domingo, 24 de maio de 2015

E agora?



Como fica agora, Quaquá, o porto de Jaconé? Seu querido e megaporto que iria trazer a fartura de desenvolvimento para o município de Maricá? Por lá passaram construtoras holandesas, árabes e chinesas e agora a área é tombada. O porto petista, mais uma vez, e sempre, vira balela eleitoreira.
"Quá-quaraquaquá, quem riu..."

O sonho que virou pesadelo

Charge O Tempo 23/05
O orçamento foi aprovado pelo Legislativo, segundo previsão do Executivo, que agora retira 69.9 bilhões de reais do total. Todos os setores do governo foram atingidos, mas a indignação maior refere-se à Saúde, que perde 11.774 bilhões e à Educação, garfada em 9.423 bilhões. Hospitais e escolas, de resto deficientes e insuficientes, sofrem a maior agressão. A quem a população deve reclamar? Aos que puseram a economia nacional em frangalhos, quer dizer, o governo, grande responsável pelo caos que nos assola. Primeiro por sua incapacidade. Depois pela imprevidência. Só que quem vai arcar com o prejuízo somos nós, a sociedade.

Quando em campanha pela reeleição, em outubro passado, a presidente Dilma nem por um momento admitiu as dificuldades já mais do que evidentes. Iludiu a maioria do eleitorado, escondendo-se atrás da falsa euforia e das promessas vãs. Direitos trabalhistas e previdenciários estão sendo reduzidos. Impostos, aumentados. O desemprego caminha a passos largos, junto com a pobreza. A inadimplência se multiplica. A violência também. Uns poucos privilegiados mandam seus milhões para o exterior, enquanto as massas deixam de ranger os dentes pela falta deles.

Convenhamos, alguma coisa precisa ser feita. Em tempos remotos, mas nem tanto, o povo ganhava as ruas e pela força depunha seus governantes. Com o aprimoramento da democracia, estabeleceram-se soluções pacíficas, mas eficientes. No parlamentarismo, caem os gabinetes. No presidencialismo, surgem o impeachment e novas eleições.

Não há porque o país acomodar-se a três anos e meio de novas frustrações, quando nem se tem certeza de as instituições se sustentarem até lá. Para evitar a desagregação nacional a palavra de ordem só pode ser de “basta”. De “fora”, por quaisquer instrumentos ou mecanismos possíveis, de preferência constitucionais.

O governo de Madame acabou com esse melancólico final antecipado. O pouco que lhe restava de credibilidade acaba de sair pelo ralo. O Partido dos Trabalhadores não é mais dos trabalhadores e deixou de ser partido. O corte de quase 70 bilhões acaba de selar o destino do sonho que virou pesadelo
.

A riqueza imperecível

Gente suando por mais riqueza, títulos, poder e honras – sem tempo para olhar as estrelas, a natureza, as crianças, a vida que escorre e some pela via. Gente pisando na grama, atropelando a vida, sacrificando animais, arrancando flor pela raiz.

Riqueza fantasiada de felicidade. Riqueza acima do necessário, riqueza arrancada sem escrúpulo, disputada a qualquer preço. Riqueza que desconhece a importância de sua origem, dos métodos usados, dos sofrimentos gerados. Riqueza maldita. Para quê?

Ansiedade, provocação, afã, luta, suor e até sangue.

Ter mais, mais que o vizinho, mais do que tudo.

Riqueza sem objetivo, sem rumo, sem fim, sentada sobre um monte de vítimas. Riqueza para pagar guarda-costas e advogados, para perder o sossego; escancarada, vulnerável, sequestrável. Riqueza para fazer a festa de malandros, exposta à queda da Bolsa, à desvalorização cambial, ao assaltante e ao gatuno.

Riqueza monumental guardada em palácios e moradas, que não cabe no caixão, que será gasta por outro fantoche. Um atrevido, um perdulário, um dissoluto, um bobo, um trapaceiro que a desintegrará, ou um santo, um místico que não saberá o que fazer e se livrará dela como de um peso.

Riqueza que aquieta a sede ou que aflige a alma, que enche de preocupação e tormento. Fome de vento que nunca sacia. Inútil para o espírito que dela um dia se libertará como de um empréstimo.

E o que dizer ao homem que não tem pão, incapaz de conseguir saciar o seu estômago e o de seus filhos? Homens diferentes. Uns ricos querendo ser mais ricos, outros pobres querendo ser ricos. Duas humanidades aparentemente diversas. Um único Deus. Quem tem muito não tem tempo para aproveitar nem sossego para dormir profundo.

Riqueza, para o rei Salomão, é Sabedoria. Dessa diz ele com entusiasmo: “É mais que a saúde e a beleza. Gozei da sabedoria mais do que a claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se apaga”. Deixa claro o caminho, doce o pensamento, livre o agir.

E mais: “Há na sabedoria um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, sem inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo... É ela uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus e uma imagem de Sua bondade”.

“Eu a amei e a procurei desde a juventude, me esforcei para tê-la por esposa... por meio dela obterei a imortalidade... e recolhido em minha casa, sem medo, descobridor da minha eternidade, repousarei junto dela...” Sem precisar de mais nada que não seja o essencial.


Sabedoria: riqueza imperecível, grandeza do humilde; justiça do misericordioso; doçura do homem, força, inteligência de quem aprendeu o que é amor. Tudo sem nada em contraposição a nada com tudo.

Sabedoria emprestada de Si por Deus, gerando o homem “à imagem e semelhança dEle”. Nada custa, é de graça, apenas de quem a ama e a quer.Vittorio Medioli

Lava Jato toca a campainha do Palácio


O doleiro do petrolão afirmou, em delação premiada, que o Palácio do Planalto sabia do esquema. Citou pelo menos três ex-ministros de Dilma cujos nomes ouviu várias vezes nos momentos decisivos das operações criminosas. Alberto Youssef disse também aceitar acareações com qualquer um. O esquema bilionário que funcionou mais de década exatamente sob os governos do PT, operado por diretores da Petrobras nomeados ou protegidos pelo grupo político governante, chegou à sua hora da verdade. Ou o Brasil acredita que o doleiro Youssef botou a República debaixo do braço e fez o governo inteiro refém, ou o comando da quadrilha terá de aparecer.

Youssef afirmou, em seu depoimento à CPI da Petrobras em Curitiba, que se sentia “”mais seguro” em suas operações criminosas por saber que tinha a proteção do Palácio do Planalto. Marcos Valério não chegou a dizer literalmente a mesma coisa, mas o julgamento do mensalão mostrou que ele também era assegurado pelo Palácio – tanto que o então ministro-chefe da Casa Civil acabou condenado e preso. Nos dois megaescândalos, dois tesoureiros do PT presos, acusados de participar de desvios de dinheiro de estatais para o partido. E o Brasil, chupando o dedo, não liga lé com cré e se recusa a entender que esse é um padrão de governo.

