sexta-feira, 13 de setembro de 2024
Medir em vez de discutir
Sempre tive ar condicionado em casa, mas ultimamente tenho-me sentido ainda mais encalorado do que é costume, levando-me a duvidar do aparelho.
Mas afinal o aparelho estava bom e eu é que estava avariado. Decidi comprar termômetros aqui para casa, para ver até que ponto é que o meu termóstato interior estava desafinado.
Há muita gente que não sabe que a temperatura ideal para o conforto masculino (20 ou 21 graus) é diferente daquela que determina o conforto feminino, que é 24 ou 25 graus.
Destes graus de diferença — que são uma média planetária — nascem diariamente biliões de discussões, sempre em torno da questão de estar frio ou estar calor.
São estas as temperaturas que permitem ao ser humano não pensar na temperatura e poder pensar, sei lá, noutras coisas. Para mais, durante o ano inteiro, seja qual for o tempo que está lá fora.
Mal espalhei os termômetros pela casa, senti-me logo desmentido. Bem que tentei imaginar que estivessem todos feitos uns com os outros, para me enganar, convencendo-me de que não estava o calor que eu sentia.
Mas contra seis termômetros — com uma margem de erro máxima de 1 grau — é impossível marrar.
De um dia para outro, deixei de usar o ar condicionado. Deixei de ter calor. Foram os números dos termômetros que me acalmaram. Desafiaram-me a continuar a ser histérico. E eu desisti imediatamente.
O ser humano precisa de números. Precisa de medir. Ir contra os números é ir contra a natureza humana. Por muito que gostemos de discutir se está frio ou calor, ou se vamos depressa ou devagar, ou se ganhamos muito ou pouco, ou se somos altos ou baixos, gordos ou magros, novos ou velhos, há um limite para essas tagarelices: são os números.
Os números constituem o limite da tagarelice.
A matemática pode ser difícil para a grande maioria das pessoas, mas para uma minoria considerável (que se pode medir e avaliar) é um prazer essencial.
Os números não são mágicos: nós é que somos ilusionistas.
Mas afinal o aparelho estava bom e eu é que estava avariado. Decidi comprar termômetros aqui para casa, para ver até que ponto é que o meu termóstato interior estava desafinado.
Há muita gente que não sabe que a temperatura ideal para o conforto masculino (20 ou 21 graus) é diferente daquela que determina o conforto feminino, que é 24 ou 25 graus.
Destes graus de diferença — que são uma média planetária — nascem diariamente biliões de discussões, sempre em torno da questão de estar frio ou estar calor.
São estas as temperaturas que permitem ao ser humano não pensar na temperatura e poder pensar, sei lá, noutras coisas. Para mais, durante o ano inteiro, seja qual for o tempo que está lá fora.
Mal espalhei os termômetros pela casa, senti-me logo desmentido. Bem que tentei imaginar que estivessem todos feitos uns com os outros, para me enganar, convencendo-me de que não estava o calor que eu sentia.
Mas contra seis termômetros — com uma margem de erro máxima de 1 grau — é impossível marrar.
De um dia para outro, deixei de usar o ar condicionado. Deixei de ter calor. Foram os números dos termômetros que me acalmaram. Desafiaram-me a continuar a ser histérico. E eu desisti imediatamente.
O ser humano precisa de números. Precisa de medir. Ir contra os números é ir contra a natureza humana. Por muito que gostemos de discutir se está frio ou calor, ou se vamos depressa ou devagar, ou se ganhamos muito ou pouco, ou se somos altos ou baixos, gordos ou magros, novos ou velhos, há um limite para essas tagarelices: são os números.
Os números constituem o limite da tagarelice.
A matemática pode ser difícil para a grande maioria das pessoas, mas para uma minoria considerável (que se pode medir e avaliar) é um prazer essencial.
Os números não são mágicos: nós é que somos ilusionistas.
Os impactos da Teologia da Prosperidade
Quem zapeia os programas de TV das igrejas evangélicas logo percebe a frequência que é dada a quadros do tipo “xô pobreza!”, com seguidos depoimentos de gente que estava na pior e começou a prosperar, sempre com as graças do senhor.
