domingo, 20 de março de 2016

A ideologia do coronel arcaico é o ódio ao que não é Lula

Confirma-se outra vez o diagnóstico de Augusto Nunes sobre a saúde moral do país na trevosa noite lulopetista, segundo o qual o bandido quer prender o xerife: Dilma Rousseff, desde a divulgação das repulsivas conversas da súcia, repete para a louca que a mira no fundo do espelho que “em muitos lugares do mundo, quem grampear um presidente vai preso”, acrescentando uma crítica cínica sobre a justiça dos coronéis do começo do século passado, num disfarce ineficaz da própria sujeição a um coronel arcaico.

Sempre cedendo à natureza dela e dos comparsas que os impele a mentir em qualquer situação, a criatura infeliz insiste em desconsiderar que o objeto do grampo legal era o outro bandido. Se a presidente telefona para bandidos, e a presidente não só telefona para bandidos como os nomeia ministros (diretores de estatais, assessores, etc.), ela cai no grampo.


Também desconsidera que em “muitos lugares do mundo”, excetuados os pré-civilizados onde vicejam aliados do petismo, uma mulherzinha tão medíocre nunca se elegeria. A estratégia infame em atacar Moro brilhou na cerimônia de posse do ministro bandido, em que Dilma, aos berros, dividindo a mentira entre olhos, dentes e gestos, dizia que o termo de posse que citou na conversa grampeada não era o termo de posse que citou na conversa grampeada.

Já tivemos demais disso, senhora, deixe-nos em paz e vá buscar alguma paz para si. A favor do bandido e contra o xerife, há ainda os intelectuais metidos a artistas e os artistas metidos a intelectuais habituais, a militância remunerada pela nação toda e um grupo inverossímil de juristas dizendo que Moro ofende o estado de direito democrático.

Nas gravações, a linguagem de sarjeta de Lula aponta a obsessão da família jeca por determinada parte da anatomia alheia, em que manda enfiar desde processos a panelas. É chulo sim, mas mesmo o chulismo pode ter pertinência; essa linguagem é sobretudo de ódio. O tal ódio de que os defensores de bandidos acusam qualquer crítica, depois de silenciarem enquanto Lula fazia dele o lubrificante das relações entre rivais políticos na clivagem inédita e odiosa do país entre “nós” e “eles”.

Pois bem, o ódio, o machismo e todas as dimensões do politicamente incorreto inundam as falas dos Lula da Silva sob o silêncio de associações, movimentos, coletivos ou qualquer outro ente da fauna-defensora-das-minorias-oprimidas para a qual estas se definem pelo crivo ideológico. Ora, a ideologia de Lula é o ódio ao que não é lula ou a quem a lula não se submete.

A campanha e os gritos contra Sérgio Moro continuarão. O juiz que mostra à nação exausta a trilha para buscar a manhã que dissipará a sinistra noite que vivemos há 14 anos talvez seja a figura pública mais admirada e mesmo querida atualmente, enquanto a criatura e o criador toscos jazem na ponta oposta, mas não é só por isso que logo saberão que toda essa infâmia é inútil, e sim porque a verdade, contrariamente aos subalternos da república pixuleca, não teme os berros de uma cínica e o ódio de um coronel arcaico.

Alô deputados e senadores! Quem quer ser cúmplice?

Pois é, Excelências. Passei estes últimos dias nas ruas, nas mobilizações populares, nos carros de som, nas redes sociais, e acompanhando o noticiário. Andei de taxi. Falei com vendedores de água, pipoca, sorvete. Falei com taxistas e garçons. Cheguei a uma conclusão: a coisa está feia para o lado dos senhores. Junto com a responsabilidade inerente às funções que exercem, caiu-lhes no colo a decisão sobre o processo de impeachment. E as perguntas são inevitáveis: V. Exª será cúmplice da organização criminosa que saqueou o país? Concederá aval para que continue atuando? Parece-lhe pouco tudo que já é de seu conhecimento? Se sim, quanto mais seria necessário subtrair à nação para chegar a um valor que o impressione? Quantas lixeiras mais será preciso destapar?

É possível que o tenham sensibilizado alguns argumentos da corte pirata e seus cortejadores. Mencionarei os mais insistentemente repetidos: 1) impeachment é golpe; 2) a oposição perdeu a eleição e quer derrubar o governo; 3) a oposição ataca o PT porque não gosta de pobres. Examinemos, um a um, esses supostos argumentos.

1. Impeachment é procedimento previsto na Constituição, segue rito jurídico e político que, no presente caso, acaba de ser regulamentado pelo Supremo Tribunal Federal. Como pode ser "golpe" um processo e um julgamento que percorre a trilha definida na Constituição e que, em seus atos de natureza judicial penal, junto ao Senado, será dirigido pelo presidente do Supremo?

2. A oposição não quer "derrubar o governo porque perdeu a eleição". A oposição, Excelências, perdeu três eleições consecutivas para o mesmo partido! Em nenhuma delas protestou. Em nenhuma agiu para "derrubar" o governo eleito. Só agora, no quarto pleito, motivada pela inquestionável, confessa, testemunhada e documentada natureza criminosa dos atos praticados dentro do governo, a oposição parlamentar, ouvindo inigualáveis mobilizações populares, dá suporte político institucional ao processo de impeachment. Não fossem os achados criminais da operação Lava Jato, não haveria povo nas ruas, nem processo de impeachment.

3. Espalhar a ideia de que a oposição quer o mal dos pobres e, por isso, deseja tirar o PT do governo é um outro aspecto do grave problema moral que afeta o partido dirigente: desonestidade intelectual. Afirmar que os adversários do governo "não gostam de pobres e não querem que os pobres melhorem de vida", é uma sofisma barato, uma falsidade esférica, torpe desde qualquer ponto de vista. Como poderia convir à imensa maioria da nação a pobreza dos pobres? Quem quer viver numa sociedade profundamente desigual, como essa que temos após 15 anos de petismo reinante? O governo petista, este sim, enriqueceu seus integrantes (quem é pobre sob seu guarda-chuva?) e enriqueceu ainda mais os setores endinheirados do planeta, pagando-lhes os juros mais sedutores do mundo. A Brasília petista tem muito de Wall Street e muito de Chicago na década de 30.

É forçoso reconhecer, então, que o PT se atribui uma falsa preferência pelos mais pobres para esconder os resultados da própria ganância e os privilégios que concede a grandes e desonestos empresários. Tal conduta faz lembrar a dos traficantes de drogas que escondem sua riqueza na pobreza dos morros onde distribuem migalhas aos mais necessitados.

Acostumem-se à idéia, excelências. Quem segurar a alça desse caixão será, perante a opinião pública, cúmplice de uma organização criminosa. Será pegar ou largar.

Não haverá milagre

O momento enfrentado pelo governo ficou traduzido com propriedade por Lula numa das tantas conversas telefônicas reveladas pela operação Lava Jato. Desabafou: “E fica todo mundo num compasso que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar”.

Lula, entre muros partidários, se queixa da paralisia e das trapalhadas da presidente Dilma, atordoada, revelando limitações pessoais que não estavam entre as mais sombrias previsões. Sem rumo, sem metas que não sejam a de propor mais impostos sobre um contribuinte revoltado.

A “criatura” que Lula colocou no Planalto escapou do controle. Falta-lhe traquejo político, isolou-se, intoxicou-se pela bajulação dos incompetentes e medíocres dos quais se cercou. Dilma, depois de reeleita, em 2014, largou as rédeas.

O Lula que “acertava quase tudo”, o ícone, passou a ser uma figura investigada pela polícia judiciária que apura o maior caso de corrupção da história. Seria fácil se sair de vítima não fosse a polícia que o devassou, dependente do ex-ministro da Justiça Eduardo Cardozo, do PT de São Paulo. Isso aniquila a reação. Cardozo não é de outro partido, não é do PSDB.


Os jornais europeus que o cantavam em verso e prosa passaram a pintá-lo de marrão. Uma charge do “Charlie Hebdo” o retrata estuprando a imagem feminina da Justiça. O Brasil subiu rapidamente no cume do ranking da corrupção, e Lula, inevitavelmente, aparece como quem a possibilitou.

Logo ele, que, com uma criatura seguindo suas orientações e ensinamentos, lhe possibilitaria descanso num sítio rodeado de florestas? Nada de especial ele queria, apenas uma aposentaria tranquila no fim de uma escalada ao vértice do sucesso.

Porém, Lula pecou. Quis realizar o sonho de uma normal aposentadoria usando, no escuro, empreiteiras para tarefas triviais e mais que razoáveis, para quem tem renda de palestras regiamente pagas. Escolheu um caminho torto que entortou sua biografia espetacular.

Máximo é o constrangimento de quem é conduzido por uma polícia judiciária que responde constitucionalmente ao comando de sua “criatura”. Dilma não conspirou como um Brutus, apenas perdeu o controle político, perdeu a autoridade, perdeu o rumo, e se depara, como Dante, “No meio da senda da minha vida / me perdi numa selva obscura”, que dava acesso ao Inferno.

Para Lula, que entregou a Dilma quatro anos de poder sem limite, e ainda dobrou a dose, deve ser difícil perdoá-la e até de perdoar-se pela escolha. Não há conspiração da oposição, que nunca foi tão ausente e retraída. O problema está dentro de casa, na corrupção fora de controle e na incompetência geral. Sérgio Moro apenas cumpre, como raramente acontece no Brasil, seu dever.

Demonstra a voz de Dilma, em ligação ao seu criador, que quer pessoalmente reparar um erro. Poderia ter escalado um assessor para comunicar o envio de um documento. Fez questão, imprudentemente, de ligar para um telefone sob escuta autorizada: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”, nisso Lula responde: “Uhum. Tá bom, tá bom”. E ela: “Só isso, você espera aí, que ele tá indo aí... “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando”.

