sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Antologia da gafe política traz Temer sem brilho até para falar besteira

Quando, no intervalo de poucos dias, o presidente da República troca o nome da moeda do país depois de sofrer um AVC (Acidente Vocabular Constrangedor) e um ministro do STF diz que não precisa viajar para “combinar coisa espúria”, podemos ser tentados a declarar aberta a temporada da gafe.

Seria um erro. Por mais que a era Trump prometa uma apoteose de disparates que obrigue a cultura ocidental a redefinir o próprio conceito de inconveniência política, a temporada da gafe é sempre. Vem de épocas imemoriais e nunca deu refresco, ainda que, na minha infância, esse tipo de desastre verbal cômico fosse chamado principalmente de “rata”.

(O que estará havendo com essa boa e peluda gíria brasileira nascida nos primeiros anos do século passado? Por que “gafe”, termo importado do francês “gaffe”, se impôs tão inapelavelmente sobre “rata”? Um caçador de estrangeirismos como o português Vasco Botelho de Amaral ficaria triste de ver que ninguém deu bola para sua recomendação de substituir “gafe” por “cinca”, “estenderete” ou “fífia”, que lástima!)


Mancada, fora, deslize, lapso – qualquer que seja seu nome, o fato é que a gafe assume formas variadas. O fiasco pode ser fruto de um mero descuido, tropeço irrefletido, como no caso dos “cruzeiros” de Michel Temer. Também pode resultar do oposto, de um excesso de cuidado e reflexão, como se viu na escolha pusilânime, pelo mesmo Temer, do substantivo “acidente” para designar o massacre na prisão amazonense. Tudo muito ilustrativo, embora passe longe de merecer destaque na história da rata.

Às vezes ela é uma troca simples de palavras. Errar é humano, alegam os réus cheios de razão, mas sempre resta a vergonha de um ato falho que revela preconceito ou ignorância. O presidente americano Ronald Reagan ergueu em um jantar solene no Palácio do Itamaraty, em 1982, um brinde “ao povo boliviano”. Dilma Rousseff afirmou em maio do ano passado que “índios no Brasil morriam por falta de assistência técnica”.

E o que dizer da chanceler alemã Angela Merkel trocando um François por outro para se referir ao presidente francês Hollande, que estava bem ao seu lado, como Mitterrand? Ou de José Serra garantindo que vivemos nos “Estados Unidos do Brasil”?

Fazer confusão com palavras é chato, mas há deslizes mais comprometedores. Às vezes o falante diz exatamente o que pensa, mas a repercussão negativa da frase o obriga a tentar explicá-la, quando não a se desculpar. O tropeço aqui é político. Lula declarou que a mulher “tem que ser submissa [ao homem] porque gosta dele” e não por um prato de comida. Fernando Henrique Cardoso cunhou uma de suas tiradas inesquecíveis ao criticar os “vagabundos” que se aposentam antes dos 50 anos de idade.

Existem mancadas para todos os gostos. Meu tipo preferido é aquele em que o constrangimento decorre não de ideias polêmicas ou de trocas de palavras, mas do completo embananamento verbal do falante.

Com a palavra, titãs indiscutíveis do gênero. George W. Bush: “Médicos demais estão saindo do mercado. Muitos obstetras e ginecologistas de todo o país não estão podendo praticar seu amor com as mulheres”. Dilma Rousseff: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”. Menos, claro, os humoristas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Brasil só tem conserto por inteiro

Não nos deu nem 24 horas de ilusão este 2017!

Passados 25 anos do Carandiru, eis-nos “evoluídos” para o massacre anárquico e randômico entre iguais. Não há mais autoridade estabelecida, nem dentro da hierarquia desse Estado que engole a chantagem corporativa sem piar, nem nos territórios livres dos presídios “de segurança máxima”, de que ele acaba trancado para fora, onde tudo eventualmente se afoga em sangue.

São as duas faces de uma mesma moeda. O crime organizado é a objetividade ultrarradicalizada. Os caminhos entre decisão e execução são diretos e retos como a trajetória das balas e o fio dos facões. O Estado brasileiro, refém das corporações do funcionalismo, é a última expressão de um jogo de sombras multicentenário. Nada ali é o que parece, cada passo de cada processo é um Everest a ser vencido.

Um não é páreo para o outro.

O terreno sempre foi fértil. Menos de 2% dos assassinos têm sido julgados e condenados no País, dos 60 mil homicídios por ano. O crime máximo, o crime irreversível, a desgraça irremediável repete-se 164 vezes por dia, 365 vezes por ano, mas para os seus autores há sempre remédio. Eles estarão de volta às ruas em cinco ou seis anos, em média; 70% voltarão para o cárcere depois de matar e desgraçar irremediavelmente outra vez, mas o Estado que não consegue habilitar as crianças que se lhe entregam virgens seguirá impávido, tomando como exclusiva a “vocação reabilitadora” dos tugúrios aos quais recolhe suas bestas-feras.

“Prendemos muito e mal” ou soltamos muito e mal? Enquanto debatemos essa momentosa questão, os 98% de assassinos impunes tratam de se impor ao nosso favelão continental pelo marketing da brutalidade. No Brasil Real, que não sai no jornal, não se tem ou se deixa de ter razão. Está-se vivo ou se está morto.

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Nesse meio tempo, o mundo foi e nós ficamos. O PT coseu o Estado à faca e deu a mão às Farc. “La revolución” saltou do Caribe para as selvas da Colômbia, rolou Solimões abaixo, subiu os morros de fuzil na mão e agora jaz, aos pedaços, nas caçambas do IML. O poder da droga é filho da droga do poder. Do pacotinho do morro para as festas dos “famosos”, o nosso Estado imunodeficiente à corrupção, blindado contra a deseleição e aparelhado por um funcionalismo eternamente “estável”, único fiscal de si mesmo, ensejou o salto para a condição de “hub” global de distribuição de “commodities” alcaloides e fornecimento de armas para o Oriente Médio. E se a família está na droga, se não há certo nem errado, se não é clara a linha que separa o direito à diferença da dissolução, não há limite. O tamanho da brutalidade é o tamanho do poder que se disputa. Narcos mexicanos, Estado Islâmico... são estes os tempos...

Aqui fora é difícil definir quem está preso, quem está solto, mas salvação mesmo só pelo silêncio, sob as asas da facção ou... pelo concurso público. Todo mundo sabe, ninguém diz. Nós normalizamos a anormalidade. Esse nosso modo tão renitentemente decidido de esquartejar a “narrativa” do nossa drama é mais sinistro que os fatos. Tudo parece sempre estar desligado de tudo. No Congresso segue imperturbável o comércio com que se disputa a prerrogativa de presidir a venda de indulgência plenária às agruras da competição mundial e da insegurança econômica, que mantém todos os que não alcançam uma no inferno. Os doutos juristas das nossas cinco Justiças de recursos sem fim cobram o “devido processo legal” especificamente desenhado para não ter fim, todo ele “transitado em julgado”, para tirar o crime das ruas. Os advogados “progressistas” clamam contra a desumanidade da superlotação das prisões, mas criminalizam (sim, cri-mi-na-li-zam!!!) a advocacia “pro bono” e só se movem por dinheiro. As unidades “da Federação”, criadas nem pela História, nem pela economia, mas pela cissiparidade do agente patológico que nos parasita a política, afastam de si os cálices sucessivamente esvaziados e balem por mais. Não há R$ 10 bilhões para deter o horror. Mas entre a “impopularidade” da guerrinha televisionada da porta da Assembleia Legislativa do Rio em defesa dos 70% de aumento real arrancados à miséria do Brasil e os banhos de sangue nas prisões dos Estados falidos não há um minuto de hesitação. O poder sabe quem tem a força. Com 100 presos despedaçados e 12 milhões de empregos ainda insepultos, lá vão 53% de aumento “por produtividade” para os estranguladores de empresas da Receita Federal e da “Justiça do Trabalho”, a guarda pretoriana do “custo Brasil”. E com escárnio, batendo o pau na mesa: “Mesmo para os aposentados, mesmo para os pensionistas”!

Já é muito tarde e pode ser tarde demais. O Brasil só tem conserto por inteiro. Nada entrará nos eixos a menos que tudo entre nos eixos. O Estado não conseguirá entrar nas penitenciárias dominadas pelo crime se não conseguir entrar nos enclaves corporativos que mantém indevassáveis. Não há como instilar-lhe funcionalidade sem impor-lhe a lei do merecimento. Não há como impor-lhe a lei do merecimento sem o fim da estabilidade perpétua.

Não se restabelecerá a segurança pública, dentro e fora dos presídios, antes que se restabeleça a segurança econômica. E não se restabelecerá a segurança econômica antes que se estabeleça a igualdade perante a lei.

O Brasil não se redimirá substituindo pessoas dentro do “sistema”. É preciso colocar o “sistema” inteiro sob nova direção. Inverter os vetores de todas as forças que atuam sobre ele. Reconstruir a partir do zero a cadeia de cumplicidades que o põem em movimento.

A lei não imperará sobre os que hoje isenta a menos que deixe de ser escrita e executada exclusivamente por eles. A chave comutadora está na conquista dos direitos de referendo das leis dos Legislativos e “recall” (“cassação”, “retomada”) dos mandatos eletivos por iniciativa popular a partir da instância municipal e dela para cima.

Só a dependência inverte a cadeia das lealdades e põe todos os interesses apontados para a mesma direção. O resto é poesia.

