domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Todos os que fingem não ver são culpados

Desço a rua em direção ao Rato. Passo, como tantas vezes, por aquele edifício cor de salmão, com a tinta a esboroar-se nas paredes, as portadas antigas de madeira gasta, o toldo azul-escuro carregado de pó que a chuva tornou lama e lhe dá um tom acinzentado. Desço a rua, como tantas vezes. Mas, desta vez, detenho-me. O passo suspende-se, num sobressalto. Olho para aquelas paredes gastas e vêm-me à cabeça as cenas que li sobre o que se passava para lá delas, dentro daquela esquadra de polícia onde até aí teria entrado a correr se achasse precisar de ajuda. A mulher espancada, amarrada a uma cadeira como se estivesse num crucifixo, o homem a quem obrigaram a beijar as botas dos agentes, o que foi sodomizado com o pau de uma vassoura, os ciganos que, segundo uma testemunha, terão sido obrigados a praticar sexo oral.


A descrição destes horrores está numa acusação do Ministério Público. E a investigação foi aberta graças a uma denúncia encaminhada pela Direção Nacional da PSP. E talvez isso devesse sossegar-me. Mas não sossega. Leio nas notícias que, além dos dois detidos, há dez agentes “investigados pelas agressões de extrema violência cometidas contra detidos e pessoas vulneráveis” que continuam a trabalhar. E que os vídeos das torturas e dos abusos sexuais foram partilhados em grupos de WhatsApp com 70 participantes, acredita-se que muitos deles polícias, que recebiam as imagens com comentários jocosos e racistas.

Enquanto desço a rua, penso em Renee Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhos, sem registo criminal, que foi baleada, depois de, vendo-se rodeada de agentes do ICE (a polícia anti-imigração de Trump), tentar afastar-se no carro onde seguia antes de parar para ver o aparato policial. Os vídeos que circulam na internet mostram-na a olhar de frente para o agente que ia matá-la. “Não estou zangada consigo”, foram as suas últimas palavras. A sua cara não mostra raiva nem medo. Mas é difícil acreditar que os homens armados que a rodeavam não a tenham intimidado.

Depois de ser atingida a tiro várias vezes, continuou viva durante oito minutos. Um vizinho, médico, tentou aproximar-se do corpo para lhe prestar auxílio. Foi impedido pelos agentes do ICE. O carro de Renee estava cheio dos peluches do filho mais novo e a mulher não tinha sequer um passado de ativismo político. Mas isso não impediu a Administração Trump de a culpar da sua própria morte, acusando-a de tentar atropelar os agentes que a mataram, apesar de se ver nas imagens que o carro só seguiu já depois dos primeiros tiros. A verdade não importa. E o que não falta é gente disposta a acreditar que “quem não deve não teme” e a aceitar que qualquer desobediência a um agente da lei (real ou imaginada) pode ser punida com a pena de morte.

Tenho o Instagram cheio de fotografias e vídeos dos horrores do ICE. Um menino de 5 anos, com uma mochila do Homem-Aranha às costas, a ser detido. Um bebé de 6 meses com os olhos inchados depois de ser gaseado com gás pimenta. Um pai a ter um ataque de epilepsia, com um bebé de 1 ano ao colo, enquanto é arrancado à força do carro pelos agentes. Uma mulher deficiente arrastada pelo chão. Uma menina de 6 anos cujo pai foi detido e que ficou sozinha a deambular pela rua. Uma mãe com um bebé, forçada a deixá-lo a um estranho, enquanto a arrastam para dentro de uma carrinha. Há de tudo nestas imagens: homens e mulheres, brancos, negros e latinos, alguns até cidadãos americanos. Nada importa. Ninguém está a salvo. E essa é que é grande mensagem política.

O medo é a nova política. A força é a nova lei. Não há espaço para o “quem não deve não teme” dos mais ingénuos ou simplesmente dos que se acham imunes a tudo porque só se metem na sua vidinha. Que ninguém diga que não sabia, que não viu, que não percebeu o que estava a acontecer. Não há ninguém que não tenha visto a fome e a morte a abater-se sobre Gaza. Não há ninguém que não tenha visto os campos de concentração em El Salvador para onde são enviados homens apanhados ao acaso nas ruas dos EUA, por serem latinos ou estarem tatuados, sem direito a julgamento nem defesa. Não há ninguém que não tenha ouvido Trump a anunciar como iria apoderar-se do petróleo da Venezuela depois de ter sequestrado um Presidente ou como iria “adquirir” território na Dinamarca.

Todos os que fingem que nada se passa são culpados. E ninguém ficará a salvo. Nem o mais servil colaboracionista. Porque a onda de terror, de depredação dos recursos naturais, de exploração dos mais fracos e de humilhação dos que se lhe opõem fará de todos vítimas, mais cedo ou mais tarde.

As 12 pessoas mais ricas do mundo têm hoje mais dinheiro do que a metade mais pobre da Humanidade. É um nível de desigualdade nunca antes visto, que significa apenas uma coisa: existem 12 predadores no planeta. Todos os outros são suas presas. Mesmo os que se acham a salvo por serem mais brancos, mais homens, mais ricos, mais poderosos. Qualquer um deles pode ser esmagado por um destes 12. E a velocidade a que serão esmagados está em aceleração. Segundo um relatório divulgado na semana passada pela Oxfam, “em 2025, a riqueza dos multimilionários cresceu mais de 16%, um ritmo três vezes superior à média dos últimos cinco anos”.

Os polícias que agora torturam e humilham fazem-no porque podem. Porque se sentem esmagados e humilhados por um sistema que se serve deles e os despreza, condenando-os a uma vida miserável. Vingam-se com crueldade não dos que os oprimem, mas daqueles que não podem fazer-lhes frente. E podem fazê-lo, porque o sistema os tolera, beneficia deles até, mantendo um nível de medo que evita a revolta dos que são explorados.

E qual é a nossa força perante tudo isto? É que somos muitos. Somos muitos mais. Eles sabem-no. E por isso querem-nos sonolentos, apáticos, de ombros encolhidos ou tolhidos pelo medo. Se começarmos a abrir os olhos, se não nos vergarmos à injustiça, se pararmos de fingir que não vemos, se perdermos o medo, podemos ganhar.

Não podem matar-nos a todos, não há prisões no mundo suficientes para nos prender. O mal só se instalará pela nossa inação. O mal só vencerá se aceitarmos participar na sua farsa, fingindo que se trata da lei ou de uma inevitabilidade.

O silêncio de Auschwitz

Na gelada madrugada de 27 de janeiro de 1945, o soldado soviético Ivan Martynushkin avançava cautelosamente entre edifícios cinzentos cercados por arame farpado. Esperava resistência alemã, minas, armadilhas, um potencial ataque. Em vez disso, encontrou silêncio. Um silêncio pesado e fantasmagórico. À sua frente surgiram figuras humanas que pareciam sombras. Homens e mulheres de olhar vazio, envoltos em farrapos, demasiado fracos para celebrar a libertação. Algumas crianças observavam sem chorar, como se o choro tivesse sido engolido algures entre a fome e o medo. Auschwitz tinha sido libertado. E o mundo, finalmente, via.

É esse dia concreto — 27 de janeiro de 1945 — que o mundo agora assinala como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Trata-se de um dia de ancoragem histórica que nos remete para um momento em que as portas se abriram e a extensão do horror deixou de poder ser negada. Nesse dia, os soldados encontraram mais de sete mil sobreviventes, toneladas de cabelo humano, malas com nomes escritos à pressa, sapatos de crianças. Provas materiais de um crime que desafiava qualquer linguagem conhecida.

O Holocausto, contudo, não se revelou nesse dia, apenas se confirmou. O que ali se tornou visível foi o resultado de anos de perseguição sistemática, planeada, burocratizada. Auschwitz era apenas um dos centros de um mecanismo de extermínio que assassinou cerca de seis milhões de judeus, para além de pessoas de etnia cigana, pessoas com deficiência, homossexuais, opositores políticos e outros considerados “indesejáveis”. A libertação não apagou o crime — apenas impediu que ele continuasse naquele lugar.

Por isso, evocar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é como regressar a esse silêncio inicial. Um silêncio que não é vazio, mas saturado de perguntas. Como foi possível? Quem sabia? Quem escolheu não saber? E, talvez a pergunta mais incómoda: o que faríamos nós, colocados nas mesmas circunstâncias?

A primeira lição do Holocausto é que ele não começou nos campos. Começou muito antes, em palavras de desumanização, em caricaturas que ridicularizavam grupos específicos, em leis que separavam, numa insidiosa e crescente “banalização do mal”. Começou quando a diferença passou a ser apresentada como ameaça e o vizinho como inimigo. Assim, o extermínio foi o ponto final de um processo gradual, aceite passo a passo por uma sociedade que se habituou a ceder princípios em troca de conforto ou medo.

Por isso, a memória deste dia não pode ser apenas cerimonial ou meramente simbólica, mas antes deverá constituir pretexto para nos deixarmos inquietar, reconhecendo que a civilização, então como agora, não é imune à barbárie. De facto, convém notar que Alemanha nazi não era um deserto cultural; era uma sociedade moderna, instruída e organizada. O Holocausto prova, por isso, que o progresso técnico e intelectual, sem ética, pode servir o mal com uma eficiência devastadora.

Nos dias de hoje, esta lição torna-se novamente urgente. Assistimos ao regresso de discursos que dividem o mundo em perigosas polarizações e que simplificam a complexidade humana em rótulos hostis. O racismo, a xenofobia e o desprezo por minorias ganham novamente espaço público, legitimados por linguagem agressiva e pela normalização do insulto. A acrescer, verifica-se que o maior perigo não reside apenas nos extremismos declarados, mas igualmente na erosão lenta do limite do aceitável. Quando se começa a tolerar a humilhação do outro, quando se relativiza a dignidade humana em nome da segurança, da identidade ou da maioria, entra-se num terreno perigosamente conhecido. O Holocausto ensina-nos que a indiferença é fértil e que nela o mal cresce sem resistência.