Nisso, mais que interpretação, há apenas uma constatação a se fazer.

O tom de voz é de quem quer reparar a quebra de uma louça que lhe caiu das mãos. Doutro lado a resposta é seca, de quem teria preferido manter a louça intacta e aceitar uma forma de evitar uma maior fragmentação de sua biografia.

O ex-ministro da Justiça Eduardo Cardozo, que passará à história como o guardião da independência da Polícia Federal (se é que não lhe escapou de controle), deixou que o deus “Brahma” (como o chamavam os empreiteiros ao se referirem a Lula) passasse por uma busca em seu apartamento e por uma condução coercitiva na delegacia, quando poderia ser realizada por hora marcada.

Dilma derrete. Poucas figuras humanas foram mais achincalhadas nas ruas do que ela. Muitos que nunca pensaram no impeachment, e o imaginavam um instrumento descabido, passaram a vê-lo como “legítima defesa” para um Brasil que ameaça explodir.

Isso se deu agora. Não só pelas revelações dos grampos, mas pelo PIB, que caiu 4,4%, produzindo uma média de 220 mil desempregados por mês. Um volume que já seria doloroso de se absorver em um ano.

A queda de arrecadação federal é de 11,5%. Arrebenta os Orçamentos de Estados e municípios. Setores produtivos como a siderurgia, o automotivo e o de bens de consumo duráveis estão se desfazendo. A Bolsa paradoxalmente se valoriza proporcionalmente ao crescimento das possibilidades de impeachment.

Dilma, assim, é vista nitidamente como o cerne do problema, e seu mandato, previsto para durar até 31 de dezembro de 2018, passou a pairar como pesadelo. Mais que uma razão ideológica e política, ou uma conspiração de uma oposição, que é ausente como nunca, são os erros do governo dela, da falta de um dever de casa não feito, que alimentam a crise.

A hora do arrependimento para Lula

Supondo-se que até o final da semana venha a ser resolvida essa ridícula questão da posse do ex-presidente Lula na chefia da Casa Civil da presidente Dilma, passa-se ao principal: para que o antecessor foi convocado? Para inaugurar um novo governo, entrando no palácio do Planalto com plano de ação e até uma listinha de novos ministros? Não como capitão de time, mas marechal do exército atualmente em retirada? Ou subordinado fiel e obediente cumpridor das ordens da comandante? Quanto baterem de frente, pois nessas situações são mais do que naturais as divergências, para que lado marchará a tropa?

Há quem conclua por antecipação que Madame incorreu em grave erro ao convocar o antecessor para o seu time. Serão dois anos e oito meses de tensões permanentes, situação demonstrativa da conclusão de que o PT ia perdendo a guerra. As manifestações de domingo passado não deixam dúvidas sobre terem sido bem superiores às da recente sexta-feira.

Acontecerá o que, caso batam de frente Dilma e Lula? Não se duvida da hipótese de que alguns ministros venham a insurgir-se contra orientações do novo chefe da Casa Civil? A quem Madame dará preferência?

Lula enfrentará outro tipo de problemas. A família abrirá mão de confortável residência em São Paulo, mesmo sem características de triplex, ou de um sítio próximo e ameno, para vir morar no cerrado? Mesmo com mansões a seu dispor, hesitará em trazer para Brasília toda a tralha levada para a Paulicéia. Ficar na ponte aérea equivalerá a um retrocesso, mas morar separado da mulher e dos filhos, pior ainda.

Como será cuidado o Instituto Lula? Paulo Okamotto ficará lá ou aqui? Admite-se um chefe da Casa Civil afastado da sede do governo? E durante as sucessivas viagens pelo país, quem ocupará as instalações presidenciais? Claro que Dilma, mas o constrangimento estará presente todos os dias.

Sempre que o Lula receber convites para palestras no exterior, em que condição será recebido pelas autoridades lá de fora? Ex-presidente da República ou chefe da Casa Civil? Em que conta bancária será depositado seu cachê?

Para cada lado que o ex-presidente se volte encontrará problemas. Será que nos momentos de reflexão não lhe passará pela cabeça concluir haver praticado uma imensa besteira?

Cinco perguntas e respostas sobre a crise

Por que Lula virou ministro de Dilma?

Para escapar de ser preso pelo juiz Sérgio Moro, a quem caberia conceder ou não o pedido de prisão de Lula feito pelo Ministério Público de São Paulo. Ali, Lula é investigado por ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro. Dilma e o PT construíram a narrativa de que Lula voltou ao governo para ajudá-lo a salvar o país da crise, e a derrotar o impeachment. A narrativa é falsa. A volta de Lula acabou servindo para pôr a Lava-Jato dentro do Palácio do Planalto, e acirrar os ânimos no país. Para o governo, está sendo péssimo.

Dilma tem chances de derrotar o impeachment?

Tem, embora elas diminuam a cada dia. Para aprovar o impeachment na Câmara dos Deputados serão necessários 342 votos de um total de 503. Haverá votos de sobra para aprovar ou rejeitar o impeachment. Jamais será uma votação apertada. Ela refletirá, no dia em que acontecer, o humor dos brasileiros e a situação do país e do governo. A Câmara corre para votar o impeachment dentro de 45 a 60 dias. Se aprovado na Câmara, dificilmente será rejeitado pelo Senado.

Michel Temer substituirá Dilma em caso de impeachment?


É o que está previsto na Constituição. É o que deverá ocorrer. Mas não é obrigatoriamente o que ocorrerá. Temer foi citado na delação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), que lhe atribuiu a responsabilidade pela indicação de um diretor da Petrobras, preso e acusado de corrupção. Temer respondeu que não indicou ninguém para a Petrobras. Se a denúncia feita por Delcídio ficar por isso mesmo, tudo bem para Temer. Se não ficar, o processo de impeachment de Dilma se estenderá por muitos meses à procura de uma solução.

Se Dilma cair, qual será o futuro dela, de Lula e do PT?

Não haverá futuro político para Dilma. Do anonimato ela saiu, ao anonimato voltará. Lula sempre terá algum futuro político, a não ser que acabe preso e condenado, uma vez provadas as denúncias que o atingem. Mesmo que não seja, porém, será remota a candidatura dele a presidente em 2018. A imagem de Lula sofreu um duro golpe com as investigações da Lava-Jato, e com o a revelação do conteúdo de conversas dele ao telefone. Imagine o uso que se fará desses grampos nas eleições deste ano e nas próximas. Quanto ao PT: ou aproveita a crise moral que o abateu para se reinventar ou afundará, simplesmente.

E o futuro da política brasileira?


Pouco mudou na Itália com a Operação Mãos-Limpas. É cedo para saber se a política entre nós mudará pouco ou muito com a Lava-Jato. O provável é que mude um pouco. Por exemplo: aumentará o cuidado dos políticos com o telefone. E eles terão ainda mais cuidado ao roubar. Os brasileiros elegerão o próximo presidente sob o signo do nojo à política e aos políticos. Isso não será bom. E poderá dar ensejo à eleição de um aventureiro que se apresente como a-político, disposto a “mudar tudo o que está aí”. Em 1989, Fernando Collor se elegeu assim.
Povo, perguntas (Foto: Arquivo Google)

Você viu o golpe pelaí?

Em todos os antros petitas, se patrocina o grito: "Não vai ter golpe!"

Até agora não explicaram de onde estaria vindo o golpe, quando o povo não mais amestrado sai às ruas sem políticos na algibeira para protestar.

Com a mente troglodita de quem pensa o mundo de 1960, repetem em alguns casos até o retardo mental de Nicolás Maduro e seu guru passarinho Hugo Chávez: a Cia estaria atrás das manifestações populares do último domingo. Para conter essa tal revolução da direita, vestiram camisas vermelhas, muito mais do que surradas, num povo carente para ir às ruas defender o quê?

Defendem o que sempre defenderam insuflados pela patifaria de coronéis de brejo. O PT repete à exaustão as palavras mágicas com que conquistou o poder e de onde não quer sair para não perder a única fonte de renda dos desocupados e rastaqueras.

Os profetas do apocalipse anunciam a volta dos militares e da direita imperialista (em algum lugar no passado já se ouviu o mesmo grito). Será que intelectuais são retardados a tal ponto que repetem a vinda do caos para defender quem não se explica nem à Justiça nem à população? 


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Visitar os lulopetistas é confirmar que não há golpe. Esse, se vier, será perpetrado pelos próprios profetas, de dentes arreganhados e babando ódio contra as zelites, quando são hoje a elite dos emergentes. Comandarão a massa de um exército Brancaleone dos mais carentes e mais ignorantes politicamente para que sirva a seus interesses escusos. O PT e a cambada mentem desavergonhadamente, fecham os olhos para a contradição dos seus líderes de quartelada.

Não há golpe à vista nem a prazo. A palavra tão surrada é apenas o escudo para livrar uns das grades, outros de ter procurar emprego e outros do ostracismo; e afundar um país em nome de uma ideologia criminosa. Dizer que investigações e prisões de corruptos são golpe é dar rasteira na Justiça, como aconteceu com a posse de Lula, o poderoso chefão. O que mais atemoriza a eles são as instituições, que sem serem lá aquela Brastemp, mas funcionam em sua precariedade de país espoliado por corruptos.

Quando pela primeira vez as ruas são tomadas para se defender um juiz de primeira instância (!!!) e milhões gritam seu nome não em vão, os militantes se avermelham como o diabo porque não mais o deus Lula é louvado. Heresia "da direita" que escorre da baba dessa canalha, que saiu da lama financeira e da bosta moral para arrotar grandeza de espírito e amor ao pobre.

Não há como instalar a ditadura da corrupção num país no qual o judiciário não foi blindado. E isso incomoda a quem se acostumou a assaltar o Erário impunemente diante de poderes submissos e complacentes com a mesada e a gorjeta.