Imagem do Dia

Esse protofascismo que defende a morte dos presos no Brasil

“É vergonhoso viver num país que não honra sequer os seus condenados”. A afirmação é dura, pois equivaleria a viver num país ou numa sociedade de mentalidade fascista com relação ao grave e dramático problema dos presídios e sua violência. A afirmação foi feita pelo maior antropólogo vivo brasileiro, Roberto DaMatta, na sua última coluna em O Globo.

As matanças de presos no início deste ano, perpetradas nas penitenciárias de Manaus e Roraima, com um saldo de 91 detentos mortos, decapitados e esquartejados pelas diferentes facções rivais que nelas convivem, revelou, de fato, o subconsciente fascista de boa parte da população, em todos os níveis sociais, simbolizado nesta frase: “Bandido bom é bandido morto”.

Chegaram a expressá-la publicamente tanto políticos como simples cidadãos, que não só não parecem ter se comovido com a tragédia humana dos mortos e das famílias, mas também chegaram a justificá-la e a defendê-la. Às vezes, até a aplaudi-la.

Escutei até pessoas de grande sensibilidade cultural e humana, justificarem que em certos locais a policial, quando prende um assaltante ou estuprador, o execute sem mais escrúpulos

O governador do Amazonas, José Melo, chegou a dizer que entre os presos sacrificados brutalmente “não havia santos”. E o então secretário nacional da Juventude do Governo Temer, Bruno Júlio, já afastado do cargo, afirmou que “tinham que fazer uma chacina por semana”.


No que diz respeito às pessoas comuns, basta atualmente tomar um ônibus ou entrar num bar para escutar as queixas sobre a presidenta do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, que pediu indenização às famílias dos presos mortos por não terem sido protegidos pelo Estado. As redes sociais estão repletas de indignas aprovações das chacinas.

“E quem é que indeniza as famílias das vítimas perpetradas por esses presos quando estavam em liberdade?”, gritava um senhor, de classe média, tentando contagiar com sua indignação os outros passageiros do ônibus, conseguindo apenas o beneplácito dos presentes.

Talvez a chave desse substrato fascista que DaMatta condena, dessa atitude de deixar de se preocupar com o outro e de chegar até o ódio contra os presos, com os quais ninguém se preocupa, nem que sejam tratados pior que animais, esteja nesse excesso de violência com que o brasileiro, sobretudo nas grandes cidades, é obrigado a viver todos os dias.

Um só exemplo: os 36.000 assaltos no Rio durante outubro passado. “As pessoas saem todo dia para trabalhar pensando que podem ser roubadas ou até assassinadas”, dizia-me uma professora do ensino médio de São Paulo que já foi assaltada três vezes.

Tenho escutado pessoas, até mesmo de grande sensibilidade cultural e humana, justificando o fato de que, em certos lugares, a polícia, ao prender um assaltante ou estuprador, execute-o sem maiores escrúpulos e sem se preocupar em entregá-lo à Justiça, “que o acabará soltando”.

Nunca vou me esquecer da declaração de José Eduardo Cardozo quando era ministro da Justiça de Dilma Rousseff. Confessou que ele, pessoalmente, preferiria “perder a vida a passar anos num presídio do Brasil”. E ele era, naquele momento, o responsável pelos mais de meio milhão de presos que vivem em presídios superlotados e perigosos. A pergunta era óbvia: “O que ele fazia para mudar a situação?” Vemos hoje a resposta na situação infernal que os reclusos vivem, uma situação que, ao que parece, nem as autoridades imaginavam.

Moro há quase 20 anos neste país. Sei que a situação de suas cadeiras é comparável à de muitos outros países do mundo. Mas é certo que, quando o assunto é índice de violência, com 60.000 homicídios por ano, o Brasil ganha de qualquer um. E os brasileiros sofrem isso na própria carne. E o Estado, governo após governo, é mudo ou ineficiente.

Há um traço do Brasil que DaMatta não aborda, mas que talvez explique também muitas coisas. Comprovei isso quando cheguei aqui, vindo da Europa. Não entendia por que me exigiam um monte de documentos de todo tipo para fazer qualquer coisa. Ficava surpreso com a função dos cartórios, com sua imponente burocracia.

Foi minha mulher, brasileira, que me explicou: “Você precisa entender que a ideia que o Estado tem do cidadão comum é que é um bandido em potencial. Você é que tem que demonstrar que não é.”

Ao contrário de outros países mais maduros democraticamente, o Estado aqui exige que você prove que não é um criminoso. Onde está então a presunção de inocência? A de que você é uma pessoa decente, que não engana, não rouba nem mente até que se demonstre o contrário?

O Estado está tão acostumado a ver os cidadãos como possíveis transgressores que ele mesmo se transforma, tantas vezes, em um elemento de violência oficial. E se para ele todos somos possíveis ladrões ou assassinos, o que pensará da população carcerária? Para que tantos escrúpulos com essas pessoas? Que apodreçam aí. E se puderem se matar entre si, será menos trabalho para o Estado, que não precisará abrir longos e dispendiosos processos penais para eles.

E se muitos desses detentos, ainda não julgados, forem inocentes? Para os políticos e governos, essas são apenas considerações de almas piedosas. Eles, que sabem como pensa a maioria da sociedade sobre os direitos humanos dos presos, sabem que sua defesa “não dá votos”, como me confessava candidamente um deputado bem conhecido.

No entanto, do ponto de vista humano, nada justifica essa atitude de cunho fascista que a sociedade respira e que explica esse desprezo e essa vontade de vingança contra os presos.

A filósofa e escritora Márcia Tiburi, autora, entre muitas outras obras, de Como Conversar com Um Fascista (Record), analisou muito bem a sombra que todos temos dentro de nós. Essa sensação de que “sou alguém se transformo o outro em ninguém”. Parodiando o “cogito ergo sum” do filósofo francês René Descartes, poderíamos dizer: “humilho, logo existo”. Isso nos leva a nos considerarmos vítimas, quando, no fundo, somos todos carrascos em potencial.

Se o fascismo pressupõe o desinteresse pelo outro e o poder para solapar os direitos humanos desse outro, é fácil chegar a lhe negar até a existência e se sentir livre para humilhá-lo.

Se o outro é o espelho em que nos olhamos, não é difícil projetarmos nele, conscientes ou não, essa sombra que habita até os melhores.

A diferença está entre considerar isso normal ou lutar para nos desfazermos do fantasma, e aceitar que, talvez, não sejamos potencialmente melhores do que aqueles que desprezamos, tememos e preferiríamos aniquilar.

O ódio na política está tornando mais difícil a convivência social

Houve tempo, aqui, em nosso país, que os adversários políticos não passavam de simples adversários. Não raras vezes, eram amigos, vizinhos ou colegas de universidade. Alguns, famosos, eram até compadres. Disputavam o mesmo colégio eleitoral, derramavam-se em discursos sectários, faziam oposição ferrenha, mas deixavam a porta aberta ao bom diálogo. É claro que havia exceções. Em alguns municípios, sobretudo nos cafundós de Minas, onde mandava o velho coronel, havia disputa acirrada. Acontecia violência verbal e, às vezes, física, mas isso era exceção. Os casos são conhecidos de nossa literatura política.

A ditadura civil-militar tornou a convivência entre as pessoas mais difícil. Contraditoriamente, porém, foi da democratização para cá que as relações pioraram. Desculpem-me meus amigos petistas, mas parte do PT, sobretudo nos últimos 13 anos e no pico de poder, contribuiu para essa deterioração. A frase “nós contra eles” foi muito usada por seus mais importantes dirigentes. O ex-presidente Lula, em inúmeros momentos, teve a insensatez de pronunciá-la. Isso só poderia provocar a intolerância, além de despertar o ressentimento e o ódio – os dois ingredientes que alimentam os radicais da esquerda e da direita.

Hoje, porém, a coisa anda mais braba ainda. O bate-papo descontraído sobre política, tão comum em passado recente, até mesmo entre os profissionais de imprensa, está com os dias contados. A análise política, então, em qualquer meio de comunicação social, além de suas naturais dificuldades, se tornou um risco. As críticas estão dando lugar às agressões. Ninguém escuta. Cada um sabe mais do que o outro ou se acha mais esperto do que outro. O bate-papo descontraído, ou a simples troca de ideias, se não contar com ajuda de mediador, corre o risco de terminar em ofensas mútuas, quando não aos sopapos. Nem em família se fica livre dessa violência. Briga-se por dá cá aquela palha.

Contribuiu, também, para a degeneração das relações entre políticos a difusão das novas mídias digitais proporcionadas pela internet. São ferramentas que servem ao bem, mas também podem servir ao mal. Mas a falta de educação, origem do respeito, que grassa entre todas as classes, sem distinção (os professores são suas maiores vítimas), talvez seja a principal causadora desse ambiente desagradável. Essa falta de urbanidade se tornou ainda mais evidente, pois qualquer cidadão se acha no direito de expor, por meio de seu celular, e sem se preocupar com o uso inadequado das palavras, o que realmente pensa acerca de qualquer assunto. A privacidade acabou. Foi para as cucuias.

A violência extrapolou, e, com a eleição recente de Donald Trump (uma experiência que o mundo logo conhecerá), surgiram os que, como se não bastassem nossos problemas internos, resolveram adotar posições radicais tanto de um quanto de outro lado (rs, rs, rs).

Na Câmara Federal, na disputa por sua presidência (vide charge do cartunista Chico), a arma é a tesoura. A briga não é em defesa da instituição, nem do povo, mas do próprio ego. Ninguém se lembra da Lava Jato, das últimas chacinas ou de nossas masmorras, mas tão somente do que poderá obter amanhã em proveito próprio.

