sábado, 11 de abril de 2020

Os bolsonaros da China

Na França de 1860, um médico vai sair para fazer um parto. Limpa a caspa das lapelas com as mãos, pega os instrumentos e, ao jogá-los na maleta, um deles cai ao chão. O médico o recolhe e o atira na maleta. Sua paciente morrerá ao dar à luz, vítima não da "febre do parto", como se dizia, mas dos germes provocados pela falta de higiene no procedimento. Os médicos da época sequer lavavam as mãos para trabalhar.

Assim começa o filme "A História de Louis Pasteur", de 1936, do subestimado William Dieterle, que rendeu a Paul Muni o Oscar pela interpretação de Pasteur. Embora fosse um filme da Warner, especializada em gângsteres, as armas em cena eram os microscópios, não as metralhadoras. A história mostra Pasteur sofrendo dura oposição dos médicos, para quem sua teoria dos micróbios como causa das doenças era um delírio. Eles fazem o governo proibi-lo de pesquisar e só vão lhe dar razão 20 anos depois, quando a França já estava quase dizimada.


Na vida real, Pasteur não foi assim tão perseguido, nem descobriu sozinho a cura para as infecções. Mas essa história antecipa a vivida 160 anos depois por um médico chinês: o dr. Li Wenliang, o primeiro a alertar, a 30 de dezembro último, sobre a iminência de uma epidemia. Wenliang descobrira sete pacientes com sintomas de um novo coronavírus no hospital onde trabalhava, em Wuhan.

As autoridades policiais e médicas da China o acusaram de "propagar boatos" e "perturbar a ordem social" e o obrigaram a se desmentir. Mas, a 12 de janeiro, o próprio Wenliang caiu infectado. Internou-se e morreu três semanas depois. Se seu alerta tivesse sido ouvido no começo, talvez milhares de vidas ainda pudessem ser poupadas.

Hoje, o dr. Li Wenliang é um herói na China. Já os bolsonaros locais --e eles são os mesmos em toda parte--, que negaram a gravidade da denúncia, serão esquecidos, para lástima dos tribunais da humanidade.

Ruy Castro

Bolsonaro, o exterminador do futuro de muita gente

Em que parte do mundo já se viu um chefe de Estado sair a passear em plena pandemia de um vírus desconhecido que mata a roldo? Em que parte se viu um abraçar pessoas podendo ser contaminado por elas ou então contaminá-las?

Onde já se viu um chefe de Estado desacreditar medidas de restrição social baixadas por governadores e prefeitos e endossadas pelo Ministério da Saúde do seu próprio governo? Os poucos que tentaram recuaram logo em seguida.

Pois é o que tem feito o presidente Jair Bolsonaro desde que voltou dos Estados Unidos há pouco mais de um mês trazendo uma dezena de acompanhantes infectados pelo coronovírus e que, uma vez no Brasil, infectaram uma dezena ou mais de pessoas.

Em um país onde o presidente da República manda muito, embora nem tanto quanto desejaria, ele é a primeira referência dos governados. Natural que seja. O que diz é ouvido e repetido, e o que faz libera a população para que faça também.

Bolsonaro sabe disso, mas quando é conveniente finge não saber e banca o inocente. Se estimula os brasileiros a abandonarem o confinamento e a retornarem às ruas, parte deles o segue. Não é possível que ignore os efeitos perversos de sua atitude.


Há mais de um mês que o ministro Luiz Henrique Mandetta rendeu-se à orientação da Organização Mundial da Saúde acolhida por todos os países assolados pelo vírus: fique em casa. Circule o mínimo possível. Deixe para depois tudo o que possa.

O chefe de Mandetta faz o contrário. No último dia 15, recepcionou em frente ao Palácio do Planalto manifestantes ali reunidos para pedir o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Tocou com as mãos em mais de 250 deles.

Anteontem, foi a uma padaria de Brasília tomar um refrigerante e comer um doce. Bem recebido por uns, hostilizado por outros, provocou aglomerações, apertou a mão de admiradores e foi embora assim que bateram as primeiras panelas.

Fez pior ontem. Depois de uma escala no Hospital das Forças Armadas, saiu direto para uma farmácia, atraindo gente. Visitou um dos filhos que aniversariava. E ao sair do prédio com o nariz escorrendo, limpou-o com o braço e apertou mãos.

O que pretende com isso? É uma pergunta que ele não responde, e quando o faz tergiversa. O que ele consegue com isso? Que as pessoas, e não só as que o cumprimentam, se exponham ao risco de se contaminar e de morrer.

Age como uma espécie de exterminador do futuro de milhões de brasileiros. Não é muito diferente do pastor americano James Warren “Jim Jones”, fundador e líder da seita Templo dos Povos, que em novembro de 1978 promoveu um suicídio em massa.

No início dos anos 60 do século passado, Jim Jones esteve no Brasil porque julgava Belo Horizonte um dos lugares mais seguros do mundo se houvesse uma guerra nuclear. Mudou-se mais tarde para o Rio onde trabalhou durante alguns anos com favelados.

Mas foi em Jonestown, capital da Guiana, que se sentindo ameaçado, convenceu seus devotos a se matarem. Primeiro os pais mataram os filhos, envenenando-os com cianureto. Depois beberam o veneno. Ao todo, morreram 918 pessoas.

Bolsonaro ainda não mandou que ninguém tomasse veneno. Manda que não levem a sério um vírus que já matou até ontem mais de mil brasileiros e infectou quase 20 mil. No mundo, em 100 dias, matou 100 mil pessoas. E, por aqui, o estrago mal começou.

Merkel e rainha Elizabeth mostram como se faz

1. Falar sem rodeios

Há não muito tempo, eu recebi uma mensagem invejosa de um amigo em Washington: "O discurso de Angela Merkel, de que 60% de nós vamos pegar o vírus, a transformou automaticamente numa heroína para mim."

No início da crise, a chanceler federal alemã se dirigiu diretamente aos alemães – como ela nunca havia feito, com exceção das saudações de Ano Novo – para explicar como o governo iria protegê-los diante daquilo que ela descreveu como o maior desafio que o país enfrentava desde a Segunda Guerra Mundial.

De forma simples e objetiva, e não só naquele discurso, mas também em podcasts e entrevistas à imprensa, ela relatou os fatos como eles eram, explicou conceitos como "achatar a curva" e discorreu detalhadamente sobre temas tão banais como lavar as mãos e fornecimento de papel higiênico.

No seu discurso aos britânicos, no domingo passado, a rainha Elizabeth 2ª começou reconhecendo o estado de perturbação e preocupação e as dificuldades financeiras que a nação enfrenta.

Assim como a chanceler federal alemã, e em forte contraste com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ela não deu garantias falsas nem alegações tranquilizantes sobre potenciais remédios ou estratégias de saída.

Quando os cidadãos dispõem de fatos, eles podem tomar decisões sobre como reduzir os erros, tanto de forma individual como coletiva. Quando líderes confundem, negam e iludem, eles transformam um risco potencialmente controlável num perigo incalculável, semeando o medo e a passividade.


2. Empatia e exemplo

Nem a chanceler federal alemã nem a rainha britânica são conhecidas por sua afetuosidade e conexão com as pessoas. Porém, seus discursos foram tanto mais convincentes por causa do tom de comedimento e sobriedade.

A rainha relembrou sua primeira transmissão aos jovens evacuados, no auge dos ataques nazistas a Londres, em 1940, ao falar sobre o doloroso sentimento de separação dos entes queridos – um sentimento conhecido de muitos britânicos no momento.

A chanceler assegurou aos seus ouvintes que, na condição de alemã-oriental, para quem a liberdade de ir e vir é um direito duramente conquistado, ela está plenamente consciente de que a suspensão da vida em público é uma forte agressão.

Ambas expressaram agradecimento em termos claros e profundos a todos aqueles que colocam em risco a própria saúde e a da sua família para manter serviços essenciais.

As duas também deram exemplo.

A rainha e o príncipe Philip iniciaram seu autoisolamento em 19 de março.

No início do isolamento social, quando pessoas em pânico começaram a estocar, Merkel visitou um supermercado e foi fotografada com uma sacola com alguns poucos produtos, incluindo apenas um pacote de papel higiênico (e várias garrafas de vinho). Em seguida, ela entrou em quarentena após receber uma vacina de um médico que, logo depois, testou positivo.

Depois de três testes negativos de covid-19, ela retornou na semana passada à chancelaria federal e falou abertamente sobre como as duas semanas de isolamento foram difíceis.

Trump dedica elogios e gratidão principalmente a si mesmo e – de vez em quando – aos titãs corporativos de que ele se cerca em seus relatos diários. Ele desdenha de assessores médicos na cara deles, transforma críticos em bodes expiatórios e flagrantemente desobedece práticas de higiene como usar uma máscara respiratória. Mesmo quando declarou uma emergência nacional, ele distribuiu tapinhas nas costas e estendeu a mão para outras pessoas.

Apenas uma diferença de estilo? Os americanos se tranquilizam com gestos exagerados de autoadulação, enquanto os europeus preferem sobriedade? Não acho.