São histórias que seguem mais ou menos este roteiro: “Estava largado da mulher, comecei a beber, não tinha onde cair morto, acabei dormindo debaixo da ponte, mas caí em mim, orei para o Senhor, recomecei e dei a volta por cima. Hoje tenho uma empresa com vários empregados, dois carros, estou ficando rico e vou ficar ainda mais...”.
Não é coisa de meia dúzia de casos. São milhares e milhares. As igrejas evangélicas vêm cultivando a versão brasileira para o que, em 1904, o sociólogo alemão Max Weber chamou a atenção em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
É a ideia de que pobreza é atraso de vida, que tem de ser erradicado das pessoas e das famílias. O enriquecimento pessoal e o empreendedorismo são sinais da graça de Deus, concedidos a quem se esforça, cultiva os bens materiais e se torna patrão de si mesmo. Se vier uma ajuda do Estado e do político da hora, vá lá, não é para desprezar, mas não se pode contar com isso. O importante é trabalho, é suor e subir na vida.
A digitalização do cotidiano, por meio dos aplicativos, vem ajudando a espraiar a nova mentalidade que valoriza as qualidades individuais, a prestação de serviços, de preferência a vários clientes, e a criação da jornada independente de trabalho. Para esse novo estrato social, a ação sindical só atrapalha.
O PT tenta dialogar com essa clientela ligada aos evangélicos que escapa de sua área de influência. Mas insiste em explicações e na visão antiga de mundo que não os atingem, como a teoria da luta de classes e a da organização do proletariado contra a dominação da burguesia, para a construção da sociedade socialista.
As implicações políticas e econômicas dessa busca da prosperidade começam a ficar claras. As pequenas e médias empresas e o trabalho autônomo se multiplicam. Os sindicatos, que já vinham se esvaziando por outras razões, tendem a se enfraquecer ainda mais. Aumentam os apelos ao avanço social, em alguns casos sem olhar para que meios, como se vê pela ascensão do candidato Pablo Marçal, em São Paulo. Como a contribuição ao INSS é muitas vezes ignorada, as finanças da Previdência vazam sem controle, o que concorre para o aumento do rombo fiscal.
A Teologia da Prosperidade e esse novo empreendedorismo são coisas relativamente novas neste Brasil colonizado pelos jesuítas que pregavam o desprendimento dos bens materiais. Tudo isso é um vasto assunto à procura de mais estudos para avaliação de seu impacto sobre a economia e a política.
Celso Ming
São histórias que seguem mais ou menos este roteiro: “Estava largado da mulher, comecei a beber, não tinha onde cair morto, acabei dormindo debaixo da ponte, mas caí em mim, orei para o Senhor, recomecei e dei a volta por cima. Hoje tenho uma empresa com vários empregados, dois carros, estou ficando rico e vou ficar ainda mais...”.
Não é coisa de meia dúzia de casos. São milhares e milhares. As igrejas evangélicas vêm cultivando a versão brasileira para o que, em 1904, o sociólogo alemão Max Weber chamou a atenção em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
É a ideia de que pobreza é atraso de vida, que tem de ser erradicado das pessoas e das famílias. O enriquecimento pessoal e o empreendedorismo são sinais da graça de Deus, concedidos a quem se esforça, cultiva os bens materiais e se torna patrão de si mesmo. Se vier uma ajuda do Estado e do político da hora, vá lá, não é para desprezar, mas não se pode contar com isso. O importante é trabalho, é suor e subir na vida.
A digitalização do cotidiano, por meio dos aplicativos, vem ajudando a espraiar a nova mentalidade que valoriza as qualidades individuais, a prestação de serviços, de preferência a vários clientes, e a criação da jornada independente de trabalho. Para esse novo estrato social, a ação sindical só atrapalha.
O PT tenta dialogar com essa clientela ligada aos evangélicos que escapa de sua área de influência. Mas insiste em explicações e na visão antiga de mundo que não os atingem, como a teoria da luta de classes e a da organização do proletariado contra a dominação da burguesia, para a construção da sociedade socialista.