O Brasil é um país violento. Armados até os dentes, estão em campo “coxinhas” e “petralhas”. A cordialidade do homem brasileiro, na verdade, nunca existiu, nem mesmo para Sérgio Buarque de Holanda. Seu “homem cordial”, que confunde o público com o privado e tira proveito de tudo, nada tem de polido ou bondoso.

Um clássico com classe

Colapso da verdade

A verdade naufragou junto com a cultura. Tragédias de nosso tempo. Tempos novos virão e ambas serão recuperadas, mas isso não acontecerá no nosso tempo. Até pelo fato de que, como disse a rainha de Copas para Alice, na continuação de Alice no País das Maravilhas, “neste lugar precisamos correr ao máximo para permanecermos no mesmo lugar”.

Muitos andam ansiosos com a falta de qualidade das informações que circulam por aí, turbinadas pelo uso maciço da internet. É sintoma de uma espécie de “apagão” a partir do excesso de informações desqualificadas. Quanto a isso, a questão mais evidente no momento é que houve, de forma deliberada e comprovada, manipulação de informações destinadas a influir nos resultados eleitorais norte-americanos do ano passado.

Imaginem o vexame? A nação mais poderosa tecnologicamente se deixou ser manipulada “midiaticamente”. A ponto de se considerar que tais manipulações afetaram o resultado das eleições no país. Em consequência, instalou-se um debate sobre como controlar o fluxo de informações falsas, em especial no período eleitoral. Não será suficiente.

As redes sociais propiciaram a circulação de notícias de uma forma nunca antes possível. E, com ela, a possibilidade de se expressar ódio e amor e ser validado ou contestado por seus seguidores. Esse processo, porém, não é isento. É possível comprar seguidores e “likes” e promover matérias para que elas ganhem notoriedade. A fama, no limite, pode ser comprada e turbinada. Perguntem aos russos.

Com o passar do tempo, como disse Marcel Proust, tudo que é mentira vira verdade. Só que, na atualidade, o tempo passa rápido demais. E quando vamos checar se era mentira o que virou verdade, seus efeitos já se tornaram irreversíveis.


O escritor Contardo Calligaris aponta que, no âmbito das redes sociais, devemos lutar pela existência de limites claros entre a liberdade de expressão e a ocorrência de ameaças. Concordo. O problema é que, muitas vezes, não sabemos reconhecer a verdade antes mesmo de ela se tornar ou não uma ameaça.

O Facebook anunciou sete iniciativas para tratar do tema. Entre elas, o desenvolvimento de sistemas mais eficientes de detecção de notícias falsas, estabelecendo-se mecanismos de checagem, a fim de tornar mais fácil a denúncia de sua existência. É um começo.

Apela-se, inclusive, para a criação do que alguns chamam de programas de alfabetização midiática. Outros demandam a criação de selos de garantia de autenticidade de notícia. Ambas as iniciativas são bem-vindas e devem ser implementadas. Mas são apenas paliativas.

Infelizmente, as iniciativas, de modo geral, são fadadas ao fracasso. Em especial em países como o Brasil. Se o caso é grave nos Estados Unidos, imaginem aqui. A raiz do problema está no ambiente cultural em que vivemos. Nos Estados Unidos, apesar de graves problemas, a educação ainda é muito melhor do que no Brasil.

Aqui, muitas vezes, não há a mínima preocupação com a produção de conteúdos de qualidade nem com a criação de uma atitude mais reflexiva sobre como navegar no mundo do noticiário intenso. Na verdade, não sabemos como lidar com o problema. E podemos cair em soluções antigas e autoritárias, por exemplo, ao optar pelo bloqueio de sites ou ao promover conteúdos ideologicamente contaminados.

Ao passar pelo aeroporto internacional de Porto Seguro, na Bahia, reparei que não existia mais uma antiga banca de jornal e uma livraria que estavam à disposição dos passageiros. Pensei comigo: será essa a medida do valor da cultura em nosso país? Uma banca de revistas e jornais não pode ser viável em um aeroporto que recebe voos diários de São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Salvador, além de voos internacionais na alta temporada?

Ainda nessa linha, uns amigos nostálgicos levantaram dois fatos incontestáveis. Primeiro: a maior parte do repertório do programa The Voice Brasil é de músicas antigas. Somente aqui e ali aparece uma música nova e quase sempre de qualidade sofrível. Segundo: é risível a comparação entre a lista das músicas mais ouvidas em 2016 e em 1983. A lista de 1983 continha extravios naturais do gosto popular, mas incluía doses relevantes de Lulu Santos, Fagner, Tim Maia, Police, Maria Bethânia, Billy Preston, entre outros. Já a de 2016…

O nosso déficit educacional e cultural é o obstáculo mais grave, entre todos os outros, para lidarmos com o admirável mundo novo. Isso porque pulamos do analfabetismo para a internet direto, sem construir uma base cultural sólida. Como criar uma população alfabetizada midiaticamente, que saiba discernir a verdade da mentira a tempo de impedir que ocorram manipulações? Não será fácil.

E sobra lama

Onde esta a Ética?...:

Fala-se tanto em crises - institucional, econômica, social, de segurança etc - que afogam o país. O que arrasta tudo para a mesma lama é apenas a falta de ética
Luís Roberto Barroso,, ministro do STF

Três poderes harmônicos demais e pouco independentes

Não causa surpresa a carona oferecida ao ministro Gilmar Mendes pelo presidente Michel Temer. A escolha dos integrantes do Supremo Tribunal Federal obedece a pressupostos que atendem diretamente os interesses e conveniências do Planalto e do Congresso. O presidente da República decide quem deseja nomear, o Senado finge que sabatina, o escolhido é aprovado e desta forma está criado o vínculo entre os Três Poderes, absolutamente sólido, eu fica ainda mais robustecido porque o Congresso aprova os reajustes dos três Poderes e o Supremo garante a “legalidade” dos penduricalhos que elevam ainda mais a remuneração da cúpula do serviço público, criando acréscimos ao teto constitucional.

Podemos aceitar que os salários nababescos que já recebem, ainda sejam acrescidos de penduricalhos os mais variáveis e debochados contra o povo? Evidente que o Brasil submergiu nesta crise sem precedentes porque faltou dinheiro para cobrir as despesas públicas, que incluem a remuneração abusiva desses privilegiados, beneficiando também aposentados e pensionistas. Afinal, por que deputado e senador podem se aposentar com oito anos de mandato?

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O avião presidencial é uma tentação a que a ética e a moralidade sucumbem de imediato, e tanto faz quem aproveita esta carona, neste caso o ministro do STF Gilmar Mendes, que deveria levar em conta o célebre ditado que, à mulher de César não basta ser honesta, mas tem de parecer honesta!

Nessas alturas, mais um chamuscado aqui, outro lá, a Alta Corte mais se preocupa em gozar as delícias dos extremos do que ser um tribunal jurídico, pois afinal das contas todos são seres humanos, e uma parcela desta gente sucumbe facilmente às tentações que o poder ardilosamente apresenta pelo caminho. Quem tem caráter e personalidade se desvia dessas armadilhas, como voar na aeronave do primeiro mandatário nacional!

Enquanto continuar como apêndice do Executivo e assessor do Congresso em questões jurídicas, portanto, a serviço de poderes apodrecidos, corruptos e desonestos, o Supremo envereda perigosamente para ser classificado da mesma forma!

Ou a presidente, ministra Carmen Lúcia, se dá conta desta questão, que subjuga a essência deste tribunal superior ou, então, a Constituição Federal foi indiscutivelmente rasgada, com os ministros simplesmente julgando as ações que lhes chegam às mãos conforme pedidos do Planalto e do Legislativo, interesses e conveniências pessoais.

Trump 7 x 1 Imprensa

O que Trump fez é bem distinto de ignorar as questões espinhosas ou responder coisa diferente do que lhe foi indagado – como políticos fazem desde sempre. O negociante eleito para ser o governante mais poderoso do mundo agora escolhe quem pode e quem não pode fazer perguntas. Ataca publicamente e busca emascular quem publica histórias que não lhe interessam. Não demora, a prática acabará imitada por aprendizes tupiniquins.

A CNN publicara que a inteligência norte-americana havia enviado tanto a Trump quanto a Barack Obama relatório confidencial informando que espiões russos estavam espalhando terem coletado material comprometedor sobre o presidente eleito dos EUA, tanto de cunho pessoal quanto financeiro. Sem conseguir confirmá-las, a CNN não detalhou essas alegações. Mas o BuzzFeed detalhou.
trump cartoon 4:

O que a CNN e outros veículos que tiveram acesso ao material, como o New York Times, não publicaram por não terem conseguido verificar com fontes independentes foi que a FSB, herdeira da KGB soviética, engendrou um “kompromat” para chantagear Trump: de ofertas de negócios bons demais para serem legais até a organização de orgias durante as visitas do gringo a Moscou.

Depois que o BuzzFeed colocou a história no ar sem checar, o zelo jornalístico da CNN e do NYTimes foi esquecido. Habilmente, Trump e equipe fizeram parecer que todos haviam tratado a notícia com a mesma pressa e falta de cuidado. A narrativa principal deixou de ser o envolvimento de Trump com os russos e passou a ser a leviandade da imprensa e a reação agressiva do presidente eleito. Ele virou o jogo. De títere, passou a machão.


