domingo, 1 de fevereiro de 2015

Lata d'água na cabeça


Os governantes devem ao país uma informação cristalina sobre o que está se passando e um detalhamento das ações de resposta à crise que não deixem a sensação de que, de novo, há algo escondido. O problema é técnico, de difícil entendimento? Não nos subestimem, aprendemos depressa o que é crise hídrica e volume morto: falta d’água para milhões de brasileiros, para a indústria e agricultura. E a proximidade do fundo do poço.
A política de ocultação que precedeu as eleições, impedindo as medidas preventivas necessárias, erro gravíssimo imputável a gregos e troianos, deu no que deu: agravamento do problema e desgaste da credibilidade de todos. Sem credibilidade, vai ser difícil pedir ajuda à população para diminuir o consumo, dividir com ela as responsabilidades no enfrentamento da crise. Sem a certeza de que os governos estão dizendo, enfim, a verdade, não haverá mobilização nacional. E é certo que ela será incontornável.
Leia mais o artigo de Rosiska Darcy de Oliveira

Humanidade a qualquer custo

Arthur Timotheo da Costa (1922), A prece
E se eu lhe dissesse que mesmo naquela época, mesmo lá, aqueles que você espancou, aquelas que você humilhou permaneceram mais humanos do que você? Lastimáveis, aqueles homens e aquelas mulheres salvaguardaram sua humanidade chorando, enquanto você perdeu até o menor vestígio da sua? Consegue entender isso?
Elie Wiesel 

O fim iminente da Revolução Bolivariana


Situação pela qual a Venezuela atravessa atualmente não só demonstra seu déficit fiscal, como também seu déficit democrático.
Não sei quantas vezes acreditamos, ao longo dos últimos 15 anos, que a Venezuela está à beira da mudança, que já não pode suportar mais, que algo precisa ceder. O regime chavista, entretanto, persistiu apesar dos augúrios que desde seu começo vaticinam o fim iminente da revolução bolivariana. O que explica essa resiliência? Como é possível entender que um sistema claramente antidemocrático tenha conseguido resistir a tantas pressões e continue, pelo menos até agora, recebendo o apoio do eleitorado?

Sobre isso foram escritos volumes e ainda se escreverá muito mais. A Venezuela do começo do século XXI ainda continuará fascinando os acadêmicos e os analistas por décadas. Mas é inegável que duas pedras angulares da sobrevivência do regime chavista foram o desempenho econômico, sustentado pelo comércio do petróleo, e a popularidade de seu líder (Hugo Chávez em sua época e depois, em menor escala, Nicolás Maduro). Acredito que todos podemos concordar que estas duas forças encontram-se hoje no pior estado registrado desde 1999.

A acelerada queda no preço internacional do petróleo, e a consequente deterioração das condições fiscais de um governo que monopoliza quase a totalidade dos serviços essenciais, impactaram a vida cotidiana dos venezuelanos de uma forma que, agora sim, parece insustentável.

É um clichê dizer que o dilema atual do chavismo é a “crônica de uma morte anunciada”. Mas é a verdade. Maduro pode fazer todas as contorções retóricas possíveis, chamando a situação de “guerra do petróleo” e de tentativa de “colonização mediante o colapso econômico”, mas nenhum outro país em anos recentes dispôs de maiores recursos com resultados piores.

Nenhum outro governo dilapidou sua renda de maneira tão temerária. Ninguém além do regime chavista é responsável por isso. Não existe conspiração internacional que explique porque as filas para comprar farinha ou sabão duram dois dias. Isso só se explica pela existência de um governo corrupto, ineficiente, dedicado ao culto da personalidade e obcecado em ocultar o fracasso de um modelo que já não há como subvencionar.

Leia mais o artigo de Oscar Arias Sánchez ex-presidente da Costa Rica de 1986 a 1990 e de 2006 a 2010 e Prêmio Nobel da Paz 1987

Tem que explicar


Embora ela não tenha sido acusada diretamente de envolvimento, como conselheira durante grande parte do tempo em questão, ela [Dilma] precisa explicar o que sabia e quando soube. (...) A Lava-Jato deve pedir a cabeça da presidente e dos diretores. Dilma Rousseff está defendendo eles. O tempo para esta indulgência já passou.

A Petrobras é muito grande para fracassar. Mas também é muito corrupta para seguir desta maneira.

