual fosse sua cor política. O golpe militar está completamente descartado.

Restaria, e talvez fosse o que preocupava o ex-presidente ao afirmar que a solução para a crise poderia ser inesperada, que na próxima eleição presidencial, seja agora ou em 2018, a sociedade, cansada dos políticos profissionais, apoiasse algum candidato “inesperado” com a incógnita de que pudesse se tratar de algum “aventureiro”, como aconteceu e está acontecendo em alguns países, que em vez de resolver acabasse complicado e agravando a crise política.

De acordo com a maioria dos analistas, a crise começou sendo econômica e estrutural, porque o que está esgotado é o modelo, e acabou se complicando politicamente.

Nessa situação, e já que a crise econômica — seja ela mais grave ou não que a política — não se resolveria sem antes resolver a crise política, o mais provável é que essa tarefa hoje realmente imprevisível e inesperada possa acabar caindo nas mãos do STF, que já foi capaz neste país de resolver positivamente outras crises iguais ou mais difíceis em que a opinião pública era mais exigente e aberta que o Congresso, como em relação ao aborto, as células-tronco, ocasamento entre pessoas do mesmo sexo e agora sobre a liberação das drogas, todos estes temas tabu para o Congresso e o Executivo.

Não é impossível, portanto, que a crise possa realmente acabar tendo um fim imprevisível e cuja solução esteja em grande medida na pressão exercida pela sociedade como um todo sobre os três poderes da Nação.

Tudo isso porque o Brasil dessa crise não é o mesmo país das crises anteriores. É um Brasil mais dividido e exasperado com os poderes públicos, porque o país e a sociedade estão numa luta para sair da apatia e da fictícia unanimidade do passado e começaram a enfrentar os desafios da modernidade. Estamos diante de uma sociedade que não apenas quer ser ouvida, mas também participar na solução da crise cujas consequências econômicas e sociais já começam a penalizar fortemente as famílias.

A política funil de afinidades

É um dos muitos ângulos da questão. Pensa aí. Sozinho ninguém faz verão, muito menos uma revolução. Tem de ter pelo menos alguma da tal afinidade, que pode até ser tênue, mas precisa existir de verdade, e aí a gente vai, se junta, atraído, e atraindo-se entre si. Isso vale para o amor. Isso vale melhor ainda para a política. Só que nela precisamos arregimentar mais gente.

Suponha que você amanhã de manhã acorde e, antes de levantar-se, se espreguiça e pensa: “Hoje, é hoje! Vou me juntar com quem mais quer melhorar o país”. Para que lado você vai? Pois é. Estou com esse problema. Tem muitas coisas que, penso, são indispensáveis para que o Brasil saia dessa faixa de caretice e esbórnia que nos assola. Mas tem um monte de gente que conheço que vai ficando na estrada cada vez que um item – digamos, mais sensível – desses, se apresenta.

Estamos fadados a nos juntarmos só em montinhos tal está o esfacelamento cultural, ético e social dessa terra que tem palmeiras e onde canta o sabiá. Daí ter constatado por que estamos parecendo caranguejos bêbados na orla da praia esperando a próxima onda. Ou avalanche.

Percebeu onde quero chegar? Igual a mim você também não está acreditando que já passaram mais de quinze dias de um prazo razoável para que o Eduardo Cunha se pinicasse, mas ele está ainda ali, com sua empáfia, e pior: com apoio de umas pessoas que pela lógica deveriam estar longe quilômetros dele? Pessoas que deveriam estar ao nosso lado. Vê só o número de pretensos oposicionistas que a gente vai riscando da lista. Agora soma os que a gente risca porque tropeçam diante das discussões sobre relações homoafetivas, descriminalização, aborto, família, para citar algumas barreiras ou o que pensam – se é que pensam – sobre clima, globalização, paredes pintadas com cor, minissaia, o bacon, ou flores do campo.

Vamos lá, você acordou e insiste que vai se juntar com quem quer melhorar o país. Melhor: já sabe que há quase um milhão de pessoas protestando nas ruas do seu país. Vai para sua avenida e quando chega lá tem de escolher ao lado de quem vai agitar sua bandeira: tem maluco de farda clamando por militares (mas você passou por isso e sabe a treva que é), imberbes garotos buscando projeção (você já viu um desses caçando marajás e não deu certo), contra Cunha, a favor, gritando bobagens desconexas como “a nossa bandeira nunca será vermelha”, que nunca entendi de onde veio a mixórdia dessa ideia.

Conselho: sai daí meio à francesa sacudindo sua bandeirinha, assobiando com o seu cartaz.

Tem uma turma que só xinga e usa termos chulos pesados contra os inimigos, mas que em si – justamente porque os usam neste momento – já definem seus pensamentos e posição: vaca, puta, sapatão se é mulher o alvo; veado, corno, quando é homem. Você é educado, se manda daí!

