Foram muitas e graves as consequências da memorável rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF — a maior e mais eloquente, o risco de o presidente Lula se tornar um pato manco. A derrota, inédita na ocorrência e na magnitude, escancarou a fragilidade do governo diante do Congresso, feriu em grau hemorrágico a autoridade do presidente e, a cinco meses da eleição, dificultou a aprovação de projetos cruciais para a recuperação de sua popularidade, como o da escala 6x1. Na mesma proporção do revés do governo, deu-se o ganho da oposição: Flávio Bolsonaro — que, com seu coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), foi responsável por arregimentar ao menos 28 dos 42 votos contrários a Messias — transformou o episódio em vitória da sua candidatura à Presidência e numa “resposta” do Senado aos “excessos do Supremo”, bandeira de que o concorrente Romeu Zema, do Novo, ameaçava se apropriar.
Se, no rol das consequências do episódio Messias, a derrota de Lula é clara — e, em muitos aspectos, devida, porque nasceu de um flagrante erro de cálculo do próprio presidente —, a vitória da oposição é mais matizada. Flávio sabe que boa parte dos votos que amealhou no Senado não se explica apenas pela tese pública de que a rejeição de Messias serviria como recado de autocontenção ao STF, ou como prenúncio da abertura das comportas para um futuro impeachment de ministros. Fosse essa primeira questão a razão principal, Messias deveria ter sido apoiado, e não rejeitado, pelo grupo de Flávio. Na sabatina da CCJ, defendeu o fim do inquérito das fake news, a criação de um código de ética para o STF e, em mais de uma ocasião, fez críticas indiretas à conduta de Alexandre de Moraes. O motivo maior, como admitem diversos senadores, foi o receio de que Messias se alinhasse a André Mendonça, principal avalista de seu nome na Corte, e ajudasse a formar no Supremo uma maioria capaz de ameaçar aqueles que têm perdido o sono diante de pendências, presentes e futuras, nos inquéritos do Banco Master e das fraudes do INSS — ambos sob relatoria de Mendonça. O último e mais vulgar dos motivos da vitória oposicionista atende pela velha alcunha de “toma lá dá cá”, aqui escorada no empenho de R$ 12 bilhões em emendas pelo governo, em meio a tentativas de recompor pontes com o Senado comandado por Davi Alcolumbre — o marco zero dessa história.
Como até as pedras sabem, Alcolumbre queria que Lula indicasse não Messias, mas o também senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga no STF. Contrariado em seu desejo e ferido em sua vaidade, Alcolumbre urdiu a revanche, no que teria sido apoiado pelos ministros Moraes e Flávio Dino. Tais apoios não se deram de forma explícita, nem por motivos que se possam chamar elevados — a animosidade de Dino em relação a Messias vem da indicação anterior de Lula ao STF: o advogado-geral da União já estava no páreo e Dino, o vitorioso na ocasião, nunca esqueceu as farpas que considera ter recebido dele. Moraes e Dino negam publicamente ter atuado pela derrota do indicado de Lula.
sábado, 2 de maio de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
O trabalho está morto. Viva o trabalho!
É um homem grande, a cabeça calva queimada pelo sol, os ombros largos, as mãos enormes. Aproxima-se de mim na multidão que, no final da manifestação contra o pacote laboral, se aperta na Rua de São Bento, quase a chegar à Assembleia da República. É vidreiro, apresenta-se. E vem falar-me da luta de operários como ele, sujeitos a trabalhar no verão a temperaturas que chegam a ultrapassar os 70 ºC, num ambiente de enorme ruído, a respirar sílica cristalina cancerígena, com “jornadas contínuas de trabalho que chegam a um mês seguido, podendo estender-se até dois meses ou mais no período de verão, para assegurar férias dos colegas”. Naquele dia, desculpa-se, está engripado. Mas nem por isso faltou à luta, sob o sol ainda baixo de abril, que nos escalda a cabeça. Quer pôr os partidos a perceber a importância de a profissão de vidreiro ser considerada de desgaste rápido, mas sente-se a pregar num deserto quase tão abrasador como a fábrica onde passa os dias.
O operário explica-me como a tecnologia não lhe aliviou a penosidade do trabalho. “Assistimos a uma evolução tecnológica que aumentou significativamente a rentabilidade, mas não teve efeito no número de trabalhadores nem na forma de operar. Ou seja, a tecnologia melhorou a produção, mas não reduziu a exposição humana. Pelo contrário, em muitos casos intensificou-a”, queixa-se. Os fornos não podem parar nunca ao longo dos 15 anos que duram. Os homens vergam-se às máquinas.
Há quem ache que as histórias que falam de operários deviam ser contadas a preto e branco. Eles não existem hoje, acham os que cantam loas às divindades do empreendedorismo e a quem a própria palavra trabalho cheira a mofo. Decretaram o fim do trabalho. No futuro, dizem eles, as máquinas vão fazer tudo, seremos todos substituídos por Inteligência Artificial. E o futuro, dizem eles, começou agora.
É uma profecia que não estará completamente errada. É fácil de perceber como certos trabalhos, muitos deles administrativos, chatos e repetitivos, mas também muitos dos que se dizem criativos, estão tão votados à extinção como no passado estiveram os de homens que foram substituídos por máquinas nas fábricas. E não só esses. Até os médicos e talvez também os juristas e os jornalistas poderão ser em grande parte substituídos por modelos de linguagem, capazes de simular o pensamento humano, através da análise e da reprodução de padrões. Sim, para muitos o trabalho que hoje fazem irá desaparecer. Mas desaparecerá o trabalho? E a necessidade dele para sobreviver?
Em 1930, o economista John Maynard Keynes previa que até 2030 as jornadas de trabalho reduzir-se-iam a 15 horas semanais, precisamente devido aos avanços tecnológicos. Sabemos bem como isso correu. Até hoje, uma das lutas sindicais é pelas 35 horas semanais. E esse é só o trabalho dito normal. Não entram para essas contas as horas extraordinárias que se multiplicam para muitos e muito menos as desoras a que somos obrigados a responder a emails, mensagens e chamadas, a alimentar as redes sociais ou simplesmente a tentar mantermo-nos a par de tudo o que temos de dominar nas nossas profissões.
O futuro poucas vezes é aquilo que parece que vai ser. Sobretudo, quando o que o molda é um sistema capitalista extrativista que tem contribuído nas últimas décadas para uma desigualdade e uma exploração cada vez maiores. Os milionários das tecnológicas estão tão preocupados com isso que o CEO da OpenIA, Sam Altman, acaba de defender a ideia de aumentar os impostos sobre o capital e taxar o trabalho automatizado (e não só o humano), percebendo que sem uma política fiscal redistributiva deixará de haver consumidores capazes de comprar os seus produtos. Não é justiça social nem altruísmo o que o move: é pragmatismo puro. E a ideia – que alguns considerariam socialista e radical – de que muitos dos nossos grandes problemas coletivos se resolvem através de políticas fiscais redistributivas ganha assim um improvável aliado capitalista. Até um tech bro consegue perceber os limites do capitalismo selvagem e dos mercados desregulados.
Outros terão ideias diferentes para resolver o problema de haver uma massa cada vez maior de trabalhadores intelectuais antigamente qualificados tornados obsoletos. Poderão pensar que a solução está nos exércitos de entregadores e motoristas de plataformas que enxameiam as cidades de todo o mundo, mas só até haver robots que os substituam. E talvez, ainda que não tenham coragem de o admitir, toda a guerra que os engorda financeiramente seja, ao mesmo tempo, uma forma de consumir estes exércitos de humanos desnecessários.
Podemos sempre imaginar que o trabalho humano, aquele que se faz com um cérebro analógico, mãos treinadas, empatia e memória, tenderá a ser cada vez mais um luxo (tão inacessível como as peças que a alta-costura hoje vende), dominado por um punhado de artesãos cobiçados. É possível que assim seja. Mas também é possível que essa transformação venha acompanhada de miséria, exclusão e muito mais exploração. Como o vidreiro me explicou, a tecnologia serve primeiro para engordar os lucros e só eventualmente tem o efeito secundário de aliviar alguns trabalhadores. Afinal, não será por acaso que querem enfiar-nos pela goela abaixo reformas laborais como a que Javier Milei passou na Argentina, que cria o conceito de “salário dinâmico”, pago à vontade do patrão, que até pode entregá-lo em géneros.
Podem achar que operários como o vidreiro que veio falar-me já não existem. Que somos todos empreendedores, colaboradores, modernos unicórnios, nómadas digitais e o raio que vos parta. Mas se, por acaso, não conseguem aguentar-se mais de três meses sem receber qualquer rendimento de trabalho e se não são donos de meios de produção, tenho uma verdade chocante para vos contar: fazem parte da classe trabalhadora!
Por isso, amigos, pensem bem da próxima vez que vierem falar-vos de um futuro radioso sem trabalho, de reformas douradas antecipadas que não são mais do que vidas a gerir rendas e de outras fantásticas histórias da carochinha. Enquanto não chegarem à terra esses rios de leite e mel, lembrem-se de que são trabalhadores e de que os direitos que têm podem ser a linha ténue que vos separa da miséria. O operário vidreiro sabe disso na pele que lhe arde na fábrica e nos pulmões que se enegrecem no trabalho. E vocês? Quando é que vão perceber isto?
O operário explica-me como a tecnologia não lhe aliviou a penosidade do trabalho. “Assistimos a uma evolução tecnológica que aumentou significativamente a rentabilidade, mas não teve efeito no número de trabalhadores nem na forma de operar. Ou seja, a tecnologia melhorou a produção, mas não reduziu a exposição humana. Pelo contrário, em muitos casos intensificou-a”, queixa-se. Os fornos não podem parar nunca ao longo dos 15 anos que duram. Os homens vergam-se às máquinas.
Há quem ache que as histórias que falam de operários deviam ser contadas a preto e branco. Eles não existem hoje, acham os que cantam loas às divindades do empreendedorismo e a quem a própria palavra trabalho cheira a mofo. Decretaram o fim do trabalho. No futuro, dizem eles, as máquinas vão fazer tudo, seremos todos substituídos por Inteligência Artificial. E o futuro, dizem eles, começou agora.
É uma profecia que não estará completamente errada. É fácil de perceber como certos trabalhos, muitos deles administrativos, chatos e repetitivos, mas também muitos dos que se dizem criativos, estão tão votados à extinção como no passado estiveram os de homens que foram substituídos por máquinas nas fábricas. E não só esses. Até os médicos e talvez também os juristas e os jornalistas poderão ser em grande parte substituídos por modelos de linguagem, capazes de simular o pensamento humano, através da análise e da reprodução de padrões. Sim, para muitos o trabalho que hoje fazem irá desaparecer. Mas desaparecerá o trabalho? E a necessidade dele para sobreviver?
Em 1930, o economista John Maynard Keynes previa que até 2030 as jornadas de trabalho reduzir-se-iam a 15 horas semanais, precisamente devido aos avanços tecnológicos. Sabemos bem como isso correu. Até hoje, uma das lutas sindicais é pelas 35 horas semanais. E esse é só o trabalho dito normal. Não entram para essas contas as horas extraordinárias que se multiplicam para muitos e muito menos as desoras a que somos obrigados a responder a emails, mensagens e chamadas, a alimentar as redes sociais ou simplesmente a tentar mantermo-nos a par de tudo o que temos de dominar nas nossas profissões.
O futuro poucas vezes é aquilo que parece que vai ser. Sobretudo, quando o que o molda é um sistema capitalista extrativista que tem contribuído nas últimas décadas para uma desigualdade e uma exploração cada vez maiores. Os milionários das tecnológicas estão tão preocupados com isso que o CEO da OpenIA, Sam Altman, acaba de defender a ideia de aumentar os impostos sobre o capital e taxar o trabalho automatizado (e não só o humano), percebendo que sem uma política fiscal redistributiva deixará de haver consumidores capazes de comprar os seus produtos. Não é justiça social nem altruísmo o que o move: é pragmatismo puro. E a ideia – que alguns considerariam socialista e radical – de que muitos dos nossos grandes problemas coletivos se resolvem através de políticas fiscais redistributivas ganha assim um improvável aliado capitalista. Até um tech bro consegue perceber os limites do capitalismo selvagem e dos mercados desregulados.
