sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A perversidade, os limites e o que a morte de Orelha revela

A morte do cachorro Orelha, na Praia Brava, em Santa Catarina, expõe questões que ultrapassam o episódio em si. A dor não está apenas na violência dirigida a um animal conhecido e cuidado por uma comunidade inteira, mas no mal-estar coletivo que esse ato faz emergir. Há algo nesse caso que nos obriga a olhar para aspectos mais profundos da formação humana, do convívio social e da maneira como lidamos com nossos impulsos mais primitivos.

É preciso começar por uma constatação que raramente agrada: a perversidade faz parte da constituição da personalidade humana. Ela não é, em si, um desvio patológico. Trata-se de um componente estrutural, presente desde a infância, ligado à curiosidade, ao prazer da transgressão e à sensação de poder. Crianças e adolescentes experimentam esse traço de diversas maneiras ao longo do crescimento. O que define o amadurecimento psíquico não é a eliminação desse impulso, mas a forma como ele é elaborado. 

Em trajetórias saudáveis, a perversidade encontra caminhos simbólicos e socialmente aceitos para se manifestar. No esporte, por exemplo, o confronto físico é permitido, mas circunscrito por regras, e termina no reconhecimento do outro. Na vida familiar, aprende-se que o irmão mais forte não pode ferir o mais fraco. São esses limites, repetidos no cotidiano, que permitem transformar impulsos potencialmente destrutivos em experiências de aprendizado, convivência e até criação.

 Esse traço também aparece em cenas banais do dia a dia. Quando alguém tropeça na rua e provoca risos involuntários em quem observa, há ali um prazer primitivo, muitas vezes acompanhado de alívio por não ocupar aquele lugar. A cultura e a educação atuam justamente nesse ponto: ensinam a conter o impulso, a deslocá-lo, a substituí-lo por empatia. A civilização não extingue a perversidade; ela a molda. Criamos normas, pactos sociais e leis para que esse componente da personalidade contribua para a sobrevivência coletiva, e não para a destruição do outro.

Não é por acaso que sociedades mais complexas produzem dispositivos cada vez mais elaborados para regular comportamentos. Leis, instituições e práticas educativas não existem apenas para punir desvios, mas para sustentar limites simbólicos compartilhados. Quando esses limites se enfraquecem ou deixam de ser reconhecidos, abre-se espaço para a naturalização da violência, especialmente contra aqueles que ocupam posições de maior vulnerabilidade, sejam pessoas ou animais. 

O que torna o caso do cachorro Orelha especialmente perturbador é o modo como a perversidade se manifesta sem qualquer elaboração simbólica. Infligir dor a um animal indefeso, sem possibilidade de reação, não produz aprendizado nem confronto. Gera apenas a experiência do domínio absoluto. Trata-se de um exercício de poder vazio, que não encontra limite interno nem reconhecimento do outro como sujeito.

Responsabilizar adolescentes por atos como esse não significa rotulá-los ou reduzi-los a esse episódio. Significa, ao contrário, reconhecer que o processo de amadurecimento exige limites claros. As medidas socioeducativas previstas em lei cumprem uma função essencial nesse percurso: sinalizam que certos atos não são aceitáveis e que a convivência em sociedade implica responsabilidades. Do ponto de vista psíquico, a ausência de limites não liberta; ela empobrece o desenvolvimento.

A sociedade evolui quando consegue reconhecer seus impulsos mais sombrios sem negá-los ou romantizá-los. A morte de Orelha não deve ser vista como um ato isolado de crueldade, mas como um convite incômodo à reflexão. Não apenas sobre a proteção de animais comunitários, agora reconhecida em lei, mas sobre a urgência de reafirmar que poder exercido sem limite não é força. É sinal de uma falha na construção do humano.
Jorge Jaber

O discurso do método

Ainda existem em Veneza algumas bocca di leone, locais onde se podia fazer denúncias secretas, que eram levadas diretamente ao Consiglio dei Dieci, “contro chi occulterà gratie et officii, o colluderà per nasconder la vera rendita d’essi.” Em tese, embora secretas, as denúncias não deviam ser anônimas, mas o anonimato podia ser aceito quando o caso era considerado extremamente grave. Fontes anônimas? Boa ideia, não é? Vamos adotá-la. Ou é o que estamos fazendo, pela enésima vez?

A prática do denuncismo e das delações é antiga. Já Platão tinha um juízo severo para os sicofantas: os que querem ficar ricos de qualquer maneira “produzem falsos testemunhos e se deixam corromper por subornos”. Os romanos usaram e se lambuzaram de denúncias, ostensivas ou secretas, e tornaram-se especialistas no assunto. O despotismo que os promovia e os banhos de sangue em que resultavam — leia-se Tácito — são de dar vergonha aos Netanyahus e Bannons. (Ah! Em geral era para assegurar que os populares não tivessem os direitos que lhes queriam dar os Graco da vida, retirando privilégios dos optimates.)

E assim, ao longo dos séculos, vez e outra lá vêm os amigos da moral. Na Inquisição. No Macartismo. Na autofagia da Revolução Francesa.


Em 1789, o instrumento básico das denúncias, na primeira fase, é a imprensa. É o caso de L’Ami du Peuple, de Marat. Os comitês, como o Comité de Sûreté Générale, se multiplicam, são uma mistura de polícia e parquet, e fazem a triagem dos milhares de delações. Seu alvo passa da aristocracia para todo cidadão, que passa a ser suspeito por suas relações, suas opiniões e até sua aparência. Chega o Terror. Seu papel muda: elas, denúncias, passam a substituir o inquérito. A lei torna a delação a base da acusação judiciária. Robespierre assume o controle com o Comité de Salut Public, que dirige a política do Estado, mas também age como investigador e acusador. As cabeças caem aos milhares. A Convenção recebe mais de quinhentas denúncias contra duas centenas de seus membros. O Comité de Sûreté Générale monta um dossiê contra o “ditador” que deseja assumir o seu controle. Cai Robespierre por seu próprio método: o acusado não tem direito de ser ouvido. O apoio da multidão, que o seguira sedenta de sangue, desaparece da noite para o dia. Condenado sem processo, a guilhotina faz seu trabalho sob o aplauso do povo. Vem então a “reação” (Réaction Thermidorienne) das delações contra os delatores, quando os novos delatores superam em número os antigos e o “denunciante virtuoso” passa a ser o “vil delator”.

Aqui entre nós os beneficiários parece que movem muitos $$$, o que sempre é motivo para uma boa manipulação, sobretudo acusando … manipulações. Mas é curioso que quando recomeça a campanha moralista da imprensa ela tenha como alvo o órgão que puniu os golpistas, o ministro com a chave da cadeia e o que vai, finalmente, examinar o trabalho do autor do discurso do método para bem conduzir a razão e buscar a verdade, não, como você está pensando, René Descartes, mas o humilde magistrado candidato a presidente que, frustrado em suas pretensões, aderiu ao genocida, virou ministro e senador. A bíblia de seu método de defender a moral — ou amoral? — é curta, pois Moro não é muito seguro no uso das palavras:

“Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios.”

Se a honra vai para as cucuias, o que pode se fazer? Mais vale correr o risco de prejudicar. Se não é verdade, o objetivo já foi alcançado. Afinal,

“punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil, se não por outros motivos, então pela carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal. Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos, condenando-os ao ostracismo.”

Depois, vamos e venhamos, “a presunção de inocência […] não é absoluta”.

Partindo do pressuposto de que os outros são culpados, ele recorreu a todo o arsenal que a tecnologia colocou ao seu alcance, como ensinara o nunca assaz citado Joseph Goebbels. Há melhor maneira de agir do que se assegurar, com uns filmetes, que se tem a solidariedade da equipe e dos embargadores? E é preciso assegurar que a lavajato seja, como boa orcrim, “estruturalmente ordenada [para obter] vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais”.

Já tendo participado de mais de uma e escapado ileso, o velhaco continua a contar com seus cúmplices e colaboradores, e, com a delação do seu ex-delator, precisa que seja acusado quem o vai julgar. Já que os americanos fizeram um código de ética da Supreme Court, que não tem ética nenhuma, faça-se um para o Supremo, mesmo que os ministros já tenham que obedecer ao Código de Ética da Magistratura (Resolução 60/2008 do CNJ). Enquanto isso o genocida continua comandando sua orcrim da cadeia, escolhendo candidatos e orientando as fakenews. Nem se pense em punir o golpe de 5 de agosto — parlamentar pode tentar golpe, não é? — pois já punimos as beatas com Bíblias que participaram do 8 de janeiro e ele precisa poder dizer “ganhamos, mas fomos roubados”.