Lei de Lula

Não se pode permitir que as pessoas que praticaram corrupção sejam julgadas depois que terminarem o seu mandato, como acontece habitualmente no nosso país
Lula - 2003 

Lula x Moro: quem é hoje o mais popular?

O Brasil vive uma novela de paixões e ódios, com um fim totalmente indefinido. Mas, se há um inimigo indiscutível, um vilão que une o país e justifica a revolta nas ruas, é a corrupção. A corrupção é mais danosa quando vem dos “representantes do povo” com foro privilegiado para crimes comuns (uma chaga que precisa acabar!). A corrupção dos poderosos ofende e insulta quem sua para ganhar a vida e pagar contas e impostos – sem retorno para a comunidade. Mesmo quem ainda defende Dilma e Lula é incapaz de apoiar a corrupção.

Quem rouba para encher seu bolso e o bolso de filhos e parentes, ou então para ganhar eleições, deveria ter uma punição exemplar. Quem desvia centenas de milhões de dólares de dinheiro público e de nossas estatais, num país em que tudo falta – educação, saúde, segurança, saneamento, habitação, transporte, infraestrutura, dignidade –, está assaltando a infância, a juventude, a velhice, os ideais e o futuro do Brasil. Para criminosos dessa estirpe, o que a Justiça dos homens deveria reservar seria a cassação de direitos políticos e cadeia. Simples assim. Deveria ser simples assim.


Se nunca foi assim, nada impede que passe a ser. Houve dois momentos em que se acreditou que a Ética passaria a dominar o jogo político. Um foi na primeira posse de Lula como presidente da República, quando o PT prometia moralizar a política. O outro momento de esperança ocorreu quando o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, negro, ex-faxineiro, culto, primogênito de oito filhos de um pedreiro e uma dona de casa, se tornou símbolo do combate à corrupção e à impunidade, com a guerra ao mensalão e ao caixa dois para financiar políticos.

Sem entrar no mérito da divulgação recente dos grampos de Lula, porque há argumentos válidos contra e a favor, o conteúdo das escutas telefônicas do ex-presidente desmascara o Lulinha paz e amor. A figura que emerge é preconceituosa, autoritária, ignorante e incendiária. Lula conversa com o irmão: “Domingo (13 de março, dia da manifestação pelo impeachment de Dilma) eu vou ficar um pouco escondido, porque vai ter um monte de peão na porta de casa pra bater nos coxinhas. Se os coxinhas aparecerem, vão levar tanta porrada que eles nem sabem o que vai acontecer”. Seus militantes não são peões, Lula. E tudo o que o senhor não deveria desejar seria confronto nas ruas.

“Onde estão as mulher de grelo duro (do PT)?” “A Clara Ant (diretora do Instituto Lula) tava dormindo sozinha quando entraram cinco homens lá dentro, ela pensou que era presente de Deus, era a Polícia Federal, sabe?” “Temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado.” “Um presidente da Câmara f..., um presidente do Senado f...” “Bicho, eles (Moro e os procuradores da Lava Jato) têm que ter medo. Eles têm que ter preocupação.”

Essas palavras saídas da boca do Lula real são mais prejudiciais ao governo Dilma do que o diálogo sobre o termo de posse de Lula como ministro da Casa Civil. Essas escutas destroem a maior qualidade de Lula, exaltada por Dilma em seu discurso e reconhecida por todos – a de “hábil articulador”. Lula agora vai articular com quem? Com o povo? Está difícil.

Lula e Moro são dois símbolos. Lula simboliza a ascensão dos pobres, a retirada de milhões da miséria. Um símbolo arranhado porque, com a incompetência de Dilma, voltou à miséria boa parte dos que já se achavam classe média. Moro simboliza o combate à corrupção. Está deslumbrado, o que o fragiliza. Não é apenas porque Moro existe que se combate a roubalheira. Temos Polícia Federal livre, Ministério Público livre, milhares de investigadores e procuradores e juízes de várias instâncias livres para investigar. Todos esses caras erram e acertam e, no conjunto, fazem um grande trabalho. Temos um Supremo Tribunal Federal que não se curva aos interesses de uns e de outros. Temos uma imprensa livre. Somos uma democracia.

Nem em seus maiores pesadelos, Lula imaginou que disputaria com um juiz o amor ou a admiração popular. Com uma Oposição fraca, também venal e investigada por corrupção, seduzida igualmente pelo dinheiro das empreiteiras, Lula se achava acima do bem e do mal. Faturando em cima do fantasma dos fascistas, dos militares e dos evangélicos aloprados, Lula achou que, com seu carisma e passado, jogava um jogo ganho.

Até que o país afundou. O PT se desmoralizou. E Moro apareceu. Se, para o PT, a voz do povo é a voz de Deus, seria interessante saber quem é hoje mais popular, quem simboliza as maiores aspirações do país. Lula ou Moro?

Ver sem ser visto

O mais grave proibido inscrito nas nossas consciências não nos impede de romper tabus. O que está na nossa ordem dia fala do roubar em nome do povo como uma crença religiosa

É uma das delícias da vida, embora seja repleta de significado e perigo. Mas quem, vivo e ocupante físico de um espaço, não gostaria de virar invisível e, como um espectador de cinema, ver o mundo sem que o mundo saiba que está sendo visto e, eis o barato, sem descobrir quem os observa?

Quem vê sem ser visto trama sem ser descoberto, rouba pensando que o seu rabo não ficou de fora, pensa que pode ser Deus. Não é apenas uma questão de poder se isso ou aquilo de mandar enfiar “naquele lugar” o processo. Não! É imaginar-se como o nosso Deus. Eu sei tudo, eu posso tudo e eu estou em todo lugar.

Se, na evolução humana, passamos, como se dizia em tempos antigos, do ouvido e da fala para o olhar, que se tornou o mais importante dos chamados cinco sentidos. O voyeurismo com o seu charme de mistério e perversão em francês sempre foi e hoje é, mais do que nunca, o nosso modo principal de falar do mundo.


A frase “você viu o que eu vi!” tem substituído de modo avassalador a antiga questão com a qual eu, velho professor, repetidamente questionava meus alunos: “Vocês estão me ouvindo?”. Porque naquele tempo, o “ouvir” significava mais do que escutar. Ele dizia respeito ao “compreender”, ao assimilar, ao memorizar e ou obedecer e seguir. E assim produzia o confronto permanente entre isso e aquilo. Entre a norma ouvida que estabelecia o não e a curiosidade ou a má-fé de fazer o contrário.

Noto, de passagem, pois a crônica é uma porta giratória, que não há na nossa cabeça coisas definitivamente “proibidas”. Pois tudo pode ser imaginado, até mesmo o não imaginado. O mais grave proibido inscrito nas nossas consciências não nos impede de romper tabus. O que está na nossa ordem dia fala do roubar em nome do povo como uma crença religiosa.

Para nós, humanos — seres sem o comando imperativo e inescapável dos chamados instintos (um camelo nasce e morre camelo), as normas de conduta explícitas, como os mandamentos e as leis —, incluindo aí as regras da boa educação e das belas maneiras à mesa — tudo pode ser ultrapassado, esquecido ou violado em nome de alguma outra causa ou investimentos.

Não é, pois, por acaso, por burrice ou ignorância que os apaixonados atuem com mais convicção do que os possuídos por orixás. Os que se convenceram que pegaram alguma coisa pela raiz — os “radicais” — têm uma aura especial que consiste precisamente na mais absoluta ausência de dúvida. Ora, se o humano, o demasiadamente humano, consiste em subtrair a certeza, quem vive com certeza impressiona tanto ou mais do que Hitler. O tal “encanto radical” consiste exatamente nesse narcisismo capaz de tudo compartimentalizar e de tudo juntar a favor de uma causa que seria a “raiz” ou o centro de todo bem. E quem sabe do bem, sabe ainda muito mais do mal.

Nada, pois, mais satisfatório o não ser visto, não ter feito, não ter dito tendo evidentemente visto, feito e dito. O ato de se esconder corresponde a uma terceira posição. Freud chama-a de negação. Nos filmes de Chaplin e nas noveletas que são hoje o tesouro literário do Brasil, elas consistem no personagem que vê, ouve ou faz de um lugar fora do ação, mas dentro da cena. Aquele que vê sem ser visto é personagem que, oculto pela semiaberta, descobre que é pai do seu próprio irmão, pois — como Édipo ou o Papa Gregório da Pedra —, para ficarmos com dois casos impressionantes e comoventes, é esse “escondido” que representa o segredo. E o segredo é o tabu que não pode ser punido pela lei dos juristas, pois ele não consegue distinguir o certo e o errado ou legal e o ilegal. Ultrapassando essas fronteiras do mero legislar humano, o tabu aponta o erro que os gregos explicavam como “destino” ou tragédia. Como o que deveria a todo custo ser evitado, mas que foi plena e absolutamente realizado com o concurso da inocência dos seus perpretadores. O que, sou obrigado a terminar, nos faz duvidar da inocência como um estado primordial on final da existência humana. Como ser humano sem simultaneamente se conhecer como inocente e pervertido mas se reconhecer separando pela honra e pela vergonha um lado do outro?

Nessa linha tivemos “herança maldita” e “imprensa golpista”. Agora, neste domingo nublado pela natureza mas ensolarado pela esperança de um Brasil honrado, será que quem não quer ver, vai enxergar um “povo golpista”?

Roberto DaMatta 

Mentira tem rabo


Eu sempre digo que parte da desgraça do nosso povo é dada pela quantidade de mentiras que ao longo da vida se contou para este povo
Lula - 2004

O estilo é o homem


Os presidentes não precisam ser eruditos. Mas, na República Velha, o Brasil teve um: Washington Luiz, historiador, autor de livros e ensaios. Rodrigues Alves e Afonso Pena também eram homens cultos. Já o marechal Hermes da Fonseca era famoso pela burrice, e só. Com a Monarquia ainda na memória, todos os presidentes daquela época buscavam uma postura que lembrasse a do imperador recém-derrubado, ereta e digna.