Outros terão ideias diferentes para resolver o problema de haver uma massa cada vez maior de trabalhadores intelectuais antigamente qualificados tornados obsoletos. Poderão pensar que a solução está nos exércitos de entregadores e motoristas de plataformas que enxameiam as cidades de todo o mundo, mas só até haver robots que os substituam. E talvez, ainda que não tenham coragem de o admitir, toda a guerra que os engorda financeiramente seja, ao mesmo tempo, uma forma de consumir estes exércitos de humanos desnecessários.
Podemos sempre imaginar que o trabalho humano, aquele que se faz com um cérebro analógico, mãos treinadas, empatia e memória, tenderá a ser cada vez mais um luxo (tão inacessível como as peças que a alta-costura hoje vende), dominado por um punhado de artesãos cobiçados. É possível que assim seja. Mas também é possível que essa transformação venha acompanhada de miséria, exclusão e muito mais exploração. Como o vidreiro me explicou, a tecnologia serve primeiro para engordar os lucros e só eventualmente tem o efeito secundário de aliviar alguns trabalhadores. Afinal, não será por acaso que querem enfiar-nos pela goela abaixo reformas laborais como a que Javier Milei passou na Argentina, que cria o conceito de “salário dinâmico”, pago à vontade do patrão, que até pode entregá-lo em géneros.
Podem achar que operários como o vidreiro que veio falar-me já não existem. Que somos todos empreendedores, colaboradores, modernos unicórnios, nómadas digitais e o raio que vos parta. Mas se, por acaso, não conseguem aguentar-se mais de três meses sem receber qualquer rendimento de trabalho e se não são donos de meios de produção, tenho uma verdade chocante para vos contar: fazem parte da classe trabalhadora!
Por isso, amigos, pensem bem da próxima vez que vierem falar-vos de um futuro radioso sem trabalho, de reformas douradas antecipadas que não são mais do que vidas a gerir rendas e de outras fantásticas histórias da carochinha. Enquanto não chegarem à terra esses rios de leite e mel, lembrem-se de que são trabalhadores e de que os direitos que têm podem ser a linha ténue que vos separa da miséria. O operário vidreiro sabe disso na pele que lhe arde na fábrica e nos pulmões que se enegrecem no trabalho. E vocês? Quando é que vão perceber isto?
O homem Cazarré
Decidi meter o dedo nesta polêmica envolvendo o ator Juliano Cazarré. Reconheço humildemente que ele tem por volta de 5 milhões de seguidores. Antigamente você dizia que a pessoa era respeitada, tinha uma imagem a defender, um papel decente na sociedade. Hoje você diz o número de seguidores como se fosse uma régua para medir a credibilidade de alguém. Mas enfim, são pessoas que o seguem e devem concordar com o que ele diz. Essa é a maneira de conectar as pessoas em torno de uma ideia sua ou copiada, que você defende.
Juliano quer recuperar a figura desamparada do homem(sic). Ele mesmo diz isso. Eu procuro esse homem desamparado e não acho. Acho o homem violento, arrogante, autoritário e misógino. Acho também o homem sem o mesmo poder de antes, questionado, fragmentado, discutido. Esse é fácil de achar e mesmo que ele não se reconheça assim, dá para destacar no meio de todos.
Os homens estão cometendo mais feminicídios hoje não porque estão desamparados ou sem Cristo no coração. Estão cometendo mais crimes contra as mulheres porque estão perdendo o poder sobre o corpo e os desejos femininos. Homens não ocupam mais o papel de “liderança e comando” quase incontestáveis. Podem ainda ser escolhidos, mas não impostos como antes. Não são mais uma fatalidade, literalmente e sim o alvo de desejo que leva a escolha seja por parte de mulheres ou de outros homens. Mas isso incomoda. Os homens não querem se colocar em questão. Querem, como mostra o Cazarré, recuperar o seu papel hoje questionado. Querem voltar a mandar no corpo e na alma das mulheres. Querem decidir sobre família, filhos, espiritualidade, futuro, lar e profissão. Querem voltar a ser os grandes protagonistas da relação, os chefes de família, os provedores. A livre escolha deixou de ter importância e a orientação sexual então, não devia nem ter surgido.
Esse discurso realmente libera o feminicídio, como bem disse a atriz Marjorie Estiano. É esta posição masculina que justifica o corretivo físico e violento para restabelecer o comando familiar. Juliano Cazarré, quando diz que os homens precisam recuperar seu caminho de masculinidade, não prevê que as mulheres mudaram e não aceitam mais essa imposição. O mundo mudou e com isso, até mesmo os princípios cristãos deveriam acompanhar esta mudança. Você pode pregar o amor junto com a livre escolha. Pode pregar a solidariedade o até mesmo a caridade junto com a justiça social. Pregar a crença no reino dos céus sem deixar de querer também uma vida mais digna enquanto está por aqui. Esse é o verdadeiro espírito cristão que une homens e mulheres.
Não existe nenhum texto que ensine que homens são melhores que as mulheres, que devem comandar ou prover uma família. Homens podem ser mais fortes, mas isso não significa que sejam os comandantes. Homens têm características diferentes das mulheres, mas nem melhores nem piores. Essa diferença deveria ser a que une e não a que estabelece hierarquias. Homens devem rever seus papéis sim, mas para se moldar a este mundo novo que inclui todas as pessoas de modo igual. Deveria refletir sobre o poder e porque matam tanto quando este poder é questionado. Deveriam pensar sim porque o acesso às armas acaba favorecendo este tipo de violência e porque os mandamentos masculinos herdados São tão contrários ao convívio harmonioso que deveria existir entre os seres humanos.
Nenhum sexo é melhor do que o outro. E isso deveria ser fator de atração e não de opressão. Juliano Cazarré assim como todos os outros que pensam como ele são curiosamente de direita. É na direita que eles encontram respaldo para esse tipo de questionamento que vai contra a evolução, contra a modernidade, contra a expressão maior da liberdade de escolha. E ninguém escolhe impunemente esta posição. O direito de escolha inclui também o direito de dizer não, de escolher o próprio caminho e decidir o próprio futuro longe dos dogmas ou ensinamentos obsoletos dos quais, a duras penas, estamos conseguindo nos liberar. Sempre me preocupei em ser este homem. Alguma coisa acho que consegui mudar em mim e vejo também em outros. Não estamos desamparados, estamos nos reconstruindo.
Juliano quer recuperar a figura desamparada do homem(sic). Ele mesmo diz isso. Eu procuro esse homem desamparado e não acho. Acho o homem violento, arrogante, autoritário e misógino. Acho também o homem sem o mesmo poder de antes, questionado, fragmentado, discutido. Esse é fácil de achar e mesmo que ele não se reconheça assim, dá para destacar no meio de todos.
Os homens estão cometendo mais feminicídios hoje não porque estão desamparados ou sem Cristo no coração. Estão cometendo mais crimes contra as mulheres porque estão perdendo o poder sobre o corpo e os desejos femininos. Homens não ocupam mais o papel de “liderança e comando” quase incontestáveis. Podem ainda ser escolhidos, mas não impostos como antes. Não são mais uma fatalidade, literalmente e sim o alvo de desejo que leva a escolha seja por parte de mulheres ou de outros homens. Mas isso incomoda. Os homens não querem se colocar em questão. Querem, como mostra o Cazarré, recuperar o seu papel hoje questionado. Querem voltar a mandar no corpo e na alma das mulheres. Querem decidir sobre família, filhos, espiritualidade, futuro, lar e profissão. Querem voltar a ser os grandes protagonistas da relação, os chefes de família, os provedores. A livre escolha deixou de ter importância e a orientação sexual então, não devia nem ter surgido.
Esse discurso realmente libera o feminicídio, como bem disse a atriz Marjorie Estiano. É esta posição masculina que justifica o corretivo físico e violento para restabelecer o comando familiar. Juliano Cazarré, quando diz que os homens precisam recuperar seu caminho de masculinidade, não prevê que as mulheres mudaram e não aceitam mais essa imposição. O mundo mudou e com isso, até mesmo os princípios cristãos deveriam acompanhar esta mudança. Você pode pregar o amor junto com a livre escolha. Pode pregar a solidariedade o até mesmo a caridade junto com a justiça social. Pregar a crença no reino dos céus sem deixar de querer também uma vida mais digna enquanto está por aqui. Esse é o verdadeiro espírito cristão que une homens e mulheres.
Não existe nenhum texto que ensine que homens são melhores que as mulheres, que devem comandar ou prover uma família. Homens podem ser mais fortes, mas isso não significa que sejam os comandantes. Homens têm características diferentes das mulheres, mas nem melhores nem piores. Essa diferença deveria ser a que une e não a que estabelece hierarquias. Homens devem rever seus papéis sim, mas para se moldar a este mundo novo que inclui todas as pessoas de modo igual. Deveria refletir sobre o poder e porque matam tanto quando este poder é questionado. Deveriam pensar sim porque o acesso às armas acaba favorecendo este tipo de violência e porque os mandamentos masculinos herdados São tão contrários ao convívio harmonioso que deveria existir entre os seres humanos.
Nenhum sexo é melhor do que o outro. E isso deveria ser fator de atração e não de opressão. Juliano Cazarré assim como todos os outros que pensam como ele são curiosamente de direita. É na direita que eles encontram respaldo para esse tipo de questionamento que vai contra a evolução, contra a modernidade, contra a expressão maior da liberdade de escolha. E ninguém escolhe impunemente esta posição. O direito de escolha inclui também o direito de dizer não, de escolher o próprio caminho e decidir o próprio futuro longe dos dogmas ou ensinamentos obsoletos dos quais, a duras penas, estamos conseguindo nos liberar. Sempre me preocupei em ser este homem. Alguma coisa acho que consegui mudar em mim e vejo também em outros. Não estamos desamparados, estamos nos reconstruindo.
Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui, é mais fácil enriquecer entrando na turma certa
"Quem quer dinheiro?" perguntava um fulgurante Silvio Santos, para ouvir do auditório um sonoro “EU” de maravilhada expectativa, porque o apresentador jogava notas de dinheiro em forma de aviãozinho para a plateia. O programa virava um espaço encantado pelo milagre de ver alguém distribuindo o que deveria ser entesourado, e o público testemunhava um rico capaz de transformar sovinice em generosidade.
Os tais “ricos”, como revela o dr. Michel Alcoforado no livro Coisa de Rico, formam uma categoria particular. Pois um dos poderes dos ricos é dar dinheiro para os outros, em vez de colocá-lo num cofre, como manda a tradição das sociedades patrimonialistas, nas quais cada estamento detém um tipo de riqueza. Nelas, o dinheiro enriquece, não enobrece, mas todo mundo aspira a “ficar rico” como revela essa epidemia de sites de apostas, as loterias e o brasileiríssimo jogo do bicho, por mim estudado com Elena Soárez, que, só Deus sabe por que, continua proibido.
Ganhar dinheiro pela sorte sempre foi um sonho nas sociedades aristocráticas fundadas na desigualdade, concebida como uma realidade do mundo.
Não preciso lembrar que esse foi o nosso caso. Formados que fomos com e pela escravidão, quando havia o indigno direito de ter gente proprietária de gente.
Quanto mais iníquas as diferenças, mais se desvaloriza o trabalho a ser realizado por escravizados e por “gente sem eira nem beira”. Em tal sistema, o dinheiro é muito mais símbolo de luxo e onipotência do que um instrumento de progresso e um símbolo de trabalho. Afinal, o ideal das malandragens é enriquecer sem trabalhar!
Como apontou Max Weber, trabalhar para viver e não viver para o trabalho, como ocorreu na América puritana, não é o nosso caso. Daí a ambiguidade em querer ser rico e, ao mesmo tempo, negar que se é rico. Como pensar que o trabalho enriquece, se ele era coisa de escravizados negros e marginais? Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui é mais fácil enriquecer, como ensina o Master, entrando numa turma com o poder de manipular regras, com o privilégio de não precisar honrá-las.
Em matéria de corrupção, a nossa modernidade revela a sofisticação de roubar usando bancos. Se o capitalismo financeiro é ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume, usando ambos para enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos funcionários do Estado.
