domingo, 15 de janeiro de 2017

Só se nós fizermos...

“Feliz Ano Novo! Depois desse horrível 2016...’’ Foi o que mais se ouviu na passagem de datas. Pois sim... Deu o dia 1º, e o chamado Estado Islâmico matou 39 pessoas em Istambul. — Começo ruim, mas quem sabe... — No mesmo dia, rebelião no presídio de Manaus matou mais de 60 detentos. Bastou? Nada. No dia 6, outro levante, esse em Rondônia, deixou mais 33 decapitados. Sim, decapitados. Nas duas penitenciárias a selvageria se arrematou com a decapitação dos vencidos. — Briga entre grupos criminosos, disseram. Um pavoroso acidente, foi a fala presidencial, depois de um longo silêncio. A isso chegou a banalidade na percepção do mal. Um secretário do governo federal não se envergonhou de afirmar que uma limpa dessas devia ocorrer toda semana. E o diretor da penitenciária de Manaus pontificou que ali ninguém era santo. — Mas foram os próprios detentos que praticaram essa barbaridade, dizem os apressados da vida. — Mas estavam sob a guarda do Estado. — Mas a gestão era privada. — Ah, bom, então... — Que começo de ano!

Istambul já foi Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. E, antes, Bizâncio, centro da cultura grega depois de Atenas. Fica montada sobre dois continentes. É Ásia por um lado, atravessa-se uma ponte e já se está na Europa. Há ali esse simbolismo. A ponte é um traço de união para quando o Ocidente e o Oriente puderem não mais se estranhar. O EI terá tido essa intenção? Que depois do Bataclan e dos bares de Paris, há pouco mais de um ano, agora estaria na hora de avançar sobre quem dança entre o Leste e o Oeste do mundo? Foi mesmo igual. Jovens se divertiam, bebiam e dançavam, cantavam e estavam felizes — e, depois, não mais. Depois, corpos e sangue. E silêncio. Não era novidade, já tinha ocorrido na capital da França. O choque então foi imenso. Paris ainda é o centro do mundo. Istambul não é mais. Menos manchetes, menos manifestos. Mas o mesmo pavor. O mesmo perpetrador. O terror do Estado Islâmico vai chegando ao Oriente. Está mais perto de casa. Deve ter um sentido esse movimento. Não o compreendemos. Resta-nos o espanto da repetição. Daqui a pouco, nem isso. Repetição é rotina. Um dia apenas constataremos: aconteceu de novo. Deus nos livre da rotina na percepção do mal.
Charge O Tempo 14.1.2016
O Estado Islâmico entrou no mapa da barbárie com as imagens espantosas das decapitações. O soldado imponente, a vítima de joelhos, a lâmina suspensa. E a imagem nas redes. Foi uma novidade. Em Manaus, já não mais. Uma facção decapita a outra, exibe as cabeças e os facões, faz fotos e selfies. E põe na rede. Uma parte do país se revolta. Menos de metade. Para os outros, o diretor do presídio tem razão: não há santos ali. Se quiserem se entredestruir, é um favor que fazem. — A quem? — A nós, os bons. O Ano Novo começou assim.

A resposta das autoridades é macha, enérgica: mais presídios! É guerra! Domingo passado um caminhão em Jerusalém repetiu a manobra assassina de julho em Nice e lançou-se sobre civis inocentes. Com requintes: deu marcha a ré sobre os corpos para se assegurar do seu sucesso. De novo, a barbárie solta, o Terror. O Terror, não temamos a palavra. Os terroristas. — A reação veio rápida: intensificação dos ataques aos palestinos. O diretor de Manaus talvez rejubilasse: entre eles, não há santos.

Há, às vezes, um certo pudor entre nós em dizer que é o Terror, hoje, o inimigo global. Ainda é recente a memória de quando todos que nos opúnhamos às ditaduras da América Latina éramos chamados de terroristas. Mas não tenhamos receio em dizer que no mundo globalizado o Terror é o inimigo global. Não tem limites nem fronteiras. Nem alvos, muitas vezes. Atira onde der, acerta em quem pegar. Seu alvo é a vida. Para distribuir mãos cheias de medo. Terrível semeadura! Não colhamos seus frutos. Mas não nos enganemos: o medo global é o objetivo do Terror. Não tenhamos medo.

É bem perto de nós que temos a fome pandêmica. As meninas proibidas de estudar. As violências e segregações. Os corpos martirizados das mulheres. A repressão aos amores fora da cartilha. As navegações da morte sem porto. As guerras sem sentido e sem fim. A violência dos Estados. O ressurgimento da extrema direita. — Todas essas são doenças que andam por perto. Têm vítimas e responsáveis. Nós os conhecemos. O Terror, a despeito de todo o seu poder, paira acima delas, acima da vida desgraçada do abandono e da desesperança. Vamos cuidar dessas, as de perto. Não vivemos ‘‘no global’’. Nossas vidas são sempre locais, encarnadas. Viver onde nossas vidas realmente se passam, maciamente, olhando para nossos companheiros de caminho, tantos estraçalhados, pode ser uma boa estratégia. Viver. Tirar o oxigênio do Terror. Não ceder a ele no concreto das nossas existências.

O ano de 2017 não começou bem. Mas não precisa estar condenado a repetir a rotina do Mal
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Marcio Tavares D’amaral

Massacres em série extirpam ponto de exclamação dos hábitos dos brasileiros

Espantosa época essa que o Brasil atravessa. Uma época em que o horror adquire doce naturalidade. As facções criminosas promovem massacres em série nas penitenciárias do país. E poucos brasileiros parecem dispostos a fazer a concessão de uma surpresa. É matança de bandidos? Pois que venha o extermínio. E com decapitações.

Depois da mortandade de presos em Manaus e Boa Vista, sobreveio, entre a tarde de sábado e a madrugada deste domingo, a chacina da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, na região metropolitana de Natal. De um lado uma franquia potiguar do paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). Do outro, o Sindicato do Crime do RN, que opera em regime de joint venture com o carioca Comando Vermelho (CV).

Em duas semanas, três massacres. Mais de uma centena de execuções. Os criminosos superaram os anseios de Bruno Júlio, aquele ex-auxiliar de Michel Temer que perdeu a chefia da Secretaria Nacional de Juventude depois de lamentar a baixa produtividade da usina de auto-extermínio que funciona nas cadeias: “Tinha é que matar mais”, ele disse. “Tinha que fazer uma chacina por semana.”

A contabilidade dos horrores de Natal ainda é desconhecida. Na noite passada, o governo estadual admitiu em nota a existência de dez cadáveres. Entretanto, vídeo pendurado na internet indicava a existência de pelo menos 17 corpos. Não foi possível concluir a escrituração porque o poder público estadual, impotente, decidiu que só entraria na cadeia depois do nascer do Sol.


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Caio César, secretário de Segurança do governo do Rio Grande do Norte apressou-se em divulgar um vídeo para tranquilzar a população (assista abaixo). “Não houve fuga”, disse o secretário a certa altura. “A população pode ficar tranquila e realizar suas atividades normalmente.” O que a autoridade máxima da segurança no Estado disse aos cidadãos de bem, com outras palavras, foi o seguinte: “Fique calmo. A cadeia está cercada. Lá dentro, os bandidos estão se matando uns aos outros. Nada que mereça a sua preocupação.”

.O Datafolha informou, há três meses, que 57% dos brasileiros concordam com a máxima segundo a qual “bandido bom é bandido morto.” Quer dizer: as facções criminosas não estão senão satisfazendo, por meio do auto-extermínio, a vontade da maioria. Produzem novos carandirus sem a participação da Polícia Militar. É como se a bandidagem unisse o útil ao agradável. Defendem seus territórios e seus negócios. Simultaneamente, atendem à demanda social por sangue.

Nesse contexto, só os chatos, com seu humanismo arcaico, ainda pedem providências e punições. Só os ingênuos, com seu horror postiço, ainda não suprimiram dos seus hábitos o ponto de exclamação. Atentas ao avanço da sociedade brasileira rumo à Idade Média, as facções criminosas já não querem só comida. A bandidagem também quer diversão e arte. A falência do Estado dá ao criminoso a chance de oferecer seu vernissage semanal de cadáveres.

Alô, Brasília, que vergonha

Em artigo anterior, com o título "Cria Cuervos", mostrei como o Brasil foi se tornando um criatório de maus cidadãos, de patifes, mentirosos, velhacos, corruptos, traiçoeiros e dirigentes de igual perfil. Os cuervos, afirmei, são criados por quantos chamam bandido de herói e herói de bandido, combatem a polícia, riem da lei, proclamam a morte da instituição familiar, ridicularizam a virtude, aplaudem o vício, enxotam a religião, desautorizam quem educa ou usam a Educação para fazer política, e relativizam o bem e a verdade.

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Observe as movimentações para eleição da presidência da Câmara dos Deputados. Quem for escolhido pela maioria de seus pares, além de comandar a Casa e exercer várias outras atribuições importantes, será o substituto eventual do presidente da República. A disputa se trava entre Rodrigo Maia e Jovair Arantes. O primeiro dirigiu aquela sinistra sessão em que - forçando um poquito pero no mucho a expressão - as dez medidas contra a corrupção se transformaram em regras desmedidas a favor dos corruptos. E fez o possível, Rodrigo Maia, para que tudo acontecesse conforme articulado nos bastidores, inclusive o tardio horário em que se desenrolou a escabrosa parte deliberativa da sessão. Do segundo, é dito que representa o centrão, grupo de deputados do baixo clero, cuja principal atividade parlamentar seria usar os votos e o poder do bloco para intercambiar favores que, na maior parte dos casos, não se distinguem de meros negócios. Tudo indica que estamos lidando com títulos de estampado valor de face.