Getúlio e Dutra eram austeros; Juscelino, exuberante; e Jango, tímido. Mas não se conhece uma frase deles que não pudesse ser lida por senhoras no café da manhã. E Janio, sempre três uísques à frente da humanidade, nunca errou uma mesóclise.
Castello Branco achava-se um intelectual, fazia citações em francês. Costa e Silva era grosso, mas sóbrio. Médici tinha a profundidade de um manequim de vitrine. Geisel amarrava a cara para não ter de falar. Figueiredo, sim, deixou frases para a história (“Prefiro o cheiro de cavalo ao cheiro de povo”), mas que só chocavam pelo conteúdo. E Sarney, Collor e FHC eram bons de verbo e divergiam apenas na maneira de mentir –com sinceridade ou cinismo.

Lula, por sua vez, transferiu a Presidência para o mictório do botequim. Em 2004, ao ouvir de um assessor que a Constituição o proibia de expulsar um jornalista estrangeiro, ejaculou, “Foda-se a Constituição!”. O único a registrar a frase foi o repórter Ricardo Noblat, em seu blog. Não era algo a sair em letra de forma. Mas, hoje, como um ex-presidente em tempos mais liberais, Lula pode exercer seu estilo.

Está “de saco cheio” quanto a perguntas sobre “a porra” do seu tríplex que não é dele. A história do pedalinho é uma “sacanagem homérica”. “Ninguém nasce com ‘Eu sou um filho-da-puta’ carimbado na testa”. E eles que “enfiem no cu tudo o processo”. O estilo é o homem. Perdão, leitores.

Ruy Castro

Malulaíma, o herói sem nenhum caráter

No fundo do mato-virgem, nasceu Malulaíma, herói da nossa gente. Sua mãe dizia: “Meu filho, cresce depressa e vai pra São Paulo ganhar muito dinheiro”. Malulaíma vivia deitado, mas, se punha os olhos em dinheiro, dandava pra ganhar vintém. Se o incitavam a falar, exclamava: “Ai! Que preguiça!”. Um pajé avisou que o herói era inteligente. Malulaíma cresceu, ficou amigão de dois feiticeiros, pai Duda e pai João. Queriam transformá-lo em imperador. Malulaíma tinha nascido feio. Pai Duda fez uma mágica. Deu nele um banho de loja, ficou igualzinho a um banqueiro loiro de olhos azuis. Malulaíma deixou a consciência na foz dum rio, bandeou-se para São Paulo. Ao chegar lá, pôs-se a realizar a profecia da mãe. “Eu tenho uma opinião de sapo e, quando encasqueto, aguento firme no toco”, dizia. Pai Duda se afogou num temporal de lama, mas pai João sobreviveu para dourar os sonhos de Malulaíma. O herói campeava léguas a fio, mas não queria saber de trabalhar. Ficava contrariado. Ter de trabucar, ele, herói... E murmurava desolado: “Ai! Que preguiça!”.

Descobriu em São Paulo que tudo era máquina. Resolveu ir brincar com a máquina para se tornar imperador. De onde tirar dinheiro? Ele tinha um amuleto lá do mato, uma pedra em formato de estrela vermelha, enfeitiçada por pai João: a Petequitã. Com ela, hipnotizava incautos e poderosos. Todos abriam os bolsos pro herói, em especial os engravatados que construíam prédios e pontes, os empreiteiros. Malulaíma também recebia ajuda de outros engravatados, os políticos. Ele tinha muita lábia. Chamava os políticos de “monstros na grandiosidade incomparável da audácia, da sapiência, da honestidade e da moral”. Nem percebia quando enganava. “Não foi por querer não. Quando reparei, estava mentindo.” Foi assim, com sua lábia e o feitiço de pai João, que Malulaíma virou enfim imperador.

Ele se dizia perseguido, fazia pose de pobre — e lá vinha mais dinheiro pingando no seu bolso. Seu maior truque era se fazer de vítima do gigante Efeagacê, um comedor de gente que morava num palacete lá na Rua Maranhão. Malulaíma enganou os três filhos do gigante: Aecim, Geraldim e Zezim. Uma feita, foi até flechado por Efeagacê, mas, malandro, levou a melhor. Dizia ter desprezo pela elite, tudo aquilo que as paulistanas aprenderam com as mestras de França. Aí aparecia fantasiado, pegava a máquina telefone, ligava pros cabarés, pedia lagostas e francesas. Depois ligava pros empreiteiros, pedia mais dinheiro. O cacau vinha até do estrangeiro. Apartou 40 vezes 40 milhões de bagos de cacau. Às vezes, despejava uma batelada para seus seguidores, uma esteira de chocolate onde se regalavam, seguindo a Petequitã.

Malulaíma fazia muitos negócios, não se incomodava de vender fiado. Tanto fiou, tanto fiou, tanto brasileiro não pagou que afinal quebrou. Ficou injuriado. Campeou légua e meia e topou com uma macumba cheia de empregados-públicos. Foi lá que provou o caxiri temível, cujo nome é cachaça. Não teve jeito e apareceu a polícia. “Teje preso!”, falou o grilo. “Preso por quê? Não estou fazendo nada.” Até que Malulaíma caiu no chão e invocou a Jararaca Elitê. “Com a jararaca ninguém pode não.” O povo ficou com vontade de pelear e, de todos os lados, gritavam: “Larga!”, “Não leva!”, “Solta!”. Formou-se um furdunço temível. Então Malulaíma se aproveitou da trapalhada, pegou a Petequitã — e pernas pra que vos quero! Foi tentar arrumar uma pensão do governo. Jacaré ficou preso? Nem ele. Acabou-se a história e morreu a vitória. Tem mais não.

Helio Gurovitz

sábado, 19 de março de 2016

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Acelera-se a queda do governo

No melhor dos últimos dez dias para o governo, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) decidiu apoiar o impeachment; o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu Lula da função de ministro-chefe da Casa Civil da presidência; e o jornal mais importante do mundo, o The New York Times, publicou duro editorial com críticas a Dilma.

Mesmo assim, o dia poderia ter sido pior para Dilma, Lula e o PT. E se tivessem fracassado as manifestações convocadas de apoio aos três? Elas até que não fizeram feio nas atuais circunstâncias.

A de São Paulo foi a maior, atraindo a participação de 80 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. Ou 95 mil, segundo o Datafolha. Ou 380 mil, segundo seus organizadores.

Houve manifestações em 55 cidades dos 26 Estados e no Distrito Federal. O público total foi estimado em 1,2 milhão, segundo os organizadores. Ou 269 mil, segundo as polícias militares.

Lula discursou na manifestação na capital paulista, sendo ovacionado. Disse que entrou no governo para ajudar Dilma. E anunciou a ressurreição do “Lulinha paz e amor”.

Há quinze dias, quando foi levado para ser ouvido pela Lava-Jato, Lula dissera que naquele dia o “Lulinha paz e amor” acabara de morrer. Fez um discurso incendiário prometendo percorrer o país no combate ao”golpe” que está em marcha para derrubar Dilma.
Lula escondido debaixo da saia de Dilma assume ministerio Casa Civil escapa de moro puxando perna foro priviligiado D

O medo de ser preso, por fim, empurrou-o para a posição menos desconfortável de ministro do governo.

A sensação compartilhada por políticos de todos os partidos, empresários, banqueiros e até mesmo ministros de Estado é de queda iminente do governo.

Naturalmente, se por iminente entender-se que algo dramático como isso poderá estar consumado dentro de 60 a 80 dias. Ou antes, a depender de Dilma. Ela poderá renunciar para não ser deposta.

Auxiliares de Dilma confidenciam que ela chegou a admitir a hipótese da renuncia quando Lula ainda não decidira virar ministro para escapar das garras de Moro.

A hipótese se reapresentará novamente. Talvez quando ela concluir que a Comissão Especial do Impeachment, formada por 65 deputados, recomendará a cassação do seu mandato.

A verdade é que a revelação de conversas de Lula ao telefone provocou estrago irreparável na imagem dele. E também a maneira desastrosa como ele entrou no governo para ser ministro.

Dilma está rouca de tanto repetir que o grampo foi ilegal. Só que foi legal, sim, por ter sido autorizado pelo juiz Moro. Dilma parece uma barata tonta desde então.

Lula vira a página na Avenida Paulista. Para trás!

Quando Dilma aceitou levar Lula de volta para o Planalto, os brasileiros ficaram autorizados a concluir que ela se deu conta da sua própria ineficiência e decidiu devolver o poder a um verdadeiro chefe de Estado. O PT e seus satélites no sindicalismo e nos movimentos sociais viram a retomada da Presidência por Lula como as coisas finalmente voltando aos seus devidos lugares.


A presidência acidental de Lula ainda está sub judice. Mas o morubixaba do PT ofereceu na noite passada um gostinho do que será o Brasil se ele não for preso e se o STF autorizar o início do seu terceiro mandato. As coisas ficaram claras com o discurso feito por Lula na manifestação contra o impeachment, na Avenida Paulista.

“Eu não vou lá para brigar”, bradou Lula. Seu plano de governo consiste em ajudar a fazer as coisas que precisam ser feitas. “Não vou lá achando que aqueles que não gostam de nós são menos brasileiros do que nós”, afirmou, antes de realçar as características que fazem de “nós” algo bem melhor do que “eles”.

“Eles vestem roupa amarela e verde para dizer que são mais brasileiros do que nós. Corte uma veia deles para ver se o sangue deles é verde e amarelo. É vermelho que nem o nosso, é vermelho como se fosse o sangue de Jesus Cristo.”