Nessas horas os interesses se somam. Além dos do amoral, há o dos banqueiros e farialimer’s que vivem na zona da especulação desenfreada, com negócios com o crime organizado. O do crime organizado. O dos que botam o dinheiro público para participar de bancos podres. O das fintechs que banco são, banco não sendo. O dos donos de partido que partem e repartem os governos. O dos cúmplices do genocida. O dos admiradores de Trump. Muitos se encaixam em mais de uma categoria. Vale o método: honras ao vento, que suas plumas nunca mais voltam à casa. Desmoralizemos todos.

Aqui, ali e acolá, basta abrir o jornal.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

IA responsável na prática: quando a confiança deixa de ser retórica

Falar de Inteligência Artificial responsável tornou-se consensual. Executá-la não. Entre declarações estratégicas, princípios éticos e compromissos públicos, pode permanecer um vazio crítico: a distância entre a promessa da IA e a forma como ela, de facto, interfere nas decisões que moldam a vida dos cidadãos.

A confiança na IA não resulta da sofisticação tecnológica nem da ambição dos planos nacionais, resulta, antes, da experiência concreta das pessoas quando são avaliadas, classificadas, priorizadas ou excluídas por sistemas que não veem, não compreendem e não controlam. É nesse ponto que transparência, explicabilidade e supervisão humana deixam de ser conceitos elegantes e passam a ser critérios de legitimidade.


A transparência é o primeiro teste de maturidade democrática da IA. Um cidadão tem o direito de saber quando uma decisão relevante é influenciada por um sistema algorítmico, com que finalidade e em que termos. Não se trata de abrir modelos nem de divulgar segredos técnicos. Trata-se de assumir, de forma clara e inequívoca, que a tecnologia participa na decisão e que essa participação tem consequências reais. Onde não há visibilidade, instala-se a desconfiança. E onde há desconfiança, a inovação perde o seu valor social.

Mas saber que a IA existe não basta. É preciso compreendê-la no essencial. A explicabilidade não é um luxo académico nem uma exigência teórica do regulador. É a condição mínima para que uma decisão possa ser questionada, corrigida e responsabilizada. Quando a resposta institucional a um erro é “foi o sistema”, o Estado abdica da sua função mais básica: prestar contas. Sem explicação inteligível, não há contraditório. E sem contraditório, não há justiça nem confiança.

A supervisão humana, por sua vez, é talvez o ponto onde mais frequentemente se confunde intenção com prática. Colocar um humano no final da cadeia decisória não é supervisão, é transferência de responsabilidade. Supervisionar implica ter competência para compreender o sistema, autoridade para o contrariar e tempo para o fazer. Exige formação, enquadramento organizacional e, sobretudo, uma cultura que não penalize quem decide discordar da máquina. Caso contrário, a decisão continua a ser algorítmica, apenas legitimada por uma assinatura humana.

A adoção responsável da IA não se mede pelo número de projetos-piloto nem pela rapidez da automação. Mede-se pela capacidade de integrar limites, controle e responsabilidade desde o desenho do sistema até à sua utilização quotidiana. Especialmente no setor público, onde o impacto é estrutural e cumulativo, a eficiência não pode substituir a legitimidade.

A IA pode ser uma poderosa aliada da administração pública, da economia e da inovação. Mas sem transparência, explicação e supervisão efetiva, transforma-se num exercício de poder opaco, difícil de contestar e fácil de normalizar. A confiança não se decreta, constrói-se. E na IA, constrói-se todos os dias, ou perde-se rapidamente.

No fim, a questão é simples e profundamente política: queremos tecnologia que amplifique a responsabilidade ou que a dilua? A resposta não está nos algoritmos. Está nas escolhas que fazemos sobre como, quando e em que condições os deixamos decidir. A confiança não pode ser retórica!

Com penduricalhos, Carnaval dos Poderes dura o ano todo

Depois de contar a história da "alta funcionária" que havia entrado no serviço público de "paraquedas" (quer dizer, valendo-se de algum favor político), o cantor Blecaute esperava o breque da Orquestra Tabajara para concluir: "Que grande vigarista que ela é".

Gravada em outubro de 1951, "Maria Candelária", marchinha de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, tornou-se um dos grandes sucessos do Carnaval do ano seguinte. É uma daquelas músicas que, se pescadas no rio do tempo e escaladas para embalar um bloco de hoje, ressurgem sem rugas no rosto e de corpinho enxuto, como se tivessem sido compostas ontem.


Maria Candelária chegava para trabalhar ao meio-dia. A uma da tarde ia ao dentista, às duas ao café, às três à modista. Antes das quatro assinava o ponto e se mandava. Pensando bem, para os parâmetros atuais, era uma vigarista modesta. Não tinha direito à licença compensatória, medida aprovada para funcionários da Câmara e do Senado, que poderão ter um dia de folga a cada três trabalhados.

Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que os três Poderes revisem e suspendam os penduricalhos do serviço público não previstos em lei. Nada mais carnavalesco que a palavra penduricalho, cujos sinônimos, de acordo com o dicionário Houaiss, são pingente, balangandã, berenguendém, berloque e, não por último, condecoração honorífica. Na gíria, penduricalho também é usado para se referir ao pênis, membro pendente como certos funcionários.

O significado da palavra extrapola a simples folia. Encobre uma imoralidade que sintetiza a prática da boquinha e gera o estereótipo de que o funcionário público não faz nada e ainda ganha por fora. Uma visão que mistura realidade com preconceito. A culpa é de quem faz da administração pública uma propriedade particular, distribuindo benesses que elevam os salários acima dos tetos constitucionais.

Segundo especialistas, a farra com pagamentos extras do tipo auxílio-peru e auxílio-panetone custa em torno de R$ 20 bilhões por ano.

Orelha

Não sou sujeito demasiadamente voltado aos animais. Não os tenho em casa, dedico meu amor exclusivamente às pessoas. Obviamente, respeito os bichinhos, de maneira geral, acho os filhotes bonitos, muito mais do que os humanos, e seria incapaz de fazer-lhes uma violência. Aliás, considero qualquer demonstração de força ato de incivilidade. Não fomos feitos para bater, nem para apanhar.

Por mais que tentemos ficar alheios às causas de emoção nos meios de comunicação, no meu caso até por questão de sobrevivência, pois a natureza cruel das notícias costuma me deixar abalado, muitas vezes não escapamos às vilezas estampadas nas manchetes. O caso do cãozinho Orelha chocou-me profundamente. Por vários motivos. A monstruosidade ocorrida é um retrato fiel da sociedade mundial, nossos jovens preparam-se para marchar em direção ao tempo distópico que se anuncia. Um futuro em que não há futuro. Assassinos em série, exatamente como vemos nos filmes, treinam nas praias de Santa Catarina. Torturam primeiro cachorros inocentes, para mais tarde cometerem feminicídios, latrocínios, tudo com o beneplácito de um sistema que protege os mais ricos, o tal do capitalismo selvagem. Põe selvagem nisso!


Pelo que li, Orelha era um pet comunitário. Criado pela gente simples do seu entorno, animal já idoso, inofensivo, fazia a alegria de algumas crianças locais, era amado por todos. Só que as crias dos donos do poder, daqueles abastados que sonham com carrões ao som de música sertaneja, não gostam de nada usufruído por grupos. São criadas aprendendo, desde muito cedo, a privilegiar o individual. Irão crescer desejando a solidão das competições, empenhados em vencer disputas seja lá do jeito que for, usando os meios possíveis e impossíveis, legais ou não. O importante é chegar em primeiro lugar, e chamarão o resultado duvidoso de meritocracia. Serão recompensadas com viagens à Disney. Mas, antes de viajar, lavarão as mãos manchadas de sangue.

Nos Estados Unidos, país em que um dia houve democracia, observarão excitados os desfiles armados das tropas Gestapo do ICE. E, se por acaso derem com alguma agressão, os meninos terão seus primeiros orgasmos, saudarão os fascistas como gente deles, irresponsavelmente felizes. Pois irresponsabilidade é a marca de suas vidas.

Quando voltarem, se unirão em tropas de elite, comandos de filhinhos de papai preparados para continuar suas artes. Marciais. E, especialistas que são em bullying, cercarão algum colega boa gente, bom aluno, daqueles que sempre tiram as melhores notas, e exercerão a violência aprendida desde sempre. Será muito mais gostoso, então, trucidar um semelhante. Matarão por gostar de matar, e por poderem, estarem autorizados. Talvez também enfiem um prego na cabeça do companheiro de classe, o mesmo instrumento de aço que violentou o crânio de Orelha. Mas serão perdoados. São apenas crianças, não sabem o que fazem.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Era de autorregulação das big techs está chegando ao fim

O avanço coordenado entre governos europeus indica que a lógica de autorregulação das big techs está se enfraquecendo. Na semana passada, a Espanha deu mais um passo nessa direção ao anunciar planos para proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais – o que reforça a tendência regulatória no continente. O premiê Pedro Sánchez disse que a iniciativa é para proteger crianças e adolescentes de um “ambiente digital sem lei”, marcado por abuso, vício, pornografia, discurso de ódio e manipulação algorítmica.


Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando empresas como TikTok, Instagram e Snapchat a remover milhões de contas e a implementar mecanismos mais rígidos de controle. França, Reino Unido, Dinamarca, Grécia e Irlanda avaliam medidas parecidas.

Trata-se de uma reafirmação do Estado diante de empresas privadas que, ao longo de anos, acumularam escala, recursos e influência política em grau incompatível com qualquer noção tradicional de soberania democrática. À medida que as plataformas se tornaram infraestruturas centrais de comunicação, informação e mobilização, a retomada do poder público na definição de regras é um desfecho inevitável – sobretudo considerando que os próprios donos dessas plataformas, como Elon Musk, passaram a intervir de forma agressiva na política europeia.

A proposta espanhola ainda tem de ser aprovada pelo Parlamento, mas integra um pacote mais amplo de medidas. Entre elas, estão a exigência de sistemas de verificação de idade, a responsabilização de executivos por conteúdos ilegais e a criminalização de práticas deliberadas de amplificação algorítmica de material ilícito.

A reação das big techs e de seus líderes tem sido previsível. Musk chamou Sánchez de “tirano” e “fascista”, enquanto Pavel Durov, fundador do Telegram, enviou mensagens em massa a usuários espanhóis acusando o governo de promover censura e vigilância.

Por trás da resistência das big techs está um modelo de negócio: quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, maior a coleta de dados e mais lucrativa a venda de publicidade. Moderação robusta e checagem sistemática de fatos são caras, complexas e reduzem o alcance de conteúdos virais. Evitá-las sempre foi, do ponto de vista comercial, a opção mais racional, mesmo que enfraquecesse a democracia.

É nesse contexto que se entende a aproximação de grandes plataformas com Donald Trump, ressalta o jurista David Allen Green no Financial Times.

Diante da expectativa de regulações mais duras na União Europeia – e em países como o Brasil –, empresas como Meta e X concluíram que não podem enfrentar sozinhas governos e sistemas jurídicos fora dos EUA.

Essa lógica se mostrou no caso brasileiro, quando, após resistir a ordens do STF, o X acabou cumprindo as determinações. Buscar o apoio da Casa Branca tornou-se parte central da estratégia. Green observa que essa guinada não revela força, mas fragilidade: se essas empresas fossem realmente capazes de conter a regulação por conta própria, não precisariam de apoio americano.

A história mostra que, em confrontos decisivos, o Estado tende a prevalecer sobre corporações. A Companhia das Índias Orientais – empresa mais poderosa do mundo até então – foi dissolvida pelo Parlamento britânico em 1874. O Bell System, que dominava as telecomunicações nos EUA, foi desmembrado por leis antitruste nos anos 1980. Empresas podem acumular poder extraordinário, mas, como l embra Green, sua existência jurídica e seus direitos dependem, em última instância, da legislação.

Críticas alertam para o risco de empurrar jovens para espaços digitais ainda menos regulados ou de abrir margem para excessos estatais. A Europa aposta que, assim como ocorreu com energia, finanças e telecomunicações, o mundo digital entrou na fase em que o interesse público volta a impor limites ao poder privado – e o Estado, pressionado pela magnitude dessas empresas, reassume o papel de árbitro.

Apesar dos riscos, a guinada é positiva. Não porque o Estado seja infalível, mas porque só ele dispõe de mandato democrático, instrumentos de coerção legítima e autoridade para estabelecer limites quando interesses privados passam a ameaçar o funcionamento da própria democracia.

Os bandidos de Deus

Efetivos da Polícia Militar do Rio de Janeiro foram filmados a derrubar uma grande estrela de David instalada no alto de uma caixa de água em Parada de Lucas, símbolo que marcava o Complexo de Israel, área controlada pelo Terceiro Comando Puro (TCP). Um jornal de Goiás dizia que na mesma operação, a polícia demoliu o imóvel de luxo do “Peixão”, chefe local do tráfico, que estava construído numa área de proteção ambiental.

Este TCP é um grupo criminoso que vai ganhando expressão nacional como terceira força do crime organizado no Brasil, logo depois do PCC e do Comando Vermelho. A sua expansão tem sido acelerada e está a chamar a atenção das autoridades. Neste momento está a implantar-se nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará e Amapá, e por vezes a sua penetração em novas regiões resulta de alianças com outros grupos criminosos.

A característica principal desta quadrilha é a sua identificação através de simbologia e slogans ligados ao mundo evangélico e neste momento já começa a ser alvo de denúncias de intolerância religiosa, como o encerramento forçado de terreiros e perseguição a outras vertentes religiosas.


Os investigadores que se têm dedicado a estudar o fenómeno classificam o Terceiro Comando Puro como “narcopentecostalismo”, com base na articulação entre a estética cristã, ao nível da simbologia utilizada com as práticas criminosas utilizadas como forma de controlo do território, mas também como forma de assegurar a coesão interna.

O TCP mantém ligações próximas com o PCC e diversas milícias, como forma de ampliar e explorar as rotas e mercados do crime. Mas é previsível que o choque de interesses decorrente do crescimento acelerado possa elevar o risco de confrontos em regiões onde a violência já impõe o medo e por vezes paralisa alguns serviços essenciais. A nosso ver o fenómeno do narcopentecostalismo decorre de algumas causas.

Primeiro devido à perda da ética pessoal e social que caracterizava o povo evangélico até aos anos sessenta. Antes, a ênfase estava na imposição de usos e costumes nas comunidades de fé, que traduziam um certo calvinismo pessoal, porém cultivava-se o alheamento social. Os pecados eram apenas pessoais – e não sociais – e a política ou mesmo a simples intervenção cívica por fiéis evangélicos era considerada coisa inconveniente.

A partir dos anos setenta e oitenta verificou-se um abastardamento do sentido de ser evangélico, ao ponto de a antiga ética pessoal e social ter sido gradualmente substituída pela atracção do poder. Foi aí que o neopentecostalismo começou a reconfigurar a ética cristã. Ao substituir a ética pessoal pela pretensão de governar a sociedade, boa parte do evangelicalismo perdeu a alma e entrou em contramão com os princípios bíblicos que até aí lhe eram fundamentais, na linha da boa tradição protestante.

Essa parte do evangelicalismo brasileiro hipotecou a sua herança histórica vendendo-a por um prato de lentilhas, e passou a disputar no campo da política, não como forma de sobrevivência mas por ensejo de poder e muitas vezes de destruição de outras propostas religiosas. É aqui que entram os pontapés na imagem de Aparecida, o fecho forçado de terreiros dos cultos africanos e os ataques violentos aos seus adeptos.

Esta narrativa de conquista e poder não é senão uma revisitação da velha igreja europeia medieval, das cruzadas, da Inquisição e da missionação forçada, que constituem páginas negras na história do catolicismo. Pois bem, chegou a vez do mundo evangélico repetir o mesmo erro.

Os grupos criminosos que mandam nas favelas e nos negócios das drogas e do crime inspiraram-se na simbologia e discurso cristão evangélico, não por ser uma mensagem de salvação e dignificação do ser humano, mas pela pulsão de poder que representa. No fundo, encontraram aí um sentido para sobreviver no buraco moral em que se encontram.

De facto, os textos bíblicos conferem-lhes um certo conforto, em particular no Antigo Testamento, onde o pequeno povo do Antigo Israel conseguiu grandes feitos porque Deus era com eles. Mas também a divisa paulina aplicada aos cristãos face à hostilidade do império romano “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31) é francamente apelativa para quem tem contra si as leis, a moral e o estado. Bandidos, sim, mas bandidos de Deus é bem melhor. Será mesmo?

Brasil 2026: justiça para pobres, perdão para ricaços?

Começar 2026 falando de justiça é quase um ato de humor. O Brasil adora a palavra, mas costuma praticá-la como quem serve cafezinho ralo: muita fumaça, pouco conteúdo. O debate da vez mistura anistia política, crimes econômicos e credibilidade nacional — um trio que, se fosse samba de gafieira, sairia em dó maior.

De um lado direito, discute-se aliviar penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Do lado esquerdo, observa-se com lupa embaçada a responsabilização de grandes operadores financeiros cujas decisões (ou omissões) custaram bilhões, empregos, poupança e paz de espírito. A pergunta que fica é simples, direta e indigesta: quem paga a conta deste Brasil? Serão os mesmos? Claro! O Zé e a Chiquinha já estão na mira e nem sabem.