Transparência, empatia para com os atingidos e não apontar o dedo para outros são práticas padrões de comunicação em tempos de crise e visam transmitir credibilidade e confiança. Quando cidadãos recebem pedidos para se submeter a fortes agressões à sua liberdade, a confiança é talvez o mais forte impulsionador da observância.

3. Dignidade

O que a chanceler federal alemã e a rainha britânica possuem e transmitem e que o presidente dos EUA não tem é dignidade. Por que dignidade é importante? Pelo mesmo motivo que os fatos são importantes e a empatia e o exemplo impulsionam: a dignidade é contagiosa, ela catalisa uma resposta.

Se os líderes se comportam com disciplina e comunicam com respeito, eles impulsionam os cidadãos a agir. Isso tem benefícios subjetivos para aqueles que estão inseguros e temerosos, assim como consequências objetivas para a gestão da crise. Seja achatar a curva agora, seja reconstruir nossa economia depois, superar a pandemia requer que todos nós ajamos pelo interesse da sociedade.

Se as pessoas seguirem apenas seus próprios interesses, elas vão retardar ou até mesmo reverter a recuperação. O bem comum não é sempre claro e evidente. É necessário uma liderança convicta para explicar o objetivo e os meios.

Felizes são as sociedades que têm líderes assim em tempos como estes.

Pra frente, Brasil!


O ministro, o chefe do ministro e a pandemia de ‘fake news’

Na terça-feira o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deu mais uma de suas coletivas diárias. Mostrou-se olímpico, seguro de seu papel e de seu cargo. Mandetta tem hoje mais estabilidade do que Jair Bolsonaro. O presidente pode demiti-lo – os generais não deixam.

A impotência presidencial tem um quê de conto de bruxas. O presidente vai fazer a barba de manhã e pergunta ao reflexo de si mesmo: “Espelho, espelho meu, existe algum ministro mais querido do que eu?”. O espelho responde, dá o nome e o endereço, mas Bolsonaro, corroído de ciúme, não tem poder para expulsá-lo da pasta. Está reduzido ao papel de presidente-café-com-leite-muito-embora-bravateiro. Sai enfezado do Palácio da Alvorada e se põe a berrar sobre a crueldade ministricida de sua caneta, uma senhora canetona, que é maior do que a caneta dos outros (ele e sua obsessão com símbolos fálicos).

Palavras ao vento. Contra Mandetta a caneta do narcisista que desconhece a beleza vale menos do que uma aspirina. O sereno ministro da Saúde sabe disso e, por saber, tripudia. Na terça-feira, em sua coletiva, disparou recados ácidos – ainda que elegantes – contra o chefe que não o chefia. Entre outros venenos, amaldiçoou as fake news (gênero narrativo adorado pelo café-com-leite) e as redes sociais (o ambiente predileto do estadista avesso à máquina estatal).


“As fake news, esse final de semana, fizeram um gráfico igual àqueles gráficos da epidemia”, diagnosticou o ministro. “Fake news foi o que mais subiu, subiu bem mais que o número de casos (de covid-19).”

Mandetta aproveitou para denunciar que circulam perfis falsos como se fossem dele e avisou com total explicitude: “Não sou de mídia social, não gosto; gosto do mundo real. Vou trabalhar essa epidemia no mundo real. O que eu tiver que falar, não acreditem em nada que não seja falado aqui (nas coletivas diárias, diante das câmeras de TV). (...) Eu não posto nada, eu não comento nada, eu não faço nada nesse mundo virtual”.

O que ele está dizendo, em suma, é que adota o estilo oposto ao do chefe que não é chefe. Este, abduzido pelas fantasmagorias imaginárias do seu conto de bruxas, acha que governa pelo Twitter, pelas lives e pelo histrionismo de suas milícias virtuais. Em sua fantasia de filme de terror, alimenta-se da bajulação dos seus fiéis fascistinhas de WhatsApp, que sabotam o isolamento e insultam os chineses com ofensas racistas. Bolsonaro substitui a burocracia governamental pelos urros virtuais dos seguidores e acredita que assim deixa para trás a “velha política”.

O resultado prático de seu delírio é muito simples e palpável: em cada um de seus atos acentua a dissolução dos regramentos da administração pública em favor da dinâmica dos “engajamentos”, das “curtidas” e do irracionalismo das redes. Para ele, os algoritmos opacos dos conglomerados globais que monopolizaram as comunicações na era digital são a mais perfeita tradução da vontade do povo. Sim, é uma sandice, mas é nessa sandice que ele acredita. O triunfo de sua crença acarretará a derrocada do Estado, da República, da política e da democracia. Bolsonaro gosta de fake news porque vê o Estado, o governo, a República, a política e a democracia como um embuste a ser destruído. Ele e as fake news nasceram um para o outro. Nasceram um do outro.

Razoável, o ministro da Saúde rejeita as doideiras do presidente e veste o colete do SUS para apostar no caminho inverso. Com razão, parece entender que as fake news concentram uma ameaça tão ou mais grave do que a pandemia. O poder público fica anulado se não puder contar com informações baseadas na ciência e se essas informações não servirem de base para o debate público e para a orientação das pessoas e da sociedade. Sem fontes confiáveis e um sistema organizado de comunicação, não há governança para a crise.

A indústria das fake news – que hoje no Brasil está a serviço do bolsonarismo – opera para minar a confiança do público nas autoridades, na política, na universidade, na ciência e na imprensa. No longo prazo, essa indústria fabrica fanatismo e clamor por uma tirania de extrema direita no Brasil. No curtíssimo prazo, amplifica o número das mortes que virão com o coronavírus e agrava a recessão econômica que virá depois. Isso mesmo. Em sua narrativa perversa, as fake news do bolsonarismo dizem defender a economia e os empregos, mas, ao patrocinarem a explosão do número de casos e o colapso do sistema de saúde, produzirão a desagregação social, com violência e criminalidade ainda mais generalizadas, e isso tornará mais improvável qualquer recuperação econômica.

Será difícil enfrentar essa indústria, que conta com o apoio esgoelado do presidente-café-com-leite. Ele tem pouco poder (não consegue nem falar grosso com o ministro da Saúde), mas a indústria em que ele joga suas fichas tem uma capacidade gigantesca de produzir estragos. E, por enquanto, não há vacina contra a usina de fraudes desinformativas com que o presidente e suas falanges robóticas vêm infestando a sociedade brasileira.

Água, sabão, álcool em gel e muita fé em Deus

O que será que leva Jair Messias Bolsonaro a se comportar como um moleque ignorante e rebelde? Quem será que o convenceu a agir desse modo e quais as razões apresentadas que fizeram com que ele seguisse essas pífias orientações?
Há quem acredite que são seus filhos, os três zeros. Não acredito nisso. BolsoNero é raso e muito pouco informado, mas não é completamente burro e com toda certeza já percebeu que seus filhos só lhe armam problemas, e problemas cada vez mais graves.

A crise com a China, que por pouco não se transformou num caso diplomático que poderia arrasar com o Brasil, foi criada por um dos zeros, aquele que só tem um foco: a embaixada brasileira em Washington DC. Os outros dois zeros vivem ou se esquivando da força da Lei ou exercendo a mais agradável das atividades: um emprego público, com um bom salário, mas sem presença e sem o suor de seu rosto... Se nós, público, já percebemos que seus filhos são seu enguiço, não acredito que o BolsoNero ainda não tenha sentido o tranco.

A foto do BolsoNero numa padaria na Asa Norte de Brasília, abraçado a um freguês do estabelecimento, é de arrepiar! Será que ele não teme chegar em casa e infectar sua mulher, sua filha e sua enteada? Ou o motorista de seu carro? Será que os brasileiros puseram no Palácio do Planalto um cara sem alma?


Não acreditar que o isolamento social é a única forma que o mundo tem de vencer essa pandemia é a mais inacreditável estupidez. Será que ele, ou algum dos zeros, não lê jornais estrangeiros? Não souberam que os países que não exerceram a quarentena, logo depois dessa péssima ideia, arrependeram-se amargamente? Não leram ou ouviram, por exemplo, o angustiado pedido de desculpas do prefeito de Milão? Não sofreram ao saber do número de mortos na Itália? Não doeu ver um dos mais belos países do mundo destroçado por tantas mortes, a ponto de serem proibidas as cerimônias de adeus tão caras ao espírito italiano?

Vou dar ao BolsoNero o benefício da dúvida. Vai ver só dói nele o que vem das terras de Trump. Pode ser. Afinal, são almas gêmeas. Cada um de nós tem seus afetos, não é? Chorei ao ver o papa Francisco rezando uma missa sozinho, absolutamente só, na imensidão da Praça de São Pedro. Vai ver BolsoNero chorou ao ver o Times Square vazio. Pode ser. É triste mesmo ver aquele grande e rico espaço vazio. Mas a comparação com Trump parou aí: Trump sentiu o murro que a pandemia lhe deu e vem pedindo ao povo americano que não desrespeite a quarentena.

É evidente que a economia mundial vai sofrer com essa doença maligna. Mas nós sabemos como o Homem é capaz de se reerguer. Em 1960, quinze anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, fui à Europa pela primeira vez Vi países com economias pujantes, um comércio riquíssimo e cidades absolutamente deslumbrantes.

