sexta-feira, 21 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Asilo para paranoicos

A paranoia é um direito. Se Eduardo Bolsonaro acredita que sofre perseguição política no Brasil, tem o direito de requisitar asilo no país de sua preferência. As autoridades desse país é que correm o risco de cair no ridículo caso concedam a proteção com base em delírios e não em fatos —não que isso seja um problema para os EUA sob Donald Trump.

Tampouco acompanho a argumentação dos que afirmam que Bolsonaro, o Pequeno, com seu teatro, adentra o território do ilícito por difamar o Brasil no exterior. Não penso que exista uma obrigação de zelar pela imagem do país. A liberdade de expressão foi inventada justamente para que as pessoas pudessem criticar qualquer instituição ou autoridade e em termos fortes. Se a crítica para ou não em pé é um outro problema.


A tese bolsonarista de que o Brasil vive uma ditadura judicial é uma das ideias mais estapafúrdias que já vi. Sim, o STF adora meter os pés pelas mãos e frequentemente avança o sinal. Pior, continua recorrendo a heterodoxias mesmo depois que elas deixaram de ser necessárias e se tornaram contraproducentes.
Mas, como já nos ensinou o sábio Lula, a democracia é relativa, isto é, comporta graus. É preciso mais do que medidas discutíveis ou mesmo alguns excessos autoritários da Justiça para caracterizar uma ditadura.

Desconfio até que a tal da "ditadura da toga" da qual bolsonaristas tanto falam seja uma impossibilidade, se não lógica, ao menos prática. Exceto pela diminuta Polícia Judicial, que basicamente faz a segurança de tribunais, o Judiciário é um Poder desarmado. Depende de forças sob controle do Executivo para impor suas decisões a quem recalcitre. Daí que a literatura não registra muitos casos de cortes supremas convertidas em sede de governo.

É interessante ainda notar que Trump, cujas botas o jovem Bolsonaro está se especializando em lamber, explora justamente essa assimetria de forças entre os Poderes para desafiar decisões de magistrados, no que, me parece, será a versão 2.0 de sua tentativa de golpe.

Trump x Justiça: Os EUA a caminho da autocracia?

O governo Donald Trump deportou centenas de venezuelanos no último fim de semana porque, segundo o governo dos EUA, eles eram membros de uma gangue de tráfico de drogas. Os homens deportados foram transferidos para El Salvador e mantidos na prisão de segurança máxima CECOT.

Trump invocou uma lei de 1798 que permite a expulsão de "inimigos estrangeiros" do país, mas o juiz federal de Washington, James E. Boasberg, proibiu a deportação. No entanto, o governo Trump ignorou a decisão do juiz, alegando que os aviões já estavam no ar no momento da decisão do tribunal.

A disputa se intensificou na quarta-feira: "Se um presidente não tem o direito de remover assassinos e outros criminosos, então nosso país tem um grande problema, está condenado!" Trump desabafou em sua rede social Truth sobre a decisão de Boasberg. Trump e vários congressistas republicanos até pediram sua remoção.


Este não é o único caso em que o governo Trump e o judiciário dos EUA estão em desacordo. Por exemplo, um juiz federal ordenou a suspensão do encerramento da agência de ajuda ao desenvolvimento USAID . Outro juiz de Maryland bloqueou a expulsão de pessoas transgênero das Forças Armadas pelo Secretário de Defesa Pete Hegseth , pelo menos por enquanto. E um juiz de Washington ordenou que o governo pagasse subsídios totalizando US$ 14 bilhões a três organizações ambientais.

"Temos juízes descontrolados que estão destruindo nosso país", repreendeu Trump em uma entrevista à Fox News . Quando perguntado se ele se oporia a uma decisão judicial, Trump respondeu: "Não, isso não é possível".

"No momento, Trump está sofrendo derrota após derrota nos tribunais", diz Johannes Thimm, vice-chefe do Grupo de Pesquisa das Américas no Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), sediado em Berlim. "E agora estamos vendo os primeiros sinais de que ele está questionando abertamente certas decisões judiciais e praticamente não as cumprindo." Isso parece estar acontecendo particularmente com deportações.

O que Trump e seus apoiadores pensam sobre esse tipo de sentença ficou claro em várias declarações nos últimos dias. O "czar da fronteira" nomeado por Trump, Tom Homan, disse à Fox News : "Não me importa o que os juízes pensam." Se "os terroristas forem removidos do país", então "isso deve ser motivo de comemoração neste país", disse ele.

A secretária de Justiça, Pam Bondi, também criticou a suspensão das ordens de deportação como um "desrespeito à autoridade do presidente Trump". Ele ressaltou que tais decisões dos juízes colocam em risco a população e a aplicação da lei.

Para Johannes Thimm, esses são sinais de alerta. O especialista do SWP acredita que todo o sistema de separação de poderes nos EUA está em perigo. Por um lado, "o poder legislativo praticamente abdicou de seu papel como poder de supervisão que também pode controlar o presidente". Desde a eleição, os republicanos detêm a maioria em ambas as câmaras e são "praticamente 100% leais a Trump", diz Thimm.

O Judiciário permanece. "E o problema básico aqui é que os tribunais não conseguem efetivamente impor suas decisões, especialmente contra o governo. O sistema inteiro depende dos outros poderes do governo respeitando a autoridade dos tribunais", acrescenta o especialista.

"O fato de Trump estar começando a ignorar ou se recusar a cumprir decisões judiciais tem o potencial de desencadear uma crise constitucional", ele argumenta. Afinal, em um estado constitucional, a polícia e as autoridades de segurança estão lá principalmente para fazer cumprir a lei. No entanto, em última análise, eles respondem ao presidente. Mas se houver instruções conflitantes de ambos os lados, a quem eles devem obedecer?

Talvez essa seja uma das razões pelas quais o presidente da Suprema Corte, John Roberts, rejeitou o pedido de Trump para remover alguns juízes. "Está estabelecido há mais de dois séculos que o impeachment não é uma resposta apropriada a um desacordo sobre uma decisão judicial", explicou Roberts. "É para isso que servem os recursos."

É improvável que o presidente dos EUA arrisque um confronto aberto com a Suprema Corte, em cuja nomeação ele desempenhou um papel fundamental. Mas "não está mais fora de questão que Trump simplesmente ignore o judiciário e ninguém realmente faça ou seja capaz de fazer nada a respeito", teme Thimm. "Então os EUA terão dado um grande passo em direção à abolição do estado democrático de direito."

Sou obrigado a concordar com Bolsonaro: ele é um aborto da natureza

A princípio pareceu só mais uma live para que Bolsonaro se defendesse mais uma vez das acusações que deverão pôr fim à sua carreira política, remetendo-o à prisão por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe, danos às sedes dos três Poderes da República e organização criminosa.

De fato, ele usou a ocasião para se apresentar como um injustiçado e repetiu os velhos e inconsistentes argumentos de que é vítima de uma trama da justiça. Nada de novo acrescentaram em sua defesa um dos seus advogados presente e o âncora da conversa de mais de duas horas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Zero 1.

O ex-presidente definiu-se como um “aborto da natureza”. Ele afirmou:

“Eu fui um aborto da natureza. Além de sobreviver a uma facada, na graça de Deus, a minha própria eleição. Quem podia esperar que eu, um deputado do baixo clero, tido por muitos como encrenqueiro, e era encrenqueiro mesmo, conseguiria ganhar uma eleição?”