O melhor mesmo é procurar e achar algum aglomerado mais feliz que esteja sambando, cantando o hino a capela, mostrando a vida para o filho bebê ou para o cachorrinho que também foi no passeio vestido com a camiseta da seleção.

Não adianta a gente ficar esperando o grupo ideal, porque – sinto muito informar – ele não existe. Um grupo de afinidade total. Está cada um para um lado e Deus por todos; já que lhe deram cidadania, agora também Ele se envolveu.

Parece porta de metrô, o pessoal querendo entrar e outro sair ao mesmo tempo pelo mesmo buraco. Vamos aos poucos buscando nossas afinidades para nos afinar, emparelhar, seja o que for. Compartilhar, porque agora nem se divide mais nada, só se compartilha. Êita.

“Eles”, os outros, esses que para tudo ou não sabiam ou não viram, ou parecem matracas repetindo discursos que nossos olhos desmentem, que nos atrasam em pelo menos uma década, estão sendo localizados e desmascarados. Ainda temos amigos lá entre eles, mas como os consideramos pessoas inteligentes creio mesmo que chegará a hora que verão que não podem mais sustentar esse apoio que surpreendentemente ainda demonstram. A demora piora tudo.

Vamos começar do começo. Para ver se engrena. Vamos passear nas ruas a fim de quem sabe encontrar mais nossos afins. Em química a afinidade aproxima os corpos.

Olha só que interessante. Revolucionar é bom e eu gosto.

Memórias da salvação

Outro dia, escrevendo sobre o comício das diretas em Caruaru, lembrei-me de que no palanque estavam Collor e Lula, entre outros. Naquele momento não poderia prever ainda a importância que ambos teriam no processo democrático. Collor, o caçador de marajás, preparava sua cruzada contra a corrupção. Lula, encarnando a esquerda, falava de ética na política. Ambos os projetos, destinados a combater a corrupção, foram tragados por ela, sem distinção ideológica.

Leio no New York Times que dois políticos do Estado de Albany serão julgados nos próximos dias: Dean Skelos e Sheldon Silver. As acusações soam familiares: enriquecimento ilícito, propinas mascaradas em doações legais, parentes envolvidos. A matéria diz que a cultura da corrupção em Albany será julgada com os dois políticos. Acredito que sim, mas acho difícil suprimir uma cultura apenas com um veredicto.

Albany ainda tem uma pressão corretiva nacional. No caso brasileiro, não se trata apenas da cultura de um Estado da Federação: é de todo um país.


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu administrar a corrupção em seu governo, no sentido de que não evitou os escândalos; mas realizou seus objetivos. Ele próprio, porém, admite um problema sistêmico, a julgar pela sugestão que fez a Dilma e Lula numa viagem à África do Sul. Argumentando com a rejeição popular ao processo político tradicional, propôs uma urgente mudança.

Hoje, confrontados com todo o material que a Operação Lava Jato e outras investigações revelaram, estamos diante de uma situação singular: corrupção alarmante e grave crise econômica.

Diante da inflação e do desemprego crescente, que afetam todos nós, os políticos responsáveis acham que é preciso conversar, buscar uma saída antes que tudo seja engolfado por uma crise social. No entanto, nenhuma conversa, por mais produtiva que seja, pode deixar de lado que a cultura da corrupção está sendo julgada no Brasil. O veredicto final não resolverá o problema, mas certamente será um passo decisivo, tão importante para completar a democracia brasileira como foi aquele momento na década de 1980, quando lutávamos por eleições presidenciais diretas.

Embora a corrupção fosse tema de Collor em 1988 e de Lula em 2002, a revolução nas comunicações, a presença da internet, o avanço dos órgãos investigativos, a cooperação internacional, tudo isso converge agora para fortalecer a transparência. E enfraquecer os salvadores.

Diante da experiência fracassada de Collor e do PT, talvez fosse oportuno refletir sobre a frase de Cioran: a certeza de que não existe salvação é uma forma de salvação, é mesmo a salvação. As pesquisas, todavia, indicam um ângulo favorável aos salvadores. O PT é naturalmente rejeitado pela maioria, mas os opositores também registram altos índices negativos. Uma terceira força, vinda de fora, teoricamente, poderia derrotar a todos.

Na minha opinião, os políticos estão sendo julgados por todos esses anos de democratização, mas também, e sobretudo, por como se comportam no momento em que escândalos e crise econômica se entrelaçam.

Um exemplo da luta contra a cultura da corrupção se dá em torno de um instrumento legal, a delação premiada. É apenas uma lei que reduz penas se a pessoa disser a verdade e reparar seu crime, no caso, devolvendo o dinheiro.

Dilma combateu a delação premiada com uma emoção de esquerda. Lembrou-se dos que delataram os militantes nos anos de chumbo. Suprimiu um pequeno detalhe: que foram torturados para dizer a verdade.