Aliás, “a única forma de governar o Brasil” — como Lula teria afirmado a José Mujica, ex-presidente do Uruguai. Os dois ex-presidentes naturalmente negaram que se tratasse do reconhecimento do escândalo, mas o livro que traz essa passagem é absolutamente claro ao contextualizá-la como referência ao mensalão. Um dos autores do livro, Andrés Danza, declarou não ter dúvidas de que assim a fala de Lula fora entendida por Mujica — com quem, aliás, Danza tem excelente relação. Possivelmente o ex-presidente uruguaio, chapa de Lula, achou que expondo a confissão de “”culpa” do colega brasileiro em relação ao escândalo iria humanizá-lo. É um tipo de humanismo que passarinho não bebe.

A tolerância do Brasil com os métodos escancarados do PT beira o masoquismo. A pessoa em quem Dilma Rousseff mais investiu para ser seu braço direito no governo chama-se Erenice Guerra, investigada em dois escândalos de tráfico de influência dentro do Palácio — este que Youssef diz que o fazia sentir-se seguro, o mesmo de onde foi engendrado o mensalão. É uma vertiginosa sucessão de coincidências. Ou então o Brasil gosta de apanhar.

Gosta porque não se mexe. Está esperando a Justiça capturar a quadrilha. E vai esperar sentado. A domesticação da corte máxima dessa Justiça apresenta neste exato momento mais um capítulo circense – talvez o de maior audiência, pelo que tem de bizarro. O país assiste à indicação de mais um soldadinho petista para o Supremo Tribunal Federal – um simpatizante do MST, para ter uma ideia do nível de aparelhamento a que está chegando a Justiça brasileira, esta que a platéia está esperando pegar os chefes do bando. O novo indicado por Dilma para o STF tem até site feito pela mesma pessoa que faz o do PT, provando que a independência não livra ninguém dos sortilégios da sincronicidade.

O Congresso Nacional teria a chance de devolver essa carta marcada ao Planalto, reprovando a indicação de Luiz Edson Fachin ao Supremo. Mas o Congresso é… o Congresso. E assim o país vai assistindo candidamente ao adestramento das suas instituições pelos companheiros progressistas, que conseguiram subjugar até as contas públicas — travestindo o balanço governamental através da contabilidade criativa e das já famosas pedaladas fiscais (tão famosas quanto impunes). Claro que a lavagem cerebral companheira já chegou forte a escolas de todo o país — sendo que até colégios militares andam sendo coagidos a ensinar o conto de fadas petista, coalhado de ideologias exaltando as pobres vítimas do capitalismo que mandam no Brasil (pelo visto, para sempre).

O Congresso Nacional está em cima do muro, o governo está atrás do muro e o Supremo está atrás do governo. Só o povo, com ou sem panelas, pode afrontar essa barricada no coração do Estado brasileiro e libertá-lo — exigindo que a Lava Jato siga o dinheiro até o fim. E levando a investigação até dentro desse Palácio que protege doleiros.
Guilherme Fiúza

À procura de uma bússola

Políticos desgastados, imagem do governo federal em frangalhos, sociedade descrente e atordoada, estrutura social começando a se queixar do bolso mais vazio e inflação emagrecendo a geladeira, formam o pano de fundo sob o qual devem ser analisados os aspectos pontuais da crise que vive o país.

O repertório de depoimentos e denúncias diárias, ao contrário do que seria de esperar, de tão banalizado, parece anestesiar a sociedade. A repetição cansativa de escândalos embrutece a sensibilidade, como se uma pesada camada de chumbo estivesse cobrindo nossos corpos.

O governo federal patina na rotina de fazer aprovar seu pacote fiscal. E passa a ser cobrado de maneira contundente pela forma com a Petrobras foi administrada nos últimos 12 anos. E nem pode berrar alto porque é refém das crises que ameaçam a governabilidade: a econômica, a política e a de gestão, com extensão na escassez de água nos reservatórios e ameaça de curto circuito na malha energética.

Os governadores estaduais correm à Brasília em busca de socorro. Ficam sem saber o que fazer e dizer ante a opção que lhes apresentam: promover um pacto federativo para recompor a divisão do bolo tributário. Por onde começar? Senadores dão uma no cravo, outra na ferradura, desaprovando Patriota, aprovando Fachin e adiando a MP 665, que endurece as regras para o seguro-desemprego e do abono salarial. Deputados querem acelerar a reforma política, mas não há consenso sobre nenhum ponto.

A paisagem escancara a baixa capacidade do governo de levar adiante o fabuloso programa de obras, refrãos e slogans, que o ciclo do petismo prometeu e, que nos últimos tempos, ficou restrito ao lema “Pátria Educadora”.

A má gestão, dizem os estudiosos de política, é aquela que consome o capital político do governante sem alcançar os resultados anunciados e perseguidos e isso ocorre por desorganizado manejo técnico. Os dirigentes esquecem os compromissos de suas campanhas eleitorais, não fazem o cálculo do balanço da gestão e, principalmente, não a projetam para o futuro.

Os políticos, por sua vez, aproveitam-se das circunstâncias para tirar proveito. Como a economia capenga, a crise transforma-e em oportunidade para a esfera política expandir sua força. O Parlamento Nacional torna-se um amplo território de articulação, negociação e pressão, o que, convenhamos, o coloca no palco dentro do processo decisório, eis que o Executivo torna-se dele refém, ao contrário da nossa tradição.

As casas parlamentares desejam impor uma pauta forte e agir de forma independente da vontade do Palácio do Planalto, exercendo sua função legislativa, debatendo os problemas nacionais e fiscalizando os atos do Executivo. Os governadores, por sua vez, estão desmotivados. Não mostraram praticamente nada desde sua posse. Não têm gás para acender o farol da gestão.

O Judiciário abarrota-se de demandas judiciais, permanecendo sob a fosforescência midiática desde os tempos do mensalão, ganhando agora a luminosidade da Operação Lava Jato, na esteira da qual, um juiz, Sérgio Moro, sobe os degraus da fama e alcança o mais alto prestígio no ranking do respeito e da credibilidade.

Brilha o facho de um advogado, Luiz Edson Fachin, que ascende à mais alta Corte, o Supremo Tribunal Federal, ganhando o título do maior sabatinado pelo Senado em toda a história daquele Poder. Como agirá na nova casa? Olhando para o visor constitucional, promete. A tensão entre os Poderes continuará alta. E se as novas delações premiadas ampliarem o leque dos envolvidos na Lava Jato? Qual será a tendência do Congresso ante a eventual condenação de algum de seus membros de alto conturno?