Editorial do jornal Financial Times

A pergunta que não quer calar

Antigamente, a rapina ao patrimônio público era ação de indivíduos, solitária ou em pequenas quadrilhas. Hoje, é sistêmica e se dá na casa dos bilhões
A ruína do projeto político do PT – e o governo Dilma é sua mais eloquente síntese e tradução - dá-se em meio ao silêncio de entidades da sociedade civil, que, ao longo da história contemporânea, tiveram amplo protagonismo na cena pública.

Onde estão a OAB, a ABI, a UNE e a CNBB, entre outras siglas que se associaram à história da reação popular aos maus governantes? – eis a pergunta que não quer calar.

No momento em que a corrupção sistematizada, comandada de dentro do Estado, apresenta sua conta – Mensalão, quebra da Petrobras, violação da Lei de Responsabilidade Fiscal, falência da economia -, é no mínimo ensurdecedor o silêncio de quem sempre soube falar tão alto em momentos de crise e de má governança.

O final do governo militar deveu-se a uma conjunção de fatores, que se resumem na falência de seu modelo econômico e na falta de representatividade de seu modelo político.

Foram essas entidades que romperam a mordaça da repressão, articularam a sociedade e levaram às ruas o “basta” da população. Exerceram, naquela oportunidade, uma vigilância cívica decisiva para que o país se reencontrasse com a democracia.

Mas essa vigilância, que prosseguiu nos primeiros governos civis – os de Sarney, Collor, Itamar e FHC -, começou a minguar até desaparecer por completo desde a posse de Lula, festejada por elas como se o país, enfim, tivesse chegado ao Paraíso.

O que se constata é que, a exemplo do que aconteceu com o próprio Estado brasileiro, essas entidades foram mutiladas na sua essência. Transformaram-se em células partidárias, corresponsáveis pelo projeto político em curso, de índole revolucionária.

A lógica revolucionária, como se sabe, é a da ruptura, que começa por dividir a sociedade e a colocá-la em conflito. Promove o caos e depois acena com a ordem totalitária para consertar o que ela mesmo quebrou. O país está em meio a esse processo.

O projeto do PT postula uma “sociedade hegemônica”, que é o avesso de uma sociedade democrática, em que o poder se alterna entre os diversos partidos que se organizam para exercê-lo. Numa sociedade de pensamento único, não cabe a liberdade de imprensa, o que explica a obsessão petista por controlar a mídia.

Esse projeto de poder, gestado no Foro de São Paulo – entidade criada por Lula e Fidel Castro em 1990, para reunir as esquerdas do continente em torno de um projeto único de poder, a Grande Pátria -, já está em estágio mais avançado em países vizinhos, menos complexos que o Brasil.

Ruy Fabiano

sábado, 31 de janeiro de 2015

Nascer na pobreza 'prejudica ascensão social'


Estudo afirma que viver em um bairro pobre durante os primeiros 16 anos de vida afeta a renda por muitas décadas. Na hora de determinar nosso destino econômico, poucas coisas importam tanto como o bairro em que nascemos e crescemos.
Todos sabemos que viver em uma região mais pobre reduz as possibilidades materiais de seus habitantes. Por isso, muitos sonham ir para uma parte mais afluente da cidade onde vivem.

Mas um estudo recente dos pesquisadores americanos Douglas Massey, da Universidade de Princeton, e Jonathan Rothwell, do Instituto Brookings, vai além: traz novas evidências de que simplesmente se mudar de um bairro precário para um melhor não é suficiente.

De acordo com a pesquisa, o local específico da cidade onde uma pessoa passa os primeiros 16 anos de sua vida é determinante na renda que ela terá muitas décadas depois, mesmo que mude seu local de residência diversas vezes.

A conclusão é uma má notícia para os que acreditam na possibilidade de ascensão e mobilidade social. E pode fornecer mais argumentos às discussões sobre propostas polêmicas de vários países, incluindo alguns latino-americanos, de levar habitantes de bairros pobres para viver em regiões mais ricas das cidades.

"O bairro é o ponto crítico onde se bloqueiam as aspirações das pessoas para subir na vida", disse Massey à BBC.