No capitalismo, todos querem dinheiro, mas, como adverte Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, “dinheiro dado pelo diabo, pelo saci-pererê – e eu acrescento, por banqueiros – deve ser benzido, sob pena de desaparecer ou transformar-se em folhas secas”. Ou em desmoralização nacional com o absurdo suporte de supremos negacionismos.
Os tais “ricos”, como revela o dr. Michel Alcoforado no livro Coisa de Rico, formam uma categoria particular. Pois um dos poderes dos ricos é dar dinheiro para os outros, em vez de colocá-lo num cofre, como manda a tradição das sociedades patrimonialistas, nas quais cada estamento detém um tipo de riqueza. Nelas, o dinheiro enriquece, não enobrece, mas todo mundo aspira a “ficar rico” como revela essa epidemia de sites de apostas, as loterias e o brasileiríssimo jogo do bicho, por mim estudado com Elena Soárez, que, só Deus sabe por que, continua proibido.
Ganhar dinheiro pela sorte sempre foi um sonho nas sociedades aristocráticas fundadas na desigualdade, concebida como uma realidade do mundo.
Não preciso lembrar que esse foi o nosso caso. Formados que fomos com e pela escravidão, quando havia o indigno direito de ter gente proprietária de gente.
Quanto mais iníquas as diferenças, mais se desvaloriza o trabalho a ser realizado por escravizados e por “gente sem eira nem beira”. Em tal sistema, o dinheiro é muito mais símbolo de luxo e onipotência do que um instrumento de progresso e um símbolo de trabalho. Afinal, o ideal das malandragens é enriquecer sem trabalhar!
Como apontou Max Weber, trabalhar para viver e não viver para o trabalho, como ocorreu na América puritana, não é o nosso caso. Daí a ambiguidade em querer ser rico e, ao mesmo tempo, negar que se é rico. Como pensar que o trabalho enriquece, se ele era coisa de escravizados negros e marginais? Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui é mais fácil enriquecer, como ensina o Master, entrando numa turma com o poder de manipular regras, com o privilégio de não precisar honrá-las.
Em matéria de corrupção, a nossa modernidade revela a sofisticação de roubar usando bancos. Se o capitalismo financeiro é ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume, usando ambos para enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos funcionários do Estado.
No capitalismo, todos querem dinheiro, mas, como adverte Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, “dinheiro dado pelo diabo, pelo saci-pererê – e eu acrescento, por banqueiros – deve ser benzido, sob pena de desaparecer ou transformar-se em folhas secas”. Ou em desmoralização nacional com o absurdo suporte de supremos negacionismos.
A sindemia global e os limites do progresso
A crise alimentar contemporânea não é apenas uma questão de saúde pública nem um desdobramento colateral da crise climática. Ela constitui a expressão concreta de um mesmo modelo econômico que, ao transformar comida em mercadoria global, passou a produzir simultaneamente corpos doentes e ecossistemas em colapso. É nesse contexto que a saúde pública passou a nomear essa convergência como “sindemia global”: a interação sinérgica entre obesidade, desnutrição e mudanças climáticas. Aqui não se entende estas como uma infeliz coincidência de crises paralelas, mas de um modelo orientado à extração e ao consumo, que esgota, de forma sistemática, tanto a base material do planeta quanto os corpos que o sustentam.
Essas três emergências compartilham determinantes estruturais e retroalimentam-se no interior de uma arquitetura que fragmentou a própria experiência do real. Ao instituir a separação entre natureza e sociedade, a modernidade produziu sistemas alimentares e urbanos incapazes de responder à complexidade dos fenômenos que ela mesma engendrou. A produção intensiva voltada à exportação de commodities constitui uma expressão paradigmática dessa ruptura: ao externalizar seus impactos ecológicos e sociais, o agronegócio degrada territórios enquanto simultaneamente consolida padrões alimentares associados tanto à desnutrição quanto à obesidade.
A tendência global de direcionamento da agricultura para produtos de alto valor financeiro e baixo valor nutricional explicita essa interdependência. O modelo produtivo que intensifica o desmatamento, reduz a biodiversidade e amplia a pressão sobre os recursos hídricos é o mesmo que encarece o alimento in natura.
Os impactos ambientais, por sua vez, não apenas decorrem desse arranjo, mas o intensificam. Em um contexto em que os efeitos da crise climática deixam de ser projeções futuras e passam a se manifestar como experiência cotidiana em diferentes regiões do planeta, eventos climáticos extremos como secas prolongadas, enchentes e quebras de safra destroem sistemas produtivos inteiros e aprofundam a dependência de ultraprocessados entre populações vulnerabilizadas.
A economia de mercado atua como vetor organizador dessa dinâmica, subordinando a reprodução da vida à lógica da rentabilidade. Saúde, ambiente e finanças deixam de ser esferas analiticamente separáveis: passam a operar como dimensões de um mesmo metabolismo disfuncional.
A partir da perspectiva de Bruno Latour, esse arranjo pode ser lido como expressão do impasse constitutivo da modernidade. O sistema capitalista produz continuamente “híbridos”, isto é, redes sociotécnicas que articulam sementes, clima, mercados financeiros, agrotóxicos e saúde humana. No entanto, essas mesmas redes são governadas por categorias purificadas, que insistem em separar natureza, sociedade e economia. É essa operação que autoriza, simultaneamente, a concepção da terra como insumo inesgotável e a redução das doenças crônicas a desvios individuais ou determinantes genéticos.
A sindemia global configura-se, portanto, como um fenômeno radicalmente híbrido. À luz da teoria sistêmica, sua complexidade não reside apenas na multiplicidade de componentes, mas nas interações dinâmicas, não lineares e frequentemente imprevisíveis entre eles. Reduzi-la a uma única dimensão – biomédica, climática ou econômica – implica não apenas empobrecimento analítico, mas incapacidade prática de intervenção. A crise contemporânea é, nesse sentido, simultaneamente material e epistemológica: evidencia a falência de um pensamento reducionista diante de realidades estruturalmente interdependentes.
A persistência dessa trajetória de colapso encontra respaldo no que Isabelle Stengers denomina imperativo do avanço capitalista. Trata-se de uma narrativa de progresso fundada no crescimento contínuo, que constrange a ação política mesmo diante de evidências robustas de exaustão ecológica. O reconhecimento científico da insustentabilidade do modelo não tem sido força suficiente para frear sua reprodução.
Nesse contexto, respostas baseadas exclusivamente em ajustes técnicos, como a descarbonização parcial da matriz energética ou a taxação de alimentos ultraprocessados, revelam-se insuficientes. O que está em jogo não é apenas a correção de externalidades, mas a necessidade de reconfiguração das bases ontológicas que orientam a relação entre sociedade e natureza. É nesse ponto que a crítica aos híbridos modernos encontra ressonância no Bem Viver. Oriundo de cosmovisões indígenas andinas, esse horizonte recusa a racionalidade utilitarista e propõe uma ontologia relacional, na qual humanos, não humanos e territórios constituem uma trama indissociável.
Se, como argumenta Bruno Latour, jamais fomos modernos, o Bem Viver evidencia que outras formas de organizar a vida coletiva não apenas existiram, mas persistem e resistem. Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, mas do reconhecimento de epistemologias ativas, capazes de orientar arranjos alternativos de produção, consumo e governança.
A agroecologia e a agricultura regenerativa emergem como expressões materiais dessa perspectiva. Ao reintegrar processos ecológicos e práticas sociais, operam deliberadamente no plano dos híbridos. A conservação do solo, a diversificação produtiva e a redução do uso de agrotóxicos deixam de ser meras métricas ambientais e passam a constituir estratégias de reprodução da vida em contextos de instabilidade climática. Nesse horizonte, os saberes tradicionais não são vestígios culturais, mas formas sofisticadas de inteligência etnoclimática, fundamentais para a adaptação no Antropoceno.
A articulação entre rigor científico e saberes tradicionais abre caminho para a produção de conhecimentos mais aderentes à complexidade contemporânea. Nesse processo, a ciência desloca-se de uma posição de exterioridade e controle para uma prática situada, relacional e experimental, comprometida com a construção coletiva de territórios resilientes.
Enfrentar a sindemia global exige mais do que integração de políticas públicas. Exige um gesto epistemológico e político de desaprendizado. Implica renunciar à ideia de progresso linear, infinito e universalizável. A sobrevivência no Antropoceno dependerá da capacidade de reconfigurar nossas formas de habitar o mundo, reconhecendo nossa condição de interdependência.
Ao dialogar com o Bem Viver, torna-se possível vislumbrar que a saída para a policrise contemporânea não reside em soluções tecnológicas isoladas, mas na reorientação profunda das formas de existência que sustentam a vida no planeta. Em um mundo que insiste em tratar a vida como recurso, talvez a ruptura mais radical seja justamente reaprender a habitá-la como relação.
Sâmela Klein Silvano
Essas três emergências compartilham determinantes estruturais e retroalimentam-se no interior de uma arquitetura que fragmentou a própria experiência do real. Ao instituir a separação entre natureza e sociedade, a modernidade produziu sistemas alimentares e urbanos incapazes de responder à complexidade dos fenômenos que ela mesma engendrou. A produção intensiva voltada à exportação de commodities constitui uma expressão paradigmática dessa ruptura: ao externalizar seus impactos ecológicos e sociais, o agronegócio degrada territórios enquanto simultaneamente consolida padrões alimentares associados tanto à desnutrição quanto à obesidade.
A tendência global de direcionamento da agricultura para produtos de alto valor financeiro e baixo valor nutricional explicita essa interdependência. O modelo produtivo que intensifica o desmatamento, reduz a biodiversidade e amplia a pressão sobre os recursos hídricos é o mesmo que encarece o alimento in natura.
Os impactos ambientais, por sua vez, não apenas decorrem desse arranjo, mas o intensificam. Em um contexto em que os efeitos da crise climática deixam de ser projeções futuras e passam a se manifestar como experiência cotidiana em diferentes regiões do planeta, eventos climáticos extremos como secas prolongadas, enchentes e quebras de safra destroem sistemas produtivos inteiros e aprofundam a dependência de ultraprocessados entre populações vulnerabilizadas.
A economia de mercado atua como vetor organizador dessa dinâmica, subordinando a reprodução da vida à lógica da rentabilidade. Saúde, ambiente e finanças deixam de ser esferas analiticamente separáveis: passam a operar como dimensões de um mesmo metabolismo disfuncional.
A partir da perspectiva de Bruno Latour, esse arranjo pode ser lido como expressão do impasse constitutivo da modernidade. O sistema capitalista produz continuamente “híbridos”, isto é, redes sociotécnicas que articulam sementes, clima, mercados financeiros, agrotóxicos e saúde humana. No entanto, essas mesmas redes são governadas por categorias purificadas, que insistem em separar natureza, sociedade e economia. É essa operação que autoriza, simultaneamente, a concepção da terra como insumo inesgotável e a redução das doenças crônicas a desvios individuais ou determinantes genéticos.
A sindemia global configura-se, portanto, como um fenômeno radicalmente híbrido. À luz da teoria sistêmica, sua complexidade não reside apenas na multiplicidade de componentes, mas nas interações dinâmicas, não lineares e frequentemente imprevisíveis entre eles. Reduzi-la a uma única dimensão – biomédica, climática ou econômica – implica não apenas empobrecimento analítico, mas incapacidade prática de intervenção. A crise contemporânea é, nesse sentido, simultaneamente material e epistemológica: evidencia a falência de um pensamento reducionista diante de realidades estruturalmente interdependentes.
A persistência dessa trajetória de colapso encontra respaldo no que Isabelle Stengers denomina imperativo do avanço capitalista. Trata-se de uma narrativa de progresso fundada no crescimento contínuo, que constrange a ação política mesmo diante de evidências robustas de exaustão ecológica. O reconhecimento científico da insustentabilidade do modelo não tem sido força suficiente para frear sua reprodução.
Nesse contexto, respostas baseadas exclusivamente em ajustes técnicos, como a descarbonização parcial da matriz energética ou a taxação de alimentos ultraprocessados, revelam-se insuficientes. O que está em jogo não é apenas a correção de externalidades, mas a necessidade de reconfiguração das bases ontológicas que orientam a relação entre sociedade e natureza. É nesse ponto que a crítica aos híbridos modernos encontra ressonância no Bem Viver. Oriundo de cosmovisões indígenas andinas, esse horizonte recusa a racionalidade utilitarista e propõe uma ontologia relacional, na qual humanos, não humanos e territórios constituem uma trama indissociável.
