quarta-feira, 26 de março de 2025

Em El Salvador, os EUA replicaram e refinaram Guantánamo

A Administração Trump deslocalizou e subcontratou um pesadelo carcerário a El Salvador. É uma nova versão de Guantánamo, a base militar e prisão norte-americana na ilha de Cuba para onde a Administração Bush atirou aqueles que quis privar de direitos humanos elementares durante a sua guerra contra o terrorismo, e que as seguintes administrações democratas não fizeram o suficiente por encerrar de vez. Como em tantas outras frentes, a protelação ou desinteresse democrata no desmantelamento de armadilhas, alçapões e vazios legais ao longo de década e meia deixou agora na mão da segunda Administração Trump um vasto conjunto de ferramentas para a repressão e para a negação de direitos. Em Guantánamo, onde restavam em janeiro apenas 15 detidos da era Bush, cresce agora um novo campo de detenção para imigrantes em situação irregular.

A Casa Branca alega que envia para lá apenas “os piores dos piores” criminosos. Mas, como em tantas outras histórias das últimas semanas, também se multiplicam os alertas sobre inocentes apanhados na rede, porque é o que acontece quando se tenta fazer justiça fora dos tribunais. Permanecem sem contacto com advogados, sem possibilidade de clamar a sua inocência perante um juiz, e sem perspectiva de virem a ser libertados.

Ficou Guantánamo, e fez-se escola. O recurso norte-americano a estes buracos negros, a estes depósitos de vidas humanas em terra de ninguém, é agora replicado e refinado com a colaboração de El Salvador, a quem os EUA pagam para receber os tais “piores dos piores”, ou os suspeitos de o serem. Vale muito a pena ler o trabalho do jornalista norte-americano Philip Holsinger na revista Time para perceber o que é o CECOT, o gigantesco campo de detenção e de trabalhos forçados naquele país centro-americano para onde os EUA passaram a enviar, este mês, sem julgamento, centenas de estrangeiros suspeitos de filiação a grupos criminosos.


Os cerca de 15 mil reclusos do CECOT, entre os salvadorenhos que já lá estavam e os latino-americanos agora deportados dos EUA, vivem 23 horas e 30 minutos por dia fechados em celas, cada uma partilhada com cerca de 80 homens. Dormem amontoados em beliches metálicos de quatro níveis que mais se assemelham a prateleiras de um grande armazém, sem colchão, lençóis ou almofadas. Partilham duas sanitários e duas bacias de água por cela.

Saem apenas para o corredor para trinta minutos diários de exercício físico guiado, e nunca veem o céu. Não podem receber visitas, nem ocupar o tempo com nada que não seja a leitura da Bíblia. Comem apenas arroz, feijão e ovos.

Na noite de dia 15, Holsinger assistiu à chegada de três aviões com 261 homens deportados dos EUA. “Quase todos os detidos apareceram à porta do avião com rostos zangados e de desafio. Foram os seus rostos que me captaram a atenção, porque em poucas horas esses rostos seriam completamente transformados”, escreve. Viu como foram retirados das aeronaves de mãos e pés algemados, como foram pontapeados e esbofeteados, como os despiram e rasparam o cabelo.

Viu um deles chorar e chamar pela mãe. “Ele dizia, ‘não sou membro de nenhuma gangue, sou gay, sou barbeiro’. Acreditei nele. Mas talvez apenas porque ele não se parecia com aquilo que eu esperava – não era nenhum monstro tatuado”, escreve Holsinger.

O homem que chora pela mãe poderá ser Andrys, um venezuelano de 23 anos cuja advogada nos EUA nega que tenha qualquer envolvimento com organizações criminosas. Terá sido visado pelas autoridades norte-americanas pela sua origem e por ter tatuagens incorretamente identificadas como símbolos de pertença ao Tren de Aragua, um gangue venezuelano. Ou Francisco José García Casique, um barbeiro venezuelano reconhecido pela mãe através da televisão. Mas há outros indivíduos cujos advogados e famílias alegam a sua inocência.

“Mais deles começaram a choramingar; os rostos duros que vi no avião tinham-se evaporado. Era como se estivesse a olhar para homens que passaram por uma máquina no tempo. Em duas horas, tinham envelhecido dez anos”, relata Holsinger.

Estas centenas de homens deportados para El Salvador, onde arriscam passar o resto das suas vidas presos e amontoados, a dormir em prateleiras metálicas e a comer mistelas, estão por estes dias no centro de uma mediática batalha entre um juiz federal norte americano, James Boasberg, e a Casa Branca. Foram deportados à revelia do magistrado, que negou à Administração Trump o recurso a uma lei arcaica de 1798, o Alien Enemies Act, para expulsar do país, sem o devido processo legal, estrangeiros suspeitos de serem invasores inimigos.

Boasberg, que enfrenta um pedido de Donald Trump para que o Congresso o afaste, personifica para já a única esperança, ainda que muito remota, de libertação que os eventuais inocentes apanhados na rede e levados para El Salvador têm neste momento. Mas enfrentam um Governo norte-americano que entende que o Presidente tem um poder virtualmente ilimitado de decisão e acção, e que certos cidadãos estrangeiros, ou talvez todos, não usufruem sequer de direitos básicos consagrados pela Constituição.

É certamente difícil empatizar com membros de gangues sanguinários da América Latina, e é plausível que muitos dos homens deportados para El Salvador sejam, efectivamente, criminosos violentos. Só que nunca saberemos se é mesmo esse o caso de todos os deportados, porque os seus processos não foram julgados cabalmente.

E se o Governo nega direitos elementares a cidadãos estrangeiros porque entende que não está obrigado pela Constituição a garanti-los, então há também uma mensagem grave para os próprios norte-americanos: esse Governo só não violará os direitos dos seus cidadãos porque a leitura vigente da Constituição não o permite ainda; não por um imperativo moral que o impeça.

Mostra-o Trump, que na sexta-feira escreveu na sua rede social, a Truth Social: “Mal posso esperar para ver vândalos terroristas doentios levarem com sentenças de 20 anos de cadeia pelo que estão a fazer a Elon Musk e à Tesla. Talvez possam servi-las nas prisões de El Salvador, que recentemente se tornaram famosas pelas suas condições maravilhosas.”

Talvez seja apenas uma piada, esta ideia de enviar também cidadãos norte-americanos para um gulag fora de fronteiras. Ou talvez El Salvador se torne numa das maiores manchas do período histórico cada vez mais extraordinário em que os EUA entraram.

'Austeridade é meio de poder da elite sobre trabalhadores'

A máxima de que um Estado precisa reduzir constantemente suas despesas, independente de estar em crise, ganhou força com a ascensão de governos de ultradireita pelo mundo, como o de Donald Trump, nos EUA, e de Javier Milei, na Argentina, segundo avaliação da economista italiana Clara Mattei.

A professora e diretora do Centro de Economia Heterodoxa (CHE) da Universidade de Tulsa, nos EUA, afirma que tais eleições intensificaram uma tendência global implacável de austeridade, sem justificativas macroeconômicas.

"É uma estratégia vencedora para aqueles que querem manter o status quo, porque a austeridade cria mais xenofobia, mais autoritarismo, e esse autoritarismo só produz mais austeridade", diz.


Segundo ela, mesmo governos de centro-esquerda, como o de Luiz Inácio Lula da Silva, também acabam reféns de uma pressão do capital internacional por cortes de gastos. "Governantes centristas em todo o mundo estão pressionados para fazer políticas semelhantes, talvez menos aceleradas. Eu sei que o governo Lula, por exemplo, está tendo que lidar com a austeridade por causa da pressão da elite econômica e dos investidores do mercado", afirma.

O que é a austeridade autoritária e como isso vem se tornando uma tendência global, mesmo sem novas crises financeiras?

Nosso sistema econômico está mostrando a sua cruzada de repressão econômica sobre a maioria, dado que a austeridade está sendo liderada sem o motivo de uma crise financeira. E isso é muito claro.

Todos os governos de direita, como Trump, nos EUA, ou Milei, na Argentina, estão pressionando pela austeridade. Sabemos que governantes centristas em todo o mundo estão pressionados para fazer políticas semelhantes, talvez menos aceleradas. Eu sei que o governo Lula, por exemplo, está tendo que lidar com a austeridade por causa da pressão da elite econômica e dos investidores do mercado.

Acho que é um momento histórico muito interessante, porque, de certa forma, as desculpas caíram, e agora o que você vê é uma guerra de classes muito clara. No fim das contas, a austeridade serve para preservar o equilíbrio de poder entre a maioria das pessoas trabalhadoras e a elite. Essa elite está capturando quase todos os recursos que são produzidos pela sociedade e mantendo o resto das pessoas em uma forma muito vulnerável e precária de vida.

Essa simbiose de austeridade e autoritarismo se forma em si mesma – no sentido de que, quanto mais austeridade os governos implementam, mais as pessoas acreditam na narrativa de que é o mais fraco que é responsável pelo quadro atual. É uma estratégia vencedora para muitos daqueles que querem manter o status quo, porque a austeridade cria mais xenofobia, mais autoritarismo, e esse autoritarismo só produz mais austeridade.

O retorno de Trump à Casa Branca pode trazer novas ondas de cortes orçamentários e políticas pró-mercado. Na sua visão, quais seriam as principais características da "austeridade autoritária" nesse novo mandato?

Eu acho que alguém como Elon Musk sabe que os trabalhadores podem se organizar e contestar o capitalismo e a relação social pela qual eles são explorados.

É interessante notar como essa administração [o governo Trump] ataca diretamente a área social. Trump quer desmantelar completamente a pequena infraestrutura social que restou após [Joe] Biden, como o Medicaid e o Head Start [dois programas voltados a pessoas de baixa renda, sendo o primeiro de assistência à saúde e o segundo focado na primeira infância].