Lula prosseguiu: “Eles não são mais brasileiros do que nós, porque, na verdade, eles são um tipo de brasileiro que gostaria de ir para Miami fazer compra todo dia. E nós compramos na 25 de Março. Nós compramos na cidade que a gente mora. E a gente compra fiado. A gente não reclama que o dólar suba, porque fica caro viajar para Miami. Eu viajo para Garanhuns, para o Rio Grande do Norte, para a Bahia…”

“Precisamos recuperar o humor desse país, precisamos recuperar o orgulho de ser brasileiro, precisamos recuperar a auto-estima”, disse Lula a alturas tantas. O orgulho e a auto-estima não serão recuperados facilmente. Mas o humor está de volta.

Deve-se louvar o esforço retórico que o sucessor de Dilma realiza para reaproximar o PT dos brasileiros mais humildes. Não é fácil para Lula esbravejar contra a elite endinheirada. Uma voz incômoda deve soar nos fundões de sua consciência: “Farsante”.

Palestrante milionário, amigo de poderosos que reformam à sua revelia os imóveis que frequenta, Lula deve se divertir sozinho ao verificar, na hora de escovar os dentes toda manhã, que a elite agora mora no espelho da cobertura de São Bernardo.

Uma das caractererísticas fundamentais da deficiência de julgamento de um povo é ter que ouvir uma pessoa durante vários anos para chegar à conclusão de que ela não tem nada dizer. Lula atingiu esse estágio. Seu discurso tornou-se um latifúndio improdutivo. Apenas os devotos que o seguem desejam compartilhar.

Lula já não exibe a pele de jararaca que vestira em 4 de março, quando a Polícia Federal o levou para prestar depoimento, sob vara. “Ao aceitar ir para o governo, veja o que aconteceu comigo: eu virei outra vez o Lulinha Paz e Amor”, disse ele, no miolo de um discurso recheado de ataques.

“Não quero que quem votou no Aécio vote em mim, não quero que ele exija que quem votou na Dilma vote nele. O que eu quero é que a gente aprenda a conviver de forma civilizada com as nossas diferenças.” Civilizadamente, Lula bateu nos rivais: “Faz um ano e três meses que eles estão atrapalhando a presidenta Dilma a governar esse país.”

Habituado a superestimar seus talentos, Lula subestima as deficiências de Dilma. Madame se desgovernou sozinha, sem o auxílio da oposição. Por sorte, Lula, que vinha sendo o poder de fato no Brasil desde que deixou a Presidência, em 2010, aceitou reassumir o trono.

O discurso de Lula na Paulista introduz no cenário político um clima de novidade burlesca. Percebe-se nas entrelinhas que Lula virou a página. Para trás!

O ministério do tempo de Lula

Na série espanhola El Ministerio del Tiempo uma instituição secreta guarda as portas que conduzem ao passado. Seu objetivo é garantir que a história não seja modificada, pois poderia reduzir o poder do Estado no presente. “Nossa história não foi a melhor, mas poderia ter sido pior”, escutamos o Subsecretário do Tempo, Salvador Martí, falar no primeiro capítulo.

A série não é ficção histórica. Os fatos são como lemos nos livros. Por isso também na tela a Espanha perde a Guerra da Sucessão Espanhola e triunfa na guerra contra a França napoleônica, para citar dois exemplos. Cada porta que se abre leva a um tempo diferente e a uma cena que o captura. É uma foto que o recria, não que o modifica.

Desse passado o ministério recruta seus agentes, verdadeiros guardiães do tempo. Até Diego Velázquez é selecionado, visto desenhando o retrato falado de dois agentes franceses infiltrados em Madri para mudar aquela vitória pela derrota, notem. Uma subutilização imperdoável de tanta genialidade – o grande Velázquez colocado para desenhar kits de identidade de suspeitos! – mas assim é a TV. Pelo menos permitiram que terminasse As Meninas antes de trazê-lo para o século XXI.

É que a arte de Velázquez detrás de uma porta evoca outra porta: a da abóbada de Lula em uma agência do Banco do Brasil em São Paulo. Esta pela qual, quando aberta, Lula também nos leva ao barroco, mas de um crucifixo do século XVI indevidamente apropriado. Tinha desaparecido misteriosamente durante a transferência de poder para Rousseff.

Na série, as portas conduzem ao passado e permitem voltar dele, mas nunca levam ao futuro. “O tempo é o que é”, diz o Subsecretário. É uma boa metáfora da América Latina, pelas semelhanças, assim como pelas diferenças. Aqui e agora o tempo também é a variável central da narrativa, mas neste lado do Atlântico é acompanhada pela intenção deliberada de controlá-lo como um objeto, esticá-lo, resistir a seu desgaste implacável. Tentativa estéril, é a ficção do poder eterno.

Para Lula, as portas do seu ministério devem conduzir ao futuro obrigatoriamente, uma fuga para frente com o objetivo de alcançar uma sobrevivência improvável. É a tragédia da perpetuação que o arrasta para baixo. Por trás da perpetuação – seja de uma pessoa, um casal, uma família ou um partido político, como no Brasil do PT – sempre se oculta a inevitável necessidade de controlar o tempo, de torná-lo indefinido. É como aquele monumento a Chávez com a inscrição 1954-∞.

Na relação íntima entre o tempo eterno e o poder, reside a corrupção. O PT não é o único caso, mas o ilustra bem: a corrupção é muito mais do que a apropriação de bens públicos. É um regime político, o componente central da dominação. É a corrupção que seleciona dirigentes, organiza a competição eleitoral, exerce a representação e o controle essencial do território.

Claro que também financia campanhas eleitorais. O Brasil é o exemplo mais acabado disso. Tudo era bem conhecido e há muito tempo, lembremos de Dirceu e o Mensalão, só que então a economia estava crescendo e a oposição não estava organizada. As duas condições mudaram, além do cansaço crescente da sociedade.

O problema é que a corrupção reforça a busca da eternidade, não por ideologia, tantas vezes declamada, mas por sua sobrevivência. Fora do poder, os riscos são muito altos. O desafio para a reconstrução democrática da América Latina é tirar a corrupção da política. Não será tarefa simples.

E, no final, aí aparece Lula buscando imunidade como Chefe de Gabinete de Dilma, o mesmo cargo de Dirceu em sua própria presidência. Forçado a alongar a sombra do futuro o máximo possível, na verdade Lula está no comando do ministério do tempo. Isto em um pacto no qual ambos decidiram encadear seus destinos à âncora desse navio à deriva chamado PT. Se a âncora cair no mar, terminarão aí, tão juntos como conceberam esta estrutura de poder hegemônico.

Nesse caso, terá sido um pacto suicida entre a presidente e seu ministro do tempo.

Parido ministro para sobreviver como presidente, Lula morrerá politicamente como presidiário

A nomeação escarnecedora do criador odioso a ministro numa série de crimes de Dilma Rousseff que, entre a renúncia e a vergonha, terá as duas, efetivaria o “delenda Curitiba est”, equivalente a um “o Brasil precisa ser destruído”. Parido ministro para sobreviver como presidente, morrerá politicamente como presidiário acompanhado pela desonra e pela família detestável.

Na noite que antecedeu o golpe, convoquei minha mãe para ficar com a neta e fui para a Paulista, onde permaneci até o começo da madrugada. Este é o relato de uma cidadã comum, apenas uma mulher latino-americana, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior das ruas nas quais também marchou contra a ditadura militar, pois não é em nenhum refúgio que nos descobriremos: é na rua, na cidade, no meio da multidão, coisa entre as coisas, homem entre homens, segundo Sartre. E são os cidadãos comuns assim ou nem tanto, mas todos autônomos e reunidos para civilizar o país, que estão se descobrindo donos da história que tem surpreendido o cotidiano.

Mas como explicar que pessoas de bem ainda defendam os patronos do esbulho material e moral, preferindo ser crédulas ou indiferentes na barbárie a ser protagonistas na civilização do país? Não sei. Desnecessário gostar de FHC ou da Rede Globo; basta gostar da perspectiva de o país ter a chance de se civilizar. A nitidez dos diálogos sórdidos de Lula e Dilma tramando submeter a ele todos os Poderes da República deveria eliminar dúvidas residuais de que essa perspectiva inexiste sob o PT. Chegando à Paulista, adentrei a República de Curitiba, a Berlim onde ainda há juízes expandida por todo o Brasil, que o déspota repugnante quer destruir em pânico pela ineficácia dos ataques a um juiz federal seguro e sereno.

Depois de ouvir um Lula encharcado de vulgaridade e de potência só realizada no primitivismo cultivado em torno de si pela subserviência dos comparsas e pelo ódio aos desobedientes, enlouquecido na pretensão de intimidar os onze do Supremo, orgulhoso do primarismo que julga ser inteligência política de um cabra da peste, tão à vontade na imundície que, mesmo sabendo do possível grampo, chamou de “meu sítio” o sítio que diz não ter, cheguei à Paulista me sentindo suja e entristecida. Suja da voz roufenha colonizada também por ofensas às mulheres; entristecida na certeza de ainda termos de lidar com tanta sujeira por algum tempo porque a presidente tosca preferiu renunciar não em favor da nação, mas do criador miserável.

Na cerimônia da posse revogada, os farsantes tentaram um golpe a céu aberto acusando de golpista quem os vencerá no mais limpo dos combates – o de cidadãos comuns, livres, amparados na legalidade e fortalecidos na indignação. É nesse combate que me vejo limpa outra vez e, de volta para casa, a tristeza capitula quando beijo minha mãe e minha filha que acorda, a quem conto baixinho: durma, minha flor, sonhe porque Curitiba non delenda est.

Corrupção de resultados

Atribui-se ao falecido Adhemar de Barros, precursor político de Paulo Maluf, o adágio “rouba, mas faz” – a corrupção de resultados. Contrapunha às acusações de ladroagem, que não desmentia, a compensação de obras e realizações, que, de dever de ofício, transmutavam-se em benevolência governamental.