Foi mais um gol nos 7 a 1 que o futuro presidente tem aplicado na imprensa norte-americana (e, por tabela, na do resto do mundo) desde a campanha eleitoral. Produzindo um factoide por dia e tuitando um disparate por hora, Trump tem conseguido manter o controle da pauta: sempre determina qual a história de maior destaque sobre ele próprio naquele dia, naquela hora.

A imprensa tem culpa. Depois que o repórter da CNN foi censurado duplamente pelo presidente eleito, outros jornalistas não fizeram a pergunta que o colega não conseguira fazer. Se fizeram, perguntaram coisas diferentes ao mesmo tempo, permitindo a Trump escolher a que mais lhe interessava.

Assim, a primeira entrevista coletiva de Trump como virtual presidente terminou sem que ele respondesse à questão mais importante: se é fato que, como dizem os relatórios dos arapongas, integrantes de sua campanha eleitoral mantiveram contato com espiões russos que possuíam informações hackeadas de computadores tanto dos democratas quanto dos republicanos.

Tampouco Trump explicou como seu mero afastamento dos próprios negócios evitará conflitos de interesse enquanto é presidente, ou como pretende anular e substituir o “obamacare” em apenas um dia. A primeira exposição de Trump presidente à chuva não foi dourada, mas ele terminou a entrevista mais seco do que começou.

Por outro lado, se metade do relatório sobre as arapongagens russas for verdade, o Kremlin deve estar brindando – junto com um coro de “spin doctors” mundo afora. Alguns gritando: “Saúde!”.

Paisagem brasileira

Paisagem com rio (1950), Funchal Garcia

Se arrependimento matasse...

Chegará o dia, se é que esse dia ainda não chegou, que o presidente Michel Temer baterá contrito com a mão no peito e rezará o “minha culpa, minha máxima culpa” por ter sonegado aos brasileiros informações vitais sobre as dimensões da herança maldita deixada pelos dois governos da ex-presidente Dilma Rousseff.

Com extraordinária timidez, quase como se pedisse desculpas por fazê-lo, ele, ontem, ao chamar de “pavorosa matança” o que antes classificara de “acidente pavoroso” ao referir-se ao assassinato bárbaro de presos em Manaus, forneceu uma pálida ideia do descaso dos governos passados com a trágica situação do sistema carcerário brasileiro.


No país com o quarto maior número de presos do mundo, só atrás dos Estados Unidos, China e Rússia, gastou-se pouco, quase nada, na construção de novas penitenciárias ou na reforma das existentes. Em 2014, por exemplo, o Orçamento da União reservou para o Fundo Penitenciário Nacional R$ 493,9 milhões. Gastou-se R$ 51,2 milhões.

No ano seguinte, a dotação para o fundo foi de R$ 542,3 milhões, mas apenas foram pagas despesas da ordem de R$ 45,8 milhões. No ano passado, a partir de maio com Temer na presidência interina da República, a dotação atualizada do fundo foi de R$ 2,6 bilhões, e a despesa liquidada alcançou R$ 1,1 bilhão.

- São condições desumanas em que os presos se acham. Há presídios em que cabem 600 pessoas com 1.600 pessoas, não é? — declarou Temer na abertura de reunião ministerial no Palácio do Planalto sobre retomada de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ele promete construir mais cinco presídios até o final do próximo ano.

Por si só, a construção de mais presídios de pouco adiantará para conter o crescimento da criminalidade. Mas é bom saber que temos hoje um presidente que se diz preocupado com o problema e disposto a enfrentá-lo. Os anteriores também se disseram preocupados, mas não foram muito além disso. Erguer presídios não atrai votos.

O excessivamente cauteloso Temer apostou que poderia aplacar a fúria do PT com a deposição de Dilma não fazendo alarde em torno da herança que ela lhe legou. Herança que por erro ou omissão ele ajudou a construir na condição de vice-presidente. O passado de oposição intransigente do PT não recomendava tal aposta.

A elite bem informada do país conhece os números do desastre cavado por Dilma nos últimos anos com o apoio de Lula e do PT, mas o povão, não. O silêncio de Temer a respeito disso autoriza muita gente a pensar que boa parte da culpa pela crise que o país atravessa deve-se na verdade à ausência de um governo melhor.

Não é fato que o governo Temer seja tão ruim ou pior do que foram os dois governos de Dilma. Longe disso. Mas corre o risco de parecer.

Felicidade fugaz

As ilustrações satíricas de Steve Cutts retratam a dura realidade sobre a sociedade atual, em crítica ao capitalismo e o consumismo desenfreado. Confira!:
Steve Cutts
Nossa cultura nos diz: ‘Beba isso e você será feliz! Compre isso e você será feliz!”. O que é triste não vende. Nosso mundo está construído sobre consumidores e uma ideia falsa de felicidade
Tom Ford, diretor do thriller "Animais Noturnos"

"Cria cuervos'

Quando as imagens do massacre de Manaus me caíram diante dos olhos, lembrei-me do ditado espanhol - "Cria cuervos y te sacarán los ojos". Naquelas cenas reiteravam o quanto é pueril supor que há perversidades inacessíveis ao homem. Não há. Feras não podem se humanizar, mas o contrário não é verdadeiro. E quando acontece, a ferocidade se potencializa pela aplicação da inteligência ao mal.

Muitas vezes, algo que parece nascido da boa intenção, tornando quase impossível ser percebido de modo diverso, acaba prestando extraordinário serviço ao mal e a seus objetivos. Pondere o que aconteceu com a sociedade brasileira, em avassaladora proporção, nas últimas décadas. Para tal fim, seja seu próprio instituto de pesquisa. Examine suas experiências de vida e as informações que lhe chegam de variadas fontes e modos. Tenho certeza de que acabará concluindo que a nação passou da quota na quantidade de maus cidadãos, de patifes, mentirosos, velhacos, corruptos, traiçoeiros e dirigentes de igual perfil, cujas decisões põem a ética e o bem de cabeça para baixo.


O que se constata nessa observação ligeira, mas suficiente, não é causa de si mesma em circuito fechado, mas consequência de uma atitude pedagógica aparentemente generosa, que concede liberdade sem responsabilidade, direitos sem deveres, prêmios sem méritos, amor sem exigências, educação sem restrição. E tolera a falta sem punição e o crime sem pena.

Temos recebido doses maciças disso nas famílias, nas salas de aula, nas relações sociais, no trabalho e na política. Então, prezado leitor destas poucas linhas, se lhe ocorre, ao lê-las, a ideia de que os cuervos a que me refiro estão enjaulados nas penitenciárias do Brasil, crocitando e executando sentenças de morte, ali mesmo ou nas nossas ruas e estradas, você se enganou. É ao seu criatório que me refiro. Ele está por toda parte, está aí na volta, combatendo a polícia, rindo da lei, declarando a morte da instituição familiar, chamando bandido de herói e herói de bandido, fazendo novelas de TV, ridicularizando a virtude, aplaudindo o vício, enxotando a religião, desautorizando quem educa ou usando a Educação para fazer política e relativizando a vida (aconteceu o que, em Manaus e Roraima, que não ocorra diariamente, com tesouras e pinças, em salas de aborto?).

Há cuervos que não se apresentam como tal.

Não estou afirmando que as pautas da violência se esgotem nestas que menciono. Estou dizendo, isto sim, que o crime e a violência avançam, inclusive, por motivação política e ideológica. E estou reafirmando, mais uma vez, que consciências ou se formam ou se deformam. Há no Brasil um evidente empenho em criar seres humanos com consciência de corvos.

Percival Puggina

Não foi acidente, presidente

"Manaus não tá assim porque o crime ainda não se organizou como no Rio. Mas a tendência é ficar desse jeito. Porque se os caras não se ligarem no que tá acontecendo aqui em Manaus hoje, em dez anos vai ficar pior ou igual do que no Rio."

Em 2007, há exatos dez anos, eu e o João Áureo Lins, então estudantes da PUC-Rio, fizemos um documentário no sistema penitenciário de Manaus, no Amazonas. Foram quatro meses visitando a Cadeia Pública Raimundo Vidal e o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, ouvindo histórias como a de cima.

Inicialmente, tínhamos a pretensão de gerar uma reflexão a respeito de uma vida sem liberdades, mas nosso trabalho ganhou novos significados a partir de uma rebelião, que seria considerada à época a mais sangrenta da história do Amazonas, com duas mortes.



Estava tudo ali, nas entrevistas: a situação do sistema penitenciário se deteriorava a cada dia. A pedra fundamental da recente barbárie no Compaj fora lançada pelos próprios detentos que nos contavam a organização do crime no Amazonas e sua sofisticação para superar as facções de Rio de Janeiro e São Paulo. Alguns falavam do aumento do crime organizado em Manaus com brilho nos olhos.

Ao mesmo tempo, num edifício construído em meio a uma densa mata nativa, o Compaj permitia quase uma experiência na selva amazônica, pelos mil pássaros que se ouvem na floresta ao redor. Ali dentro, testemunhei detentos produzindo artesanato para sustentar suas famílias, aulas de Inglês, de música, prática de esportes e, pasmem, a organização de um mutirão semanal para doar toda a dispensa do almoço de sexta-feira para instituições de caridade.

E por falar em almoço, foi fazendo uma refeição com os detentos que conseguimos estabelecer uma relação de confiança mútua para que eles entendessem os objetivos do documentário e colaborassem.

Arroz, feijão, paio, linguiça e para cimentar toda a xepa não poderia faltar a farofa, iguaria que sintetiza na mesa uma cena bem brasileira. Nesse almoço, eu ouvi pela primeira vez os detentos usarem a expressão “lá no Brasil...”, para se referir aos acontecimentos do Sul e Sudeste.