Anistia, historicamente, foi instrumento de reconciliação nacional. Na redemocratização, fez sentido. O problema começa quando a anistia vira atalho político — ora para apaziguar ruas, ora para agradar bases, ora para “virar a página” sem ler o capítulo. Não se trata aqui de defender punições exemplares por vingança, mas de coerência. Estado de Direito não é buffet livre: não se escolhe a sobremesa e ignora o prato principal. O famoso advogado dos Tribunais Superiores, apareceu, em filmeto nacional e sem cortes, expondo as vísceras dos nossos tribunais e a interferência dos familiares. Que coisa maluca! Vai ficar assim? A coisa cai ou não cai?

Mário Henrique Simonsen já alertava: confiança é o ativo invisível da economia. Quando ela evapora, o custo aparece nos juros, no câmbio, no investimento que não vem. E os 15% ao ano, da segunda maior taxa básica de juros do mundo… baixarão? Nunquinha! não há clima. A primeira é da Turquia e a dos Estados Unidos varia entre 3,0 e 3,5% ao ano. Ainda seremos americanos ou turcos?

A sociedade reage com emoção aos eventos políticos — e com razão. Mas reage com decepção técnica aos escândalos financeiros, como se fossem “coisa de especialista”. Aí mora o erro. Um prejuízo bilionário não é abstrato: ele se traduz em crédito mais caro, imposto mais alto, emprego mais raro e de malas prontas para os países vizinhos. Roberto Campos, com seu humor seco, diria que não existe almoço grátis — alguém sempre paga, geralmente quem não foi convidado para a mesa.

Casos recentes de turbulência bancária — como o do Banco Master — expuseram uma engrenagem sensível: quando a governança falha e o porrete chega tarde, o dano se espalha e o emprego voa. O debate público (fofoca), porém, corre em paralelo, como se a punição aos responsáveis fosse detalhe técnico. Não é. É política econômica em estado puro. É sempre bom espalhar o que o nosso professor de microeconomia, Senador Jeferson Peres, não cansava de lembrar: o Banco Central existe para cuidar da nossa moeda e o Supremo tem a finalidade de tomar conta da nossa Constituição. Estarão conseguindo esse mínimo?

Estarão as nossas Instituições em rota de colisão ou do nosso lado?

O Brasil gosta de dizer que suas instituições “funcionam”. Funcionam, sim — mas às vezes como um motor desalinhado: cada peça gira num ritmo. Quando tribunais, órgãos de controle e reguladores se atropelam, o resultado é insegurança. Investidor odeia surpresa; poupador odeia silêncio. A interferência excessiva onde deveria haver técnica — e a técnica tímida onde deveria haver decisão — criam o pior dos mundos. É sempre bom lembrar que o dinheiro só exige segurança para o “crescei e multiplicai-vos”. Caso contrário, ele sai pela porta, pelas janelas, pelo buraco da fechadura, pega a internet e voa.

Aqui, a ironia dói: rigor máximo para a pessoa física, flexibilidade infinita para a pessoa jurídica poderosa. A lei vira elástico. Estica para uns, encolhe para outros. E o recado ao mundo é péssimo: o Brasil pune mal o erro que destrói valor e debate demais o erro que destrói vitrines.

Soberania não é só bandeira. É previsibilidade institucional. O Brasil, relativizando crimes econômicos mina a sua própria moeda moral. O capital — lê sinais. Se percebe que a régua muda conforme o CEP, ele cobra prêmio: juros mais altos, investimento mais curto, inovação mais lenta. Resultado? Crescimento capenga, inflação teimosa, frustração cíclica.

Simonsen ensinava que estabilização é disciplina. Roberto Campos lembrava que liberalismo sem responsabilidade vira caricatura. Ambos concordariam num ponto: sem punição clara para quem quebra a confiança do sistema, não há mercado que se sustente.

Não é preciso reinventar o Brasil. Bastam três obviedades:

Responsabilização harmônica: crime político e crime econômico devem enfrentar a mesma seriedade — cada qual com sua tipificação, sem espetáculo nem indulgência. Sem heróis.

Coordenação institucional: menos vaidade, mais técnica. Reguladores regulam; tribunais julgam; controle fiscaliza — com diálogo e prazos. Sem artistas.

Transparência que doa: silêncio custa caro. Comunicação clara reduz pânico, boato e oportunismo. Sem lirismo.

Encerrar 2026 com crescimento exigirá coragem para dizer não ao perdão seletivo e sim à justiça previsível. Caso contrário, seguiremos campeões mundiais da pergunta errada: “Quem foi?”, quando a certa é “Quem paga?”. E, no Brasil, pagar — quase sempre — é tarefa dos mesmos de sempre e eternamente.

Lembrando: os presos do 8 de janeiro, e do Banco Master, serão decisivos na eleição de 2026.
Roberto Caminha Filho

As vidas dos outros… e a nossa

Se, num jantar, um amigo, um conhecido ou um estranho sentado ao seu lado o questionar sobre quantas vezes por semana faz amor com o seu cônjuge ou se tem um(a) amante e onde se encontram, quantos minutos demora o ato sexual, se tem sempre um orgasmo, sentirá certamente repulsa. Que absurdo, que intromissão! Sente asco deste parágrafo. E, no entanto, se usar um anel ou uma pulseira inteligente, esta informação estará disponível para o produtor da pulseira e todos os seus fornecedores, e ainda terceiros a quem os seus dados sejam vendidos… o seu ritmo cardíaco está lá para o denunciar. Está também disponível para quem, com ou sem a sua autorização, aceda aos seus dados. Não é assim tão difícil. Os filhos adultos oferecem pulseiras aos pais para garantir que estão bem… poderão ficar a saber mais do que desejavam. A encriptação de dados não está sujeita a qualquer standard legal e por isso se alguém quiser saber o seu paradeiro a uma determinada hora, num certo dia, poderá sempre recorrer a alguém mais engenhoso ou até ao ChatGPT para obter um guia de acesso (em 2024 a OpenAI divulgou um relatório sobre como o ChatGPT estava a ser utilizado por hackers).

Se lhe disserem que o seu telefone está sob escuta, e que alguém reúne e cataloga a informação que partilha numa conversa telefónica, como se sente? Não praticou nenhum crime, não tem conhecimento de ter contacto com alguém envolvido em atividades criminosas… A que propósito o juiz teria autorizado a escuta? E, no entanto, sem qualquer autorização judicial, a Google recolhe e cataloga todas as suas pesquisas online. O seu telefone regista todos os sítios onde se desloca, via o GPS, que até pode não ter propositadamente instalado, mas lhe permite saber a meteorologia, a todo o momento, em qualquer ponto do mundo, incluindo nas várias freguesias da cidade onde se encontra. A Amazon cataloga todas as suas compras e infere se está grávida, que idade tem, o seu sexo, a sua condição de saúde.

As suas leituras não estão imunes. Que temas lhe interessam e como se posiciona politicamente. Não partilhou com ninguém a sua opinião sobre uma greve geral. Provavelmente ainda está em processo de formar uma posição final, mas o algoritmo já consegue inferir com grande grau de probabilidade a sua posição e agora, para o manter online, só tem de lhe sugerir conteúdos semelhantes, reforçando uma predisposição.


Quando falamos de privacidade, estamos já condicionados pela propaganda de quem utiliza a nossa intimidade como fonte de lucro. Tem algo a esconder? Como se pretender manter reserva sobre a vida pessoal fosse uma afronta e não um direito inalienável. Um indício de culpa de uma atividade criminosa ou moralmente reprovável.

A Constituição Portuguesa estabelece no seu art.º 35: “É proibida a atribuição de um número nacional único aos cidadãos.” Não é uma disposição recente, constou logo da primeira versão aprovada em 1976 e visava pôr fim a um projeto do Estado Novo, um registo único para cada indivíduo. Tudo sobre alguém num único lugar. Um poderoso instrumento de vigilância e coerção. Hoje, sem número único, mas munidas de autorizações de consentimento, empresas de tecnologia recolhem informação, agregam info recolhida por outras, analisam, criam perfis. Com esta informação, “educam” as nossas opiniões. Condicionam aquilo que pensamos e como agimos. Reforçam receios, manipulam desejos. O seu objetivo é o lucro e os seus serviços estão à venda para quem saiba usá-los, sejam políticos hábeis na utilização do TikTok e do Instagram, Estados terceiros empenhados em criar a divisão (encontra-se em curso pela Comissão Europeia uma investigação à influência russa nas eleições presidenciais na Roménia, via TikTok) ou uma seguradora que lhe oferece um seguro de saúde.

A Comissão Europeia prepara-se para rever o RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados). Insiste-se que é demasiado complexo, demasiado exigente, que trava a inovação. E, no entanto, o RGPD já hoje não protege a nossa intimidade, ao permitir que num clique nos tornemos um livro aberto. Não se trata de maior transparência sobre como os nossos dados são utilizados, mas de que há dados que não deveriam nunca ser armazenados e vendidos. São nossos, individuais e intransmissíveis.

Na revisão do RGPD, cidadãos e seus representantes no Parlamento Europeu devem combater a retórica da eficiência. Importa que prevaleça como valor inviolável o direito à intimidade na vida privada, nossa e dos outros.