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E vai crescendo


Crie um partido e ganhe R$ 600 mil por ano


Fundo partidário distribuiu 371,9 milhões de reais às legendas brasileiras em 2014. Só o PT ficou com 50 milhões de reais, 16% do valor a que os partidos têm direito
A legislatura que se inicia no domingo no Congresso Nacional será a mais fragmentada desde a redemocratização do Brasil, em 1990, com seus 594 representantes eleitos por 28 partidos diferentes — seis a mais que na eleição de 2010. Faltou espaço para quatro das 32 legendas existentes atualmente no Brasil frequentarem o Parlamento, mas outras 42 alimentam a pretensão de fazê-lo daqui a quatro anos.

Existem 42 partidos políticos em formação no Brasil, segundo os dados disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre legendas com registro em pelo menos um dos 27 tribunais regionais do país. Desses projetos, o que causa mais expectativa atualmente no Congresso Nacional é a recriação do Partido Liberal (PL), que, depois de ser extinto em 2006 para dar origem ao PR, promete atrair de 20 a 30 parlamentares logo que ressurgir — o pedido de registro ao TSE deve ser apresentado após o Carnaval. Mas, se já existem 32, e nem todos conseguem eleger representantes para o parlamento, para que mais partidos?

A resposta pode estar no bolso. Os partidos políticos brasileiros dividiram 371,9 milhões de reais reunidos pelo Fundo Partidário em 2014. O fundo é composto por dinheiro público, previsto no orçamento da União (313,5 milhões de reais), e por multas eleitorais (58,4 milhões de reais), que foram tantas no ano passado que os partidos devem receber um "extra", ainda não calculado, em abril deste ano.

Esses valores são divididos de acordo com o número de deputados eleitos por cada partido, o que valeu ao PT, que tem a maior bancada da Câmara, 59,7 milhões de reais (16% do total) em 2014. Sem representação parlamentar, o Partido da Causa Operária (PCO) entra na disputa dos 5% do fundo a serem partilhados igualmente por todas as legendas e ficou com a menor parte do bolo (0,16%). Mesmo assim, recebeu 610.097,61 reais. Mas o dinheiro explica apenas uma parte do fenômeno de surgimento de novos partidos no país.

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Dica de uma lenda


Nossa liberdade como nação descansa na liberdade de imprensa
Ben Bradle, morto aos 93 anos no ano passado, foi o lendário editor do jornal Washington Post, que dirigiu a cobertura do escândalo do Watergate que culminou na queda do presidente americano Richard Nixon, em 1974

Trocar a diretoria? Ou Dilma pede para sair?


O governo Dilma produziu um déficit de 17 bilhões de reais em 2014. O Bradesco, no mesmo ano, apresentou lucro de 15 bilhões. Por mais que se exalte a livre concorrência, a prevalência do mercado, a excelência do sistema capitalista e tudo o mais que for, qual a conclusão? Que o banco foi bem administrado, e o país, não? Que os correntistas do Bradesco estão felizes, mas os brasileiros, não?

Tendo o ministro Joaquim Levy sido alto funcionário do Bradesco, presume-se que tenha levado para o governo a experiência da iniciativa privada e que, no final do ano, possa divulgar números compatíveis com a eficiência contábil. A solução seria transformar o país num grande banco?

Ironias à parte, os acionistas do Bradesco estão mais ricos, mas os sócios do Brasil S.A., no prejuízo. Optaram por Dilma, na última assembléia geral, mas ela demonstra não ser nenhum dr. Trabuco, tanto que o chefão do Bradesco rejeitou o convite para tornar-se ministro da Fazenda. O remédio foi convocar um de seus auxiliares, Joaquim Levy.

Por mais que a presidente da República proclame que nossas dificuldades devem-se à má conjuntura internacional, a verdade está aqui mesmo. É a diretoria que vem fracassando. Na empresa privada, quando isso acontece, trocam-se os diretores. No governo, há que esperar as eleições. Ou aguardar que os fracassados tomem a iniciativa.

