segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Os bandidos de Deus

Efetivos da Polícia Militar do Rio de Janeiro foram filmados a derrubar uma grande estrela de David instalada no alto de uma caixa de água em Parada de Lucas, símbolo que marcava o Complexo de Israel, área controlada pelo Terceiro Comando Puro (TCP). Um jornal de Goiás dizia que na mesma operação, a polícia demoliu o imóvel de luxo do “Peixão”, chefe local do tráfico, que estava construído numa área de proteção ambiental.

Este TCP é um grupo criminoso que vai ganhando expressão nacional como terceira força do crime organizado no Brasil, logo depois do PCC e do Comando Vermelho. A sua expansão tem sido acelerada e está a chamar a atenção das autoridades. Neste momento está a implantar-se nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará e Amapá, e por vezes a sua penetração em novas regiões resulta de alianças com outros grupos criminosos.

A característica principal desta quadrilha é a sua identificação através de simbologia e slogans ligados ao mundo evangélico e neste momento já começa a ser alvo de denúncias de intolerância religiosa, como o encerramento forçado de terreiros e perseguição a outras vertentes religiosas.


Os investigadores que se têm dedicado a estudar o fenómeno classificam o Terceiro Comando Puro como “narcopentecostalismo”, com base na articulação entre a estética cristã, ao nível da simbologia utilizada com as práticas criminosas utilizadas como forma de controlo do território, mas também como forma de assegurar a coesão interna.

O TCP mantém ligações próximas com o PCC e diversas milícias, como forma de ampliar e explorar as rotas e mercados do crime. Mas é previsível que o choque de interesses decorrente do crescimento acelerado possa elevar o risco de confrontos em regiões onde a violência já impõe o medo e por vezes paralisa alguns serviços essenciais. A nosso ver o fenómeno do narcopentecostalismo decorre de algumas causas.

Primeiro devido à perda da ética pessoal e social que caracterizava o povo evangélico até aos anos sessenta. Antes, a ênfase estava na imposição de usos e costumes nas comunidades de fé, que traduziam um certo calvinismo pessoal, porém cultivava-se o alheamento social. Os pecados eram apenas pessoais – e não sociais – e a política ou mesmo a simples intervenção cívica por fiéis evangélicos era considerada coisa inconveniente.

A partir dos anos setenta e oitenta verificou-se um abastardamento do sentido de ser evangélico, ao ponto de a antiga ética pessoal e social ter sido gradualmente substituída pela atracção do poder. Foi aí que o neopentecostalismo começou a reconfigurar a ética cristã. Ao substituir a ética pessoal pela pretensão de governar a sociedade, boa parte do evangelicalismo perdeu a alma e entrou em contramão com os princípios bíblicos que até aí lhe eram fundamentais, na linha da boa tradição protestante.

Essa parte do evangelicalismo brasileiro hipotecou a sua herança histórica vendendo-a por um prato de lentilhas, e passou a disputar no campo da política, não como forma de sobrevivência mas por ensejo de poder e muitas vezes de destruição de outras propostas religiosas. É aqui que entram os pontapés na imagem de Aparecida, o fecho forçado de terreiros dos cultos africanos e os ataques violentos aos seus adeptos.

Esta narrativa de conquista e poder não é senão uma revisitação da velha igreja europeia medieval, das cruzadas, da Inquisição e da missionação forçada, que constituem páginas negras na história do catolicismo. Pois bem, chegou a vez do mundo evangélico repetir o mesmo erro.

Os grupos criminosos que mandam nas favelas e nos negócios das drogas e do crime inspiraram-se na simbologia e discurso cristão evangélico, não por ser uma mensagem de salvação e dignificação do ser humano, mas pela pulsão de poder que representa. No fundo, encontraram aí um sentido para sobreviver no buraco moral em que se encontram.

De facto, os textos bíblicos conferem-lhes um certo conforto, em particular no Antigo Testamento, onde o pequeno povo do Antigo Israel conseguiu grandes feitos porque Deus era com eles. Mas também a divisa paulina aplicada aos cristãos face à hostilidade do império romano “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31) é francamente apelativa para quem tem contra si as leis, a moral e o estado. Bandidos, sim, mas bandidos de Deus é bem melhor. Será mesmo?

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