A essas alturas, impõe-se perguntar se não há naquele plenário alguém com estatura para o cargo. É claro que há. E não são poucos, embora não sejam muitos nem em número suficiente, os homens e mulheres que honram seus mandatos e os exercem com integridade, voltados ao bem do país. No entanto, eventuais disposições para concorrer à liderança maior da casa, que entre eles surjam, tropeçam num grande obstáculo. Nesse parlamento dominado por indivíduos de péssimo caráter é muito difícil a uma pessoa de bem articular, ao seu redor, um grupo que viabilize suplantar, em votos, os atuais disputantes. Sei que há iniciativas. Tomara que funcionem. Mas o cenário que desenho é real.

A sociedade que cria corvos é a mesma que os elege. E a experiência já mostrou que, no atual quadro institucional e moral do país, se o Poder Judiciário não afastar do poder os criminosos, não há lei de "fidelidade partidária", nem da "ficha limpa", nem projeto das "dez medidas", nem o que mais ocorra à criatividade nacional, que consiga aprimorar o tipo de representação política da nossa sociedade. Chega a ser ridículo. O Brasil foi levado para essa perdição como um adolescente conduzido por más companhias.

Percival Puggina 

sábado, 14 de janeiro de 2017

A morte do homem cordial

A aliança de modernismo e ufanismo alimentou, desde cedo, a ilusão do brasileiro como protótipo do homem cordial. Faz parte daquelas fantasias que impulsionaram a virada do século XX. A efusão da natureza, a força do sertanejo e a cordialidade inata são capítulos de uma história precipitadamente edificante. Foi surpreendida por algumas curvas do caminho, quando certos desvios inesperados, a urbanização avassaladora, a irrupção das massas e a privatização da esfera pública agravaram o quadro insólito.

A percepção aguda de Mário de Andrade já havia identificado, na sua “Pauliceia desvairada”, sinais evidentes de um desvario que se expandiu por todo o território nacional, de Porto Alegre a Manaus.

A máquina de trituração da metrópole avançou sem pedir nem aceitar licença de ninguém. O tripé republicano, com mecanismo de acesso controvertido, se visivelmente abalado, em meio a licitações ilícitas, negócios escusos conduzidos pelas municipalidades de várias geografias. A representação política perde legitimidade e, consequentemente, representatividade.

O poeta Carlos Drummond de Andrade certamente perguntaria: E agora, José?


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A própria ideia de cordialidade já era um resíduo essencialista, que os pensadores plantados teriam dificuldades de absorver. Porque nenhum homem é ou deixa de ser cordial fora do seu horizonte existencial. Ou seja, indiferente à sua circunstância (Ortega), à sua situação (Sartre), aos angustiantes sinais do ser no tempo (Heidegger).

Assim sendo, o homem cordial brasileiro levantou voo sem gasolina no tanque, e deu no que deu. Alguma coisa parecida com o trajeto da Chapecoense.

O capítulo da escravidão nunca foi um exemplo de cordialidade. E fomos os últimos na América Latina a se livrar dessa praga. Os índices de violência hoje, segundo agências idôneas, ultrapassam aqueles que têm lugar em países em estado de guerra. As taxas de homicídio, praticados dentro e fora dos presídios, nos conferem medalha de ouro (falso) na olimpíada da criminalidade. A junção de violência social e violência política denuncia o quadro de calamidade, que começa a ser institucionalizado em todo o país. A privatização do público é a negação da cordialidade.

Grande parte do que vem acontecendo se deve ao fato de que a educação e a cultura não foram chamadas a participar do encaminhamento dessas questões. Duas entidades estruturalmente solidárias, a serem pensadas conjugadamente, no polo oposto do que supõem as corporações nervosas.

A educação é, em princípio, a cultura escolarizada. Enquanto a cultura é a educação transescolar, mais virtuosa que virtual. Ambas têm de conviver hoje com a internacionalização e com a internetização.

Não são da competência apenas de uma repartição ou de um ministério. São ambas, ou uma só, políticas de Estado. Por essas e outras razões, tem faltado cultura à educação e educação à cultura. E, na falta de ambas, facilita-se ou contribui-se para a proliferação da violência e da criminalidade.

O homem cordial já se encontrava respirando por aparelhos. Ultimamente, ao que tudo indica, esses aparelhos foram desligados.

É claro que tudo tem a ver com a prática da justiça social. Quando aumenta a desigualdade, diminui a cordialidade.

Daí a necessidade de uma reforma política, ampla, geral e irrestrita, a ser conduzida jamais pelos protagonistas do caos, e sim pelo mais íntegro diálogo societário.

Eduardo Portella 

A cartada final de Lula

Lula continua encenando o papel de presidenciável. Sabe que as chances reais de exercê-lo de fato são tão remotas quanto as de Dilma Roussef voltar à vida pública.

Lula é réu em cinco processos criminais - e em breve o será de outros mais, podendo ser preso a qualquer momento.

Queixa-se com frequência de que já não pode comparecer a locais públicos sem ouvir desaforos. Viajar em aviões comerciais, nem pensar. Viaja em jatos particulares, cedidos por amigos. Hoje, só fala a plateias amestradas – e mesmo aí já enfrenta resistências.

Na quinta-feira, por exemplo, num encontro em Brasília, foi vaiado pelo PSTU, legenda da esquerda radical que o considera um traidor da causa. E a causa, óbvio, é a revolução, abandonada ou negligenciada na medida em que Lula enriquecia e se aburguesava.


Com todas essas credenciais adversas, Lula insiste, como disse esta semana em Salvador, em que, “se for necessário”, voltará a disputar a presidência da República. Não esclarece que necessidade seria essa. Do país, seguramente, não é.

O rastro de destruição – política, econômica, social e moral - que o período por ele inaugurado, em 2003, e encerrado em 2016 com Dilma, deixou confere-lhe uma das maiores taxas de rejeição de toda a história. Dilma é parte de sua obra, concluída com um impeachment e a revelação do maior escândalo de corrupção já visto em todo o mundo. Corrupção e má gestão, soma fatal, que impôs ao país a crise atual, da qual procura acusar os que a herdaram.

Diante de tal cenário, sua candidatura a presidente só não é uma piada porque serve a uma causa real: sua blindagem, pessoal e política. Mantendo-se presente e atuante no cenário público, dá concretude àquilo que dele falou o presidente Michel Temer, a quem finge odiar, mas com cuja complacência tem contado.

Temer, numa recente entrevista ao programa Roda Viva, se disse contrário à prisão de Lula por achar que tumultuaria a paz pública. Com isso, conferiu-lhe um prestígio que já não tem – e o transfigurou em salvo conduto, inibindo, de maneira oblíqua, a ação dos que têm a responsabilidade de fazê-lo pagar por seus delitos.

Não parece ter sido por mera simpatia que o fez. Temer receia o que está por vir – as delações, sobretudo as da Odebrecht - e parece inclinado a estabelecer um armistício com o PT, de que dá testemunho a preservação de aliados da velha ordem em cargos estratégicos da administração pública.

PMDB e PT, afinal, foram parceiros. Embora o comando da Organização Criminosa (nas palavras de Celso de Melo, do STF) coubesse ao PT, o PMDB desfrutava de alguns feudos dentro da máquina pública, de que dão notícias operações da Polícia Federal.

A mais recente delas, ontem efetuada, flagrou uma rapina organizada dentro da Caixa Econômica Federal, entre 2011 e 2013, envolvendo o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o vice-presidente daquela instituição, Geddel Vieira Lima, até há pouco ministro do núcleo duro do governo Temer.

Para sorte de Temer, Geddel caiu antes desse escândalo, por outro comparativamente menor. Mas a lama do PT, como é óbvio, salpicou também – e com frequência - no PMDB.

Lula investe nisso ao atacar o governo Temer, ao tempo em que busca um protagonismo oposicionista, que o transfigure de mero (ou por outra, mega) gatuno em perseguido político.

É um jogo esquizofrênico em que, de um lado, pede a cabeça do presidente da República e, de outro, manda PT e aliados apoiar o candidato do Planalto à presidência da Câmara, Rodrigo Maia.

Claro está, portanto, que não postula a presidência para valer; quer apenas tornar mais complexa ou mesmo impossível a operação de colocá-lo atrás das grades. Joga sua cartada final.

Imagem do Dia

Praia de Salento (Itália) coberta de neve

Maior que o Brasil

(Lava Jato) é o maior caso de corrupção já documentado. O maior do mundo. Já investigado e provado. Pode ter existido algum outro, mas não documentado como esse.
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Impressiona o gigantismo da corrupção
Bruno Calabrich, procurador do Ministério Público Federal

Memória demolida

Fechado, sem dono e saqueado, o Maracanã se desmancha às nossas vistas. Gramado, túneis, vestiários, salas, vidros, esquadrias, tudo destruído. Sumiram fiações, computadores, extintores, mangueiras, milhares de cadeiras e, para completar, o busto de Mario Filho —o jornalista cuja campanha foi decisiva para a existência do Maracanã e que, desde sua morte em 1966, honrava-o com seu nome.