Acho que é algo parecido com o que vimos na administração [de Jair] Bolsonaro no Brasil: um ataque à infraestrutura para ver o quão rápido ela pode se desmantelar, com a ideia de que, uma vez que ela se desmantela, é muito difícil reconstruir.

Mas isso não significa que o Estado não estará gastando; o Estado estará gastando para apoiar, subsidiar e incentivar a elite.

O que geralmente acontece é que taxam mais o trabalho, a classe trabalhadora, enquanto reduzem taxas sobre o capital, dividendos, propriedade, e lucros corporativos.

Além disso, a austeridade constante espreme os trabalhadores, porque, com uma taxação regressiva, se eles têm que comprar o que antes tinham como direito, isso significa que eles são mais dependentes do mercado e estão também mais dispostos a aceitar qualquer condição de trabalho.

Como essa nova onda de austeridade pode impactar a economia europeia, principalmente em países como a Alemanha, que flexibilizou o limite de endividamento introduzido pelo governo de Angela Merkel em 2009?

Sabemos que os níveis de pobreza estão subindo em toda a Europa. A desigualdade é obscena agora. Na Itália, o número de bilionários no país continua aumentando e, ao mesmo tempo, a pobreza absoluta continua subindo também.

Essa desigualdade não produz futuro para os cidadãos. Ela produz um grande banquete para aqueles que já estão ganhando. A Itália é privatizada e continua a privatizar o máximo possível. Meloni continua cortando os benefícios dos cidadãos, jogando milhares de famílias em pior condição, enquanto ela está dizendo que precisamos nos rearmar.

E isso é algo que nós estamos ouvindo na Alemanha também. A retórica é que nós estamos rearmando, precisamos aumentar nosso setor de defesa, enquanto o custo dele é desmantelar o setor social.

O setor de defesa é o melhor setor para o governo investir, no sentido de que ele não desafia o equilíbrio de classes.

Não é sobre empoderar as pessoas diretamente através de recursos sociais, através do trabalho público, através de uma sensação de participar da economia. Na verdade, é o melhor jeito de estimular os investidores enquanto preservam a total despolitização e a desdemocratização da economia.

No Brasil, a austeridade é frequentemente justificada como necessária ao equilíbrio das contas públicas, mas também resulta em cortes em áreas sociais e aumento da desigualdade. Você vê paralelos entre a "austeridade autoritária" e as políticas econômicas adotadas no Brasil nos últimos anos?

O Brasil tem recursos abundantes. E há formas de o país ter uma produção muito mais sustentável, ecológica e democrática.

Isso deveria ser algo que poderia ser expandido com o apoio do Estado, se o Estado parar de focar em satisfazer os investidores internacionais – que, de qualquer forma, nunca estarão satisfeitos. Porque, de novo, se você fizer austeridade, você vai causar uma recessão que trará sua morte econômica no longo prazo.

Acho que o Brasil é um país típico que, se tivesse coragem política para dizer que persegue uma agenda original, ecológica e democrática, poderia realmente fazer isso. Mas é preciso muita coragem, apoio popular e imaginação política.

Será que o Lula vai conseguir fazer isso? Não sei, eu não acho. Ele está muito dentro desse sistema. E isso só vai acontecer se houver pressão de baixo.

O Estado precisa apoiar atividades que são relacionadas à produção para, finalmente, conseguir uma independência do mercado. Isso não vai acontecer na Europa, acho que a Europa está morta politicamente. Isso precisa acontecer no Sul Global, começando pelo Brasil.

terça-feira, 25 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Anistia e negacionismo histórico

Há poucos dias, este jornal publicou artigo em que um general do Exército defendia a anistia como um instrumento político e jurídico fundamental na história brasileira. A partir de exemplos históricos que demonstrariam como as sucessivas anistias teriam aberto caminho para uma solução pacífica dos conflitos, o general defendeu, então, a anistia aos acusados pelo 8 de Janeiro.

O texto não surpreende. Afinal, anistias foram instrumentos historicamente usados por oficiais militares para garantir a própria impunidade. Também produziram o esquecimento coletivo e a própria naturalização de seus crimes. Aliás, o mesmo general, ministro da Saúde de Bolsonaro, até hoje não foi responsabilizado pela tragédia que vivemos naqueles anos, a despeito de ter sido indiciado pela CPI da Covid do Senado Federal.

O mantra da caserna de um Duque de Caxias "pacificador" ignora uma folha corrida de massacres, da Guerra do Paraguai às rebeliões regenciais. O espírito de "reconciliação" de Caxias talvez só tenha existido frente aos escravocratas que lideraram a Farroupilha, destinando aos Lanceiros Negros o Massacre de Porongos. Ali, sua ação contrastou com a resposta dada pelo militar às revoltas populares como a Cabanagem e a Balaiada, que resultou em dezenas de milhares de mortos.


A ideia de que a repressão à "Intentona" Comunista de 1935 foi a forma de "evitar um maior esgarçamento do tecido social" chega a ser inacreditável. Em 1937, uma grande fake news produzida por um tal capitão Mourão (não o amigo do general, mas Olímpio Mourão Filho) fomentou o anticomunismo do Exército para legitimar o golpe e a ditadura do Estado Novo, com brutal repressão. A anistia veio quase uma década depois, não sem antes deixar um enorme saldo de torturados e mortos. O exemplo também ignora que o Partido Comunista ficou proscrito por quase todo o século 20. Será que o general aceitaria igual destino para seu atual partido, em nome da "reconciliação nacional"?

Por fim, a ideia de que a anistia de 1979 foi ampla, geral e irrestrita é uma falsificação histórica das mais grosseiras. Essa foi a palavra de ordem construída pela sociedade civil a partir de meados dos anos 1970, por meio da qual os Comitês Brasileiros pela Anistia demandavam não apenas a volta dos exilados e a liberdade dos presos políticos, mas também memória, verdade, reparação e, principalmente, justiça em relação aos mortos e desaparecidos. Figueiredo, o último dos generais ditadores, veio à público repetidas vezes afirmar que os militares jamais aceitariam uma anistia ampla, geral e irrestrita. Mas, ao notar que a luta crescia na sociedade, a ditadura mudou de estratégia. Ao invés de recusar a demanda, ela impôs os próprios termos para a anistia, invertendo completamente os sentidos daquela bandeira popular.

A anistia ampla, geral e irrestrita, que deveria ser sinônimo de memória e justiça, passou a ser a anistia do "esquecimento" e da "reconciliação", que eram, na verdade, sinônimos de impunidade. De fato, esse é o sentido fundamental da lei imposta pelo regime em 1979, por meio de um Congresso ainda sob seu estrito controle: garantir que os torturadores e assassinos de Rubens Paiva e de milhares de outros brasileiros saíssem impunes pelos crimes que cometeram, ao mesmo tempo em que mantinha excluídos dos benefícios diversos militantes ainda presos.

O negacionismo que já conhecíamos em relação às vacinas transforma-se em negacionismo histórico. E reforça o diagnóstico de que nas escolas militares se ensina mitologia ao invés de historiografia. Em verdade, esse negacionismo serve para esconder que anistias tiveram como efeito, ao longo da história, deixar livre o caminho para que golpistas voltassem a atentar contra a democracia. Caso militares golpistas tivessem sido responsabilizados na primeira metade do século 20, possivelmente não teríamos vivido uma ditadura de mais de 20 anos.

E caso os responsáveis por essa ditadura não tivessem sido anistiados em 1979, o deputado federal cujo ídolo é um torturador dificilmente teria chegado à Presidência da República. Assim, poderíamos ter evitado muitos episódios que, ao longo dos últimos anos, demonstraram que a farda tem sido vista, pelos próprios militares, como uma garantia de não responsabilização.

Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada histórica. Ou rompemos com o ciclo de impunidade que marca nossa história ou estaremos permanentemente ameaçados pelo risco do retorno ao autoritarismo, com a ascensão de torturadores e negacionistas ao poder.

A intolerância política na internet e a urgência de superação da polarização calcificadora

A intolerância política é, hoje, um dos sintomas mais alarmantes da crise democrática que atravessa a sociedade brasileira. Desde a intensificação dos conflitos políticos no país, a partir da segunda década do século XXI, o debate público passou a ser dominado por uma lógica de polarização emocional, alimentada por discursos extremados, deslegitimadores e incapazes de reconhecer a legitimidade do outro. Nesse cenário, as redes sociais se tornaram ambientes propícios à radicalização, substituindo o diálogo por slogans, e a escuta por reações impulsivas. A internet, nesse processo, não apenas espelha as fissuras políticas e sociais, mas também age como amplificadora de afetos negativos que “calcificam” as relações sociais e corroem a possibilidade da convivência democrática.

Essa calcificação das relações sociais se manifesta na consolidação de dois campos antagônicos, que se veem como únicos porta-vozes legítimos de toda a população. Cada lado constrói para si uma narrativa autojustificadora, onde todas as virtudes residem em seu campo e todos os defeitos, no campo oposto. Essa visão binária dificulta o reconhecimento da pluralidade de perspectivas que caracteriza uma sociedade complexa e diversa como a brasileira. O que se observa, em consequência, é a substituição da política como espaço de mediação e negociação por uma arena de confronto existencial, em que os adversários deixam de ser interlocutores legítimos e passam a ser inimigos a serem eliminados simbolicamente — e, por vezes, fisicamente.


Esse ambiente de antagonismos irreconciliáveis gera um tipo de ativismo convicto de suas próprias certezas, que não admite dúvidas, contrapontos ou ambiguidades. A política se converte em um campo moralizante, onde cada grupo se arroga o monopólio da verdade, da justiça e da virtude. Nesse modelo, emoções políticas complexas como o cuidado, a compaixão ou a escuta se tornam quase impossíveis de serem expressas, pois são vistas como sinais de fraqueza ou traição à causa. A intolerância cresce como consequência natural dessa dinâmica, afetando não apenas o debate público, mas também a saúde mental da população, que se vê submetida a uma constante atmosfera de tensão, medo e ressentimento.