Ao fim da live, porém, diria:

“Me deem [na próxima eleição] 50% da Câmara e 50% do Senado que eu mudo o destino do Brasil.”

De início, também pareceu que o encontro serviria basicamente para celebrar os 70 anos de vida de Bolsonaro. Apareceram os filhos Zero 2 (Eduardo, o fugitivo) e Zero 3 (Carlos, o marqueteiro do pai). E Michelle, a ex-primeira-dama, acompanhada de um pastor, com orações, beijos, abraços e um bolo.

Mas o segredo estava no bolo, em formato de capacete para uso de motociclistas. Flávio aproveitou grande parte do programa para anunciar de viva voz, e por meio de comerciais estrelados por Bolsonaro, que ele e o pai se associaram para fabricar capacetes de grafeno, o “primeiro de vários produtos da família”.


Pois é: business. Aposte na incontida ambição da família Bolsonaro por dinheiro que você não erra. Como demonstrado ao longo da trajetória do clã, enriquecer é seu objetivo número um, dois e três. E se a política lhe abriu as portas para negócios, por que não fazê-los, de preferência em dinheiro vivo ou via Pix?

Um capacete com a marca “Bravo”, autografado por Bolsonaro, foi leiloado. Flávio disse que seu preço na fase de pré-venda será de 740 reais. Quem desse o lance mais alto até o fim da live receberia aquele capacete das mãos do próprio Bolsonaro. O primeiro lance foi de 10 mil reais. O último, de 36 mil. Flávio advertiu:

– Mas manda o Pix.

Nos primeiros seis meses de 2023, Bolsonaro recebeu 17,2 milhões via Pix ao alegar que lhe faltava dinheiro para pagar as multas que devia por não usar capacete pilotando motocicletas. Ao todo, foram 769 mil transações entre 1º de janeiro a 4 de julho. Nesse período, a conta de Bolsonaro movimentou R$ 18,5 milhões.

Nos próximos dias, mais três capacetes autografados por Bolsonaro serão leiloados no canal do Instagram da nova empresa.

Conselho dos velhos sábios astecas

Agora que já olhas com teus olhos,

percebe.
Aqui, é assim: não há alegria,
não há felicidade.
Aqui na terra é o lugar de muito pranto,
o lugar onde se rende o fôlego
e onde bem se concebe
o abatimento e a amargura.

Um vento de pedra sopra e se abate
sobre nós.
A terra é lugar de alegria penosa,
de alegria que fere.

Mas ainda que assim fosse,
ainda que fosse verdade que só se sofre,
ainda que fossem assim as coisas na terra,
haverá que estar sempre com medo?
haverá que estar sempre tremendo?
haverá que viver sempre chorando?

Para que não andemos sempre gemendo,
para que nunca nos sature a tristeza,
o Senhor Nosso nos deu
o riso, o sonho, os alimentos,
nossa força,
e finalmente
o ato de amor
que semeia gentes.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Em busca da confiança

Yuval Noah Harari disse em entrevista recente que a questão chave do nosso tempo é que a “democracia é baseada em confiança enquanto a ditadura baseia-se em medo”. Diz o historiador israelense que “quando a confiança nas instituições democráticas, na academia, na mídia profissional, nos tribunais é destruída, só a ditadura funciona”. Harari adverte ainda que “a desconfiança e a consequente desmoralização das instituições que ordenam a vida em sociedade não liberta os indivíduos, ao contrário, consagra o medo e abre caminho para a tirania”.

Confiança é o lastro em que se fundamenta o valor e o poder das instituições, dos ativos financeiros, das empresas, dos produtos, das marcas, das moedas, das pessoas e principalmente das narrativas. Ficções e mitologias, modernas e primitivas, ilustram as crenças e fazem balançar o pêndulo das verdades aceitas como tal. O bombardeio errático das informações no novo mundo conectado e instantâneo condiciona a formação de opiniões e os posicionamentos. Harari diz que quase tudo é lixo.

O voto popular é a instituição mais importante da democracia. Com todas as imperfeições é o calendário eleitoral que ordena a disputa política e indica estarmos vivendo, ao menos formalmente, num sistema democrático. Existe uma ala do Partido Republicano nos Estados Unidos que quer acabar com as eleições parlamentares (mid term elections) no ano que vem, para permitir que as medidas “revolucionárias” do governo Trump possam funcionar e melhorar a vida dos americanos. Acho muito difícil que isso ocorra, mas significa que os ventos da ditadura estão soprando por lá, perigosamente.


No Brasil a principal estratégia para desmoralizar o voto foi a campanha contra a urna eletrônica que contou ainda com o auxilio luxuoso dos interesses comerciais interessados em vender 500 mil impressoras e softwares de segurança para a Justiça Eleitoral. A legislação feita para implantar o financiamento público de campanha, impedir a compra de voto, o abuso do poder econômico e o uso eleitoral da máquina pública não mudaram o ambiente de descrédito no sistema político brasileiro. É preciso reconhecer as imperfeições e ineficiências das instituições da democracia brasileira e enfrentar o debate sobre reformas estruturais com vistas a resgatar a confiança na politica e no voto popular. Não enfrentar a agenda de reformas é acomodar-se na defesa de um status quo desgastado e inaceitável para grande parte da população e colocar lenha na fogueira da campanha anti-sistema. O veteraníssimo José Sarney defende o voto distrital misto e o semi presidencialismo.

Apareceram muitas novidades. Novos partidos, celebridades televisivas e influenciadores digitais, que surfam no sonho de uma “nova politica”, se elegem, tornam-se centro das atenções e objeto de desejo dos partidos e de projetos de poder. Com raras e honrosas exceções, a “renovação” dos últimos anos frustrou o país, piorou a qualidade do sistema político e aprofundou a crise de confiança. Em 2026, nas próximas eleições, teremos mais uma oportunidade de tentar reverter esse jogo.

Nos estados federados a liderança vai caber aos governos estaduais bem avaliados que tendem a formar alianças regionais amplas, sem alinhamento ideológico e compromisso prioritário com candidaturas presidenciais. Como nas peladas, os dois mitos, Lula e Bolsonaro, depois do par-ou-ímpar, escolhem o time distribuindo apoios com base em seus estoques de popularidade e recursos de poder, segurando lealdades e alimentando a polarização. É nítido o crescimento da torcida contra ambos os populistas embora ainda não seja claro qual será o espaço do centro democrático reformista.

Quem sabe estejamos cansados de mitos e já tenha chegado a hora da racionalidade e do bom senso ganharem eleições, reforçando a confiança e a democracia no Brasil?

A censura totalitária do 'ditador' Trump

Não bastam eleições democráticas para um governo ser classificado de democrata. Os EUA de Donald Trump demonstram, no século XXI, como um presidente eleito por larga margem consegue se comportar como um ditador. Autocrático e totalitário. A guerra cultural de Trump e seus bilionários de cabeceira começa a deformar a sociedade norte-americana.

Confio em que a queda de popularidade de Trump, somada a manifestações em Washington e a ações da Suprema Corte, consiga frear o enlouquecimento que tira o sono de acadêmicos, jornalistas, atores, artistas. E também da Europa. Talvez eu seja otimista demais. Um eleitorado que recoloca no Poder um racista misógino xenófobo que incitou a invasão ao Capitólio não se rebela com a censura. Mas, quem sabe...