A pergunta que se faz é se vai dar para esperar quatro anos. No parlamentarismo as mudanças acontecem à margem de prazos fixos. No presidencialismo, não. Mas como aguentar uma situação onde o déficit é apenas um dos fatores da bancarrota? Anos atrás, num plebiscito, o eleitorado optou por rejeitar o governo de gabinete. Só uma nova Constituição, quer dizer, apenas com a ruptura das instituições, seria possível mudar o sistema vigente. Recursos extremos, como o impeachment, parecem fora de cogitações. O velho Sobral Pinto, na sua última e magistral intervenção, lembrou que todo poder emana do povo. Pois está aí a solução: Dilma, ficando sem povo, perceber que deve e que precisa sair, pela impossibilidade de permanecer. Por mais estranho que pareça, conforme inconfidência das paredes do palácio da Alvorada, foi assim que ela explodiu esta semana, claro que por apenas dois fugazes segundos. Achou melhor aguardar o superávit…

Em 1985, na véspera da convenção do PDS que escolheria o candidato presidencial, Paulo Maluf e Mário Andreazza jogaram a cartada final. Ofereceram em dois clubes de Brasília monumentais jantares para os convencionais. O paulista conseguiu mais adesões do que o gaúcho, mas conta o folclore que muita gente jantou duas vezes.

Hoje, Eduardo Cunha e Arlindo Chinaglia promovem banquetes para os deputados que amanhã escolherão um deles presidente da Câmara. É bom ficar de olho nos cardápios.

Carlos Chagas

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Das pessoas que atingem posições elevadas

Das pessoas que atingem posições elevadas,
cerimônias, riqueza, erudição, e similares:
para mim tudo isso a que chegam tais pessoas
afunda diante delas — a não ser quando acrescenta
um resultado qualquer para seus corpos e almas —
de modo que elas muitas vezes me parecem
desajeitadas e nuas, e para mim
uma está sempre zombando das outras
e a zombar dele mesmo ou dela mesma,
e o cerne da vida de cada qual
(a que se dá o nome de felicidade)
está cheio de pútrido excremento de larvas,
e para mim muitas vezes esses homens e mulheres
passam sem testemunhar as verdades da vida
e andam correndo atrás de coisas falsas,
e para mim são muitas vezes pessoas
que pautam as suas vidas por um hábito
que a elas foi imposto, e nada mais,
e para mim é gente triste muitas vezes,
gente afobada, estremunhados sonâmbulos
tateando no escuro.
Walt Whitman (1819 – 1892)

'Eu não erro'



Parte dos efeitos da crise foi amenizada pelo modelo de desenvolvimento econômico que adotamos, com forte ênfase na inclusão social e nas políticas anticíclicas no que se refere ao crescimento econômico
 Dilma em discurso na III Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos

Dilma continua em campanha. A primeira reunião ministerial desse segundo mandato não foi mais do que outro palanque para requentar as proposições que dão ibope. Sabem o mundo e o universo que a presidente não erra. Os problemas, segundo o dilmês, são causados pelos outros: mercado externo, a oposição (sempre ela), a direita, Deus e agora até São Pedro. Freud explica essa necessidade de se afirmar superiora e eximir-se da responsabilidade. Perdeu a grande oportunidade de se chancelar como presidente. Passou a imagem de mera ocupante do cargo.

Pela enésima vez falou em ajuste de rumos para continuar o plano petista entronado há 12 anos. Mas que plano? Em 2005 foi jogado no lixo e se tornou estratégia de poder. O que se fez foi usar os pobres, os tais programas sociais, como massa de manobra, cortina de fumaça e cabide eleitoral para estabelecer uma dinastia em Brasília quiçá em todo o país.

Dilma na reunião demonstrou a arrogância de que fará o diabo custe o que custar ao povo, para transferir o cargo ao patrão. Não está nem aí para o sofrimento da população, em especial os pobres, com a desastrada administração. É como sempre afirma: “Eu não erro”.

Brasil de hoje


Sabedoria vegetal

Se as mangueiras atinavam com a escassez das chuvas, por que não sabiam os homens, aparelhados com tecnologias ultrassofisticadas?
Sou um especialista em “mangomancia”. Não sei se na literatura profética existe essa modalidade, mas aprendi, ainda criança, com os caboclos da colônia italiana de Rodeiro, a arte de adivinhar o regime de chuvas por meio da quantidade de frutos das mangueiras. E compartilho com o leitor esse conhecimento que acredito milenar, pois a manga, originária do sudeste asiático, já é citada em poemas clássicos indianos do século IV a.C. Antecipo também uma possível explicação lírico-científica para compreender o comportamento desse vegetal, e arrisco, enfim, uma moral, como aquelas encontradas nas fábulas antigas.