As lideranças políticas, longe de conter essa escalada, muitas vezes a incentivam, pois sabem que o engajamento emocional — mesmo que negativo — é um instrumento poderoso de mobilização. O medo do outro, a raiva diante da diferença e a crença de que o adversário representa uma ameaça existencial alimentam campanhas políticas e estratégias de poder. Não se trata apenas de disputa por votos, mas de construção de identidades políticas fechadas, que se fundamentam na exclusão do diferente e na reafirmação constante de uma suposta superioridade moral. O resultado disso é a transformação dos manuais de comunicação política em verdadeiros “manuais de combate existencial”, onde a linguagem serve menos para argumentar e mais para atacar, desmoralizar e destruir.

Nesse contexto, torna-se urgente enfrentar com coragem e responsabilidade o processo de polarização que endurece mentes e sentimentos, e que estabelece “verdades” sem reflexão crítica ou estudo aprofundado. A política, para cumprir seu papel civilizatório, deve ser um espaço de aprendizado mútuo e não de doutrinação. É preciso reconhecer que há outras visões de mundo possíveis, outras experiências legítimas de existência, e que o desacordo faz parte da vida democrática. Isso implica abandonar a arrogância intelectual e afetiva, que acredita possuir todas as respostas e que recusa qualquer possibilidade de escuta ou revisão de suas próprias certezas.

A intolerância política na internet é a expressão mais visível desse processo, pois ali a agressividade encontra terreno fértil para se manifestar sem freios. As redes sociais, organizadas por algoritmos que favorecem o engajamento emocional e a viralização de conteúdos polarizadores, criam bolhas informacionais onde se reforçam preconceitos, se produzem desinformações e se alimenta o ódio. O anonimato e a despersonalização das interações online contribuem para a intensificação das violências simbólicas, que frequentemente transbordam para o mundo offline. Casos de agressões físicas, ameaças, cancelamentos e até homicídios motivados por divergências políticas vêm se tornando mais comuns, e não podem ser naturalizados.

Esse ambiente de hostilidade constante corrói as bases da democracia, pois inviabiliza a formação de consensos mínimos e destrói as condições para a deliberação pública. A política, que deveria ser espaço de construção coletiva, passa a ser percebida como guerra permanente, onde só pode haver vencedores e vencidos. A ideia de bem comum é substituída por estratégias de sobrevivência discursiva e territorial. A consequência disso é o enfraquecimento das instituições, o descrédito nos processos eleitorais e o aumento da violência política. A democracia, quando submetida a essa lógica, deixa de ser um regime de convivência com a diferença e se aproxima perigosamente da tirania das maiorias.

O Brasil vive hoje essa encruzilhada. Ou se reconstrói um ethos político fundado na tolerância, na escuta ativa e no respeito à pluralidade, ou estaremos condenados a uma escalada contínua de conflitos, ressentimentos e rupturas. Isso exige, antes de tudo, uma revalorização da paz cotidiana. A convivência democrática não se constrói apenas nas urnas ou nos tribunais, mas no dia-a-dia das interações sociais, familiares, comunitárias e digitais. Precisamos reaprender a conviver com a divergência, sem que ela se transforme em motivo de ódio ou desprezo. Precisamos incorporar a ideia de que o outro, mesmo quando pensa diferente, é parte integrante do mesmo corpo social e merece consideração.

As emoções políticas precisam ser reconectadas com práticas de cuidado, empatia e responsabilidade. Isso significa construir uma pedagogia da escuta e da convivência, que ensine a lidar com a diferença como algo constitutivo da vida pública e não como ameaça. Também é necessário investir em educação midiática e literacia digital, para que os cidadãos sejam capazes de discernir entre discurso legítimo e manipulação emocional, entre crítica política e incitação ao ódio. Os meios de comunicação e as plataformas digitais têm responsabilidade nesse processo, devendo promover ambientes mais seguros, plurais e respeitosos.

Abandonar a arrogância é, portanto, um gesto de maturidade democrática. É reconhecer que nenhuma posição é absoluta, que todos os lados podem aprender com os outros, e que a construção de um país mais justo e democrático passa pela valorização do diálogo e da escuta. A superação da polarização calcificadora não será um processo simples, mas é um caminho necessário. Precisamos substituir os “manuais de combate existencial” por manuais de convivência democrática, onde a política seja compreendida como espaço de encontros possíveis, de divergências produtivas e de construção coletiva do futuro.

Se quisermos preservar a democracia como forma de vida, precisamos urgentemente recuperar a capacidade de conviver com a diferença. Precisamos de paz, tolerância e escuta no dia-a-dia.

Precisamos abrir espaço para novos sentimentos e emoções políticas que reflitam a diversidade e a complexidade do povo brasileiro. E, acima de tudo, precisamos reaprender que a política não é a arte de destruir o outro, mas a arte de viver juntos.

Eu não quero ser Rubem Braga

Neste momento em que começam as primeiras batalhas da Terceira Guerra, quando já se ouvem ao longe os clarins das novas bandas militares, eu espero que o diretor deste jornal não tenha a mesma ideia de seu colega do Diário Carioca, Horácio de Carvalho, em 1944.

Quando o Brasil se juntou aos aliados para enfrentar o Eixo de Hitler no front da Segunda Guerra, ele escalou como correspondente no conflito o cronista de amenidades do jornal. Rubem Braga, que escrevia sobre a observação de passarinhos, moças e borboletas amarelas nos céus do Rio, foi mandado relatar o circuito dos caças aéreos derramando bombas sobre os campos italianos. Não, senhor diretor, eu não quero ser Rubem Braga.

No alto, à esquerda, Rubem Braga; agachado, Joel Silveira

No próximo 8 de maio o mundo vai lembrar os 80 anos da rendição alemã, o Dia da Vitória, e ao invés da alegria de todos saírem às ruas, celebrar a paz e cantar “We are the world”, a expectativa é que a qualquer momento o diretor vai escalar mais um cronista para deixar as delicadezas da vida e seguir rumo à Ucrânia, Gaza, Irã, onde narrará o que vai pelos campos da morte.

Nos Diários Associados, o correspondente enviado à Segunda Guerra foi Joel Silveira, “a víbora”. Não era exatamente um cronista, mas escrevia com personalidade e, como mostram suas duas reportagens clássicas sobre os Matarazzo paulistas, tinha o humor venenoso que lhe deu o apelido. Quem o pautou foi o dono do jornal, o folclórico Assis Chateaubriand. Chatô foi claro como os ternos largos que vestia:

“O senhor vai pra guerra, seu Silveira, mas não me morra! Tá me ouvindo? Não me morra, seu Silveira! Repórter é pra mandar notícia, não pra morrer!”

Joel Silveira e Rubem Braga embarcaram com a Força Expedicionária Brasileira e é assim, fardados com outros soldados, que estão na capa de “Heróis por acaso – Espionagem no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial”. O livro, um dos muitos que serão lançados nos próximos dias para lembrar o armistício, mistura realidade e ficção. É assinado por Paulo Valente, filho de Clarice Lispector.

Eu repito, dispenso a honraria. Não quero ser o Rubem Braga da Terceira Guerra, muito menos a genial víbora peçonhenta do Silveira. Alguém, no entanto, precisará fazer o serviço enquanto eu permaneço na não menos dura guerra urbana carioca. A quem couber a escolha do diretor de redação, recomendo que antes de embarcar leia “Com a FEB na Itália”, os relatos de Braga sobre os nove meses em que acompanhou nossos pracinhas na busca do escalpo dos tedescos. Ao mesmo tempo que, repórter, noticiava o avanço da tropa, ele, cronista, traçava quadros de delicadeza sentimental como o da menina italiana Silvana, ferida por uma granada, um clássico da literatura nacional.

Definitivamente, eu não quero ser Rubem Braga, e parece que nem será necessário mandar cronista de amenidades para descrever os bastidores das batalhas. Vem aí uma guerra de drones. Não haverá um bar de hotel de Roma. Uma loura não estará na mesa ao lado esperando que lhe acendam o cigarro. O novo Rubem Braga não lhe dará fogo como fez o antigo. Não se apaixonará por ela, não precisará ser alertado por um oficial inglês como aconteceu com o cronista em 1944. A loura é uma espiã.

A Terceira Guerra vai ser muito chata.

Eu só para os 'civilizados' brancos


Os homens e as mulheres ontem, os judeus e os palestinos hoje: fico pasmo com a incapacidade de os seres humanos viverem juntos no respeito mútuo. Como se o outro devesse necessariamente ser um inimigo. O outro é simplesmente o outro. O outro é como eu. Ele tem o direito de dizer “eu”. Nós, homens brancos, civilizados e ricos, não aceitamos que o outro diga eu
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José Saramago

Gaza: por que não se chama genocídio a um genocídio?

O número foi “atualizado” este domingo: 50 mil mortos em Gaza. Netanyahu prossegue o genocídio, quebrando o cessar-fogo em nome da sua sobrevivência política agora com um aval superior: Donald Trump já promete limpar a Faixa de Gaza e fazer dali “a Riviera” e dá a luz verde total ao criminoso israelita para a extinção dos palestinos.

A “nova Europa” – França, Reino Unido e Alemanha – fez um comunicado onde se mostrou “chocada” com o ressurgimento dos ataques a Gaza. Mas não irá além disso, como o não foi o Conselho Europeu reunido na semana passada: todo e qualquer opositor da política do governo israelita será acusado de “antissemitismo”. As palavras são sempre cuidadosamente medidas.

Afinal, Keir Starmer expurgou do Partido Trabalhista todos os que se opunham à política do Estado de Israel – como o antigo líder trabalhista Jeremy Corbyn, reeleito nas últimas eleições pela sua circunscrição londrina como independente.