Professores brasileiros em universidades americanas compartilham o terror obscurantista. Ouvi alguns deles. “Milhões e milhões de dólares para pesquisa estão evaporando de um dia pro outro. Centros de pesquisa obrigados a demitir gente. É uma monstruosidade”.

“Estamos todos assustados, intimidados. E sabemos que esse é o efeito desejado, o tal chilling effect” (“efeito intimidador”).

A distopia de Trump e Musk é caricatural. Começa pela guerra às palavras, censuradas em documentos oficiais e científicos. Guerra inofensiva? Qualquer protocolo de pesquisa biomédica e médica com as palavras seguintes (e derivadas) está no momento com verbas bloqueadas. A lista reflete obsessões trumpistas. Abaixo, uma seleção proibida:

Acessível, ativismo, defesa de uma causa, inclusivo, aliança, solidariedade, antirracismo, em risco, barreira, pertencer, viés, preconceito, tendencioso, negros, indígenas e pessoas de cor, energia limpa, crise climática, ciência climática, qualidade ambiental, diversidade comunitária e racial, herança cultural, equidade, deficiências, discriminação, igualdade de oportunidades, excluído, feminismo, violência de gênero, golfo do México, discurso de ódio, disparidade na saúde, minoria hispânica, historicamente, identidade, imigrantes, grupos-chave, LGBT, marginalizar, homens que fazem sexo com homens, saúde mental, multicultural, opressão, orientação, polarização, político, poluição, pessoas grávidas, privilégio, prostituta, profissional do sexo, etnia e raça, segregação, sexualidade, justiça social, status, estereótipo, sistêmico, transexual, trauma, tribal, subestimado, desfavorecido, vítima, populações vulneráveis.

Quando lemos essa lista, nós, jornalistas, que lidamos com a palavra como matéria-prima, estremecemos. Sabemos o que é lidar com a censura prévia e com a tortura e morte de jornalistas como Vladimir Herzog. Só agora, 50 anos após ser encontrado enforcado numa cela, assassinado pelo DOI/CODI, o governo brasileiro oficializou seu nome como anistiado político.

A guerra cultural de Trump não mira apenas universidades americanas. Um pesquisador aeroespacial francês foi barrado ao chegar ao país. Milhares de imagens e artigos foram removidos de sites do Pentágono por conterem “diversidade”. Sobre o Holocausto, o 11 de setembro, conscientização do câncer, assédio sexual, prevenção de suicídio. Foi vetada a citação do avião Enola Gay, que lançou bomba em Hiroshima. Apagado por ter “gay” no nome. A insanidade sobrou para a aeronave.

Não é engraçado. É aterrorizante. Autocracia, totalitarismo, ditadura, essas palavras não são sinônimas. Mas uma linha invisível as costura. A História está cheia de exemplos, enxerga quem quer.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Pensamento do Dia


‘Mamãe, estou cansada, quero morrer’

Imitando o movimento de pentear o cabelo com uma escova, Sama Tubail encara seu reflexo no espelho e começa a chorar. Para a menina de 8 anos, o movimento traz de volta lembranças de uma vida antes de 7 de outubro de 2023, quando ela ainda tinha cabelos longos e brincava ao ar livre com seus amigos no norte da Faixa de Gaza. Desde então, ela e sua família estão entre os cerca de 1,9 milhão de palestinos deslocados à força de suas casas, fugindo da violência dos bombardeios israelenses que assolam o enclave.

— Estou triste porque não há um único fio de cabelo para pentear com minha escova — disse Sama à CNN. — Eu seguro o espelho porque quero pentear meu cabelo. Eu realmente quero pentear meu cabelo de novo.

No ano passado, médicos diagnosticaram que a queda de cabelo de Sama foi resultado de um “choque nervoso”, especialmente após a casa de seu vizinho em Rafah ter sido atingida por um ataque aéreo israelense em agosto. Eles também afirmaram que a desestruturação de sua rotina desde o início da guerra provavelmente contribuiu. O sofrimento mental da menina se intensificou quando outras crianças começaram a zombar dela por causa da perda de cabelo, o que fez com que ela se isolasse dentro de casa. Quando sai, usa um lenço rosa na cabeça.

— Mamãe, estou cansada, quero morrer. Por que o meu cabelo não cresce? — implorou ela à sua mãe, Om-Mohammed, antes de perguntar se permaneceria careca para sempre. — Quero morrer e ter meu cabelo de volta no paraíso, se Deus quiser.


Sama não é a única. Um relatório divulgado no final de 2024 pela War Child Alliance e pelo Centro de Treinamento Comunitário para Gestão de Crises, com sede em Gaza, destacou o impacto psicológico das ofensivas de Israel sobre as crianças palestinas no último ano. Baseado em uma pesquisa com mais de 500 cuidadores de crianças vulneráveis, 96% das crianças nessas condições sentiam que a morte era iminente, e quase metade (49%) expressou o “desejo de morrer” após ataques israelenses.

Em relatório publicado em junho, o Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, estimou que quase todas as 1,2 milhão de crianças de Gaza precisam de apoio psicológico, especialmente aquelas expostas repetidamente a eventos traumáticos. Uma semana após o anúncio do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em janeiro, o subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários, Tom Fletcher, disse ao Conselho de Segurança da organização que “uma geração foi traumatizada”.

— Crianças foram mortas, passaram fome e morreram de frio — disse ele. — Algumas morreram antes mesmo de dar seu primeiro suspiro, perecendo junto com suas mães durante o parto.

Em uma guerra que matou mais de 48 mil pessoas e provocou um dos maiores êxodos internos na História recente, as crianças e adolescentes de Gaza são a face mais cruel do conflito. De acordo com o Ministério da Saúde do enclave, pelo menos 17,4 mil deles morreram, e outros 17 mil, segundo o Unicef, foram separados de seus responsáveis e parentes próximos, sujeitos a abusos, mais violência e exploração. A tarefa de levar esses menores até um lar conhecido não é nada simples.

— Famílias são torturadas pela incerteza do paradeiro de seus entes queridos. Nenhum pai deveria ter que cavar em escombros ou valas comuns para tentar encontrar o corpo de seu filho — afirmou Jeremy Stoner, diretor regional da ONG Save The Children para o Oriente Médio. — Nenhuma criança deveria ficar sozinha, desprotegida em uma zona de guerra. Nenhuma criança deveria ser detida ou mantida refém.

Muitos dos menores que vagam pelo enclave em ruínas são os únicos sobreviventes de ataques aéreos contra casas, acampamentos e prédios. Diante da quantidade de casos do tipo, uma sigla específica foi criada em Gaza: WCNSF (“Criança ferida, sem família sobrevivente”).

Desde que perderam os pais em um ataque israelense, Anas Abu Eish, de 7 anos, e sua irmã Doa, de 8, vivem com a avó Om-Alabed em um campo de deslocamento em al-Mawasi, Khan Younis. À CNN, o menino disse que estava “brincando de jogar bola” quando encontrou “papai e mamãe jogados na rua”: “Um drone veio e explodiu sobre eles”, relembrou. No mesmo campo, Manal Jouda, de 6 anos, descreveu a noite em que sua casa foi destruída, matando seus pais e deixando-a soterrada.