Por tudo isto, o desafio que este dia nos coloca para o futuro é talvez o mais difícil. As testemunhas diretas estão a desaparecer e, em breve, não haverá sobreviventes que possam dizer o que viram na primeira pessoa. A memória passará a depender exclusivamente da nossa responsabilidade coletiva, do rigor histórico contra a negação e o revisionismo, da educação contra a ignorância e da empatia contra o cinismo.

Recordar o Holocausto é também um compromisso para com os vivos. Com aqueles que hoje são marginalizados, perseguidos ou silenciados. Não porque a História se repita de forma mecânica, mas porque os seus mecanismos são reconhecíveis. O “nunca mais” não é uma garantia automática, mas antes uma tarefa permanente que exige vigilância, coragem cívica e a recusa clara de qualquer hierarquia de humanidade.

Quando Ivan Martynushkin saiu de Auschwitz, anos mais tarde diria que nunca conseguiu esquecer aqueles olhos que o olhavam em silêncio. Esse olhar atravessa o tempo e chega até nós. O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto existe para que não desviemos o olhar, porque lembrar não é um gesto passivo: é uma escolha moral. E dessa escolha depende, ainda hoje, o futuro da nossa humanidade.

A guerra de Trump contra os EUA

Em "Doze Homens e uma Sentença" (1957), filme de Sidney Lumet, um jurado (Henry Fonda) consegue reverter a decisão de seus dez colegas dispostos a condenar um jovem acusado de matar o pai. Fonda, o jurado nº 8, não está convencido da culpa do rapaz e apresenta objeções que vão dobrando, uma a uma, a certeza de cada um. No fim, todos votam pela absolvição do garoto. São 95 minutos num cenário único, a sala de reunião do júri, e uma esgrima de diálogos em busca da verdade e da justiça.


Em "Matar ou Morrer" (1952), de Fred Zinnemann, um xerife (Will Kane, interpretado por Gary Cooper) é avisado pelo telégrafo de que um assassino que ele prendeu anos antes foi posto em liberdade e cavalga rumo à cidade, com mais três pistoleiros, para se vingar. Serão quatro contra um. Kane, a quem a cidade devia a paz em que vivia, pede ajuda aos cidadãos e todos têm motivo para recusar. Deixado sozinho, ele encara e mata os quatro (um deles, com a ajuda de sua noiva quaker Grace Kelly), Quando a cidade vai festejá-lo, Kane tira a estrelinha do colete, atira-a ao chão e vai embora.

Em "O Vento Será Tua Herança" (1960), de Stanley Kramer, um advogado (Spencer Tracy) enfrenta uma cidadezinha maciçamente evangélica e criacionista decidida a silenciar um jovem professor adepto da ciência e do evolucionismo. O filme mostra o julgamento, um duelo de argumentos entre Tracy e outro poderoso advogado (Fredric March) sobre Darwin e a Bíblia —o darwinismo era então crime no estado. O professor acaba condenado, mas a uma multa ridícula, que não o impedirá de lecionar.

Eram esses os EUA que, apesar de todas as sujeiras em política internacional, éramos levados a admirar. O país em que, pela bravura e correção, um indivíduo conseguia se impor a uma maioria hostil. Hoje é o contrário: um ferrabrás se impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a maioria. Donald Trump parece estar declarando guerra aos próprios EUA.

E os americanos já não têm um Henry Fonda, um Gary Cooper e um Spencer Tracy que os defendam.

'Cuidado com os leões'

Há poucas semanas visitei uma praia belíssima, em Moçambique, a poucos quilômetros de um parque nacional. Lá chegados, convidei a minha filha mais nova, Kianda, de 7 anos, a acompanhar-me numa trilha aberta na falésia, junto ao mar. Já avançara alguns metros quando ela me chamou, gritando, muito assustada, ao mesmo tempo que apontava para um aviso colocado à entrada da trilha:

— Cuidado, papá! Os leões!

— Leões?!

— Aqui está escrito “Cuidado com os leões”!

Juntei-me a ela, surpreso e, confesso, também eu um pouco inquieto. Ocorreu-me que estando nós tão próximos da reserva natural talvez fosse mesmo possível surgirem leões. Olhei para todos os lados, imaginando o que aconteceria caso aparecesse uma fera, mostrando os dentes, rugindo. Como poderíamos fugir? Correndo para a água? Será que os leões sabem nadar?

Então, li o cartaz. Dizia: “Cuidado com as lesões! Não nos responsabilizamos por eventuais quedas!”

Expliquei à menina que não eram leões, e sim lesões. Aquela palavra estranha queria dizer ferimentos, arranhões, ossos quebrados. Ela escutou-me com atenção, assentiu, e depois proclamou, definitiva:

— Ah. Então está mal escrito.

Perguntei-lhe por quê.

— Porque assim como está assusta as pessoas.


Enquanto avançávamos na trilha eu pensava no cartaz. Não no erro de leitura, mas na correção moral da interpretação. O aviso não nos alertava para o perigo — protegia quem o colocou. Não dizia apenas tenham cuidado. Dizia: se acontecer algo, o problema é vosso.

O equívoco pode ser lido como um pequeno retrato deste nosso tempo. Vivemos cercados de avisos que não avisam, de comunicados que não informam, de discursos cujo verdadeiro objetivo não é tanto proteger os cidadãos, e sim resguardar as instituições. Nos últimos anos assistimos à multiplicação de cartazes invisíveis. Estão nas redes sociais, nos discursos políticos, nos comunicados oficiais, nos contratos que aceitamos sem ler. Dizem-nos, todos os dias, que a responsabilidade é dos outros. Que os danos são colaterais. Que as vítimas são inevitáveis. Que os erros são técnicos. Que ninguém sabia. Que ninguém viu. Que ninguém tem culpa. Chamam a isto pragmatismo. Boa gestão. Realismo.

As crianças, com o bom senso ainda intacto, dão-lhe o nome adequado — leões!

Talvez por isso o mundo contemporâneo seja tão difícil de explicar a uma criança — e, ao mesmo tempo, tão fácil de explicar por uma criança. Quando nós escutamos “danos aceitáveis”, elas ouvem feras à solta. Onde nós invocamos cláusulas, elas perguntam: quem vai ser comido?

Sempre que um governante alerta para “o pequeno desconforto” de certas medidas, há leões escondidos na frase. Quando uma empresa pede desculpa “se alguém se sentiu ofendido”, há leões passeando entre as palavras. Quando se fala de guerras “cirúrgicas”, de migrações “ilegais”, de mortes “inevitáveis”, os leões estão lá — sentados no afável crepúsculo dos seus cadeirões de couro, de terno elegante, gravata a condizer, e óculos escuros.

Completamos a trilha, eu e Kianda, e regressamos sem lesões — e sem ter visto leões —, com os olhos cheios da bela luz do Índico.

Imperialismo e a crise da imaginação

Os acontecimentos recentes envolvendo Estados Unidos e Venezuela reativaram, no debate público e acadêmico, a defesa do armamento nuclear como resposta à instabilidade internacional. Volta a circular a ideia de que a proliferação de armas atômicas seria um instrumento racional de equilíbrio, inclusive para países do Sul Global. Trata-se de uma formulação conhecida, reiterada em análises estratégicas, colunas de opinião e tradições consolidadas das Relações Internacionais, segundo a qual a ameaça mútua de destruição total funcionaria como garantia de paz. Se todos estiverem armados até os dentes, ninguém ousará atacar. Essa proposta revela uma crise da imaginação. O aumento contínuo dos gastos militares, que bate recordes ano após ano, não produziu um mundo mais seguro. A expansão do aparato militar convive com a incapacidade de reduzir desigualdades globais ou enfrentar crises sistêmicas como o colapso ambiental.

A dificuldade de conceber outras formas de organização do mundo que escapem à lógica do sistema interestatal moderno e à reprodução do capitalismo global gera pânico. Esse terror se manifesta em demandas por respostas rápidas e soluções supostamente técnicas e racionais. É nesse terreno que os ideais clássicos do realismo em Relações Internacionais recuperam força, com a proposta, aparentemente pragmática, de que países do Sul Global deveriam desenvolver arsenais nucleares como estratégia de dissuasão, reproduzindo a lógica de poder das grandes potências globais. Essa formulação ignora que o imperialismo, conforme elaborado por Lênin, não é atributo de determinados Estados, mas uma fase estrutural do capitalismo. Portanto, é um erro achar que a atuação imperial se restringe aos Estados Unidos ou mesmo ao Ocidente. Não obstante, reduzir o problema à distribuição de capacidades militares entre Estados desloca o foco das relações sociais que sustentam a acumulação global. A consequência dessa leitura é a substituição da crítica ao imperialismo por uma disputa entre projetos armamentistas concorrentes.

A lógica que defende o armamentismo estatal desconsidera o imperialismo como forma precária de extrativismo, isto é, superexploração econômica e o reduz a um problema de poder bélico ou demonstração de força. A proliferação de armas nucleares não interrompe as diversas e novas formas de violência demandadas pela acumulação de capital. É necessário recolocar os interesses de classe no centro da análise. Historicamente, enquanto saúde, educação, literatura e artes permanecem subfinanciadas, os gastos com militarização e estratégias de defesa nacional atingem patamares exorbitantes. Em vez de sustentar que Venezuela, Colômbia ou Brasil devam desenvolver arsenais nucleares, o debate deveria se concentrar na construção de autogoverno, na organização da classe trabalhadora e na solidariedade internacional.