As implicações políticas e econômicas dessa busca da prosperidade começam a ficar claras. As pequenas e médias empresas e o trabalho autônomo se multiplicam. Os sindicatos, que já vinham se esvaziando por outras razões, tendem a se enfraquecer ainda mais. Aumentam os apelos ao avanço social, em alguns casos sem olhar para que meios, como se vê pela ascensão do candidato Pablo Marçal, em São Paulo. Como a contribuição ao INSS é muitas vezes ignorada, as finanças da Previdência vazam sem controle, o que concorre para o aumento do rombo fiscal.
A Teologia da Prosperidade e esse novo empreendedorismo são coisas relativamente novas neste Brasil colonizado pelos jesuítas que pregavam o desprendimento dos bens materiais. Tudo isso é um vasto assunto à procura de mais estudos para avaliação de seu impacto sobre a economia e a política.
Celso Ming
Trabalhar é para otários
"A riqueza, para o brasileiro, não é o acúmulo penoso de dinheiro poupado graças a muitas horas de trabalho", disse Stefan Zweig. "É algo com que se sonha; tem que vir do céu e no Brasil, a loteria é esse céu. É a esperança quotidiana de milhões. A roda da fortuna gira todos os dias. Nos bares, nas ruas, a bordo e nos trens oferecem-se bilhetes de loteria. Todos os brasileiros os compram com o que sobra do seu salário. A determinada hora vê-se grande multidão diante do local da extração; em todas as residências e casas comerciais estão ligados os rádios; a expectativa do país inteiro se volta para um número. O que lhe falta de cobiça, o brasileiro compensa com esse sonhar cotidiano de um enriquecimento repentino."
Assim escreveu o vienense Zweig em "Brasil, País do Futuro", livro que publicou em 1941 e foi destroçado pela nossa imprensa. Zweig, judeu refugiado no país, foi acusado de tê-lo escrito por um visto de permanência. Era mentira, mas, como não podiam desafiar a censura e atacar a ditadura de Getulio, os críticos foram a ele. Um dos argumentos era sua descrição da mania brasileira pelos jogos de azar, incluindo os cassinos e o jogo do bicho. Disseram que não era verdade. Mas todos sabiam que era —e, como a história provou, sempre seria.
Nos anos 1970, tivemos o boom da Bolsa. Depois, a inacreditável obsessão pela loteria esportiva. Mais alguns anos, a febre dos bingos. E, há pouco, a da mega-sena. Mas esta tem agora um concorrente: as bets, em que se pode jogar pelo online e se tornaram o esporte nacional. Estão ao alcance até das crianças, inclusive como banqueiras —no Instagram, há influencers de 8 anos agitando notas de R$ 100 e prometendo dinheiro à vista no Jogo do Tigrinho. A palavra "bet" se incorporou à língua.
Nunca se jogou tanto no Brasil. As apostas parecem tomar 100% da publicidade em todas as mídias. É uma indústria que já movimenta R$ 100 bilhões no país, em ganhos para poucos e quebradeira para muitos. O governo tem outras preocupações. Firma-se a ideia de que é fácil ficar milionário e que trabalhar é para otários.
Zweig tinha razão.
Assim escreveu o vienense Zweig em "Brasil, País do Futuro", livro que publicou em 1941 e foi destroçado pela nossa imprensa. Zweig, judeu refugiado no país, foi acusado de tê-lo escrito por um visto de permanência. Era mentira, mas, como não podiam desafiar a censura e atacar a ditadura de Getulio, os críticos foram a ele. Um dos argumentos era sua descrição da mania brasileira pelos jogos de azar, incluindo os cassinos e o jogo do bicho. Disseram que não era verdade. Mas todos sabiam que era —e, como a história provou, sempre seria.
Nos anos 1970, tivemos o boom da Bolsa. Depois, a inacreditável obsessão pela loteria esportiva. Mais alguns anos, a febre dos bingos. E, há pouco, a da mega-sena. Mas esta tem agora um concorrente: as bets, em que se pode jogar pelo online e se tornaram o esporte nacional. Estão ao alcance até das crianças, inclusive como banqueiras —no Instagram, há influencers de 8 anos agitando notas de R$ 100 e prometendo dinheiro à vista no Jogo do Tigrinho. A palavra "bet" se incorporou à língua.
Nunca se jogou tanto no Brasil. As apostas parecem tomar 100% da publicidade em todas as mídias. É uma indústria que já movimenta R$ 100 bilhões no país, em ganhos para poucos e quebradeira para muitos. O governo tem outras preocupações. Firma-se a ideia de que é fácil ficar milionário e que trabalhar é para otários.
