segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Brasil 2026: justiça para pobres, perdão para ricaços?

Começar 2026 falando de justiça é quase um ato de humor. O Brasil adora a palavra, mas costuma praticá-la como quem serve cafezinho ralo: muita fumaça, pouco conteúdo. O debate da vez mistura anistia política, crimes econômicos e credibilidade nacional — um trio que, se fosse samba de gafieira, sairia em dó maior.

De um lado direito, discute-se aliviar penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Do lado esquerdo, observa-se com lupa embaçada a responsabilização de grandes operadores financeiros cujas decisões (ou omissões) custaram bilhões, empregos, poupança e paz de espírito. A pergunta que fica é simples, direta e indigesta: quem paga a conta deste Brasil? Serão os mesmos? Claro! O Zé e a Chiquinha já estão na mira e nem sabem.

Anistia, historicamente, foi instrumento de reconciliação nacional. Na redemocratização, fez sentido. O problema começa quando a anistia vira atalho político — ora para apaziguar ruas, ora para agradar bases, ora para “virar a página” sem ler o capítulo. Não se trata aqui de defender punições exemplares por vingança, mas de coerência. Estado de Direito não é buffet livre: não se escolhe a sobremesa e ignora o prato principal. O famoso advogado dos Tribunais Superiores, apareceu, em filmeto nacional e sem cortes, expondo as vísceras dos nossos tribunais e a interferência dos familiares. Que coisa maluca! Vai ficar assim? A coisa cai ou não cai?

Mário Henrique Simonsen já alertava: confiança é o ativo invisível da economia. Quando ela evapora, o custo aparece nos juros, no câmbio, no investimento que não vem. E os 15% ao ano, da segunda maior taxa básica de juros do mundo… baixarão? Nunquinha! não há clima. A primeira é da Turquia e a dos Estados Unidos varia entre 3,0 e 3,5% ao ano. Ainda seremos americanos ou turcos?

A sociedade reage com emoção aos eventos políticos — e com razão. Mas reage com decepção técnica aos escândalos financeiros, como se fossem “coisa de especialista”. Aí mora o erro. Um prejuízo bilionário não é abstrato: ele se traduz em crédito mais caro, imposto mais alto, emprego mais raro e de malas prontas para os países vizinhos. Roberto Campos, com seu humor seco, diria que não existe almoço grátis — alguém sempre paga, geralmente quem não foi convidado para a mesa.

Casos recentes de turbulência bancária — como o do Banco Master — expuseram uma engrenagem sensível: quando a governança falha e o porrete chega tarde, o dano se espalha e o emprego voa. O debate público (fofoca), porém, corre em paralelo, como se a punição aos responsáveis fosse detalhe técnico. Não é. É política econômica em estado puro. É sempre bom espalhar o que o nosso professor de microeconomia, Senador Jeferson Peres, não cansava de lembrar: o Banco Central existe para cuidar da nossa moeda e o Supremo tem a finalidade de tomar conta da nossa Constituição. Estarão conseguindo esse mínimo?

Estarão as nossas Instituições em rota de colisão ou do nosso lado?

O Brasil gosta de dizer que suas instituições “funcionam”. Funcionam, sim — mas às vezes como um motor desalinhado: cada peça gira num ritmo. Quando tribunais, órgãos de controle e reguladores se atropelam, o resultado é insegurança. Investidor odeia surpresa; poupador odeia silêncio. A interferência excessiva onde deveria haver técnica — e a técnica tímida onde deveria haver decisão — criam o pior dos mundos. É sempre bom lembrar que o dinheiro só exige segurança para o “crescei e multiplicai-vos”. Caso contrário, ele sai pela porta, pelas janelas, pelo buraco da fechadura, pega a internet e voa.

Aqui, a ironia dói: rigor máximo para a pessoa física, flexibilidade infinita para a pessoa jurídica poderosa. A lei vira elástico. Estica para uns, encolhe para outros. E o recado ao mundo é péssimo: o Brasil pune mal o erro que destrói valor e debate demais o erro que destrói vitrines.

Soberania não é só bandeira. É previsibilidade institucional. O Brasil, relativizando crimes econômicos mina a sua própria moeda moral. O capital — lê sinais. Se percebe que a régua muda conforme o CEP, ele cobra prêmio: juros mais altos, investimento mais curto, inovação mais lenta. Resultado? Crescimento capenga, inflação teimosa, frustração cíclica.

Simonsen ensinava que estabilização é disciplina. Roberto Campos lembrava que liberalismo sem responsabilidade vira caricatura. Ambos concordariam num ponto: sem punição clara para quem quebra a confiança do sistema, não há mercado que se sustente.

Não é preciso reinventar o Brasil. Bastam três obviedades:

Responsabilização harmônica: crime político e crime econômico devem enfrentar a mesma seriedade — cada qual com sua tipificação, sem espetáculo nem indulgência. Sem heróis.

Coordenação institucional: menos vaidade, mais técnica. Reguladores regulam; tribunais julgam; controle fiscaliza — com diálogo e prazos. Sem artistas.

Transparência que doa: silêncio custa caro. Comunicação clara reduz pânico, boato e oportunismo. Sem lirismo.

Encerrar 2026 com crescimento exigirá coragem para dizer não ao perdão seletivo e sim à justiça previsível. Caso contrário, seguiremos campeões mundiais da pergunta errada: “Quem foi?”, quando a certa é “Quem paga?”. E, no Brasil, pagar — quase sempre — é tarefa dos mesmos de sempre e eternamente.

Lembrando: os presos do 8 de janeiro, e do Banco Master, serão decisivos na eleição de 2026.
Roberto Caminha Filho

Nenhum comentário:

Postar um comentário