A mesma crise do pensamento opera no debate ambiental quando soluções capitalistas e individualizadas são apresentadas como resposta a problemas estruturais. A aposta nos veículos elétricos ilustra esse deslocamento, pois são vendidos como alternativa ecológica, enquanto preservam o núcleo do problema ao manter intacto o modelo de mobilidade baseado no transporte individual, na expansão urbana desigual e na dependência de cadeias globais de extração mineral. A questão não deveria ser quem detém o direito de explorar a natureza, se o petróleo deve ser nosso ou se o comprador será Estados Unidos, China ou Rússia. Como lembra Sabrina Fernandes, há caminhos possíveis para a superação dos combustíveis fósseis, pois impossível é um mundo habitável pautado no consumo vigente. Soluções capitalistas para problemas capitalistas apenas deslocam o impasse. O colapso ambiental é tratado como falha tecnológica a ser corrigida por escolhas individuais de consumo, enquanto permanecem fora do debate a precariedade da mobilidade urbana, o colapso do transporte público, o abandono da malha ferroviária e a subordinação das políticas urbanas aos interesses do capital automobilístico. Há grupos que lucram com a exploração do petróleo, com a expansão do armamento nuclear e com respostas simplificadoras; certamente, não se trata de nossa classe, a maioria da população.
Kelvin Araújo da Nóbrega Dias 

O mundo sagrado da Amazônia

Da varanda do meu apartamento no décimo pavimento de um prédio na Avenida Floriano Peixoto, em frente ao exuberante Rio Negro, de suntuosa beleza, vejo o sol nascer e se pôr ao final do dia. Inaugurado em 1951, modernista, o edifício se transformou em um ícone da arquitetura e da história de Manaus. Embora o sol nasça sempre no oriente e se ponha no ocidente, nenhum dia é exatamente igual ao outro. A profusão de nuvens que navegam livres na vastidão do céu, maior ainda do que o já monumental rio, me surpreende a cada dia com um espetáculo único e sempre magnífico. Às vezes o sol mal consegue lugar no horizonte, coberto por poderosas nuvens, e sai por aí, procurando brechas, aqui e acolá, para impor a sua majestosa soberania.

Da varanda do meu apartamento, vejo também as inúmeras embarcações ancoradas e, igualmente, uma profusão de barcos, lanchas e canoas que, de diversos tamanhos e formas, com sonoros apitos, chegam e partem do flutuante Porto de Manaus, levando – sinto receio em pôr isso no papel, com risco de cometer sacrilégio – o que, pela distância, me parecem sonhos, sonhos meus, talvez dos tripulantes, talvez dos passageiros. Então, quase que peço licença para adentrar esse terreno sagrado que me desperta tantas emoções contraditórias.


Enquanto me sirvo de uma fatia de abacaxi, aperto uma pacovã (banana da terra), para me certificar se ela já está no ponto de fritar. Preparo meu café e a tapioca de goma do norte e me dirijo à varanda para apreciar o estonteante espetáculo que tenho à minha frente. Posso também substituir a goma pela farinha d’água, que hidrato previamente para preservar os meus dentes (amarela, baguda e dura, ela é mesmo conhecida como quebra-dentes; hidratada, ela quadruplica de volume), ou pelo açaí com farinha de tapioca na forma de pequenos flocos, batata doce, macaxeira, pupunha…

Em visita ou trabalhando em Belém do Pará, o gracejo era marcar encontro depois da chuva do final da tarde. Também costumávamos dizer que chovia todo dia, quando não chovia o dia todo (floresta tropical, em inglês, é chamada de rainforest). Andando pelas ruas desta Ma-ná-os empobrecida e abandonada, em várias ocasiões o céu já desabou sobre a minha cabeça. Da varanda, mesmo quando o céu está aberto, às vezes vejo uma nuvem, escura e comprida, que acompanha o Rio Negro, fazendo sombra e tornando o rio tenebroso, mais negro do que já é (nestes casos, nas margens, o céu permanece claro, brilhante).

No Porto do Ceasa, a pouca distância rio abaixo, começa a polêmica Rodovia BR-319 – começa com a travessia para o Município de Careiro da Várzea, por balsa. E na balsa estão o ônibus, o motorista e os passageiros que acabaram de embarcar na Rodoviária de Manaus com destino a Porto Velho, capital de Rondônia (900 km, 11 horas de automóvel e 24 horas de ônibus). Ou seja, mesmo só parcialmente asfaltada, com trechos críticos de chão batido, intransitáveis na chuva, travessias por balsas e poucos postos de gasolina, a BR-319 continua cortando uma das últimas grandes áreas de floresta intacta da Amazônia. A polêmica atinge os outdoors da cidade.

No conforto do meu apartamento em frente ao Parque Augusta, na região central da pauliceia desvairada, havia escrito, em Um país em busca de sua identidade, que entre todos os crimes contra os povos da floresta, desequilíbrios ecológicos e desastres ambientais em curso – invasão de reservas indígenas e extrativistas, desmatamento, garimpo, mineração, poluição do solo e das águas –, a recuperação e pavimentação da Rodovia BR-319 da Ditadura Militar, entre Manaus e Porto Velho, só não foi ainda implementada por falta de recursos. Durante a pandemia do coronavírus, o governador do Estado do Amazonas se lamentou pela impossibilidade de vacinar os moradores da região da BR-319, como se a rodovia, caso recuperada, não fosse, por excelência, a porta principal de entrada do vírus e como se a exposição de seus habitantes aos ávidos forasteiros não fosse mais danosa do que o próprio vírus. “Os que vivem no cosmo há milênios são perseguidos por mãos de ganância, olhos ávidos: minério, fogo, serragem, fim.” (O fim que se aproxima, do poeta manauara Milton Hatoum)

Me recuso a fazer passeios turísticos, falsos como uma nota de três. No início dos anos 1970, percorri o trecho Manaus a Belém a bordo do navio da ENASA, que na época era a única companhia que fazia esse percurso regularmente. Em toda a Amazônia, o transporte continua sendo essencialmente fluvial. Inúmeras embarcações transportam passageiros e cargas em todas as direções e para todos os confins. Belém, no Amazonas, é acessível em aproximadamente 4 dias; São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, em 3 dias; Porto Velho, no Madeira, em 4 dias; e Tabatinga, no Solimões, na fronteira com a Colômbia e o Peru, em 6 dias de viagem (lanchas rápidas conseguem reduzir para quase um terço o tempo de viagem).

Atravessei de balsa os rios Negro e Solimões de Manaus a Careiro da Várzea. Fui de lancha de linha até Manacapuru, no Solimões, a 100 km de Manaus. O porto flutuante da cidade abriga, interligados por tábuas, o cais, casas comerciais e restaurantes, que sobem e descem, acompanhando o nível da água do rio. Catalão, uma comunidade no Município de Iranduba, em frente a Manaus, agrega mais de 100 casas flutuantes, que se adaptam às cheias e às vazantes. A comunidade flutuante de Manaus, com mais de 2 mil casas e 12 mil moradores, foi desativada em meados dos anos 1960.

Manacapuru, com 100 mil habitantes, é também acessível por terra e é um porto de partida para vários povoados, Solimões acima. Entrei em um pequeno barco rústico, repleto de redes de dormir armadas por ribeirinhos, e tive vontade de seguir viagem… um sonho – mas não embarquei. Não quero fazer folclore. Digamos que a floresta não é o meu habitat natural e que meus olhos não brilham ao me servir de um tucumã. Admiro a cultura dos povos da Amazônia, mas conheço os limites da minha cultura forasteira. Escritores russos narraram os desastres perpetrados por românticos “civilizados” que tentaram viver entre “selvagens” ciganos (Pushkin) e cossacos (Tolstoy). No final de Os ciganos, o velho expulsa o russo que matou a sua filha por ciúmes – “Deixe-nos em paz, homem orgulhoso! Somos selvagens, não temos leis… Mas não queremos viver com um assassino… Você não nasceu para a vida selvagem.”

Para conhecer a cultura dos povoados, achei por bem me dirigir ao Centro Cultural Povos da Amazônia em Manaus, que reúne fotos, vídeos e coleções riquíssimas de arte e artefatos. Também assisti ao histórico documentário mudo, lançado em 1922, No paiz das Amazonas de Silvino Santos. Falei com alguns indígenas idosos que me contaram que preferiam ficar sob os “cuidados” da descompromissada FUNAI do que sob a tutela dos dedicados padres e freiras das missões religiosas, empenhados em civilizar o índio, salvar sua alma, enquanto o despersonalizava, destruindo língua, tradições, cultura, história, ou seja, sua identidade e sua humanidade. Estive com missionários salesianos, que se defendiam dizendo que protegiam os índios para que não fossem escravizados ou meramente exterminados pelos brancos que cobiçam suas terras. Bem, parece que sempre pode ser pior; mas, também, sempre pode ser melhor.

Manaus, com 11 km2, ocupa menos de 1% da área total do Estado do Amazonas, mas seus 2,3 milhões de habitantes representam mais da metade da população. Itacoatiara, Manacapuru – ambos da Região Metropolitana de Manaus – e Parintins têm 100 mil habitantes; nenhum outro município do Estado atinge este número. A densidade de Manaus é de 202 habitantes por km2.

No extremo oposto, o Município de São Gabriel da Cachoeira, com 109.181 km2 (a título de comparação, Portugal ocupa uma área de 92.230 km2), agrega 52 mil habitantes, uma densidade de 0,5 habitante por km2. Hoje, o prefeito, 12 dos 13 vereadores e nove a cada dez habitantes de São Gabriel são indígenas – de mais de 20 diferentes etnias: Arapaço, Baniwa, Barasana, Baré, Desana, Hupda, Karapanã, Kubeo, Kuripako, Makuna, Miriti-tapuya, Nadob, Pira-tapuya, Siriano, Tariano, Tukano, Tuyuka, Yanomami, Wanana, Werekena…

Barcelos, no Médio Rio Negro, ocupa 122.452 km2 e Altamira, no Xingu, 159.533 km2 – com densidades de 0,2 e 0,8 hab/km2, respectivamente. A densidade no Município de São Paulo é de 7.528 hab/km2. Os forasteiros diriam: “Muita terra para pouco índio; eles são os habitantes mais ricos do planeta!” São mesmo, mas o conceito de riqueza desses guardiões da floresta não é o mesmo que o utilizado pelos selvagens europeus que, sem visto de entrada, invadiram o continente, exterminaram e subjugaram as populações nativas da região – e a festa continua.