Zweig tinha razão.
Haja espaço para caber
O espaço é grande. Grande, mesmo. Não dá pra acreditar o quanto ele é desmesuradamente inconcebivelmente estonteantemente grande. Você pode achar que da sua casa até a farmácia é longe, mas isso não é nada em comparação com o espaço
Douglas Adams, "O Guia do Mochileiro das Galáxias"
Douglas Adams, "O Guia do Mochileiro das Galáxias"
Congresso ignora um país que arde
O Congresso adora se queixar de que os demais Poderes, quase sempre o Judiciário, atropelam suas atribuições e legislam em seu lugar. Mas onde está o Parlamento brasileiro no momento em que quase todo o território nacional está debaixo de fogo ou de fumaça carregada por esses incêndios, com graves consequências para o meio ambiente, a saúde pública e a economia? Está envolvido demais em suas próprias pautas, que em nada interessam ao conjunto da sociedade.
Não bastasse o segundo semestre ter sido decretado um grande ponto facultativo em razão das eleições municipais, nas poucas semanas em que se dignaram a bater ponto em Brasília, os congressistas decidiram reduzir a pauta a resolver o problema das emendas, a conchavos para a sucessão nas mesas da Câmara e do Senado e à agenda pessoal de Jair Bolsonaro. Nada mais descolado da realidade de um país que assiste a rios secarem e tem dificuldade para respirar.
A terça-feira não poderia ter sido mais sintomática desse descolamento da realidade por parte do Legislativo. Enquanto Lula se deslocava à Amazônia com uma caravana de ministros, e o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinava ações para o Executivo — em mais uma dessas bolas divididas que têm se tornado mais e mais frequentes —, os deputados passaram o dia envolvidos em fofoca e numa tentativa canhestra por parte da extrema direita de aprovar um projeto de anistia aos golpistas do 8 de Janeiro.
Claro que o foco não são os executores do vandalismo que tomou de assalto as sedes dos três Poderes no início de 2023, mas os mandantes, financiadores e idealizadores dos atos, cujo julgamento está para acontecer. Em resumo, Bolsonaro e aqueles que, ainda na Presidência, ele arregimentou para um plano continuado de desestabilização do processo eleitoral e da transição de poder.
Depois de tomar para si o 7 de Setembro, transformado numa espécie de evento fixo do calendário de culto à personalidade, Bolsonaro enxergou noutra discussão alheia aos interesses da maioria da população, a troca de guarda no comando das duas Casas do Congresso, a oportunidade de encaixar a anistia para si e para os seu
Resolveu passar a chantagear os candidatos à presidência da Câmara, atrelando os votos de seu partido, o PL, à promessa de um dos postulantes ao cargo de Arthur Lira de que votará o trem da alegria para os golpistas. Com isso, bagunçou o coreto de Lira e do governo, que vinham apostando em relativa tranquilidade para construir maioria em torno do nome de Hugo Motta, do Republicanos, um azarão que correu por fora na disputa pela valiosa cadeira.
Diante das cenas cada vez mais flamejantes de um país que arde, e das consequências graves para o fornecimento de energia elétrica e para as lavouras e pastagens, para ficar apenas em alguns setores que sofrem com os incêndios e a estiagem, os senhores parlamentares deverão começar a falar do assunto que até aqui desprezaram nos próximos dias, essa é uma certeza. Mas então já estará evidenciado o efeito nefasto da paulatina transformação do Congresso Nacional numa caixa de ressonância pura e simples da polarização ideológica, que tem capturado os debates e relegado ao segundo plano assuntos urgentes, sobretudo neste ano.
Enquanto a pauta negacionista e golpista galopa no Salão Verde, cabe, de novo, a um ministro do Supremo tomar decisões. As medidas determinadas por Dino, desta vez, incomodam também o governo, que tem de executá-las. Mas é o tal negócio: não existe vácuo de poder. E, diante de uma situação cada vez mais evidente de que a emergência climática virou tema permanente, alguns parecem ter acordado mais rapidamente que outros.