Talvez haja aí um componente simbólico: que bom que nem em busto Mario Filho esteja lá para ver o que fizeram com seu estádio. E, assim como ele, tantos outros que escreveram tão bem sobre futebol: seu irmão Nelson Rodrigues, João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Ney Bianchi, Achilles Chirol, Sergio Porto. Todos, em algum momento, cronistas do Maracanã. Nenhum deles, hoje, entre nós.

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Reinauguração do estádio em 2013 com as autoridades reinantes
Mas há um jornalista ainda vivo e que teria ainda mais motivos para sofrer com o estupro a que submeteram o estádio: Sérgio Cabral, historiador do Carnaval e da música brasileira e vascaíno histórico. A partir de 1950, nos degraus do Maracanã, ele viu Ademir, Ipojucan, Pinga, Vavá, Roberto, Romário e Edmundo levarem o Vasco a muitas conquistas.

Às vésperas dos 80 anos, dos quais abençoado há três por uma forma irreversível de demência senil, ele parece não saber muito bem das acusações que pesam sobre seu filho e homônimo, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral.

Em sete anos de Sérgio filho à frente do Estado (2007-14), o Maracanã foi derrubado e reconstruído tantas vezes em nome da Copa, do Pan e da Olimpíada que perdemos a conta. Conta esta que a Odebrecht sempre teve de manter em dia, para pagar as supercomissões que, segundo as delações, ele levava. O fato é que, em cada metro de cimento do Maraca que Sérgio filho mandou quebrar, uma parte da memória de Sérgio pai também se esfacelou.
Ruy Castro

Entre dois amores

Música de Wolfgang Amadeus Mozart (Concerto para clarinete em A major, K. 622) com imagens do filme "Out of Africa" ("Entre Dois Amores"), de 1985, dirigido e produzido por Sydney Pollack e estrelado por Robert Redford e Meryl Streep. O roteiro foi baseado no livro autobiográfico de Isak Dinesen, pseudônimo da aristocrata dinamarquesa Karen Blixen, 

Brasil continua sendo governado por uma quadrilha

É uma constatação muito triste, que já era prevista quando o presidente interino anunciou seu ministério, dia 12 de maio. A quantidade de políticos envolvidos direta ou indiretamente com atos de corrupção mostrava que Temer estava cercado pelo que há de pior na política, exatamente como ocorrera com a presidente Dilma Rousseff.
A grande diferença é que Temer teve a esperteza de colocar Henrique Meirelles na linha de frente, oferecendo-lhe carta branca para nomear praticamente toda a equipe econômica. Com isso, acalmou o mercado e conseguiu iniciar o governo num clima de normalidade, que logo seria quebrado pelas denúncias envolvendo dois de seus ministros mais próximos, amigos de todas as horas – Romero Jucá (Planejamento) e Henrique Eduardo Alves (Turismo), que tiveram de se afastar.

De lá para cá, foi uma crise atrás da outra. E a mais uma bomba agora explode, com a participação do ex-ministro Geddel Vieira Lima em uma quadrilha montada na Caixa Econômica Federal junto com o então deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), com envolvimento direto de um dos vice-presidentes do banco, Roberto Derziê, uma indicação pessoal do presidente Michel Temer.

Com tantos escândalos, o governo Temer está se tornando uma peça de ficção, em que o enredo das personagens corruptas passa de pai para filho, com os jovens Helder Barbalho (PMDB) e Fernando Bezerra Coelho Filho (PSB) participando do Ministério sem terem a menor experiência administrativa, vejam a que ponto chegamos.

Além disso, há dois ministros com bens bloqueados pela Justiça – Blairo Maggi eEliseu Padilha. O titular da Agricultura é acusado de usar recursos públicos para comprar uma vaga de conselheiro do Tribunal de Contas do Mato Grosso. E o chefe da Casa Civil responde a processo também em Mato Grosso, por grilagem de terras públicas e devastação de 1,3 mil hectares de reserva ambiental, com agravante da apreensão de 18 armas de fogo na fazenda, incluindo rifles de mira telescópica.

Bem, este é perfil criminal do governo Temer, e não estamos nem falando em citações na Lava Jato, que envolvem o próprio presidente e a maior parte dos caciques do PMDB e de todos os grandes partidos, é um verdadeiro festival.
Temer poderia fazer como Lula da Silva e Dilma Rousseff, não seria surpresa ele também dizer que não sabia de nada. Mas não tem a menor condição de fazê-lo, porque os fatos são públicos e notórios, o presidente da República toma conhecimento, mas simplesmente não demite ninguém.

O presidente Temer mostra ser uma espécie de Itamar Franco às avessas, porque Fabiano Silveira (Transparência), Romero Jucá (Planejamento), Henrique Eduardo Alves (Turismo) e Geddel Vieira Lima (Secretária de Governo), envolvidos em corrupção, todos eles pediram demissão.

Do outro lado da praça, Henrique Meirelles faz o seu jogo no Ministério da Fazenda. Sabe que se tornou o único avalista de Temer, que está completamente desacreditado. Estrategicamente, Meirelles deixou o PSDB, onde não tinha espaço, e se filiou ao PSD, aquele partido que não é de direita nem de esquerda, muito pelo contrário, e prontamente lhe ofereceu a candidatura à Presidência da República em 2018.

Lula se defende

O grupo de advogados que atende o ex-presidente Lula mostra-se tranquilo quanto ao fracasso e a falta de eficácia das cinco denúncias abertas contra ele. Concluíram não haver base para incluí-lo na possibilidade de vir a ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal. Ainda aguardam a íntegra das delações que 77 ex-diretores da Odebrecht fizeram ao ministro Teori Zavaski, que depois serão levadas ao Procurador Geral da República para decidir se pede ou não a abertura de processos criminais.

Os advogados, entre eles também juristas, argumentam que as acusações se repetem e não atingem o ex-presidente. Sustentam estar havendo perseguição por parte dos procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato, e também do juiz Sérgio Moro. Quando tiverem acesso à delações, recorrerão em grande estilo, já tendo preparado memoriais que submeterão ao STF, para apreciação.

Apesar de entenderem estar havendo desrespeito ao princípio da presunção de inocência e à imparcialidade por parte dos procuradores, os advogados aguardam a revelação das delações e o pronunciamento do ministro Zavaski para formalizarem a defesa. Consideram que o Lula nada tem a esconder e editaram uma coletânea de 18 artigos de 22 autores, uma espécie de pré-defesa do ex-presidente. Entre eles estão Cristiano e Valeska Zanin Martins, Rafael Martins, Celso Antônio Bandeira de Melo, Eugênio de Aragão, Nilo Batista e outros. Um detalhe que alinham é a parcialidade dos meios de comunicação ao referir-se ao Lula, a quem têm estimulado a não interromper sua tarefa de reconstrução do PT

Em suma, até que novos capítulos se desenrolem na questão, o ex-presidente continua liderando o partido que fundou e abrindo oportunidades de vir a candidatar-se ao palácio do Planalto, em 2018. Este seria, para ele, o objetivo de deslocar-se para diversos estados, reunindo bases partidárias e sindicais, esta semana na Bahia.

A incompetência, uma praga em nossas estatais

Um juiz federal em Brasília mandou afastar seis vice-presidentes dos Correios. Por falta de qualificação técnica. Em outras palavras, por incompetência para o cargo. Quem indicou os seis dos oito vice-presidentes (e para que os Correios precisam mesmo de oito vice-presidentes?) foi a Casa Civil do presidente Michel Temer. Quem pediu o afastamento foi a Associação dos Profissionais dos Correios, cansada de pagar o pato pelo aparelhamento da empresa.

A base do pedido foi a recente Lei das Estatais, em vigor desde junho do ano passado. Como o Brasil é, historicamente, um país que valoriza o Q.I. (Quem Indica), foi necessário aprovar uma lei que estipula o óbvio. Tenta-se evitar, nas empresas estatais, as indicações políticas que beneficiam o amiguinho, o afilhado ou o parente de alguém importante ou muito chegado, numa troca amoral de favores. Diz o texto da lei que diretores de estatais devem ter “reputação ilibada, notório conhecimento mediante comprovação de experiência profissional, formação compatível com o cargo e ficha limpa”. Não deveria ser sempre assim?


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Nenhum desses seis vice-presidentes dos Correios, eleitos em agosto, comprovou qualificação técnica. Não foram analisados seus currículos. O Conselho dos Correios pediu a análise, mas não foi ouvido. Maria Inês Capelli, presidente da Associação dos Profissionais dos Correios, foi ouvida pelo Bom Dia Brasil: “O prejuízo [dessas indicações] estamos vendo agora. [Os Correios são] uma empresa deficitária, por muito tempo reconhecida por sua alta credibilidade e pelo serviço que prestava. O aparelhamento da empresa é a causa maior de sua decadência”.

No fim, os Correios convocam seus próprios funcionários a cobrir o rombo com descontos no contracheque ou com a adesão a programas de demissão voluntária. Em 2015, o prejuízo dos Correios passou de R$ 2 bilhões. No ano passado, chegou perto: R$ 1,9 bilhão no vermelho. Agora, os vice-presidentes dos Correios prometem recorrer da sentença do juiz Márcio de França Moreira. Afirmam não ter tido chance de se defender. Não sabemos se o afastamento é justo ou não. Mas os Correios não estão sozinhos no apadrinhamento de incompetentes nas estatais.