Desde 1992, a Universidade Federal do Amazonas – UFAM promove cursos universitários presenciais em São Gabriel da Cachoeira. Em 2022, o reitor da universidade se aventurou pelas matas e rios, percorreu longas distâncias em pequenas embarcações, atravessando corredeiras e se protegendo de galhos ao furar os igarapés, para alcançar longínquos povoados e participar das cerimônias de titulação dos indígenas. Em 2023 foi criada a primeira turma de mestrado e em 2026 a primeira turma de doutorado em São Gabriel, onde um novo campus da UFAM está sendo construído.

O Governo Federal está empenhado em criar a Universidade Federal Indígena – UNIND, com sede em Brasília e início das atividades em 2027. Mas Ailton Krenak, cético em relação ao modelo ocidental de educação e universidade, é crítico a essa iniciativa, que visa inserir os indígenas no mundo dos brancos. Krenak defende o princípio de autodeterminação, que reserva aos povos nativos da floresta o direito de assumir o seu próprio destino ancestral e não ficar sujeito ao “progresso” e à modernidade distópica.

Embora a Constituição de 1988 reconheça os indígenas como cidadãos plenos, a ideologia do ultrapassado Estatuto do Índio permanece impregnada no imaginário popular – indivíduos relativamente incapazes, sujeitos à tutela do Estado encarregado de promover a sua assimilação e integração à sociedade nacional. A Constituição reserva aos povos indígenas o direito de se manterem isolados e preservarem o seu modo de vida tradicional. Além disso, o Estado assumiu o dever de protegê-los, evitando contatos forçados e garantindo a sua integridade física, cultural e territorial – coisa que está longe de cumprir.

Eu acharia por bem criar uma nação indígena soberana na Sagrada Amazônia, que possa se relacionar com as demais nações do mundo, preservando a sua cultura, cosmovisão, relação com a natureza e integridade dos povos nativos, juntando partes do Equador, Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia, Brasil, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, com capital em São Gabriel da Cachoeira, que já é oficialmente multilíngue.

Na contramão, enquanto traço essas linhas no início de janeiro de 2026, acompanho apreensivo as manchetes dos diários de notícias de todo o mundo sobre os desdobramentos da investida de Trump na Venezuela, não muito longe da minha varanda em frente ao Rio Negro.

Samuel Kilsztajn 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


A destruidora implacável

A miséria destrói tudo na vida; rende-a infecciosa, hedionda e espectral. Existe a palidez aristocrática e a palidez da miséria: a primeira vem de um refinamento, a segunda de uma mumificação. Pois a miséria faz de todos um fantasma, ela cria sombras da vida e aparições estranhas, formas crepusculares como se saídas de um incêndio cósmico. Não há o menor traço de purificação em suas convulsões; somente o ódio, o desgosto e o azedume da carne. A miséria não concebe nada mais do que a doença numa alma inocente e angelical - e sua humildade não é imaculada; ela é venenosa, cruel e vingativa, e o compromisso ao que ela conduz esconde chagas e sofrimentos aguçados.

Não quero uma revolta relativa contra a injustiça. Admito apenas a revolta eterna, pois eterna é a miséria da humanidade.

Emil Cioran, "Nos cumes do desespero"

Gaza abandonada enquanto o genocídio persiste

Um colega, editor de um veículo de comunicação de grande circulação que deu destaque a Gaza durante os dois anos do genocídio, expressou recentemente sua frustração com o fato de Gaza não ser mais um foco principal nas notícias.

Ele quase não precisava dizer isso. É evidente que Gaza já foi relegada à margem da cobertura jornalística — não apenas pela grande mídia ocidental, conhecida há muito tempo por seu viés estrutural a favor de Israel, mas também por veículos frequentemente descritos, com razão ou não, como "pró-Palestina".

À primeira vista, essa retirada pode parecer rotineira. Gaza durante o auge do genocídio exigia atenção constante; Gaza depois do genocídio, nem tanto.

Mas essa suposição desmorona sob análise, porque o genocídio em Gaza não terminou .

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, quase 500 palestinos foram mortos e centenas ficaram feridos desde o chamado cessar-fogo declarado em outubro de 2025, apesar das repetidas alegações de que os massacres em larga escala haviam cessado. Esses não são incidentes isolados ou “violações”; são a continuação das mesmas políticas letais dos últimos dois anos.

Além do número diário de mortos, existe uma devastação em uma escala quase incompreensível. Mais de 71.000 palestinos foram mortos desde outubro de 2023, com bairros inteiros arrasados, infraestrutura destruída e a vida civil tornada praticamente impossível.


Para compreender a profundidade da crise em Gaza, é preciso confrontar uma realidade brutal: bem mais de um milhão de pessoas permanecem deslocadas, vivendo em tendas e abrigos improvisados ​​que desabam sob tempestades de inverno, inundações ou ventos fortes. Bebês morreram congelados . Famílias são arrastadas de um refúgio temporário para outro, presas em um ciclo de exposição e medo.

Sob as ruínas de Gaza jazem milhares de corpos ainda enterrados sob os escombros, inacessíveis devido à destruição de máquinas pesadas, estradas e serviços de emergência por Israel. Acredita-se que milhares de outros estejam enterrados em valas comuns, aguardando exumação e sepultamento digno.

Entretanto, centenas de corpos permanecem espalhados em áreas a leste da chamada Linha Amarela, uma fronteira que supostamente separa as zonas militares das “áreas seguras” palestinas. Israel nunca respeitou essa linha. Foi uma ficção desde o início, usada para criar a aparência de contenção enquanto a violência continuava por toda parte.

Do ponto de vista de Israel, a guerra nunca realmente parou. Apenas os palestinos são obrigados a respeitar o cessar-fogo — movidos pelo medo de que qualquer resposta, por menor que seja, seja usada como justificativa para a retomada de massacres, totalmente endossados ​​pelo governo dos EUA e seus aliados ocidentais.

A matança apenas diminuiu. Somente em 15 de janeiro, ataques israelenses mataram 16 palestinos, incluindo mulheres e crianças, em Gaza, apesar da ausência de qualquer confronto militar. Contudo, enquanto o número diário de mortes permanecer abaixo do limiar psicológico de um massacre — menos de 100 corpos por dia — Gaza discretamente desaparece das manchetes.

Hoje, mais de dois milhões de palestinos estão confinados a cerca de 45% dos já minúsculos 365 quilômetros quadrados de Gaza, com apenas uma pequena quantidade de ajuda humanitária chegando, sem acesso confiável à água potável e com um sistema de saúde praticamente inoperante. A economia de Gaza está praticamente aniquilada. Até mesmo os pescadores são impedidos de acessar o mar ou têm sua atividade restrita a menos de um quilômetro da costa, transformando um meio de subsistência secular em um risco diário de morte.

A educação foi reduzida à mera sobrevivência. As crianças estudam em tendas ou em edifícios parcialmente destruídos, já que quase todas as escolas e universidades em Gaza foram danificadas ou destruídas pelos bombardeios israelenses.

Israel também não abandonou a retórica que lançou as bases ideológicas para o genocídio. Altos funcionários israelenses continuam a articular visões de devastação permanente e limpeza étnica — uma linguagem que desumaniza os palestinos enquanto enquadra a destruição como política, uma necessidade estratégica.

Mas por que Israel está determinado a manter Gaza à beira do colapso? Por que obstrui a estabilização e atrasa o avanço para a segunda fase do acordo de cessar-fogo?

A resposta é direta: Israel busca preservar a opção de limpeza étnica. Altos funcionários defenderam abertamente a ocupação permanente, a engenharia demográfica e a negação do retorno dos palestinos às suas áreas destruídas a leste da Linha Amarela.

E a mídia?

Por sua vez, a mídia ocidental começou a reabilitar a imagem de Israel, reinserindo-a nas narrativas globais como se o extermínio coletivo nunca tivesse ocorrido. Mais preocupante ainda, até mesmo parte da chamada mídia "pró-Palestina" parece estar seguindo em frente — como se o genocídio fosse uma tarefa temporária, em vez de uma emergência moral contínua.

Poder-se-ia tentar justificar essa negligência apontando para crises em outros lugares — Venezuela, Irã, Iêmen, Síria, Groenlândia. Mas esse argumento desmorona a menos que Gaza tenha realmente se recuperado da catástrofe, o que não aconteceu.

Israel conseguiu, em um grau perigoso, desumanizar sistematicamente os palestinos por meio de assassinatos em massa. Quando a violência atinge proporções genocidas, a violência em menor escala — porém ainda letal — torna-se normalizada. A morte lenta dos sobreviventes passa a ser um ruído de fundo.

É assim que os palestinos são mortos duas vezes: primeiro por meio do genocídio e depois por meio do apagamento — por meio do silêncio, da distração e da retirada gradual da atenção de seu sofrimento coletivo contínuo.

A Palestina e seu povo devem permanecer no centro da solidariedade moral e política. Isso não é um ato de caridade, nem uma expressão de alinhamento ideológico. É o mínimo que se deve a uma população que o mundo já negligenciou — e continua a negligenciar — todos os dias.

O silêncio agora não é neutralidade; é cumplicidade.

Vamos conversar sobre o Estado em descompasso?