A Europa teve a ajuda do Plano Marshall, é verdade. E nós, se os zeros pararem de brigar com o mundo todo e ignorarem o indigitado Olavo de Carvalho, também saberemos recuperar nossas forças e recriar nosso Brasil. Talvez mais forte e mais organizado. Se formos pacientes e só abandonarmos a quarentena quando o vírus já estiver dominado. Temos que ser pacientes, controlados e principalmente, saber votar nas próximas eleições. Com a mão bem lavada e desinfetada com álcool gel. Sem esquecer de pedir ajuda a Deus!

O que virá depois?

Nada é definitivo, exceto a consciência da inevitabilidade da morte. “Tudo o que é sólido desmancha no ar”. Crenças, convicções, certezas, ideologias, dogmas podem ser abalados pela evolução natural das coisas, pelo avanço da civilização e do conhecimento. Só o fantasma da morte nos traz a noção exata da transitoriedade da vida e da fragilidade de tudo que julgamos inabalável. Diante da morte, abandonamos a superficialidade das aparências e mergulhamos na essência da existência humana.

Diante de nossas fragilidades reveladas, talvez o melhor refúgio seja no terreno da arte, que nasce da sensibilidade humana. Nosso grande poeta itabirano escreveu certa vez: “Por que nascemos para amar, se vamos morrer? Por que morrer, se amamos? Por que falta sentido ao sentido de viver, amar, morrer?”. Nos escritos de Guimarães está lá: “Viver é um negócio muito perigoso”, “A gente morre para provar que viveu”. Um grande amigo meu gosta sempre de lembrar Clarice Lispector: “e bem sei que cada dia, é um dia roubado da morte”.


Na semana passada lancei a pergunta: depois da tempestade, virá a bonança? E concluí que tudo vai depender do aprendizado que fizermos na crise. Perguntei: será que vamos repensar nosso estilo de vida? Vamos contrapor vidas a empregos ou entender que o trabalho é uma ferramenta para uma vida feliz? Teremos uma nova percepção da natureza humana única em escala global para além de fronteiras, governos e nações? Seremos mais solidários ou egoístas? Entenderemos que diante da ameaça da morte, as distâncias entre ricos e pobres, poderosos e cidadãos comuns, se encurtam? Afinal, até o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, luta para sobreviver numa UTI. Seremos menos arrogantes e mais humildes politicamente para construirmos o diálogo necessário e os consensos em torno da solução dos verdadeiros problemas que atingem a população? Finalmente, vamos valorizar na medida certa o sistema de saúde, seja o público ou o privado?

Mas outras lições são possíveis. Com o aprendizado da quarentena, as formas de trabalho poderão avançar, criando mais espaço para o “ócio criativo”. Pensaremos nisso? As famílias, para o bem ou para o mal, estão tendo uma convivência muito maior, se conhecendo melhor, resgatando hábitos arquivados pela insanidade de nosso ritmo frenético neste mundo tão carente de resignificação. Será que os pais ficarão menos no trabalho e na internet, e curtirão e brincarão mais com seus filhos?

A hibernação involuntária, ditada por um vírus, certamente determinará uma queda expressiva das mortes no trânsito e as resultantes da violência. Será que aprenderemos um pouco sobre gentileza e respeito nas ruas e nas estradas ou pensaremos duas vezes antes de usar uma arma de fogo? As maiores e mais poluídas cidades do mundo estão registrando queda na poluição urbana. Será que após a crise revalorizaremos a questão da sustentabilidade ambiental?

Será que jovens e idosos terão um convívio mais harmônico, para além do choque de gerações, em homenagem ao padre italiano, Giuseppe Berardelli, que morreu ao abrir mão de um respirador em favor de uma pessoa mais jovem?

Hoje sentimos como nos é essencial o universo lúdico das artes e do esporte. Como nos fazem falta os gols de domingo, as cestas da NBA, a Olimpíada adiada, a ida à ópera ou ao show de rock ou de MPB, o teatro ou a novela interrompida. Será que olharemos a partir de agora nossos geniais desportistas e artistas com mais gratidão, respeito e admiração? E a ciência? Ficamos torcendo para que sejam descobertos logo uma vacina ou um remédio contra o coronavírus. Valorizaremos mais, muito além da estúpida politização da questão da cloroquina, os investimentos em ciência e tecnologia?

Como disse Bertrand Russel: “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas cheias de certezas”. O que virá depois? Só o aprendizado dirá.

Covid-19

Karolis Strautniekas
Para lembrar os que se foram
e jamais irão voltar
calemo-nos agora
e calados fiquemos
um minuto que seja
ou tanto quanto
nós possamos ficar.

Raul Drewnick

100 milhões!

Desigualdade virou palavrão desde a chegada ao Palácio do Planalto do atual ocupante. Jair Bolsonaro não deve tê-lo pronunciado nenhuma vez na vida e, ao escutá-lo, deve achar repugnante como “golden shower”, de cujo significado se inteirou num passado Carnaval. Entre a prole o sentimento é igual, ou maior. Fale-se em desigualdade ao Carluxo e ele considerará o interlocutor mais comunista do que o João Doria. Eduardo postará nas redes que desigualdade é o outro nome do “vírus chinês”. E Flávio, o primogênito? Atribui-se a Goebbels, ultimamente tão popular no Brasil, a frase: “Fale-se em cultura, e eu puxo meu revólver”. Flávio diria: “Fale-se em desigualdade, e eu chamo o Queiroz e o Adriano”. No entanto, veio a pandemia do coronavírus e...


O mercado financeiro gosta da imagem cunhada por Warren Buffett para as horas de imprevisibilidade. “Quando a maré baixa, fica-se sabendo quem está nadando nu”, disse o megainvestidor. Pois veio a pandemia da Covid-19 e o Brasil exibiu-se peladinho, com suas hordas de catadores de lixo, acrobatas de cruzamento, flanelinhas, moradores de rua, vendedores de pano de chão, vendedores de bala, camelôs, boias-frias, mendigos. Sem falar nas diaristas, entregadores de pizza, motoristas de Uber, nas manicures, pescadores, ajudantes de pedreiro, garis. E sem se esquecer das domésticas sem registro, dos garçons sem salário, dos beneficiários do Bolsa Família, dos manobristas (ou manobreiros, conforme a região do país), das professoras do sertão que ganham meio salário mínimo, dos tocadores de biroscas nas favelas. Não bastasse o pesadelo da pandemia, nasceu para o Brasil um pesadelo dentro do pesadelo: e quando, e se, o vírus espalhar-se pelas comunidades pobres, imensas, superpovoadas, apertadas e mal servidas de serviços públicos?</p>

É uma trapaça do destino que, por cortesia do coronavírus, esse Brasil, com a força de um monstro que se desenterra da caverna, onde sobrevivia invisível, tenha batido de cara bem com esse governo. Entre a coleção de infâmias saídas da boca presidencial na presente crise, em continuação às infâmias ditas antes, uma das mais cruéis foi: “O brasileiro tem de ser estudado, não pega nada, o cara fica pulando no rio ali junto com o esgoto e o cara não pega nada”. Travestida de elogio ao brasileiro, a fala se traduz num antológico elogio da falta de saneamento básico. No entanto, com toda a sua alienada insensibilidade, o governo Bolsonaro, empurrado pelo Congresso, teve de reconhecer que será preciso prestar um auxílio emergencial a um contingente de brasileiros que, segundo projeções, poderia chegar a 100 milhões. 100 milhões!</p>

<p>É uma segunda trapaça do destino, uma piada em tempos de tragédia, que esse encargo hercúleo tenha caído no colo de uma equipe econômica guiada pela elegante ideologia do Estado mínimo. E é uma terceira prova de como o destino pode ser brincalhão que o Brasil dos 100 milhões, ao ser dimensionado e catalogado, receba o reconhecimento oficial justamente de um governo ao qual repugna falar em desigualdade. Entra verão e sai verão, o Brasil dos pobres e miseráveis aparece nos noticiários da TV. É constituído daqueles que, nas enchentes, têm suas moradias arrasadas. “Perdi tudo” é a frase que mais se ouve, dita entre restos de sofá e imprestáveis geladeiras. Boa parte dos brasileiros que integram os 100 milhões acompanha a cena anestesiada.

É bom que, sob a pressão das circunstâncias, o governo tenha dado números e peso ao Brasil dos desassistidos, esse Brasil que tem ares de pedaço piorado da Índia, porque sem saber inglês e sem as expectativas do desenvolvimento acelerado, ou de extensão um pouco melhor da África, porque sem (por enquanto) o ebola e a aids epidêmica. Melhor será se o auxílio deixar de ser emergencial e, passada a epidemia, tornar-se um colchão permanente de renda mínima (não é que o Suplicy tinha razão?). E ainda melhor se for acompanhado de maior carga de impostos sobre os ricos e seriedade na gestão dessa maior das alavancas de promoção social que é a educação, hoje entregue a um bobo insano. O cientista político Fernando Schüler defendeu a “renda básica universal” num recente artigo na Folha de S. Paulo. Atenção, Jair, Flávio, Carluxo e Eduardo: Schüler não é comunista. É um liberal, crítico da esquerda. Schüler escreveu que a eliminação da miséria é “o desafio ético do nosso tempo”, e concluiu: “É esta a nossa fronteira civilizatória, assim como foi, no século XIX, o fim da escravidão”.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Imagem da Sexta-Feira Santa


A cadeira e o homem

Dizem que a cadeira é uma invenção dos antigos egípcios, que adicionaram um encosto aos assentos. Faraós reinavam em cadeiras de madeira dourada, adornadas com ébano e marfim. Daí em diante, o trono seria a representação da ambição e do poder dos monarcas. Somente com a Revolução Industrial e o capitalismo passaram a ser produzidas em série, como as cadeiras Thonet, famosas pelo curvamento das madeiras, que foram as primeiras numeradas e vendidas por catálogos. No começo do século passado, o ferro passou a ser utilizado para reforçar as cadeiras, como no caso da Hil House de Charles R. Mackintosh, em 1928. Logo surgiram peças mais arrojadas, como a cadeira Wassily, de Marcel Breuer, inspirada nos tubos das bicicletas.