Viajei bastante nos últimos meses do ano passado pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais, muitas vezes por rodovias secundárias, cruzando enormes áreas desabitadas. De vez em quando, surgia à beira da estrada uma casa simples, sempre no quintal um cachorro e uma galinha e sua ninhada, uma mangueira a protegê-los, os bichos e os moradores, do sol impiedoso – a temperatura facilmente ultrapassa, nesses lugares, os 30 graus. O carro avançava e por todos os lados a mesma desolação: as mangueiras, árvores exuberantes, mostravam-se anêmicas, com poucos e pequenos frutos em seus cachos.

Comentava então com os motoristas, Este ano será de pouca chuva. E eles, curiosos, indagavam, Como você sabe? Eu respondia, É só ler as mangueiras. Em ano de fartura de água, elas exibem cachos carregados com enormes pomos, que de tão pesados vergam os galhos mais robustos. Fica parecendo uma sombrinha de abas largas voltadas para o chão. Em época de escassez, lembram uma boca quase sem dentes ou a tosse intermitente de alguém enfermo ao longo da madrugada. Eles me miravam com um misto de desprezo e admiração. Assim são encarados os vaticinadores no século XXI...

Mas, talvez, a explicação para esse sortilégio seja bem mais pedestre. As mangueiras, como organismos vivos, necessitam de estratégias para garantir sua sobrevivência e conservar a espécie. Prospectando o futuro, com instrumentos por nós desconhecidos, percebem se o ano será de estio ou de umidade, definindo, a partir do resultado desse exame, a intensidade da floração. Se a perspectiva for de seca, a floração será minguada – se for de chuva, abundante. De nada adianta uma floração copiosa em tempos ruins, pois sem água não há vida – portanto, elas acumulam forças para tempos melhores... Essa é uma explicação lírico-científica...

Se as mangueiras atinavam com a escassez das chuvas, por que não sabiam os homens, aparelhados com tecnologias ultrassofisticadas? A eufemisticamente intitulada “crise hídrica” despontava no horizonte desde 2013, quando o regime de águas mostrou-se irregular. Mas, claro, em 2014, além de termos sucumbido traumaticamente à Copa do Mundo (e não estou falando de futebol, apenas), tivemos eleições. E os governantes, todos, trataram de camuflar a situação para garantir mais um mandato.

A “crise hídrica” não implica somente ausência de água em nossa residência – para beber, cozinhar, tomar banho, limpar a casa –, como impacienta-se nosso egocentrismo. A “crise hídrica”, para além da sensação de desconforto pessoal, significa inflação nos preços dos alimentos e dos serviços, e desemprego. Significa, principalmente, crise energética (90% da produção brasileira provém de geradores hidráulicos), que também, por sua vez, gera carestia e diminuição de postos de trabalho.

Por fim, a moral da história: as mangueiras não mentem jamais!

Luiz Ruffato

Vencerá a propaganda?

Do discurso da presidente, o único apelo que pode surtir algum efeito é o que conclamou os ministros a lutar para vencer “a batalha da comunicação"

Se a comunicação for entendida como propaganda, como foi na campanha eleitoral, o governo pode vencer de novo, com ajuda do alquimista João Santana.

E o País continuará perdendo.

Descaso pela educação é causa dos nossos males


A principal causa do abastardamento da “vida pública” no país, com uma ou outra exceção, resulta do descaso de todos os governos, não apenas pelo o ensino em si, mas pela educação, do primeiro e segundo graus à universidade. Além de sempre malremunerada, não há, hoje, profissão mais ingrata e difícil de ser exercida do que a de professor. O respeito entre mestre e discípulo acabou faz tempo, mas, ao que parece, ninguém se deu conta disso ou, então, concorda com isso.

Esse descaso pelo que deveria ser a primeiríssima preocupação de todos os governos leva ao desinteresse por nossa história. E o povo que não conhece sua história não tem como pensar nem encarar seu futuro. Ou, dizendo melhor: não tem projeto de futuro.

O slogan “Brasil, Pátria Educadora”, reeditado agora pela presidente Dilma Rousseff, cheira a achincalhe. Já nada inspirava quando foi criado e, agora, com a nomeação de alguém totalmente estranho ao setor, é mais uma confirmação de que a educação só serve mesmo como moeda de troca. Só pode merecer, portanto, o descaso!