— Havia areia na minha boca, eu gritava, eles cavaram com uma pá, nosso vizinho dizia ‘essa é a Manal, essa é a Manal’. Eu estava acordada, meus olhos estavam abertos sob os escombros, minha boca estava aberta e a areia entrava nela — contou.

Oferecer serviços de saúde mental para palestinos na Faixa de Gaza também é um desafio — que, inclusive, existe desde antes da guerra. No entanto, segundo Yasser Abu Jamei, diretor do Programa Comunitário de Saúde Mental de Gaza, durante os 15 meses de ataques israelenses, sua própria equipe sofreu traumas, o que dificultou o tratamento dos outros. À CNN, ele disse que a maior parte da sua equipe trabalha em locais de deslocamento, e que menos de dez pessoas ainda estão em suas casas.

Uma técnica usada pelo GCMHP é a terapia por meio do desenho, permitindo que as crianças expressem seus sentimentos sem precisar comunicá-los verbalmente. Em entrevista à rede americana, Abu Jamei lembrou de um caso em que uma criança desenhou e depois conseguiu compartilhar a sua dor com um psicólogo do programa.

— [A criança disse:] ‘meus amigos estão no céu, mas um deles foi encontrado sem a cabeça’ — contou. — ‘Como ele poderia ir para o céu sem a cabeça?’, [acrescentou a criança, que] continuou a chorar.

Com o fim do frágil cessar-fogo entre Israel e o Hamas e a retomada da ofensiva militar israelense contra o enclave palestino, o Ministério da Saúde de Gaza anunciou nesta terça-feira que 970 pessoas morreram nas últimas 48 horas na Faixa de Gaza. A nova onda de ataques, que o governo israelense afirma ter sido coordenada previamente com os EUA, provocou manifestações no país e em Gaza, embora o grupo palestino tenha se dito aberto a continuar com as negociações para o fim da guerra.

O premier israelense, Benjamin Netanyahu, advertiu na terça que os bombardeios eram “apenas o começo”, defendendo a pressão militar como essencial para garantir a liberação dos cerca de 58 reféns ainda nas mãos do Hamas. A medida agradou sobretudo a direita radical do país, com o anúncio do retorno do partido de Itamar Ben-Gvir, extremista que havia abandonado o governo em razão do cessar-fogo, à coalizão de Netanyahu. Grande parte da população civil, porém, ficou contra.

— É uma guerra contra as crianças de Gaza, porque elas são a maioria, elas são as mais vulneráveis, elas são as que estão mais expostas às consequências dessa guerra — disse em abril o porta-voz da Unicef Ricardo Pires ao GLOBO. — Realmente a vida delas está em risco a cada dia. As crianças vão sofrer o impacto disso por gerações.

Enfrentar o algoritmo editor

O algoritmo escortina e ordena as notícias e opiniões nos nossos telemóveis, ajustando as mesmas às nossas preferências e aos nossos desejos e receios. É um editor privado e sem custos que nos conhece tão bem. Parece bom?
Sofia Santos Machado





Cem anos dessa praga

Em julho de 1925, o livro "Mein Kampf" (Minha luta), de Adolf Hitler, foi lançado na Alemanha. No ano seguinte, 1926, chegou aos leitores um segundo volume, este mais dedicado ao tema da organização partidária. A partir daí, nas edições posteriores, os dois volumes foram reunidos num só e Mein Kampf fez sua carreira editorial dividido em duas partes: a primeira, com 12 capítulos, e a segunda, com 15. Nesse compêndio de horrores, o autor destila ódio, megalomania, ressentimento, antissemitismo, nacionalismo, xenofobia e apologia da violência para fixar o ideário nazista. Com êxito.

Faz um século – e não passou. A coisa nunca mais arredou pé. Em 30 de janeiro de 1933, Hitler foi nomeado chanceler pelo presidente Paul von Hindenburg. Ato contínuo, transformou seu país numa ditadura totalitária. Logo que chegou ao poder, foi saudado por passeatas noturnas em que jovens fardados carregavam tochas em formação militar. Eram as Fackelzug. No documentário O Fascismo de Todos os Dias, de 1965, dirigido pelo russo Mikhail Romm, podemos ver esses rios ígneos apavorantes.


O espetáculo piromaníaco não se acomodou nas tochas notívagas. Logo evoluiu para rituais macabros, dentro das universidades, em que livros amontoados no pátio ardiam em fogueiras sacrificiais. Os nazistas cremaram páginas de Tolstói, Maiakovski, Thomas Mann, Anatole France, Jack London e outros gênios. Mais adiante, não satisfeitos com incinerar papel, passaram a queimar pessoas. Holocausto.

Na abertura do trecho em que as chamas devoram a literatura, o cineasta soviético projeta na tela uma frase atribuída ao próprio Hitler: “Qualquer cabo pode ser um professor, mas não é qualquer professor que pode ser um cabo”. O totalitarismo alemão acreditava que havia mais virtudes num quepe de milico do que numa beca de docente. O pior é que, na atualidade, alguns ainda acreditam nisso. Há relatos de que, num país remoto, que não fala alemão, as autoridades tomaram para si a tarefa de implantar as assim chamadas “escolas cívico-militares”. Na visão desses governantes, o coturno se sai melhor do que o quadro negro na missão de educar as crianças. O eleitorado aplaude.

O nazismo original sumiu de Berlim em 1945, derrotado pelas tropas aliadas. Em 30 de abril daquele ano, Hitler se matou. Sua mulher, Eva Braun, foi junto. O ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, também cometeu suicídio ao lado da esposa, depois de assassinar os seis filhos com cianeto. O velho Estado maior veio abaixo, mas as teses hediondas do Mein Kampf seguem atormentando o mundo.

A palavra “propaganda” aparece 173 vezes nos 27 capítulos (quem primeiro me chamou a atenção para isso foi o professor Edgard Rebouças, da Universidade Federal do Espírito Santo). Os chefes do Terceiro Reich arrancaram a investigação da verdade do campo da Filosofia, do método científico, da reportagem jornalística e dos estudos conduzidos por historiadores. Tudo isso deixou de ser fonte confiável. A Justiça e seus peritos também perderam o posto de verificadores da realidade. O nazismo monopolizou essa função, como num monoteísmo profano – aliás, em seus diários, Goebbels anotou seu sonho de fazer do partido a grande religião do povo. Quase conseguiu. Interditando a Filosofia, encabrestando a ciência, dizimando a imprensa, subjugando a Justiça e esvaziando a espiritualidade de cada um, o império da suástica fez da propaganda o único critério da verdade.

Em que se deve acreditar? Ora, naquilo que a propaganda repete mil vezes. O Mein Kampf determina que ela deve “estabelecer o seu nível espiritual ( cultural) de acordo com a capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles a quem ela pretende se dirigir”. Como se vê, a história de “nivelar por baixo” começou aí.

Hitler usou com malignidade inédita os meios de comunicação da indústria cultural. Manipulou até a morte as multidões sedentas de dominação. Hoje, podemos ver as mesmas técnicas no modo como a extrema direita instrumentaliza as plataformas sociais. As mídias digitais são o prolongamento da escola nazista: rompem com o registro dos fatos e promovem a substituição da política pelo fanatismo. O negacionismo contra as vacinas, contra o aquecimento global, contra as evidências históricas e contra a esfericidade do nosso planeta não é uma exceção, mas a regra.