É difícil acompanhar o debate público no Brasil sem tropeçar, quase diariamente, em alertas sobre a crise fiscal iminente, o crescimento dos gastos e a trajetória da dívida pública. É claro que a situação fiscal do país importa e que ignorar esses números seria irresponsável, ainda assim, confesso um incômodo persistente perante esse debate. Tenho a sensação de que ele ignora as pessoas: fala-se de corte de gastos como imperativo técnico, muitas vezes necessário para reduzir desperdícios, ineficiências e práticas inaceitáveis, como a corrupção, mas raramente se discute com a mesma ênfase onde esses cortes incidem e como afetam a provisão de serviços públicos essenciais e a vida das pessoas. Ajustes fiscais aparecem como abstrações, ignorando que seus efeitos sobre a saúde, a educação e outras políticas básicas se manifestam de forma muito concreta sobre a população, particularmente a mais vulnerável. Discute-se a insustentabilidade da previdência, mas quase nunca a velhice e o destino de milhões de pessoas que envelhecerão fora dos modelos que organizam essas contas.


Esse desconforto leva a algumas perguntas simples e incômodas: será que, como sociedade, estamos de fato nos preparando para o futuro, ou apenas reagindo, com categorias antigas, a problemas que já mudaram de natureza? Quando o futuro chegar – e ele chegará – teremos condições de cuidar de nossas crianças, apoiar as mães, amparar os idosos, prover segurança básica e garantir cidadania a quem vive fora do trabalho fixo e regular?

É claro que enfrentar os desafios associados às transformações em curso e às exigências do futuro passa, necessariamente, pelo crescimento econômico, pelo aumento da produtividade, pela redução da informalidade, da criminalidade e da injustiça tributária, bem como por um ambiente institucional que estimule investimento, inovação e geração de renda. Sem isso, a capacidade do Estado é estruturalmente limitada. Mas o ponto aqui é outro: mesmo quando – e se – o crescimento vier, esses problemas não se resolverão automaticamente. Eles dizem respeito à forma como o Estado se organiza, decide, coordena e sustenta direitos em uma sociedade que está mudando mais rápido do que suas instituições.

A conversa que proponho é olhar o Estado para além da sustentabilidade das contas, como uma construção histórica voltada a sustentar direitos, coordenar expectativas e oferecer alguma previsibilidade ao longo do ciclo de vida. Esse deslocamento revela um descompasso mais profundo e mais preocupante do que o fiscal: entre uma sociedade que já funciona em modo digital e um Estado ainda operando no modo analógico.

O Estado moderno se constituiu para tornar a incerteza socialmente administrável e para assegurar direitos, organizando a vida coletiva por meio de regras, instituições e políticas públicas. Essa dupla função – central na construção dos sistemas de proteção social e na garantia de direitos ao longo do século XX – passa a ser tensionada por transformações profundas e simultâneas que alteram o ambiente em que o Estado opera. Mudanças no mercado de trabalho, no perfil demográfico, na tecnologia, no clima e na própria política se acumulam, comprimem o tempo de resposta institucional e ampliam a distância entre os instrumentos disponíveis e os problemas a enfrentar, em um contexto agravado pela fragilização das instituições multilaterais e pela erosão das regras compartilhadas, cada vez mais substituídas pela política do mais forte.

Nesse contexto, o desafio central deixa de ser lidar com choques isolados e passa a ser administrar seus efeitos combinados. Mecanismos de coordenação, planejamento e proteção social concebidos para contextos mais previsíveis revelam limites crescentes. É nesse deslocamento silencioso – menos visível do que uma crise fiscal, mas mais profundo – que se consolida uma crise de adequação histórica, da qual os problemas de financiamento são apenas a face mais visível.

Durante muito tempo, crises foram tratadas como interrupções da normalidade, às quais o Estado respondia mobilizando instrumentos excepcionais para, em seguida, retomar o funcionamento regular de suas instituições. O que parece estar em curso hoje é uma mudança de regime: choques deixaram de ser episódios pontuais e passaram a compor o próprio ambiente em que o Estado opera. Pandemias, eventos climáticos extremos, instabilidades econômicas recorrentes e crises humanitárias não apenas se repetem, como frequentemente se sobrepõem, produzindo pressão contínua sobre a ação pública.

A esse cenário soma-se uma transformação decisiva na percepção social do tempo. Esperam-se respostas imediatas, decisões rápidas e soluções visíveis em prazos cada vez mais curtos, mesmo quando os problemas se tornam mais complexos, interdependentes e difíceis de resolver. A demora, ainda que necessária, passa a ser interpretada como falha ou omissão.

Esse encurtamento do tempo social entra em tensão direta com o funcionamento das instituições públicas e da própria democracia. Procedimentos, controles, coordenação entre níveis de governo, negociação entre interesses divergentes e respeito a marcos legais exigem tempo. Esses mecanismos, que funcionam como garantias contra arbitrariedades e erros graves, passam a ser percebidos como entraves em um ambiente que valoriza a velocidade acima de quase tudo.

O resultado é um descompasso crescente entre expectativas sociais e capacidade institucional. A ação estatal tende a ser julgada menos por sua consistência ao longo do tempo e mais por sua capacidade de reagir rapidamente. Decisões complexas são avaliadas antes mesmo de produzir efeitos, o espaço para planejamento estrutural se estreita e a exceção deixa de ser um desvio temporário, passando a moldar de forma persistente o cotidiano da ação estatal.

Pensar o futuro do Estado exige deslocar o foco do quanto ele gasta para como ele se organiza, decide e sustenta direitos ao longo do tempo. Esse deslocamento revela, no cotidiano da ação pública, um descompasso crescente entre demandas que se multiplicam, expectativas que se ampliam e a capacidade efetiva de hierarquizar prioridades. O Estado é chamado a agir em mais frentes, sob maior intensidade e escrutínio permanente, com instrumentos institucionais concebidos para contextos menos turbulentos, fragmentados e polarizados.

Um aspecto central dessa dinâmica – frequentemente negligenciado no debate público – é que as demandas dirigidas ao Estado não incorporam limites de capacidade fiscal, administrativa ou institucional. Elas se apresentam como necessidades imediatas, direitos legítimos ou injustiças a serem reparadas e, do ponto de vista de quem as vive, muitas vezes são exatamente isso. O problema é que essas demandas inevitavelmente se acumulam, em volume e complexidade muito superiores à capacidade do Estado de absorvê-las e transformá-las em ação pública consistente.

Essa pressão se exerce de forma vertical e horizontal, atravessando níveis de governo e áreas de atuação distintas, frequentemente sem clareza sobre competências, responsabilidades ou capacidade de coordenação. Tudo parece urgente, tudo parece essencial, tudo exige resposta imediata.

Essa lógica tem efeitos diretos sobre a política. Quando tudo se apresenta como prioridade absoluta, escolher passa a ser visto como negar direitos; hierarquizar, como arbitrariedade; planejar, como demora injustificável. O espaço para decisões estratégicas se estreita, e a política passa a operar sob gestão permanente de conflitos, mais voltada a administrar pressões do que a sustentar escolhas no tempo.

O resultado é um Estado que opera cada vez mais próximo do limite – não apenas fiscal, mas organizacional, político e institucional. Emergências deixam de ser desvios temporários e passam a ocupar o centro da ação estatal. A lógica do improviso e da resposta rápida tende a se normalizar, substituindo o planejamento e a ação estruturante.

Não se trata, aqui, de incapacidade técnica pura e simples. Em muitos casos, essa forma de operar é uma resposta racional a um ambiente que pune a prudência, deslegitima a demora e recompensa o gesto visível. Sob essas condições, o Estado passa a funcionar menos como organizador estratégico da vida coletiva e mais como amortecedor permanente de choques sucessivos.

Este texto não pretendeu oferecer respostas nem soluções prontas. Seu objetivo foi outro: reorganizar a forma como formulamos o problema do Estado, examinando seu funcionamento no presente para iluminar os riscos que se projetam no horizonte. As transformações aqui discutidas não são apenas desafios imediatos, mas sinais de tensões estruturais que, se mantidas, tendem a se aprofundar nas próximas décadas.

A pergunta central, portanto, não é apenas como o Estado funciona hoje, mas que tipo de Estado será capaz de sustentar, no futuro, funções básicas de proteção, cuidado, coordenação e garantia de cidadania em uma sociedade que já não se organiza como antes. Uma sociedade que envelhece com trajetórias de trabalho cada vez mais irregulares, famílias menores e mais dispersas, redes tradicionais de cuidado fragilizadas e demandas por proteção que atravessam todo o ciclo de vida. Nada disso se resolve apenas com ajustes fiscais, nem pode ser tratado como emergência pontual.

Abrir essa conversa significa reconhecer que o desafio central não é apenas administrar melhor o Estado que temos, mas perguntar se ele está se preparando – institucional, política e socialmente – para o mundo que vem pela frente. Nos próximos textos, essa reflexão será aprofundada a partir de alguns desses pontos críticos: o Estado que passa a operar sob emergência quase permanente; a crise da proteção social ao longo do ciclo de vida; os limites de poder, autoridade e capacidade que atravessam a ação estatal; e, por fim, a necessidade de repensar o futuro do Estado para além dos dilemas simplificadores que dominam o debate atual.

Imperialismo sem civilização

O imperialismo retorna ao centro do debate contemporâneo. Mas o faz sob uma forma historicamente distinta daquela que estruturou o passado. Há uma boa dose de evidências que apoiam essa perspectiva.

Apresenta-se como projeto de poder orientado para a conquista territorial.

Durante os séculos XIX e XX, o imperialismo se impôs por meio de um robusto aparato normativo e discursivo destinado a legitimar a dominação territorial, a racialização das populações colonizadas e a violência estrutural do governo imperial. A expansão imperial articulava hierarquias raciais, racismo institucionalizado e promessas de civilização, progresso e desenvolvimento que funcionavam menos como objetivos emancipatórios e mais como justificativas morais para a conquista e o controle.