Se, como argumenta Bruno Latour, jamais fomos modernos, o Bem Viver evidencia que outras formas de organizar a vida coletiva não apenas existiram, mas persistem e resistem. Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, mas do reconhecimento de epistemologias ativas, capazes de orientar arranjos alternativos de produção, consumo e governança.
A agroecologia e a agricultura regenerativa emergem como expressões materiais dessa perspectiva. Ao reintegrar processos ecológicos e práticas sociais, operam deliberadamente no plano dos híbridos. A conservação do solo, a diversificação produtiva e a redução do uso de agrotóxicos deixam de ser meras métricas ambientais e passam a constituir estratégias de reprodução da vida em contextos de instabilidade climática. Nesse horizonte, os saberes tradicionais não são vestígios culturais, mas formas sofisticadas de inteligência etnoclimática, fundamentais para a adaptação no Antropoceno.
A articulação entre rigor científico e saberes tradicionais abre caminho para a produção de conhecimentos mais aderentes à complexidade contemporânea. Nesse processo, a ciência desloca-se de uma posição de exterioridade e controle para uma prática situada, relacional e experimental, comprometida com a construção coletiva de territórios resilientes.
Enfrentar a sindemia global exige mais do que integração de políticas públicas. Exige um gesto epistemológico e político de desaprendizado. Implica renunciar à ideia de progresso linear, infinito e universalizável. A sobrevivência no Antropoceno dependerá da capacidade de reconfigurar nossas formas de habitar o mundo, reconhecendo nossa condição de interdependência.
Ao dialogar com o Bem Viver, torna-se possível vislumbrar que a saída para a policrise contemporânea não reside em soluções tecnológicas isoladas, mas na reorientação profunda das formas de existência que sustentam a vida no planeta. Em um mundo que insiste em tratar a vida como recurso, talvez a ruptura mais radical seja justamente reaprender a habitá-la como relação.
Sâmela Klein Silvano
Redução de pena para os golpistas do 8 de janeiro é crime continuado
A derrota mais doída para Lula pode ter sido a recusa do Senado em aprovar a indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal. Foi a primeira vez que isso aconteceu nos últimos 132 anos. Lula, o governo e o PT foram pegos de surpresa. Como foi possível? Soberba? Incompetência?
Para o país, contudo, ou parte do país que tem nojo a ditaduras e repudia qualquer tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, seja pela força ou pelo voto, o que mais doeu, e seguirá doendo foi a decisão de 318 deputados federais e 49 senadores de reduzir a pena dos golpistas do 8 de janeiro de 2023.
Não foi a anistia ampla, geral e irrestrita que Flávio Bolsonarinho promete decretar de comum acordo com o Congresso se vencer as próximas eleições. Foi um ajuste de pena sujeito a futura deliberação do Supremo. Vai demorar a ser feito e a produzir consequências. De todo modo, foi bem recebido pelos golpistas.
Sabe-se lá como Lula reagirá no caso de Messias, e talvez o próprio Lula, por ora, não saiba; se sabe, ainda contou a ninguém. Por temperamento e estilo, Lula não é homem de tomar decisões apressadas – nem no âmbito pessoal, tampouco no público. Foi sempre assim, a não ser que tenha mudado. Veremos.
Por que arriscar-se a indicar um novo nome para substituir Messias como candidato à vaga aberta no Supremo com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso? Para correr o risco de amargar mais uma derrota? Por que não deixar passar as eleições? Caso não se reeleja, a tarefa caberá ao futuro presidente.
Os mineiros ensinam: “Mingau quente come-se pelas beiradas” para não se queimar. Ou deixa-se esfriar um pouco, mas não a ponto de tornar-se intragável. Quanto mais o governo passar recibo de suas eventuais derrotas, maior poderá ser o impacto delas no resultado das próximas eleições. A oposição agradece.
Era pedra cantada, para além disso, a derrubada do veto de Lula ao projeto de lei da dosimetria. Ele fora aprovado pela Câmara e Senado no ano passado com relativa folga de votos. Lula o vetou por entender que a proposta é inconstitucional e viola o interesse público ao reduzir penas de crimes contra a democracia.
O Congresso é de direita, o governo de esquerda. No 8/1, por meio dos seus líderes, o Congresso condenou a tentativa fracassada de golpe e reafirmou seu compromisso inabalável com a democracia. Decorridos três anos, o Congresso premia os autores do golpe sob o pretexto de que suas penas foram duras em excesso.
Não foram. A dosagem das penas obedeceu a lei criada à época do governo Bolsonaro. A atuação do Supremo na resposta aos atos golpistas foi descrita por juristas e observadores internacionais como um “exemplo” de defesa da democracia, e elogiada em editoriais de jornais e revistas no mundo inteiro.
Suavizar penas ou revogá-las como pretendem a direita e a extrema-direita, é um claro estímulo a novas tentativas de golpe. É o mesmo que dizer: não temam, vão em frente, tentem novamente que um dia dará certo. Tantas vezes na história deste país já não deu certo, não é verdade? Se não der, anistia é para isso mesmo.
Para o país, contudo, ou parte do país que tem nojo a ditaduras e repudia qualquer tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, seja pela força ou pelo voto, o que mais doeu, e seguirá doendo foi a decisão de 318 deputados federais e 49 senadores de reduzir a pena dos golpistas do 8 de janeiro de 2023.
Não foi a anistia ampla, geral e irrestrita que Flávio Bolsonarinho promete decretar de comum acordo com o Congresso se vencer as próximas eleições. Foi um ajuste de pena sujeito a futura deliberação do Supremo. Vai demorar a ser feito e a produzir consequências. De todo modo, foi bem recebido pelos golpistas.
Sabe-se lá como Lula reagirá no caso de Messias, e talvez o próprio Lula, por ora, não saiba; se sabe, ainda contou a ninguém. Por temperamento e estilo, Lula não é homem de tomar decisões apressadas – nem no âmbito pessoal, tampouco no público. Foi sempre assim, a não ser que tenha mudado. Veremos.
Por que arriscar-se a indicar um novo nome para substituir Messias como candidato à vaga aberta no Supremo com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso? Para correr o risco de amargar mais uma derrota? Por que não deixar passar as eleições? Caso não se reeleja, a tarefa caberá ao futuro presidente.
Os mineiros ensinam: “Mingau quente come-se pelas beiradas” para não se queimar. Ou deixa-se esfriar um pouco, mas não a ponto de tornar-se intragável. Quanto mais o governo passar recibo de suas eventuais derrotas, maior poderá ser o impacto delas no resultado das próximas eleições. A oposição agradece.
Era pedra cantada, para além disso, a derrubada do veto de Lula ao projeto de lei da dosimetria. Ele fora aprovado pela Câmara e Senado no ano passado com relativa folga de votos. Lula o vetou por entender que a proposta é inconstitucional e viola o interesse público ao reduzir penas de crimes contra a democracia.
O Congresso é de direita, o governo de esquerda. No 8/1, por meio dos seus líderes, o Congresso condenou a tentativa fracassada de golpe e reafirmou seu compromisso inabalável com a democracia. Decorridos três anos, o Congresso premia os autores do golpe sob o pretexto de que suas penas foram duras em excesso.
Não foram. A dosagem das penas obedeceu a lei criada à época do governo Bolsonaro. A atuação do Supremo na resposta aos atos golpistas foi descrita por juristas e observadores internacionais como um “exemplo” de defesa da democracia, e elogiada em editoriais de jornais e revistas no mundo inteiro.
Suavizar penas ou revogá-las como pretendem a direita e a extrema-direita, é um claro estímulo a novas tentativas de golpe. É o mesmo que dizer: não temam, vão em frente, tentem novamente que um dia dará certo. Tantas vezes na história deste país já não deu certo, não é verdade? Se não der, anistia é para isso mesmo.
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Desejo de país melhor é antídoto contra medo
A ciência política tem uma tese clássica sobre as oscilações da opinião pública: a do termóstato, cunhada assim por Christopher Wlezien em 1995. Se um governo põe a temperatura demasiado quente, o ciclo seguinte da opinião pública baixa a temperatura.
Na fase seguinte, acontece ao contrário, e a opinião pública age de novo, tendendo ao equilíbrio. É um modelo dos anos noventa, tempo de ingenuidade, e não chega para descrever o que estamos vivendo.
Uma outra proposta, de Pippa Norris e Ronald Inglehart, é a do ricochete cultural: cada ciclo não repõe a temperatura no equilíbrio, reage como corretivo em relação ao ciclo anterior. Nascendo da observação do choque de gerações dos anos 1960 e seguintes, está mais perto da nossa atualidade. Mas ainda não basta.
Proponho um terceiro modelo, que todos conhecemos bem: o da discussão doméstica. Um modelo da irritação doméstica como dinâmica política.
Neste modelo, ganhar a discussão não basta. Bem sabemos como é irritante se alguém pretende acabar a discussão dizendo "está bem, tens razão". Nós queremos ter razão, queremos que nos dêem razão, mas queremos mais: queremos que se calem para termos a última palavra explicando porque tivemos sempre razão, e queremos que o outro pague caro por ter achado antes que não tínhamos razão.
Aplicado à política, o modelo ajuda a explicar oscilações bruscas dos últimos anos. Em momentos em que uma esquerda sectária se perde no narcisismo das pequenas diferenças, as pessoas ficam frustradas e acabam votando em quem é mais vocal contra essa atitude (o "wokismo", o "politicamente correto"), independentemente de acreditar que aquele voto sirva para resolver o que quer que seja.
Nesse modelo, o voto não serve só para mudar o rumo das políticas e dos políticos. Serve para punir as pessoas que achamos que foram chatas conosco no ciclo anterior.
O problema é que o político que chega ao poder numa vaga de irritação com o campo contrário se sente imediatamente validado por aquele aparente mandato democrático e acaba governando com mais fanatismo do que os seus antecessores, preparando a reação epidérmica seguinte. Como num sismógrafo, cujas oscilações vão aumentando de passo a passo.
Como sair disto? Pode ser pela catástrofe, como no entreguerras. Por exaustão mútua. Por censura, quando uma das partes toma conta do Estado e acaba com a possibilidade da discussão. Pode ser por saturação: a opinião pública fica farta dos chatos dos dois lados e opta por políticos banais e aborrecidos.
Mas não podemos passar o tempo todo, ciclo após ciclo, colocando o medo perante a esperança. Quando elegemos um político da esperança, e a esperança não se concretiza, há um medo que se duplica: passo a ter medo de ser decepcionado e sou presa fácil de quem me disser que fui um otário por ter acreditado.
O antídoto do medo não é a esperança. É o desejo: o desejo de um país melhor, de uma sociedade mais feliz, de uma vida mais plena. É o desejo que dá motivação, que leva à mobilização, à luta pela mudança, e àquilo de que nem a psicanálise nem a historiografia se esquecem: a memória.
Rui Tavares
Na fase seguinte, acontece ao contrário, e a opinião pública age de novo, tendendo ao equilíbrio. É um modelo dos anos noventa, tempo de ingenuidade, e não chega para descrever o que estamos vivendo.
Uma outra proposta, de Pippa Norris e Ronald Inglehart, é a do ricochete cultural: cada ciclo não repõe a temperatura no equilíbrio, reage como corretivo em relação ao ciclo anterior. Nascendo da observação do choque de gerações dos anos 1960 e seguintes, está mais perto da nossa atualidade. Mas ainda não basta.
Proponho um terceiro modelo, que todos conhecemos bem: o da discussão doméstica. Um modelo da irritação doméstica como dinâmica política.
Neste modelo, ganhar a discussão não basta. Bem sabemos como é irritante se alguém pretende acabar a discussão dizendo "está bem, tens razão". Nós queremos ter razão, queremos que nos dêem razão, mas queremos mais: queremos que se calem para termos a última palavra explicando porque tivemos sempre razão, e queremos que o outro pague caro por ter achado antes que não tínhamos razão.