Tanto isso é verdade que, mesmo eleita prioridade máxima deste segundo mandato, a educação foi duramente atingida pelo decreto presidencial, que valerá até a aprovação do Orçamento, com um corte de R$ 7 bilhões (dos R$ 22,7 bi já cortados). O decreto bloqueou, na realidade, um terço dos gastos administrativos das 39 pastas (um número absurdo, que só faz dificultar a administração pública). É essa, então, a prioridade das prioridades da recém-eleita presidente Dilma?

Se o corte na educação é mais uma prova do descaso que se tem por ela, a nomeação do novo ministro é outra zombaria. O ministério entregue a Cid Gomes é a contrapartida do apoio eleitoral que ele e seu irmão deram à presidente no Ceará. Diante das 529 mil redações que obtiveram nota zero no Enem, além de afirmar que “os estudantes estão lendo pouco” (que achado, hein?!), o próprio ministro concluiu: “Não dá para fugir, camuflar e dizer que o ensino público é bom. Está aquém do desejável. Estamos aqui para lutar para melhorar”.

Com que autoridade, porém, o novo ministro fará isso?

É evidente, caro leitor, que o histórico descaso pela educação nos levou à corrupção generalizada e sem limites que vivemos hoje. Embalada pelo princípio do “salve-se quem puder: dinheiro público não tem dono”, tomou conta, praticamente, de todos os nossos órgãos estatais. Os agentes públicos, por sua vez, com honrosas exceções, se transformaram em intermediários de negócios criminosos. A revolta surda que isso tem provocado entre os brasileiros, se não abrirmos os olhos, transformar-se-á numa avalanche, que, mais dia, menos dia, desencadeará reações fratricidas, como sempre ocorreu no mundo todo.

O brasileiro não é nenhum songamonga, incapaz de reagir aos constantes ataques a seus direitos, a seu dinheiro e a sua respeitabilidade, como, às vezes, pode dar a entender. A raiva perigosa e crescente que tem demonstrado por meio, sobretudo, das redes sociais, é assustadora. E, como se sabe, a raiva é inimiga terrível que se cozinha em fogo brando e provoca reações imprevisíveis, quase sempre trágicas. Nunca foi fácil controlar o desespero de ninguém. É ele que nos obriga a cometer atos que, em sã consciência, jamais seriam imaginados. É nessa hora que o ser humano se transforma em animal irracional.

Os exemplos estão na nossa cara!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Austeridade palaciana


A vaca está tossindo




Gostaria que essa matéria recebesse o título “Falta alguém em Nuremberg”, como a série de reportagens e o livro do jornalista David Nasser, sobre as atrocidades cometidas pela polícia política da ditadura Vargas, chefiada por Filinto Müller. Quando puder, vou escrever o “fora” que dei certa vez, quando o mesmo Filinto, na época senador e presidente da Arena, me telefonou para obter uma informação e o mandei para aquele lugar, pensando que era um trote do amigo Orlando Vaz, useiro e vezeiro nesse procedimento. Fiz isso e depois quase morri de medo...

E por que “Falta alguém em Nuremberg”? Porque toda essa confusão que se espalha em nosso país tem no ex-Luiz o único responsável. Então: ele não tem nada a ver com mensalão, petrolão, dívida externa, corrupção endêmica e lasciva, enriquecimento ilícito. Descaradamente, nunca sabe de nada. Pai político de Dona Dilma, que também nada sabe, mas não seria capaz de fazer sozinha metade da confusão em que o Brasil está metido, não fosse ela parte complementar, como o décimo dedo (ou o primeiro, de lá pra cá). E o ex-Luiz ainda não foi processado?

Zé Dirceu está preso, mas fazendo reunião política para enquadrar os dois, ex-Luiz e Dona Dilma, nos termos do PT que eles, os presos e alguns soltos, como Palocci, Vaccari et caterva, querem. Ainda não desconfiou que voltar a “fazer o que fizeram em 12 anos” só com outra revolução... Imagino o quanto deve ser horrível ganhar e não levar uma eleição, mas...

Há mais de 30 dias, Dona Dilma não se digna a falar. Sumiu. Mas deixar de ir a Davos, onde estão os principais líderes do mundo, para falar, além de economia, sobre o problema maior, que é o clima do mundo, para ir à Bolívia prestigiar a posse do cocaleiro Evo Morales é menosprezar nosso país, ainda que hoje mais pareça um malcheiroso pântano de corruptos.