Nessas conversas, era proibido o uso de palavrões, de acordo com uma placa afixada na parede do refeitório, ao lado de belas pinturas da selva amazônica. Naquele país chamado Compaj, não falar palavrão me parecia um símbolo da tentativa de manutenção da paz no cárcere.

Não houve sequer um dia em que ingressamos na cadeia sem ouvir o coro geral: “Clareou!” Esta era a senha para que tudo o que não pudesse aparecer no documentário fosse escondido nas celas, incluindo armas e drogas. Mas quando se deu a rebelião do dia 24 de Setembro de 2007, o sistema penitenciário de Manaus finalmente se revelou. O representante dos presos no Compaj, que sempre nos recebeu de forma cortês, monossilábica e quase gentil, seria acusado de chefiar o tráfico de drogas no Amazonas dali de dentro e, por consequência, foi enviado para o presídio federal de segurança máxima, no Mato Grosso do Sul, onde estava Fernandinho Beira-Mar.

Além disto, o diretor-geral do Compaj, vejam só, também ficou foragido e acabou sendo preso dias depois. Contra ele pesavam as acusações de associação com os criminosos, exploração sexual dentro do presídio e facilitação de saídas noturnas para que presos cometessem crimes fora do presídio.

Lembro do padre Guillermo Cadorna, gestor intelectual e conselheiro espiritual de nossas incursões nos presídios manauaras. Foi um sopro de esperança que trouxe este missionário colombiano até a Amazônia para se engajar nesta guerra civil que, mesmo nós, brasileiros, não temos clareza se é contra o bandido, a polícia ou as drogas.

Ainda prevalece no Brasil a crença do "bandido bom é bandido morto", e o governo parece acreditar que a solução do sistema prisional são mais presídios. O que vi no Compaj e na cadeia pública foi a falta total de políticas públicas para os presos.

Talvez Nelson Mandela estivesse certo quando disse que "ninguém conhece verdadeiramente uma nação até que tenha estado dentro de suas prisões". Moro na França há alguns anos e, talvez pela distância, percebo que o Compaj diz muito sobre o Brasil. Já dizia há dez anos, mas ninguém queria ouvir.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Aprisionados

Somos prisioneiros de nossos países, línguas, comidas, dinheiro, leis, ambições e tudo o mais que nos é explicita ou implicitamente infligido pelo teatro da sociedade onde não escolhemos nascer e morrer. Essas imposições, porém, não nos eximem de liberdade, honra e virtude.

Como não criar gradações em todos os lugares se o sistema é muito mais vertical do que horizontal? Como, neste Brasil no qual estamos aprisionados, não intermediar um emprego para um afilhado incapaz de roubar tostões mas com capacidade para embolsar bilhões?

Somos destemidos, mas não recusamos o pedido de um amigo. E, embora socialistas, celebramos missas de sétimo dia, pois recusamos o materialismo. Sem hipocrisia, como mostra a obra de Machado de Assis, não haveria Brasileiros.
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Jean-Baptiste Debret
Prisões são territórios especiais, como acentuaram Gustave de Beaumont e Alexis de Tocqueville, em 1833, quando as estudaram na América. No sistema quacker de manter os presos em isolamento absoluto, eles viram as raízes do despotismo do qual resulta uma vida pública controlada. Como a América então já era percebida como avançada, resolvia o delito num sistema fundado na liberdade com igualdade, sem religião oficial e aristocracia.

O prisioneiro deveria ser curado, regenerado, castigado ou punido? Ou simplesmente estigmatizado e vingado, como conta Alexandre Dumas, em 1844, em “O Conde de Monte Cristo”?

Uma justiça redistributiva e impessoal exige esquecimento. Criminosos devem ser punidos pelo Estado, e não por quem eles ofenderam, o que configuraria vingança e castigo.

Uma aquarela de Debret, reproduzida no belo livro de Julio Bandeira e Pedro Corrêa do Lago, mostra um fileira de oito escravos acorrentados, carregando alimentos para prisioneiros. Corria a década de 1820, e um soldado fardado e, quem sabe, comandado pelo mítico Major Vidigal, cerra a fila desses infelizes, que obtinham sustento alimentício graças à Santa Casa de Misericórdia. Seguiam para a prisão da Prainha, hoje Praça Mauá. Dois levam na cabeça farinha de mandioca; um outro par, um caldeirão com uma sopa de restos de animais; e, se olharmos com cuidado, descobrimos que alguns têm na cintura peixes secos. O governo, eis de onde procedemos, não tinha a obrigação de alimentar prisioneiros porque o regime não era de punição, mas de castigo e vingança.
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Deste ano santo(?) de 2017, vemos estourar no Brasil rebeliões em presídios federais no Amazonas e em Roraima. Não sou jornalista e não vou repetir o que se sabe. Vários presos foram desmembrados e alguns decapitados. Lembro que a decapitação era uma forma de castigo usada para traidores, infiéis e aristocratas. Ela foi usada nas civilizadas Escócia, Inglaterra, Alemanha e Itália e, com a grande Revolução Francesa, foi ressuscitada pelo médico Joseph-Ignace Guillotin como uma maneira de matar rápida e democraticamente, subtraindo dos nobres a morte por uma gloriosa decapitação. Resultado de um abandono inominável dos nossos presídios, essas sangrentas lutas faccionais espantariam o próprio demônio, esse grão senhor da maior prisão do cosmos: o inferno, no qual, como vislumbrou Dante, os castigos mais tenebrosos são infligidos numa ordem impecável. Os nossos jornais, porém, já assinalam os elos óbvios entre políticos e empresas no que poderia resultar numa “Operação Aspirador” e prender o que sobra — com o devido respeito a uma minoria honesta — desses espectros chamados “políticos”. Estamos por alguns minutos indignados, mas, como revela um avisado Eça de Queiroz, o incesto do Maia, a pusilanimidade do Basílio e o crime do padre Amaro foram devidamente esquecidos.

A infâmia do nosso caso é ser obrigado a descobrir o que sabemos. Que os bandidos estão dentro e fora das prisões e que em todas há regalias e privilégios. Na grande prisão chamada Parlamento, que os idiotas ainda ordenam em direita (o Dragão da Maldade) e esquerda (Deus), as facções se atacam com a mesma bestialidade. Nos presídios, onde tudo também é traficado, eles reproduzem o mesmo sistema e são mais claros nas suas intenções e, quem sabe, mais honestos nos seus propósitos, fazem o que os nossos “democratas” ainda titubeiam: caçam cabeças. É vergonhoso viver num país que não honra sequer os seus condenados.

PS: Se você, leitor, tem um colocação fora do Brasil para um medíocre cronista-antropologista pré-moderno de 80 anos, autor de uma dezenas de livros pouco lidos e muito roubados e criticados, faça o favor de informar

Roberto DaMatta

Chocadeira de mudanças

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As grandes mudanças na história nunca vieram dos pobres, mas da frustração das pessoas com grandes expectativas que nunca se cumpriram
Zygmunt Bauman

Passageiros da utopia

Em um de seus últimos artigos, o poeta Ferreira Gullar pregou a necessidade de se recuperar a utopia de uma sociedade mais fraterna e menos desigual, sonho de gerações e gerações do século XX.

Esse trem da utopia acaba de perder um de seus últimos passageiros, Mário Soares.

Morreu o “pai do Portugal democrático”, mas não o seu ideário. Este continua atual. Afinal, sabemos que, sem utopia a humanidade perde o sentido.

O sonho dele foi o mesmo de Olof Palme, Willy Brandt, François Mitterrand, Felipe González, passageiros do comboio da socialdemocracia em países da Europa pós Segunda Guerra Mundial.

A grande consigna de Mario Soares foi “socialismo em liberdade”. Com ela, não só se diferenciou do modelo do “socialismo real” da URSS e seus satélites, mas também da visão liberal do Estado mínimo e do endeusamento do mercado.

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A socialdemocracia moderna, da qual foi um dos expoentes, constituiu-se como terceira via, pautada na combinação de um Estado social com a economia de mercado.

Os países nórdicos são até hoje a experiência mais bem-sucedida. É difícil defini-los como capitalistas ou socialistas. Talvez um mix dos dois.

A ideia de uma Europa una, à qual Portugal aderiu, trouxe enormes benefícios para os países que a ela se agregaram.

A prosperidade portuguesa é produto dessa integração, da qual Mário Soares foi fiador. O Portugal salazarista era um país agrário, exportador do trabalho braçal, de índices de analfabetismo alarmantes – 25% ainda na década de 70. Hoje é um país moderno.

Mas poderia ser a Albânia do mundo ocidental, caso o pai da democracia portuguesa tivesse perdido o embate para Álvaro Cunhal, líder comunista de linha ortodoxa e pró Moscou de Brejnev.

A pátria de Fernando Pessoa viveu dias dramáticos em 1975 quando um golpe de orientação comunista por um triz não se concretizou. Soares conclamou as massas a ir às ruas em defesa da democracia e estreitou mais ainda os laços com Olof Palme, um dos maiores líderes da socialdemocracia escandinava.

Nas últimas décadas do século 20, este ideário tinha vencido o embate ideológico que vinha desde a ruptura entre a Internacional Socialista e a Terceira Internacional.