O fato é que cada Poder está à procura de uma bússola, da direção mais conveniente para enfrentar o amanhã. Por enquanto, olham para a escuridão, com o olho se acostumando a encontrar o nada. Há imensos no espaço social. Novas lideranças não emergem no cenário. FHC? Encostado no pijama do guru. Lula? Não mais parece o leão furioso dos velhos tempos. Quem tem hoje autoridade para atrair as massas? Quem agrega o dom do equilíbrio? Quem canaliza as aspirações mais legítimas da população, a força moral? Quem possui as melhores condições de subir ao pódio dos próximos tempos?

Na Babel de linguagens tortuosas e bordões de promessas vazias, quem dá o tom é a indignação social.

A sociedade, por sua vez, está a exigir um reequipamento convivial, que implica a recuperação da infra-estrutura social (os serviços fundamentais do Estado) e o resgate de valores éticos e morais. Distancia-se tanto do sistema de representação formal, sem acreditar que ele seja capaz de produzir melhorias na política. Aguarda, com muita expectativa, a punição exemplar de políticos culpados, na crença de que os horizontes do amanhã tragam de volta a ética e novos padrões.

Muita água há de rolar carregando novas correntes. Como rugiu Zaratustra, o profeta de Nietzsche: “Não apenas a razão dos milênios - também a sua loucura rompe em nós. É perigoso ser herdeiro. Ainda lutamos, passo a passo, com o gigante chamado acaso”. 

Gaudêncio Torquato

Medo

A voz de pato, a cara borrada, cada vez mais medo, até para falar de assuntos banais agora há medo, presente, todo dia, toda hora. Qualquer lugar, raça, credo, condição social. Repare. Vivemos aterrorizados e não estou falando exatamente de fobias, dos medões, daqueles que só tratamento psicológico resolve. Trato do nosso dia a dia vivendo num país esquisito, de onde brotam vingadores, odiadores, e onde cruzamos no presente com gente sem passado e sem futuro

Devo mesmo ter morrido em alguma vida passada por golpe de arma branca. Veja só. Sou até capaz de brincar com uma arma de fogo, achá-las bonitas, revólveres, pistolas, fuzis. Manuseá-las sem problemas; com elas convivi desde criança. Mas só de ouvir falar em faca, minha espinha dorsal fica diferente - não sei bem como descrever, mas você já deve ter sentido isso - como se um líquido corresse em direção anormal por alguns segundos. Mais do que o frio na espinha. Sempre foi assim. Cheguei a pensar em fazer esgrima pra ver se ajudava, me livrava desse temor, para você ter uma ideia. Desisti.

Com isso posso declarar que estou absolutamente aterrorizada com o que está acontecendo no Rio de Janeiro e que peço a Deus seja estancada essa "tendência", que não se espalhe como costumeiramente modas cariocas acontecem. Só esse ano, li em algum lugar, 167 pessoas foram esfaqueadas por lá, em assaltos e desinteligências, palavra de que gosto porque é objetiva no descrever da violência descontrolada.

Mas se fosse "só" isso! Alguém está se dando conta que o medo invadiu de tal forma nossas vidas que está modificando a nossa própria história? O medo, gente, paralisa. O medo atrasa. O medo tira nossa criatividade e espontaneidade. O medo nos torna piores. Muito piores. Arredios. O medo mata. O medo cria, nos hábitos, uma série de círculos viciosos infinitos, infinitos até que chegue o finito, e quando ela chegue, a morte. Espero que "do outro lado" não existam medos.


A crise está nas nossas portas, o medo do desemprego, de precisar de recursos que não há. Não sair porque não pode gastar, mas também por medo de perder o pouco que tem. Viver tenso, de medo de ficar doente e sem condições de tratamento. O medo da violência geral grassando onde não há educação, saúde, estrutura nem infra, nem social, nem ética. Medo da própria família, do abuso da criança, da briga, do ciúme, da traição, da vingança. Do dizer e ser perseguido. Do não dizer e morrer calado, aos poucos.

Medo da facada pelas costas. Mesmo que sem faca, e sem sangue. Muitos de nós já a experimentaram e é terrível, porque nos mostra vulneráveis, porque nos derruba.

Ora, se a criança na escola é estuprada por outras crianças, se o asilo pobre, quase desgraçado, faz um bazar para pedir piedade pelo amor de Deus, e logo depois é assaltado, se quem devia proteger bate e arrebenta, como não ter medo? Do que não ter medo?

Só se for da chuva, do amor, de amar, da borboleta, do compromisso. Dos espíritos das pessoas boas que partiram e que sabemos que deles só podem vir coisas boas e proteção. Até as baratas, aranhas e outros bichos a gente pode dominar.

Mas não podemos dominar os homens, os governos, o poder. Ultimamente, não dá para perder o medo do escuro, de avião, de falar em público, da ameaça de dar uma entrevista para a tevê. Não dá pra deixar de temer o hospital, as agulhas, as facas dos cirurgiões, os ferrões dos pernilongos. Nem a solidão ou seu contrário, as multidões.

Uma simples faca pode zunir e furar, ameaçar, matar. Acabar de vez com o medo de alguém.

Na 'Pátria Educadora' de Rousseff, crise põe em risco Plano de Educação

Com cortes, pasta não teve aumento em relação ao que foi investido no ano passado. Gestores já temem não conseguir cumprir as metas para a área pactuada em 2014

Depois de anunciar que o lema de seu novo mandato seria "Pátria Educadora", a presidenta Dilma Rousseff deu à educação um dos maiores cortes globais no anúncio do ajuste fiscal feito nesta sexta-feira. A área terá 9,4 bilhões de reais a menos para investir neste ano. A verba da área para as despesas discricionárias (que não são obrigatórias, como a folha de pagamento, por exemplo) caiu de 48,81 bilhões para 39,38 bilhões de reais -valor similar ao gasto no ano passado e 15 bilhões acima do mínimo constitucional obrigatório.

Se por um lado isso era esperado, já que a pasta tem o segundo maior Orçamento da União, por outro, a situação gera um grande incômodo: a falta de aumento nos investimentos pode representar uma ameaça ao cumprimento do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado no ano passado em meio a comemorações do próprio Governo e que tem algumas metas a vencer já no ano que vem.

"É preciso ver com atenção onde serão os cortes dentro da pasta. A preocupação é que os prazos do plano já estão chegando e isso exigirá um esforço adicional", afirma Alejandra Meraz Velasco, coordenadora-geral da ONG Todos pela Educação. O Governo ainda não anunciou ao certo o que será cortado em cada área, mas o mais provável é que as novas obras sejam as mais afetadas.

O problema é que esse "esforço adicional", ao qual Velasco se refere, também tem sido difícil, já que Estados e municípios, que injetam a outra parte do dinheiro necessário para a área, têm sofrido com a queda em suas próprias arrecadações. Por lei, eles são obrigados a gastar 25% das receitas em educação -quando as receitas caem, a verba aplicada na área também cai. Em muitos locais, o cenário já é composto por obras paradas, salários de professores atrasados (e docentes em greve) e até mesmo falta de verba para comprar papel higiênico ou cortar a grama com a mesma regularidade de sempre.