Com o modernismo, as escolas de Bauhaus e Milão passaram a dar o tom na produção do mobiliário mais arrojado. As cadeiras do Palácio da Alvorada, por exemplo, são peças autênticas do modernismo brasileiro, especialmente desenhadas a pedido do arquiteto Oscar Niemeyer. Foram recuperadas pouco antes de Jair Bolsonaro assumir o governo, por uma comissão cuja curadoria ficou a cargo da própria designer dos sofás, poltronas e cadeiras. Anna Maria Niemeyer cuidou pessoalmente da restauração e do posicionamento de móveis, quadros, tapetes, estátuas e outras obras de arte do acervo, que retornaram aos locais que ocupavam no projeto de interiores original, a partir de rigorosa pesquisa. A primeira coisa que o presidente Jair Bolsonaro fez ao chegar ao Alvorada foi mandar substituir as cadeiras vermelhas por cadeiras azuis da grande mesa do Salão de Estado, com 18 lugares.

Com seis metros, base de jacarandá e latão e tampo de pau-ferro, estava em péssimo estado quando foi reconstituída a sua base, com polimento do metal dourado oxidado e a fabricação de um novo tampo. A despesa de R$ 5 mil recuperou uma peça avaliada em R$ 300 mil, devido ao seu valor artístico e histórico. No painel de madeira que reveste a maior parede do ambiente, destaca-se uma tapeçaria assinada por Di Cavalcanti, cuja limpeza havia removido 1kg de pó. A reforma foi realizada no governo de Michel Temer, que assumiu a Presidência, mas preferiu continuar morando no Palácio do Jaburu, que considerava mais aconchegante.


Essa visita ao mobiliário do Alvorada tem uma motivação política: um comentário do ex-presidente José Sarney, durante uma entrevista ao jornalista Roberto D’Ávila, na GloboNews: “A cadeira é maior do que o presidente, não é ela que deve ser adaptar”, disse o veterano político conservador. Sarney governou o Brasil num momento difícil, a transição à democracia, enfrentando um período muito conturbado, com milhares de greves, hiperinflação e uma Constituinte que estava acima de tudo, sob comando do líder da derrotada campanha das Diretas Já, o deputado Ulysses Guimarães, presidente do então PMDB.

Além disso, Sarney havia assumindo em razão da morte do presidente Tancredo Neves, ou seja, como vice de um presidente eleito por via indireta, embora com amplo respaldo político e social, mas que nem chegou a tomar posse. Mesmo depois de encerrada sua longeva carreira parlamentar, continua sendo uma espécie de oráculo dos cabeças brancas do MDB e do DEM, porque se mantém lúcido e tem memória privilegiada, às vésperas de completar 90 anos, no próximo dia 24 de abril. A referência à cadeira foi a única crítica velada que Sarney fez a Bolsonaro durante toda a entrevista. Disse que não gosta de comentar a atuação de seus sucessores.

Nos bastidores, porém, Sarney sempre foi um interlocutor privilegiado, levado em conta no Congresso, sobretudo nos momentos de crise, como a que estamos enfrentando. Suas principais características são a prudência, a moderação e a capacidade de adaptação às circunstâncias. Esses não são o forte do presidente Jair Bolsonaro. Talvez a principal causa da deterioração do atual cenário político esteja sintetizada no breve comentário de Sarney: Bolsonaro não respeita a liturgia do cargo, se acha maior do que a cadeira que ocupa. Não se dá conta de que o simbolismo da liderança está muito mais no poder de articulação do presidente da República, quando conversa com alguém, do que na caneta cheia de tinta para assinar exonerações, nomeações e medidas provisórias.

A articulação transborda para os demais poderes e níveis de governo, enquanto a caneta se limita às atribuições do governo federal, que pode muito, mas não pode tudo que Bolsonaro gostaria. É óbvio que essa questão comportamental reflete uma concepção de mundo e de exercício de poder, mas está aquém das mudanças em curso no mundo e de uma pandemia que pôs tudo de pernas para o ar. Ontem, pela primeira vez, num passeio pela Asa Norte de Brasília, quando resolveu confraternizar com comerciantes e populares numa padaria, Bolsonaro sentiu a chamada voz rouca das ruas criticando seu posicionamento em relação à política de distanciamento social preconizada por Ministério da Saúde, governadores e prefeitos.

Ao estimular as pessoas a saírem do isolamento e voltarem ao trabalho, contrariando a orientação das autoridades estaduais e municipais, Bolsonaro parece não levar em conta que todos os que procederam dessa maneira estão enfrentando grandes dificuldades. É o caso de Donald Trump, nos Estados Undos, em risco de inviabilizar sua própria reeleição. As nossas dificuldades podem ser ainda maiores. Nas últimas 24 horas, houve 141 mortes e 1.930 casos confirmados. Olhando os gráficos, parece que não estamos conseguindo achatar a curva da epidemia na medida necessária para evitar o colapso do sistema de saúde. Se isso ocorrer, Bolsonaro será o principal responsável perante a opinião pública.

Sempre desconectado

Quando Bolsonaro aciona a boca, não liga o cérebro
Jorge Kajuru, senador  (Cidadania-GO)

A engenharia do Jair

É ilusão do presidente acreditar que o vírus que atormenta o mundo não o atingiu. Fez mais que isso, matou uma chance quase certa de reeleição e, dependendo da evolução de seus efeitos, poderá eliminar também as condições para a conclusão do mandato. O presidente imagina-se livre da gripezinha enquanto agoniza de um mal bem maior: a erosão do próprio poder. Principalmente, mas não só, em decorrência do posicionamento dele diante das urgências da pandemia.

Com a crise sanitária deu-se por completada a obra de desconstrução da força política, da influência social e da autoridade moral da Presidência da República, cujo engenheiro atende pelo nome de Jair Bolsonaro. Está certo quando enxerga uma onda gigantesca de rejeição a ele, mas demonstra não compreender a razão quando delira imaginando que isso ocorra por seus méritos, pois tal reação acontece devido à terra arrasada que semeou em torno de si neste um ano e poucos meses de atuação desgovernada.

A situação talvez não estivesse no estágio de degradação a que chegou se Bolsonaro não tivesse dizimado seu capital político e explodido pontes de convivência institucional com coisas inúteis. Gastou patrimônio antes do tempo e, hoje, em plena crise de saúde pública, quando mais precisaria de âncoras de sustentação, está zerado: isolado, sem diálogo, desmoralizado, desautorizado, desacreditado.


Operando num mundo onde a lógica não tem vez, o presidente semeia a discórdia desde os primórdios de sua gestão. Não se deu ao respeito e ainda se dá ao direito de desrespeitar a tudo e a todos que vê como obstáculos ao exercício do mando. Por essa visão distorcida do que sejam atributos de um governante, Bolsonaro acabou perdendo o poder de comando.

É hoje um tutelado. Não traduz a realidade de maneira correta a atribuição dessa tutela aos militares que o cercam. Vai muito além: inclui o Judiciário na representação do Supremo Tribunal Federal, o Legislativo nas figuras dos presidentes da Câmara e do Senado, as unidades da federação nas pessoas de governadores e prefeitos, a insatisfação da sociedade retratada na imprensa, a diplomacia avessa aos ditames da cúpula do Itamaraty, entidades civis e parte significativa do universo religioso, entre outros setores que têm barrado iniciativas de Bolsonaro, sejam elas autoritárias ou contrárias à ciência.

Embora não tenha condições objetivas de provocar retrocessos irremediáveis como temiam alguns, o presidente causa um mal enorme ao país ao se posicionar como fator de instabilidade, obrigando a todo momento a uma mobilização de forças para contê-lo. Energia que deveria ser direcionada para o que de fato importa.

Se esse homem que ora desgoverna o Brasil tem consciência da própria responsabilidade pela armadilha na qual se encontra prisioneiro é uma incógnita, embora já não seja mistério para ninguém seu medo de perder o cargo antes do tempo regulamentar.

Mostram isso as constantes reafirmações autorreferidas de poder. Isso, em público. No particular já foi bem explícito a dois ministros do Supremo que, antes da crise atual, cada qual numa situação diferente, ouviram dele a aflitiva indagação: “Você acha que eu termino o mandato?”. Perplexos e constrangidos, calados ficaram.