A ideia do socialismo democrático, ou do “socialismo em liberdade” ganhou força tanto com a perestroika de Mikhail Gorbachev, como com o compromisso histórico de Enrico Berlinguer. Na essência, o eurocomunismo do PCI e do PCE se aproximava, e muito, das ideias de Mário Soares, Olof Palmer, Willy Brandt, François Mitterrand e Felipe González.

Na virada do século, a democracia se afirmava como o grande valor da humanidade, mas o Estado do bem-estar entrava em refluxo, como uma das consequências da globalização, que, se trouxe enormes ganhos, não concretizou o sonho do poeta de uma sociedade menos desigual. Ao contrário, levou à desindustrialização em países centrais, a uma maior concentração da riqueza, aprofundando desigualdades.

A recente onda nacional populista, com seus traços de xenofobia e racismo, é uma resposta transversa aos efeitos perversos da globalização.

E por ser transversa é uma não resposta.

O nacional-populismo não é a última estação do trem da história. O desafio dos tempos atuais é construir uma alternativa a ele. E, seguramente não é a negação da globalização, mas sua elevação a um novo patamar.

O sonho dos passageiros da utopia permanece atual.

A ascensão do nacional-populismo aponta para a necessidade de uma socialdemocracia comprometida até a medula com a distribuição da riqueza, nos marcos de uma economia de mercado e de ordenamento democrático.

Em um mundo no qual somente uma parte da população encontrará lugar no mercado tradicional de trabalho, será imperativo criar um novo sistema de bem-estar social baseado em distribuição mais justa da riqueza.

O trem dos passageiros da utopia segue em direção a Estação Finlândia, primeiro país a experimentar um programa de renda mínima universal.

Paisagem brasileira

Ponte sobre o Rio Prata, Francisco Morais 

O ministério que faz falta

Em parte, a falta de notícias relevantes que costuma marcar o país entre o final de cada ano e o carnaval do ano seguinte foi mitigada pelos massacres de presos no Amazonas e em Roraima, que produziram uma centena vítimas, muitas delas esquartejadas.

Nem por isso as férias e a redução do trabalho nos três poderes da República (Legislativo, Executivo e Judiciário) passarão sem que pelo menos brotasse uma ou mais “flores do recesso”. Ou seja: fatos que não passam de falsos fatos. E que logo serão esquecidos.

A “flor” do atual recesso brotou no rastro das discussões por ora acessas, mas que em breve esfriarão, em torno da crise do sistema penitenciário brasileiro. A crise é um fato real, concreto, para o qual não existe uma só solução, mas um conjunto complexo delas.

Como não parece haver consenso na sociedade sobre a melhor forma de enfrentá-la, políticos em busca de algum protagonismo ressuscitaram a velha e inócua ideia de propor a criação de mais um ministério, esse só para cuidar da segurança pública.

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Um grupo de deputados, hoje, se reunirá com o presidente Michel Temer para tratar do assunto. Alguns deles saíram, ontem, animados com o que ouviram a respeito do colega Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, substituto de Temer nas suas ausências.

O DEM de Maia sempre defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública – ou de qualquer outro nome que se lhe dê. Maia é candidato a se reeleger presidente da Câmara. Por coerência e à caça de votos, ele não poderia ter repelido a proposta.

Mas ela não tem a menor chance de vingar. Não vingou quando foi sugerida ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, que preferiu criar a Secretaria Nacional de Segurança Pública subordinada ao Ministério da Justiça. Não vingou nos governos Lula e Dilma.

Os presidentes não querem ligação direta com os problemas da segurança pública. Como a Constituição diz que ela compete aos governos estaduais, ajudados pelo federal, os presidentes se valem disso para manter distância prudente deles. Bastam os demais problemas que os acossam.

Os ministros da Justiça nunca quiseram renunciar a um naco do seu poder. O que seria deles se a segurança pública virasse um ministério específico? De resto, como se falar em hora de crise e de corte radical de gastos na invenção de mais um cabide de empregos?

O compositor Chico Buarque sugeriu a Lula, ainda no seu primeiro governo, a criação de um ministério barato, baratinho, a ser ocupado por uma única pessoa, seu titular, e no máximo uma secretária. Vá lá, também um motorista para o carro oficial.

Seria o Ministério do Vai dar Merda. Caberia ao ministro do Vai Dar Merda opinar sobre questões de qualquer natureza capazes de provocar sérios embaraços para o governo. Noutras palavras: capazes de dar merda. Do ministro se exigiria, apenas, inteligência e bom senso.

Lula desprezou a sugestão de Chico, reiterada a Dilma que também a desprezou. Temer nada teria a perder se a acatasse, haja vista o que já houve de merda desnecessária em tão poucos meses de governo. Até poderia ficar bem com Chico e com parte dos que o acusam de golpista.

Essa herança é a maldita

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Nossos filhos não terão tempo para debater a existência das mudanças climáticas. Estarão ocupados lidando com seus efeitos
Barack Obama no último discurso

Guerra nos presídios é caso de defesa nacional

O Estado brasileiro está sendo posto contra a parede: ou intervém e ocupa o sistema presidiário ou abre mão de controle e poder sobre parte do território do País. Não se trata mais de um caso de segurança pública, mas de defesa nacional.

Documentos e conversas interceptadas pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público (MP) revelam a facilidade com que uma das 27 facções criminosas em guerra nos presídios, o Primeiro Comando da Capital (PCC), vem conseguindo celulares e ordenando crimes dentro de presídios em Roraima desde 2014. Então, a Operação Weak Link, da PF, devassou-a no Estado. Além disso, exige a saída de rivais da cadeia – o que teria motivado a fuga de pelo menos 145 detentos. Investigadores do combate ao crime organizado acompanham o crescimento do PCC em Roraima há pelo menos cinco anos. Isso é pouco?

A notícia, publicada no Estadão, revela que a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, tem toda a razão em pedir ajuda do Poder Executivo para que se faça um censo carcerário urgente e indispensável, capaz de contar quantos presos há de fato. Ela foi avisada pelo presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Paulo Rabello de Castro, de que os dados que têm sido citados não são confiáveis. De fato, urge revelar quem está preso e por quê. Em seguida, reassumir o comando sobre as celas. Para tanto, antes de construir novos presídios e bloquear celulares nas cadeias, será necessário recriar um órgão de inteligência decente, inexistente desde o desmonte do Serviço Nacional de Informações (SNI) promovido por Collor. E com agentes infiltrados nos presídios. Sem isso não dá para saber o que na realidade acontece nas prisões nem como são planejadas e executadas tais carnificinas.


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Dominadas pelo crime, as penitenciárias estão fora da lei. O preso precisa voltar a ser tratado como indivíduo, e não como membro de um bando ou quadrilha em luta dentro do presídio. Se a lei não for imposta, o Estado perderá essa guerra.

Infelizmente, o voo de baratas tontas dos mandachuvas do Executivo sobre a barbárie reinante nas penitenciárias Anísio Jobim, Monte Cristo, Pedrinhas e muitas outras em territórios sob sua jurisdição impede que o governo federal sequer pareça ter percebido o que, de fato, acontece. O presidente Michel Temer levou quatro dias para falar da tragédia em Manaus e quando falou cuspiu no bom senso anunciando “solidariedade governamental” para evitar mais um “acidente pavoroso”. Diante de cabeças decepadas e exibidas ao mundo estarrecido, reagiu como se estivesse comentando a nuvem tóxica de Cubatão ou as tempestades de verão que desabaram no Rio Grande do Sul na semana passada.

Em vez de acompanhar Cármen Lúcia em Manaus, onde ela se reuniu com desembargadores, juízes e procuradores, Temer recusou-se a deixar Brasília, como se tivesse medo de enfrentar a dura realidade que o esperava nas celas do Compaj. A menos de uma semana do primeiro massacre, Temer foi a Esteio (RS) entregar ambulâncias e a Lisboa para o enterro de Mário Soares. Sem antes repreender seu amigo ministro da Justiça, que deu seguidas provas de incapacidade de exercer o cargo. Alexandre de Moraes foi ao Amazonas e repetiu seu mantra de ex-secretário de Segurança de Alckmin, segundo quem a imprensa exagera a importância e o poder de fogo das facções criminosas.

A reação de Moraes ao massacre na penitenciária agrícola de Roraima foi ainda mais patética. Ele desmentiu a governadora Suely Campos, que disse ter-lhe pedido ajuda para evitar a tragédia, em ofício de novembro. Exposto, o documento desmentia seu desmentido e ele tergiversou, argumentando que ela não teria especificado o sistema prisional. Diante da exibição pública de seu novo engano, reconheceu o erro crasso e seguiu em frente. Não pediu desculpas nem seu chefe o repreendeu pelas falhas.

Com seu plano nacional de paliativos repetitivos, Moraes desafia o lugar-comum de que tal tema é dever constitucional de Estados, e não da União. O ex-presidente do STF Carlos Ayres Britto e o constitucionalista Oscar Vilhena argumentam que o problema deve ser encarado por governo federal e Estados em conjunto. O relevante agora é construir um pacto federativo que atenda ao interesse maior da sociedade: paz nas celas e nas ruas.

A Justiça também teria de aderir a esse pacto, propondo-se a fazer muito mais até do que Cármen Lúcia tem feito até agora. Desocupar prisões superlotadas com condenados que não pagaram pensão alimentícia aos filhos – providência tomada em Roraima, abrindo 161 vagas – devia ser uma espécie de ponto de partida para a Justiça participar do mutirão nacional pela retomada do poder nas cadeias.