Mãos ao alto, cidadão!

Certamente uma das mais pesadas e polemicas frases dita aos 4 ventos pelos libertários mundo afora é “IMPOSTO É ROUBO.” Se considerarmos a forma como ele nos é retirado forçadamente e sem chance de defesa, e se atentarmos às consequências de não acatar a “ordem” dada, o imposto é sim um roubo. O monopólio da violência dá ao estado essa possibilidade, para não dizer premissa, para retirar do cidadão parte de algo que não lhe pertence. Mude o sujeito da frase é terá caracterizado um ladrão.

maosaoalto
Advogados me corrijam se estiver errado, mas temos os tipos de roubo: furtos ou assaltos. Os impostos indiretos, ou seja, aqueles que o consumidor paga sem sabe que esta pagando se assemelham ao furto; enquanto os impostos mais diretos e escandalosos, tal qual era a CPMF é são hoje ainda IPVA, IPTU, ITBI etc, são assalto mesmo, à mão armada e sem chances de defesa!

Sempre se escuta uma tia bem intencionada dizer que “aceitaria pagar impostos se recebêssemos de volta as contrapartidas. É assim na Suécia.” . Também me perdoem os amigos psiquiatras, mas ela certamente sofre da “Síndrome de Estocolmo”, com o perdão do trocadilho. É a paixão doentia por aquilo que pode lhe fazer o mau. Certamente o modelo escandinavo é menos pior do que o nosso “tropicaliente”, mas não torna o ato de tributar menos imoral. Tributados não são os produtos/serviços; quem é tributado é o próprio cidadão! É sobre nós que a carga pesa.

Se o imposto é ou não roubo, não há consenso. Mas claramente há coisas que o imposto não é (ou não deveria ser), e muitas delas o governo insiste em ignorar.

Só para começar:

Imposto não é ferramenta de justiça social: não deve ser usado para “distribuir” a riqueza. Tributar a renda de forma predatória inibe a construção de poupança interna.

Imposto não é ferramenta socioeducativa: sobretaxar a bebida, o cigarro, os alimentos chamados “não nutritivos” não faz com que as pessoas bebam, fumem ou comam menos porcaria.

Imposto não é uma proteção para o trabalhador nacional: esse mesmo trabalhador é um consumidor e vai pagar mais caro pelas coisas de que precisa pra viver. Tanto as feitas no país quanto as que vem de fora.

Comicamente esses usos são mais comuns do que se pensa. O governo não decide o que quer.

Taxa o cigarro, o adesivo de nicotina e o remédio da quimioterapia;

O hambúrguer, o moderador de apetite e o tênis de corrida;

A bebida alcoólica, a consulta com o endocrinologista e o suco natural.

O papel, a tinta, o livro e a renda que ganha o autor.

Depois dá bolsa cultura pra poder comprar a obra de Paulo Coelho ou o CD do Chico Buarque.

Existe uma imoralidade indissociável da cobrança de tributos: ao encarecer o preço final das coisas, os impostos dificultam o acesso das pessoas aos avanços civilizatórios, desde os mais simples aos mais complexos. Somos tributados a todo momento: água tratada, luz, remédios, combustível, comida, roupas, educação, tratamentos de saúde, habitação, veículos, passagens aéreas e terrestres, ferramentas, maquinário e uma infinidade de itens que não teria linhas suficientes para citar.

Pragmaticamente falando, impostos deveriam ser a fonte arrecadatória para pagar aquelas atividades definidas pela sociedade como sendofunções do Estado. As sociedades precisam então impor aos seus respectivos estados o limite; além de fiscalizar os gastos e questionar com veemência cada aumento alardeado como sendo para “o bem comum”. O “bem comum” é um álibi historicamente terrível e sob o seu pretexto foram cometidas enormes atrocidades. E nada nos fará melhor que um Brasil com menos impostos.”

Guilherme Moretzsohn

Parada psicológica

Nem vírus, nem hackers. Apenas o costumeiro (no Brasil) ladrão, que por sinal demonstra mais uma vez ser a má educação a trilha do crime. Levam aparelhos vendáveis, deixam livros e mais livros intactos. Sequer entram na biblioteca.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O Brasil é para poucos

Em 1974, o economista Edmar Bacha cunhou um termo, Belíndia, que buscava sintetizar as contradições do Brasil: segundo ele, tínhamos uma Bélgica incrustrada em uma Índia. A palavra, popular nos anos 1980, a nossa década perdida, caiu em desuso, inclusive porque não faz muito sentido —a Índia, um país de 1,3 bilhão de pessoas, possui um sistema milenar de castas sociais justificado por princípios religiosos, que gera marajás e miseráveis. Mas se o conceito não tem fundamento não é porque mudou o cenário:continuamos a ter uma das maiores concentrações de renda do planeta —10% da população detêm 42% do total das riquezas do país.

De acordo com a Constituição de 1988, o salário mínimo deve suprir as necessidades básicas (alimentação, moradia, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social) do trabalhador e de sua família. Atualmente, esse valor equivale a R$ 788,00 mensais (cerca de 260 dólares). Segundo levantamento do Banco Central, 28% dos trabalhadores recebem um salário mínimo por mês, e 54%, de um a três (até R$ 2.364,00 ou 790 dólares). Menos de 1% da população ganha mais de 20 salários mínimos mensais (R$ 15.760,00 ou 5.300 dólares). As mulheres brancas, em qualquer camada social, ganham, em média, 30% menos que os homens para exercer as mesmas funções. Um homem negro recebe 57% da média paga a um branco —e uma mulher negra, menos da metade.

Continuamos a ter uma das maiores concentrações de renda do planeta: 10% da população detêm 42% do total das riquezas do país

Lideramos o ranking de cirurgias plásticas por razões estéticas: 1,5 milhão de intervenções em 2013, o que equivale a 12% do total mundial. Além disso, alguns de nossos hospitais destacam-se como referência em especialidades como cirurgia cardíaca, transplantes, tratamentos de câncer e de aids, por exemplo. No entanto, o sistema público de saúde é caótico: leva-se meses para agendar uma consulta, outros tantos para a realização de exames laboratoriais, mais alguns para marcar uma operação. Morremos ou de problemas típicos de países ricos —doenças circulatórias e respiratórias, câncer, diabetes— ou de países miseráveis —aids, cólera, hanseníase, hepatite, sarampo, malária. A tuberculose, doença social por excelência, que atinge particularmente pessoas pobres, registra 70.000 novos casos por ano e 5.000 óbitos. E em 2015 foram notificados 750.000 casos de dengue no país, com o registro de 229 mortes, sendo 169 apenas no estado de São Paulo, o mais rico do Brasil.