A Palestina está no fim da cadeia alimentar da possibilidade de empatia internacional. Choramos pela Ucrânia, mas depois já não sobra nada para Gaza. É como se existisse uma desumanização dos palestinos que, aos olhos do Ocidente, são olhados como há dois séculos se olhavam os escravos.


O que Trump defende é exatamente o mesmo que o ministro da Segurança de Israel, Ben Gvir, de extrema-direita – que saiu e agora, com o regresso dos ataques, reentrou no Governo. É uma Faixa de Gaza sem palestinos, seja por migração ou por extermínio, como se está a ver.

Várias agências da ONU e algumas ONG, como a Amnistia Internacional, já se referiram ao que se está a passar em Gaza como um “genocídio”. Até o Papa Francisco, num livro publicado no fim de 2024, alude à palavra “genocídio”, sem a decretar expressamente. Mas Francisco afirmou ser preciso apurar se a mortandade em Gaza “tem as características de um genocídio” e “se enquadra na definição técnica formulada por juristas e organismos internacionais”. E, ao mesmo tempo, fala do extermínio dos judeus pelos nazis, o genocídio dos arménios, o genocídio do Ruanda e dos cristãos no Médio Oriente.

Se Joe Biden sempre apoiou Israel e descartou todas estas acusações, Donald Trump eleva a discussão sobre Israel-Gaza para um novo patamar, instituindo um novo McCarthismo, nome cunhado depois do senador Joseph McCarthy denunciar uma “rede de espiões e membros do Partido Comunista” no Departamento de Estado, tendo sido corresponsável pelas perseguições a uma quantidade enorme de “suspeitos de comunismo” em todas as áreas, da cultura à política, nos anos 50 nos Estados Unidos.

Tendo em conta que, para Trump, defender a Palestina e combater a política de guerra de Israel é igual a defender o Hamas e os atos terroristas contra israelitas, a perseguição e a deportação dos imigrantes acusados de “apoiar terroristas estrangeiros” já está em curso. Mahmoud Khalil, defensor dos direitos dos palestinos, foi preso e, apesar de ter residência permanente nos Estados Unidos e de a sua mulher ser cidadã americana, Trump diz que a presença de Khalil nos Estados Unidos “é contrária aos interesses nacionais e política externa” do país. Há outros cidadãos ameaçados de deportação.

Omer Bartov, por enquanto, não é um deles. Nascido e criado em Israel, antigo combatente nas forças armadas israelitas, especialista em Holocausto e genocídio, o historiador escreveu no verão passado no The Guardian um ensaio sobre como o perturbou a sua última visita a Israel, em 2024, onde foi ver a família e amigos e conhecer a neta.

Omer Bartov – que, depois do 7 de outubro, tinha negado que Israel estivesse a cometer genocídio – escreveu nesse texto: “Já não acredito nisso. Fiquei convencido que, depois do ataque a Rafah em 6 de maio de 2024, não é possível negar que Israel comete crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e ações genocidas.”

A comunidade internacional, ao optar por não ver o que se está a passar, é obviamente cúmplice. Trump já sabemos que é.

O Mau Humor dos Nossos Rios

Nosso Brasil, de rios largos e generosos, tem enfrentado ultimamente um fenômeno estranho: o mau humor das águas. Sim, porque se os rios pudessem falar, estariam de cara fechada, emburrados com tanto descaso. No coração da Amazônia, onde a floresta deveria encontrar nos cursos d’água um refúgio fresco e constante, o que se vê é um espetáculo de secura, barcos encalhados e gente olhando pro céu, torcendo por uma chuva que insiste em não cair.

Nos municípios ribeirinhos, onde a vida depende da fluidez das águas, a estiagem prolongada não é só um contratempo: é uma calamidade. As canoas, que antes deslizavam tranquilas levando peixe, gente e esperança, agora encontram solo rachado, enquanto as populações tentam reinventar o cotidiano sem a presença do rio que sempre ditou o ritmo da vida. Mas será que podemos culpar os rios pelo seu mau humor?


A resposta, claro, está na falta de planejamento. A floresta foi sendo desmatada, os cursos d’água assoreados, e o clima resolveu dar sua resposta: secura sem fim. O fenômeno é repetido, ano após ano, e o Brasil assiste com uma cara de surpresa, como se não soubesse que sem preservação, os rios não têm como retribuir sua abundância. E quem sofre com isso? As populações ribeirinhas, abandonadas entre o verde intenso da floresta e o marrom pálido da terra esturricada. Já estamos rodando de motocicleta, doze quilômetros, de uma cidade para outra, onde antes era um lago. E a vida desse lago? Para onde foram os peixes, as garças, as arirambas, as lontras? Ninguém sabe de nada, ninguém estuda o fenômeno, os institutos se calam e os governantes ficam a mercê do bom humor da NINHA.

O poder público patina entre a burocracia e a falta de verba. Discute-se o problema, formam-se comitês, divulgam-se notas, mas a água continua baixando. As estradas, quando existem, se tornam únicas alternativas de transporte, mas são precárias ou simplesmente impraticáveis. Quem diria que, no coração da maior bacia hidrográfica do mundo, faltaria água para beber e para viver?

Mas nem só de tragédia vive a Amazônia. O povo da floresta é teimoso, criativo e resistente. Quando os rios resolvem fazer greve, o ribeirinho improvisa. Caminha quilômetros atrás de um poço, faz reza para São Pedro e, se nada disso resolver, inventa um jeito novo de lidar com o problema. Mas a pergunta que fica é: até quando depender da resiliência, quando o que se precisa é de ação?

Se o Brasil quiser ver seus rios voltando a sorrir, é preciso mais do que lamentos. O planejamento hídrico tem que deixar de ser discurso e virar uma realidade que todos vejam e apoiem. Não pode ficar trancado nas salas de Institutos que existem há décadas e não se sente o resultado prático das suas existências e custos. Preservação não pode ser papo de ambientalista solitário, ou de ministros com opiniões que estão muito longe do rigor da ciência, mas sim, política de estado. E, acima de tudo, as populações que vivem dessa água precisam ser vistas e ouvidas, porque são elas que sentem, na pele, o descaso, o falso discurso e o peso do abandono.

Nos Estados Unidos, país ainda irmão do Brasil, existe um programa que pode chegar até nós e resolver grande parte dos nossos problemas:

O Tennessee Valley Authorithy, uma agência do Governo Americano, criado no longínquo ano de 1933, para dar vida aos americanos que viviam no Rio Tennessee e que mereciam vida melhor do que aquela que existia. No começo era para controlar as enchentes, passando imediatamente para as construções de represas e desenvolvimento da energia e do agro. A tecnologia desenvolvida para as plantações na várzea, dizem muito bem para a nossa Amazônia e os seus catorze milhões de hectares de várzea ainda improdutivas. Desde que Adão e Eva andaram por aqui, só plantamos macaxeira, melancia e mandioca. Alguns caboclos se aventuram em um roçado mais avançado e plantam abóbora, milho, mandioca e umas pimentas, logo arrasado pela seca ou pelas enchentes, quando não visitados pelo IBAMA, que sugere uma roçada para não incentivar a queima de dois hectares. Só esquecem que as populações que nos invadem e nos empobrecem, sentem a necessidade de plantar, comer, beber e progredir.

Só com a normalização do humor dos rios é que voltarei a comer sorva, cama cama, sapoti, pupunha do tamanho normal, caju e até a minha querida pimenta murupi, a original, aquela que faz a bundinha em vez da ponta, aquela que arde e tem cheiro. Todas essas frutas e o tamanho dos abacaxis e cupuaçus, ficaram diferentes do que estamos acostumados a comer.

Que venham as chuvas, mas que venha também a conscientização dos eleitos, porque, sem isso, os nossos rios seguirão de mau humor, e o Brasil, sedento de soluções.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Barbárie tecnológica


O desenvolvimento tecnológico, se não for acompanhado por um idêntico avanço cultural, ético e moral, não aprimora a civilização. Pelo contrário, degrada-a, conduzindo a uma espécie de barbárie tecnológica.
 
José Eduardo Agualusa

Imigrantes agora são os inimigos

Vivemos uma época estranha, e sinto-me muito envolvido nela para compreendê-la. Tenho algumas intuições, levanto hipóteses, mas simplesmente vou vivendo na esperança de um dia olhar para trás e dizer com calma:

— Foi assim.

Durante a semana, andei lendo sobre o cotidiano em Gaza durante o precário cessar-fogo. As pessoas vivem nos escombros, sem condições higiênicas, e há o frio que matou sete bebês de hipotermia. Quando terminei minha pesquisa, a guerra recomeçou, e o bombardeio matou 400 pessoas.

Na mesma semana, assisti ao filme “O aprendiz”, que conta a história de Donald Trump. Biografias às vezes exageram, mas, de qualquer forma, custa acreditar que ele tenha se tornado presidente dos Estados Unidos duas vezes. As lições que aprendeu com o advogado Roy Cohn talvez ajudassem a ganhar dinheiro, mas não parecem úteis para um estadista: atacar sempre, considerar a verdade algo relativo e nunca admitir uma derrota.

A mesma dureza que aplicava aos pobres inquilinos de seus prédios, transfere agora aos imigrantes. Pessoas são diariamente presas; mulheres, separadas de maridos americanos; pais, de filhos. Há hostilidade nas ruas. A ida dos venezuelanos para El Salvador —que os manterá na prisão a um custo de US$ 6 milhões — foi um espetáculo repressivo. Os presos são forçados a andar curvados, as cabeças raspadas diante das câmeras.