Se algo ficou claro para os brasileiros no expurgo da Lava Jato é que a politicagem estimula a corrupção. O que aconteceu com Petrobras, BNDES, Caixa Econômica, Banco do Brasil – e por aí vai – foi uma injustiça com o país e com o trabalhador. A imagem do Brasil sofre lá fora. Pela primeira vez, passamos a China num ranking internacional de propina, elaborado nos Estados Unidos por um site especializado em legislação anticorrupção. Os três campeões nesse ranking são Brasil, China e Iraque.

O preço da má gestão, aliado à cobrança de subornos, é muito alto. O desemprego vai aumentar em 2017. Será o pior quadro entre as 20 maiores economias no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Mais de 1,2 milhão de brasileiros perderão seu emprego. Ao todo, teremos 13,6 milhões de desempregados, ou 12,4% da população com idade para trabalhar.

Os Correios não têm concorrente. Estão sozinhos no mercado. Precisava ser uma empresa tão deficitária e crivada de denúncias de desvio e fraudes, também no fundo de pensão, o Postalis? Precisava ter gestores nomeados por partidos políticos, para encher as burras individuais de dinheiro? Todos devem lembrar que o escândalo do mensalão começou com a CPI dos Correios, em 2005. Um vídeo mostrou um executivo dos Correios, Maurício Marinho, negociando propina com empresas e agindo em nome do deputado Roberto Jefferson. Jefferson cunhou o neologismo “mensalão”. Seu depoimento derrubou o ministro-chefe da Casa Civil de Lula, Zé Dirceu.

Governos após governos ignoram o anseio da sociedade para acabar com os cabides enferrujados de empregos, onde se penduram marajás não qualificados para os cargos. Isso não quer dizer que a privatização resolva os males da incompetência. Uma empresa privada precisa de boa gestão tanto quanto uma estatal. O Q.I. pode levar à falência empresas privadas.

O presídio de Manaus é um exemplo drástico de como uma “semiprivatização” malsucedida serve para disfarçar a omissão do Estado. Era o Estado que deveria ter saneado as condições carcerárias explosivas em Manaus, detectadas desde 2013. É o Estado que precisa agora dar as devidas respostas para a segurança dos presídios, em vez de defender o indefensável: que se gravem as conversas entre advogados e presos. Michel Temer ainda não percebeu os males da incompetência em seu Ministério. Como Dilma Rousseff, cercou-se de vários ministros que podem afundá-lo.

Paisagem brasileira

Paisagem com ponte em Paraíba do Sul (séc. XIX), Eugén Darville

Candidatura de Lula é uma aposta no cinismo

Dentro de seis dias, o PT deve deflagrar uma cruzada por eleições diretas e lançar a re-re-recandidatura de Lula. Numa reunião do diretório nacional do partido, o pajé do petismo aceitará o sacrifício de retornar ao Planalto para salvar o país. Não é propriamente um projeto político. Trata-se de uma aposta no poder de sedução do cinismo.

Só há uma coisa pior do que o antipetismo primário. É o pró-petismo inocente, que engole todas as presunções de Lula a seu próprio respeito. Isso inclui aceitar a tese segundo a qual o xamã da tribo petista veio ao mundo para desempenhar uma missão que, por ser divina, é indiscutível.

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Todos os líderes políticos cultivam a fantasia da excepcionalidade. Mas nunca antes na história desse país surgiu um personagem como Lula. Dotado de uma inédita ambição de personificar a moral, acha que sua noção de superioridade anistia os seus crimes. E avalia que seu destino evangelizador o dispensa de dar explicações.

Não é a hipocrisia de Lula que assusta. A hipocrisia pelo menos é uma estratégia compreensível para alguém que é réu em cinco inquéritos e convive com o risco real de ser preso. Melhor ir em cana fazendo pose de presidenciável perseguido do que amargando a fama de corrupto.

O que espanta é perceber que, em certos momentos, Lula parece acreditar de verdade que sua missão sublime no planeta lhe dá o direito de cometer atentados em série contra a inteligência alheia. Desprezadas a lógica e as evidências, sobram o cinismo e a licença dada por Lula a si mesmo para tratar os brasileiros como idiotas. Mesmo sabendo que já não encontra tanto material.

Triste final feliz

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Obama disse que Lula era o cara. A Lava-Jato provou que era mesmo. Cada um com sua lenda. E você com a conta. Mas não fique aí parado. Faça como a Meryl: chore

Na Pompeia, sapos e peixes combatem pernilongos

Enquanto diversos bairros da zona oeste de São Paulo estão em pânico catando dezenas, centenas de pernilongos toda noite desde o início do verão, uma pequena vizinhança na Pompeia está olhando todo o movimento só com curiosidade. Em vez de desesperados à espera do fumacê, os moradores se mobilizaram para garantir um controle dos mosquitos próprio, com a ajuda da natureza.

O cenário é a Praça Romero Silva – rebatizada há alguns anos como Praça da Nascente depois que os vizinhos encamparam a revitalização do espaço que reúne oito nascentes do riacho Água Preta. Ali, dois lagos criados para receber tanta água contam desde o final do ano passado com todo um ecossistema de animais e plantas aquáticas que estão controlando localmente as larvas do pernilongo comum e de Aedes aegypti, o transmissor de dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

“Sapinhos, peixinhos, insetos, camarões e caranguejos foram inseridos para recriar um micro-habitat em equilíbrio que trouxesse à natureza predadores para os mosquitos”, explica o biólogo Sandro Von Matter, que voluntariamente fez o trabalho de introdução das espécies.

Ele chegou à praça a convite da amiga Andrea Pesek, jardineira e ex-moradora da região e uma das ativistas do coletivo Ocupe e Abrace, que em 2013 iniciou o trabalho de recuperação do local.

“Isso aqui antes era um charco cheio de lixo, mosquitos, moscas, ratos. As nascentes tentavam correr, mas não conseguiam. Então fizemos os lagos. E logo colocamos peixes, para lidar com os mosquitos”, conta Andrea, de 51 anos.

A princípio foram colocados peixes ‘barrigudinhos’ (também conhecidos como guppy ou lebiste – Poecilia reticulata), mas logo outras pessoas foram trazendo outros peixes, alguns sapos cururu (Rhinella icterica) aportaram por lá, e as larvas dos mosquitos começaram a desaparecer. No final do ano passado, porém, os girinos atingiram uma quantidade preocupante e ela notou que o ambiente poderia estar em desequilíbrio.

Andrea então pediu a ajuda de Von Matter, pesquisador do Instituto Passarinhar e especialista em restauração de ecossistemas, que já trabalhava com projetos de recuperação da natureza nativa em praças urbanas.

O problema, explica ele, é que não basta devolver somente uma espécie à área, porque aí ela que pode acabar se proliferando demais. “É importante reconstruir os links entre as espécies que são nativas dos ambientes. O que eu busquei foi recriar o ambiente como se fosse natural”, afirma.

Armadilha. Assim, caranguejos e camarões de água doce, que comem o girino, foram colocados para impedir que a população de sapos explodisse. Os anfíbios adultos são importantes porque pegam o mosquito no ar, mas os girinos têm um papel interessante também dentro da água ao comer fungos e algas, deixando o ambiente mais estável, por exemplo, para insetos da família Notonectidae – aqueles que andam sobre a água –, que adoram larvas de mosquitos.

No total, há hoje cerca de 20 espécies de peixes, entre nativas e exóticas, pelo menos 10 de invertebrados e uma de anfíbio. A ideia, afirma Von Matter, é com o tempo trazer outros animais para a praça.

O trabalho de introdução dessas novas espécies começou a ser feito há cerca de dois meses. Von Matter visita o local a cada 15 dias para medir quanto tem de cada animal nos lagos e checar se não há nenhum novo desequilíbrio. Ele também conta as larvas de mosquito. “No começo ainda tinha, mas hoje posso dizer que o lago não tem mais nenhuma”, diz.

“A gente nem precisa de veneno”, concorda Andrea. “O bacana é que o lago funciona como uma espécie de armadilha para o mosquito. Ele vem para cá para botar ovos, mas aí não se prolifera, porque as larvas vão ser comidas”, explica.

No ambiente urbano, os pernilongos se acostumaram a botar ovos em praticamente qualquer lugar com água. “Mas se tem um ambiente aberto com água, como o lago na praça, eles até preferem. A vantagem é que se esse ecossistema estiver equilibrado, vai predar as larvas e elas não vão ter sucesso”, complementa Von Matter.

Os vizinhos imediatos da praça aprovaram a intervenção. “No verão sempre tem algum mosquito, claro, mas nada como isso aí que o pessoal dos outros bairros está reclamando no jornal. Pelo contrário, aqui a gente tem visto uma diminuição dos mosquitos. Acho que isso é graças ao lago e aos peixes e sapos”, conta a farmacêutica Arlene Saboia, de 65 anos, que mora em frente à Romero Silva há 8 anos. “Bom seria se todo mundo tivesse assim uma praça por perto.”

Expansão da ideia. O biólogo defende que esse tipo de iniciativa deveria ser feito em outras praças e parques da cidade para estender esse efeito em outros micro-cosmos. “Tem de ter o cuidado de trazer espécies que deveriam existir na região, fazer um levantamento científico antes de introduzir qualquer animal e garantir as interações entre as espécies. Se o poder público investisse não gastaria mais que R$ 1.000 por praça”, estima.