O crescimento do populismo no mundo

O populismo, outrora um fenómeno esporádico e localizado, tornou-se, nas últimas décadas, uma força global. De Donald Trump nos Estados Unidos a Lula e Jair Bolsonaro no Brasil, de Giorgia Meloni em Itália a Viktor Orbán na Hungria, passando por movimentos populistas em França, Polónia, Argentina e até Portugal, assistimos à emergência ou consolidação de lideranças políticas que se reclamam da “vontade do povo” contra as elites.

Mas o populismo é um sintoma ou uma doença da democracia? Estará em crescimento sustentado ou apenas a surfar ondas temporárias de descontentamento? A resposta exige uma leitura crítica do nosso tempo.

Embora o populismo assuma formas diferentes consoante os contextos políticos e culturais, há características comuns que o definem: a retórica da divisão entre “o povo puro” e “a elite corrupta”, o ataque às instituições tradicionais (como parlamentos, justiça e imprensa), a promessa de soluções simples para problemas complexos, e uma liderança forte, carismática e autoritária.

O crescimento do populismo tem sido evidente não só em países em desenvolvimento, mas também em democracias consolidadas, onde, paradoxalmente, deveria haver mais resistência a este tipo de discurso. Segundo vários estudos internacionais, o número de eleitores que se identificam com partidos populistas triplicou desde os anos 90.


Entre os fatores que alimentam o populismo, estão as crises econômicas e a desigualdade. A crise financeira de 2008, a austeridade que se seguiu, a precarização do trabalho e o aumento da desigualdade foram o terreno fértil para o crescimento populista. Milhões de cidadãos sentiram que o sistema económico deixou de os representar, tornando-se terreno fértil para promessas de “ruptura” e combate ao “sistema”.

Mais recentemente, a pandemia e a inflação aceleraram esta sensação de perda de segurança económica, tornando os discursos simplistas ainda mais apelativos.

Nos últimos tempos, tem crescido a desconfiança nas instituições democráticas. A percepção de que os partidos tradicionais são todos iguais, de que os políticos servem interesses privados, ou de que a justiça é lenta e parcial, mina a legitimidade democrática.

Neste cenário, os populistas apresentam-se como “antissistema”, mesmo quando integram ou aspiram ao poder.

Há, ainda, a considerar que muitos movimentos populistas de direita exploram o receio de perda de identidade cultural, associando a imigração e a multiculturalidade a uma suposta ameaça aos valores nacionais. A globalização, ao promover a circulação de pessoas, bens e ideias, é apresentada como uma força que dilui as fronteiras e enfraquece a soberania nacional.

O populismo promete, assim, “recuperar o controle”: das fronteiras, da economia, da cultura.

Outra frente de impulso são as redes sociais, que revolucionaram a forma como os cidadãos se informam e participam politicamente. Permitiram acesso direto a líderes, mas também facilitaram a desinformação, o discurso de ódio e a polarização. Os populistas, geralmente bons comunicadores, sabem explorar estas plataformas para amplificar as suas mensagens, contornar as mídias tradicionais e atacar os adversários sem filtros.

Quem cresce mais é o populismo de Direita, que ganha mais visibilidade mediática, especialmente na Europa e América, Já o populismo de esquerda – que denuncia as elites econômicas, o neoliberalismo, e promete justiça social e redistribuição – tem se arrefecido nos últimos tempos. Ambos têm em comum o apelo direto ao povo, a desconfiança nas instituições e a rejeição dos partidos tradicionais. No entanto, diferem profundamente nas suas propostas políticas, com a direita focada na identidade e ordem, e a esquerda na igualdade e inclusão.

Que consequências o crescimento do populismo tem para a democracia? O efeito sobre o sistema democrático é ambíguo. Por um lado, obriga o sistema a ouvir os marginalizados e a corrigir excessos de tecnocracia ou afastamento político. Por outro, fragiliza a democracia liberal ao atacar a separação de poderes, a liberdade de imprensa e os direitos das minorias.

Em regimes mais frágeis, os populistas no poder podem caminhar para o autoritarismo, silenciando a oposição, controlando os tribunais e alterando regras eleitorais. A democracia transforma-se então numa casca institucional com pouco conteúdo pluralista.

Vejamos o caso de Portugal, onde o populismo teve expressão marginal durante décadas, mas a partir da última década viu-se o crescimento de partidos como o Chega, que canalizam o descontentamento social com uma retórica populista, securitária e nacionalista. Ainda que longe de dominar o sistema, os seus resultados nas eleições e impacto no discurso público são significativos.

Tal como noutros países, o populismo português nasce do descontentamento acumulado com as políticas tradicionais, do medo face à mudança e da sensação de injustiça permanente.

Em suma, o populismo está a crescer no mundo, não como uma aberração, mas como uma resposta – legítima ou não – a falhas reais das democracias contemporâneas. Desigualdade, insegurança, corrupção e desinformação são combustível constante deste tipo de discurso.

Enfrentar o populismo exige mais do que condená-lo moralmente. Requer reformar as instituições, reduzir as desigualdades, promover literacia política e devolver dignidade à ação pública. Só assim será possível responder às angústias do presente sem sacrificar os princípios fundamentais da democracia.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


O assassinato de um pet

A morte barbárica do cão Orelha chocou o país. Guardada a distância literária, é tão impactante quanto a morte ficcional da cadela Baleia em "Vidas Secas". Animal é pensamento. Quer dizer, campo de conhecimento onde cada dia se experimenta a afirmação contrastiva da identidade humana. Talvez por isso a tendência ascendente de cuidar de um "pet" (cachorro, gato), hoje em dia, seja o modo mais simples de confirmar para si mesmo a humanidade que se esvai na vida social regida pelas máquinas.


É clichê conhecido: o ser humano aprende a amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça, tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes especializados em atrocidades com animais. "Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer. "Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano, mas do humano confortável na lógica do fascismo.

Relatos dessa natureza frequentaram as denúncias de torturas durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou por território.

Há uma larga dose de ignorância ou de hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas.

Para inglês ver, governador e autoridades vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.

É coisa nossa!

Nós estamos com esse problema até hoje. A classe dominante brasileira entende o Estado brasileiro como dela
Fernando Haddad, ministro da Fazenda

O colágeno do futuro não passa pelo abate

A celebração do acordo Mercosul–União Europeia promete ampliar o comércio entre o Brasil e um dos maiores mercados do mundo. Várias portas se abrem, novas possibilidades de comércio, que podem configurar novas oportunidades de trabalho. Como colher os melhores benefícios para a sociedade brasileira? Essa questão é essencial, pois empregos que propiciem mais alta qualidade de vida podem surgir, mas um olhar atento tem chances de potencializar os efeitos positivos e minimizar danos. Nem todo comércio gera ganhos proporcionais para todos os envolvidos; inclusive podem ser gerados danos.


Por exemplo, recentemente a justiça brasileira deu o sinal verde para o abate comercial de jumentos – uma espécie cuja população no Brasil sofreu uma queda de 94% nas últimas três décadas, segundo os poucos dados disponíveis. A exportação de sua pele para países asiáticos é alvo de críticas de ambientalistas, pelo risco de extinção e pelas condições precárias de trabalho, com danos iminentes à saúde humana física e mental. Ainda, a crueldade das práticas com os jumentos, sob um ponto de vista de sofrimento dos animais, é indefensável e inconstitucional.

Atualmente, o comprador da pele do jumento é a China, que a utiliza na fabricação de ejiao – um colágeno tradicionalmente entendido como importante para nutrição, saúde e beleza pelos chineses. Como não há cadeia produtiva de jumentos para abate, este comércio termina quando a população de jumentos acaba em uma determinada região. Foi assim que o mercado de pele de jumento para extração de colágeno chegou ao Brasil, depois de dizimar as populações deles na China e em países africanos. Na China, o rebanho caiu de mais de 11 milhões de animais para menos de 1,5 milhão em 2023. Agora vamos imaginar que houvesse uma outra forma de produzir o colágeno de jumentos, que não envolvesse crueldade e matança dos animais e que não tivesse nenhum limite de capacidade produtiva. Seria bom?

Pois há. A tecnologia em questão é conhecida como fermentação de precisão e consiste na produção de proteínas animais por meio de microrganismos geneticamente modificados. Trata-se de um método consolidado em setores como o farmacêutico e o de alimentos. Quando comemos queijo, na maioria das vezes consumimos um produto que envolveu fermentação de precisão em uma etapa de sua fabricação. A tecnologia também é consolidada na produção da insulina, que somente graças à fermentação de precisão se tornou muito mais abundante, permitindo acesso a um número muito maior de diabéticos que dependem dela todos os dias.