O fato é que a violência imperial, ainda que brutal e sistemática, era envolta por uma narrativa civilizatória que buscava conferir sentido e legitimidade à dominação: o império apresentava-se como agente de governo e reforma, ao menos em seu próprio imaginário, dos territórios e populações submetidos à sua autoridade. No mundo contemporâneo, entretanto, essa lógica civilizatória já não é necessária. O imperialismo persiste, mas não se apresenta como projeto moral ou universalista, operando cada vez mais de forma desprovida de pretensões normativas.

Particularmente na política internacional, o imperialismo, compreendido como uma forma específica de exercício do poder, tem ocupado lugar central desde a consolidação do sistema europeu de Estados, moldando, ao longo de séculos, tanto os padrões de desenvolvimento econômico quanto a própria configuração da ordem internacional. Colonizar era, segundo essa lógica, civilizar: levar progresso, racionalidade, cristianismo, desenvolvimento, Estado e mercado a povos considerados atrasados. A missão civilizadora funcionava como linguagem legitimadora do império, ainda que seus efeitos concretos fossem expropriação, violência e morte.

O imperialismo não se apresenta como portador de valores universais nem promete um futuro compartilhado. Não é mais necessário justificar desestabilização externa e ocupação territorial com valores humanos supostamente elevados. O que se observa é a emergência de um imperialismo sem civilização: uma forma de poder que domina sem precisar convencer, ocupa sem integrar e exerce violência sem oferecer qualquer horizonte normativo em troca.

Exemplos recentes ilustram esse padrão: a ambição declarada do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de controlar a Groenlândia, incluindo a possibilidade de uso da força, demonstrou que a lógica imperial contemporânea pode operar mesmo entre aliados tradicionais, ameaçando arruinar a coesão da própria aliança do Atlântico Norte. Publicações nas redes sociais e imagens simuladas por inteligência artificial reforçaram a percepção de um projeto de dominação direta, sem necessidade de justificar-se por valores universais ou “missão civilizadora”.

Mesmo aliados históricos dos Estados Unidos, como Canadá, México ou países europeus, passaram a ser diretamente afetados pela assertividade nua da política de poder norte-americana. O que antes parecia restrito às periferias do sistema internacional – “o resto do mundo” – manifesta-se agora também entre parceiros tradicionais, seja nas relações transatlânticas, seja na relação entre Estados Unidos e Canadá.


O discurso do primeiro-ministro canadense em Davos, em 2026, é particularmente revelador. Ao reconhecer que a chamada “ordem internacional baseada em regras” sempre foi uma ficção funcional, marcada por aplicação seletiva do direito internacional, assimetrias na imposição das regras comerciais e exceções sistemáticas em favor dos mais fortes, o premiê não denuncia uma anomalia recente, mas explicita um pacto tácito. Essa ficção, admitiu, foi útil enquanto a hegemonia americana fornecia bens públicos, previsibilidade e proteção suficientes para que países como o Canadá pudessem sustentar políticas externas “baseadas em valores”.

Esa lógica de dominação não é nova. Cabe lembrar que, na Europa do século XIX, o império era amplamente concebido como uma forma legítima e desejável de organização do poder internacional. No debate intelectual europeu, o imperialismo era entendido como um mecanismo necessário à estabilidade da ordem internacional, capaz de produzir integração econômica e interdependência entre diferentes regiões do mundo. Essa compreensão associava diretamente a expansão imperial à ideia de progresso histórico e à missão civilizadora, apoiando-se em uma percepção generalizada de superioridade cultural e moral europeia em relação aos demais povos. Nos dias de hoje, contudo, essa lógica encontra-se profundamente esvaziada.

A diferença fundamental do presente reside menos na natureza da dominação do que na perda de centralidade desses regimes de justificação. Se no século XIX o império precisava se apresentar como portador de civilização e progresso, e se no pós-Segunda Guerra Mundial a hegemonia se legitimava por meio da promessa de regras, instituições e valores universais, hoje essa mediação normativa tornou-se politicamente dispensável. A dominação persiste, mas já não necessita nem da retórica civilizatória nem da ficção de uma ordem internacional baseada em regras para se exercer.

Esse deslocamento ajuda a compreender por que categorias como “hipocrisia liberal” ou “duplo padrão” parecem insuficientes para explicar a política internacional atual. Essas leituras partem do pressuposto de que ainda existiriam valores universais sendo traídos na prática. O problema, porém, é mais profundo: em muitos casos, tais valores simplesmente deixaram de ser relevantes como fundamento da ação imperial. Não se trata de violar normas, mas de operar com indiferença em relação a elas.

Não se trata de violar normas, mas de operar com indiferença em relação a elas. A guerra na Ucrânia, a devastação contínua de Gaza e as múltiplas formas de intervenção e coerção no hemisfério americano ilustram esse padrão. Em tais contextos, a linguagem do direito internacional, da proteção de civis ou da autodeterminação surge de forma seletiva e instrumental, quando não é simplesmente abandonada, enquanto a lógica que orienta a ação é a do controle territorial, da dissuasão estratégica e da imposição de custos ao adversário, independentemente das consequências políticas ou humanas.

Um dos sinais mais evidentes dessa transformação é o retorno do território como instrumento central do poder. No imperialismo clássico, o território colonial era um espaço a ser administrado, reorganizado e explorado: construíam-se instituições, infraestruturas, sistemas jurídicos e modelos econômicos voltados à integração subordinada ao império. Hoje, o território aparece cada vez mais como espaço de contenção, fragmentação e negação. Controla-se para impedir, bloquear, cercar ou desestabilizar, não para governar ou explorar.

Nesse contexto, o imperialismo sem civilização também se manifesta por meio do que podemos chamar de encontros imperiais. O mundo contemporâneo já não é estruturado por um único centro hegemônico capaz de impor sua narrativa universal, mas por zonas de fricção onde diferentes projetos imperiais (antigos e emergentes) se cruzam, se sobrepõem e se confrontam. Ao contrário do imperialismo clássico, que buscava ordenar o mundo a partir de uma hierarquia relativamente estável, os encontros imperiais produzem instabilidade crônica, fragmentação política e violência prolongada. O resultado não é a substituição de um império por outro, mas a multiplicação de formas de dominação que coexistem, colidem e se reforçam mutuamente, sem oferecer qualquer horizonte de reconstrução ou futuro compartilhado.Crédito: PHC Albert Bullock

Essa lógica contribui para a proliferação de zonas militarizadas, fortificação e controle de fronteiras, áreas permanentemente instáveis e territórios convertidos em espaços de exceção. A soberania deixa de ser violada em nome de uma promessa universal e passa a ser simplesmente negada por razões estratégicas. O Outro já não precisa ser “civilizado”; basta que seja neutralizado, deslocado ou mantido em condição de vulnerabilidade permanente.

Essa forma de dominação produz um tipo específico de violência. Não há esforço consistente de reconstrução política, social ou econômica após intervenções, ocupações ou cercos, nem a pretensão de incorporar esses territórios a uma ordem internacional estável. Nessa configuração, sociedades inteiras passam a figurar como objetos de agressão imperial, reduzidas a espaços estratégicos a serem controlados ou neutralizados. Diante desse cenário, a afirmação da soberania deixa de ser apenas uma reivindicação normativa e torna-se uma necessidade política fundamental frente ao império. O imperialismo contemporâneo não oferece pertencimento, apenas dominação. Não produz mundos colonizados; administra ruínas e interesses imperiais.

O declínio da hegemonia liberal ajuda a explicar esse quadro, mas não no sentido frequentemente anunciado de um mundo pós-imperial. O que emerge é um mundo sem ordem internacional, marcado por imperialismos concorrentes, desprovidos de projeto civilizacional. Trata-se menos de exportar modelos e mais de controlar espaços estratégicos, rotas logísticas, recursos naturais e posições geopolíticas-chave. O império já não precisa ser admirado nem reconhecido como superior; basta ser temido.

Essa transformação tem implicações profundas para a forma como pensamos a política internacional. A crítica precisa deslocar-se do campo da incoerência moral para o da estrutura do poder, da geopolítica do território e da produção sistemática de desigualdade, insegurança e necropolíticas.

O imperialismo sem civilização é, nesse sentido, mais perigoso. Ao abandonar a promessa de progresso, ele também abdica de qualquer responsabilidade com o futuro dos territórios que domina. Governa menos, destrói mais. Prospera em um cenário de colapso das promessas modernas, como desenvolvimento, universalismo, progresso, sem que isso signifique o fim da dominação.

Compreender essa nova forma de imperialismo é fundamental para evitar análises nostálgicas, que ainda esperam do poder global algum compromisso com valores que já não estruturam sua ação. O desafio político e intelectual do presente talvez seja este: pensar a resistência, a soberania e a justiça internacional em um mundo no qual o império já não sente sequer a necessidade de fingir que civiliza.

O imperialismo contemporâneo perde sua lógica civilizatória não por ter se tornado mais ético ou mais contido, mas porque civilizar deixou de ser funcional ao exercício do poder. Em um mundo marcado por disputas territoriais, encontros imperiais e pela centralidade da coerção geopolítica, já não importa integrar, convencer ou oferecer futuros compartilhados. Basta conquistar, conter e controlar. A promessa de civilização, que antes organizava hierarquias e legitimava a violência, torna-se dispensável diante de uma forma de dominação que opera pela indiferença e pela negação. O império já não governa para transformar; domina para impedir. Nesse deslocamento, não apenas se esgota a linguagem civilizatória, como se revela um traço inquietante do presente: um poder global que prescinde de sentido, de responsabilidade e de horizonte, e que, justamente por isso, se torna mais perigoso.