Von Matter afirma que seria possível alcançar esses benefícios também em ambientes secos. “Temos árvores ótimas que dão suporte para morcegos insetívoros. Um morcego pode comer 5 mil pernilongos numa noite. Mas muitas árvores antigas têm sido cortadas por risco de cair e uma nova demora para ter o mesmo resultado”, diz.

Ele lembra que na natureza uma árvore também nunca está “pelada”. Ela é coberta com outras espécies da flora, como orquídeas, bromélias, trepadeiras. “Isso tudo oferece recursos para a fauna que ajuda a controlar mosquitos. As pessoas falaram muito que a bromélia é um risco, mas dentro dela vivem organismos, como libélulas, que ajudam a controlar a larva dos pernilongos. Vamos recolonizar as árvores, deixá-las ‘selvagens’”, recomenda.

De volta ao curral onde jaz meu umbigo

O primeiro ponto de referência de minha vida foi a porteira do curral em frente à casa de meu avô materno, onde nasci. Afinal, foi lá que enterraram meu cordão umbilical. Desde muito cedo me contaram isso. Desde muito cedo me acostumei a tirar os paus que impediam a saída das reses e a entrada dos vaqueiros. Nunca tive um gibão, nunca uma perneira, nunca um bornal pra encher de farinha seca e pedaços de rapadura que amoleciam ao sol. O velho Chico Ferreira também não usava os trajes dos meeiros de confiança que apartavam seu gado vacum, levavam-no cedo para o pasto e, ao anoitecer, o traziam para ruminar no leito macio e quente de bosta de vaca. Ao que me lembre, meu avô, magro e míope, muito míope, usava camisas e calças de tecido rústico, sempre muito limpas, com cheiro de sabão de pedra, anis e goma de mandioca, usada para passá-las.

Eu, gorducho, meio inseguro sobre coxas grossas e pernas bambas, acordava muito cedo para tomar meu café. Carregava com zelo um copo de vidro grosso no qual jorrava o leite gordo da teta que o dono ordenhava com calma, paciência e um amor que exalava por todos os seus poros. Ali era o pai de minha mãe, sua primogênita, o sogro de meu pai, seu sobrinho, ao mesmo tempo seu compadre, pois tinha sido padrinho de meu irmão um ano mais novo.

O líquido branco e morno já era despejado sobre o café, que dona Quinou Moreira, minha avó, havia feito na primeira hora, antes de a barra alumiar de rubro e o sol surgir luminoso, forte, quente e ameaçador. Quando meus pais se mudaram para a cidade, um vilarejo à época, o leite chegava em baldes e era fervido no fogão de lenha por minha mãe, Mundica, que o passava de tigela em tigela até atingir minha temperatura favorita, um pouquinho mais quente do que o leite mugido.

Até seu Chico morrer, e eu tinha apenas 6 anos, contudo, meu desjejum era no curral, ao qual só tinha acesso depois de pisar o chão que ocultava os restos em decomposição de meu cordão umbilical. Isso era muito cedo e o dia se alongava, de forma preguiçosa e lenta, até que eu me juntava ao ancestral para a cerimônia mais esperada do dia. Sentávamo-nos os dois na calçada alta e esperávamos a chegada do rebanho. Ao som dos chocalhos, o sol desmaiava aos poucos, desmanchando-se em cor de sangue. Aquela longa conversa muda entre o velho e a criança se reproduz até hoje em minhas lembranças e em meus gostos.

Marcos Pê
Às vezes, muito raramente, o ancião esticava o braço torrado da soleira na direção do ocidente e me mostrava nuvens carregadas ao perder de vista no horizonte:

– Veja, esse menino. Está chovendo em Souza. Pode ser que amanhã chegue por aqui. Estamos precisados.

Quando o dia morria, ouvíamos a voz da mulher, vinda da cozinha:

– Traga o menino pra dentro, seu Chico. É hora da ceia.

O idoso (e ele morreria tão cedo) sacava, então, sua peixeira e a amolava numa pedra, depois rapava uma rapadura que seus empregados traziam da Baixa Verde, sua propriedade no Rio Grande do Norte, onde nascera parte de sua prole, inclusive minha mãe. Despejava a rapadura rapada no prato fundo, acrescentava coalhada e soro. E os dois – o ancestral e parte de sua descendência – comíamos solenemente, em silêncio. Gostaria muito de um dia me lembrar da voz daquele homem tão íntimo de mim naquele tempo, mas ele foi e com ele levou a lembrança de seu timbre amável. Cruzava as pernas, sentava-me no colo e, antes de pitar um cigarro de palha, depositava a criança quieta no banco de madeira ao lado de uma mesa longa, à qual somente nós dois tomávamos assento. Minha avó comia na cozinha, de pé, ao lado do fogão, depois que os pratos dos homens estavam lavados, postos para a água escorrer logo ali ao lado.

Dormíamos em redes, ele no quarto com a mulher, eu na sala, insone pelo tique-taque do pêndulo do relógio de parede que dava os minutos e tocava as horas, contadas em algarismos romanos fora do padrão: quatro era IIII, não IV, como no império dos Césares se grafava. De onde algum desavisado teria tirado essa ideia de subverter o IV com que Marco Aurélio fazia suas contas na Antiguidade longínqua?

Quando chovia, contudo, eu dormia bem, embalado pelo ronco pesado de minha avó, as bátegas açoitando as telhas da casa antiga e o ranger dos armadores submetidos ao peso do velho se balançando para conciliar o sono. Uma vez, já adolescente, morto o avô, a avó surda e implicante ainda viva por um bom tempo, escrevi um poema sobre esta cena doméstica. É o único de todos os meus poemas que sei de cor. E tem o fecho mais comum, menos interessante, mas que me emociona até me levar aos prantos. O poema intitula-se “Na casa avoenga”. E termina com um verso súbito e impaciente: “eta emoção!” Só que o ritmo dos versos não lembra as noites de chuva e paz ou de ronco e vigília. Mas, sim, sempre, a chegada da boiada de volta ao curral, onde apodrece o cordão que me ligava ao ventre materno antes do parto complicado de que vim ao mundo.

Não sei por que, vou morrer sem saber, talvez nasça de novo e ainda não aprenda por que, com mil e seiscentos diachos, como praguejava seu Chico Ferreira, me senti pessoalmente agredido pelos bondosos defensores dos animais, pelos burocratas do Estado do Ceará que, a poucos quilômetros do alpendre da casa onde minha mãe me pariu, proibiram a vaquejada. Um ministro do Supremo Tribunal Federal me fez a suprema desfeita de decepar um pedaço da infância, a lembrança afetuosa que tinha do pai de minha mãe, com os quais, ele e ela, compartilho feições bem parecidas. Senti-me um irmão distante de Aldo Rebelo quando ele escreveu, na mesma página onde rabisco linhas sobre política no Estadão velho de guerra e paz, um protesto assim lírico e manso como o meu contra a medida Segundo Aldo, esta matou o vaqueiro e o sertanejo, os heróis da saga da conquista dos ermos pelas patas das boiadas da Casa da Torre, dos Garcia d’Ávila, na Bahia.

Lendo o noticiário posterior sobre o pretexto do conflito em torno da vaquejada, que teria ajudado a derrubar Marcelo Calero do Ministério da Cultura, que era contra, e da penada com que o presidente Temer a recolocou no altar da cultura popular, aproximei-me de novo de meu avô materno. E me senti de novo o bebê que Levina, filho de seu Natan, pesou na balança de pesar algodão de meus ancestrais e depois banhou pela primeira vez com sabonete Vale Quanto Pesa. Moradora de meu bisavô coronel, ela era mulher de Eloi, vaqueiro tresmalhado que chegou de Monte Santo, Bahia, onde o beato Conselheiro perdeu a vida para adentrar a lenda.

Quem sabe essa lembrança com gosto de leite recém-ordenhado no sertão do Rio do Peixe me consiga o perdão dos defensores dos animais, embora talvez seja impossível convencê-los de que, por mais que se esforcem, nunca cuidarão de uma rês ou uma rã tão bem como um vaqueiro do sertão. Seja como for, este idoso com o umbigo amarrado ao curral do avô sempre lhes será grato por terem eles permitido voltar à infância amputada por causa do episódio sem nexo nem razão da proibição da vaquejada. Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, ê boi.

José  Nêumanne

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Uma frente contra a barbárie

A constrangedora mediocridade com que o governo respondeu aos massacres no Norte não me surpreendeu. Num artigo que escrevi aqui jogava minhas esperanças no debate entre as pessoas que reconhecem a urgência do tema. Já existem muitas ideias sobre o que fazer com o sistema carcerário em crise. Outras devem surgir. Mas o interesse social pode, pelo menos, levar o governo a uma ação mais solidária em todos os níveis. Estancar o jogo de empurra, essa irresistível tendência de lavar as mãos e jogar a culpa nos outros.

Por que Temer se interessaria pelo tema? Todos os outros presidentes se esquivaram. O fracasso do sistema carcerário atravessa a História da República. O livro de Myrian Sepúlveda dos Santos Os Porões da República conta, por exemplo, a primeira tentativa brasileira de criar uma casa correcional no Vale dos Dois Rios, na Ilha Grande. Ela trata apenas do período entre 1894 a 1945. Mas é uma história dramática. Experiências em Fernando de Noronha e em Clevelândia também são um roteiro do fracasso.

Paixão

De um ponto de vista político, o sistema carcerário é um abacaxi. Parece ser insolúvel e transita num espaço muito polarizado por defensores e críticos dos direitos humanos.