Tudo isso acabou me dando uma ligeira ideia dos tempos em que vivemos, sobretudo ao ler no New York Times o artigo de uma pessoa trans. Ela fala com clareza que o processo de negação de sua humanidade se parece com o que se passou com judeus, ciganos e gays no III Reich. É preciso destituí-los de todos os direitos para desaparecer com eles.

Há diferenças entre aquele período e o que se passa agora nos Estados Unidos. Mas há também algumas semelhanças, que nos lembram o suicídio de pessoas sensíveis, como o escritor Walter Benjamin, que tentava cruzar a fronteira da França com a Espanha, em fuga do nazismo.

Ao ler o artigo no Times, senti um amargor estranho, que havia sentido naquele momento da Guerra das Malvinas diante das fotos de navios envoltos em brumas num mar revolto. São períodos em que as notícias cotidianas nos deixam tristes. De certa forma, tento olhar com esperança. A Segunda Guerra e todos os seus horrores acabaram despertando algumas reações valiosas para que pudéssemos continuar a aventura humana.

Na França, o existencialismo ganhou importância não com só com filósofos (Sartre, Simone), mas também com artistas como Juliette Gréco. Em Frankfurt, uma nova escola de pensamento mergulhou não apenas na mente germânica, mas produziu conhecimentos universais: Marcuse, Erich Fromm, Adorno, Horkheimer, Habermas ocuparam a cena para reinterpretar a realidade.

Minha esperança é que possamos sair deste momento com novas ideias, aprendendo um pouco mais sobre os seres humanos, como aprendemos com os descaminhos do povo alemão. Hitler tinha apoio popular. Guardadas as proporções, Donald Trump também galvaniza apoio popular. A hostilidade aos estrangeiros se espalha entre pessoas simples, que buscam explicações para suas dificuldades.

Sou neto de imigrantes. Sempre pensei nos avós como gente com uma mão na frente e outra atrás, na pobreza, que trabalhou arduamente para cavar seu caminho e garantir a sobrevivência. Jamais imaginei que imigrantes fossem perseguidos como criminosos, apenas por buscar uma oportunidade num novo país. É possível superar essa tendência humana para criar bodes expiatórios? O que é preciso aprender, o que é preciso ensinar para darmos esse passo histórico?

Não tenho respostas a essas questões. Sei que foram levantadas noutras épocas e que precisamos viver este momento trágico, mas tentar respondê-las à nossa maneira, em nosso tempo de vida.
Fernando Gabeira

Onde está a reação a Trump?

A riqueza e o poder prodigiosos dos Estados Unidos se baseiam em dois pilares: universidades e empresas. O primeiro produz as ideias, pesquisas e formação que transformaram o país em uma Meca para as mentes mais brilhantes do mundo. O segundo gera os investimentos e inovação que alimentaram a formidável máquina econômica americana. Agora, porém, o presidente Donald Trump parece determinado a destruir ambos.

O comportamento de Trump não surpreende. Suas ideias de política econômica sempre foram absurdas, e seu ódio pelas instituições acadêmicas de elite - que ele vê como o lar da cultura “woke” - é bem conhecido. O mais chocante é que líderes corporativos e acadêmicos quase não estejam se manifestando.

Após a vitória eleitoral de Trump em novembro, havia um otimismo cauteloso nos círculos empresariais. Ele parecia uma mudança bem-vinda depois de Joe Biden, que falou duro contra o setor privado e apoiou sindicatos e regulamentações. Trump, em contraste, prometeu impostos baixos e menos burocracia. Seu discurso protecionista era um problema, mas muitos presumiram que era só para inglês ver. O mercado de ações abençoou a eleição de Trump ao atingir máximas históricas. Bilionários da tecnologia doaram para sua transição e se curvaram em sua posse.

As semanas seguintes mostraram que esse otimismo foi profundamente equivocado. Trump lançou uma surpresa atrás da outra na economia, fazendo com que os mercados americanos perdessem todos os ganhos desde novembro. É difícil dizer qual medida foi pior: as tarifas pesadas impostas aos aliados mais próximos (Canadá, México e Europa) ou a retórica constante, ameaças e guinadas na política comercial, que elevaram os indicadores de incerteza econômica a níveis superiores aos da crise financeira global de 2008.

Para piorar, o Departamento de Eficiência do Governo (Doge, na sigla em inglês) de Elon Musk causou estragos no governo federal, violando princípios legais básicos e demitindo mais de 100 mil funcionários públicos. Embora haja certa lógica cruel no corte de ajuda externa, o governo também atacou inexplicavelmente pesquisas básicas em áreas como saúde, ciências biológicas e educação.

Deve ser óbvio para os líderes empresariais americanos que Trump é uma ameaça clara e presente ao sistema que gerou suas fortunas. Por mais danosas que sejam suas políticas comerciais erráticas, elas são insignificantes perto da ameaça que ele representa às instituições básicas necessárias a uma economia de mercado próspera: o Estado de Direito, a separação de poderes, o investimento governamental em ciência e inovação, infraestrutura pública e relações estáveis e amigáveis com países estrangeiros afins.

O próprio Musk deve muito de seu sucesso a essas instituições. Sem um empréstimo governamental crucial num momento crítico, a Tesla teria falido. Fora isso, a SpaceX recebeu dezenas de bilhões de dólares em contratos governamentais. Ainda assim, Trump abandonou todas essas funções em favor de uma agenda que não avança nenhuma estratégia coerente, muito menos soluções para os problemas do país.

A ameaça de Trump às universidades americanas é ainda mais clara. Ele reduziu drasticamente o apoio governamental a pesquisas médicas básicas e, sob o pretexto de combater o antissemitismo, cortou recursos de forma arbitrária de algumas das principais universidades do país. Columbia e Johns Hopkins foram os primeiros alvos, mas outras (incluindo minha instituição, Harvard) também estão na mira.

O ataque de Trump às instituições democráticas é impressionante em velocidade, descaramento e transparência. Nenhuma organização da sociedade civil ou líder público pode continuar a duvidar da gravidade da situação

Quando as instituições básicas de uma democracia são atacadas, líderes de grandes organizações empresariais e acadêmicas têm o dever moral de se pronunciar. Mesmo assim, nem executivos nem reitores de universidades agiram. Em vez disso, adotaram o que os cientistas políticos de Harvard Ryan D. Enos e Steven Levitsky chamam de “agrado silencioso”. Eles calculam que, agindo nos bastidores e evitando holofotes, podem evitar o pior.

Mas, como Enos e Levitsky destacam, essa estratégia não funciona. Autocratas populistas como Hugo Chávez (Venezuela), Vladimir Putin (Rússia), Viktor Orbán (Hungria), Narendra Modi (Índia) e Recep Tayyip Erdogan (Turquia) sempre atacam universidades e pisoteiam liberdades acadêmicas. Censura - imposta pelo governo ou autoinfligida - é o preço que todas as instituições pagam. Mesmo quando autocratas inicialmente apoiam o mercado, acabam minando as bases institucionais de uma economia competitiva.

Comparado a esses autocratas, o ataque de Trump às instituições democráticas americanas é impressionante em velocidade, descaramento e transparência. Já não dá mais pra dizer: “É só o jeito dele; ele nunca cumprirá essas ameaças”. Nenhuma organização da sociedade civil ou líder público pode continuar a duvidar da gravidade da situação.

Autocratas prosperam quando seus oponentes permanecem divididos e com medo de se manifestar. Essa é a tragédia da ação coletiva: todo mundo perde quando nos recusamos a arriscar individualmente. Por isso, as principais universidades e maiores corporações do país - aquelas com mais credibilidade e mais a perder - agora têm uma responsabilidade desproporcional de agir.

Imagine se os reitores das principais universidades e CEOs das maiores empresas - junto com sindicatos, grupos religiosos e outras organizações civis - publicassem uma declaração clara e firme sobre os perigos de minar o Estado de direito, a liberdade acadêmica e a pesquisa científica. Esse gesto não comoveria Trump e seus aliados, mas animaria outras forças democráticas, mobilizando-as. Dezenas de milhões de americanos perguntam quando alguém terá coragem de se pronunciar. No mínimo, quem o fizer estará do lado certo da história.

Dani Rodrik

Com luz verde de Trump: A selvageria do banho de sangue de Israel em Gaza

Os terroristas de direita de Netanyahu, Ben-Gvir e Smotrich, não apenas acolheram com satisfação a renovação das políticas de terra arrasada.

A fúria e a intensidade dos ataques com mísseis e bombardeios mortais na Gaza sitiada não são apenas a continuação do genocídio pelo regime colonial de colonos, mas também uma rejeição decisiva do cessar-fogo que ele havia assinado.

Os líderes criminosos do regime – particularmente Benjamin Netanyahu – que está na lista de procurados do Tribunal Penal Internacional, buscaram todos os pretextos possíveis para retomar os massacres de civis inocentes.

Apesar da chamada “calmaria” no período intermediário quando a 1ª fase do cessar-fogo começou, Israel está ansioso para derramar mais sangue palestino, para se somar aos milhares e milhares de mártires desde 7 de outubro.

Da noite para o dia, enquanto os palestinos deslocados, sujeitos ao bloqueio desumano de alimentos, combustível, medicamentos e outros itens essenciais imposto pelo regime sionista, e bem no meio do Ramadã, preparavam refeições Suhur em tendas de plástico improvisadas e prédios bombardeados, Netanyahu desencadeou um terror feroz sobre eles.


Em minutos, mais de 400 civis foram mortos, principalmente mulheres e crianças. Mil ou mais ficaram feridos sem meios de receber tratamento médico.

Relatórios indicam que os atuais ataques militares são mais mortais e mais abrangentes do que a série regular de ataques de drones que Gaza vem sofrendo durante as semanas em que Netanyahu deixou de cumprir os termos originais do cessar-fogo.

Em resposta aos ataques atuais, a Resistência Palestina Hamas criticou Israel por desrespeitar suas obrigações ao anular o acordo de cessar-fogo.