O elefante no texto

O tema não é novo. Novo sou eu, que só agora arranjei vagar para falar sobre ele. Algum dia teria de ser. O ChatGPT apareceu em 2022 e, desde então, sempre que alguém começa a discorrer sobre o assunto, mudo de divisão. Mudei de quarto mental dezenas de vezes, nestes últimos três ou quatro anos.

Chama-se à coisa “inteligência artificial”. Um excesso semântico da mesma família de “fidelidade” nos contratos com empresas de telecomunicações. Uma inteligência exige um alguém, lembrava o John Maus. E alguém, lembro eu, tem mau hálito de manhã e um dia morre. Coisa que não se dá em modelos estatísticos.


Como quase tudo o que nasce sobre o signo da novidade, a conversa é desinspiradora. O entusiasta, munido daquele tipo imprescindível de optimismo que oprime quem ouve, é invariavelmente mais enervante que o pessimista. Mas o pessimista pessimista também não presta grande serviço. Não fosse a vida já fardo suficiente. Ainda por cima ter de levar com mais um velho do restelo a ensaiar teorias do caos a partir da última novidade tecnológica.

Quem me lê sabe do meu cepticismo militante. Daí a opção silenciosa até ao momento.

O impulso surgiu-me ainda há pouco, enquanto lia a crónica do Miguel Esteves Cardoso no Público. O tema era a estupidificação da vida, telemóveis, o défice de atenção promovido pelos argumentistas da Netflix. Mas, quase no fim, surgiu a frase: “A concentração já não é um objectivo — é uma sentença de morte por tédio.”

Aquilo não era só uma frase. Era um animal inteiro a entrar pela sala dentro. Um elefante. Na correção enfática, as orelhas; no travessão, a tromba. Esses dois tiques são uma espécie de caligrafia da máquina. E a máquina adora parecer profunda.

Quem lê muito reconhece logo os sinais. E, ao contrário do que se diz, hoje as pessoas lêem. Passam o dia a ler. Não lêem é livros. Os casos flagrantes são aqueles textos muito redondinhos, tipo ampola lexical, cheios de aforismos prontos a dissolver-se em água. Aparecem-nos em grupos de WhatsApp. Vêm quase sempre do Facebook. São quase sempre apócrifos. E tanto versam sobre factos históricos, como auto-ajuda, André Ventura ou edredões térmicos. A mesma prosa serve para tudo. Como margarina.

Não me interpretem mal. Não estou a acusar o Miguel Esteves Cardoso de usar modelos de linguagem para escrever — ou sequer rever, ou afinar, ou o que seja. Eu próprio uso travessões com prodigalidade. Fi-lo ainda agora. Voltarei a fazê-lo — sem culpa. Mas desde que li, algures no Substack, alguém comparar o travessão ao piscar-de-olho-de-Replicant do Blade Runner, travessão ao piscar-de-olho-de-Replicant do Blade Runner, tornei-me mais parcimonioso no seu uso. O que é pena, pois gosto muito do travessão.

(E agora uso da correcção enfática). O problema não é a gramática. É a). O problema não é a gramática. É a suspeita.

Quem falou disto foi o João Lameira, argumentista e realizador, autor do Substack Diga-se de passagem. Chamou-lhe “paranóia da escrita”, onde cada frase passa a ser objecto de interrogatório.

Dirão que é um exagero. Que um grande modelo de linguagem é apenas um revisor de bolso. Que a sua utilização consciente e avisada é “uma forma perfeitamente legítima de trabalhar a escrita”. Está bem. Acreditem nisso. Dê-se uma maçã a uma mulher, ela come. Logo a seguir vem o homem. Num abrir e fechar de olhos somos nós, no bolso do ChatGPT, a segurar-lhe as vírgulas.

Poder-se-ia ainda achar que é mesmo assim. É como se faz agora. Como a filha de um amigo que usou o ChatGPT para lhe escrever uma carta no Dia do Pai. Há qualquer coisa de instintivamente repulsivo nisto. Qualquer coisa de abjecto na ideia de delegar numa máquina as tarefas que revelam aquilo que temos de mais humano. Como se fôssemos Christians, de Roxanne, repetindo o que Cyrano nos segreda por detrás dos arbustos.

Daí o sururu quando a japonesa Rie Kudan admitiu ter usado cerca de 5% de contributos de modelos de linguagem no seu novo livro. Disse que lhe permitiu libertar o seu potencial criativo. Não duvido. Mas aprisionou o nosso potencial de leitura.

Há, por isso, quem defenda que o uso destas ferramentas deve ser assinalado em rodapé, tipo tabela nutricional. Sabem que mais? Escritor leal não entrega as fontes. Não nos digam nada. Queremos continuar a ler em sossego.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Flávio parece um candidato ao conselho de ditadores de Trump

Desde que recebeu a ordem de concorrer às eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro já esteve nos Estados Unidos tentando tirar uma foto com Marco Rubio –encontrar-se com Donald Trump era um sonho impossível. Levou um perdido do secretário de Estado, apesar de todo o empenho do irmão Eduardo. Agora viajou a Israel, Bahrein e Emirados Árabes, num movimento de aproximação com a extrema direita internacional.

É uma agenda tão distante do Brasil que mais parece a de um candidato ao conselho de paz –na verdade um covil de autocratas– que o autocrata-mor Trump está empurrando goela abaixo da ONU.

A excursão de Flávio, no entanto, é bancada pelos cofres públicos brasileiros. No total, ele vai receber US$ 7.900, mais de R$ 42 mil, dinheiro do Senado. O filho 01 aproveitou para se batizar no rio Jordão –pela segunda vez, a primeira não deve ter sido bastante– e tocar no Muro das Lamentações, com quipá na cabeça e oração a Jesus.

Ao voltar da viagem, nos planos de Flávio estão a escolha de seu "Paulo Guedes", seu "Posto Ipiranga", um nome ligado ao mercado financeiro para comandar a economia do país, e o milagre de se tornar eleitoralmente competitivo no Nordeste, região que é tratada nas redes bolsonaristas a pontapés preconceituosos.

A indefinição quanto ao palanque com Tarcísio de Freitas em São Paulo continua. As próximas pesquisas, principalmente as internas, encomendadas pelos partidos, vão decidir se Tarcísio irá optar pela candidatura a presidente ou pela reeleição a governador. Quem conseguir pontuar mais perto de Lula será o escolhido. Até o azarão Ratinho Jr. tem chance.

O cenário no Rio de Janeiro não é menos complicado. Nas eleições municipais, o golpista Alexandre Ramagem –que, indicado por Bolsonaro, recebeu do PL mais de R$ 26 milhões para torrar na campanha– perdeu de lavada para Eduardo Paes, que mira o Palácio Guanabara com apoio de Lula. O certo é que o candidato a governador preferido por Flávio será alguém ao estilo Ramagem: tiro, porrada e bomba.

O elefante no texto

O tema não é novo. Novo sou eu, que só agora arranjei vagar para falar sobre ele. Algum dia teria de ser. O ChatGPT apareceu em 2022 e, desde então, sempre que alguém começa a discorrer sobre o assunto, mudo de divisão. Mudei de quarto mental dezenas de vezes, nestes últimos três ou quatro anos.

Chama-se à coisa “inteligência artificial”. Um excesso semântico da mesma família de “fidelidade” nos contratos com empresas de telecomunicações. Uma inteligência exige um alguém, lembrava o John Maus. E alguém, lembro eu, tem mau hálito de manhã e um dia morre. Coisa que não se dá em modelos estatísticos.


Como quase tudo o que nasce sobre o signo da novidade, a conversa é desinspiradora. O entusiasta, munido daquele tipo imprescindível de optimismo que oprime quem ouve, é invariavelmente mais enervante que o pessimista. Mas o pessimista pessimista também não presta grande serviço. Não fosse a vida já fardo suficiente. Ainda por cima ter de levar com mais um velho do restelo a ensaiar teorias do caos a partir da última novidade tecnológica.

Quem me lê sabe do meu cepticismo militante. Daí a opção silenciosa até ao momento.

O impulso surgiu-me ainda há pouco, enquanto lia a crónica do Miguel Esteves Cardoso no Público. O tema era a estupidificação da vida, telemóveis, o défice de atenção promovido pelos argumentistas da Netflix. Mas, quase no fim, surgiu a frase: “A concentração já não é um objectivo — é uma sentença de morte por tédio.”

Aquilo não era só uma frase. Era um animal inteiro a entrar pela sala dentro. Um elefante. Na correção enfática, as orelhas; no travessão, a tromba. Esses dois tiques são uma espécie de caligrafia da máquina. E a máquina adora parecer profunda.

Quem lê muito reconhece logo os sinais. E, ao contrário do que se diz, hoje as pessoas lêem. Passam o dia a ler. Não lêem é livros. Os casos flagrantes são aqueles textos muito redondinhos, tipo ampola lexical, cheios de aforismos prontos a dissolver-se em água. Aparecem-nos em grupos de WhatsApp. Vêm quase sempre do Facebook. São quase sempre apócrifos. E tanto versam sobre factos históricos, como auto-ajuda, André Ventura ou edredões térmicos. A mesma prosa serve para tudo. Como margarina.

Não me interpretem mal. Não estou a acusar o Miguel Esteves Cardoso de usar modelos de linguagem para escrever — ou sequer rever, ou afinar, ou o que seja. Eu próprio uso travessões com prodigalidade. Fi-lo ainda agora. Voltarei a fazê-lo — sem culpa. Mas desde que li, algures no Substack, alguém comparar o travessão ao piscar-de-olho-de-Replicant do Blade Runner, travessão ao piscar-de-olho-de-Replicant do Blade Runner, tornei-me mais parcimonioso no seu uso. O que é pena, pois gosto muito do travessão.

(E agora uso da correcção enfática). O problema não é a gramática. É a). O problema não é a gramática. É a suspeita.

Quem falou disto foi o João Lameira, argumentista e realizador, autor do Substack Diga-se de passagem. Chamou-lhe “paranóia da escrita”, onde cada frase passa a ser objecto de interrogatório.