O mais confortável para Temer era empurrar com a barriga, como fizeram todos. E não percebeu que tudo isso poderia estourar na mão dele. Enfim, contou com a passagem do tempo, como se a História fosse mesmo escrita com empurrões de barriga.

Esta é a diferença que deveria mobilizar Temer: estourou nas suas mãos.

O massacre em Manaus foi o episódio mais bárbaro de que ouvi falar na história dos presídios brasileiros. A descrição do que aconteceu com os mortos, feita por pessoas da própria família, é cheia de detalhes tão macabros que diante deles a decapitação até parece um ato moderado.

O massacre me fez rever algumas ideias. Tinha tendência a superestimar o trabalho de inteligência. Percebi ali que a minha visão era parcial.

Tanto as autoridades do Amazonas como Temer sabiam da crise. Em Manaus já se conhecia o plano de atacar o PCC e ele foi revelado por vários relatórios da Polícia Federal, que realizou a Operação La Muralla e golpeou profundamente a Família do Norte.

Mesmo sem saber o que se passava em cada presídio, Temer foi informado sobre a guerra das organizações criminosas dentro e fora das cadeias. Seu homem de inteligência, o general Sérgio Etchegoyen, reuniu-se com parlamentares da Comissão de Segurança e relatou a possibilidade da guerra.

Dificilmente Etchegoyen deixaria de discutir o tema, em primeiro lugar, com o próprio Temer. Talvez não soubesse apenas, como sabiam as autoridades de lá, que a primeira batalha estava por acontecer em Manaus. É outro problema típico da burocracia. Ela anuncia grandes sistemas de inteligência integrados, chega a inaugurá-los, e nada acontece.

Em tempos de WhatsApp, era possível uma troca nacional convergindo para um pequeno grupo de análise que mapearia possíveis conflitos, orientaria transferências e outras medidas preventivas.

Temer está perdendo uma grande oportunidade de trilhar um caminho que outros recusaram. No auge da crise viajou para Portugal, onde foi ao enterro de Mário Soares. No fundo, está querendo dizer: não me envolvam muito com crise carcerária, estou aflito para passar esta fase de emergência, voltar a empurrar com a barriga, tratar dos temas que realmente me interessam.

Ele poderia ter-se reunido com parlamentares, mas não quis. Os deputados da chamada bancada da bala estavam interessados. Nessas circunstâncias, mesmo sem aceitar todas as suas premissas, os deputados desse grupo são interlocutores válidos. A segurança é sua bandeira e alguns são policiais experimentados.

Se fosse congressista, estaria discutindo com eles, pois o massacre de Manaus e a crise que ele explicita requerem um esforço nacional. Assim como é preciso superar a tendência de culpar uns aos outros, é preciso deixar para trás os tempos do nós contra eles.

Alguns temas, como esse dos presídios, são de tal gravidade que nos obrigam a reaprender a ideia de frente, do convívio entre posições distintas na busca de um denominador comum. Isso não significa abrir mão das próprias convicções. Apenas reconhecer que, num momento em que as organizações criminosas entram em guerra entre si, a sociedade unida tem uma excelente oportunidade para enfraquecê-las, dentro e fora das cadeias.

Pelo menos em tese, presidentes são pessoas que não deveriam recuar diante de um grande problema nacional. Eles têm uma chance maior de unificar a sociedade e apontar o caminho comum.

Mas, mesmo diante de uma grande ausência, como a de um líder nacional, a sociedade, depois do massacre de Manaus, despertou para a importância da reforma do sistema carcerário. Todos nós que trabalhamos nas ruas conhecemos a miríade de posições sobre o tema. A diversidade não impede soluções negociadas. O problema de segurança pública já é considerado pela maioria um dos mais graves do País.

Mesmo antes de Manaus já havia também uma compreensão crescente de que ruas e cadeias são relacionadas. A crise nos presídios transformou as eleições maranhenses numa grande ameaça de caos.

Nos conflitos no Amazonas, os presos concentraram sua energia em degolar e eviscerar seus inimigos. Ainda assim, fugiram 184. Com ferramentas para derrubar paredes, armas longas, oito túneis construídos, eles poderiam ter fugido em massa.

Com o surgimento do Estado Islâmico, também especialista em decapitar, ficou claro, pela série de atentados, que para eles somos todos iguais, não importa o que pensemos. Se somos iguais ante a barbárie, por que não nos igualamos na tarefa de nos defendermos dela?

A austeridade é progressista

Na política, ser progressista é pensar e agir olhando o futuro, sem medo do novo e querendo domá-lo para servir a propósitos de liberdade, igualdade e sustentabilidade. Nesse sentido, a política brasileira não foi progressista nas últimas décadas, porque se caracterizou pela irresponsabilidade do desperdício e não considerou as consequências no futuro.

Buscamos aumentar aceleradamente o consumo, sem perceber os limites ecológicos; gastamos desenfreadamente, sem perceber os limites fiscais. Em busca de votos e apoio para o imediato, as forças que deveriam ser progressistas caíram nas mesmas promessas dos reacionários, com o agravante da demagogia de prometer elevado consumo privado para todos.

A esquerda brasileira abandonou os filósofos socialistas e adotou a economia keynesiana; preferiu abandonar a luta pelo público prometendo que o Estado proveria a renda necessária para o consumo individual por transferências de renda para os consumidores e subsídios para os industriais. O resultado dessa aliança perdulária ficou visível na crise fiscal dos Estados, dos municípios e da União.


Foi a pedagogia da catástrofe que despertou nossos prefeitos recém-empossados para a defesa e imposição de medidas de austeridade. O Brasil e cada Estado e cidade estariam melhores se, décadas atrás, a política brasileira tivesse descoberto o valor moral e a eficiência fiscal da austeridade. E se, no lugar da bandeira da renda e do consumo, as esquerdas tivessem adotado bandeiras educacionais, com escola pública de igual qualidade para todos, e se, no lugar de os prefeitos se vangloriarem por gastar muito em educação, eles fossem prestigiados pelos bons resultados, se possível com gastos menores.

A austeridade sempre foi uma bandeira histórica da política e dos políticos de esquerda, antes de eles serem corrompidos pelo imediatismo, pelo corporativismo, pela renda e pelo consumismo. A literatura mostra que a vida pessoal de cada militante era austera, quase franciscana, e suas bandeiras tinham rigor nos gastos, pois os desperdícios eram caracterizados como pecados burgueses.

Para ser progressista, a austeridade tem de fazer escolhas que beneficiem a população e o país; ao invés de benefícios individuais, benefícios públicos; preocupar-se com a essencialidade (escolas ou estádios) e com a eficiência (sem corrupção ou desperdícios), dois fatos renegados nas últimas décadas; em vez de gastar mais, gastar melhor; no lugar de atender as vozes das corporações de eleitores de hoje, entender o que desejam as crianças para o Brasil onde elas viverão.

Essa é a austeridade progressista que a esquerda abandonou e que a pedagogia da catástrofe está forçando ser adotada por todos os partidos, a um alto custo; porque abandonada no passado, a austeridade agora é necessária mesmo provocando dificuldades. Teremos de enfrentá-la e, depois, praticá-la não como medida emergencial, mas como prática moral permanente: uma austeridade progressista, comprometida com o interesse público e com eficiência técnica.

Paisagem brasileira

Morro Branco (Ceará)´

Capim para mais um asno

Deputados, funcionários públicos e bicões continuam desenvolvendo campanha pela criação do ministério da Segurança Pública, a ser desmembrado do ministério da Justiça. Sustentam ser tão grave a crise no sistema penitenciário que apenas uma nova estrutura penal teria condições de combater as organizações ligadas ao crime organizado. Assim, estão propondo que a Secretaria Nacional de Segurança Pública, subordinada ao ministério da Justiça, ganhe vida própria, chefiada por um ministro.

Haja capim para alimentar esses asnos, porque querem reunir numa estrutura que já existe, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e o Departamento Penitenciário Nacional. O presidente Michel Temer ouviu as ponderações de que o custo desse novo órgão seria zero, mas não se comprometeu. Ficou de examinar para resposta posterior.


Além de dividir atribuições e deixar o ministério da Justiça sem pernas e braços, o novo ministério providenciaria ao novo ministro carro oficial, passagens aéreas gratuitas, residência de luxo e oficiais de gabinete sem nada para fazer. Uma bobagem, ou melhor, uma asneira. Do que o sistema penitenciário necessita é da aplicação da lei, começando pela identificação de quantos presos tem praticado crimes, dentro dos estabelecimentos penais, para a justiça condená-los a novas penas, isolando-os do convívio com o coletivo. Se possível confinando os criminosos no meio da floresta, no caso dos amazônidas.

Se o ministro da Justiça não corresponde ao que se espera dele, que seja substituído, jamais dividindo obrigações com um irmão gêmeo. Cercar o presidente da República com mais um asno significa perda de tempo e de recursos. Inclusive capim…

No mundo encantado de Lula

Mesmo aos que detestam Lula, e principalmente a esses, recomendo acompanhar o que ele diz sempre que se reúne com seus correligionários ou concede entrevistas a jornalistas amestrados. Porque é só entre eles que Lula, hoje, consegue circular. E é só a jornalistas simpáticos às suas teses que ele mais fala do que responde a perguntas, nenhuma delas embaraçosa.