Aparentemente, funcionou, já que governou São Paulo por três vezes (uma como interventor no Estado Novo, duas eleito), foi prefeito da capital e candidato à presidência da República, além de manda-chuva da política paulista entre as décadas de 30 e 60.

Foi cassado três vezes, a última e definitiva após o golpe de 64, que apoiou. Mas essa é outra história. Importa notar que, se o fato de “fazer” anulava o de “roubar”, e lhe garantia destaque, é porque havia coisa pior: a turma que roubava e não fazia.

Outro personagem histórico já falecido, o ex-ministro Mário Simonsen, dizia que essa modalidade – o do “rouba e não faz” -, ao contrário, era menos nociva. Segundo ele, algumas obras, de tão caras e inúteis, melhor seria não fazê-las, calculá-las e pagar por elas uma propina hipotética.


O PT, ao que parece, levou a blague a sério: parte substantiva do que a Lava-Jato tem revelado são obras inconclusas, embora caríssimas, com o custo inicial (e a respectiva propina) várias vezes aumentado. Entre outras, a refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, as do Maranhão, Ceará, Duque de Caxias (RJ) e a emblemática de Pasadena, EUA.

O PT, porém, além de incorporar ambas as vertentes – a do roubo de resultados e o sem resultados -, inaugurou uma nova: a dos que roubam, fazem, mas fazem tudo errado, sendo esta, de todas, a pior, por seus efeitos colaterais e duradouros.

O resultado é a crise que aí está, a maior das últimas quatro décadas, a que não faltaram crises. Pior: não está convencido do que fez, o que põe em cena o dito do Barão de Itararé, crítico mordaz da ditadura Vargas, segundo quem “o problema do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta”.

Ao celebrar, seus 36 anos, há pouco mais de duas semanas – o que, diante da vertiginosa sucessão de denúncias da Lava Jato parece uma eternidade -, o partido divulgou, em tom triunfal, o seu Programa Nacional de Emergência, com a autoridade de quem, no fim das contas, criou a emergência.

Já então cogitava da volta de Lula. Houve quem, na sua espessa ingenuidade, acreditasse que, sendo o partido o autor da crise, poderia dispor do remédio para erradicá-la. Só que, em vez de propor cura, receita ao doente uma eutanásia.

A tanto equivale o Programa. Entre outras coisas, propõe o uso de parte das reservas internacionais para a criação de um Fundo Nacional de Desenvolvimento e Emprego, a “radicalização” dos mecanismos de distribuição de renda (o que será isso?), a taxação das grandes fortunas, a redução “drástica” da taxa de juros e a volta da CPMF, compartilhada entre União, estados e municípios (para tentar atrair o apoio de prefeitos e governadores).

Em resumo, a mesma receita que gerou a crise, só que elevada ao cubo, oposta à que o governo, com os cofres vazios, e ainda com um resto de bom senso, estava a sustentar.
Reforma da Previdência? Nem pensar. Contenção do consumo? Ora, ora, a crise é invenção das elites.

Havia, porém, um problema: o partido não confiava em Dilma – nem ela nele - e queria a cabeça da equipe econômica, além de um ministro da Justiça que controlasse a Polícia Federal.

A solução mágica foi chamar Lula, matando assim dois coelhos numa só cajadada: reanimar a militância e garantir asilo ao ex-presidente, neste momento às voltas com a Polícia Federal e o Código Penal. Nem uma coisa, nem outra banirá a crise.

A reação popular à nomeação de Lula turbinou o processo de impeachment e devolveu a população às ruas. O país não está dividido, conforme mostram as pesquisas, em que mais de 90% pedem o fim do governo. Está, pois, unido – e contra.

O PT – e haja persistência na falta – insiste em que o povo não compareceu às manifestações, só “as elites”. No documento em que convocou a militância à manifestação de ontem, diz isso.

E explicita: “Solicitamos que os diretórios estaduais convoquem em caráter de urgência para o dia 18 de março todos os sindicatos, militância e, se necessário, convoquem militantes nas periferias, de preferência negros e pardos, sendo que foi autorizado o transporte, alimentação e o repasse de R$ 30,00 (trinta reais) para auxílio aos militantes”.

Trata-se de documento autoexplicativo que resume uma Era de abjeções e fracassos.

Judiciário faz a diferença


A longo prazo, acredito que o Brasil mereça uma avaliação de risco mais favorável. Quantos países emergentes têm um Judiciário razoavelmente independente capaz de permitir uma mudança real? Instituições independentes. Essas são vantagens cruciais que o Brasil possui
Ian Bremmer , especialista em países emergentes e presidente do Eurasia Group, uma das maiores consultorias de risco político do mundo

A outra corrupção

Os julgamentos por suspeitas de corrupção têm impedido a avaliação do governo Lula/Dilma na transformação da estrutura socioeconômica do Brasil. Nenhum governo chegou ao poder com tantas promessas de mudar a realidade brasileira e nenhum esteve tanto tempo à frente da nação, à exceção de Vargas.

Mas, ao olhar ao redor, a avaliação não é positiva.

O Bolsa Família, iniciado no governo anterior com o nome de Bolsa Escola, distribuindo anualmente 0,5% do PIB, deve ser aplaudido por seu caráter de rara generosidade das elites governantes, mas não tem sido um programa transformador. A transformação seria emancipar o povo da necessidade de bolsa, e o governo Lula/Dilma não avançou neste propósito.

Em um país com a memória da escravidão, o governo Lula/Dilma fez o gesto louvável de criar instrumentos para incluir pobres e descendentes de escravos no ensino superior, com cotas, Prouni, Fies, além de abrir mais 14 universidades federais. Criar mecanismos para que os filhos de alguns pedreiros ingressem na universidade é um gesto positivo, mas não tem, em si, caráter transformador da estrutura social. A transformação viria de reformas no sistema educacional, para fazer com que todos os filhos de todos os pedreiros tivessem condições de disputar vaga no vestibular com a mesma chance que os filhos de seus patrões.

O governo Lula/Dilma não fez avançar a consciência cívica e política: acomodou as massas e cooptou os movimentos sociais, como CUT e UNE; abriu as portas das lojas para grupos que antes estavam marginalizados, mas não os abrigou como cidadãos plenos; aumentou o número de consumidores, não de cidadãos. Ao abandonarem propostas transformadoras, os partidos progressistas e os movimentos sociais agem como ex-abolicionistas que, ao chegar ao poder, contentam-se em emancipar alguns escravos e reduzir o sofrimento dos outros, sem fazer a Abolição.

No futuro, além da nódoa ética sobre o PT e demais partidos da base de apoio e suas avaliações dos 13% de século do governo Lula/Dilma mostrarão a perda de uma grande oportunidade histórica, um partido com propostas transformadoras chegar ao poder, com um líder carismático de origem popular, vencer quatro eleições seguidas, e abandonar o pudor e o vigor transformador.

O governo Lula/Dilma encontrou um país dividido, social e politicamente, agravou a divisão política e, no lugar de derrubar o muro que nos divide socialmente, apenas jogou algumas migalhas para os excluídos, e não cumpriu as promessas de realizar as reformas estruturais.

O perigo é que as forças do pós-Lula/Dilma não façam o que eles não fizeram; porque juízes prendem políticos e limpam a política por um período, mas não derrubam a “cortina de ouro” que divide o Brasil; julgam a corrupção no comportamento dos políticos, mas não a corrupção nas prioridades das políticas.

O bando fora da lei invoca a proteção da lei para planejar em sigilo mais pontapés na lei

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As conversas grampeadas pela Polícia Federal acrescentaram ao prontuário de Dilma Rousseff o crime de obstrução da Justiça, praticado para livrar Lula da cadeia. Se lhe restasse alguma vergonha, se não tivesse começado a mentir antes de aprender a falar “mamãe”, a presidente que nada preside já teria caído fora do gabinete onde sonha com a salvação que não virá. Mas a governante desgovernada prefere fingir que o vilão é o juiz Sérgio Moro, que teria ignorado uma das prerrogativas do cargo que ela não para de desonrar.

“Grampo na Presidência da República ou para qualquer um de vocês não é algo lícito, é algo ilícito, e é previsto como crime na legislação”, reincidiu em dilmês erudito nesta sexta-feira. Conversa de 171. Nenhum dos celulares e telefones fixos que afilhada utiliza foi alvo de escuta. Os aparelhos grampeados foram os aparelhos usados pelo padrinho homiziado no Instituto Lula. A voz da criatura só entrou no coral da Lava Jato porque ligou para um celular que o criador julgava secreto. Deu no que deu: os brasileiros agora sabem que Dilma participou da conjura armada para afastar Lula do camburão, ouviu sem dar um pio insultos ao Supremo e engoliu palavrões que deixariam ruborizada até uma reencarnação de Messalina.

As gravações também provaram que Lula chefiou a repulsiva conspiração contra o Estado de Direito e a ofensiva infamante contra Sérgio Moro. Para escapar de uma segunda e conclusiva visita da Polícia Federal, também ele decidiu fazer de conta que os bandidos devem ser procurados na república de Curitiba. Resumo da ópera-bufa: o bando fora da lei invoca a proteção da lei para continuar atropelando a lei ─ em sigilo. Para os comandantes da organização criminosa, esse desrespeito à privacidade dos meliantes é muito mais grave que a maior roubalheira da história.

“Minha intimidade, de minha esposa e meus filhos, dos meus companheiros de trabalho tem sido violentada por meio de vazamentos ilegais de informações que deveriam estar sob a guarda da Justiça”, mentiu Lula na carta aberta que divulgou nesta quinta-feira. Submetido ao calvário de chanchada, o marido amantíssimo e pai extremoso acabou exonerando a proverbial sobriedade. “Nesta situação extrema, em que me foram subtraídos direitos fundamentais por agentes do estado, externei minha inconformidade em conversas pessoais, que jamais teriam ultrapassado os limites da confidencialidade, se não fossem expostas publicamente por uma decisão judicial que ofende a lei e o direito”.