Israel, que violou repetidamente o cessar-fogo que entrou em vigor em 19 de janeiro, tentou fabricar novos termos em um esforço para justificar a destruição total do acordo.

Os analistas Jeremy Scahill e Abubaker Abed ressaltam que, desde janeiro, Netanyahu tem travado uma campanha de sabotagem e provocação, violando abertamente os termos do acordo ao dificultar e bloquear totalmente a entrega de ajuda à Faixa de Gaza.

“Embora alimentos e outros suprimentos tenham sido autorizados a entrar em Gaza durante a primeira fase de 42 dias do acordo, Israel se recusou a permitir que quase todas as 60.000 casas móveis e apenas uma fração das 200.000 tendas entrassem em Gaza.”

Embora Netanyahu tenha tentado culpar o Hamas por falsas acusações de minar o cessar-fogo, a realidade é que ele impôs um “bloqueio total de qualquer ajuda, incluindo alimentos e suprimentos médicos para a Faixa e retomou sua política de usar a fome como arma de guerra”.

No domingo, Israel também cortou o fornecimento de eletricidade para Gaza, forçando uma grande usina de dessalinização a reduzir sua produção de água, limitando severamente a quantidade de água potável disponível para 600.000 pessoas em Deir al-Balah e Khan Younis.

Sabe-se que o Hamas aderiu ao acordo e estava ansioso para mantê-lo, “mas Netanyahu, buscando uma saída para suas crises internas, preferiu reacender a guerra às custas do sangue de nosso povo”, disse o Hamas em um comunicado.

De acordo com uma reportagem do Haaretz, o primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, exigiu ação internacional imediata para obrigar Israel a implementar um cessar-fogo imediato, respeitar o acordo de cessar-fogo de Gaza e retornar às negociações.

O fato de que as exigências de um membro-chave da equipe de mediação são direcionadas exclusivamente a Israel confirma o fato de que, ao contrário das alegações de Netanyahu, não foi o Hamas que violou o acordo.

Essa visão é reforçada por relatos da mídia de que o Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas denunciou Israel, não o Hamas.

“O maior medo das famílias, dos reféns e dos cidadãos de Israel se tornou realidade – o governo israelense decidiu desistir dos reféns”, disse um porta-voz ao Haaretz.

De fato, os terroristas de direita de Netanyahu, Ben-Gvir e Smotrich, não apenas acolheram com satisfação a renovação das políticas de terra arrasada, mas exclamaram alegremente que os planos foram preparados semanas atrás.

Sua excitação com o massacre de mães e bebês inocentes revela mais do que mera aprovação. Confirma que Israel não tinha intenção de honrar o acordo e havia conspirado para culpar o Hamas para justificar a atual selvageria.

Desde o início do cessar-fogo em Gaza, há 60 dias, a resistência palestina e as organizações responsáveis ​​têm monitorado meticulosamente as repetidas violações do acordo pelo regime sionista, afirma a Rede de Prisioneiros Palestinos, Samidoun.

“Ao mesmo tempo, para proteger seu povo, a Resistência não violou nenhuma vez os acordos de cessar-fogo nem retaliou contra os criminosos de guerra sionistas.”

Izzat al-Rishq, um membro fundador do gabinete político do Hamas, declarou: “O inimigo não alcançará por meio da guerra e da destruição o que não conseguiu alcançar por meio de negociações”.

A autorização dada por Trump ao banho de sangue em Israel o torna diretamente culpado de uma série de crimes de guerra, incluindo genocídio e limpeza étnica.

Ao facilitar a onda de ataques aéreos ao armar e financiar Israel, como tem sido a prática de seu antecessor Joe Biden, Trump provou – mais uma vez – que, longe de ser um pacificador, ele é um belicista.

Alon Mizrahi resume as notícias devastadoras de um novo genocídio, imediatamente seguido por imagens angustiantes como uma onda de tsunami de choque, descrença e dor.

As aulas de resistência

Um dos prazeres da velhice é ir reorganizando o currículo das crianças, de forma a adequar-se melhor aos nossos preconceitos.

É neste espírito que proponho dar às crianças mais velhas – ainda não sei a partir de que idade – pelo menos dois anos de aulas de uma cadeira que lhes vai dar jeito até caírem da tripeça: a Resistência.

A Resistência é o conjunto de técnicas que se usam para nos defendermos das sugestões dos outros.

Vai desde o simples dizer “Não” (que de simples nada tem e que só os cinturões negros conseguem dominar), até às mais sofisticadas técnicas de procrastinação.


Se há coisa que se aprende quando se tem muitos anos disto é que toda a gente nos quer empurrar para o que lhes convém.

O que vale é que cada um empurra numa direção diferente – um para nos fazermos advogados, outro para fugirmos para Bali – e cedo percebemos que, como não podemos satisfazer toda a gente, mais vale não satisfazermos ninguém.

Ninguém, quer dizer, ninguém a não ser a pessoa mais empenhada numa solução, que mais arrisca e que mais petisca: tu.

É muito fácil empurrar. Fácil e rápido. Alguém diz “devias seguir Medicina”, gasta três segundos com as três palavras, e segue caminho.

Já nós passamos o resto do ano – porventura a vida inteira – a matutar naquelas três palavras, e a repetir como um robô: “O meu tio Zé é que achava que eu devia ter sido médico… e eu, estupidamente, não liguei nenhuma…”

Como não podemos proibir a palavra “devias” (mas que paraíso seria, se pudéssemos!), temos de aprender a resistir.

A resistência aos empurrões é um delicado râguebi feito de fintas e bloqueios, em que tentamos seguir com a nossa bola nos braços, enquanto somos perseguidos pelos nossos amigos e familiares, cada um a querer empurrar-nos – não para outro lado do campo, mas para outro desporto, ou para outro universo que não o desportivo.

A resistência exige encantamento, técnicas de desvio da atenção, maquiavelismo, muita lábia e… paciência.

domingo, 23 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Na tentativa de virar imperador, Trump fratura democracia americana e ordem internacional

Os últimos movimentos de Donald Trump confirmam suas pretensões imperiais: do monarca absolutista que usurpa as prerrogativas dos outros poderes e do colonizador que cobiça as riquezas de outros povos.

Trump invocou na calada da noite do dia 14 a Lei do Estrangeiro Inimigo, para deportar 137 venezuelanos sem o devido processo legal. A lei, de 1798, só pode ser aplicada durante guerras. No dia seguinte, ignorou a ordem do juiz James Boasberg de suspensão das deportações para El Salvador e retorno dos aviões que já tivessem decolado.

O responsável por imigração da Casa Branca, Tom Homan, declarou: “Eu não me importo com o que juízes pensam”. Trump postou que o juiz devia sofrer impeachment. Numa rara manifestação pública, o presidente da Suprema Corte, o conservador Robert Smith, qualificou a ideia de “inacreditavelmente perigosa”.


Trump decretou o desmantelamento do Departamento de Educação e destinou US$ 4 bilhões de ajuda militar para Israel, decisões que cabem ao Congresso. Estudantes e funcionários estão sendo perseguidos.

As demissões sumárias de funcionários encarregados de fiscalizar o governo estão sendo derrubadas na Justiça. A Suprema Corte suspendeu na sexta-feira a demissão de Hampton Dellinger, diretor do Escritório do Procurador Especial, que recebe denúncias de irregularidades no governo.

Em fevereiro, Trump aboliu uma lei de Nova York que taxa veículos na hora do rush. A governadora Kathy Hochul disse que o presidente não poderia interferir em lei estadual, e que eles se encontrariam no tribunal. Trump postou: “Aquele que salva seu país não viola nenhuma lei”, uma frase atribuída ao imperador Napoleão Bonaparte.

Na sexta-feira, Trump, 47.º presidente dos EUA, anunciou o nome do próximo caça: F-47. Os anteriores foram F-34 e F35. Nem sempre os aviões seguem a ordem, mas nunca tinha havido um salto desse para homenagear um presidente.

Sua política externa é norteada por planos de colonizar Ucrânia, Faixa de Gaza, Canadá, Groenlândia e Panamá, e deixar que as outras potências imperialistas, China e Rússia, façam o mesmo com seus vizinhos.

Depois de tentar impor à Ucrânia um contrato pelo qual os EUA ficariam com a metade das receitas dos minérios e da infraestrutura do país, agora Trump quer se apropriar da rede de geração e transmissão de energia, enquanto entrega à Rússia as áreas por ela ocupadas.

O presidente não conseguirá se tornar um imperador, mas suas tentativas causarão fraturas na democracia americana e na ordem internacional baseada em regras.

Anticiência em nosso planeta hoje

Na trilogia de Cixin Liu, The Three-Body Problem Series, as forças que pretendem destruir os cientistas, e assim acabar com a produção de ciência na Terra, vêm do espaço sideral. O primeiro volume da trilogia foi adaptado como uma série pela Netflix. Os alienígenas planejam invadir o nosso planeta num futuro em que, sem ciência e tecnologia de ponta de defesa, seríamos incapazes de enfrentar uma invasão extraterrestre.

Hoje, a anticiência pode provir da política, da religião ou de ideologias fortemente arraigadas, das redes sociais e de interesses econômicos distintos. As forças destrutivas da anticiência terráquea vêm de vários cantos, inclusive de países governados pela extrema direita, hoje representada pelas políticas implementadas pelo governo Trump. Os ataques à ciência que se praticam nos Estados Unidos da América são amplamente comentados por revistas e por associações no mundo todo.


A postura da comunidade científica internacional pode-se resumir traduzindo o início de um recente artigo da revista Nature: “Trump 2.0: um ataque à ciência em qualquer lugar é um ataque à ciência em qualquer lugar. O presidente dos EUA, Donald Trump, pretende demolir a ciência e as instituições internacionais. A comunidade científica global deve tomar uma posição contra estes ataques.”