Chegada do coronavírus ameaça terras indígenas

Desde o século XVI, os povos indígenas convivem com epidemias levadas pelos brancos. Surtos de sarampo, varíola e doenças respiratórias já dizimaram etnias inteiras na Amazônia. Agora a ameaça está de volta com a chegada do coronavírus.

Ontem, o ministro Luiz Henrique Mandetta disse que o governo tem “extrema preocupação” com o assunto. Os indígenas tentam se proteger como podem, mas reclamam da falta de assistência e da presença de invasores em suas terras.

“Estamos muito apreensivos”, diz Paulo Tupiniquim, coordenador da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ele conta que a ordem da Funai para proibir a entrada em terras indígenas tem sido desrespeitada. “Em algumas áreas, a presença de madeireiros e garimpeiros aumentou na epidemia.”


O sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp, diz que a falta de saneamento e o modo de vida dos índios tendem a aumentar a transmissibilidade do vírus. O compartilhamento de utensílios e as moradias coletivas inviabilizam a adoção das medidas de isolamento indicadas à população urbana.

“Ainda não sabemos qual será a letalidade do coronavírus entre os índios, mas o cenário é o pior possível. As ações do governo estão muito aquém do necessário para enfrentar a doença. O que mais assusta é a precariedade do sistema de saúde”, diz o professor, que trabalha em aldeias desde 1981.

O conceito de grupo de risco usado nas cidades também pode não se aplicar aos indígenas. O pesquisador Antonio Oviedo, do Instituto Socioambiental, lembra que muitas aldeias registram alta incidência de anemia e desnutrição entre jovens. As queimadas também causam problemas respiratórios em todas as faixas etárias.

A Secretaria de Saúde Indígena confirmou ontem a contaminação de um ianomâmi de 15 anos em Roraima. O adolescente foi levado para Boa Vista e está internado em estado grave. O órgão contabiliza outros cinco casos de coronavírus em terras demarcadas. Fora delas, já foram registradas ao menos duas mortes de indígenas, em Manaus (AM) e Santarém (PA).

Pensamento do Dia


Louco da caneta

Em um hospício do futuro, dois enfermeiros conversam:

“Quem é aquele enfezadinho, naquele cercadinho, que anda com uma grossa caneta na mão, dizendo te demito?”.

“Ah! Figura nova, veio do longínquo 2020, hoje muito popular nos manicômios. Antigamente existia o Napoleão. Agora é o pô, sou presidente. Com a caneta, ameaça demitir todos os psiquiatras, visitantes e residentes.”


Em casa, desafio Marcia, minha mulher:

“Sem olhar no celular diga que dia é hoje?”.

Marcia pensa, arrisca:

“Sexta-feira”.

“Como acertou?”

“Semana passada, fiz compras para uma semana e era sexta-feira. Então? E amanhã então é sábado, maravilha.”

“Maravilha por quê.”

“Não teremos o que fazer.”

“Mas faz 15 dias que não temos o que fazer, o que fazemos é por nossa conta, você dá retoques em um projeto, eu esboço um texto, você vê um filme, eu mergulho em A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, além do lindo livro de Marina Colasanti, que acabou de sair, Mais Longa Vida. Sem esquecer Wisnik, Dentro do Nevoeiro. Belo título para os dias de hoje.

Wisnik, vejam só, décadas atrás, eu um insensato, tive um arranca-rabo injusto com ele, que até hoje me envergonha. Não ter o que fazer? Loucura. É só querer que tem. Na verdade, temos feito muito, mas achamos que não estamos “fazendo” nada. Põe a mesa, tira a mesa. Faxina no quarto, no banheiro. Mais tarde na sala e no quarto. Leva o lixo para baixo. Você acaba de arrumar cozinha, já tem outra à espera. E as roupas para lavar. Passar? Para quê? Não vamos sair. Amassado é moda, assim como jovens andam rasgados. E minha mãe que não me deixava sair de casa, aos 20 anos, se o vinco da calça não estivesse perfeito? Hoje, ao menos, não têm mais meias para cerzir. Falando em meias, e o comovente gesto de Liliana Aufiero, convocando todos os funcionários da Lupo e adaptando máquinas para fazer máscaras e doar? Eta Araraquara! E os Trajanos, do Magazine Luiza, dizendo: “Temos dinheiro para aguentar a crise”, enquanto muitos choram e mamam? Eta! E tira o pó, e tira o pó, e faz e repete, faz e repete, faz e repete, bate uma vitamina, bate um bolo, faz um mexidinho, e lava e desinfeta, lava e desinfeta. Maçanetas, trincos, botões de elevador, tudo que é tocado pela mão humana se torna maldito.

Porteiro chama: “Chegou o álcool gel”. Ele coloca no elevador, não era álcool gel, era água de coco mandada pelo meu filho Daniel. Mas a neura hoje é álcool gel.

Estamos “descobrindo o valor das domésticas, essas que superlotam a Disney, segundo o Guedes PecPecPecPecPec. O homem parece um pato grasnando. Não há declaração sem citar a PEC. Dá logo o dinheiro do povo e desgruda dessa PEC. Perdemos a contagem dos dias. Robinson Crusoe fazia uma marca com faca em árvores para cada dia que passava: foram 28 anos. No isolamento, olho a primeira página do jornal, vejo a data. Se um dia entregarem o jornal atrasado, vão me descontrolar. Também para que preciso saber o dia, todos são iguais, silenciosos, desertos? O que notamos é o ar mais puro. Antes, sair com camisa branca significava chegar em casa com o colarinho preto. Nunca vi como agora um céu tão límpido, durante o dia ou à noite.

Solidariedade e humor têm nos feito suportar o isolamento. A frase tornou-se clichê, mas deixe, vamos repetir à exaustão. Ao receber um meme, se gosto, reenvio. Quem não recebeu este, leia. Memes são como piadas, não se sabe onde nascem.

“Balanço do mês.

Taxas, pagamentos, crediários.

Boletos de banco contaminados, 14.

Sob ameaça de ter coronavírus, 9.

Mortos, 11.”

Há finais de livros e filmes que ficam para sempre em nossas mentes. A frase de Joe Brown, "Ninguém é perfeito", no filme Quanto Mais Quente Melhor é motivo de riso até hoje, passados 60 anos. Ruy Castro encerrou de modo exemplar uma crônica recente. Falando da hierarquia militar, rígida, severa, que faz o Exército ser o que é, ele comenta: “Hoje, generais batem continência para um ex-capitão expulso do Exército por indisciplina”. Há que pensar, há que pensar!

Outra foi Tati Bernardi que assim fechou sua crônica: “Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai dar tudo certo, precisa dar. Eu tenho uma filha”. Nós todos temos, Tati. Filhas, filhos, netos, tudo. Quem tem razão é a blogueira Marli Gonçalves dentro do Chumbo Gordo, pondo o dedo na ferida: “A maior desgraça mundial hoje, além do vírus, é a ignorância, que aqui no Brasil há anos contamina nossos dias”.

Sobrevivemos. A cada dia, sento-me em uma cadeira diferente, em um lugar diferente, olho de uma janela diferente, coloco músicas que nunca ouvi, ou que fazia anos que não ouvia (Hernando’s Hideaway ou Mercado Persa), estou localizando aquela pilha de livros que comprei compulsivamente e jamais li. Dia desses, encontrei antiquíssima agenda de telefones, liguei para Daisy. Quem seria? Um homem atendeu: “Você é daqueles que, 50 anos atrás, ligavam sem parar e me infernizavam a vida?”. Era o pai ou o marido? O que fez Daisy no passado que eu não soube? Deu-me vontade de ligar para todos aqueles telefones, saber o que aconteceu com cada pessoa. Só que os números foram mudando, mudando, crescendo e as pessoas desaparecendo, assim como desaparecem os fones fixos, os orelhões e as listas telefônicas, que serviam para tudo, desde encostar a porta para que não batesse com o vento, até para marombados mostrarem sua força rasgando-as ao meio.

Tenho medo de que nos acostumemos com o confinamento. Medo de passarmos a gostar de encontros virtuais, festas virtuais, reuniões virtuais, happy hours virtuais, ida ao banheiro virtual, jejum virtual, transas virtuais, beijos virtuais, doenças virtuais, brigas virtuais, guerras virtuais, caminhadas virtuais. Cada um de nós isolado, segregado, desarticulado, afastado, insulado dentro de nós mesmos, nascendo com um celular acoplado na mão.

Quem pagará a conta da desgraça do coronavírus

Jair Messias Bolsonaro, o comandante em chefe da luta contra o coronavírus, foi ontem tomar refrigerante em uma panificadora da Asa Norte, em Brasília. Juntou gente, nem tanto porque metade dos habitantes da cidade respeita o confinamento decretado pelo governador Ibaneis Rocha (PMDB), do Distrito Federal.

Apertou a mão dos que o cumprimentaram e se disseram seus devotos. Posou com alguns deles para fotos. Mas não demorou muito por ali porque, de repente, começou a ouvir o tilintar de panelas e os gritos de “fora, Bolsonaro”. Saiu de cara fechada. Em 2018, a Asa Norte lhe deu 51% dos seus votos no segundo turno.


O presidente, à noite, fez sua tradicional live das quintas-feiras no Facebook. É o momento da semana onde sente-se mais à vontade. Não tem jornalistas à vista para incomodá-lo com perguntas embaraçosas. Fala o que quer e ninguém o contesta. Seus acompanhantes de ocasião sorriem de todas as suas tiradas.