Não tem nada de mais, portanto, qualificar de covardes os ministros do Supremo, debochar de ministros de Estado, exigir que o ministro da Justiça mantenha o camburão distante do chefe supremo, tratar a presidente da República como gerente do bordel federal onde reina há mais de 13 anos. Na cabeça dos criminosos, crime é divulgar conversas que mostram uma quadrilha planejando atropelamentos do Código Penal. Talvez mudem de opinião quando começarem a trocar ideias na mesma cela de cadeia.

Pelo conteúdo da mensagem e pela linguagem, Lula se inviabilizou

O ex-presidente Lula inviabilizou a si mesmo no veloz episódio de sua nomeação para ministro-chefe da Casa Civil, em decorrência do conteúdo de suas mensagens e pelos absurdos da linguagem a qual recorreu ao longo do desenrolar dos fatos. Não percebeu o que estava praticando de fato e, nos seus tropeços políticos, arrastou consigo a própria presidente Dilma Rousseff. Claro. Fez renascer o processo de impeachment, que se encontrava adormecido pela força da inércia. Um dos motivos do adormecimento foram as contradições no PSDB entre Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin, cada qual com um projeto próprio para ascensão ao poder. Prevalecia o calendário para 2018, sucessão a ser decidida pelas urnas. O PMDB igualmente encontrava-se dividido, sobretudo em face de ocupar seis ministérios no governo, parcela à qual se adicionou mais um com a nomeação do sétimo representante.

Mas a entrada em cena de Lula, ao som do hino nacional, excepcionalmente tocado numa posse de chefe da Casa Civil, toldou o panorama e fez desencadear nova tempestade. O quadro nacional mudou de rumo, principalmente em reflexo da reportagem de Thiago Herdy, Sílvia Amorim e Cleide Carvalho, destacando a frase do ex-presidente de que o Supremo Tribunal Federal encontra-se acovardado. Situação que inclusive estendeu ao Superior Tribunal de Justiça. Resultado: o ministro Celso de Mello respondeu de forma aberta e direta, em nome da Corte Suprema, e o ministro João Otávio de Noronha pelo STJ. E Lula ainda agrediu o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Os recursos contra sua investidura se avolumaram e foram exatamente parar no Supremo, tendo o ministro Gilmar Mendes sido sorteado relator. A posse de Lula permanece suspensa, a estabilidade de Dilma Rousseff ingressa num plano de queda.

Vejam só os leitores como é a política. O que parecia representar uma descompressão (a investidura de Lula) transformou-se na realidade em um fator de pressão contrária ainda maior contra o governo. Não adianta usar argumentos contra as gravações dos diálogos mantidos pelo ex-presidente, quando mais importante do que tal prática é o estarrecedor conteúdo das matérias. Uma delas, inclusive, também publicada pelo O Globo, o telefonema de Lula ao ministro Nelson Barbosa para que tentasse influir na Receita Federal para livrar de investigações fiscais o Instituto que leva seu nome.

A tentativa de influir junto a ministra Rosa Weber para que em seu despacho relativo a recurso apresentado por Lula para que as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público fossem suspensas está na outra face da perplexidade que conduz à interpretação de que ele, Lula, pudesse ter rompido até com a lógica.

Uma fuga da razão, a busca de um escapismo inútil. Os que condenam a liberação das gravações pelo juiz Sérgio Moro fogem do debate quanto à predominância do conteúdo. Pois este conteúdo, ele sim, é que coloca ou colocava em risco a essência do regime democrático.

Basta imaginar as consequências caso as solicitações ilegais e passionais fossem atendidas por Dilma (quanto a Rosa Weber) e Nelson Barbosa (quanto ao Instituto Lula). Seria uma subversão de valores contidos na legislação brasileira.

Este o desenho de um panorama que se aproxima de um desfecho. Se Dilma Rousseff não se afastar da ideia chamada Lula, seu impedimento revela-se próximo. Só um milagre poderá salvá-la. E só outro milagre, este ainda maior, salvará o Brasil.

Não vai ter golpe

Diferentemente de 1964, não há forças políticas pregando o golpe. As manifestações vão pavimentar o caminho para uma solução constitucional. O caminho será constitucional. Não há golpe à vista. O caminho será duro, mas mesmo o impeachment é previsto na Constituição
Francisco de Oliveira, sociólogo fundador do PT e crítico contundente dos governos petistas

Venderam o país à companheirada

Dilma cava a cada dia a cova para jogar os restos do Brasil. A presidente legitimamente eleita, em nome da permanência petista no trono do Planalto - agora com dois mandatários: o legítimo e foragido da Justiça - renega os votos democráticos em troca de um governo de partido. Dilma não governa o país, se deixa levar pelos fatos políticos e joga para a galera mercenária rompantes de ignorância e mentira.

Um país desgovernado há 15 meses não resiste muito à instabilidade e ainda mais à falta de governabilidade. Se o preço dos mandatos petistas é astronômico, cresce geometricamente o custo desses meses de Dilma.2. E não há expectativa de paralisação desse crescimento negativo.

A "posse" de Lula, agora revelada como uma descarada manipulação para obstrução da Justiça, jogou fogo no que resta do país. Acendeu o incêndio entre os militantes, contratados a R$ 30, e os cidadãos que vão às ruas reclamar seus direitos e cobrar os deveres de uma presidente.

Com a cartilha petista debaixo do braço, Dilma vai desfilando em inaugurações do programa Minha Casa Minha Vida, esbravejando o surrado discurso de dona da verdade, quando reconhecidamente é mentirosa de carteirinha.

Ao esbravejar de sua majestade, não se contrapõem as ações. O desastre econômico, provocado justamente por sua "nova matriz", merece apenas curativos eleitoreiros. É muito pouco, insignificante, até mesmo para os atendidos pelos programas sociais, que hoje pagam bem mais impostos para sobreviver.

A transferência dos programas sociais para a esfera da Casa Civil, que está para ser arregimentada como tábua de salvação, só provocará o incremento de uma secessão em nome da defesa de um descarado bandido.

O país não pode sustentar seus algozes no governo ao preço do sofrimento de tantos pobres iludidos e tantos trabalhadores espoliados em seus salários e empregos.

A farsa de Lula Deus caiu há anos por terra. O que se vê defendendo-se da Justiça é um velho pelego, o que nunca deixou de ser. Dilma não poderia oferecer qualquer tipo de proteção a um foragido, se tornando cúmplice e pondo em risco a estabilidade de uma democracia que tanto preza em defender, sob uma cadeia de mentiras.

Dilma, com o patrocínio do PT, "vendeu" o Brasil para os interesses de uma companheirada de vagabundos.

Quem paga a manifestação da CUT pró-Lula?

Alguns números: todos os 41,3 milhões de trabalhadores brasileiros com carteira assinada terão desconto na folha de pagamento deste mês de março, compulsoriamente, do valor de um dia de trabalho como contribuição sindical. É este dinheiro que sustenta os sindicatos no Brasil. No ano passado, a arrecadação foi de R$ 3,2 bilhões, rateados entre os 15.315 sindicatos – uma alta de 13% frente a 2012. Os próprios sindicalistas admitem que muitos são criados apenas para garantir os repasses das verbas do imposto sindical.

A cobrança foi criada em 1943, pela ditadura de Getúlio Vargas. Do total arrecadado, 60% são repassados aos sindicatos, 15% às federações, 5% às confederações e 20% ficam com o Ministério do Trabalho, para financiar programas como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que custeia o seguro-desemprego e o PIS.


Em 2008, o então presidente Lula determinou que, do total repassado ao FAT, 10% deveriam ser destinados às centrais sindicais. De lá para cá, as centrais já receberam cerca de R$ 530 milhões, valor que não precisa ter nenhuma prestação de contas.

CUT e Força Sindical ficam com as maiores parcelas do imposto, R$ 44,5 milhões e R$ 40 milhões, respectivamente. Apesar de se declarar formalmente contra a cobrança, a CUT não devolve o dinheiro aos trabalhadores.

Vamos a um extrato da mídia.
Todos os 41,3 milhões de trabalhadores brasileiros com carteira assinada terão desconto, compulsoriamente, na folha de pagamento deste mês de março, do valor de um dia de trabalho como contribuição sindical. É este dinheiro que sustenta os sindicatos no Brasil. No ano passado, a arrecadação foi de R$ 3,2 bilhões, rateados entre os 15.315 sindicatos. Uma alta de 13% frente a 2012. E neste ano, podem ser financiados também os 2.100 novos sindicatos que estão em fase de criação. Os próprios sindicalistas admitem que muitos são criados apenas para garantir os repasses das verbas do imposto sindical.
— São sindicatos de gaveta, abertos sem qualquer organização social e política. Em muitos casos, o trabalhador nem sabe que o sindicato existe. Todos por conta do imposto sindical — denuncia Wagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), principal central sindical do país.
O secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Manoel Messias, confirma que grande parte dos sindicatos em processo de legalização no ministério está de olho apenas na contribuição sindical.(
Trecho do Globo de março de 2014:
Quanto desse dinheiro levou gente à avenida Paulista neste dia 18 de março?

Protesto contra quem?

O Brasil convive com excessiva naturalidade com alguns conceitos que gerariam guerras civis, cismas religiosos e separação entre famílias e países em outros lugares. Se o cisma que gerou a Igreja Ortodoxa Copta aconteceu por não aceitar a dualidade divina e humana de Cristo (algo bem difícil para os leigos), aqui se convive bem com um conceito horrendo, o “protesto a favor”, de maneira que ultrapassa as raias da histeria coletiva.