Segundo o Führer, “a grande massa do povo ( é) sempre propensa a extremos”. Antes de muitos pesquisadores, ele notou que o público esclarecido pode até apreciar o equilíbrio do centro, mas a turba enfurecida prefere abertamente a falta de modos. Seus seguidores, declarados ou não, continuam a operar exatamente assim. Vide a aliança de Donald Trump e Elon Musk. Vide o triângulo rosa, com o qual os nazistas estigmatizavam os homossexuais, que o presidente dos Estados Unidos usou agora numa postagem. Vide como ele ataca as universidades e deporta inocentes.

Não, o Mein Kampf não é página virada. O Terceiro Reich foi projetado por Adolf Hitler para durar mil anos. Como doutrina, já durou cem. E vem mais por aí.

Qual é o estado real do clima global?

O ano passado foi o mais quente já registrado. Um estudo da Organização Meteorológica Mundial (OMM) destaca que "sinais claros de mudanças climáticas induzidas pelo homem atingiram novos patamares em 2024".

Nos últimos 12 meses, a temperatura média global do ar foi 1,55 graus Celsius maior do que entre 1850 e 1900, período antes de os humanos começarem a queimar combustíveis fósseis como carvão e petróleo em escala industrial. Assim, 2024 quebrou o recorde anterior de temperatura, estabelecido em 2023.
Altas concentrações de dióxido de carbono

Sob o Acordo Climático de Paris, os governos se comprometeram a limitar o aquecimento global a bem menos de 2 graus acima dos níveis pré-industriais e a continuar seus esforços para manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5 °C.

Como as temperaturas médias são medidas ao longo de décadas e não de um único ano, os resultados do Relatório Anual sobre o Estado do Clima da OMM não implicam que a meta de Paris tenha sido excedida. Mas está chegando mais perto.

Pesquisadores descobriram que as concentrações de dióxido de carbono (CO2), um gás que aquece o planeta e é emitido pelos combustíveis fósseis que queimamos para alimentar a indústria, aquecer nossas casas e fazer nossos carros funcionarem, estão mais altas do que em qualquer outro momento nos últimos 2 milhões de anos.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, chamou o novo estudo de "um alerta para o fato de que estamos aumentando os riscos para nossas vidas, nossas economias e o planeta".

Condições climáticas extremas, ele acrescentou, continuam a ter "consequências devastadoras em todo o mundo" e, atualmente, apenas metade dos países está equipada com sistemas de alerta precoce adequados para ajudar a proteger vidas e propriedades. "Isso precisa mudar", insistiu Saulo.


Em outro estudo publicado no final do ano passado, a iniciativa acadêmica World Weather Attribution (WWA), sediada no Reino Unido, descobriu que as mudanças climáticas "contribuíram para a morte de pelo menos 3.700 pessoas e o deslocamento de milhões" apenas nos 26 eventos climáticos analisados ​​em 2024.
Como os combustíveis fósseis aparecem em nossos oceanos

O relatório da OMM, que se baseia em contribuições científicas de vários órgãos especializados, também cita a transição de um La Niña de resfriamento para um El Niño de aquecimento como um fator que contribuiu para o padrão climático recorde de 2024.

Com 90% do excesso de calor atmosférico absorvido pelos nossos oceanos, 2024 registrou os maiores níveis de aquecimento oceânico durante uma janela de observação de 65 anos.

E esse aquecimento afeta os ecossistemas marinhos, causando um declínio na biodiversidade e uma redução na capacidade do oceano de absorver carbono. Da mesma forma, oceanos mais quentes estão ligados a tempestades tropicais e níveis mais altos de acidificação, o que, por sua vez, prejudica os habitats marinhos e, consequentemente, a indústria pesqueira.

Como a água mais quente se expande e requer mais espaço, ela também contribui para o aumento do nível do mar, o que, de acordo com o relatório, "tem efeitos prejudiciais em cascata sobre os ecossistemas e a infraestrutura costeira". O aumento do nível do mar também pode causar danos por inundações e contaminação das águas subterrâneas com sal do oceano.

"Nosso planeta está enviando mais sinais de socorro", disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em um comunicado. "Mas este relatório mostra que ainda é possível limitar o aumento da temperatura global a longo prazo a 1,5 graus Celsius." Cabe aos líderes "dar um passo à frente para tornar isso uma realidade" (...) "aproveitando os benefícios da energia renovável barata e limpa para seus povos e economias", disse Guterres.

Espera-se que a energia renovável gere um recorde de 30% da eletricidade global em 2023, impulsionada pelo crescimento da energia solar e eólica.

Até mesmo os Estados Unidos, que sob o comando do presidente Donald Trump estão revogando regulamentações de proteção climática em favor do aumento da extração de combustíveis fósseis, estão experimentando um crescimento contínuo no setor solar.

No ano passado, as instalações solares e a infraestrutura de armazenamento de baterias aumentaram, o que significa que o sol agora pode cobrir mais de 7% das necessidades de eletricidade do país.
O custo da energia limpa caiu drasticamente

Em uma análise publicada no outono passado, Francesco La Camera, diretor geral da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), afirmou que o custo da energia limpa caiu tanto na última década que "os preços da energia renovável não são mais uma desculpa; pelo contrário".

No entanto, apesar desse esforço contínuo para mudar para energias renováveis, os cientistas enfatizam a necessidade de uma absorção e remoção muito maior e mais rápida de CO2 da atmosfera se houver alguma esperança de manter o aquecimento global abaixo do limite de 1,5 °C.

Uma dupla tragédia em Gaza

Esta terça-feira, dia 18 de março, foi um dia duplamente trágico.

Trágico porque durante a madrugada as forças armadas israelitas quebraram o cessar-fogo que vigorava há dois meses em Gaza e bombardearam o território, matando num ápice de violência extrema 500 civis e fazendo cerca de mil feridos. E matando as esperanças recentes de que pudesse haver um caminho, mesmo que estreito, para que o frágil cessar-fogo desse lugar a negociações sérias sobre o futuro do território palestino.

Trágico porque esse ataque significa uma mudança duradoura na estratégia de Benjamin Netanyahu, incentivado tanto pela extrema-direita israelita quanto pelo seu aliado em Washington, Donald Trump, com quem já trabalha para a recolocação do povo palestino.


Israel usou toda a sua força e atacou de surpresa, durante a noite, num raide mortífero que ultrapassou em muito o pior dia da guerra, a 9 de junho, que fizera 270 mortos. “Durante a noite, os nossos piores medos materializaram-se. Os ataques aéreos recomeçaram por toda a Faixa de Gaza. Relatos não confirmados de centenas de pessoas mortas. Mais uma vez, o povo de Gaza está a viver no medo absoluto”, resumiu nesta terça-feira o subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, falando no Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque.

O cessar-fogo em Gaza acabou por durar apenas dois meses. Há vários dias que Israel tinha suspendido a entrada de ajuda humanitária e as pressões dentro do governo de Benjamin Netanyahu aumentavam de dia para dia para que cedesse à linha dura. A acrescentar a isso, conta com a bênção declarada de Trump, que sonha mesmo com uma “Riviera do Médio Oriente”.