A USP, listada entre as 100 melhores instituições de ensino superior do mundo, é uma universidade pública e gratuita, quer dizer, mantida por impostos pagos por ricos e pobres. Mas ali até hoje não vigora um sistema de cotas, e sim um programa alternativo, e restritivo, de inclusão social e racial, por meio de bônus. O ingresso naquela universidade dá-se por meio de um dos vestibulares mais concorridos do Brasil e o acesso à maioria de seus cursos restringe-se a alunos que estudaram nas melhores escolas privadas. A USP mantém-se como reduto exclusivo da elite paulistana. Enquanto isso, segundo a Universitas 21, o Brasil ocupa o 38º lugar no ranking que avalia a qualidade do ensino superior em 50 países. O gasto por estudante brasileiro é de 3.000 dólares anuais —contra a média mundial de 9.500 dólares e muito distante dos primeiros lugares, Suíça (US$ 16.000 dólares) e Estados Unidos (15.000 dólares).


Morremos ou de problemas típicos de países ricos —doenças circulatórias e respiratórias, câncer, diabetes— ou de países miseráveis —aids, cólera, hanseníase, hepatite, sarampo, malária

Embora não haja dados precisos, estima-se que apenas 46.000 pessoas sejam donas da metade das propriedades rurais do país. Enquanto isso, segundo dados do Incra, 4,8 milhões de famílias permanecem sem terra para trabalhar. Dos 400 milhões de hectares titulados, somente 60 milhões (15% do total) são utilizados, e, conforme o IBGE, os pequenos proprietários, donos de áreas com menos de 100 hectares, são responsáveis por 80% da produção de alimentos e 80% da contratação de mão de obra. Noventa mil famílias vivem acampadas em precárias condições ao longo das rodovias e o Brasil lidera o ranking de violência rural: segundo a Ong Global Witness, em 2014 foram assassinados 29 militantes da reforma agrária, sendo quatro deles lideranças indígenas.

Estima-se que apenas 46.000 pessoas sejam donas da metade das propriedades rurais do país. Enquanto isso, segundo dados do Incra, 4,8 milhões de famílias permanecem sem terra para trabalhar

Dependendo de onde nos situamos no espectro social podemos usufruir do que o Brasil oferece de melhor ou de pior do mundo, porque aqui, no mesmo espaço, convivem tempos civilizacionais inteiramente diferentes. A complexidade do nosso país é tão grande quanto a extensão de suas terras —atribuem a Tom Jobim a frase que talvez melhor resume a dificuldade de compreendê-lo (ou de nos compreendermos dentro dele): O Brasil não é para principiantes. Não é mesmo, porque, ao contrário do que apregoava lema governamental recente, o Brasil não é de todos, é de poucos.

Luiz Ruffato

Frei Betto e os erros de Lula



Quando o PT faz a opção de assegurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a “Carta aos Brasileiros”, que na verdade é a “carta aos banqueiros” -, ali o PT abandona sua matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado a governabilidade,

Fiquei dois anos e, de repente, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Bolsa Família. Tive então a certeza de que essa opção contrariava a tudo aquilo que o PT vinha pregando desde a fundação. O Fome Zero era um programa emancipador, o Bolsa Família é compensatório. O Fome Zero ia mexer na estrutura do país e por isso foi boicotado pelos prefeitos. Era coordenado por comitês gestores municipais, não passava pelos prefeitos, não havia como usar os recursos para fazer jogo eleitoreiro, então os prefeitos se rebelaram, pressionaram a Casa Civil, que pressionou Lula. No fim, Lula cedeu e eu caí fora.

O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas chegarem aos bens pessoais. (...) As pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de pagar a conta

A vocação literária de Frei Betto, entrevista à revista Cult 

O 'gato' da balança


O ex Lula, muito assediado no noticiário político-policial, demonstra que no reino petista há dois pesos e duas medidas quando se trata de Justiça brasileira. E para fugir das investigações está apelando para tudo quanto é santo.

Para o PT, não há nada demais em que a vaga ao Supremo Tribunal Federal provoque uma campanha "eleitoreira" pelas redes sociais, inclusive com a criação de até uma página Fachin. Também não vê nenhuma irregularidade moral e ética em que quem faça a página também seja integrante da home petista. O que tem demais um indicado ao STF - com que recurso pagou ao dedicado petista? - demonstrar sua simpatia pelo partidão?

Quando os integrantes da Justiça passam a investigar os golpistas do PT, aí a coisa muda de figura. E até vale para depreciar o juízo e a conduta dos integrantes do judiciário, envolvidos na investigação, vale mesmo apontar a simpatia deles nas eleições.

É esse o argumento de Lula contra o procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes que o investiga por tráfico de influência em favor da Odebrecht, com financiamentos do BNDES. O já desacreditado Lula entrou com representação no Ministério Público contra o procurador anexando postagens nas redes sociais em que Cordeiro Lopes manifestava opiniões favoráveis a Marina Silva e Aécio Neves.

No reino do PT, conosco tudo pode; contra nós, nada presta.

Não vai acabar bem

image

Não é verdade que sempre foi assim, essa roubalheira. Nem que a política brasileira sempre foi essa disputa por interesses pessoais, no máximo partidários.

É clássica a questão sobre a ética na política: é possível ser eficiente e manter os princípios morais? Ou, considerando os ideais políticos: é possível governar sem fazer concessões?

“Nunca abandonamos nossos princípios; nunca mudamos nosso programa; nunca aceitamos alianças espúrias... E nunca governamos”. É mais ou menos o que dizia um quadrinho do argentino Quino — cito de memória — mostrando um ancião discursando para meia dúzia de correligionários numa sala empoeirada.
Humor sempre exagera mas é para, digamos, exagerar uma realidade. Muitas vezes a gente tende a acreditar que a alternativa é essa mesmo: ou o político se mantém fiel ao programa e à ética, e será sempre a honesta oposição, ou faz todo tipo de concessão para alcançar e exercer poder.

Quantas vezes já se disse por aqui que não é possível governar o Brasil sem comprar uns votos?

Mas reparem: ninguém diz isso antes de ser apanhado. Pelo contrário: todos são defensores da ética e da república até o momento em que são flagrados passando o dinheiro.

Ou seja, é uma desculpa de corruptos. E se fosse verdadeira, todos os políticos que viessem a alcançar o poder seriam necessariamente uns bandidos ainda não apanhados. Quase se poderia dizer: um político ladrão é um político normal que foi pego. Que boa parte da população pense assim, é um sinal dos tempos atuais.

Não há apenas uma crise política no Brasil, mas o fim de um ciclo, o desmoronar de um modelo que levou ao limite o fisiologismo e a corrupção. Fisiologismo — essa é uma palavra velha. Pode ser substituída por clientelismo, e se opõe a idealismo.