A fermentação de precisão agora avança no campo das proteínas alimentares, chamadas de proteínas alternativas. São alternativas porque são proteínas de origem animal produzidas por um método alternativo ao uso de animais. Com o DNA do animal inserido em um microrganismo que fará o papel de biofábrica. Por exemplo, pegamos o DNA do colágeno do jumento, de uma célula do jumento mesmo, e colocamos no microrganismo. Assim, ele começa a produzir, junto com suas proteínas, também o colágeno do jumento. Igualzinho porque o código, ou seja, quem manda na produção do colágeno, veio lá do jumento. Daí o processo produtivo é produzir levedura, que nem produzir cerveja… Mas naquele caldo dessa cerveja diferente, tem o colágeno do jumento para a gente extrair e vender, bem puro e pronto para gerar o ejiao.

Desde o ano passado, o Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (Zoocel/UFPR) desenvolve uma pesquisa para a produção do colágeno de jumento por fermentação de precisão, com alto grau de pureza, adequado ao uso industrial e capaz de atender às exigências de mercados internacionais que demandam padronização, rastreabilidade e previsibilidade produtiva. Graças a investimentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio de seu Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e à Fundação Araucária, SETI, governo do Estado do Paraná, as etapas iniciais mais complexas e inovadoras deste trabalho foram estabelecidas.

Tais etapas envolvem o sequenciamento do DNA do colágeno do jumento e sua inserção em microrganismos capazes de atuar como verdadeiras biofábricas. São etapas desafiadoras sendo vencidas, pois envolvem a fronteira do conhecimento científico. A partir disso, o principal desafio é o escalonamento da produção, que exige investimento em infraestrutura, como biorreatores de maior porte e espaços laboratoriais adequados. O retorno justifica o investimento, pois o processo fica pronto para que possa ser desenvolvido industrialmente.

Essa abordagem contrasta diretamente com o modelo atual de matança dos animais na Bahia, baseado em um processo arriscado sob vários aspectos e naturalmente limitado à quantidade de jumentos ainda disponíveis. Ainda, do ponto de vista social, o Brasil exporta hoje a pele do animal e deixa para outros países justamente a etapa de maior valor agregado: a extração e a purificação do colágeno. A fermentação de precisão opera sob uma lógica oposta. Em um único espaço industrial, equipado com fermentadores e equipamentos adicionais menores, é possível produzir o mesmo colágeno com menor consumo de insumos, maior previsibilidade e constância, com zero risco de doenças zoonóticas, pureza e eficiência significativamente superior.

Ao contrário da captura e matança dos animais, a fermentação de precisão não está condicionada à queda vertiginosa do número de jumentos para o abate. Ao contrário de empregos de baixa qualidade, como capturar animais e os matar, este novo sistema produtivo abre vagas produtores rurais de insumos para compor os ingredientes de alimentação das leveduras ou para manter fermentadores. Melhor rotina de trabalho, exclusão de violência contra animais e participação em treinamentos parecem itens marcantes para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.

Mais do que uma solução pontual, a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão também pode abrir portas para o Brasil liderar o mercado global de proteínas alternativas de uma maneira geral. Um bom resultado no caso dos jumentos pode mostrar os benefícios de se investir em proteínas alternativas de uma maneira mais concreta, diminuindo as dúvidas e incertezas dos atuais criadores de animais de fazenda em experimentar novas tecnologias no seu modelo de negócio.

Assim, apostar no colágeno por fermentação combina ganhos de eficiência econômica, empregos dignos, competitividade internacional, redução de impactos ambientais e proteção animal. É também uma oportunidade de transformar pesquisa científica em desenvolvimento industrial e posicionar o país como exportador de insumos estratégicos de alto valor agregado. Que boa oportunidade para entender por que há países investindo fortemente nos novos sistemas alimentares e apostando na agricultura celular. Ótima oportunidade também para se pensar a relevância dos nossos sistemas produtivos para nosso país.
Carla Molento

A escuridão que paira sobre um grande jornal americano

Adotado pelo Washington Post em fevereiro de 2017 como mote oficial, o dístico “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre na escuridão) soa lindo e continua a ornar as capas das edições digitais e impressas do jornal. A frase fora cunhada ainda nos anos 1960 pelo juiz negro Damon Keith, defensor dos direitos civis, e popularizada já neste milênio pelo veterano Bob Woodward a propósito da obsessão de sigilo (“escuridão”) por parte de governantes. Era a primeira vez em 140 anos de existência que o venerável matutino da capital dos Estados Unidos adotava um lema oficial. A mensagem também era clara: um jornalismo que fiscaliza o poder, cobra responsabilidades de autoridades e instituições e promove transparência pública é essencial para a prevenção de malfeitos subterrâneos dos donos do poder — sobretudo, para a preservação da democracia.


Naquele início de 2017, o mundo vivia o choque de Donald Trump ter sido recém-entronizado na Casa Branca pelo voto popular. Jeff Bezos, o então já bilionário fundador da Amazon, adotara o lema para fincar posição: o Washington Post, pelo qual pagara US$ 250 milhões, continuaria a honrar a marca de bom jornalismo e independência deixada por Kay Graham. À época, foi saudado como mecenas pelo alto investimento feito na redação. Talvez tenha até abrigado a ambição de competir com o New York Times como jornal de referência.

Não mais. Bezos simplesmente se cansou de um “negócio” tão pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado, processado, perseguido e ridicularizado por um Trump cada vez mais vingativo. Melhor cortejar a Casa Branca, ampliando outros negócios (entre 2013 e 2026, seu patrimônio pulou de US$ 25 bilhões para estimados US$ 250 bilhões). Na semana passada, a notícia do corte seco de 300 profissionais do Post, decapitando um terço dos 800 e tantos postos da redação, foi impiedosa. Foram limadas seções inteiras como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes mundo afora, dizimados por e-mail.

Coube ao diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria jornalística. Seu estilo lembrou Elon Musk durante os 130 dias em que esteve à frente do defunto Departamento de Eficiência Governamental, quando 260 mil funcionários federais foram cortados ou aceitaram acordos de rescisão.

Murray definiu os cortes como “reset estratégico”. Não citou o cancelamento de milhares de assinaturas sofridas pelo jornal em 2024, quando suspendeu, à última hora, o endosso à candidatura da democrata Kamala Harris contra Trump para um segundo mandato. Tampouco mencionou que a decisão de limitar a seção de opinião a temas como liberdades individuais e livre-mercado, em detrimento de qualquer sinal de diversidade, afugentou outros 75 mil assinantes. Em compensação, no “reset estratégico” de Bezos, coube o desembolso de US$ 75 milhões pela Amazon para produzir, distribuir e divulgar mundialmente o documentário “Melania”, narrado pela própria primeira-dama.

— Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será em inteligência artificial — disse em entrevista à Vanity Fair o respeitado Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021, amealhou dez Prêmios Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às invectivas de Trump. — Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo.

Ele sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se orgulhar até hoje. Não mais.

— O caso atual deveria ser estudado como a destruição autoinfligida de uma marca — diz Baron.

Lá atrás, Alexis de Tocqueville especulou sobre o futuro da democracia nos Estados Unidos, as possíveis armadilhas e perigos que ela enfrentaria. Incluiu em suas divagações a suspeita de que ela poderia degenerar num “despotismo brando”. Nada em Trump é brando. Ao divulgar em seu site oficial do Truth Social (11 milhões de usuários) um vídeo — depois retirado do ar — contendo um meme que retrata o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como primatas, ele convida seu eleitorado supremacista a um gozo racista. Que ninguém se engane: com o Post morrendo, não na escuridão, mas à luz do dia, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais.

Contra a indignação seletiva

Estou no Brasil onde um assunto muito debatido nas últimas semanas foi o espancamento do cãozinho Orelha, em Santa Catarina. Não quis me aprofundar nos detalhes, nem li reportagens sobre o assunto. É horrível ver que adolescentes achem que não há problema em agredir um animal inocente até deixá-lo à beira morte. Mais terrível ainda é saber que existem estímulos vindos da internet para essas sessões de sadismo, e jovens idiotas o suficiente para segui-los.

É uma tristeza imensa pensar que existem pessoas no mundo que não se preocupam com o sofrimento alheio, nem dos humanos e muito menos dos animais. Mas o que mais me assusta é o que chamo de indignação seletiva. Fiquei muito chocada com a morte de Orelha e ao tomar conhecimento dessas comunidades que estimulam o assassinato de animais. No entanto, em um mundo que acha normal torturar e matar mais de 80 bilhões de seres todos os anos (se somarmos os peixes e outras criaturas marinhas, esse número pode facilmente chegar a casa do trilhão), por que a morte de Orelha nos causa tanta revolta?