Juízes e promotores devem à sociedade a obrigação de fiscalizar os presídios. E, além disso, perdem completamente a autoridade de exigir medidas contra a corrupção por não apoiarem o Legislativo em mudanças do Estatuto da Magistratura, mercê do qual a desembargadora Encarnação das Graças Salgado, acusada pela PF de prestar serviços à Família do Norte, está recebendo R$ 65 mil de proventos mensais. E não sofreu punição alguma. Urge combater a corrupção de colarinho-branco. Mas promotores e juízes precisam respeitar as mesmas leis, como os cidadãos que eles acusam e julgam.

O Congresso (em recesso) deveria integrar esse mutirão para enfrentar este caos absurdo e apavorante de degolas em cadeias e a omissão conivente dos juízes. Os representantes do povo precisam cumprir o dever constitucional de vistoriar presídios. E produzir leis para eliminar privilégios de juízes e promotores que ganham acima do teto, além de punir quem vende sentença ou presta serviços ao crime. Essa omissão é grave falha de responsabilidade. O Congresso só se ocupa dos próprios interesses corporativos e este é um imperdoável crime de lesa-pátria.

O Poderoso Chefão


Camerata Sérvica, dirigida por Marcello Rota, no Guitar Art Festival de 2011. 
em Belgrado

A doença de Baumol

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A doença de Baumol é o nome dado pelos economistas ao aumento das despesas com saúde e educação num mundo em que os custos de produção caem vertiginosamente graças ao aumento da produtividade. Essa “doença de custos” foi diagnosticada pela primeira vez em 1966, pelos economistas William J. Baumol e William Bowen, e até hoje não se encontrou uma cura efetiva para elas, seja no setor público, seja no privado. No Brasil, porém, os resultados são o colapso do sistema de saúde e a péssima qualidade de ensino.

Na discussão sobre a nova Lei do Teto dos Gastos Públicos, a maior reação contrária partiu das corporações ligadas aos dois setores, principalmente sanitaristas e professores. Como a discussão acaba sempre instrumentalizada pelos partidos, o viés do debate foi pautado pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Ou seja, o assunto virou trincheira da turma que acha que a antecipação das eleições vai resolver todos os problemas do país, sem considerar os riscos que isso teria, uma vez que viola o calendário estabelecido pela Constituição.

Apesar de ter mais de 50 anos, a hipótese de Baumol e Bowen está mais do que comprovada: as despesas com saúde e educação aumentaram de forma consistente em todo o mundo, enquanto os custos da produção desabaram com a revolução tecnológica. Honorários médicos, planos de saúde e despesas com o Sistema Único de Saúde, por exemplo, sobem mais do que a inflação. As despesas com educação também. Como são serviços que exigem trabalho humano personalizado, não podem ser automatizados na atividade-fim.

O crescimento da produtividade geralmente está associado ao resultado obtido pela hora trabalhada. Na indústria, de um modo geral, isso se traduz na automação da produção de bens, como os carros, por exemplo. Ninguém pode automatizar o atendimento aos pacientes ou aos alunos em sala de aula. Mesmo que se reduza a duração das consultas ou se aumente o número de alunos por sala de aula, há um limite rígido para a produtividade. O pensamento e a atenção não podem ser automatizados, mesmo à distância.

Também aqui no Brasil, esse fenômeno está por trás do crescimento das despesas com Saúde e Educação. O problema é a qualidade dos serviços, que deixa muito mais a desejar. Essa é a grande questão a ser discutida. É preciso melhorar a qualidade do atendimento à saúde e do ensino, já que não é possível impedir que os custos continuem aumentando. Mas, para isso, é preciso enfrentar uma outra questão: o corporativismo.

Vejamos o Orçamento da União de 2017. Saúde e Educação, ao contrário do que se dizia nas manifestações contra a nova Lei do Teto dos Gastos Públicos, terão valores maiores que os registrados neste ano. O Projeto de Lei Orçamentária Anual 2017 (PLOA) entregue ao Congresso Nacional prevê despesas de R$ 110,2 bilhões, um valor 7,20% maior que o de 2016 e 6,06% acima do mínimo que o governo é obrigado por lei a desembolsar.

Para a Educação, a proposta é um orçamento de R$ 62,5 bilhões. Essa cifra é 2% maior que a de 2016 e 21,36% superior ao mínimo que o governo é obrigado pela Constituição a investir na área. Com os demais gastos em Educação, classificados como transferências de salário-educação e outras despesas, o orçamento total da área sobe para R$ 111,3 bilhões. Comparado ao ano passado, é 10,42% maior.

Com esses recursos, é possível melhorar. Em vários países, muitas alternativas de gestão adotadas no setor privado estão sendo utilizadas com sucesso no setor público. Aqui mesmo no Brasil, nos melhores hospitais e nas melhores escolas privadas, há inúmeros exemplos que poderiam ser adotados na rede pública, mas aparentemente não há um grande interesse nisso, porque as políticas públicas foram capturadas por grandes interesses privados.

Reduzir custos onde isso significa diminuir os lucros de fornecedores e prestadores de serviços não é uma tarefa fácil, ainda mais se isso tem a ver com financiamento de campanha ou apoio eleitoral propriamente dito. Além disso, professores e médicos reagem imediatamente quando as inovações e mudanças atingem seus interesses corporativos. Como? Cruzando os braços.

 Luiz Carlos Azedo

Cegueira com $


Nessa república louca que é o Brasil, temos aí o Executivo e o Legislativo altamente envolvidos nas questões da Odebrecht, de acordo com as delações no âmbito da Operação Lava Jato.
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Tem-se aí pelo menos uns 30 anos em que a Odebrecht ganha praticamente todas as ações na Justiça. O Judiciário nunca toma uma posição contrária à empresa? Será que o Judiciário é o mais correto dos poderes? Em todas essas inúmeras licitações que a Odebrecht já ganhou no Brasil nunca a Justiça encontrou nada suspeito sem que precisasse alguém denunciar
Eliana Calmon, ex-ministra do Superior Tribunal de Justiça

Presos não votam

Depois do choque que atingiu o país inteiro com os massacres nas penitenciárias de Manaus e Boavista, vão sendo descobertos antecedentes e consequências daquele horror. Ontem nos referimos às dificuldades de identificação dos assassinos que degolaram e estriparam colegas de cadeia, exceção dos que se deixaram fotografar.


Hoje, outro motivo de indignação: pelas informações de autoridades estaduais, ficamos sabendo que nos últimos dez anos nenhum investimento de vulto foi feito nas cadeias, tanto pelos Estados quanto pela União. Enquanto isso, a população carcerária duplicou, gerando não apenas o acúmulo de presos, mas também a ampliação da influência do crime, dentro e fora das grades.

Quer dizer que desde 2006 o poder público omitiu-se, sem que se construíssem novas cadeias ou se reformassem as velhas.Quem era presidente da República, naqueles idos? O Lula, primeiro, Dilma depois. Ficaram 13 anos contribuindo para o aumento da criminalidade. Assistiram à multiplicação de grupos de bandidos, muitos em guerra aberta, dominando as cadeias, cobrando mensalidades da massa exposta à corrupção, obrigada a contribuir ou morrer.

Por onde andava o PT, nesses dez anos dos treze em que dirigiu o país? O crime organizado cresceu, desdobrou-se tanto quanto o tráfico de drogas. Da parte do governo dos trabalhadores, nada. Presos não votam. A não ser para escolher os chefes de quadrilha e determinar quem será assassinado.

Imagem do Dia

De Rijp (The Netherlands) by Jan Siebring on 500px:
De Rijp (Holanda), Jan Siebring

Ainda sobre os massacres nas prisões

Sou filha de juiz de direito. Certa feita, numa das comarcas que meu pai presidiu, houve um incêndio criminoso. As suspeitas logo recaíram sobre o vigia, homem corpulento, alto e negro. A opinião pública logo passou a se referir a ele como “aquele facínora”. Não se falava noutra coisa na pequena cidade. Tendo tomado conhecimento das sevícias praticadas contra o suspeito pela polícia, papai determinou que ele ficasse em nossa casa, sob sua guarda e responsabilidade. Determinou que nós, seus seis filhos menores, não fôssemos mais a seu escritório de trabalho, onde mamãe improvisou uma cama. Pela manhã, a ele era levada uma bandeja com o café da manhã, depois o almoço e, à tarde, o lanche. À noite, como era costume na época, era-lhe servido o jantar e, antes de dormir, outro lanche.

A cidade toda encheu-se de boatos contra meu pai. Diziam que ele era descuidado, sobretudo com suas duas filhas menores (eu, a mais velha, tinha cerca de 9 anos); que não se precavia contra a periculosidade do “facínora” e coisas assim.

Não me lembro do final do caso, porque fui morar em casa de uns tios por um tempo, pois não tinha idade para cursar o ginásio e já completara o grupo escolar. Sempre fui precoce nos estudos.

Charge O Tempo 10/01/2017

Essa lembrança me martela a cabeça diante do que toda a imprensa noticiou e continua noticiando sobre a situação carcerária no Brasil. Alguém enviou-me uma frase do falecido Darcy Ribeiro, que afirmava em 1982: “O país que não constrói escolas está fadado a construir presídios”. Leio também que a Holanda e a Suécia estão fechando presídios e que o número de detentos na Noruega, por exemplo, é mínimo. Tudo quanto li a respeito nesses dias aponta para a desigualdade social como motivo maior para a existência de grande população carcerária. Brasil e Estados Unidos são exemplos de excesso de presos. E, para quem já anda receitando a pena de morte, lembro que certos Estados nos EUA a possuem e nenhuma estatística constata que esse fato tenha tido efeito na diminuição dos crimes. Aqui, sabe-se, o número de detentos sem culpa formada (presos provisórios ou cumprindo penas preventivas) lota as cadeias. Também me vieram à lembrança as palavras do secretário do Trabalho do Rio de Janeiro, quando o primeiro governo Lula lançava seu projeto (falido) de “Primeiro Emprego” e aquela autoridade lamentava-se comigo que só podia oferecer a um jovem a quantia de R$ 150, quando o tráfico já pagava R$ 1.000 aos “pombos-correios”. Como competir?, indagava.