Dirão que é um exagero. Que um grande modelo de linguagem é apenas um revisor de bolso. Que a sua utilização consciente e avisada é “uma forma perfeitamente legítima de trabalhar a escrita”. Está bem. Acreditem nisso. Dê-se uma maçã a uma mulher, ela come. Logo a seguir vem o homem. Num abrir e fechar de olhos somos nós, no bolso do ChatGPT, a segurar-lhe as vírgulas.

Poder-se-ia ainda achar que é mesmo assim. É como se faz agora. Como a filha de um amigo que usou o ChatGPT para lhe escrever uma carta no Dia do Pai. Há qualquer coisa de instintivamente repulsivo nisto. Qualquer coisa de abjecto na ideia de delegar numa máquina as tarefas que revelam aquilo que temos de mais humano. Como se fôssemos Christians, de Roxanne, repetindo o que Cyrano nos segreda por detrás dos arbustos.

Daí o sururu quando a japonesa Rie Kudan admitiu ter usado cerca de 5% de contributos de modelos de linguagem no seu novo livro. Disse que lhe permitiu libertar o seu potencial criativo. Não duvido. Mas aprisionou o nosso potencial de leitura.

Há, por isso, quem defenda que o uso destas ferramentas deve ser assinalado em rodapé, tipo tabela nutricional. Sabem que mais? Escritor leal não entrega as fontes. Não nos digam nada. Queremos continuar a ler em sossego.

Signos sem significado

Alguém me falou de um anúncio institucional que a Unesco publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia de uma frase escrita de trás para a frente —ideia talvez tirada de "Alice Através do Espelho" (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar "do lado de lá" do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto —uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.

No Brasil, 5,2% da população ainda continuam analfabetos. Parece pouco, mas são mais de 10 milhões de pessoas, o equivalente à população de São Paulo. Some a isto os 29%, entre 15 e 64 anos, que são analfabetos funcionais (leem, mas não entendem uma notícia de jornal ou uma bula de remédio), e veja como o Brasil continua longe do século 21. Por sorte, alguns desses analfabetos sabem de sua condição e não querem que se estenda a seus filhos.

Três pessoas que prestam serviços ao meu redor, incapazes de ler ou escrever, são inspiradores exemplos. Uma manicure fez de seus três filhos um advogado, uma psicóloga e uma assistente social. Um porteiro, homem humilde e boníssimo, fez da filha engenheira, e chorou de comoção na cerimônia de formatura dela. E um encanador, que não sabe dizer a chave do seu Pix (mostra um papelzinho com o número), também formou a filha em direito. Dois desses jovens se beneficiaram de bolsas integrais da PUC.

Como pessoas que não sabem ler conseguem viver numa grande cidade, com sua desordem de cartazes, placas, luminosos, indicações, itinerários e manchetes? É um mundo de signos ocos, para elas sem significado. Que códigos não terão de criar para saber qual ônibus tomar? Como lidar com dinheiro ou cartão? Como receber uma mensagem por celular?

Sempre achei que o momento em que se aprende a ler representa mais que um segundo parto. Talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo.

Adeus, María Corina

Se arrependimento matasse, o planeta não estaria com problema de superpopulação. “Non, je ne regrette rien” talvez valha para Édith Piaf como forma de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sem reconhecer que errou rude nas coisas do coração. Nas questões ideológicas, atire o primeiro termo de ajustamento de conduta quem nunca teve de enfiar a viola no saco e se perguntar onde é que estava com a cabeça quando curtiu, gostou, apoiou ou ajudou a eleger uns e outros.

Há aqueles que nunca enganaram ninguém: Trump, Toffoli, Roberto Jefferson, Edir Macedo, Pablo Marçal, Paulo Maluf, Silas Malafaia. E nem precisa ser lombrosiano: o olhar cúpido, a mitomania, a fala melíflua, a egolatria, o cabelo gomalinado — há sempre algo que levanta a bandeirinha vermelha e avisa: perigo se aproxima.

Acreditei em Lula, quando, em 2003, ele contou:

— Depois que ganhei a eleição, uma televisão fez uma matéria em que aparecia um catador no Rio de Janeiro comendo um pedaço de melancia do lixo. Ele dizia: “Talvez esse seja o último pedaço de melancia do lixo que vou comer, porque o Lula, eleito presidente, vai ajudar a resolver esse problema”.

Lula chorou, e eu lacrimejei junto, feliz em ver um operário na Presidência — alguém que, tendo passado por tantas privações, faria da erradicação da miséria uma das prioridades de seu governo. Em vez disso, vieram o mensalão, o petrolão, o triplex, os pedalinhos, os aloprados.

Bolsonaro não tinha uma única boa referência, mas não era possível que fosse tão estúpido a ponto de... Pois ele foi. E foi com gosto. Às vésperas da eleição de 2018, mandei-lhe por aqui uma carta aberta:

— Conservadorismo não significa atraso, intolerância. (...) Desarme o espírito, aposente os gestos bélicos e contará também com os que não votam em você, mas cultivam essa estranha mania de ter fé no Brasil.

A fé dele era na cloroquina, no poder e na própria família. Errou tanto, e numa escala tão monumental, que o país, entre perder ou deixar de ganhar, deu outra chance ao PT.

Encurtando a história, sou bom em esperanças vãs. Como as que acalentei por Sergio Moro (e combinar camisa preta com gravata preta era um sinal tão claro...). Por Cármen Lúcia (foi do “cala a boca já morreu” à “situação excepcionalíssima” sem corar — e eu achando que ela seria daquelas de negar, quando é fácil ceder). Me encantei com Jordan Peterson e sua crítica ao autoritarismo da esquerda, aos excessos do politicamente correto — hoje olho e vejo um narcisista, igualmente autoritário.

A mais recente aquisição para minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana María Corina Machado. A bravura virou sabujice; a oposição, entreguismo; o amor à pátria, à liberdade e à democracia, algo que ainda carece de nome (nunca se tinha chegado tão baixo a ponto de precisar palavra para isso no dicionário).

Lá em casa, quando alguma coisa não tinha volta, minha mãe dizia “Adeus, Corina” —menção a um forró dos anos 60 (“Adeus, Corina, que eu vou embora/Quem parte leva saudade/e quem fica também chora”). Há os que pegam o bonde errado e vão até o ponto final (estão aí, até hoje, os stalinistas, os fascistas...). Eu digo adeus, Corina, Luiz, Jair, Jordan, Sergio, Cármen — e desço no próximo ponto.

Ainda bem que não sou influêncer de nada e não arrastei ninguém comigo nos meus enganos. Mas perdão foi feito pra gente pedir. Nem que seja só a nós mesmos.

'Amo-te, querido eu'

Assim mesmo, sem inibições ideológicas: ai ni laoji (“amo-te, querido eu”)! Foi uma das expressões mais populares de 2025 entre os jovens internautas chineses, apurou a Sixth Tone, uma publicação online da empresa municipal Shanghai United Media Group. “Ao contrário das gerações mais velhas”, a geração Z (nascida nos primeiros anos do século XXI) “está a optar pelo amor-próprio” e pelo “individualismo”, comentou na semana passada um analista da publicação.

Segundo a mesma fonte, vídeos sob o tema “um primeiro brinde a mim próprio” exibidos desde agosto no Douyin, o TikTok na China, atraíram mais de mil milhões de visionamentos.

O diagnóstico do historiador Xu Jilin confirmou-se: para as novas gerações chinesas, “ideais abstratos e grandes desígnios nacionais já não são importantes”, afirmou há um ano aquele professor da East China Normal University, em Xangai.


Um comentário publicado no Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês, descreveu o fenómeno como “uma ligeira mudança nos valores sociais” e uma chamada de atenção para os “sentimentos individuais”. Parece mais do que uma “ligeira mudança”.

Oficialmente, o coletivismo ainda é “um importante símbolo da civilização espiritual socialista” e “servir o povo” continua a ser uma divisa do governo. Nas escolas, todas as crianças são ensinadas a “amar o partido, o país e o povo”.

Mais de 200 milhões de chineses são filhos únicos. Fruto da política “um casal, um filho” imposta até 2016, eles cresceram como xiao huangdi (pequenos imperadores), o centro das atenções – e das expectativas – de dois pais e quatro avós. “Afastando-se das redes familiares e de vizinhança outrora próximas, eles agora desfrutam de maior liberdade de escolha – mas também enfrentam a vida por conta própria. Momentos de solidão ou desânimo vêm acompanhados da sensação de que não há ninguém em quem se apoiar”, diz a Sixth Tone. “É neste contexto que ideias como ‘amo-te, querido eu’ ganharam popularidade.”

A China, entretanto, converteu-se à economia de mercado e como escreveu Hu Anyan no livro Entrego Encomendas em Pequim, a sociedade tornou-se “intensamente competitiva”. Cerca de 12 milhões de novos licenciados saem anualmente das universidades chinesas. Apesar do elevado crescimento económico do país, não é fácil encontrar um bom emprego. Não contando com os estudantes, em novembro o índice oficial de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos era de 16,9% – mais do triplo da média nacional (5,1%).

Nascido em 1957, oito anos após a fundação da República Popular da China, Xu Jilin é especialista em História Intelectual Chinesa nos séculos XX e XXI. Assume-se abertamente como “liberal”, o que o distingue das outras duas grandes correntes intelectuais do seu país: a chamada Nova Esquerda e os neoconfucianos. Numa entrevista concedida em janeiro de 2025, salientou: “As gerações mais jovens já não se unem em torno de ideais abstratos. Nos vários movimentos sociais nos quais estão envolvidas, o seu foco está claramente nos direitos individuais específicos. Os seus objetivos são limitados, concretos e ligados à vida pessoal e aos interesses próprios.”