Embora com ar sério, estava particularmente debochado. Sem citá-lo, debochou do ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, que costuma repetir que médico não abandona paciente. Quer dizer com isso que em meio a uma pandemia, por mais que seja hostilizado por Bolsonaro, não pedirá demissão.

A pretexto de defender mais uma vez o uso da cloroquina contra o coronavírus, Bolsonaro disse que “médico não abandona paciente, mas paciente troca de médico”. Touché! Mandetta preferiu responder à gravação de uma conversa onde o ministro Onyx Lorenzoni e o ex-ministro Osmar Terra defendem sua demissão.

“Lavoro, lavoro, só lavoro”, comentou Mandeta. Lavoro é trabalho em italiano. É o que não falta ao ministro na medida em que o coronavírus multiplica o número de brasileiros infectados e mortos. Hoje, um novo recorde será estabelecido quando o número de mortos ultrapassar a casa dos mil.

De volta à live de Bolsonaro. Com o mesmo ar de seriedade com que deu uma estocada em Mandetta, ele debochou também da decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que o proibiu de revogar as medidas de restrição dos governadores para deter o avanço do coronavírus.

Valeu-se da decisão ainda em caráter de liminar para dizer que ela prova que ele, Bolsonaro, nada tem a ver com tais medidas. Até porque sempre se opôs a elas por considerá-las prejudiciais às pessoas que precisam circular e por fazerem mal à Economia. Se dependesse somente dele, nunca teriam sido adotadas.

Com a corrida às farmácias para a compra de cloroquina e o aumento de carros e de pessoas nas ruas das maiores cidades do país, pode-se afirmar tudo – menos que Bolsonaro esteja em isolamento social. Uma larga fatia do país, seja por ouvi-lo, seja por outras razões, está fazendo exatamente o que ele prescreveu.

Ah, mas o Congresso não quer mais conversa com ele! Ah, mas o tempo fechou para ele na Justiça! Esta semana, vários líderes e presidentes de partidos conversaram às escondidas com Bolsonaro no Palácio do Planalto. O clima na Justiça está pesado para o lado dele, mas nenhum togado recusaria um convite para conversar.

Mandetta… Mandetta não perde por esperar. A hora de Bolsonaro mandá-lo embora chegará a partir do instante em que o vírus comece a perder sua força – daqui a dois meses, talvez. Mandetta irá lavorar, lavorar para quem quiser, mas longe da Esplanada dos Ministérios, e sem horário gratuito de propaganda eleitoral.

O acerto final de contas de Bolsonaro com o país se dará quando for possível fazer um balanço do número de vidas ceifadas pelo vírus que ele chamou de “gripezinha”. Se for demasiado grande, se por aqui se repetirem cenas como as que chocaram a Itália e outros países, não haverá mais conversa que possa salvá-lo.

Democracia de coxos

A democracia brasileira me parece um coxo fugindo a um temporal. Manca, tropeça, toma chuva, enlameia-se, mas está viva ainda. Nossos políticos são (na sua maioria, é claro) inacreditavelmente inacreditáveis no seu primarismo, na sua voracidade pelo que há de mais desprezível
Adélia Prado

'Tsunami da miséria': coronavírus pode empurrar meio bilhão para a pobreza

As consequências econômicas do coronavírus podem empurrar até 500 milhões de pessoas para a pobreza. O alerta consta de um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o custo financeiro e humano da pandemia.

Por causa da crise, diz a pesquisa, o nível de pobreza em países em desenvolvimento poderia voltar a um patamar de 30 anos atrás.

Os pesquisadores usaram dados do Banco Mundial para medir os efeitos da redução dos gastos nas economias do mundo em três níveis de pobreza - U$ 1,90 (R$ 9,75), U$ 3,20 (R$ 16,40) e U$ 5,50 (R$ 28,18) por dia.

As previsões pessimistas ocorrem uma semana antes de encontros do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e ministros de finanças do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo).

O estudo foi escrito por especialistas da King's College London, no Reino Unido, e da Australian National University (ANU), na Austrália.

"A crise econômica será potencialmente ainda mais grave do que a crise da saúde", escreveu Christopher Hoy, da ANU.

O relatório, que estima um aumento de 400 a 600 milhões no número de pessoas em situação de pobreza em todo o mundo, diz que o potencial impacto do vírus representa um grande desafio para se cumprir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU de acabar com a pobreza até 2030.

"Nossas descobertas apontam para a importância de uma expansão substancial das redes de segurança social nos países em desenvolvimento o mais rápido possível e - de maneira mais ampla - uma atenção muito maior ao impacto da covid-19 nos países em desenvolvimento e ao que a comunidade internacional pode fazer para ajudar", afirmou Andy Sumner, do King's College London.

Quando a pandemia terminar, prevê o estudo, mais da metade da população mundial, ou 3,9 bilhões de pessoas, podem estar vivendo na pobreza.

Considerando o patamar de pobreza de U$ 5,50 (R$ 28,18) por dia, cerca de 40% dos novos pobres estariam concentrados no leste da Ásia e no Pacífico, com cerca de um terço na África Subsaariana e no sul da Ásia. A América Latina responderia por 10% desse aumento global.

No início desta semana, mais de 100 organizações internacionais pediram a suspensão dos pagamentos da dívida este ano para os países em desenvolvimento, que liberariam US$ 25 bilhões (R$ 128 billhões) em recursos para suas economias.

Fique em casa! Fique em casa!

O descaso com a quarentena em vigor há 17 dias levou o governador paulista, João Doria, a ameaçar adotar ontem medidas mais rígidas, como “multa, advertência e voz de prisão”, para manter em casa pelo menos 70% da população. São Paulo é a cidade que concentra o maior número de casos e mortes por Covid-19 no Brasil. As avaliações a respeito do cumprimento das medidas de distanciamento social revelam um quadro aterrador.

De acordo com os dados coletados pela InLoco com base na localização de celulares, o índice de isolamento social no país caiu de 69,6%, no último dia 22, para 49%, ontem. No estado de São Paulo, ficou pouco abaixo disso, 48,7%. Em bairros críticos da cidade, como o centro, mal passa dos 30%, como se não tivesse havido nenhuma mudança.

Tal quadro representa a receita certeira para a explosão nos casos. Enquanto muitos continuam nas ruas, enchem as praças e transformaram os supermercados em shopping centers, o novo coronavírus encontra mais gente para infectar e se espalhar. São Paulo se torna aos poucos uma espécie de Wuhan, epicentro da epidemia na China, onde a população teve de ser submetida a medidas draconianas de isolamento para diminuir a transmissão da Covid-19.

Fossas comuns para indigentes mortos de
Covid-19, no Bronx, bairro de Nova York

Em cidades chinesas onde o contágio foi detido, os contatos caíram pelo menos 85%. No Reino Unido, um estudo recente estimou em mais de 70% a diminuição na quantidade de interações entre os habitantes (note que há uma diferença entre esse número e os usados por Doria ou pela InLoco, medidas da proporção da população parada em casa – embora ambos estejam relacionados).

A resistência do brasileiro em aceitar a necessidade de isolamento tem fundo cultural. Há um misto de ignorância e onipotência. A primeira despreza os mecanismos de contágio e a facilidade de contrair um vírus que fica incubado até uma semana e é transmitido por quem nem apresenta sintomas. A segunda acredita que “nada de grave vai acontecer comigo” ou “é só uma gripezinha”.

Ambas são características presentes no discurso e nos atos do presidente Jair Bolsonaro, criticado ontem mais uma vez ao distribuir cumprimentos numa padaria de Brasília. A imprensa mundial tem tratado o presidente brasileiro como lunático por desdenhar a pandemia, hoje levada a sério por todos os líderes que no início hesitaram, como o americano Donald Trump e o britânico Boris Johnson, também vítima do coronavírus e só ontem liberado da UTI.

Os números da InLoco revelam que a manifestação de Bolsonaro coincide com o relaxamento no isolamento. Depois de seu pronunciamento no dia 31 de março, o índice caiu ao nível mais baixo atingido desde o início das quarentenas: 47,2%. Não há como atribuir a Bolsonaro a responsabilidade pelo que faz a população, mas é fato que sua atitude negacionista em nada ajuda o país na emergência.

Metade da população ainda tem consciência da necessidade de ficar em casa. A outra metade ou bem não pode, ou não quer. O desafio de estender o isolamento a favelas, periferias e regiões pobres ds grandes cidades depende não só da adoção de regras duras como quer Doria, mas também de um discurso coerente das autoridades em todos os níveis de governo. Quando cada um diz uma coisa, o cidadão fica perdido, faz o que bem entender ou o que lhe deixa mais confortável.

Uma realidade perversa pode dar a ilusão de que o quadro não está tão ruim quanto se pinta e incentivar o relaxamento: a epidemia evolui com atraso de duas semanas em relação às medidas das autoridades. Quem morrerá nos próximos 14 dias provavelmente já contraiu a doença e deve até estar no hospital. Para quem pega o vírus hoje, o período do contágio à morte se estende na média por mais de 30 dias.