Lula chamou a delação premiada de mentira premiada. Responde com uma piada nervosa diante de tantas evidências de que os depoimentos são verdadeiros. Ignorou que a Lava Jato, com 33 delações premiadas e três acordos de leniência, devolveu R$ 2,4 bilhões ao País.

Existe nas ruas uma certa hesitação em colaborar com a polícia. As expressões alcaguete e dedo-duro têm uma conotação negativa. Tiradentes, com a figura parecida com a de Cristo, teve seu Judas em Joaquim Silvério dos Reis. Para quem vê a democracia apenas como uma etapa é fácil confundir a polícia com repressão política; afinal, todas as instituições visam a preservar o sistema.

Com um viés de esquerda, foi possível transitar de uma luta pela ética na política para defesa da cultura da corrupção. Os empresários querem business as usual, as figuras que sobraram do palanque das diretas ainda devem ter conversas necessárias e a própria crise econômica pode ser superada num par de anos. Mas a sociedade, além das aflições da crise econômica, sente-se lesada por um governo quadrilheiro, desapontada com uma oposição hesitante.

A fratura não se fechará enquanto o problema em torno do crime e castigo não for resolvido. Isso pode consolidar os laços da sociedade com as instituições e, quem sabe, capacitá-la a empurrar os políticos para a frente, apesar deles.

Das diretas para cá o clima se degradou. Hoje vemos Lula movimentando fortunas na conta bancária, casa de campo, tríplex, exigindo menu de travesseiro. Ninguém imagina que tudo aquilo daria tanto dinheiro aos salvadores: Collor com seus carros de luxo, Lula faturando milhões com suas aulas magnas e, no fundo, a sirene do camburão.

Collor e o PT são dois momentos do processo. Seu fracasso precisa ser levado em conta na tentativa de recomeçar. Mais do que discursos e promessas e uma certa ingenuidade diante da fraqueza humana, será importante a transparência, apoiada em novas leis e no fortalecimento das instituições que investigam o poder político.

O governo elegeu-se com verba de corrupção, descumpriu a Lei de Responsabilidade Fiscal, manteve um esquema de rapina na Petrobrás. Enquanto estiver no poder, o relógio do recomeço está desligado. Não adianta tocar para a frente, como se não tivesse acontecido. Nem mantê-lo desligado até 2018. Não se para o tempo. No máximo, é possível ganhar horas com o fuso horário, como o deputado do PT que virou dono de um apartamento em Miami.

O jeito das nuvens

Reza a lenda geralmente aceita como verdade que os políticos mineiros tinham uma espécie de monopólio da sabedoria.

Magalhães Pinto, banqueiro, ex-governador de Minas, plantou em sua biografia uma frase histórica. Ele disse que “política é como nuvem; você olha ela está de um jeito; olha de novo, já mudou”.

Suponhamos então que você tenha se ausentado um pouco do país, que tenha ido fazer um tour pelas Ilhas Seychelles, ou tenha ido comprar artesanato em Bali para vender na praia, e que nesse período não tenha nem entrado na internet para saber como é que andam as coisas lá pelo Brasil.

Quando você saiu daqui dava para ouvir do aeroporto o fragor da carga da brigada ligeira contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, empenhado em tentar esconder no armário umas contas na Suíça recheadas de dólares, devidamente numeradas e até assinadas por ele.

Malufianamente, Cunha negou as mais gritantes evidências com todas as suas forças.

Como só ele detém constitucionalmente o poder de aceitar ou rejeitar qualquer pedido de impeachment contra a presidente da República, foi paparicado pela oposição e fuzilado impiedosamente pelos governistas como a encarnação do demônio na Terra.

Quando você saiu daqui, Eduardo Cunha era a causa de todos os males de que o Brasil padece na terra: para os governistas, o inimigo público número um; para os oposicionistas, a única mão que pode balançar o berço. A ordem da oposição era atirar nele com cuidado para não acertá-lo. A ordem dos governistas era dizimá-lo da face da terra, esquartejá-lo e salgar a terra onde ele pisava.

Aí você está de volta, olha pra nuvem e percebe que ela mudou de forma. Não é que Magalhaes Pinto tinha razão?

É que nesse breve intervalo entre a sua saída e a sua volta ao País, as nuvens se mexeram muito. As entidades sobrenaturais que mexem os cordéis da natureza fizeram o seu trabalho, com zelo e discrição, e, pensando bem, até que o mais inescrupuloso e sórdido dos bandidos tem o direito de defesa, não é verdade?

Certo que ele já tinha sido julgado e condenado, mesmo porque era difícil até para um espertalhão como ele apagar as pegadas que deixou no caminho de suas falcatruas.