O político fisiológico não tem jeito: é aquele que busca o poder, por qualquer meio e aliança, para nomear os correligionários e gastar o dinheiro público com sua clientela. E pronto.

Já o idealista se guia por princípios e programas, mas pode ter alguma flexibilidade. Ou como se diz por aqui: é preciso ter jogo de cintura.

Para citar um político do passado, um dos grandes, Franco Montoro, governador paulista. Lá pelas tantas, em sua campanha de 1982, houve uma enxurrada de adesões: estava na cara que ele ia ganhar as eleições de lavada. Muita gente desembarcava de regime militar ou de suas proximidades para aderir ao novo poder.

Nisso, veio um grupo de sindicalistas, logo contestados pela velha guarda de Montoro. “Esses caras são uns pelegos”, reclamavam. E Montoro: bom, se a gente dividir o mundo entre pelegos e não pelegos, eles caem no lado dos pelegos; mas nunca é bem assim.

Os caras entraram e ficaram por ali, pelos cantos do governo.

Ou a recomendação que fazia Tancredo Neves quando, por conveniência política, precisava nomear alguém não propriamente conhecido pela honestidade: “Arranjem para ele um lugar bem longe do dinheiro”.
Claro que há um limite. Excesso de flexibilidade acaba amolecendo as ideias básicas. Mas dá para fazer.

O que aconteceu nos governos do PT foi diferente. O partido tinha programa, seus militantes tinham princípios. Foi largando tudo pelo caminho.

Na primeira eleição de Lula, começou pela campanha, quando o partido passou a buscar as generosas doações de empresas e empresários para pagar os marqueteiros, já mais importantes que os ideólogos. Depois foi o programa. Prometia substituir o neoliberalismo por algo tipo socializante (ainda não se falava em bolivarianismo) mas, no governo, aplicou política econômica tão ortodoxa que quase ganhou uma estátua no FMI. E para se manter no poder, topou as alianças com todo tipo de fisiologismo. Ao final, como mostraram os processos do mensalão e da Lava-Jato, se chegou à compra de apoio com dinheiro de propina.

Um partido queria ocupar o aparelho do Estado para fazer uma determinada política. Outros queriam o governo para atender à clientela. O método resultou ser o mesmo: nomear os companheiros e usar o dinheiro público para fins partidários, de grupos e pessoais. E o método, como sempre acontece nessa história, se sobrepôs a tudo, princípios e programas.

Se no começo se almejava ganhar a eleição para ocupar o governo e aplicar programa, agora se trata de usar o governo (e o dinheiro público) para se manter no poder. Antes era o dinheiro para a causa. Agora é a causa do dinheiro e não apenas para o partido, mas para o bolso dos chefões.

Todo o núcleo de poder, incluindo do poder no Congresso, está envolvido na Lava-jato. A corrupção atingiu níveis tão altos que a gente nem estranha quando delatores prometem devolver dezenas de milhões de reais. A disputa política é pela sobrevivência, pelos cargos, pelo dinheiro.

Qual é? Sempre foi assim — ainda nos dizem.

Mas não, não é normal e não vai acabar sem uma ruptura.

Ferrovia Transoceânica pode esbarrar em questões ambientais

Linha férrea, que pretende ligar a costa brasileira à peruana com apoio financeiro da China, pode causar sério impacto ao atravessar parques nacionais e terras indígenas. Viabilidade da obra ainda está em análise.

Brasil e China deram nesta terça-feira (19/05) a partida para a construção da Ferrovia Transoceânica, que pretende ligar a costa brasileira à peruana. Os três países iniciaram estudos de viabilidade técnica para a conexão ferroviária, porém, o ambicioso projeto está diante de grandes obstáculos, principalmente de ordem ambiental.

No suposto traçado entre o Porto do Açu, no estado do Rio de Janeiro, e o Porto de Ilo, na costa peruana, estão zonas ambientais altamente sensíveis, como o Cerrado e a Floresta Amazônica, além de parques nacionais e terras indígenas. Há ainda o receio de que a linha férrea contribua indiretamente para o desmatamento no entorno das regiões por onde passar.

"Um investimento dessa ordem não deixa de ter consequências para o meio ambiente. Dependendo do traçado, a natureza será um pouco mais ou um pouco menos afetada", afirma Roberto Maldonado, especialista em América do Sul da organização ambientalista World Wide Fund For Nature (WWF), na Alemanha. "É possível que áreas protegidas pelo governo, como territórios indígenas, sejam diretamente afetados pelo projeto."

E o megaprojeto nem precisa sair do papel para se tornar polêmico. Mesmo que seja atestada a viabilidade técnica, ele pode enfrentar resistência de alguns setores da sociedade, de ONGs ambientalistas e de parte do Governo Federal.

O maior obstáculo para uma obra desse porte deverá ser a obtenção das licenças ambientais. "O aspecto ambiental poderá até mesmo inviabilizar a obra", afirma Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Mas os trilhos não precisam necessariamente passar por cima da sustentabilidade. O impacto ambiental da construção e operação de uma ferrovia desse porte dependerá do projeto que será utilizado como referência.

"Do ponto de vista ambiental, tecnologias ferroviárias mais avançadas são de pequeno impacto sobre o meio ambiente", opina Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade de Columbia. "País algum do mundo teve seu patrimônio ambiental seriamente ameaçado pela expansão da malha ferroviária."

Ao financiar o projeto, um dos objetivos da China é tornar as mercadorias mais competitivas e com um custo menor também para o gigante asiático. O valor da obra ainda não foi calculado, mas há estimativas de que a conexão, de cerca de 5,3 mil quilômetros, chegue a custar cerca de 10 bilhões de dólares.

O corredor de trilhos entre os oceanos Atlântico e Pacífico pretende abrir uma saída principalmente para produtos brasileiros como grãos, minério de ferro e carnes para o Pacífico e, ainda, facilitar a importação pelo Brasil e países vizinhos dos manufaturados chineses, sem que a carga precise passar pelo Canal do Panamá.

Caso a ferrovia saia do papel, o Brasil conseguirá também interiorizar o transporte de cargas por meio de ferrovias, o que seria estratégico para o país. Atualmente, um navio graneleiro levando uma carga a partir dos portos de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Belém (PA) demora de 30 a 40 dias para chegar até a China.

Através da Ferrovia Transoceânica seria possível reduzir em cerca de 30% a 40% o tempo de transporte de produtos do Brasil para a China, afirma Orlando Fontes Lima, professor de logística e transportes da Unicamp. A diferença dos custos marítimo ou ferroviário, porém, ainda não pode ser estimada, segundo o especialista.