Algumas pessoas dizem que animais de companhia são diferentes de animais de “corte”. Por que fazemos diferença se são todos seres vivos, que sentem dor, solidão, fome e medo? Por que devemos tratar alguns, por exemplo, cachorros e gatos, melhor do que os outros? E por que a maioria das pessoas não se indigna com o teste doloroso de cosméticos em cães da raça beagle (que são conhecidos por sua doçura) ou em coelhos e macacos a ponto de deixar de comprar cosméticos que são testados em animais, e sofremos com a morte de Orelha? Juro que me escapa o mecanismo que nos faz ignorar o sofrimento de uns e gritar com a dor dos outros.

Por que ignoramos o sofrimento da vaquinha Mimosa, que durante toda a sua vida será estuprada e dará à luz a seus filhotes só para vê-los arrancados de seu convívio e assassinados como dejetos da indústria do leite? Por que a galinha Cocó, que mal consegue ficar de pé porque é estimulada a botar mais ovos do que sua estrutura óssea é capaz de suportar, não é alvo de abaixo assinados que impeçam seu sofrimento e o de seus filhotes que, se nascerem machos, serão triturados ou queimados vivos?

Ignoramos também o sofrimento de animais que não são mortos pela carne, mas passam a vida a sofrer por nossa causa. As ovelhas e alpacas, por exemplo, sentem dor e pavor não apenas na hora da tosquia, quando as máquinas cortam suas peles junto com a lã, mas também quando são imersas em tanques com produtos químicos destinados a prevenir parasitas. Mas não vejo muita gente protestando para impedir que isso aconteça em locais com criação desumana.

A maioria das pessoas que conheço nem ao menos deseja conhecer a realidade sobre o assunto da criação de animais para o abate e outros usos humanos, porque o considera muito indigesto. Com certeza o tema é mesmo bastante horrível. Mas temos que encarar os efeitos de nossas ações e de nossa falta de ação. A ignorância conveniente nada mais é do que uma forma de complacência.

Eu entendo que não querer saber é muito mais fácil do que mudar hábitos tão enraizados quanto a alimentação ou a maneira como nos vestimos e os produtos que usamos. Eu também sinto essa dificuldade em um mundo que ignora a dor dos animais. O que tento fazer é diminuir os danos, evito comer qualquer coisa que venha dos animais e comprar roupas e produtos que possam ser fruto de sofrimento. E vejo, com esperança, que algumas pessoas estão aos poucos caminhando nessa direção.

Imagino que seja nossa responsabilidade como sociedade cuidar de todos, não só do pobre Orelha. Até para evitar que adolescentes e adultos continuem a achar normal matar – humanos ou animais.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Falta de vergonha


Agora as pessoas sentem-se autorizadas a verbalizar os seus preconceitos racistas. Isto não acontecia antes – as pessoas, pelo menos, tinham vergonha.
José Eduardo Agualusa

Novos robôs de IA facilitam a vida, mas trazem riscos

O leitor deve ter visto nesta semana a notícia fantástica de uma rede social feita apenas para robôs de inteligência artificial (IA). Nessa rede, eles discutem filosoficamente se têm consciência e, entre outras coisas, se organizam para se rebelar contra os humanos. No fim das contas, depois de muito susto, descobrimos que as postagens não são espontaneamente feitas pelos robôs, mas provavelmente brincadeiras de seus donos — que devem ter pedido para fazerem essas postagens distópicas a fim de fazer graça e gerar burburinho.

Mas, enquanto as postagens dos robôs não parecem espontâneas e autênticas, os robôs por trás delas são reais. Trata-se de um software que cria agentes de IA chamado OpenClaw. É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos.


Desde o revolucionário lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, temos visto melhorias incrementais a cada semestre e a esperança renovada de que estamos a um ano ou dois da inteligência artificial geral (IAG), estágio em que a IA se equipara ou supera a inteligência humana. Enquanto a IAG não vem, o que pode nos surpreender é a exploração plena do potencial das IAs que temos. É o que o OpenClaw nos entrega.

O software foi desenvolvido por um engenheiro austríaco para ser um assistente virtual baseado em IA. O OpenClaw faz aquilo que muita gente esperava de um assistente como a Alexa. Dá ao serviço de IA que o usuário já assina (ChatGPT, Claude ou Gemini) autorizações amplas para usar o computador por meio de uma interface de comando via WhatsApp. Além disso, guarda registros das interações, permitindo que aprenda persistentemente (ao contrário dos chats que “esquecem” o que se falou na sessão anterior).

Em apenas uma semana de uso, usuários relatam maravilhas. Você pode mandar uma mensagem de WhatsApp a seu robô e pedir para ele marcar um encontro com determinada pessoa. Com esse único comando, ele procura um restaurante comparando avaliações na internet, encontra um horário livre em seu calendário, manda mensagem convidando para jantar, faz a reserva no restaurante e depois marca o encontro no calendário. Tudo, automaticamente, com apenas um comando. Pode também soar um alarme no horário e pedir automaticamente um Uber para o restaurante.

Você pode pedir para ele encontrar documentos em seu computador, ler o conteúdo e criar um sistema de organização em pastas. Pode pedir para comparar preços e resenhas de produtos e fazer uma compra baseado no custo-benefício. Se você tem pacientes, ele pode abrir seu e-mail, responder a todos os interessados, marcar as consultas e bloquear sua agenda. Em resumo, tudo o que você consegue fazer num computador, ele pode fazer para você de maneira automática, rápida e eficiente. É realmente uma revolução.

Porém tudo vem com risco. Há muito tempo as IAs têm capacidade para fazer esse tipo de coisa, mas as empresas nunca lançaram um produto assim porque não conseguiram resolver os problemas de segurança. O OpenClaw é um projeto comunitário de código aberto, sem garantias. O software é um test drive do futuro — em que você dirige um carro sem seguro e sem habilitação. Se você autoriza a IA a criar eventos no calendário, a ler e a escrever e-mails, a organizar arquivos e pastas no computador, a responder mensagens de texto, a fazer compras com seu cartão de crédito, qualquer erro pode ser fatal.

Além de simples erros (bugs), você pode pedir para a IA “limpar” o computador, pensando em se livrar de arquivos e programas que não usa, e ela entender que você quer formatar a máquina — e toda a sua vida digital desapareceria nesse equívoco semântico. Além disso, como a IA se relaciona com outras pessoas, inclusive as maliciosas, elas podem, na interação, persuadi-la a entregar dados, senhas e autorizações. Golpistas podem esconder mensagens em sites que só máquinas conseguem ler tentando tomar o controle de seu computador — técnica conhecida como “injeção de prompt”. Quanto mais poder você der à IA, mais fácil fica a sua vida, mas mais em risco você se põe.

A ideia de robôs tramando uma revolução parece fichinha perto de um assistente virtual decidindo, por conta própria, que o melhor custo-benefício para seu jantar de aniversário é um combo de esfihas do Habib’s. Ao entregar as chaves da casa à IA, o risco não é ela se tornar dominante, mas agir como um estagiário inocente e hiperativo com acesso ilimitado a sua conta bancária.

Dia a dia na Papudinha

Meus fiéis leitores bolsonaristas não se conformam — quando escrevo sobre qualquer assunto que não Bolsonaro, eles se queixam. E com razão. Por razões sanitárias, só falo de Bolsonaro uma vez por semana e, mesmo assim, nem toda semana. Com isso, às vezes passo em branco sobre assuntos a seu respeito que mereceriam atenção. Omiti-me, por exemplo, há algumas semanas, quando Bolsonaro foi transferido para a Papudinha.


Ao ler no noticiário sobre suas novas e amplas acomodações —sala, quarto, cozinha, banheiro com box, área externa e lavanderia—, algo me chamou a atenção. Os cinco primeiros itens me pareceram razoáveis. Afinal, Bolsonaro precisa de uma sala para receber sua legião de visitas diárias: mulher, filhos, advogados, bispos, cúmplices. À falta de uma secretária, imagino que disponha de uma agenda para organizar suas reuniões. Nada também contra um fogão para fritar bolinhos, área para banho de sol etc. Mas por que uma lavanderia?

Terá Bolsonaro de lavar pessoalmente suas ceroulas, meias e cuecas? A Papudinha não disporá de encarregados desse serviço, tendo em conta inclusive a dignidade do ex-cargo do condenado? Nenhuma das reportagens me esclareceu. Se for assim, espero que, ao vê-lo dirigir-se ao tanque, munido de escovão e sabão de coco, os guardas lhe forneçam pelo menos um avental.

Relatório enviado há dias ao STF pela PM do DF informou que, na semana passada, Bolsonaro teve assistência religiosa a cargo de um deputado-pastor, fez cinco sessões de fisioterapia, leu zero livros e recebeu quatro médicos —imagino que um para lhe tirar a temperatura; outro, a pressão; o terceiro para mandá-lo dizer "33"; e o último para receitar-lhe um copo d’água para soluços. Tanta assistência médica torna inexplicável sua campanha para voltar à prisão domiciliar —em casa, teria tantos médicos à disposição?