Aplicado à política, o modelo ajuda a explicar oscilações bruscas dos últimos anos. Em momentos em que uma esquerda sectária se perde no narcisismo das pequenas diferenças, as pessoas ficam frustradas e acabam votando em quem é mais vocal contra essa atitude (o "wokismo", o "politicamente correto"), independentemente de acreditar que aquele voto sirva para resolver o que quer que seja.
Nesse modelo, o voto não serve só para mudar o rumo das políticas e dos políticos. Serve para punir as pessoas que achamos que foram chatas conosco no ciclo anterior.
O problema é que o político que chega ao poder numa vaga de irritação com o campo contrário se sente imediatamente validado por aquele aparente mandato democrático e acaba governando com mais fanatismo do que os seus antecessores, preparando a reação epidérmica seguinte. Como num sismógrafo, cujas oscilações vão aumentando de passo a passo.
Como sair disto? Pode ser pela catástrofe, como no entreguerras. Por exaustão mútua. Por censura, quando uma das partes toma conta do Estado e acaba com a possibilidade da discussão. Pode ser por saturação: a opinião pública fica farta dos chatos dos dois lados e opta por políticos banais e aborrecidos.
Mas não podemos passar o tempo todo, ciclo após ciclo, colocando o medo perante a esperança. Quando elegemos um político da esperança, e a esperança não se concretiza, há um medo que se duplica: passo a ter medo de ser decepcionado e sou presa fácil de quem me disser que fui um otário por ter acreditado.
O antídoto do medo não é a esperança. É o desejo: o desejo de um país melhor, de uma sociedade mais feliz, de uma vida mais plena. É o desejo que dá motivação, que leva à mobilização, à luta pela mudança, e àquilo de que nem a psicanálise nem a historiografia se esquecem: a memória.
Rui Tavares
A urgência da memória
Há 50 anos, um golpe militar instaurou uma das ditaduras mais brutais da América Latina. Com o apoio tácito dos EUA, à semelhança do que tinha acontecido três anos antes no Chile, um grupo de oficiais derrubou o governo eleito democraticamente, sob o pretexto de pôr fim a uma era de instabilidade política na Argentina. Meio século depois, já poucos se recordam das peripécias que ocorreram naquele país da América do Sul durante a Presidência que Isabel Perón − eleita vice-presidente pelo voto popular − assumiu após a morte do marido. Mas durante todos os anos seguintes foi difícil esquecer as atrocidades cometidas pela ditadura militar que controlou a Argentina, de forma brutal, até 1983 – quando teve de se “retirar” na sequência da derrota na Guerra das Malvinas/Falklands, frente ao Reino Unido.
Durante anos, foi lembrada a resistência das mães que, todas as quintas-feiras, se concentravam na Praça de Maio, em Buenos Aires, a reclamar pelo paradeiro dos seus filhos desaparecidos. Ao fim de várias investigações e inquéritos, com muitos sobressaltos pelo meio, foi possível chegar ao consenso de que a “guerra suja” da ditadura argentina provocou cerca de dois mil mortos e, oficialmente, 8 690 desaparecidos – embora diversas organizações de direitos humanos calculem que o número verdadeiro de desaparecidos chegue aos 30 000. Sabe-se também que milhares desses desaparecidos foram atirados para o mar, ainda vivos, de aviões, nos chamados “voos da morte”. Também ficou fundamentada a morte e o sequestro de bebés, das famílias vítimas da repressão, com alguns a serem adotados pelos militares.
Logo em 1985, com a restauração da democracia, iniciou-se o julgamento dos diversos integrantes das juntas militares, levando à condenação de muitos deles, num processo que foi considerado exemplar pela comunidade internacional – o ditador Jorge Videla seria mesmo condenado a prisão perpétua, morrendo na sua cela em 2013, depois de reconhecer muitos dos seus crimes, mas sem demonstrar qualquer arrependimento.
Desde que Javier Milei chegou ao poder, em 2023, essa narrativa oficial, até então consensual, começou a alterar-se. Nas suas intervenções públicas duvidou abertamente do número de desaparecidos e, aos poucos, começou a tentar impor a versão de que todos os assassínios e raptos tinham uma justificação: a “guerra” contra a guerrilha esquerdista. Ao mesmo tempo, retirou importância à Secretaria de Estado de Direitos Humanos, cortou apoios aos grupos da sociedade civil que se dedicavam à preservação da memória daqueles tempos e tornou inoperacional a comissão que ainda procurava localizar as crianças raptadas durante a ditadura.
Em Portugal, felizmente, ainda não atingimos este nível de reescrita da História. Mas vemos acumularem-se, todos os dias, diversos sinais no mesmo sentido e várias tentativas para procurar impor uma nova narrativa em relação ao 25 de Abril e a tudo o que esse dia significou para o País.
Num tempo de indignações à pressão, em que podem soltar-se números sem contraditório ou fazer afirmações sem o mínimo de sustentabilidade histórica, a tática é a de sempre: procurar desfazer o grito unido de “liberdade” que em 1974 ecoou por todo o País – fazendo, por isso, cair uma ditadura esclerosa – e impor uma narrativa de confronto, destinada a criar confusão e a aumentar a divisão.
Nestes tempos em que tantos procuram reescrever a História, é cada vez mais importante conservar os mecanismos que nos permitem manter a memória preservada. É para isso que são fundamentais os museus, as bibliotecas, mas também tudo o que seja arquivo físico, com os documentos e testemunhos que marcaram cada época. Tudo aquilo que, no fundo, possa servir de prova para desmentir aqueles que tentam impor uma narrativa “alternativa”, destruir consensos estabelecidos e, na verdade, atacar a liberdade e a democracia.
É por isso que a batalha pela preservação da memória do 25 de Abril não é um sintoma de saudosismo, mas sim um plano para salvaguardar o futuro. Mais urgente do que nunca. Em nome da democracia, mas também da verdade histórica.
Durante anos, foi lembrada a resistência das mães que, todas as quintas-feiras, se concentravam na Praça de Maio, em Buenos Aires, a reclamar pelo paradeiro dos seus filhos desaparecidos. Ao fim de várias investigações e inquéritos, com muitos sobressaltos pelo meio, foi possível chegar ao consenso de que a “guerra suja” da ditadura argentina provocou cerca de dois mil mortos e, oficialmente, 8 690 desaparecidos – embora diversas organizações de direitos humanos calculem que o número verdadeiro de desaparecidos chegue aos 30 000. Sabe-se também que milhares desses desaparecidos foram atirados para o mar, ainda vivos, de aviões, nos chamados “voos da morte”. Também ficou fundamentada a morte e o sequestro de bebés, das famílias vítimas da repressão, com alguns a serem adotados pelos militares.
Logo em 1985, com a restauração da democracia, iniciou-se o julgamento dos diversos integrantes das juntas militares, levando à condenação de muitos deles, num processo que foi considerado exemplar pela comunidade internacional – o ditador Jorge Videla seria mesmo condenado a prisão perpétua, morrendo na sua cela em 2013, depois de reconhecer muitos dos seus crimes, mas sem demonstrar qualquer arrependimento.
Desde que Javier Milei chegou ao poder, em 2023, essa narrativa oficial, até então consensual, começou a alterar-se. Nas suas intervenções públicas duvidou abertamente do número de desaparecidos e, aos poucos, começou a tentar impor a versão de que todos os assassínios e raptos tinham uma justificação: a “guerra” contra a guerrilha esquerdista. Ao mesmo tempo, retirou importância à Secretaria de Estado de Direitos Humanos, cortou apoios aos grupos da sociedade civil que se dedicavam à preservação da memória daqueles tempos e tornou inoperacional a comissão que ainda procurava localizar as crianças raptadas durante a ditadura.
Em Portugal, felizmente, ainda não atingimos este nível de reescrita da História. Mas vemos acumularem-se, todos os dias, diversos sinais no mesmo sentido e várias tentativas para procurar impor uma nova narrativa em relação ao 25 de Abril e a tudo o que esse dia significou para o País.
Num tempo de indignações à pressão, em que podem soltar-se números sem contraditório ou fazer afirmações sem o mínimo de sustentabilidade histórica, a tática é a de sempre: procurar desfazer o grito unido de “liberdade” que em 1974 ecoou por todo o País – fazendo, por isso, cair uma ditadura esclerosa – e impor uma narrativa de confronto, destinada a criar confusão e a aumentar a divisão.
Nestes tempos em que tantos procuram reescrever a História, é cada vez mais importante conservar os mecanismos que nos permitem manter a memória preservada. É para isso que são fundamentais os museus, as bibliotecas, mas também tudo o que seja arquivo físico, com os documentos e testemunhos que marcaram cada época. Tudo aquilo que, no fundo, possa servir de prova para desmentir aqueles que tentam impor uma narrativa “alternativa”, destruir consensos estabelecidos e, na verdade, atacar a liberdade e a democracia.
É por isso que a batalha pela preservação da memória do 25 de Abril não é um sintoma de saudosismo, mas sim um plano para salvaguardar o futuro. Mais urgente do que nunca. Em nome da democracia, mas também da verdade histórica.
Lembrete para que não enxerga
Em busca de novos mapas
Se o Brasil já foi definido como o país onde até o passado soa incerto, dá para imaginar o desalento dos eleitores com a falta de mapas para navegar os tempos exigentes que nos aguardam neste início turbulento do século 21.
Até aqui, brasileiras e brasileiros têm sido convidados a subir escadas escuras onde ecoam antigos slogans, até que, na hora certa, cheguem ao trampolim de onde poderão saltar para uma piscina cheia de promessas vencidas.
O ano de 2026 não é como outro ano qualquer. O mundo convive com pelo menos duas guerras de grandes dimensões – na Ucrânia e no Irã. Vê derreterem antigas alianças políticas, militares e econômicas. E tropeça em incertezas quando ensaia projetar o futuro – ainda que próximo.
Os solavancos da administração de Donald Trump ajudam a semear dúvidas. Onde antes havia regras comerciais, ainda que imperfeitas, agora há tarifas calculadas segundo o momento. Antigos aliados recalculam rotas depois de erráticas mudanças de rumo na política externa dos Estados Unidos.
E, ao longo dos próximos quatro ou cinco anos, a adoção de um novo modelo econômico, baseado na inteligência artificial e na adaptação à crise climática, vai requerer um olhar estratégico pouco cultivado no Ocidente nas últimas décadas.
O que fazer? Apesar dos reiterados apelos de forças neoconservadoras em busca da desmontagem de instituições públicas voltadas ao planejamento, parece destinado a voltar ao cenário o papel do Estado. Não necessariamente como proprietário de empresas, mas, principalmente, como desenhista de novas rotas.
Um exemplo eloquente vem do outro lado do mundo. A China já coloca em prática o seu 15º Plano Quinquenal, que pretende preparar o país para um dos cenários mais incertos em nível global desde que o primeiro plano foi lançado, em 1953.
Naquele momento, o novo governo de Pequim dava seus primeiros passos em direção ao desenvolvimento após a Revolução de 1949. Enquanto isso, o Ocidente era só otimismo com o crescimento econômico após a Segunda Guerra Mundial.
Pois o Ocidente de 2025 esperava do 15º Plano grandes metas de expansão da economia. Em vez disso, o governo chinês optou pela resiliência. Traçou planos para navegar tempos de crise com cautela e busca de autossuficiência.
Entre as novas prioridades estão a aceleração da pesquisa científica, capaz de levar o país a competir de igual para igual em setores como o de semicondutores, e a redução da dependência de importações consideradas estratégicas.
Também devem receber estímulos o consumo interno, como motor de crescimento, e a construção do que Pequim chama de “civilização ecológica”, por meio de investimentos em energias renováveis.
Permanecem ainda no radar apostas no desenvolvimento social, com foco na chamada “felicidade interna bruta”, e a busca de redução de grandes riscos internos e externos ao crescimento do país.
Essas grandes linhas estão detalhadas em centenas de páginas e detalhadas em milhares de documentos que guiarão o país de agora até o final de 2030.
Pois 2030 também será o ano final do próximo governo brasileiro, a ser eleito em outubro. Governo que será responsável pela elaboração de um Plano Plurianual a ser colocado em prática nos quatro anos seguintes ao de sua posse.
Ninguém espera que o próximo presidente brasileiro aposte em diretrizes tão detalhadas como as expostas nos planos adotados pela China. Mas os próximos anos prometem ser ariscos para países que não se prepararem para o futuro.