Outro exemplo de anticiência vinda do Estado é visível na Hungria. Em várias declarações onde se diz desfavorável à preocupação global a respeito das mudanças climáticas, Viktor Orbán, primeiro-ministro de extrema direita da Hungria, declara: “As ‘elites ocidentais’ estão demasiado preocupadas com as quotas de carbono e não o suficiente com a queda das taxas de natalidade”. Isso sem falar da cruzada do Viktor Orbán contra a liberdade acadêmica, exemplificada pelo fechamento da Universidade Centro-Europeia (CEU).

Para fechar esta curta lista de exemplos de Estados anticiência, é mister não esquecer que a postura anticiência do governo Bolsonaro não é coincidência: foi um projeto que se mostrou incompatível com a ciência, com a tecnologia, com o desenvolvimento sustentável desde seu início. Além de perseguir o ensino superior e toda a criação de ciência vinda das universidades públicas, foi responsável pela demora na vacinação contra covid, que causou mais de setecentas mil mortes no Brasil.

Os movimentos anticiência, contudo, não se reduzem às políticas de Estado e podem ser identificados nos extremos do espectro político. Caminhos anticiência conspiram, hoje, para desacreditar todo o universo da ciência e os cientistas em particular. Segmentos sociais militam contra determinadas áreas da ciência somando-se a fenômenos identitários. Muitos oferecem explicações (e aplicações) distantes de quaisquer evidências científicas ou criam universos paralelos onde sequer os fenômenos observáveis são aceitos como realidades.

O movimento antivax, por exemplo, é global, pode-se encontrar em setores da direita e da esquerda e constitui um dos mais poderosos grupos anticiência do planeta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou a hesitação vacinal como uma das ameaças à saúde global. De fato, os antivax podem ser responsabilizados pelos aumentos recentes de algumas das principais doenças, que incluem: sarampo, coqueluche, caxumba, rubéola e difteria. É bom lembrar que os movimentos antivax não se limitam a mentir sobre os efeitos deletérios de todas as vacinas, mas são ativamente contrários à pesquisa sobre vacinas e a toda a ciência que sustenta esta pesquisa. A variedade de teorias da conspiração antivacina, anticiência, e que também perseguem cientistas, é tamanha que requer um tratado até para descrevê-las. Muitas, porém, usam elementos que afirmam que os cientistas estão trabalhando para satisfazer a interesses escusos de grupos econômicos ou políticos.

As redes sociais produziram uma avalanche de mentiras e de pseudocientistas que se transformam nos arautos da anticiência em temas específicos. A sequência de aparição dos pseudocientistas é sempre similar, a apresentação de um currículo, real ou imaginário, apresentando credenciais, seguido por um longo discurso que tenta convencer que as vacinas matam ou que são só as grandes empresas que atacam a homeopatia.

A retórica anticientífica pode, também, ser alimentada por empresas, como demonstrado na negação, durante décadas, dos efeitos deletérios do consumo de tabaco pela indústria do cigarro ou por empresas de energia que minimizam as alterações climáticas.

A oposição aos movimentos anticiência requer, necessariamente, justificativas da defesa da ciência, e, por consequência, dos cientistas. Reconhecer que nem toda ciência trouxe benefícios para a humanidade, ou que vacinas podem ter efeitos colaterais perigosos, faz parte da defesa da ciência que existe e a que necessariamente deve conduzir a humanidade a novos conhecimentos.

A decisão política de realizar o Projeto Manhattan, que associou cientistas brilhantes para desenvolver a primeira bomba atômica, é bem conhecida. Os efeitos trágicos dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki têm origem na física, que descobriu a transformação de matéria em energia. Ao mesmo tempo, o uso pacífico da energia nuclear é evidente e os reflexos da ciência que hoje conhecemos sobre radioatividade têm papel crucial na medicina. Novas descobertas sobre reatores nucleares de fissão seguros, ou reatores de fusão, podem mudar a forma em que recebemos energia e colaborar para a diminuição do aumento da temperatura no planeta. Assim, reconhecendo as tragédias de Hiroshima e Nagasaki, bem como a ameaça constante de países que dominam a tecnologia capaz de produzir bombas atômicas, as descobertas da física determinaram muitos dos avanços recentes da humanidade que nos permitiram elevar a expectativa de vida, a qualidade de vida e a nossa capacidade de comunicação nestes últimos cem anos. Descobertas futuras da ciência podem, assim espero, evitar a desaparição da espécie humana nos próximos séculos por causa dos fenômenos extremos, que já estamos observando, causados pelas mudanças climáticas.

Já as vacinas, que tomo como outro exemplo, têm sim efeitos colaterais que podem ser graves, mas são raros e sua ocorrência é tão baixa que os benefícios excedem em muitas ordens de magnitude os possíveis efeitos deletérios. Tomo como exemplo a vacina MMR, que protege as crianças contra sarampo, caxumba e rubéola. Esta vacina pode, sim, causar alergias perigosas numa taxa de uma em um milhão de doses aplicadas. Por outro lado, a taxa de mortalidade de crianças por sarampo das crianças não vacinadas é de três por mil doentes. Embora a mortalidade por caxumba seja extremamente baixa, as complicações decorrentes da doença têm uma mortalidade que varia de quatro a dez por cento. A mortalidade por rubéola varia com local e condição econômica e sanitária do doente, mas pode representar entre 1 e 0,1 por cento, sem considerar as complicações decorrentes da infecção pelo vírus. Também está amplamente provado que, apesar das teorias da conspiração dizendo o contrário, a vacina MMR não tem relação alguma com a aparição do transtorno autista. Olhando para as probabilidades de aparição de efeitos secundários e comparando aos perigos de mortes por doença, é evidente que a vacinação por MMR é absolutamente necessária.

Sem ter que temer por agora desafios vindos do espaço sideral, a anticiência na Terra deve ser enfrentada. Somente a ciência existente e aquela que a humanidade ainda deve criar podem continuar a nos tornar mais cientes do nosso mundo e evitar a desaparição de nossa espécie por novas pandemias ou por fenômenos extremos causados pelas mudanças climáticas.

Emojis não servem para gritar

As palavras somem. Aos poucos, já que são milhares. Somem e, sem que percebamos, esquecemo-las. E sem serem ditas, também seus significados e sentidos desaparecem. A cada palavra escondida, ideias e conceitos deixam de habitar nossas percepções. Com o tempo, as palavras, ao serem retiradas, proibidas, camufladas, censuradas, diminuem a complexidade de nossa relação crítica com o real. Acostumamo-nos a viver sem elas, sem seus valores, suas informações, seus ruídos e incômodos. Em cada “menos uma palavra”, o sentimento de civilidade é estreitado, até não sabermos mais nomear o que nos impede de pensar, falar e agir, pois não acessamos mais seus códigos.


Essa é a dimensão perigosa das 200 palavras censuradas pelo governo americano em suas páginas, seus informativos e nas pesquisas divulgadas por acadêmicos e cientistas, inclusive nas investigações médicas. O projeto de silenciamento da extrema-direita não busca apenas impedir a difusão de ideias, quer eliminar quaisquer princípios que atinjam diretamente sua esfera de atuação. Para isso, é preciso circunscrever primeiro o pensamento pelo proibitivo, o resto, calculam, será mera consequência.

Ainda esta semana, assisti a série britânica Adolescência. Além da importante exposição de como grupos extremistas de homens brancos têm se infiltrado na mente de adolescentes, com suas propostas violentas sobre o tratamento a ser dado às mulheres, um aspecto passou ao lado nas boas e necessárias reflexões que se espalham em jornais e sites: os emojis e suas funções nada decorativas.

Quando surgiram no Japão, em 1999, havia um interesse em tornar lúdico certas simplificações banais ou sentimentos comuns. Dez anos depois, então padronizados pelo Unicode Consortium, ganharam capacidade de uso global. Depende do interesse e da aceitação das maiores big techs do planeta, o desenvolvimento de novos emojis, e das tecnologias disponíveis para representações mais elaboradas. As primeiras variações de tons de pele, por exemplo, só foram possíveis (e aceitas) em 2015, com a nova tecnologia cromática; os primeiros casais interraciais e as diversidades de gêneros em profissões, em 2016; as primeiras figuras com deficiências, apenas em 2019.

Uma vez que emojis substituírem expressões, sensações e sentimentos, o óbvio é que se firmem como linguagem da nova formação do indivíduo, agora condicionada ao convívio e ao uso dos meios tecnológicos. Pelas redes sociais e trocas de mensagens nos celulares, cada vez mais extensivos dos corpos, adquiriam um vocabulário cifrado e geracional.

As palavras, já limitadas com abreviações aleatórias ou excessivamente minimalistas, reduzem-se na mesma velocidade em que são trocadas por emojis e por frases sugestionadas pelos próprios aparelhos, quando anteveem o pensamento, a partir do mais previsível e repetitivo no repertório de cada pessoa.

A série Adolescência narra o uso desse vocabulário imagético para doutrinações radicais por extremistas. É impossível aos jovens (e não só) escapar desse convívio, pois o universo passou a reduzir a informação sobre quase tudo pelos significados escondidos em cada emoji. Portanto, estamos, de forma inédita, profundamente separados e incapazes de compreender sobre e como conversam quem os utiliza. Sem o acesso, no desconhecimento, não há o que proteger e desconstruir. Estamos limitados ao encontro com as consequências, sem nos darmos conta dos processos e encaminhamento das relações.

Em 2017, o desafio da baleia azul chegava às crianças e adolescentes por meio de um emoji. Nos 50 desafios, entre privação do sono, mutilações e colocar-se em situação de risco, deixar de comer, assistir filmes de terror, deixar de falar, afastar-se da família, enquanto era acompanhada por um “curador”, a pessoa era estimulada, por último, a cometer suicídio. Criado na Rússia, o argumento de seus desenvolvedores era de limpar a sociedade dos mais fracos.

