Nos sítios por onde passei havia sempre carros de alta cilindrada, combustível pago e cartões de crédito para os cargos de direção, mesmo quando ir em reportagem era sempre demasiado dispendioso. Havia quase sempre instalações grandiosas, com muitos lugares de garagem, mesmo que fosse difícil arranjar transporte para ir fazer um trabalho fora de Lisboa. Havia muitas vezes figuras pagas a peso de ouro, cuja função ninguém sabia bem qual era, mas também ninguém questionava, à medida que na base da pirâmide se acumulavam os trabalhadores mal pagos, que só se aguentavam com os salários que lhes pagavam porque a família os ajudava com a renda ou a alimentação ou ambas. Não era que o dinheiro faltasse, era que as prioridades estavam sempre trocadas.
De vez em quando, apareciam novos acionistas. Dinheiro fresco e uma espécie de esperança coletiva, que esmorecia rapidamente. Não tardava até virem novos despedimentos, reformulações gráficas caras que ninguém sabia bem para que serviam, anúncios de novos “produtos”, feitos pelos mesmos do costume, cada vez mais esmifrados e mal pagos. Mas na altura do Natal ou do aniversário das publicações, os acionistas desfilavam orgulhosos, faziam proclamações sobre a liberdade de imprensa e distribuíam um ou outro brinde pelos trabalhadores, a quem insistiam em chamar “colaboradores”, mesmo que estivesse cada vez mais em queda a vontade de colaborar com um caminho que nos parecia que só podia ter um triste fim.
Nestes anos todos, estive quase sempre nos quadros das empresas por onde passei. E, ainda assim, senti-me sempre a prazo. “Quantos anos vou aguentar-me?”, ia-me perguntando, enquanto tentava equilibrar-me em cima de salários baixos, muita pressão, demasiado trabalho.
Nestes anos todos, pensei durante muito tempo que a incompetência e o deslumbramento eram parte da explicação para os sucessivos erros de gestão que qualquer estagiário deteta em empresas de comunicação uns três meses depois de lá começar a trabalhar. Mas mudei de ideias: não é incompetência nem sequer deslumbramento. Reforcei essa convicção ao ver as notícias sobre a forma como Jeff Bezos está a desmantelar o The Washington Post, cortando a eito nos gastos, depois de ter pagado 40 milhões de dólares pelos direitos do documentário Melania – que no fim de semana de estreia teve em Portugal uma média de seis espectadores por sessão – e cerca de 35 milhões para promover o filme sobre a mulher de Donald Trump.
Bezos faz parte da oligarquia de Trump. Doou um milhão de dólares para a cerimónia de tomada de posse do Presidente dos Estados Unidos e obrigou o The Washington Post a redefinir a linha editorial da sua secção de opinião, para incluir uma “visão mais libertária”. A ironia é que esse defensor do libertarianismo é o mesmo que tem acumulado milhares de milhões de dólares em contratos públicos. Não é que Bezos tenha alguma coisa contra o dinheiro do Estado. Ele só não quer que seja gasto a tratar da saúde das pessoas ou a garantir-lhes algum tipo de proteção, quando pode ser diretamente canalizado para a sua obscenamente bem recheada conta.
Quando a interferência de Bezos no The Washington Post ficou evidente, as assinaturas do jornal caíram a pique, afundando mais as contas. Quando anunciou que iria despedir 30% da redação, os jornalistas despedidos angariaram mais de 350 mil dólares na plataforma Go Fund Me, em poucas horas. Alguém que acredita no mercado como regulador de tudo deveria ver aqui uma mensagem clara. O apoio aos jornalistas e a rejeição da inclinação do jornal em direção à extrema-direita são evidentes. Mas a economia nunca fez parte desta equação.
Quando nos falam do mercado que tudo regula, omitem a peça mais importante desta engrenagem: o poder. Os milionários compram jornais porque acham que isso lhes dá poder. Destroem-nos quando essa é a forma de ter ainda mais poder. Não é o dinheiro que está em causa. Nunca foi. Não lhes falta dinheiro. O que é preciso é que o seu poder continue a alastrar-se, quer isso se faça controlando os jornais ou silenciando-os.
Os média são sempre apresentados como um negócio em ruína, destinados a desaparecer. Isso tem uma parte de verdade. O modelo de negócio em que estão assentes contém a semente da sua destruição. Mas eles são uma ferramenta poderosa e é por isso que são um alvo a abater pelos teóricos do “jornalixo” que se congratulam sempre com a nossa “falência”, mas ainda assim nos dão importância suficiente para continuarem a atacar-nos. Porquê? Porque há poucas coisas mais poderosas do que questionar. E essa é a nossa arma.
Enquanto os milionários iam atirando dinheiro para cima das empresas de média, encaminhando-as para o engodo do digital – onde eles ditam as regras e a publicidade cai para valores irrisórios –, nós esquecemo-nos de que os jornalistas são as máquinas das fábricas que são os jornais e que a grande força que os títulos têm é a comunidade que se constrói em torno de valores partilhados e confiança. Histórias como as do The Washington Post ajudam-nos a abrir os olhos. Para não voltarmos a ser enganados. E quem não cai nas teses sobre o “jornalixo” tem de perceber que consegue dar a volta a isto. Como? Comprando jornais e revistas. Se forem muitos a fazê-lo, nem os Bezos da vida conseguirão calar-nos.

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