Que não se perca por preciosa e exemplar a oportunidade não muito comum entre nós de se ver um líder político empenhado em desenhar um mundo completamente distante daquele que de fato existe. Um mundo de ficção capaz de justificar seus atos passados e de sustentar suas aspirações futuras. É nesse mundo que Lula tenta sobreviver enquanto espera o desfecho do seu destino na Justiça.

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Diante de sindicalistas que se juntaram, ontem, em Brasília, para ouvi-lo e concordar com tudo o que dissesse, Lula discorreu sobre a crise econômica que empurrou o país para o buraco, apagou as conquistas sociais dos últimos 13 anos e pouco, produziu mais de 12 milhões de desempregados e está muito longe de ser debelada. A crise não foi obra do desgoverno de Dilma, garantiu Lula.

Ela até pode ter errado quando promoveu desonerações à farta, mas o fez para preservar empregos. A crise é obra do governo golpista que derrubou Dilma, segundo Lula. Não importa que esse governo só tenha se estabelecido em definitivo há pouco mais de três meses. Ele veio para fazer o mal em contraponto aos dois governos de Lula e aos governos de Dilma que só fizeram o bem.

Quem impediu Dilma de adotar as medidas necessárias para impedir o agravamento da crise cujos primeiros sinais apareceram ainda no fim do segundo governo de Lula? Interessado em que seu período no poder ficasse para a história como “um período mágico”, Lula não foi. Tampouco Dilma ou o PT que lhe negou apoio. Foi Eduardo Cunha, afirma Lula, e as forças que ele controlava na Câmara.

Quanto à corrupção que como sócio, cúmplice ou beneficiário Lula viu alastrar-se por seus governos e atingir o pico nos governos de Dilma, nem uma palavra. Ou melhor, só uma palavra indireta em forma de pergunta. “Quem é que vai tirar o país da lama em que ele se encontra?” – provocou Lula. E a dócil e entusiasmada plateia respondeu em coro: “”Lula, Lula”.

Foi a deixa que ele queria arrematar sua peça de ficção: “Se cuidem porque, se eu voltar a ser candidato a presidente da República será para fazer muito mais do que nós fizemos. Tenho 71 aos e pareço um jovem de 30. Quem acha que vai me proibir de fazer as coisas, pode se preparar que eu vou voltar a andar este país para fazer as coisas importantes."

Lula é réu em cinco processos. Poderá virar réu em outros. Está próximo o dia em que será condenado pelo juiz Sérgio Moro. Talvez lhe seja concedido o benefício de recorrer da decisão de Moro em liberdade. A decisão será confirmada pela Justiça em segunda instância. Ele se tornará inelegível e começará a cumprir pena. Então se reconciliará com o mundo real. Ou não.

Melhor prender ou melhor soltar?

Certamente não há hoje na comunicação brasileira tema tão aflitivo quanto o da violência que se espraia por todas as áreas sociais, regiões, faixas etárias, todas as circunstâncias, e ainda agravadas por acontecimentos recentes, como os massacres na Região Norte do País. Que terá levado a isso? Que desfechos terá, além da proliferação de grupos violentos até dentro de presídios, como mostrou ainda há pouco (9 de janeiro), em Roraima, este jornal? Em 45 dias foram 145 fugas em prisões. A tal ponto que a Justiça ali esvaziou uma cadeia e mandou para casa 161 detentos do regime semiaberto no Centro de Progressão Penitenciária de Boa Vista – diretor do centro pediu à Justiça que fossem tomadas providências por causa da impossibilidade de garantir a segurança dos presos e dos agentes penitenciários.

Quase ao mesmo tempo se noticiava (cgu.gov.br) em relatório oficial que o governo federal expulsara 550 agentes públicos em 2016 por atos referentes a atividades contrárias à Lei 8.112/1990, entre eles corrupção, abandono de cargo, inassiduidade ou acumulação de postos e acúmulo com gerência de sociedade privada. Desde o início dos números acumulados pelo poder público, 6.209 servidores foram expulsos. O Estado do Amazonas é o que registrou maior média, com 11,6 servidores por mil, seguido de Mato Grosso, São Paulo e Maranhão. O Ministério das Cidades teve o índice mais elevado entre órgãos de sua natureza, com 22,3 expulsos para cada mil servidores.


A situação chega a pontos tais que provoca reações na aparência hilariantes, como aquela em que o juiz amazonense Leoney Figliuolo Harraquian determinou a soltura (migalhas.com.br, 9 de janeiro), “em caráter de urgência”, de sete homens presos por atraso no pagamento de pensão alimentícia: “Diante da crise no sistema carcerário em Manaus, a Defensoria Pública entendeu que os devedores estiveram expostos a perigo excessivo”, escreveu o juiz. Também no Amazonas a Secretaria de Segurança Pública transferiu 260 presos de uma cadeia pública em Manaus para outra em Itacoatiara . Boa parte deles já participara do recente motim em que 60 aprisionados foram mortos.

Reflexão da jornalista Eliana Cantanhêde em vários jornais: “Não há consenso sobre a necessidade de construir mais penitenciárias numa época de falta de recursos e de excesso de presídios caindo aos pedaços, carentes de manutenção. Ou até de presídios novos em folha, mas sem condições de entrar em operação”. Ela lembra ainda que em novembro foram inaugurados uma nova penitenciária e equipamentos a 118 quilômetros de Porto Alegre, com 84 vagas, mas só agora começa a receber os primeiros detentos – por falta de agentes, funcionários, verbas.

O tema provoca muitos debates. Por exemplo, no migalhas mesmo (9/1), algumas vozes sustentam que melhor do que construir novos presídios seria submeter os aprisionados à prestação de serviços às comunidades; as empreiteiras, condenadas a vultosas devoluções em dinheiro, poderiam ter suas penas substituídas por prestação de serviços na implantação de colônias como as da Austrália, da Nova Zelândia, das Guianas.

Por enquanto, o clima de violência prevalece. No último domingo, por exemplo, segundo relata o jornal O Popular, de Goiânia, familiares de presos que foram visitar parentes no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia dizem que “foram recebidos com spray de pimenta por policiais e relataram o medo de rebeliões no local”, onde se encontram quase 4 mil aprisionados.

Alguns desses visitantes chegam a dizer, em sigilo, que também ali o PCC se está multiplicando – cresceu 1.900% no Estado em três anos. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo (10/1) afirma que “o PCC se multiplica e cria filiais em Roraima; membros vão de 50 a 1.000 em três anos”, segundo documento da Secretaria de Justiça e Cidadania. Tudo foi escrito dois dias antes de uma chacina que deixou 23 mortos e é atribuída ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Que se fará, então? Mudar para a Suécia ou criar por aqui uma outra? E como se fará, antes disso, para mudar, sem guerras internas, todo o quadro da distribuição da renda no País? Tentar mudar todo o cenário para chegar, sem o uso da força ou de guerras internas, ao resultado sonhado? A utopia continua hoje no mesmo lugar – a de uma sociedade que tenha como objetivo maior e plano de ação imediato a caminhada rápida em direção a uma estrutura social e econômica mais justa.

“Construir cadeias não dá voto, me disse um político”, escreve o general Torres de Melo, ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo. “Tive medo durante quatro anos” (e se ele, comandante, teve, quem não o terá?). “Em 1998 fui para a reserva e, acompanhando o caminhar do meu país, sentia que um dia iam explodir as cadeias públicas. (...) Agora estão atrás dos culpados. Um político, em conversa comigo, disse a verdade: ‘O problema dos presídios é de solução difícil, pois construir cadeia não dá voto’ (...). Presídio é um problema social gravíssimo.”

Como as desigualdades sociais não mudam, continuamos longe de soluções. E com a agravante de termos cada vez mais grupos organizados de delinquentes. “O Carandiru era um paiol de pólvora. Lembro-me de uma reunião com o secretário de Segurança Pública, o juiz das execuções penais e eu presente. O juiz, com toda a razão, afirmava que não podia continuar como estava. Ia explodir (...). O Carandiru comportava 2.500 presos e estava com população acima de 7.000. O senhor juiz sugeriu retirar presos do Carandiru e colocar nas delegacias e deixar a Polícia Militar responsável pela prisão dos presos. As delegacias já estavam cheias. Terminou-se sem solução, pois aleguei que a Polícia Militar indo tomar conta das delegacias a sociedade ficava sem segurança”.

Era 1974. E tudo continua igual. Ou piorou.

'Now You're Gone'

Stan Getz, Michel Legrand e a Symphony Orchestra, 
dirigida por  Georges Arvanitas (1972)

Lula, de herói a mártir

“Se preparem, porque, se for necessário, eu serei candidato à Presidência”, proclamou Lula em palanque do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), em Salvador. Só faltou explicar o que significa “se for necessário”, embora pareça óbvio que ele se refere, como sempre fez, às próprias conveniências. De boné e camiseta vermelha, o ex-presidente abusou mais uma vez de seus dotes demagógicos e perseverou na prática antipedagógica de iludir o País com a afirmação dogmática de que o governo existe para gastar o que for necessário, bastando para tanto a vontade política de fazê-lo: “O único jeito desse país voltar a crescer é o Estado investir”, para o que “pode mexer no compulsório, pode aumentar a dívida”. E explicou: “A melhor forma de diminuir a dívida com proporção do PIB é fazer o PIB crescer”. Muito simples, portanto. Devia ter ensinado isso a Dilma Rousseff.