O atual governo brasileiro adotou a Estratégia Brasil 2050, um esforço quase inédito de planejamento para adaptar os sonhos nacionais a tempos exigentes. A próxima administração deverá ir além e detalhar o novo plano de voo.
Se a opção dos eleitores for por um governo mais à direita, é menos provável que o Brasil aposte no planejamento para crescer em ambiente hostil.
Se a escolha recair pela garantia de mais um mandato ao atual presidente, já estarão disponíveis para sua nova administração dados e projeções colhidos pelo atual esforço de planejamento.
A China tem demonstrado seu grande empenho em desenhar o próprio futuro. Em tempos turbulentos como os que nos esperam, o próximo governo brasileiro já sabe onde pode vir a buscar inspiração.
Até aqui, brasileiras e brasileiros têm sido convidados a subir escadas escuras onde ecoam antigos slogans, até que, na hora certa, cheguem ao trampolim de onde poderão saltar para uma piscina cheia de promessas vencidas.
O ano de 2026 não é como outro ano qualquer. O mundo convive com pelo menos duas guerras de grandes dimensões – na Ucrânia e no Irã. Vê derreterem antigas alianças políticas, militares e econômicas. E tropeça em incertezas quando ensaia projetar o futuro – ainda que próximo.
Os solavancos da administração de Donald Trump ajudam a semear dúvidas. Onde antes havia regras comerciais, ainda que imperfeitas, agora há tarifas calculadas segundo o momento. Antigos aliados recalculam rotas depois de erráticas mudanças de rumo na política externa dos Estados Unidos.
E, ao longo dos próximos quatro ou cinco anos, a adoção de um novo modelo econômico, baseado na inteligência artificial e na adaptação à crise climática, vai requerer um olhar estratégico pouco cultivado no Ocidente nas últimas décadas.
O que fazer? Apesar dos reiterados apelos de forças neoconservadoras em busca da desmontagem de instituições públicas voltadas ao planejamento, parece destinado a voltar ao cenário o papel do Estado. Não necessariamente como proprietário de empresas, mas, principalmente, como desenhista de novas rotas.
Um exemplo eloquente vem do outro lado do mundo. A China já coloca em prática o seu 15º Plano Quinquenal, que pretende preparar o país para um dos cenários mais incertos em nível global desde que o primeiro plano foi lançado, em 1953.
Naquele momento, o novo governo de Pequim dava seus primeiros passos em direção ao desenvolvimento após a Revolução de 1949. Enquanto isso, o Ocidente era só otimismo com o crescimento econômico após a Segunda Guerra Mundial.
Pois o Ocidente de 2025 esperava do 15º Plano grandes metas de expansão da economia. Em vez disso, o governo chinês optou pela resiliência. Traçou planos para navegar tempos de crise com cautela e busca de autossuficiência.
Entre as novas prioridades estão a aceleração da pesquisa científica, capaz de levar o país a competir de igual para igual em setores como o de semicondutores, e a redução da dependência de importações consideradas estratégicas.
Também devem receber estímulos o consumo interno, como motor de crescimento, e a construção do que Pequim chama de “civilização ecológica”, por meio de investimentos em energias renováveis.
Permanecem ainda no radar apostas no desenvolvimento social, com foco na chamada “felicidade interna bruta”, e a busca de redução de grandes riscos internos e externos ao crescimento do país.
Essas grandes linhas estão detalhadas em centenas de páginas e detalhadas em milhares de documentos que guiarão o país de agora até o final de 2030.
Pois 2030 também será o ano final do próximo governo brasileiro, a ser eleito em outubro. Governo que será responsável pela elaboração de um Plano Plurianual a ser colocado em prática nos quatro anos seguintes ao de sua posse.
Ninguém espera que o próximo presidente brasileiro aposte em diretrizes tão detalhadas como as expostas nos planos adotados pela China. Mas os próximos anos prometem ser ariscos para países que não se prepararem para o futuro.
O atual governo brasileiro adotou a Estratégia Brasil 2050, um esforço quase inédito de planejamento para adaptar os sonhos nacionais a tempos exigentes. A próxima administração deverá ir além e detalhar o novo plano de voo.
Se a opção dos eleitores for por um governo mais à direita, é menos provável que o Brasil aposte no planejamento para crescer em ambiente hostil.
Se a escolha recair pela garantia de mais um mandato ao atual presidente, já estarão disponíveis para sua nova administração dados e projeções colhidos pelo atual esforço de planejamento.
A China tem demonstrado seu grande empenho em desenhar o próprio futuro. Em tempos turbulentos como os que nos esperam, o próximo governo brasileiro já sabe onde pode vir a buscar inspiração.
O grande engano
O grande engano da mediocridade! Este é um alerta para os nossos dias. O fácil, o imediato, o que dá para todos, o que passa por democrático, o que está ‘benzinho’ e mediano, parece, tantas vezes, a solução. Não fazer ondas, ceder, ir pelo mais ou menos, vale tudo desde que não chegue cá o incómodo: este é o retrato dos desiludidos! Nivelar por baixo não é caminho, é engano.
Vasco Pinto de Magalhães
Vasco Pinto de Magalhães
Quando as vozes de exílio e sobrevivência nos alcançam
Na Poética, de Aristóteles, somos ensinados que quanto mais intensos são os sentimentos inspirados por uma tragédia – medo, horror, revolta, compaixão –, maior é a catarse do público. Uma história bem contada, em que as tensões presentes na peça permitem à audiência identificar-se com as emoções das personagens, conduz à resolução do conflito e ao desfazer de tensões, atingindo-se então a catarse.
Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?
Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.
Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas (Edições Insurgentes), partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.
Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?
Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.
Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.
Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.
Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.
Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?
Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.
Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas (Edições Insurgentes), partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.
Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?
Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.
Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.
Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.
Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.
terça-feira, 28 de abril de 2026
Fascismo, nunca mais! Olá neofascismo!
O neofascismo do século XXI não é apenas uma atualização estética de velhas doutrinas autoritárias; é uma mutação estratégica que combina heranças ideológicas do passado com instrumentos contemporâneos de poder. Chamar-lhe apenas “novo fascismo” pode até ser insuficiente. O que hoje observamos, em várias geografias e contextos políticos, aproxima-se de um fenómeno mais sofisticado: um fascismo com alma russa, sustentado por uma lógica de poder centralizado, por uma visão geopolítica de confrontação permanente e, sobretudo, por uma utilização sistemática da tecnologia como ferramenta de influência e controlo.
Ao contrário do fascismo clássico, que se afirmava de forma declarada, mobilizando massas em torno de símbolos e lideranças carismáticas, o neofascismo contemporâneo prefere a ambiguidade. Não se assume como tal. Pelo contrário, infiltra-se nos discursos democráticos, apropria-se da linguagem da soberania popular e apresenta-se como resposta legítima a crises reais — económicas, culturais ou identitárias. É precisamente nesta capacidade de disfarce que reside a sua força.
A referência a uma “alma russa” não deve ser entendida de forma simplista ou nacionalista, mas antes como metáfora de um modelo político que privilegia o controlo do Estado sobre a sociedade, a manipulação da informação e a projeção de poder através de meios não convencionais. Trata-se de um paradigma onde a verdade se torna relativa, onde a realidade pode ser moldada e onde a política se transforma num campo de operações híbridas — simultaneamente internas e externas.
E é aqui que entra o elemento central desta nova ideologia: a tecnologia. As plataformas digitais, os algoritmos e os sistemas de recomendação não são neutros. São infraestruturas que podem ser instrumentalizadas para amplificar discursos extremistas, criar bolhas de perceção e fragmentar o espaço público. O neofascismo compreendeu isso melhor do que muitos defensores da democracia. Em vez de censurar diretamente, como no passado, manipula fluxos de informação, promove desinformação e explora emoções como o medo, a indignação e a sensação de perda.
A tecnologia permite também uma vigilância difusa, muitas vezes invisível, que dispensa os mecanismos repressivos tradicionais. O controlo não precisa de ser explícito quando pode ser internalizado. A opinião pública é moldada não pela imposição, mas pela repetição, pela saturação e pela construção de narrativas aparentemente espontâneas.
Importa, contudo, evitar simplificações. Este fenómeno não nasce apenas de estratégias deliberadas de poder; ele alimenta-se de fragilidades estruturais das sociedades contemporâneas. Desigualdades persistentes, desconfiança nas instituições e crises de representação criam o terreno ideal para que estas ideias prosperem. O neofascismo não impõe apenas uma visão — ele oferece respostas fáceis para problemas complexos, ainda que essas respostas sejam, no limite, profundamente excludentes e perigosas.
Dizer que o neofascismo é o fascismo com nova roupagem é correto, mas incompleto. Ele é mais do que isso: é um sistema adaptativo, que aprende, evolui e se reinventa. Um sistema que já não precisa de marchas ou uniformes para se afirmar, porque encontrou na tecnologia e na manipulação da informação os seus novos pilares.
Se há lição a retirar, é que o combate a este fenómeno não pode ser feito apenas com memória histórica ou indignação moral. Exige compreensão profunda, capacidade crítica e, sobretudo, a reconstrução de confiança nas instituições democráticas. Porque o maior risco do neofascismo não é a sua visibilidade — é precisamente a sua capacidade de parecer normal.
Ao contrário do fascismo clássico, que se afirmava de forma declarada, mobilizando massas em torno de símbolos e lideranças carismáticas, o neofascismo contemporâneo prefere a ambiguidade. Não se assume como tal. Pelo contrário, infiltra-se nos discursos democráticos, apropria-se da linguagem da soberania popular e apresenta-se como resposta legítima a crises reais — económicas, culturais ou identitárias. É precisamente nesta capacidade de disfarce que reside a sua força.
A referência a uma “alma russa” não deve ser entendida de forma simplista ou nacionalista, mas antes como metáfora de um modelo político que privilegia o controlo do Estado sobre a sociedade, a manipulação da informação e a projeção de poder através de meios não convencionais. Trata-se de um paradigma onde a verdade se torna relativa, onde a realidade pode ser moldada e onde a política se transforma num campo de operações híbridas — simultaneamente internas e externas.
E é aqui que entra o elemento central desta nova ideologia: a tecnologia. As plataformas digitais, os algoritmos e os sistemas de recomendação não são neutros. São infraestruturas que podem ser instrumentalizadas para amplificar discursos extremistas, criar bolhas de perceção e fragmentar o espaço público. O neofascismo compreendeu isso melhor do que muitos defensores da democracia. Em vez de censurar diretamente, como no passado, manipula fluxos de informação, promove desinformação e explora emoções como o medo, a indignação e a sensação de perda.
A tecnologia permite também uma vigilância difusa, muitas vezes invisível, que dispensa os mecanismos repressivos tradicionais. O controlo não precisa de ser explícito quando pode ser internalizado. A opinião pública é moldada não pela imposição, mas pela repetição, pela saturação e pela construção de narrativas aparentemente espontâneas.
Importa, contudo, evitar simplificações. Este fenómeno não nasce apenas de estratégias deliberadas de poder; ele alimenta-se de fragilidades estruturais das sociedades contemporâneas. Desigualdades persistentes, desconfiança nas instituições e crises de representação criam o terreno ideal para que estas ideias prosperem. O neofascismo não impõe apenas uma visão — ele oferece respostas fáceis para problemas complexos, ainda que essas respostas sejam, no limite, profundamente excludentes e perigosas.
Dizer que o neofascismo é o fascismo com nova roupagem é correto, mas incompleto. Ele é mais do que isso: é um sistema adaptativo, que aprende, evolui e se reinventa. Um sistema que já não precisa de marchas ou uniformes para se afirmar, porque encontrou na tecnologia e na manipulação da informação os seus novos pilares.
Se há lição a retirar, é que o combate a este fenómeno não pode ser feito apenas com memória histórica ou indignação moral. Exige compreensão profunda, capacidade crítica e, sobretudo, a reconstrução de confiança nas instituições democráticas. Porque o maior risco do neofascismo não é a sua visibilidade — é precisamente a sua capacidade de parecer normal.