O isolamento linguístico, seja pelo surgimento de um vocabulário cifrado, seja pelo apagamento de palavras, é um movimento ao suicídio social. Seu objetivo é destruir o pilar de sua sustentação, a democracia — por maiores que sejam seus problemas —, tornar o indivíduo manipulável ao pior: subserviente e descartável, em nome de um bem deformado do que deve ser a sociedade perfeita.

Qual a saída? O primeiro aspecto é reconhecer que vivenciamos uma nova forma de crise, desta vez, com a linguagem sob ataque. A fabricação de crises, desde sempre, é interessada por controlar a sociedade e as pessoas, precarizando aspectos específicos. Ora econômicos, políticos, sociais, ora, como agora, culturais, também pela precarização e inacessibilidade da linguagem. Perceber surgir sem aviso, instalar-se ao imaginário, governar por emoções como medo e ansiedade e, então, apatia. Reagir a isso requer subverter as paixões tristes, como nomeia Dario Gentili, em desejo revolucionário, coletivo, entusiástico. Algo que precisa ocorrer em duas esferas: a íntima e a pública.

Portanto, devemos conversar mais. Sentarmo-nos juntos para falar, ouvir, rir e chorar. Juntar os amigos e esquecer os aparelhos. Debater as ideias, deixar-se invadir pelo desejo do debate, assimilar e oferecer conceitos entre pessoas diversas. Apaixonar-se pelo exercício do pensamento e da memória crítica. Divertir-se ao perceber sempre ser possível ir mais e mais profundo. E desenvolver uma real curiosidade por tudo, sobre acontecimentos, pessoas, sobre os sentidos das coisas e como usamos as palavras. Para, depois, irmos ao mundo.

E nele, nas ruas, ainda que nos tomem as palavras e dizê-las seja perigoso, usar da voz, do grito como possibilidade criativa, libertadora, para além da linguagem controlada e dominada. O grito como resistência às opressões. Sem lhe darmos formas gastas, sem querer traduções, apenas movimento e afirmação de presença.

Por fim, inventemos palavras para sermos incontroláveis. Enquanto as censuras ocorrerem ao conhecido e os vocabulários forem manipulados por extremistas, que se crie outros e outros, e quantos forem necessários. Somente assim, com palavras novas entre os dentes, os gritos poderão reagir ao que agora parece impossível de interromper. Como fizera Antônio Bispo. Gritar como forma de confluir palavras com o futuro.

A presidência de Tom e Daisy

O segundo governo Trump parece ter aprendido algumas lições com o primeiro. Por exemplo, mesmo quando os tribunais eventualmente derrubam as políticas do governo, há táticas que podem manter essas políticas em vigor por tempo suficiente para causar bastante dano.

Os tribunais só podem fazer muito quando o objetivo de impor uma política não é vencer, mas sim quebrar as coisas e, como F. ​​Scott Fitzgerald escreveu em "O Grande Gatsby", "deixar que outras pessoas limpem a bagunça que fizeram".

Para todas as intervenções judiciais que vimos nas primeiras oito semanas da nova administração Trump, assustadoramente pouco mudou no local. Grande parte do dinheiro federal congelado ilegalmente ainda está congelado; muitos dos funcionários federais demitidos ilegalmente ainda estão sem trabalho. Mahmoud Khalil, o graduado da Columbia e portador do green card preso em 8 de março em Nova York por motivos legais excepcionalmente tênues, continua em um centro de detenção de imigração na Louisiana.

O problema central não é que os tribunais tenham mantido ações legalmente duvidosas, ou mesmo que a Casa Branca esteja desafiando abertamente decisões adversas. Em vez disso, parece que o caos e a interrupção são eles próprios a chave para o objetivo do presidente Trump.


A invocação do Alien Enemies Act pelo Sr. Trump em 15 de março, em uma tentativa de acelerar seu esforço de deportação em massa, é um bom exemplo desse fenômeno. O estatuto de 227 anos, que tinha a intenção de dar ao governo ampla autoridade sobre uma classe restrita de estrangeiros presentes nessas praias durante a guerra, não pode ser plausivelmente aplicado a cidadãos de países com os quais estamos em paz. Embora o estatuto se aplique não apenas em tempos de guerra declarada, mas também durante períodos de "invasão ou incursão predatória", essa invasão ou incursão deve ser "por qualquer nação ou governo estrangeiro".

Pode haver algum fascínio em se referir a travessias de fronteira não autorizadas como "invasões", mas a Casa Branca teria dificuldade em identificar qual "nação ou governo estrangeiro" está formalmente por trás delas. Rotular a gangue venezuelana Tren de Aragua como uma organização terrorista estrangeira — ou mesmo, como a ordem executiva a chama, um "estado criminoso híbrido" — não significa que ela esteja envolvida em uma invasão dos Estados Unidos da maneira como o Congresso de 1798 usou, ou pretendia que futuros políticos usassem, o termo.

Em todo caso, ao invocar o ato de 1798, o Sr. Trump usou uma parte da legislação que prevê expressamente a supervisão judicial. Isso significa que os tribunais imediatamente tiveram um papel significativo a desempenhar ao apontar as deficiências lógicas de rotular gangues invasoras de exércitos. Eles terão um papel a desempenhar também na questão ainda mais complicada de como o governo prova que detentos individuais são membros do Tren de Aragua.

Invocar o Alien Enemies Act tem muito em comum com uma série de outros empreendimentos divisivos do Sr. Trump — como seu esforço para restringir a cidadania por direito de nascença por ordem executiva; seu uso do Migrant Operations Center na Baía de Guantánamo, Cuba, como uma estação de passagem de curto prazo para deter um pequeno número de estrangeiros aguardando sua deportação (muitos dos quais foram rapidamente, embora a um custo alto, devolvidos aos Estados Unidos); e, mais recentemente, o caso do Sr. Khalil. Em todos esses contextos, as chances são maiores do que não de que, quando o litígio desafiando as ações do governo Trump tiver seguido seu curso, os juízes decidirão contra as ações do governo.

Essas prováveis ​​vitórias, se é que podemos chamá-las assim, podem se mostrar vazias. Mesmo que os tribunais decidam repetidamente contra o Sr. Trump, anular prisões de imigrantes ilegais e liberar indivíduos de detenções de imigrantes ilegais não desfaz o dano que eles sofreram ao serem presos e detidos em primeiro lugar. O que resta é o medo mais amplo que isso instila nas comunidades de imigrantes de que eles podem ser os próximos, e o comportamento que é resfriado ou restringido como resultado. Da mesma forma, ordenar que o governo volte a abrir as torneiras de gastos que ele congelou ilegalmente não pode desfazer o dano sofrido pelos beneficiários privados de financiamento de missão crítica nesse ínterim. Bloquear uma ordem executiva destinada a intimidar escritórios de advocacia para não representar ex-funcionários do governo não desfaz a mensagem sobre outras maneiras pelas quais o governo pode tentar retaliar aqueles que não seguem a linha do partido. E tudo isso pressupõe que a Casa Branca realmente cumpra as decisões dos tribunais, um ponto no qual talvez não possamos confiar.

Normalmente, vítimas de conduta ilícita podem processar por danos, um direito fornecido não apenas para interromper o comportamento ilícito enquanto ele está acontecendo, mas também para reparar os ferimentos que sofreram durante e por causa dessa conduta. Tais processos estão disponíveis não apenas para compensar as vítimas por suas perdas, mas também para punir os maus atores se sua conduta foi suficientemente maliciosa. A ideia central é que os danos não são apenas compensatórios; eles devem fornecer um impedimento significativo contra conduta conscientemente ilícita em primeiro lugar.

Para o bem ou para o mal, não há nenhuma entidade nos Estados Unidos contra a qual seja mais difícil obter indenização do que o governo federal. Sob a doutrina da imunidade soberana, o próprio governo pode ser processado por indenização somente quando o Congresso o autoriza. Essas autorizações têm sido, historicamente, poucas e distantes entre si; a última expansão significativa ocorreu em 1976. Para explicar a dificuldade de tentar processar o governo diretamente, a Suprema Corte reconheceu em 1971 circunstâncias nas quais vítimas de violações flagrantes de direitos constitucionais podem buscar indenização dos oficiais federais individuais que são responsáveis, mas o tribunal nos últimos oito anos praticamente anulou essa decisão.

Assim, se os tribunais finalmente descobrirem que o comportamento do governo nas últimas oito semanas foi ilegal ou mesmo inconstitucional, isso pode ser uma forma de alívio amplamente vazia, tanto para as partes prejudicadas quanto para os cidadãos. Nada, é claro, pode compensar a turbulência emocional e a convulsão para as quais a administração enviou intencionalmente muitas organizações e indivíduos para contar. Também não há nada que desencoraje a administração de tentar medidas ilegais semelhantes novamente.

A lição óbvia de longo prazo é para o Congresso — que, entre muitas outras coisas, deve tornar muito mais fácil para vítimas de comportamento federal ilícito obter reparação judicial. Mas a lição de curto prazo é para nós, o povo.

Os tribunais federais, até este ponto, fizeram um trabalho notável de impor limites legais e constitucionais ao poder executivo. E há todos os motivos para esperar que eles continuem a fazê-lo. Nesse aspecto, os tribunais podem muito bem acabar salvando o estado de direito. Mas para serem totalmente eficazes, muitos dos nossos direitos legais dependem não apenas de recursos judiciais, mas também políticos. Isso envolve tanto uma nova legislação quanto uma supervisão muito mais agressiva de membros do Congresso bem-vindos à mudança do ambiente político partidário e à reafirmação de freios e contrapesos contra os outros poderes do governo. Tudo isso tornará muito mais difícil para os presidentes quebrarem as coisas no futuro.