Mas vejam bem: o que o tornava odioso e odiado não eram exatamente as suas falcatruas, já que, como todo bom político pragmático sabe, a carne é fraca. O que o tornava realmente intolerável era aquela mão permanentemente no coldre ameaçando sacar a qualquer momento a arma do impeachment.

A partir do momento em que a pressão da mão sobre o coldre amaciou, não se sabe se à espera de um momento melhor ou de uma barganha mais vantajosa, a Comissão de Ética que vai decidir seu futuro parece olhar para ele com um pouquinho mais de carinho e compreensão.

E assim ficamos. Você saiu com as nuvens de um jeito, voltou e as nuvens estão de outro jeito. E o País continua olhando para cima enquanto as nuvens mudam de forma, a economia não anda, a política assumiu o jogo da barganha explícita- você me deixa terminar o mandato que eu deixo terminar o seu.

O País? Continua indo mal, obrigado.

Sistema financeiro suíço seriamente abalado pela Lava Jato

As investigações do Ministério Público suíço sobre contas suspeitas de movimentarem dinheiro obtido no esquema de corrupção na Petrobras ainda não foram encerradas, mas o órgão já afirma que o centro financeiro do país foi seriamente afetado pelo escândalo.

As apurações da operação Lava Jato no Brasil sobre a corrupção na estatal chegaram a contas suspeitas no exterior, grande parte delas na Suíça.


Mas qual é a dimensão do impacto do escândalo brasileiro sobre o sistema financeiro suíço?

Procurado pela BBC Brasil, o Ministério Público em Berna diz que o escândalo gerou denúncias de lavagem de dinheiro em níveis "muito acima da média" e que isso desencadeou extensas investigações - que ainda estão em andamento.

"Os resultados iniciais das investigações indicaram que o sistema financeiro da Suíça foi seriamente afetado pelo escândalo, uma vez que diversas pessoas e companhias que já foram indiciadas e condenadas no Brasil conduziam transações suspeitas envolvendo contas na Suíça", afirmou a porta-voz Walburga Bur.

Nesta semana, a agência reguladora do mercado financeiro suíço, FINMA, anunciou ter aberto investigações contra três bancos que não observaram as práticas de combate à lavagem de dinheiro em contas relacionadas ao escândalo da Petrobras.

As investigações são resultado de um amplo levantamento que vinha sendo feito com diversas instituições financeiras ligadas aos correntistas monitorados pelo MP suíço.

A seriedade da falta de vergonha


Os especialistas, e os comentaristas endossam, apontam que o Brasil vive este ano crises e mais crises: política, estrutural (apesar de Dilma dizer que é apenas conjuntural). econômica. O deputado Raul Jungmann até definiu o atual momento político: "Vivemos uma paralisia frenética. Não saímos do lugar, mas nos mexemos muito".

O noticiário se farta em estampar essa "paralisia frenética" com sucessivas informações, na maioria numéricas. Os analistas gastam ainda mais palavras para tentar explicar o imbróglio de um ano perdido na administração de um país. Batem todos cabeça.

Mais do que crise, estamos vivenciando a falta de vergonha generalizada, o que vem deixando o mundo escandalizado.

Não há como explicar, a não ser como um golpe nas instituições, as armações que vem se desenvolvendo nos últimos tempos em todos os poderes para livrar Dilma e a facção petista de qualquer punição por destruir um país para melhor dominhá-lo (ou seria doutriná-lo?).

Nem se pense em denominar de política o que se vê pelo país, em Brasília principalmente ou em qualquer recanto onde os "libertadores do povo" se acoitam. É falta de vergonha na cara para dizer o mínimo, quando é um crime contra o Estado e de direitos humanos.

Uma população de milhões se vê escravizada literalmente pelos desmandos, as falcatruas, os roubos, os conchavos edm todos os níveis.

Como explicar a países democráticos que medidas de governo foram vendidas aos empresários em prejuízo da população que juraram defender? Como explicar que o dinheiro público financiou construções no exterior? Que ex-presidente usou e abusou de banco que gere dinheiro do trabalhador para financiar empresários amigos? Como explicar que ex-presidente e filhos são "intocáveis", praticamente imunes a qualquer investigação? Como explicar que mudam-se juízes para blindar a companheirada? Como explicar, que a lista é grande, que a presidente não governa há um ano, pois não há plano de governo nem nunca houve - a não ser o de se apropriar dos órgãos e instituições públicas?

A falta de vergonha é séria bem mais do que se gasta em palavras. Se destrói um país, por décadas, por bem menos. Não há estimativa de quando se poderá recuperar o ano perdido, nem pensar em tornar o Brasil um país minimamente sério no respeito ao cidadão. Ao menos enquanto imperar o ideal político de que governo é absoluto e inimputável assim como seus integrantes per saecula saeculorum.

E Viva a Farofa!

A voz do Brasil