Não se faz ministro para o cargo

No Supremo não deve ser o partidarismo do candidato aprovado que faz o cargo. Mas a independência do cargo que faz o ministro
Joaquim Falcão 

Os indignados seletivos

Os indignados seletivos são uma espécie recém-descoberta. Ninguém sabe se eles sempre existiram. Mas, nos últimos meses, eles podem ser vistos em profusão.
O indignado seletivo é aquele capaz de se inflamar durante uma discussão sobre o Bolsa Família. Sua revolta vem do fato de achar que o programa do governo “sustenta vagabundos”. Ele acha uma indignação o Bolsa Família pagar R$ 35 mensais a brasileiros com renda familiar per capita inferior a R$ 77 mensais. Acha absurdo quando uma família pobre ou extremamente pobre, que tenha em sua composição gestantes, mães que amamentam, crianças e adolescentes de 0 a 16 anos incompletos, acumula até 5 benefícios, o que daria a quantia de R$ 175. Para o indignado seletivo, porém, não há problema algum em todos os juízes e promotores do país receberem auxílio-moradia no valor mensal de R$ 4.377,73, independentemente de o magistrado morar ou não em imóvel próprio e/ou suas despesas com aluguel ou hotel serem inferiores a esse valor. Afinal, o salário de um juiz nunca é menos que R$ 25 mil, e R$ 4.3777,73 é uma ajudinha justa.

O indignado seletivo foi capaz de sair na rua com nariz de palhaço para protestar contra a vinda de médicos cubanos para trabalhar no país, num acordo similar ao que fazem 58 nações pelo mundo. Os cubanos vieram para atuar em municípios que não atraíram o interesse de nenhum médico brasileiro, a despeito da bolsa de R$ 10 mil oferecida pelo governo. O indignado seletivo, porém, comemora a chegada de empregadas domésticas filipinas ao Brasil. Mesmo que a vinda dessas profissionais não seja regularizada pelo governo, mas sim feita por uma agência particular. Afinal, “o povo filipino gosta de servir”, não se importa de dormir no serviço e “não fica de má vontade” como as empregadas brasileiras. E ainda, vejam só, fazem as crianças treinarem o inglês: “Good morning, Liza, milk, please”.

O indignado seletivo sai às ruas para protestar contra a corrupção do governo e vai pra cima de qualquer pessoa que esteja usando vermelho, a cor que sintetiza todo o Mal… Mas veste a camisa da CBF, porque “uma coisa não tem nada a ver com a outra”.

O indignado seletivo também é seletivo quando o assunto é “a ética, a moral e os bons costumes”. Ele boicota a novela das nove porque acha uma pouca vergonha sua filhinha ver o selinho de duas senhoras lésbicas. Mas a filhinha assiste numa boa uma trama que mostra assassinato, corrupção, traição, tráfico de drogas e cenas quentes entre pessoas de sexo oposto.

Não espere, portanto, que o indignado seletivo se choque com a sanguinolenta repressão a professores do Paraná, com o deputado que bate na colega no Congresso, com o racismo praticado pelo atleta que representa o Brasil mundo afora, com a homofobia que mata um a cada 28 horas no país, com o assassinato de 82 jovens por dia no Brasil, com a prostituição infantil, que vitimiza cerca de 500 mil crianças.

O indignado seletivo gosta de protestar contra coisas bastante específicas em domingos ensolarados, acompanhado da família, dos amigos e de seus celulares… O indignado seletivo adora bater panelas, dentro de suas casas. Ele já até baixou um aplicativo para isso, porque bater panela dói a mão.

Fachin, a ética da ambiguidade e a ética da irresponsabilidade

Durante sua sabatina na CCJ do Senado Federal, o Dr. Luiz Fachin foi confrontado com suas próprias posições, conhecidas do mundo jurídico e acadêmico nacional. O indicado pela presidente Dilma sempre foi um militante de esquerda, ligado ao MST e defensor de teses que se contrapõem à Constituição Federal. Como poderia um magistrado avesso a importantes preceitos constitucionais ser intérprete da Lei Fundamental? Iria ele reproduzir a conduta de seus futuros colegas? Em algumas votações, ao longo dos últimos anos, muitos deles deixaram a Carta de lado e votaram em conformidade com suas opiniões pessoais, afrontando os constituintes de 1988 e os legisladores ordinários que os sucederam.

Posto entre a espada que o interrogava e a parede de sua biografia intelectual, o candidato Fachin pediu socorro a Max Weber. Disse que, como professor, membro da academia, no mundo intelectual, posicionava-se segundo a ética da convicção. Ou seja, ensinava, escrevia e assumia atitudes públicas em harmonia com suas convicções pessoais. Contudo, na condição de ministro do Supremo, estaria sob a ética da responsabilidade, que lhe era imposta pela Constituição, e que jamais se prestaria para transformar o STF em substituto ou em extensão do Congresso Nacional.

Conversa para senador dormir. Oitenta e um dos 81 senadores sabem que o STF tem legislado, mesmo sem o auxílio do Dr. Fachin. Todos os senadores sabem que o Supremo faz isso, dizendo que não faz, enquanto faz. Todo brasileiro bem informado sabe que o STF, com 11 membros, decide por seis a cinco e que em caso de empate, o voto solitário de qualquer de seus ministros vale mais do que o voto de 257 deputados federais e 41 senadores juntos, ou seja, metade mais um de cada uma das duas Casas.

Portanto, ao enviar para o STF mais um “progressista”, ao empobrecer a Corte com mais um membro da vanguarda do atraso, ao conceder cadeira a outro adepto das ideias que infelicitam o Brasil e boa parte da América Latina neste início deste século 21, o Senado se submeteu à ética do PT. Jogou fora Max Weber e aderiu à ética da ambiguidade, da incerteza, da irresponsabilidade. Decidiu na contramão da segurança jurídica. Pisou no acelerador da revolução através do Judiciário. Ajudou a transformar o Supremo numa corte venezuelana, onde pupilos do partido do governo trocam piscadelas de olho como parceiros de jogo de cartas.

Esta noite em que escrevo é uma noite triste para o Brasil. Trocamos Barbosa por Fachin. Mais um ponto para dentro da curva petista. O Paraná, exoticamente, festeja. O Paraná, por indecifráveis motivos, converteu a escolha de um paranaense para o STF, por iniciativa da presidente Dilma, em suprema honraria regional. Se eu fosse paranaense veria essa indicação como um agravo e exigiria reparações. Admito, estou irritado, cansado e triste. Brasília não me dá alegrias.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A serventia da UNE

O que faz a União Nacional dos Estudantes (UNE)? Em seu site na internet, a UNE diz ter “um papel histórico em defesa da educação e dos estudantes!” – com exclamação. Os alunos das universidades federais, que enfrentam imensa crise, esperam mesmo que a UNE os defenda. No entanto, essa organização está cada vez menos interessada nos estudantes, pois seu papel, nos últimos anos, tem sido o de servir apenas como correia de transmissão do lulopetismo. Uma entidade que nasceu para contestar o poder se tornou seu fiel vassalo, para usufruir da coisa pública como se privada fosse – e o moderno prédio que a UNE está erguendo em área valorizada do Rio de Janeiro, conforme mostrou recente reportagem do Estado, talvez seja o símbolo definitivo do patrimonialismo que tanto marca a era petista no governo.