Em virtude disso, o relaxamento dos últimos dias no isolamento social só será sentido nos números da epidemia, com a explosão inevitável nos casos, dentro de uns dez dias. O vírus, enquanto isso, continuará a se espalhar. Mantido o ritmo atual de contágio, ao fim desse período o país somaria perto de 5 mil mortos, e São Paulo, mais de 2 mil (contando apenas casos oficiais, já que não se sabe quantas mortes por Covid-19 foram atribuídas a outras causas).

O mais provável é que a tragédia já incubada seja ainda maior graças ao relaxamento no isolamento. Se não houver mudança na atitude do brasileiro – e rápido –, será impossível evitar o pior. Não vacile: fique em casa, fique em casa!

Assim se 'governa' o Brasil


O fraco mundo dos fortes

Chegam equipas médicas chinesas e cubanas a Itália ou a Espanha. São o rosto maior da cooperação dos fortes com os fracos. E, como sempre fazem os fortes que “cooperam” com os fracos, não se eximem de mostrar que o mundo a que chegam – por contraposição com o mundo de onde vêm – é mal governado e precisa de regras novas, enfim, daquilo a que os fortes chamam boa governação (referindo-se sempre à governação dos fracos).

Chega material médico de Pequim a Paris ou a Lisboa. É a expressão da debilidade e da falta de sentido estratégico de um tecido produtivo que foi deixado aos apetites de uma elite sem noção das necessidades básicas do coletivo. Agora, em desespero, há empresas e comunidades de investigação que, na Europa e nos Estados Unidos da América, abandonam o que faziam normalmente e fabricam kits de testes ou máscaras de proteção. Mas é um arremedo, não é uma estratégia. Outros, os fortes de agora, tiveram-na e é a esses que europeus e norte-americanos, os fracos de agora, pedem ajuda. Ajuda humanitária, claro. E, como sempre aconteceu com aquela que foi dirigida aos fracos quando europeus e norte-americanos eram fortes, esta ajuda humanitária que agora é dirigida aos que estão fracos, virá com fatura.

Talvez agora os europeus e os norte-americanos percebam melhor o que é ser destinatário de ajudas e de cooperação. Talvez compreendam melhor que, para lá de boas intenções, de altruísmo, de solidariedade e de humanidade, há sempre uma relação de poder que vai transportada nessas ajudas e nessa cooperação, porque é claro que esse poder de quem é forte é o outro lado do estado de necessidade de quem é fraco.


Talvez os europeus e os norte-americanos entendam melhor, por estes dias, que a segurança humana que, enquanto fortes, prescreveram para o mundo, é aquela de que nós mesmos precisamos agora. Europeus e norte-americanos pregaram ao mundo que a segurança no século XXI não era para ser entendida de modo estreito, como segurança militar, de defesa do território contra invasões, coisa de exércitos e de submarinos. Que era muito mais do que isso: a segurança das pessoas, a freedom from fear e a freedom from need. Europeus e norte-americanos disseram ao mundo que era assim que devia ser. A segurança humana dos sírios, essa foi espezinhada pela insegurança mais clássica de todas: a do armamento vendido pelos mesmos europeus e norte–americanos aos senhores da guerra. A segurança humana dos palestinianos ou dos saharauis, essa, continuou a ser espezinhada pelas cumplicidades diplomáticas dos pregadores da segurança humana. O discurso da segurança humana soou, por isso, vezes demais, a ficção cínica. Mas, agora, é na Europa e nos Estados Unidos da América, e não lá longe, que se testa a coerência com a proclamação da segurança humana como objetivo certo. E a referência crucial desse teste é o Estado social. Ao contrário do que quer fazer crer o discurso securitário de exceção, é mesmo a freedom from fear e a freedom from want que são intensamente compreendidas por europeus e norte-americanos como pilares da segurança das suas vidas. Contra a insegurança insidiosa de um vírus agressivo, são os sistemas públicos de saúde que são vistos como garante da segurança das pessoas. Contra a insegurança imensa do desemprego, é o salário e a proteção social que são compreendidos como âncoras da segurança das vidas. Como depois da II Guerra Mundial, o que hoje se joga na Europa e nos Estados Unidos da América é a afirmação da segurança humana como princípio de organização social contra a barbárie. E isso tem um nome: Estado social.

Talvez agora os europeus e os norte-americanos entendam melhor que a segurança humana que advogam para o mundo começa aqui e que isso implica reforço dos serviços públicos contra o primado do negócio. Talvez entendam tudo isto agora. Mas talvez o desentendam logo a seguir. O vírus do business as usual é incrivelmente resistente.

Postura de Bolsonaro ante Covid-19 pode ser começo de seu fim

O presidente Jair Bolsonaro está praticamente isolado em seu discurso menos rígido em relação à necessidade do distanciamento social para conter a disseminação do novo coronavírus. Essa postura, segundo a revista The Economist, deverá marcar o começo do fim de sua presidência.

“Um por um, os que duvidam fizeram as pazes com a ciência médica. Apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública representada pela covid-19. Dois são destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. Um terceiro é Daniel Ortega, o ditador tropical da Nicarágua. O outro é o presidente eleito de uma grande democracia, ainda que maltratada”, diz a publicação em texto da nova edição.

A tradicional revista britânica destaca que Bolsonaro é apoiado por um pequeno círculo de fanáticos ideológicos que incluem seus três filhos, pela fé de muitos protestantes evangélicos e pela falta de informações sobre a Covid-19 entre alguns brasileiros. Esses dois últimos aspectos, porém, podem mudar à medida que o vírus atinge seu pico.

O número de casos confirmados e mortes deve subir muito entre as últimas semanas de abril e as primeiras de maio, segundo expectativa oficial. Já antecipando este movimento, muitos governadores determinaram o fechamento do comércio não essencial em seus estados já nas últimas semanas de março, o que gerou uma tensão com Bolsonaro.


Dizendo temer os impactos econômicos, Bolsonaro defende o “isolamento vertical”, pelo qual apenas os brasileiros com mais de 60 anos ficariam em quarentena. “Existem dois problemas com isso. Os jovens morrem de covid-19 (10% dos mortes no Brasil têm menos de 60 anos), e a imposição dessa quarentena seria impossível”, diz a Economist.

Enquanto isso, a popularidade do presidente cai. Uma pesquisa realizada neste mês pelo Datafolha, e citada na publicação, revela 76% de aprovação para atuação do Ministério da Saúde na questão do coronavírus, em comparação com 33% para o gerenciamento da crise por Bolsonaro.

“Ele chegou duas vezes perto de demitir seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta. Bolsonaro está aparentemente com ciúmes do crescente perfil de um ministro que ele alega ‘carece de humildade'”, diz o texto.

A Economist cita ainda que seus principais ministros, incluindo o grupo de generais no gabinete, bem como o Congresso, também deram apoio às vezes ostensivo a Mandetta. “Mesmo para seus próprios padrões, a violação de seu dever principal de Bolsonaro por proteger vidas foi longe demais”, diz.

Como consequência, afirma a Ecomomist, os pedidos para que ele saia aumentaram. “Eles não vêm apenas da esquerda, mas também de alguns de seus ex-apoiadores, como Janaina Paschoal, uma deputada estadual de São Paulo que ele considerou como seu companheiro de chapa. Dizendo que ele era culpado de ‘um crime contra a saúde pública'”.

Janaina também disse que, apesar disso, o país não tem tempo para mais um processo de impeachment neste momento. Por isso, apesar de Bolsonaro ter forçado a possibilidade de sua própria saída, segundo a revista, é provável que permaneça lá após a superação da epidemia.

E como sente!



Quando o rico geme, o pobre é quem sente a dor
João Ataíde

Pandemia de falta de noção

A racionalidade e a lógica indicam o caminho do isolamento social e as medidas restritivas até que a curva da pandemia comece a melhorar. Valores como justiça social, e sentimentos como compaixão e empatia, tornam imperativo cobrar das autoridades medidas urgentes de complementação de renda, desonerações e esforço máximo para atender aos mais vulneráveis. Nada disso, porém, pode ser confundido com a falta de noção dos espertinhos que querem tirar vantagens que vão muito além da pandemia e dos que tentam aproveitar politicamente a situação ou usufruir seus cinco minutos de fama.

Todos os dias, somos surpreendidos pelo Diário Oficial e por medidas anunciadas e votadas de supetão. Quarta-feira, ao acordar, descobrimos que podemos sacar R$ 1.045,00 do FGTS e que o PIS/PASEP acabou. Com a primeira providência, o governo Bolsonaro se antecipou a uma proposta do PT, que provavelmente o Congresso aprovaria. O Executivo está ficando rápido no gatilho. Alguém no Legislativo anuncia, ele vai lá e faz — como no auxílio, que era de R$ 500 e acabou ficando em R$ 600. Quanto ao fim do PIS/PASEP, sabemos que nenhum brasileiro tem amor por esse fundo, embora alguns tivessem dinheiro lá. Será que passamos pela sonhada reforma desburocratizadora de fundos e tributos enquanto dormíamos? Ninguém explicou.