Ainda bem que Deus escreve certo por linhas tortas: de tanto falar dos militares e das eleições indiretas das ditaduras, o PT se viu obrigado a aceitar um governo de fato e a perder o de direito, exercido, para nossa sorte, pelo ilustre ministro Joaquim Levy, da Fazenda, indicado pela cúpula do poder econômico do país.

Dona Dilma nem sabe o que está acontecendo, ou talvez saiba demais que o governo está fazendo justamente o contrário do que ela e seus asseclas garantiram, durante sua campanha, que não fariam “nem que a vaca tossisse”, lembram?

Bem, já aumentaram os impostos, os ladrões ainda estão soltos, a Indonésia está morrendo de medo de nós, viúvas ou viúvos não poderão mais receber pensão pela morte dos cônjuges, funcionários das embaixadas estão sem receber e vivendo de favor e constrangimentos, São Pedro está p. da vida com os brasileiros, que, mesmo sabendo que a vaca ia tossir, votaram no PT, e por aí vai... Enfim ou ao fim, “quem pariu Mateus que o embale”, né?

Sylo Costa

Poderoso até cair

Este é um dos pecados dos poderosos: subestimam a inteligência alheia. De tão arrogantes, acham que conseguirão enganar os outros por muito tempo. Ou por todo o tempo. Até que se esborracham

Se Marta contar o que sabe, Brasil vira Indonésia


Várias metáforas dilatadas permeiam o jornalismo na questão das fontes. Há quem diga que boa notícia não nasce no convento. Para outros, boa notícia é como flor de lótus: é linda, mas para ser colhida há que se encharcar na lama do pântano, onde ele vivifica. Outros dirão que boa notícia só se colhe usando escafandro. Este blog prefere a metáfora do âmbar-gris. Trata-se de uma concreção, uma pedra, a habitar o intestino dos cachalotes. Estes, quando comem lulas gigantes, não lhes conseguem digerir o bico. E este, daí, vira um tumor, instalado no aparelho excretor do bicho grande.

Baleeiros se matam para ver quem atinge primeiro os países baixos do cachalote: afinal é lá que está o âmbar gris. Uai: para que lutar para se atingir uma pedra que é um tumor brotado de uma lula, e que está “dans le cu” de um cachalote? Porque o âmbar gris é a base dos perfumes mais caros do planeta.

Como deus é irônico, não? A base de confecção de nossas fragrâncias mais sedutoras é um câncer que nasce naquele lugar de um bicho que vive de devorar lulas gigantes.

Gostou do tema? Em Moby Dick, reportagem que Herman Melville levou 14 anos apurando (e travestiu de romance) há todo um capítulo sobre o âmbar gris. Pois bem: Marta Suplicy virou o âmbar gris da imprensa.

De ontem para agora conversei com quatro grandes repórteres: todos aviam sido pautados para colarem na Marta, porque dela pode vir a grande bomba de neutrons a matar apenas os petistas, mas deixar em pé a estrutura do partido.

Esse é um raro axioma seguido pelos repórteres: dê um grude no cidadão machucado que ele fará bem para a cidadania. Está disposto, pelas chagas que sofreu, a melhorar o país: nem que isso o faça explodir todas as pontes políticas pavimentadas ao longo de sua vida.

Luiz da Costa Pinto, então em Veja, grudou no Pedro Collor e este lhe ajudou a derrubar o irmão presidente. Xico Sá, então na Folha, grudou no PC Farias e ganhou um Esso. Hoje meio mundo gruda nos advogados de Youssef e Costa, para ver se tiram uma casquinha.

Assim que meu velho amigo Romeu Tuma Junior deixou a secretaria de Justiça do ex-presidente Lula, passamos a conversar. Nosso livro ficou 20 semanas seguidas em primeiro lugar na lista dos mais vendidos.

Pois bem: até agora ninguém sabe em que grau Marta Suplicy vai falar. Mas o reportariado sabe que, se ela contar tudo o que sabe, a República fica de quatro e Dilma vai acordar, no outro dia, num outro país…

Marta, quem diria, virou o âmbar gris da oposição. Seu artigo na Folha foi apenas um tiro de aviso. Se ela resolver não ser política ao extremo, e não negociar o seu silêncio sobre os trambiques e sinecuras que viu, um novo pelotão de fuzilamento vai chocar a brasilidade. Os repórteres sabem disso: e esta semana só pensam em Marta enquanto respiram…

Claudio Tognolli