Projeto Niemeyer para a UNE
O prédio ocupará o lugar da antiga sede da UNE, na Praia do Flamengo, que foi metralhada e incendiada em 1.º de abril de 1964, dia seguinte ao do golpe militar. Em vez de servir como reparação histórica a uma agressão cometida pelo regime ditatorial, conforme diziam os dirigentes da UNE e do governo em 2010 – quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu que a União tinha de indenizar a entidade –, o que se verá naquele terreno é uma obra do mais puro oportunismo daqueles que se assenhorearam do Estado.

No final de seu segundo mandato, Lula assinou a autorização para que a UNE recebesse nada menos que R$ 44,6 milhões a título de compensação pelos danos causados pela ditadura. Tal indenização não estava prevista na Lei de Anistia, que só menciona pagamentos a indivíduos, e não a entidades. Mas, como se sabe, a lei nunca foi um constrangimento para o lulopetismo. Em junho de 2010, Lula fez aprovar no Congresso uma norma que tratava especificamente do “reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro pela destruição da sede da União Nacional dos Estudantes”. Estava resolvido o problema.

Com dinheiro em caixa, a UNE lançou a pedra fundamental do empreendimento ainda em 2010, com a presença de Lula – saudado como “guerreiro do povo brasileiro” por uma audiência embevecida com seu mecenas.

Feita a partir de um projeto doado por Oscar Niemeyer, a obra demorou a deslanchar, mas agora está a todo vapor – e a UNE, afinal, não usará recursos próprios na construção. Como mostrou o Estado, a entidade preferiu se associar a diversas empresas privadas para bancar a obra e explorar o aluguel de salas comerciais. É um progresso e tanto para uma organização administrada pelo PC do B desde 1979 e habituada a denunciar a perversidade da exploração capitalista.

Um vídeo por ela divulgado para promover a obra mostra que a UNE disporá de luxuosas instalações, decerto muito melhores do que nos tempos em que corajosamente fazia oposição ao governo. Agora como sócia do Estado, a UNE vai dispor de equipamentos e de estrutura que contrastam com a situação de penúria enfrentada pelos estudantes das universidades bancadas com dinheiro do governo federal.

Na Universidade Federal Fluminense, por exemplo, um dos prédios corre o risco de desabar. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, algumas turmas são obrigadas a ter aulas em uma escola estadual, por falta de salas. Há relatos de falta sistemática de equipamentos e de segurança.

A ostentação da UNE contrasta também com o momento difícil pelo qual passam estudantes que dependiam do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), crédito que passou a minguar desde que o governo mudou suas regras.

Pois não há registro de protestos da UNE nem em relação à situação dos alunos das federais nem contra o corte abrupto do financiamento estudantil. A entidade ocupa seu tempo atualmente fazendo campanha a favor da reforma política defendida pelo PT. Nem se podia esperar outra atitude de uma entidade que abandonou há muito tempo a defesa dos estudantes, preferindo servir como mera – e agora lucrativa – claque do lulopetismo.

Fique tranquilo!

Dilma levy corte no orcamento atirador de facas olho tapado tesouras B

Avião prefixo PT-ETC


O Brasil do PT é um avião particular que faz voo cego, sem plano, com pouco combustível, em tempo ruim... Sim, o piloto é astigmático e não sabe ler mapas. A meia dúzia de passageiros está distraída, ouvindo num radinho os depoimentos dos ratos da operação Lava Jato na sessão da Câmara dos Deputados e nem sonham com a situação em que se encontram...

Logo, alguém com voz claudicante pergunta: o deputado Jean Luiz já falou qualquer coisa? Não, responde um vozeirão, e nem vai falar, o presidente é o Bolsonaro... Ah... Nesse meio tempo, um dos motores parou... Nooooo, e agora? Sem chiliques, cara, quero ouvir o que diz o Vaccari, que já começou dizendo que não sabe nem por que está depondo, quanto mais assunto de propina e outros badalos... O avião sacode, e o cara da voz claudicante resmunga: Tô nem aí, se cair, tomara que seja em cima do Senado Federal. Não é ele que está virado pra cima como uma cuia? Melhor seria no Planalto, onde estão os terroristas de outrora, e os heróis de agora, e outros como aquele que parece com Santo Antônio, acho que Luís Roberto, e o outro que tem nome de violino...

Lewandowski? Cara, esse povo é do Supremo Tribunal Federal... E daí? É tudo farinha do mesmo saco. Depois que o Joaquim saiu... Cala a boca, quando o avião pousar... pousar ou cair? Não agoure...

Por falar em saco, quem leu o livro daquele cara lá do Uruguai, o presidente que morava numa furreca e tem nome de tango argentino? Geluzí? Tá louco, cara, é Mujica. É esse mesmo. E daí? Daí que ele soltou a franga... Saiu do armário? Abriu o livro, sô... Que susto! Conta, adoro fofoca... Não tem nada de fofoca, ele comenta sobre declarações do ex-Luiz, dizendo que ele não é ladrão como o Collor... fala que Lula disse que passou perrengue no governo porque só existe um meio de governar o Brasil varonil: molhando generosamente as mãos dos ratos. Esses do Lava? Sim, e os outros também, como os caras do Zelotes... Opa, que que é isso? Esse foi um pequeno assalto num tal Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, mais conhecido como Carf. Mais conhecido uma ova, eu nunca tinha ouvido falar nessa boca... Pois é, lá foi coisa mixuruca, só 19 bilhões...

Cara, esse nosso país tá mesmo é f...alido. Quem diria, né? Sim, ia me esquecendo, o tal de Marco Aurélio Poc-Poc andou fazendo secretamente umas reuniões aí, a mando de Dona Dilma, com os membros do Mercosul, naquele tempo que botaram pra fora aquele padreco, presidente comuna disfarçado lá do Paraguai, para firmar a liderança de Dona Dilma na região. Que região? América Latina... E por que Dona Dilma, em vez de... Ela sabe ler, sabe? E aí? Aí que botaram o Paraguai pra fora do Mercosul e botaram a Venezuela pra dentro. Resultado, Chávez morreu em Cuba... Só por causa disso? Sei lá... Quem sabe o que se passa no meio dessa gente... Isso tudo tá no livro do Geluzí, quer dizer, Mujica.

E o piloto, apavorado, manda apertar o cinto, que vai pousar de barriga. Aiii, meu Deus do céu, socor...