'Voto não tem preço, tem consequência'
Não é segredo que a igreja católica foi conivente e se beneficiou da escravização negra. Embora tenha havido vozes que se manifestaram contra o tratamento desumano dado aos africanos escravizados (a exemplo do Papa Pio II, que em 1462 instruiu os bispos a condenarem o tráfico como um "crime terrível"), foi só no século 19 que os católicos se posicionaram de maneira enfática em defesa dos direitos humanos.
Mas, para ser justa, antes de seguir com meu raciocínio, preciso fazer uma observação: não é possível esquecer que, na atualidade, há segmentos neopentecostais que prestam um desserviço à liberdade religiosa ao demonizar as religiões de matriz africana (e seus fiéis), fomentando atitudes e práticas racistas e preconceituosas.
Dito isso, é gratificante saber que a "Mensagem ao Povo Brasileiro" —redigida ao final da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (de 15 a 24/04) em Aparecida, SP— faz referência à decisão da ONU classificando o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave já cometido contra a humanidade.
Os bispos reconheceram formalmente que "o Brasil ainda não enfrentou corajosamente o racismo, e a nossa história tem uma dívida que exige reparação". Concordo e aproveito para indagar: Qual papel as igrejas estão dispostas a desempenhar nessa luta por reparação?
Em ano eleitoral, é fundamental combater o aliciamento e a compra de votos. Como diz o documento da CNBB, "o voto não tem preço, tem consequência". Coisa que torna primordial a escolha de candidatos com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça socioambiental e da vida.
Diante da disseminação organizada da desinformação, da manipulação do medo, dos discursos de ódio impulsionados pelas novas tecnologias, é imperioso proteger a verdade, a integridade do debate público e a legitimidade do processo eleitoral. Religião não deve servir para instrumentalização eleitoreira. Afinal, voto não tem preço, tem consequência.
Mas, para ser justa, antes de seguir com meu raciocínio, preciso fazer uma observação: não é possível esquecer que, na atualidade, há segmentos neopentecostais que prestam um desserviço à liberdade religiosa ao demonizar as religiões de matriz africana (e seus fiéis), fomentando atitudes e práticas racistas e preconceituosas.
Dito isso, é gratificante saber que a "Mensagem ao Povo Brasileiro" —redigida ao final da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (de 15 a 24/04) em Aparecida, SP— faz referência à decisão da ONU classificando o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave já cometido contra a humanidade.
Os bispos reconheceram formalmente que "o Brasil ainda não enfrentou corajosamente o racismo, e a nossa história tem uma dívida que exige reparação". Concordo e aproveito para indagar: Qual papel as igrejas estão dispostas a desempenhar nessa luta por reparação?
Em ano eleitoral, é fundamental combater o aliciamento e a compra de votos. Como diz o documento da CNBB, "o voto não tem preço, tem consequência". Coisa que torna primordial a escolha de candidatos com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça socioambiental e da vida.
Diante da disseminação organizada da desinformação, da manipulação do medo, dos discursos de ódio impulsionados pelas novas tecnologias, é imperioso proteger a verdade, a integridade do debate público e a legitimidade do processo eleitoral. Religião não deve servir para instrumentalização eleitoreira. Afinal, voto não tem preço, tem consequência.
Cansamo-nos de pensar
Cansamo-nos de tudo, exceto de compreender. O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.
Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analisa, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.
Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exacta como foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.
Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.
Fernando Pessoa
Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exacta como foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.
Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.
Fernando Pessoa
Hiperconectados em tempos de solidão
Nunca estivemos tão “conectados”, porém nunca nos sentimos tão sós. Um paradoxo recentemente confirmado por um estudo do ISCTE que evidencia o aumento da solidão em Portugal. De acordo com os dados divulgados, acresce, na última década, uma diminuição significativa das interações sociais e do número de amizades próximas, particularmente entre os mais jovens e os mais vulneráveis do ponto de vista económico. Ainda mais preocupante parece ser o facto de a maioria da população não se dar conta desta transformação silenciosa dificultando a sua mitigação.
Mais do que um fenómeno social a solidão, que ultrapassa largamente o simples isolamento físico, é uma questão de saúde pública como reconhece a Organização Mundial de Saúde. Falamos de uma experiência muito subjetiva, porém frequentemente marcada por sentimentos de vazio, ansiedade e desconexão emocional que pode ocorrer mesmo na presença de outras pessoas. Estar acompanhado não é de todo suficiente, é preciso estar-se ligado. Vivemos rodeados de redes sociais, notificações e interações digitais, contudo a generalidade destas interações é superficial, fragmentada e emocionalmente empobrecida. Ainda que a tecnologia ofereça, indiscutivelmente, inúmeras vantagens, não substitui a profundidade emocional de uma conversa presencial, de um gesto ou de um momento partilhado.
O problema torna-se ainda mais relevante quando percebemos que a redução de interações sociais está também associada às mudanças estruturais que a vida contemporânea acarreta. Envelhecimento da população, sem redes de apoio e cuidado próximas, digitalização das relações sociais, ritmos de trabalho intensos e a fragilidade nos laços comunitários são alguns elementos de uma conjuntura que se agrava em momentos de transição, como a reforma, onde os contactos interpessoais podem diminuir drasticamente. Em Portugal, uma em cada dez pessoas diz sentir-se sozinha, sendo a solidão um fator de risco significativo para a saúde como aponta, de forma clara, a evidência científica. A ligação social é um determinante essencial do bem-estar. As relações sociais de qualidade influenciam, de forma direta, a saúde física e mental e funcionam como fator protetor contra o stress e a depressão diminuindo o risco de doenças físicas e cognitivas. Somos, por natureza, seres relacionais que necessitam de pertença, reconhecimento e vínculos significativos e quando estas relações falham o impacto é integral, sistémico. A qualidade das nossas relações interpessoais é um dos pilares do equilíbrio necessário entre bem-estar físico, emocional e social. Desta forma, desenvolver competências como empatia, assertividade ou escuta ativa é, mais do que nunca, fundamental para estabelecer e manter relações significativas. São estas competências, verdadeiras ferramentas de sobrevivência emocional, que nos permitem transformar mera interação em real conexão.
A solidão, sendo um dos grandes desafios do nosso tempo, é um espelho de uma sociedade em transformação e, por isso, a resposta não pode ser apenas individual. Projetos comunitários, iniciativas de convívio intergeracional, espaços acessíveis de convivência social e atividades culturais assim como melhoria de condições económicas ou políticas de trabalho protetoras de uma saúde integral são responsabilidades coletivas tal como assinala também o estudo do ISCTE.
Combater a solidão exige por isso uma abordagem multifatorial aliando políticas públicas, educação e cultura na promoção da literacia emocional, das relações de qualidade bem como na criação de oportunidades de interação, passos essenciais para o desenvolvimento de uma sociedade mais saudável e de um capital social robusto.
É chegado o momento em que é necessário reaprender a estar com os outros e questionarmos os nossos hábitos, repensando espaços e ritmos de vida. É preciso investir tempo, presença e interação, recursos cada vez mais escassos, nas relações de qualidade, nos vínculos.
Em plena era da hiperconectividade, impõe-se resgatar a conexão humana. O desafio passa por continuar a confundir proximidade digital com presença real ou reafirmar o valor do encontro genuíno, da capacidade de estar plenamente com o outro e da construção de vínculos que sustentem o equilíbrio e o bem-estar, reconhecendo que não há saúde plena sem relações que a sustentem.
Mais do que um fenómeno social a solidão, que ultrapassa largamente o simples isolamento físico, é uma questão de saúde pública como reconhece a Organização Mundial de Saúde. Falamos de uma experiência muito subjetiva, porém frequentemente marcada por sentimentos de vazio, ansiedade e desconexão emocional que pode ocorrer mesmo na presença de outras pessoas. Estar acompanhado não é de todo suficiente, é preciso estar-se ligado. Vivemos rodeados de redes sociais, notificações e interações digitais, contudo a generalidade destas interações é superficial, fragmentada e emocionalmente empobrecida. Ainda que a tecnologia ofereça, indiscutivelmente, inúmeras vantagens, não substitui a profundidade emocional de uma conversa presencial, de um gesto ou de um momento partilhado.
O problema torna-se ainda mais relevante quando percebemos que a redução de interações sociais está também associada às mudanças estruturais que a vida contemporânea acarreta. Envelhecimento da população, sem redes de apoio e cuidado próximas, digitalização das relações sociais, ritmos de trabalho intensos e a fragilidade nos laços comunitários são alguns elementos de uma conjuntura que se agrava em momentos de transição, como a reforma, onde os contactos interpessoais podem diminuir drasticamente. Em Portugal, uma em cada dez pessoas diz sentir-se sozinha, sendo a solidão um fator de risco significativo para a saúde como aponta, de forma clara, a evidência científica. A ligação social é um determinante essencial do bem-estar. As relações sociais de qualidade influenciam, de forma direta, a saúde física e mental e funcionam como fator protetor contra o stress e a depressão diminuindo o risco de doenças físicas e cognitivas. Somos, por natureza, seres relacionais que necessitam de pertença, reconhecimento e vínculos significativos e quando estas relações falham o impacto é integral, sistémico. A qualidade das nossas relações interpessoais é um dos pilares do equilíbrio necessário entre bem-estar físico, emocional e social. Desta forma, desenvolver competências como empatia, assertividade ou escuta ativa é, mais do que nunca, fundamental para estabelecer e manter relações significativas. São estas competências, verdadeiras ferramentas de sobrevivência emocional, que nos permitem transformar mera interação em real conexão.
A solidão, sendo um dos grandes desafios do nosso tempo, é um espelho de uma sociedade em transformação e, por isso, a resposta não pode ser apenas individual. Projetos comunitários, iniciativas de convívio intergeracional, espaços acessíveis de convivência social e atividades culturais assim como melhoria de condições económicas ou políticas de trabalho protetoras de uma saúde integral são responsabilidades coletivas tal como assinala também o estudo do ISCTE.
Combater a solidão exige por isso uma abordagem multifatorial aliando políticas públicas, educação e cultura na promoção da literacia emocional, das relações de qualidade bem como na criação de oportunidades de interação, passos essenciais para o desenvolvimento de uma sociedade mais saudável e de um capital social robusto.
É chegado o momento em que é necessário reaprender a estar com os outros e questionarmos os nossos hábitos, repensando espaços e ritmos de vida. É preciso investir tempo, presença e interação, recursos cada vez mais escassos, nas relações de qualidade, nos vínculos.
Em plena era da hiperconectividade, impõe-se resgatar a conexão humana. O desafio passa por continuar a confundir proximidade digital com presença real ou reafirmar o valor do encontro genuíno, da capacidade de estar plenamente com o outro e da construção de vínculos que sustentem o equilíbrio e o bem-estar, reconhecendo que não há saúde plena sem relações que a sustentem.
Elementos da escalada fascista nos EUA
Infelizmente, os termos fascismo e fascista caíram na banalidade do debate público há muito tempo. Esquerda e direita, no Brasil e no mundo, abusaram de seu uso para rotular seus rivais políticos em uma tentativa torpe de descredibilizar argumentos. Desta forma, tal como na fábula do Menino e do Lobo, quando a ameaça realmente está surgindo, parece exagero identificar Trump com a ascensão do fascismo nos Estados Unidos. O problema é que não é.
Apesar de não muito celebrada por sua base de fãs, a trilogia prequel de Star Wars (Guerra nas Estrelas), dos anos 2000, serviu para contar como uma república democrática degringolou para um regime totalitário. Ademais, em série mais recente do universo expandido, Andor, mostra-se como o regime consolidou o fascismo na galáxia. De maneira semelhante, a situação política atual dos EUA imita a arte em cinco elementos centrais.
O primeiro deles é o elemento mais marcante do fascismo dos anos 1920 e 1930: a enorme capacidade de mobilização popular, muitas vezes, de maneira truculenta. Esta mobilização popular era dirigida por grupos e milícias armadas que buscavam subverter as instituições do Estado de baixo para cima e de dentro para fora. Os exemplos claros são os camisas negras na Itália dos anos 1920 e os camisas pardas na Alemanha dos anos 1920 e 1930. Nos EUA, este elemento está representado no ICE (Serviços de Imigração e Aduana), uma agência de aplicação da lei de imigração que, com Trump, flexibilizou a admissão e quantidade de novos agentes. Segundo propaganda do próprio presidente, em 47 dias é possível se inscrever, ser treinado e partir para ações policiais. De janeiro de 2025 a janeiro de 2026, 12 mil novos agentes foram admitidos, um recorde para uma agência de segurança interna dos EUA.