Abro a Lei de Execuções Penais – Lei 7.210, de julho de 1984 – e nela encontro nos artigos 65 e 66, e depois nos artigos 67, 68 e seu parágrafo único, os deveres dos juízes de execução da pena e do Ministério Público e passo a me perguntar: por que tanta omissão da parte de quem ocupa cargo de tamanha responsabilidade e que é, por isso, tão bem-remunerado?

Não aguento mais ouvir falar em Plano Nacional de Segurança Pública nem de construção de novas cadeias. O Brasil precisa de escolas e bons empregos.

A gaiola dourada da popularidade em que os governantes estão presos

Houve quem criticasse Nizan Guanaes quando ele recomendou ao presidente Michel Temer aproveitar sua impopularidade para adotar medidas duras, a fim de restabelecer o equilíbrio fiscal e promover a retomada do crescimento econômico. Eu estava a seu lado no Conselhão quando ele fez a recomendação.

Em síntese, ele dizia que o presidente deveria tratar de temas duros sem se preocupar em ser popular. A declaração foi longe e gerou debate, mas Nizan estava coberto de razão. O estado em que o Brasil se encontra demanda medidas que dificilmente serão populares.

Ninguém acredita que uma Previdência Social tecnicamente quebrada possa ser reformada sem dor. Muitos sabem que os salários devem ser congelados e os benefícios, cortados, conforme feito em Portugal. A questão da popularidade, porém, persegue os governantes, assim como os autores de novela perseguem o Ibope.

O filósofo suíço Alain de Botton é de uma sinceridade devastadora ao explicar a obsessão em querer ser popular, buscar o elogio e o reconhecimento, querer agradar sempre. No Brasil rasteiro, há quem considere a popularidade a medida do sucesso, em especial quando se mistura espetáculo com política. Não importa como se consegue ser popular nem em que circunstâncias.

Muitos acham que o presidente deve ter a preocupação de agradar sempre por conta do ciclo eleitoral. Que deve tomar medidas duras de início e guardar os agrados para o último ano e meio do mandato, numa dinâmica que atende o interesse eleitoral, e não o nacional.

A busca da popularidade extrapola o limite dos mandatos. É o caso da antecipação de aumentos salariais pelo governador que deixa o cargo para que sua decisão seja cumprida pelo governador que acabou de ser eleito. Uma espécie de bomba-relógio para as finanças públicas na ânsia de ser eleitoralmente popular.

Agradar deveria ser a última das preocupações de um presidente. E sua popularidade deveria decorrer de uma análise fria dos acontecimentos. Algo que jamais acontecerá, considerando-se a profundidade de nosso entendimento sobre o cotidiano. Afinal, vivemos em um país raso, onde quem explica também busca a popularidade.

Daí a espetacularização do noticiário. As manchetes são movidas pelo espetáculo. As fotos de capa mostram o detalhe do cabelo despenteado ou um leve roçar no nariz, de forma a forçar a vista para o inusitado. Popularidade a qualquer preço.

Na explicação do fenômeno político, as armadilhas são cotidianas. Seguir o “bom senso” ou o “senso comum” pode ser o caminho para a popularidade. Mas não o caminho para o sucesso do analista. Usar a indignação como ponto de ênfase para as explicações também é outro atalho para a popularidade. Mas leva para longe a verdade dos fatos. Na política, a indignação pode justificar, mas não explica.

O mais grave não é apenas o desejo doentio do reconhecimento. É o fato de que a verdade deixou de fazer sentido. São tempos de pós-verdade. A era é de factoides. Fatos que parecem, mas não são verdades, assim como os julgamentos indignados sobre o porquê das coisas.

Quando Nizan, mago da publicidade e celebridade internacional, recomendou que o presidente aproveitasse as vantagens da impopularidade, machucou um dos objetivos mais caros da vida de milhões: ser popular. Para a imensa maioria, a sugestão de Nizan é algo absolutamente incompreensível. Neste momento, se formos medir o governo pela popularidade, certamente estaremos aprofundando a vala comum de nosso fracasso coletivo.

Acidentes

Com mais este de Roraima, somado ao massacre de Manaus e outros menos expressivos que andaram pipocando, o número de vítimas fatais dos “acidentes pavorosos” já anda lá pela casa dos 100. E por aqui, o Estado Islâmico ainda não assumiu a autoria das mortes. Antes pelo contrário: num jogo de empurra empurra o governo diz que não tem nada a ver com isso, que é culpa da empresa autorizada, e procura lavar as mãos. Aliás, o episódio macabro do Amazonas revela mais uma forma de roubar dinheiro público, agora através do superfaturamento dos custos de “manutenção” dos presos “alojados” nas jaulas medievais. A criatividade dos meliantes nacionais não tem mesmo limite.

Não pegou bem a afirmação do presidente Michel Temer de que o massacre do presídio Anísio Jobim foi um “acidente pavoroso”.. Além de se manifestar quatro dias depois da matança, e depois do Papa Francisco, que lá do Vaticano pareceu mais próximo dos pavorosos acontecimentos do que ele, foi muito infeliz nesta sua afirmação. Perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. Se fosse outro, teria ido lá ver in loco o que o governo federal poderia fazer para minimizar os efeitos da terrível matança e tomar providências para que outros episódios semelhantes não viessem a acontecer pelo Brasil afora, o que é uma possibilidade mais do que possível.

O Plano Nacional de Segurança anunciado com pompa e circunstância é um rol de boas intenções, como já vimos no passado. Estamos carecas de saber que o sistema prisional brasileiro está falido a muito tempo, e que a simples construção de 5 presídios federais e a distribuição de uma graninha para os estados não vai resolver a situação. Mas é melhor do que nada, é claro, se o dinheiro não for desviado. O plano atual, entretanto, contém pelo menos uma ideia que, apesar de não ser nova, é bastante interessante, e que se for de fato aplicada em todo o país, poderá minorar a degradante superlotação dos nossos presídios: repetir o mutirão para tirar das masmorras os detentos de baixa periculosidade que lá estão à espera de julgamento e que representam 42% da população carcerária, contra os 20% da média mundial. Este mutirão trará justiça para uma multidão de coitados, presos por infrações menores, muitos deles réus primários, que estão confinados em condições piores do que gado à espera de serem julgados. Tem razão o Ministro da Justiça quando afirma que aqui “se prende mais por quantidade do que por qualidade”. E que mesmo quando se prende por qualidade os monstros que perpetraram crimes hediondos, como homicídios, latrocínios, estupros e tráfico de drogas, logo estão soltos, após cumprirem 1/6 da pena. E mesmo assim, os presídios estão superlotados.


Planos à parte, é claro que a questão da criminalidade passa também pela lamentável situação do nosso sub-humano sistema prisional, verdadeira usina do crime. Mas a raiz de tudo, na minha opinião, é a impunidade. O fato é que hoje a vida humana não tem valor. Um criminoso qualquer mata a queima roupa para roubar um celular, e não acontece nada. Mesmo porque ele sabe que, depois da campanha do desarmamento, o cidadão não pode se defender. Armas se transformaram em monopólio dos bandidos. Ele também sabe que a polícia é virtualmente impotente. No Brasil, apenas 5% dos crimes são resolvidos, contra 65% nos Estados Unidos e 90% no Reino Unido.

A verdade, que ninguém quer admitir, é que vivemos em clima de guerra civil, como muito bem denunciou o jornalista Luis Mir em 2004, no seu livro “Guerra Civil: Estado e Trauma”. São 60.000 assassinatos por ano, mais do que os 58.000 soldados que os Estados Unidos perderam em 10 anos de guerra no Vietnã. Então não é guerra civil quando o traficante José Roberto Barbosa, o Pertuba, chefe da facção Família do Norte, vangloria-se de ter 200.000 homens sob seu comando, quando o efetivo do Exército é de 219.000 militares? Como é que este cara conseguiu montar, nas barbas das autoridades, esta organização que, apesar de enorme, é menor do que a do Comando Vermelho e a do PCC?

Será que foi por ”acidente”?

Há muito o que fazer para diminuir a criminalidade, já que acabar com ela nem pensar.

Mas tudo passa pela vontade política dos governos, em conjunto com o Judiciário, o Ministério Público e o Legislativo, de enfrentar o toro à unha. Se a sociedade sentisse firmeza de que o plano é para valer, por certo se engajaria nessa cruzada para mitigar este mal que inferniza a vida de todos nós e que transforma o Brasil numa terra inóspita.

Será que o presidente Temer, que se autoproclama reformista e está concentrado nas reformas da previdência, trabalhista, tributária e política, todas vitais, não poderia encarar para valer mais esta, para tentar nos devolver um pouco de tranquilidade e evitar outros “acidentes pavorosos”?

É difícil, mas não é impossível.

Rudolph Giuliani, então prefeito de New York, conseguiu excelentes resultados com a sua política de tolerância zero, a mesma que a sociedade brasileira está impondo aos corruptos que infestam a nação, com bons resultados parciais até agora.

Faveco Corrêa