Acompanhar os protestos das últimas semanas exige nervos de aço e um conhecimento quase filosófico de contradições que é capaz de enlouquecer qualquer um. Como já enlouqueceu. Enquanto alguns tentam vender os “protestos a favor” do PT, todos devidamente feitos por pessoas com camiseta dos órgãos que geraram o PT (CUT, MST, UNE, Ubes, Apeoesp, CTB e sabe-se lá mais quantos sindicatos devidamente uniformizados), a população fica atônita não só para verificar números e causas, como para acompanhar análises e opiniões as mais desbaratadas sobre as manifestações e os desdobramentos jurídicos das operações policiais. Só entender se Lula é ministro ou futuro prisioneiro já é um paradoxo mais difícil, ou ao menos mais patético, que o do Gato de Schrödiger.


Isso significa que não houve “revolta com a classe política em geral”, e sim com políticos de esquerda, ou ao menos aqueles que não cobraram o impeachment, causa popular já antes da reeleição de Dilma. Por mais que se tente vender a bazófia de ser este um impeachment “de Cunha”, quem quer o impeachment sabe que o presidente da Câmara engavetou mais de 30 pedidos antes de aceitar o de Janaína Paschoal, Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.Por fim, há a propaganda, vendida como “notícia” ou “análise”. Tentaram vender a tese, no protesto de domingo passado (13 de março, a maior mobilização popular da história da América Latina), de que figuras da oposição, como Aécio Neves e Geraldo Alckmin, que resolveram fazer parte da manifestação, tinham sido hostilizadas e, portanto, haveria um sentimento “contra a classe política em geral”, como disseram alguns veículos de comunicação.

Aécio e Alckmin foram vaiados, sim. E muito. Ao notá-los ali, o povo passou a vaiá-los tanto que os dois não conseguiram senão atravessar a rua e picar a mula da manifestação, sob palavras impublicáveis. Para um país que pensa com o bolso (Lula, com o mensalão, praticamente deu um golpe totalitário ao usar um poder para comprar o outro e também legislar, mas ninguém o chama de “tirano”, e sim de “ladrão”), o significado é enorme: Aécio, implicado no Banco Rural (o mesmíssimo mensalão de Lula) e em Furnas, ouviu muito mais que “ladrão”, o xingamento típico a políticos: ele ouviu duas palavras em destaque: “oportunista” e “traidor”.

Tanto é assim que políticos que sempre se posicionaram a favor do impeachment e batem de frente com o PT foram ovacionados pelo povo. Ronaldo Caiado e Eduardo Bolsonaro, em São Paulo, mal conseguiam discursar diante de tantos aplausos, sem falar em João Dionisio Amoedo (do Novo) e Jair Bolsonaro, no Rio.

Querem dissolver tudo num substantivo abstrato ou genérico, mas apenas se vê que quem perdeu a história é apenas quem recusa o fim do PT e de tudo o que ele representa.

Flavio Morgenstern

A cor de cada um

Na República do Espicha-Encolhe cogitava-se de organizar partidos políticos por meio de cores.

Uns optaram pelo partido rosa, outros pelo azul, houve quem preferisse o amarelo, mas vermelho não podia ser. Também era permitido escolher o roxo, o preto com bolinhas e finalmente o branco.

– Esse é o melhor – proclamaram uns tantos. – Sendo resumo de todas as cores, é cor sem cor, e a gente fica mais à vontade.




Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, o arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adotariam uma cor se recebessem antes 100 metros de tecido da mesma cor, que não desbotasse nunca.

– Justamente o ideal é a cor que desbota – sentenciou aquele ali. – Quando o Governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece. e pode-se pintá-la da cor do sol nascente.

Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor.

Carlos Drummond de Andrade

O golpe do golpe

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Ao invés de esticar a sobrevida do moribundo governo Dilma, afrontar a compostura do senso comum dos cidadãos, se jogar no salto mortal dessa empreitada furada de superministro articulador, e achar que pode dar a volta nas instituições judiciárias do país, Lula poderia admitir tão simplesmente que o projeto de Brasil que ele tinha em mente deu errado. Simplesmente isto: deu errado. E que, depois das megamanifestações do dia 13 de março não dá mais pra tentar justificar com os velhos chavões esquerdistas do golpismo das zelites o que ele próprio está a responder com outro golpe. Pois o verdadeiro golpista é sempre o último, o do contragolpe que, por antecipação, justifica seu golpe com a suposição do golpe adversário. Como diz o provérbio, “duzentos não podem estar errados”. Quanto mais 6 milhões! Com a prisão do seu marqueteiro, a verdadeira face de Lula reaparece na grande mídia. Basta olhar pra sua foto que circulou em toda a imprensa por ocasião do discurso do sindicato dos bancários na semana passada, que se pode constatar que a imagem do “Lulinha, paz e amor”, da campanha de 2002, voltou a ser a imagem de ódio e rancor dos tempos incendiários da agitação sindicalista.

Diante de jogadas de tanto casuísmo e falsa esperteza, com a autoridade de um cidadão brasileiro que valoriza a paz social e a tradição de fraternidade de nosso povo, venho lembrar ao “nosso guia” que está se esgotando a sua última chance de admitir os erros e tentar salvar a sua biografia. De assumir publicamente sua responsabilidade política pelos descaminhos do PT e pedir desculpas ao povo brasileiro, ao invés de insistir no erro, procrastinar o inevitável processo, acirrar os ânimos e incitar conflitos entre cidadãos do mesmo sangue. Seria um gesto de grandeza incomparável que suplantaria todas as demais delações havidas e que, com a autoridade inquestionável de ex-supremo magistrado, passaria definitivamente o país a limpo.

Admita, Lula, sua responsabilidade agora, antes que se avolumem ações e investigações no seu novo foro privilegiado. Ou que se precipite de vez as ameaças do “março de sangue” dos agitadores que te cercam. Porque, por mais rancor que você tenha em ter de admitir, a política que você escolheu para realizar o projeto de um Brasil justo deu errado. Além do que esta é sua última chance de salvar para a história a sua promessa maior de fazer com que todo cidadão brasileiro possa ter três refeições por dia. Lembra? Como diz outro provérbio: perca esta batalha da Lava Jato agora para manter seu sonho, a esperança dos brasileiros e ganhar a guerra mais adiante. Peça desculpas aos milhões de cidadãos que acreditaram em você. Até por que, Lula, este projeto socialista ou esquerdista de tentar determinar o rumo da história e fazer “justiça social” a qualquer preço, não tem dado certo em todos os países que tentaram. Todas as vezes em que se tentou, em prol da igualdade social, sacrificar a liberdade, só se conseguiu criar privilégios para as classes dirigentes, restringindo as liberdades de todo o povo por força de totalitarismos, sem se criar riqueza ou mesmo distribuir uma renda digna para todos.

Você já deve ter percebido que o Brasil não é Cuba, nem tampouco uma Venezuela. Que o Brasil é muito maior e não cabe nesse estreito projeto de ditadura social-populista latino-americana. Ou nacional-socialista de colocar estatais como Petrobras e BNDES acima da nação. Que o Brasil não vai sacrificar a sua tradição de Libertas quae sera tamen por uma promessa delirante e romântica de igualitarismo social a qualquer custo. Tenha a hombridade de admitir isto publicamente e, quem sabe, seus eleitores não o perdoam? Mas o que você não pode de jeito algum é prolongar ainda mais esta agonia da ingovernabilidade, a paralisia dos empreendedores, quanto mais apelando para uma hipotética luta de classes por dar ouvidos aos maus conselheiros do vale-tudo para manter o poder. Você não conseguirá convencer os cidadãos brasileiros a fazer do Brasil uma Cuba ou uma Venezuela. Admita que tentou, mas simplesmente não conseguiu. Pois a política escolhida estava errada.

Você estará em boa companhia. Vários líderes sociais da história do Brasil e da humanidade já tentaram e não conseguiram. Proponho, inclusive, que você tire uma semana de férias de seus asseclas esquerdistas e vá com dona Mariza ver o filme “O quarto de Jack”, cuja atriz acaba de ganhar o Oscar, e interpreta magistralmente uma das mais sublimes alegorias sobre o valor da liberdade no mundo contemporâneo. Como o ser humano pode sacrificar a própria vida pela liberdade. Pois bem, Lula, entenda que hoje no Brasil, os cidadãos brasileiros, “somos todos Jack!”. Que nos juntamos em milhões para fugir deste quarto estreito em que o PT nos meteu. Deste quarto escuro de desbunde fiscal e crise de confiança, resultantes desta besteira de nova matriz econômica de que o estado pode tudo. Até por que ainda acredito que você também foi vítima desta ilusão totalitária, deste projeto esquerdista de poder que aniquilou os ideais de fundação do próprio partido. Por que você mesmo foi vítima do mito que seus asseclas criaram de seu poder voluntarista.

Somos todos Jack, Lula! Fingindo de mortos, vamos acabar fugindo desta prisão maior da mentalidade retrógrada de direitos sociais ilimitados para quase nenhum dever cívico que os demagogos esquerdistas e anarco-sindicalistas inventaram desde 1988. Os símbolos nacionais do Brasil carregam o estigma da liberdade. Estamos mais para Macri do que para Maduro. Admita, Lula, em canal aberto de televisão, que você errou. Peça desculpas ao povo. Admita a fraude da campanha de 2014, aproveite sua nova prerrogativa de foro e conte tudo ao Ministério Público Federal. Não sacrifique milhões de cidadãos brasileiros na pior crise da recessão e desemprego de nossa história por causa de 25 mil boquinhas de cargos comissionados. Tenha a grandeza de dividir de fato o projeto de um novo Brasil com outros protagonistas, que até mesmo FHC já reconheceu que você é um legitimo líder popular. Escolha ser líder de uma nação e não chefe de um governo moribundo. Salve a sua biografia e reconcilie o Brasil.

Jorge Maranhão