Nesse momento delicado, estamos todos perdidos, e às vezes fica difícil avaliar de cara o que é mesmo bom ou ruim, se ajuda ou cria problemas. O aplicativo da inscrição para receber o auxílio emergencial demorou e teve, nas primeira 24 horas, mais de 20 milhões de acessos — para se ter uma ideia da carência de boa parte da população. Ao mesmo tempo, porém, especialistas em políticas de distribuição de renda e prefeitos dizem que este acabará sendo o caminho mais complicado para que o dinheiro chegue a quem mais precisa, até porque o brasileiro miserável de verdade não tem celular nem acesso à internet.

Mais fácil teria sido usar os cadastros sociais das prefeituras, em sua maioria montados na era petista, mas ainda inteiros e capazes de identificar os mais pobres. Ou chamar especialistas reconhecidos na formulação e execução de programas sociais. Só que esse pessoal é “vermelho”, como se diz no jargão bolsonarista — e, para esse governo, a ideologia está acima do bem estar da população.

Não é só no Executivo. No DF, com uma canetada, um juiz pode ter cancelado as eleições municipais deste ano. Itagiba Catta Preta Neto, em sentença com cara de manifesto, bloqueou os fundos eleitoral e partidário e destinou seus R$ 3 bilhões ao combate ao coronavírus. A decisão pode ser revista por instância superior, mas é o caso de ficar de olho no resto da torcida para adiar as eleições, um marco da democracia, usando como desculpa a pandemia. A seis meses do pleito, quem defende isso no fundo não quer eleições por medo de perder.

São muitos os exemplos, até de quem, involuntária ou apressadamente, arrisca-se a criar confusão para o futuro. No Legislativo, foi admirável a atuação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao votar a toque de caixa, remotamente, os projetos de combate ao coronavírus. Mostrou competência e espírito público. Mas passou do ponto ao aprovar na mesma tarde, em dois turnos, com voto pela Internet, uma emenda constitucional — a PEC do Orçamento de Guerra. Precisou ser lembrado pelo Senado, que adiou o exame da matéria para semana que vem, que as coisas não podem ser assim com mudanças na Constituição.

É preciso mais vagar e reflexão para não abrir precedentes perigosos para o futuro. Maia, que não é bobo, parece ter aprendido a lição. Desistiu de votar o Plano Mansueto, uma profunda reestruturação das finanças estaduais com ajuda federal, durante a pandemia. Vai destacar do projeto, para votação imediata, itens urgentes para os estados, como renegociação de dívidas e compensação de impostos. O resto só na volta à normalidade. Emergência é emergência, reforma é reforma, democracia é democracia — e suas regras têm que ser preservadas em qualquer circunstância.

Porta está aberta para a Renda Básica Universal

Com a crise do novo coronavírus, o debate sobre esse recurso parece mais relevante do que nunca, já que fragilidade dos sistemas de proteção social tradicionais ficou exposta

Nos últimos anos o interesse em propostas de Renda Básica Universal (RBU) cresceu enormemente em todo o mundo. Segundo os autores de um livro sobre RBU publicado neste ano pelo Banco Mundial, “Exploring Universal Basic Income” 1, 91 livros sobre o tema foram publicados apenas na última década.

O interesse não tem se restringido ao meio acadêmico: programas-pilotos foram implementados em diferentes países, e na esfera política vários candidatos têm adotado propostas de RBU como pivô de suas campanhas.


Com a crise deflagrada pelo novo coronavírus, o debate sobre uma RBU parece mais relevante do que nunca, uma vez que a fragilidade dos sistemas de proteção social tradicionais ficou exposta. Em vários países, incluindo o Brasil, surgem medidas de pagamento de uma renda básica a indivíduos ou famílias na tentativa de tapar buracos no sistema vigente.

Todavia, essas transferências que estão agora sendo implementadas não configura RBU, pois estão programadas apenas para um período emergencial e os beneficiários devem satisfazer determinados critérios de elegibilidade. Em contraste, uma RBU é usualmente conceituada como montante fixo de dinheiro regularmente pago pelo governo a cada indivíduo na sociedade, independentemente de sua renda ou posição no mercado de trabalho.

A ideia básica tem mais de dois séculos, tendo sido introduzida pelo filósofo Thomas Paine (1737-1809). A onda recente (antes da chegada do coronavírus) de interesse em RBU surgiu inicialmente nos países desenvolvidos, motivada pela crescente insegurança no mercado de trabalho - associada à automação e à globalização - e pelo crescimento da desigualdade.

No Brasil, a ideia de prover renda básica a cada cidadão foi introduzida nos primeiros anos da década de 1990 pelo então senador pelo PT Eduardo Suplicy (atualmente vereador de São Paulo). A campanha de Suplicy levou à aprovação, em 2004, da Lei de Renda Básica de Cidadania (Lei nº 10.835, de janeiro de 2004), que estabelece a progressiva implementação de uma renda básica universal no país. A lei “não pegou”. Têm prevalecidos argumentos de que uma RBU não é fiscalmente sustentável, ou de que programas de transferências focalizadas e condicionais, como o Bolsa Família, são mais efetivos na redução da pobreza.

Com o objetivo de examinar os efeitos fiscais e distributivos da implementação de uma RBU no Brasil, os autores deste artigo realizaram simulações de esquemas alternativos de RBU, usando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2017 e técnicas de microssimulação de tributos e benefícios. Um dos esquemas simulados, conhecido na literatura como Basic Income/Flat Rate Proposal, combina uma RBU com imposto proporcional sobre todas as outras rendas.

A renda básica (paga a cada indivíduo) foi fixada em R$ 406 por mês, que em 2017 era equivalente à linha de pobreza proposta pelo Banco Mundial para países de renda média alta (US$ 5,50 por dia). No esquema simulado, as aposentadorias e pensões pagas atualmente pelo governo são reduzidas no mesmo montante da renda básica e as demais transferências monetárias são abolidas. O imposto proporcional substitui o atual imposto de renda da pessoa física bem como as contribuições previdenciárias dos empregados. Sua alíquota é calculada de forma a garantir “‘neutralidade orçamentária”, significando que o déficit fiscal não é exacerbado.

Neste esquema, o custo líquido da RBU foi estimado em 11,5% do PIB (R$ 758 bilhões, em 2017), e a alíquota do novo imposto de renda (compatível com neutralidade orçamentária) foi estimada em 35,7%. Conforme projetado, a pobreza seria eliminada com a reforma. Cabe mencionar que, sob o sistema vigente, a proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza, em 2017, era 23,5%. Entre as crianças (17 anos ou menos), a taxa de pobreza era bem mais elevada, 39,7%, enquanto entre os idosos (65 anos ou mais), a proporção de pobres era 3,2%.

Em grande medida, isso ocorre porque hoje mais de 85% do gasto público com transferências monetárias correspondem a aposentadorias e pensões. O que também está associado ao fato do montante total de transferência para os 20% mais ricos da população ser cerca de dez vezes maior do que para os 20% mais pobres 2.

A proposta simulada também provocaria uma redução substancial na desigualdade de renda. Medida pelo coeficiente de Gini (que varia entre 0 e 1), a redução seria de mais de um quarto, com o Gini indo de 0,51 para 0,38.

Quase todos os indivíduos entre os 50% mais pobres da população teriam a renda familiar aumentada, sendo que os ganhos mais significativos se concentrariam na base da distribuição de renda. No caso dos 10% mais pobres da população, a renda familiar per capita quase que triplicaria, em média. Ao todo, 64% da população teria um ganho líquido com a reforma. As perdas líquidas, por sua vez, se concentrariam no topo da distribuição de renda. Para os 10% mais ricos, a redução média na renda domiciliar per capita seria de 16%.

Pode ser desconcertante admitir que a substituição (parcial) de um sistema complexo por outro - radicalmente simples - que paga uma quantia modesta a todos os indivíduos na sociedade e é financiado por um imposto com alíquota única sobre todas as rendas possa ter efeitos equalizadores tão fortes. De fato, essa oportunidade é peculiar do Brasil, dada a ineficiência e iniquidade do sistema atual. Outros países enfrentam tradeoffs muito mais fortes entre sustentabilidade/viabilidade fiscal e equidade. É importante ressaltar que além de ganhos em termos de equidade, um sistema como o discutido aqui tem vantagens derivadas de sua simplicidade, universalidade e transparência.

Entre elas, está a redução da burocracia e de custos administrativos, bem como minimização de oportunidades para manipulação do sistema por grupos de interesses específicos.

Crises frequentemente são motores de mudanças estruturais de longo prazo. Ao sair desta que agora vivenciamos, o Brasil e o mundo terão acumulado mais experiência com programas extensivos de transferência de renda. Há ainda a esperança de mudanças nas atitudes, que se tornem mais favoráveis à construção de contratos sociais mais inclusivos. Uma RBU pode ter um papel crucial nesse mundo mais justo. As evidências para o Brasil indicam que temos essa escolha. A porta está aberta.

Rozane Bezerra de Siqueira / José Ricardo Bezerra Nogueira Departamento de Economia/UFPE 
1 Gentilini, Ugo, Margaret Grosh, Jamele Rigolini, and Ruslan Yemtsov, eds. (2020). “Exploring Universal Basic Income: A Guide to Navigating Concepts, Evidence, and Practices”. Washington, DC: The World Bank
2 Ver “Efeito Redistributivo da Política Fiscal no Brasil”, Ministério da Fazenda, Brasília, 2017