O ICE, neste último ano, não responde à administração pública, mas diretamente ao presidente Trump. Esta é a característica central do fascismo: cidadãos comuns agem de maneira inconsequente em nome do Estado se estiverem vestindo as insígnias do partido e aplicando a ideologia do líder. Se no passado os camisas negras eram liberados da lei quando perseguiam e espancavam comunistas, atualmente, agentes do ICE deportam imigrantes sem o devido processo legal e espancam quem estiver no caminho. De maneira semelhante, na série Andor, o Império se utilizou de milícias locais para perseguir cidadãos e exterminar populações.
Ademais a esta característica central, outras quatro se somam para caracterizar a singularidade do fascismo: o primado do partido, o primado da nação, o primado do Estado e o primado do chefe. Estes quatro elementos, cada vez mais, se consolidam na política e em camadas da sociedade americana dos últimos meses. Pelo aspecto do partido, não é possível argumentar que os EUA estejam vivendo um sistema unipartidário sob a égide dos Republicanos, mas, ao que parece, os EUA caminham para viver uma nova “Era dos Bons Sentimentos” ou um novo sistema partidário no qual o oponente esteja muito enfraquecido. Trump venceu as eleições de 2024 praticamente por WO, e o partido Democrata vive uma profunda crise de identidade. É difícil de dizer se os Democratas terão o mesmo destino que os Federalistas em 1815, mas seu apagamento na esfera nacional é sensível, fato que abre espaço para uma hegemonia dos Republicanos.
Este é um aspecto interessante do fascismo, porque, embora não seja democrático, não elimina a participação política. Aqueles que desejam participar do debate público devem se inscrever nas fileiras do partido e debater a política dentro do partido. De maneira semelhante, o Império de Star Wars transparecia ares de democracia ao permitir o funcionamento do Senado, mas, mantinha a alta política concentrada entre militares e o Imperador.
Pelo aspecto da nação, Trump instrumentaliza uma nova onda de supremacismo WASP (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês), recuperando a imagem de uma América pré-Guerra Civil, emulando uma época, supostamente, sem divisões entre Norte e Sul, sem traumas e máculas. Neste nacionalismo, antigos símbolos desta era são resgatados: a Era dos Bons Sentimentos, a Doutrina Monroe e a Democracia Jacksoniana se destacam. Novamente, pegando de empréstimo a alegoria de Star Wars, na série Andor, o nacionalismo exacerbado do Império aparece na forma de culto à ordem e à estabilidade, misticismo e unidade orgânica, elementos igualmente presentes no nacionalismo americano.
Pelo aspecto do Estado, é inegável que o individualismo e a livre-iniciativa ainda estão arraigados no DNA americano, mas já há episódios que mostraram a força de Trump em aumentar a presença da União tanto na economia quanto na federação. Pelo lado da economia, em agosto de 2025, Trump firmou um acordo para adquirir uma participação de cerca de 10% na Intel, uma das gigantes de microchips, para impedir que empresas chinesas aumentassem sua participação na empresa. Pelo lado da política, a autonomia de estados (democratas) está sendo cerceada para garantir o trabalho inconsequente de agentes do ICE. Novamente, observando a realidade administrativa do Império, em Andor, há elementos de hipertrofia burocrática e eficiência desumana que levam a uma banalidade do mal típica do fascismo, elementos que, também, vicejam na burocracia atual dos EUA.
Finalmente, o primado do chefe é o aspecto mais gritante na escalada fascista dos EUA: o culto à personalidade de Trump. Mudança de nomes de prédios públicos, criptomoedas, propagandas feitas por Inteligência Artificial, desfiles militares, fantasias, NFTs etc., tudo que Trump pode incluir seu nome e imagem ele o faz prontamente. Ironicamente, em 04 de maio de 2025, dia de Star Wars, Trump postou imagem de IA mostrando uma versão sua musculosa, com vestes escuras, empunhando um sabre de luz vermelho, justamente, a imagem dos Siths, vilões do universo de Star Wars. A metáfora de Star Wars, mais do que um recurso útil à análise, faz parte do imaginário cultural e político dos EUA mesmo em tempos de fascismo ascendente.
Contudo, o fenômeno do fascismo não é apenas a existência de um partido antissistema e de elementos disruptivos, mas, sobretudo, trata-se de um fenômeno político e social que, quando irrompe, normalmente se apresenta em três cenários de resolução: (i) a vitória fascista e a morte da democracia por dentro, (ii) a guerra civil ou (iii) o autogolpe preventivo e autoritário. Estes cenários não passam de possibilidades, uma vez que Trump ainda não cruzou esse horizonte de eventos: o mês de novembro é o rio Rubicão de Donald Trump, quando ocorrerão as eleições de meio de mandato para o legislativo dos EUA, as midterms. A previsão é de que Trump perca espaço nas câmaras legislativas, e seu abuso de poder seja freado.
Entretanto, agora que Trump tem à sua disposição um contingente policial que obedece a seu comando (o ICE), não se sabe como isso pode ser usado para intimidar a política eleitoral americana. Não obstante, Trump pode usar a justificativa da guerra no Oriente Médio para ampliar poderes do executivo e limitar o legislativo, à semelhança de Palpatine nas guerras clônicas. Se algum dos dois cenários se concretizar, estaremos diante de um cenário de vitória fascista. Resta saber se, após isso, reescreverão as histórias de Star Wars mostrando o Império como moralmente justo e de caráter ilibado.
Apesar de não muito celebrada por sua base de fãs, a trilogia prequel de Star Wars (Guerra nas Estrelas), dos anos 2000, serviu para contar como uma república democrática degringolou para um regime totalitário. Ademais, em série mais recente do universo expandido, Andor, mostra-se como o regime consolidou o fascismo na galáxia. De maneira semelhante, a situação política atual dos EUA imita a arte em cinco elementos centrais.
O primeiro deles é o elemento mais marcante do fascismo dos anos 1920 e 1930: a enorme capacidade de mobilização popular, muitas vezes, de maneira truculenta. Esta mobilização popular era dirigida por grupos e milícias armadas que buscavam subverter as instituições do Estado de baixo para cima e de dentro para fora. Os exemplos claros são os camisas negras na Itália dos anos 1920 e os camisas pardas na Alemanha dos anos 1920 e 1930. Nos EUA, este elemento está representado no ICE (Serviços de Imigração e Aduana), uma agência de aplicação da lei de imigração que, com Trump, flexibilizou a admissão e quantidade de novos agentes. Segundo propaganda do próprio presidente, em 47 dias é possível se inscrever, ser treinado e partir para ações policiais. De janeiro de 2025 a janeiro de 2026, 12 mil novos agentes foram admitidos, um recorde para uma agência de segurança interna dos EUA.
O ICE, neste último ano, não responde à administração pública, mas diretamente ao presidente Trump. Esta é a característica central do fascismo: cidadãos comuns agem de maneira inconsequente em nome do Estado se estiverem vestindo as insígnias do partido e aplicando a ideologia do líder. Se no passado os camisas negras eram liberados da lei quando perseguiam e espancavam comunistas, atualmente, agentes do ICE deportam imigrantes sem o devido processo legal e espancam quem estiver no caminho. De maneira semelhante, na série Andor, o Império se utilizou de milícias locais para perseguir cidadãos e exterminar populações.
Ademais a esta característica central, outras quatro se somam para caracterizar a singularidade do fascismo: o primado do partido, o primado da nação, o primado do Estado e o primado do chefe. Estes quatro elementos, cada vez mais, se consolidam na política e em camadas da sociedade americana dos últimos meses. Pelo aspecto do partido, não é possível argumentar que os EUA estejam vivendo um sistema unipartidário sob a égide dos Republicanos, mas, ao que parece, os EUA caminham para viver uma nova “Era dos Bons Sentimentos” ou um novo sistema partidário no qual o oponente esteja muito enfraquecido. Trump venceu as eleições de 2024 praticamente por WO, e o partido Democrata vive uma profunda crise de identidade. É difícil de dizer se os Democratas terão o mesmo destino que os Federalistas em 1815, mas seu apagamento na esfera nacional é sensível, fato que abre espaço para uma hegemonia dos Republicanos.
Este é um aspecto interessante do fascismo, porque, embora não seja democrático, não elimina a participação política. Aqueles que desejam participar do debate público devem se inscrever nas fileiras do partido e debater a política dentro do partido. De maneira semelhante, o Império de Star Wars transparecia ares de democracia ao permitir o funcionamento do Senado, mas, mantinha a alta política concentrada entre militares e o Imperador.
Pelo aspecto da nação, Trump instrumentaliza uma nova onda de supremacismo WASP (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês), recuperando a imagem de uma América pré-Guerra Civil, emulando uma época, supostamente, sem divisões entre Norte e Sul, sem traumas e máculas. Neste nacionalismo, antigos símbolos desta era são resgatados: a Era dos Bons Sentimentos, a Doutrina Monroe e a Democracia Jacksoniana se destacam. Novamente, pegando de empréstimo a alegoria de Star Wars, na série Andor, o nacionalismo exacerbado do Império aparece na forma de culto à ordem e à estabilidade, misticismo e unidade orgânica, elementos igualmente presentes no nacionalismo americano.
Pelo aspecto do Estado, é inegável que o individualismo e a livre-iniciativa ainda estão arraigados no DNA americano, mas já há episódios que mostraram a força de Trump em aumentar a presença da União tanto na economia quanto na federação. Pelo lado da economia, em agosto de 2025, Trump firmou um acordo para adquirir uma participação de cerca de 10% na Intel, uma das gigantes de microchips, para impedir que empresas chinesas aumentassem sua participação na empresa. Pelo lado da política, a autonomia de estados (democratas) está sendo cerceada para garantir o trabalho inconsequente de agentes do ICE. Novamente, observando a realidade administrativa do Império, em Andor, há elementos de hipertrofia burocrática e eficiência desumana que levam a uma banalidade do mal típica do fascismo, elementos que, também, vicejam na burocracia atual dos EUA.
Finalmente, o primado do chefe é o aspecto mais gritante na escalada fascista dos EUA: o culto à personalidade de Trump. Mudança de nomes de prédios públicos, criptomoedas, propagandas feitas por Inteligência Artificial, desfiles militares, fantasias, NFTs etc., tudo que Trump pode incluir seu nome e imagem ele o faz prontamente. Ironicamente, em 04 de maio de 2025, dia de Star Wars, Trump postou imagem de IA mostrando uma versão sua musculosa, com vestes escuras, empunhando um sabre de luz vermelho, justamente, a imagem dos Siths, vilões do universo de Star Wars. A metáfora de Star Wars, mais do que um recurso útil à análise, faz parte do imaginário cultural e político dos EUA mesmo em tempos de fascismo ascendente.
Contudo, o fenômeno do fascismo não é apenas a existência de um partido antissistema e de elementos disruptivos, mas, sobretudo, trata-se de um fenômeno político e social que, quando irrompe, normalmente se apresenta em três cenários de resolução: (i) a vitória fascista e a morte da democracia por dentro, (ii) a guerra civil ou (iii) o autogolpe preventivo e autoritário. Estes cenários não passam de possibilidades, uma vez que Trump ainda não cruzou esse horizonte de eventos: o mês de novembro é o rio Rubicão de Donald Trump, quando ocorrerão as eleições de meio de mandato para o legislativo dos EUA, as midterms. A previsão é de que Trump perca espaço nas câmaras legislativas, e seu abuso de poder seja freado.
Entretanto, agora que Trump tem à sua disposição um contingente policial que obedece a seu comando (o ICE), não se sabe como isso pode ser usado para intimidar a política eleitoral americana. Não obstante, Trump pode usar a justificativa da guerra no Oriente Médio para ampliar poderes do executivo e limitar o legislativo, à semelhança de Palpatine nas guerras clônicas. Se algum dos dois cenários se concretizar, estaremos diante de um cenário de vitória fascista. Resta saber se, após isso, reescreverão as histórias de Star Wars mostrando o Império como moralmente justo e de caráter ilibado.
Assinar:
Postagens (Atom)