sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O discurso do método

Ainda existem em Veneza algumas bocca di leone, locais onde se podia fazer denúncias secretas, que eram levadas diretamente ao Consiglio dei Dieci, “contro chi occulterà gratie et officii, o colluderà per nasconder la vera rendita d’essi.” Em tese, embora secretas, as denúncias não deviam ser anônimas, mas o anonimato podia ser aceito quando o caso era considerado extremamente grave. Fontes anônimas? Boa ideia, não é? Vamos adotá-la. Ou é o que estamos fazendo, pela enésima vez?

A prática do denuncismo e das delações é antiga. Já Platão tinha um juízo severo para os sicofantas: os que querem ficar ricos de qualquer maneira “produzem falsos testemunhos e se deixam corromper por subornos”. Os romanos usaram e se lambuzaram de denúncias, ostensivas ou secretas, e tornaram-se especialistas no assunto. O despotismo que os promovia e os banhos de sangue em que resultavam — leia-se Tácito — são de dar vergonha aos Netanyahus e Bannons. (Ah! Em geral era para assegurar que os populares não tivessem os direitos que lhes queriam dar os Graco da vida, retirando privilégios dos optimates.)

E assim, ao longo dos séculos, vez e outra lá vêm os amigos da moral. Na Inquisição. No Macartismo. Na autofagia da Revolução Francesa.


Em 1789, o instrumento básico das denúncias, na primeira fase, é a imprensa. É o caso de L’Ami du Peuple, de Marat. Os comitês, como o Comité de Sûreté Générale, se multiplicam, são uma mistura de polícia e parquet, e fazem a triagem dos milhares de delações. Seu alvo passa da aristocracia para todo cidadão, que passa a ser suspeito por suas relações, suas opiniões e até sua aparência. Chega o Terror. Seu papel muda: elas, denúncias, passam a substituir o inquérito. A lei torna a delação a base da acusação judiciária. Robespierre assume o controle com o Comité de Salut Public, que dirige a política do Estado, mas também age como investigador e acusador. As cabeças caem aos milhares. A Convenção recebe mais de quinhentas denúncias contra duas centenas de seus membros. O Comité de Sûreté Générale monta um dossiê contra o “ditador” que deseja assumir o seu controle. Cai Robespierre por seu próprio método: o acusado não tem direito de ser ouvido. O apoio da multidão, que o seguira sedenta de sangue, desaparece da noite para o dia. Condenado sem processo, a guilhotina faz seu trabalho sob o aplauso do povo. Vem então a “reação” (Réaction Thermidorienne) das delações contra os delatores, quando os novos delatores superam em número os antigos e o “denunciante virtuoso” passa a ser o “vil delator”.

Aqui entre nós os beneficiários parece que movem muitos $$$, o que sempre é motivo para uma boa manipulação, sobretudo acusando … manipulações. Mas é curioso que quando recomeça a campanha moralista da imprensa ela tenha como alvo o órgão que puniu os golpistas, o ministro com a chave da cadeia e o que vai, finalmente, examinar o trabalho do autor do discurso do método para bem conduzir a razão e buscar a verdade, não, como você está pensando, René Descartes, mas o humilde magistrado candidato a presidente que, frustrado em suas pretensões, aderiu ao genocida, virou ministro e senador. A bíblia de seu método de defender a moral — ou amoral? — é curta, pois Moro não é muito seguro no uso das palavras:

“Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios.”

Se a honra vai para as cucuias, o que pode se fazer? Mais vale correr o risco de prejudicar. Se não é verdade, o objetivo já foi alcançado. Afinal,

“punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil, se não por outros motivos, então pela carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal. Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos, condenando-os ao ostracismo.”

Depois, vamos e venhamos, “a presunção de inocência […] não é absoluta”.

Partindo do pressuposto de que os outros são culpados, ele recorreu a todo o arsenal que a tecnologia colocou ao seu alcance, como ensinara o nunca assaz citado Joseph Goebbels. Há melhor maneira de agir do que se assegurar, com uns filmetes, que se tem a solidariedade da equipe e dos embargadores? E é preciso assegurar que a lavajato seja, como boa orcrim, “estruturalmente ordenada [para obter] vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais”.

Já tendo participado de mais de uma e escapado ileso, o velhaco continua a contar com seus cúmplices e colaboradores, e, com a delação do seu ex-delator, precisa que seja acusado quem o vai julgar. Já que os americanos fizeram um código de ética da Supreme Court, que não tem ética nenhuma, faça-se um para o Supremo, mesmo que os ministros já tenham que obedecer ao Código de Ética da Magistratura (Resolução 60/2008 do CNJ). Enquanto isso o genocida continua comandando sua orcrim da cadeia, escolhendo candidatos e orientando as fakenews. Nem se pense em punir o golpe de 5 de agosto — parlamentar pode tentar golpe, não é? — pois já punimos as beatas com Bíblias que participaram do 8 de janeiro e ele precisa poder dizer “ganhamos, mas fomos roubados”.

Nessas horas os interesses se somam. Além dos do amoral, há o dos banqueiros e farialimer’s que vivem na zona da especulação desenfreada, com negócios com o crime organizado. O do crime organizado. O dos que botam o dinheiro público para participar de bancos podres. O das fintechs que banco são, banco não sendo. O dos donos de partido que partem e repartem os governos. O dos cúmplices do genocida. O dos admiradores de Trump. Muitos se encaixam em mais de uma categoria. Vale o método: honras ao vento, que suas plumas nunca mais voltam à casa. Desmoralizemos todos.

Aqui, ali e acolá, basta abrir o jornal.

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