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Como os populistas de modo geral, os petistas no poder se revelaram muito bons em gastar, em administrar a abundância. Nos governos de Lula, ainda sob os efeitos de uma política econômica racional herdada do Plano Real e da valorização das matérias-primas no mercado mundial, o lulopetismo chegou ao auge do sucesso no poder, faturando popularidade em cima de programas assistencialistas. Os petistas já não tiveram a mesma sorte quando, com Dilma na Presidência, enfrentaram o desafio de administrar a escassez. Até porque, no embalo dos anos gloriosos de Lula, a pupila do ex-presidente metera na cabeça que tinha chegado a hora de adaptar a política econômica a suas próprias convicções estatistas e implantar uma “nova matriz econômica”. Gastou o que não podia, pedalou, levou a economia à beira da falência e teve o mandato cassado.

Agora, premido pela Lava Jato e visivelmente temeroso do pronunciamento da Justiça, Lula comporta-se como se pudesse fazer o Brasil se esquecer disso tudo e levar o PT de novo a “ganhar as eleições nesse país”. Pior: quer fazer os brasileiros acreditarem que para resolver os problemas que hoje enfrentam basta que ele próprio reassuma o governo para fazer exatamente tudo igual ao que fez antes, como se o Brasil de hoje fosse o mesmo de 13 anos atrás, antes de ser iludido e depois destruído pelo PT.

A estratégica política de Lula – a respeito da qual o PT não assumiu ainda uma posição oficial porque continua lambendo as feridas do impeachment e do desastre das urnas de outubro – está claramente colocada em termos simples, com forte apelo emocional. Resume-se a dois slogans: “Fora Temer” e “Diretas já”. Mas como realizar diretas já se, na improbabilidade de Temer perder o mandato, a Constituição determina que a substituição seja feita por eleição indireta pelo Congresso Nacional?

É aí que Lula “inova”. Lançou em Salvador a ideia de eleições diretas para a Presidência da República em outubro próximo, daqui a 10 meses. Não se deu ao trabalho de explicar como seria possível viabilizar essa proposta absolutamente sem pé nem cabeça. Mas esse detalhe não preocupa Lula, desde que os “movimentos sociais” sob sua influência disponham de palavra de ordem para gritar nas ruas e nos palanques.

Essa seria a perspectiva político-eleitoral de Lula, não fosse ele quem é. Ocorre que o chefão do PT, apesar de ser o “homem mais honesto do Brasil”, é um “perseguido” da Justiça, envolvido em cinco investigações sobre corrupção, três delas no âmbito da Lava Jato. Condenado, tornar-se-á “ficha suja”, inelegível para qualquer cargo público. Essa possibilidade é cada dia mais plausível, a julgar pelo andar da carruagem, isto é, pelas delações dos antigos amigos do peito do ex-presidente.

Lula é um político pragmático. Na verdade, não se ilude com a “campanha eleitoral” que lançou em Salvador na garupa do MST. O objetivo principal de toda essa encenação é reforçar a imagem de um “herói popular” que almeja trocar eventual condenação à prisão em Curitiba pela condição de “mártir” politicamente asilado em algum aconchegante recanto bolivariano.

Demonização da pobreza

Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico.
By Pawel Kuczynski--  The poor, a ticking bomb.   I love it when art actually makes me think and go "oooh".:
Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza
Ken Loach. diretor de "Eu, Daniel Blake"

País em que diaristas ganham mais que professores amarra a corda no pescoço

No Brasil, ensinou o escritor Otto Lara Resende, lei é feito vacina. Há as que pegam e as que não pegam. A lei que criou em 2008 o piso salarial dos professores do ensino básico, por exemplo, ainda não pegou. Reajustado em 7,64% nesta quinta-feira, o piso passou a valer R$ 2.298,80. É uma mixaria. Mas 55,1% das prefeituras brasileiras pagam aos professores em início de carreira vencimentos inferiores ao piso. Entre os Estados, suspeita-se que pelo menos nove ainda afrontam a lei.

Numa residência elegante de Brasília, uma boa diarista cobra em torno de R$ 150 por jornada. Dando duro de segunda a sexta, amealha R$ 3 mil por mês —fora o dinheiro da condução e as refeições feitas no trabalho. Se molhar a camisa aos sábados, eleva a remuneração para R$ 3,6 mil. A esse ponto chegou a República: uma diarista de primeiras letras pode ganhar no Brasil salários maiores que os contracheques dos professores que dão aula aos seus filhos nas escolas públicas.

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Instada a comentar o fato de que apenas 2.533 municípios brasileiros (44,9% do total) declaram cumprir a lei do piso, a educadora Maria Helena Guimarães de Castro, secretária-executiva do Ministério da Educação, resignou-se: ''Precisamos melhorar o salário dos professores, valorizar os professores e, ao mesmo tempo, não há recursos suficientes para dar um reajuste acima da inflação. O reajuste agora é acima da inflação, cumprindo a lei, mas sabemos e entendemos as dificuldades dos Estados e municípios.''

Há um fundo do MEC destinado a socorrer prefeituras e Estados que condenam seus professores ao fim do mês perpétuo. Para 2017, o tônico será de R$ 1,29 bilhão. Em vez de liberar a grana no final do ano, como costumava suceder, o ministro Mendonça Filho (Educação) optou por fazer repasses mensais. Ainda assim, não há em Brasília quem alimente a ilusão de que a lei será 100% respeitada. Ao contrário. Há nos subterrâneos uma articulação para aprovar no Congresso um rebaixamento do pé-direito do teto.

Agora responda rápido: pode atingir o sucesso uma nação que paga a um professor iniciante remuneração inferior à de uma diarista? Não há o menor risco de dar certo! O Brasil parece condenado a ser um eterno país do futuro.

Imagem do Dia

Concorrente ao prémio da National Geographic como a foto de 2016

Ora, as vítimas

Dia desses li que entrou em vigor, lá na Irlanda, uma nova legislação destinada a amparar as vítimas de crimes. Para começar, elas serão comunicadas acerca do andamento das investigações e respectivos procedimentos judiciais. Serão, ademais, imediatamente avisadas nos casos de sentença, prisão e soltura do acusado. Caso seja necessário, intérpretes e tradutores serão disponibilizados, a fim de que as vítimas ou suas famílias tenham perfeita compreensão sobre tudo que está acontecendo.

Caso as autoridades entendam por não abrir processo, ou concluam pelo arquivamento de uma investigação, as vítimas serão informadas sobre os motivos, e terão direito a requerer um reexame desta decisão.

Na hipótese de estarem sujeitas a intimidações ou retaliações, as vítimas e suas famílias poderão requerer assistência e proteção estatal. 

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Nas audiências judiciais, as vítimas poderão produzir provas, inclusive através de filmagens de testemunhos ou elementos outros. Admite-se até a utilização da Internet para a apresentação de depoimentos, que poderão ser produzidos por intermediários, caso a testemunha tenha receio de se manifestar. Se decidirem apresentar o depoimento de algum menor, terão a garantia de que o acusado será retirado da sala e não terá nenhum contato pessoal com este.

Na hipótese de o crime ter sido de natureza sexual ou envolver violência de gênero, a vítima tem o direito de requerer que seja atendida, ao buscar a assistência estatal, por funcionários do mesmo sexo.

Em cada uma destas ocasiões ela tem o direito de se fazer acompanhar por uma pessoa de sua confiança, incluindo seu representante legal - ou seja, uma vítima de crime jamais estará sozinha perante autoridade alguma, seja ela administrativa, policial ou judicial.

Sobre esta nova legislação, assim pronunciou-se Frances Fitzgerald, Ministra da Justiça daquele país: "Ela reforçará os direitos das vítimas de crimes e suas famílias, cujas necesidades devem estar no centro do sistema judicial. Ela assegurará que os direitos a informação, orientação e assistência sejam atendidos de forma efetiva e eficiente".

Enquanto este belo gesto de recuperação da dignidade das vítimas de crimes e suas famílias acontece lá na distante Irlanda, aqui neste tão cristão e solidário Brasil as vítimas... Ora, as vítimas...

Pedro Valls Feu Rosa

Em meio à crise dos presídios, presos de 'elite' têm direitos assegurados

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Em meio à crise dos presídios, empresários e políticos detidos por crimes do colarinho branco, como corrupção e lavagem, não têm muito do que reclamar. Se estar encarcerado não é desejo de consumo de ninguém, ao menos eles vivem uma situação bem diferente de mais de 600 mil pessoas. As celas não estão superlotadas, eles podem dormir em camas ou colchões, existe até água quente para alguns réus da Operação Lava-Jato e foram feitas reformas em parte das dependências da Papuda, onde alguns observadores estrangeiros vêm periodicamente avaliar as condições de alguns deles.

Um dos motivos para a diferenciação é que a legislação brasileira exige celas diferentes para presidiários com curso superior, acusados de crimes sem relação com violência grave ou que não representem ameaça. Os réus por colarinho branco que personificam as grandes operações policiais contra a corrupção costumam se encaixar nesse perfil.

Para o professor de direito penal e processual penal Daniel Gerber, não existe regalia alguma para eles. “Eles respeitam em parte o que está na Lei de Execução Penal, conseguindo preservar a vida e a dignidade”, afirma ele, advogado de vários investigados na Operação Lava-Jato. Um policial acrescenta que os encarcerados são tratados tanto com “firmeza” quanto com “dignidade”, de acordo com a legislação, que exige uma cela limpa, arejada, com luz solar e um mínimo de seis metros quadrados.