O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, o mesmo que já avisou que os novos ataques não foram um “ataque de um dia” e que a operação militar em Gaza continuará nos próximos dias, revelou que a administração Trump foi informada previamente da operação militar, o que foi confirmado pela Casa Branca. “Como o Presidente Trump deixou claro, o Hamas, os houthis, o Irã, todos aqueles que procurarem aterrorizar não só Israel mas também os Estados Unidos vão ter um preço a pagar”, avisava a porta-voz, Karoline Leavitt.

Um dos próximos passos desta aliança entre Netanyahu e Trump pode mesmo vir a ser a relocalização dos palestinos da Faixa de Gaza. Ainda há dois dias, a imprensa norte-americana noticiava que os dois países concordavam que o melhor destino para os cerca de 2 milhões de palestinos seria a Síria, estando em estudo ainda as hipóteses da Somália e do Sudão. Por mais abominável que pareça, isto pode, de fato, vir a tornar-se uma realidade.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Pensamento do Dia


 

Com certo patrimônio pessoal, as pessoas surtam!

A frase do título foi dita pela mulher então tida como a mais rica do planeta, com fortuna estimada em trinta bilhões de euros! Ela manteve, por décadas, um relacionamento com um fotógrafo que se revelou um explorador das fragilidades daquela bilionária e ganhou dela “presentes” que somaram perto de um bilhão de euros! Surtou ela? Surtou ele? A partir de certo valor, surtam todos?

Parece que sim: além de certa quantia, perde-se a noção da realidade. Ou, alternativamente – o que dá no mesmo! -, adquire-se uma noção deturpada do mundo real, uma visão na qual um euro ou dólar adicional, embora imperceptível, é mais desejável que muitas vidas. Estas se tornam sem importância, descartáveis. Não há saciedade nesse patamar, sempre se quer mais!


Assim é. Sabe-se que o consumo de alimentos fake é prejudicial à saúde, mas celebra-se a instalação de novos McDonalds, ou similares, porque “trarão emprego e renda”, e mais lucros para os acionistas. Sabe-se que queimar carvão, petróleo ou gás natural mata pessoas, mas não se renuncia a fazê-lo, pois a queima dessa droga trará mais lucros. Drogas sim, pois, como as outras, inicialmente trazem alegrias, mas, em seguida, tornam-se vício fatídico. Sempre se quer mais, apesar de se ter noção das consequências!

Um dos pontos interessantes da frase título é o reconhecimento pessoal do estado de loucura gerado pela fortuna desmedida. Quando se tem tanto, numa condição em que presentear um “amigo” com milhares de euros não passa de um “pequeno” mimo, em meio a um planeta em que mais de 80% dos semelhantes não vivem, apenas aguentam, com menos de US$10,00/dia, qual a empatia possível com o restante da humanidade?

A questão se agrava quando se vê que o país mais poderoso do mundo é governado por pessoas que se encontram entre os 0,0001% mais ricos do planeta. Para eles, que diferença faz o preço do leite, do ovo ou da carne? E que lhes interessa se o transporte público é ruim? Pior, não é apenas aquele país que é governado por seres apartados da realidade vivida pela maioria.

Aqui mesmo, em nosso Patropi, o patrimônio médio dos deputados federais ultrapassa três milhões de reais. Este fato, junto à constatação que a maioria deles está envolvida em processos criminais, demonstra que deixaram de ser representativos da população; ao contrário, são uma casta, cheia de privilégios e temerosa de reformas que aproximem representados de representantes.

A loucura prossegue, e os exemplos abundam. Há poucos meses, um indiano gastou centenas de milhões de dólares para celebrar o casamento da filha. Mais grave: vemos agora os países com as populações mais ricas dedicarem-se a ampliar seus arsenais, em detrimento de gastos que promovam qualidade de vida. Pode-se concluir, indago, que a partir de certa quantia não apenas pessoas, mas também países, enlouquecem? Parece que sim, pois países são governados por pessoas… a maioria das quais riquíssima!

Antes que os arsenais ampliados sejam usados, que seja restaurada a sanidade!
Como?

A extrema direita e a arte de distrair

Não se pode negar à extrema direita, aqui e alhures, o domínio da arte de plantar distrações no debate público e, com isso, mobilizar as atenções e as conversas. O Brasil, de novo, foi laboratório para esse tipo de experimento nesta terça-feira, quando um projeto complexo, que diz respeito, direta ou indiretamente, a milhões de contribuintes, dividiu espaço no noticiário, nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp com um factoide da família Bolsonaro: o filho Zero Três de Jair está de partida para mais uma temporada morando nos Estados Unidos, desta vez, aparentemente, não para fritar hambúrguer.

Provavelmente, a coincidência dos anúncios do projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que reuniu Lula, ministros e os comandantes das Casas do Congresso, e de que Eduardo Bolsonaro se licenciará indefinidamente do mandato de deputado federal para ficar nos Estados Unidos e, de lá, ficar atirando no Judiciário brasileiro não foi estrategicamente pensada.

Mas foi didática para ver quanto somos facilmente tragados para uma agenda que só interessa à família, cada vez mais pressionada pela iminência de que os atos golpistas praticados com comando e anuência do ex-presidente sejam julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


É como as diabruras diárias de Donald Trump. Muitas dificilmente sairão do gogó ou do papel, sofrerão recuos obrigatoriamente e não passam de provocação, mas geram reação de governos, corporações, mercado financeiro, imprensa americana e do resto do mundo e por aí afora, num efeito dominó perverso que desvia o foco daquilo que, no projeto de desmonte que ele empreende, realmente tem impacto institucional, legal e econômico.

Há muitas conjecturas a respeito da intenção da família com a deserção de Eduardo, da preparação de terreno para uma fuga do pai a um temor mais comezinho de ficar sem o passaporte, possibilidade que se dissipou já na própria terça-feira, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, negou pedido do PT nesse sentido. O certo é o propósito do bolsonarismo de vitimizar Jair e companhia. Como as investidas têm surtido efeito decrescente, por vezes pífio, vide a manifestação esvaziada do último domingo, resolveram apelar para um showzinho com locação internacional.

O mais provável é que Eduardo produza uma série de vídeos em que, à distância, se sinta mais corajoso para adjetivar Alexandre de Moraes, algo que aqui, no comando da Comissão de Relações Exteriores, o deixaria sempre receoso de ser incluído nas investigações de que escapou de raspão, até agora. Promoverá encontros com lideranças mais estridentes da direita americana, usará bonés com dizeres para animar a torcida e tentará agitar alguma moção contra ministros do STF.

Mas é preciso tirar a espuma da distração estridente e perguntar: e daí? Para efeito de um eventual pedido de asilo de Jair ou de uma fuga cinematográfica, o alarde prévio do filho só atrapalha e deixa quem precisa ficar de olho mais alerta. Se a ideia é constranger ou afetar diretamente Moraes ou os demais ministros da mais alta Corte do Brasil, o deputado e seus aliados demonstram não conhecer nada de princípios elementares de Direito Internacional, como a autodeterminação das nações soberanas. Trocando em miúdos: a Constituição americana não tem validade em solo brasileiro, nem o Congresso ou a Suprema Corte dos Estados Unidos têm jurisdição sobre Brasília.