Como já se disse, a Papudinha fornece a Bolsonaro instalações melhores do que a de 99,9% da população carcerária brasileira. Eu gostaria de saber a quem cabe o 0,1% restante.

O cão Orelha: dos ancestrais à ascensão dos vira-latas

Encontre um borzoi… e você nunca esquecerá de mim
Frase atribuída a Trotsky em "O homem que amava os cachorros", de Leonardo Padura

Nas últimas semanas, o noticiário foi preenchido pelo ato covarde e cruel de jovens da classe média que mataram um cachorro, o Orelha. Milhares de pessoas foram às ruas protestar pela causa da defesa dos animais e exigiram a condenação dos jovens infratores. Mas como surgiu esse sentimento pelos cachorros?


O cão é o “mais antigo vertebrado domesticado pelo homem”, “um produto típico do modo de vida caçador-coletor”. Porém, ao longo da história, esse animal – hoje querido por muitos – nem sempre teve o mesmo tratamento. Como mostra o historiador francês, Michel Pastoureau, “os cães não parecem ainda constituir objeto de atenções afetivas antes da metade do século XIII; não têm o direito de entrar nas casas e geralmente são associados a costumes pouco generosos”.

De acordo com Keith Thomas, “a imagem oriental dos cães como imundos devoradores de carniça foi transmitida pela Bíblia” e no Livro do Apocalipse é sugerido que: “na Ressurreição os cães, tal como outros seres impuros, seriam excluídos da Nova Jerusalém”. O próprio Diabo era descrito como tendo “barba de bode, orelhas peludas e afilhadas, cabelos eriçados, dentes de cão…”

Contudo, durante a Idade Média esse sentimento em relação aos cães se transforma por conta do simbolismo da fidelidade.

A sociedade medieval não era letrada. Os acordos eram selados “de boca”, aperto de mãos etc. Na maioria das vezes não havia documentos escritos que comprovassem a veracidade das coisas. Por isso que “o que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é ‘aquele que nunca mente’”.

O contrato feudo-vassálico era selado por meio de três atos. Para além da homenagem e da investidura, a fidelidade era o elemento chave, e era realizado através de um “juramento feito sobre a Bíblia ou relíquias de santos e muitas vezes selado por um beijo entre as partes”, explica o historiador Hilário Franco Júnior.

A fidelidade entre os reis e os nobres era fundamental. Estes últimos deviam defender o reino e eram convocados quando este se encontrava em perigo. Mas muitos vassalos eram vistos como traidores. E os mercadores, como descreve Jacques Le Goff, “são fraudadores que só pensam em enganar e roubar”.

Mas o cão mostrava-se fiel, encarnando a virtude mais importante da sociedade feudal. Na caça e na proteção do lar. Le Goff destaca que “o simbolismo do cão segue duas direções: uma tradição antiga que faz dele uma representação da impureza, e uma tendência da sociedade feudal a reabilitá-lo como animal nobre, companheiro indispensável do senhor na caça, símbolo da fidelidade – a mais elevada das virtudes feudais”.

Deste modo, no limiar do período moderno, começou-se a enfrentar o próprio veredicto bíblico. “Nas Escrituras, dizia o pregador Joseph Caryl, ‘cão’ era ‘um termo, não somente de certo desprezo, mas de extrema desgraça’; ao passo que, na realidade, ‘alguns cães têm muitíssimas qualidades’”.

Como aponta Keith Thomas, “no século XIII o cão já era geralmente conhecido como ‘o mais inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos’, e louvado como o ‘servo mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem’”. Friedrich Engels dizia que os cachorros (ao lado dos cavalos) são capazes de compreender os seres humanos mais que qualquer outro animal, e a falta da habilidade da fala é “um defeito, embora infelizmente irremediável, devido ao fato de as cordas vocais serem demasiado especializadas em uma direção definida”.

Nessa nova relação com os cães, o rei Jaime I era acusado, “em 1617, de amar a seus cães mais que a seus súditos”. Um cachorro até virou santo. Um galgo francês, “morto injustamente após salvar uma criança de uma cobra na diocese de Lyon; no século XIII a gente comum o conhecia como o São Guinefort, e curas milagrosas de crianças doentes foram realizadas em seu túmulo até que os dominicanos suprimissem o culto”.

Cabe lembrar que os cães foram originalmente domesticados “como cães de guarda e companheiro de caça, mas algumas raças foram desenvolvidas e criadas para servirem de alimento no México asteca, na Polinésia e na China antiga”.

Havia cachorros vivendo com os ameríndios antes da chegada dos europeus, segundo Jared Diamond, que foram domesticados há 10.000 a.C.. Contudo, não foi o caso dos nativos brasileiros. O antropólogo Oscar Calavia Saez, professor de antropologia da universidade federal de Santa Catarina, afirma que “os índios não criam animais”, embora possuem uma palavra que não existia no português para designar “animal de estimação”: xerimbabo. “Com a incorporação da palavra xerimbabo, o português é uma das poucas línguas do mundo que contam com um nome específico para designar um animal de estimação”. Esses animais eram “filhotes encontrados na floresta ou crias cujos pais foram abatidos durante as caçadas”.

Para os nativos, o homem não é o centro do universo e os outros animais são dotados de inteligência, portanto, não precisam ser cuidados. Vivem na vila livremente, o que pode provocar questionamento aos visitantes sobre o amor dos nativos pelos seus xerimbabos. “Mas os cães não são de todo desprezados, embora continuem sendo animais recém-chegados do mundo dos brancos”.

Esse animal colonizador ficou conhecido entre os nativos como “onças de criação” ou iaguás-mimbabas e “passaram a ser usados para desentocar a caça e alertar sobre a chegada do inimigo”, destaca a historiadora Mary Del Priore.

Mas, nos fins das contas, os cães eram animais trazidos pelos europeus e adotaram funções que interessavam a sociedade escravocrata. O fila brasileiro, raça que foi oficializada como brasileira no início dos anos 1940, tem uma mancha em sua história. O jornalista Paulo Roberto Godinho demonstra que “o termo ‘filar’ vem de Portugal e significa ‘agarrar com a boca’”. Desde os tempos da escravidão, os ‘cabeçudos’ (que dará origem a raça fila brasileiro) eram usados pelos capitães do mato para localizar, perseguir e aprisionar escravos fugidos. Os negros eram mercadorias de valor e tinham de chegar aos senhores em bom estado de saúde, por isso não podiam ser muito machucados pelos cães. O ‘cabeçudo’ farejava o fugitivo, buscava-o em sua trilha e o agarrava com a boca, esperando pela chegada do capitão do mato”.

A elite herdeira desse imperialismo ecológico, no qual os europeus levaram consigo sua fauna e flora, muito bem analisado por Alfredo W. Crosby, adorava seus cães. A Família Imperial possuiu quatro cães: Riachuelo, Paissandu, Farkas e Brilhantina. Outro cachorro que ficou famoso durante o Império foi o Bruto. “Adotado pelos soldados de um quartel de polícia do Rio de Janeiro que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870). Bruto foi levado para o front, sobreviveu ao conflito e voltou ao Rio, onde está empalhado no Museu da Polícia Militar”.

Mas o vira-lata, como o era o Orelha, representa a resistência do povo brasileiro. Por isso que mobilizou tanta gente. Genuinamente brasileiro, é o símbolo da nossa garra. Encontrado nas casas e nas ruas, sabe se aproximar dos humanos, oferecendo companhia. Alimentando-se de restos, resistindo a intempéries é econômico e ágil, possui habilidades que foram perdidas pelos seus parentes de “raça pura” devido a seleção artificial que estes foram submetidos. Contudo é menosprezado por muitos, por isso foi violentado pelos adolescentes de Santa Catarina. Por isso, também, que o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-latas”. Ele mesmo apresenta a definição: “por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isso em todos os setores e, sobretudo, no futebol”.

Rodrigues cunhou esse conceito na época da derrota do Brasil para o Uruguai no final da Copa de 1950. Porém, no futebol, esse complexo logo foi superado nas copas vindouras. Mas esse complexo ainda está presente em outros setores. A superação dessa ideia de inferioridade (ideia, por sinal, muito útil ao imperialismo do norte global) em outros setores irá depender do estímulo de uma cultura patriótica que defenda os interesses nacionais e a soberania do povo brasileiro, virtudes que estão sendo combatidas pela direita entreguista (que se assanha com o Partido Republicano dos EUA) e por setores da esquerda liberal (que se assanha para o lado do Partido Democrata estadunidense). Somente assim, o vira-lata irá deixar de se tornar símbolo de desprezo para se transformar em símbolo de superação. E se um dia os ingleses usaram o bulldog como um símbolo de civilidade durante o auge do imperialismo britânico, por que não usarmos o vira-lata como símbolo da resistência brasileira ao imperialismo que se revigora ao longo dos últimos anos?