O julgamento de Bolsonaro e dos outros 33 denunciados por tentativa de golpe de Estado seguirá o cronograma bastante acelerado que já vem sendo ditado — não por acaso, ontem mesmo foi marcada a análise da denúncia de outro lote, numa demonstração de que o show pirotécnico da família terá efeito prático zero sobre o destino judicial do patriarca e dos demais. Muito barulho por nada.

E o mundo se cala...

Enquanto você lê esse texto, pais e mães se debruçam sobre o corpo inerte de seus filhos. Tantos outros são inundados por uma saudade dolorosa dentro de um quarto — ou uma tenda — tomado por um vazio cruel. Provavelmente se agarram ao cheiro de suas crias, que ficou impregnado na roupa. E o mundo se cala. Na madrugada desta terça-feira, recebi fotos de fontes na Faixa de Gaza. Crianças transformadas em bonecos retalhados e largados no chão ou sobre uma mesa fria de um necrotério.

No momento em que escrevo, passam de 450 os mortos nos bombardeios israelenses no território palestino. As forças do premiê Benjamin Netanyahu, cuja sobrevida política depende da guerra, se mobilizam para expandir a campanha militar. Prenúncio de mais violações do direito internacional e massacres. E o mundo se cala.


É justo impor uma punição coletiva a uma população civil e desarmada por conta da existência de grupos terroristas? Parece-me inconcebível que a comunidade internacional não force Israel a deter a matança. No fim das contas, é óbvio que a aposta de Netanyahu pelas armas coloca os reféns do Hamas em risco real de morte. A facção extremista avisou que o destino dos sequestrados é incerto — uma clara ameaça a Netanyahu. Os bombardeios massivos a Gaza apenas condenam 2 milhões de palestinos — a imensa maioria formada por gente inocente e trabalhadora — ao horror. Mas, também, sentenciam os próprios israelenses a mais insegurança e medo.

O silêncio do mundo é ensurdecedor. Netanyahu decidiu prosseguir com a matança de palestinos porque conta com a anuência de Donald Trump. Afinal de contas, valem muito mais os interesses comerciais e políticos do que vidas humanas. É indiscutível que o massacre de 7 de outubro de 2023 tenha sido dantesco, horrível e digno de condenação absoluta. É indiscutível que um país atacado tenha direito de se defender. Mas é inaceitável que essa defesa seja feita às custas das vidas de milhares de palestinos. Isso deixa de ser autoproteção. Passa a ser vingança.

Somente a criação de um Estado palestino independente e soberano pode pôr fim à matança desenfreada no Oriente Médio e estabilizar a conturbada região, que enfrenta o perigo de um mergulho na guerra. Os rebeldes huthis, do Iêmen, armados pelo Irã, retomaram ataques a embarcações no Mar Mediterrâneo. Os EUA têm feito reiteradas ameaças ao regime iraniano. O cessar-fogo no Líbano segue frágil, e o Hezbollah permanece ativo.

Israelenses e palestinos precisam colocar a prioridade pela paz à frente do ressentimento, do ódio e do desejo de vingança. Concessões difíceis devem ser tomadas por ambos lados. Elas incluem o status quo de Jerusalém como capital e o retorno dos refugiados. Pela segurança das futuras gerações.

Estúpidos malditos

Estupidez é o mesmo que maldade, se você julgar pelos resultados
Margaret Atwood

Populistas de direita: iguais, mas diferentes

A professora Maria Hermínia Tavares iniciou sua ótima coluna da semana passada indagando sobre o que explicaria o avanço do populismo de extrema direita. Espero que ela continue a nos iluminar na exploração do tema, um dos mais decisivos. Mas, como o foco adotado era compreender por que eleitores aderem ao discurso dos populistas radicais de direita, gostaria de acrescentar algo ao tema, examinando outra questão: a natureza desse populismo.

Nem precisaria ressaltar o quanto esse tema é complexo. Digamos apenas que a concepção mais comum de populismo é negativa, associada à demagogia, ao personalismo e ao desprezo pelas instituições. Eis a razão pela qual ninguém se assume como populista nem aceita essa designação.

Acho, contudo, que é possível encontrar uma definição mais neutra e analítica de populismo, assim como diferenciar as formas que ele assume hoje. O populismo envolve retórica, atitude e crenças. Sua premissa fundamental é que a sociedade se divide entre um povo autêntico e uma elite corrupta. O indivíduo, partido ou governo populista parte dessa premissa para se dirigir à massa popular, representando-a como a parte mais nobre e fundamental da nação e se apresentando como a única forma política que se vincula orgânica e moralmente ao povo, tendo como missão enfrentar as elites em seu nome.


A variação entre os populismos está na resposta à pergunta sobre quem é "o povo" para cada corrente. Há duas respostas clássicas. No populismo de esquerda, o povo é a classe explorada no capitalismo. A definição de Gramsci segue essa linha: o povo é formado pelos subalternos em uma sociedade de classes. A liderança populista se apresenta como defensora dos trabalhadores, dos marginalizados, dos subalternizados, e sua ação política se traduz em políticas de redistribuição de renda e em luta contra a desigualdade.

A segunda forma clássica é o populismo nacionalista e conservador, de direita. Aqui, o povo é definido por identidade cultural e nacional. O critério não é econômico, mas cultural e territorial: a nação como comunidade de valores e história. A liderança populista se apresenta como defensora dos valores nacionais contra elites progressistas e contra estrangeiros. O inimigo do povo, aqui, não é necessariamente a elite econômica, mas a elite política e cultural, traidora da nação.

Mas há um terceiro tipo, exemplificado por Trump e Milei, que escapa tanto ao modelo de esquerda quanto ao nacionalista. O que une Milei e Trump, entre outros, é que eles rejeitam a ideia de povo da esquerda, flertam com o conceito conservador, mas adotam uma terceira abordagem. O povo, aqui, é formado por aqueles que competem no jogo do livre mercado, os que se esforçam, inovam, criam riqueza e não dependem do Estado, e que, por isso mesmo, são tosquiados, explorados, sufocados por políticas públicas de esquerda, obrigados a pagar a conta pela inépcia estatal e, ainda por cima, tratados como os vilões da história pelos progressistas. Esse populismo é individualista e meritocrático e rejeita tanto a "casta" política quanto os "vagabundos" que vivem de assistencialismo.

A ironia desse populismo ultraliberal é que, embora se oponha ao populismo no discurso econômico, não hesita em adotar as táticas populistas clássicas: discurso antielite, mobilização emocional, rejeição do establishment, figura do líder outsider, personalismo e demagogia.

Os populismos de direita vencedores hoje, portanto, variam conforme seus elementos centrais. Le Pen, por exemplo, representa o populismo nacionalista, enquanto a AfD combina elementos dos populismos nacionalista e ultraliberal. Milei e Trump compartilham a retórica populista ultraliberal, voltada contra a casta e a elite cultural progressista, mas o segundo mantém um teor mais alto de populismo nacionalista, apelando à América profunda. Bolsonaro partiu de um populismo conservador básico, ao qual acrescentou, como um apêndice retórico, o populismo ultraliberal, porém sem nunca abandonar a retórica do populismo protetor dos pobres e miseráveis.

Em comum, todos os populistas têm uma elite para condenar, um povo para defender e representar, um sistema para combater e desmontar. Todos se apresentam como a voz autêntica do povo e a expressão mais genuína de sua vontade e de suas esperanças. O peso e a importância de cada elemento nesse caldeirão retórico e nas ações de cada líder, partido ou movimento é que conferem o sabor próprio do populismo predominante em cada lugar. São iguais, mas, ao mesmo tempo, diferentes. E vice-versa.

Trump tenta usar sul-africanos brancos como 'alerta' para seguidores nos EUA

Se ouvirmos a opinião do presidente dos EUA, Donald Trump, e de seus aliados, ele dirá que a África do Sul é um lugar terrível para as pessoas brancas. Segundo o republicano, elas enfrentam discriminação, são preteridas em vagas de emprego e vivem sob a constante ameaça de violência ou de terem suas terras roubadas por um governo corrupto, liderado por negros, que deixou o país em frangalhos.

Os números contam uma história diferente. Apesar de serem apenas 7% da população, os brancos controlam quase metade das terras da África do Sul. As estatísticas policiais não os mostram como mais vulneráveis a crimes violentos do que outras fatias da população. E os sul-africanos brancos estão em situação bem melhor dos que os negros em praticamente todos os indicadores econômicos.

Mesmo assim, Trump e seus aliados apresentam uma narrativa própria sobre a África do Sul para avançar com um argumento próprio dentro de casa: se os EUA não barrarem as iniciativas de promoção de diversidade, o país se tornará uma nação disfuncional onde a discriminação contra os brancos será rotina.

— A ideia é instigar o medo nas pessoas brancas nos EUA e em outros lugares: “nós brancos estamos sob ameaça” — afirmou Max du Perez, um escritor e historiador sul-africano, branco, ao comentar a descrição que Trump faz ao seu país.

Mas, como ele aponta, os brancos prosperaram desde o fim do regime do apartheid, em 1994.

Os paralelos entre as tentativas da África do Sul para desfazer as injustiças dos anos do apartheid e a longa jornada dos EUA para lidar com o legado da escravidão e com as chamadas “Leis Jim Crow”, que reforçaram a segregação no país, com frequência surgem entre os apoiadores de Donald Trump.

Ernst Roets, um ativista branco na África do Sul, disse que quando conversou com ativistas conservadores dos EUA, por vezes ouviu deles que “era necessário olhar para a África do Sul, porque é o que vai acontecer por aqui se não formos cautelosos”.

Desde a queda do apartheid, há três décadas, o governo democrático da África do Sul chegou ao poder com a promessa de reparar as desigualdades do sistema que deixou a maioria da população negra às margens. Mesmo assim, o presidente Nelson Mandela em boa parte permitiu que os brancos mantivessem suas riquezas, como forma de garantir uma transição pacífica.

Seu partido, o Congresso Nacional Africano, aprovou leis para reduzir o abismo da desigualdade entre brancos e negros. Recentemente, o país adotou uma medida que permite ao governo confiscar terras privadas que sejam de interesse público, por vezes sem compensação.

A lei ainda não foi usada, embora alguns sul-africanos brancos — e Trump — digam que ela atinge, de forma injusta, os donos de terras e fazendeiros, em sua maioria brancos, apesar de décadas de políticas anti-apartheid.

Trump construiu sua identidade política em parte como um protetor da América branca. Brigou para salvar símbolos dos confederados no sul do país, chamou treinamentos sobre discriminação racial de “propaganda antiamericana”, e defendeu publicamente supremacistas brancos.

Cortar a ajuda à maior parte da África, ao mesmo tempo em que defende os africâneres —a minoria étnica branca sul-africana que liderou o regime do apartheid — parece ser a mais recente prova do comprometimento de Trump com os interesses brancos.

No mês passado, o presidente assinou uma ordem executiva garantindo status de refugiados aos africâneres e suspendendo toda a ajuda à África do Sul, em parte como resposta à reforma das terras. Ele disse em sua rede social, no começo do mês, que os EUA facilitariam a obtenção de cidadania para os fazendeiros sul-africanos, muitos dos quais são africâneres. Na sexta-feira, o secretário de Estado, Marco Rubio, chamou o embaixador da África do Sul em Washington, Ebrahim Rasool, de “político incitador racial que odeia os EUA” e o expulsou.

— Trump está dizendo aos brancos de todos os lugares que ele usará seu poder para proteger e impulsionar seus interesses, e que os fatos não importam — disse Khalil Gibran Muhammad, professor de Estudos Afro-Americanos na Universidade Princeton.

Alguns africâneres elogiaram a postura de Trump. Ativistas foram a Washington em fevereiro para pedir apoio ao seu governo. Um integrante da Casa Branca descreveu uma das delegações como “líderes dos direitos civis”.

Muitos dos aliados do presidente destacaram o que veem como dificuldades dos brancos sul-africanos. Elon Musk, que nasceu na África do Sul mas não é africâner, acusou o governo do país de promover leis racistas, e falsamente alegou que fazendeiros brancos estavam sendo mortos todos os dias.

Depois que Roets participou do programa de Tucker Carlson na Fox News, em 2018, o apresentador publicou em suas redes sociais que “fazendeiros brancos estavam sendo brutalmente assassinados na África do Sul por causa de suas terras”.

Carlson produziu uma matéria descrevendo tomadas de terras e homicídios. Trump, que estava em seu primeiro mandato, marcou o jornalista em uma publicação em uma rede social na qual dizia ter ordenado uma investigação sobre a tomada de terras e “o assasinato em grande número de fazendeiros, mesmo sem o governo ter tomado uma propriedade sequer até hoje.

No universo de Trump, esses temas estão sendo recirculados como sinais de alerta para os Estados Unidos.

Muitos eleitores sul-africanos, não importa sua raça, concordam que o Congresso Nacional Africano criou um país com muita corrupção, sem infraestrutura, com altos níveis de violência e desigualdade, onde os negros são os mais pobres. Na última eleição, o partido perdeu a maioria no Parlamento pela primeira vez desde o fim do apartheid.

Analistas apontam que a sigla fez grandes esforços para adotar políticas pró-mercado que permitiram aos sul-africanos brancos manter seu poder econômico. Na verdade, muitos cidadãos criticam Mandela por não ter ordenado uma redistribuição mais agressiva de terras controladas pelos brancos para a população negra, cujas famílias foram expulsas dessas mesmas terras durante o apartheid e o período colonial.

Apoiadores da lei das terras esperam que ela acelere o objetivo de devolver as propriedades aos sul-africanos negros. Mas para Trump, os africâneres é que são as vítimas “de uma injusta discriminação racial”, como detalhou em sua ordem executiva assinada no mês passado.

Descendentes de colonizadores holandeses que chegaram ao sul da África em 1652, os africâneres atraíram as atenções do mundo no começo do século passado, como uma pequena tribo que enfrentou o poderoso império britânico em batalhas territoriais (apesar de perderem a guerra”. Os britânicos os viam como grosseiros, e essas lutas criaram divisões profundas entre as duas maiores populações brancas do país, que persistem até hoje.

Embora o presidente americano geralmente seja contra a entrada de refugiados e pessoas em busca de asilo nos EUA, ele abriu uma avenida especial para alguns africanos brancos chegarem ao país.

Isso não necessariamente correspondeu aos desejos de seu público-alvo. Muitos africâneres dizem que, embora apreciem o apoio de Trump, assim como suas alegações de perseguição, eles preferem permanecer em seu país, que eles consideram ser seu lugar de direito.
John Eligon