Vera Magalhães
Não bastasse o segundo semestre ter sido decretado um grande ponto facultativo em razão das eleições municipais, nas poucas semanas em que se dignaram a bater ponto em Brasília, os congressistas decidiram reduzir a pauta a resolver o problema das emendas, a conchavos para a sucessão nas mesas da Câmara e do Senado e à agenda pessoal de Jair Bolsonaro. Nada mais descolado da realidade de um país que assiste a rios secarem e tem dificuldade para respirar.
A terça-feira não poderia ter sido mais sintomática desse descolamento da realidade por parte do Legislativo. Enquanto Lula se deslocava à Amazônia com uma caravana de ministros, e o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinava ações para o Executivo — em mais uma dessas bolas divididas que têm se tornado mais e mais frequentes —, os deputados passaram o dia envolvidos em fofoca e numa tentativa canhestra por parte da extrema direita de aprovar um projeto de anistia aos golpistas do 8 de Janeiro.
Claro que o foco não são os executores do vandalismo que tomou de assalto as sedes dos três Poderes no início de 2023, mas os mandantes, financiadores e idealizadores dos atos, cujo julgamento está para acontecer. Em resumo, Bolsonaro e aqueles que, ainda na Presidência, ele arregimentou para um plano continuado de desestabilização do processo eleitoral e da transição de poder.
Depois de tomar para si o 7 de Setembro, transformado numa espécie de evento fixo do calendário de culto à personalidade, Bolsonaro enxergou noutra discussão alheia aos interesses da maioria da população, a troca de guarda no comando das duas Casas do Congresso, a oportunidade de encaixar a anistia para si e para os seu
Resolveu passar a chantagear os candidatos à presidência da Câmara, atrelando os votos de seu partido, o PL, à promessa de um dos postulantes ao cargo de Arthur Lira de que votará o trem da alegria para os golpistas. Com isso, bagunçou o coreto de Lira e do governo, que vinham apostando em relativa tranquilidade para construir maioria em torno do nome de Hugo Motta, do Republicanos, um azarão que correu por fora na disputa pela valiosa cadeira.
Diante das cenas cada vez mais flamejantes de um país que arde, e das consequências graves para o fornecimento de energia elétrica e para as lavouras e pastagens, para ficar apenas em alguns setores que sofrem com os incêndios e a estiagem, os senhores parlamentares deverão começar a falar do assunto que até aqui desprezaram nos próximos dias, essa é uma certeza. Mas então já estará evidenciado o efeito nefasto da paulatina transformação do Congresso Nacional numa caixa de ressonância pura e simples da polarização ideológica, que tem capturado os debates e relegado ao segundo plano assuntos urgentes, sobretudo neste ano.
Enquanto a pauta negacionista e golpista galopa no Salão Verde, cabe, de novo, a um ministro do Supremo tomar decisões. As medidas determinadas por Dino, desta vez, incomodam também o governo, que tem de executá-las. Mas é o tal negócio: não existe vácuo de poder. E, diante de uma situação cada vez mais evidente de que a emergência climática virou tema permanente, alguns parecem ter acordado mais rapidamente que outros.
Vera Magalhães
quarta-feira, 11 de setembro de 2024
País não sabe agir diante dos incêndios
O Brasil está em chamas, sofrendo uma amarga mudança em sua relação com a natureza. Uma transformação jamais pensada porque o país era imaginado como “coração do mundo, pátria do Evangelho”, estava protegido dos desastres naturais.
Abrigados por Deus e pela Virgem, estávamos livres para fazer tudo com nossas matas, montanhas e rios. Até que surgiu a tal “mudança climática” — obra de comunistas e malvados capitalistas. Sua última encarnação é o bandoleiro golpista Elon Musk, que abriu o perturbador baú da informação com liberdade — mercadorias funestas porque obrigam a discutir limites, sobretudo para o enraizado elitismo que os rejeita.
Estávamos a salvo e “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”. Dormitávamos numa terra açucarada, movida a escravidão africana e baronatos amulatados. Não precisávamos de segregação porque todos os inferiores conheciam seus lugares. Desse modo, a massa de imigrantes-escravos finalizou a modelagem de uma cruel hierarquia social que nosso elitismo de direita e esquerda jamais percebeu.
Hoje, entretanto, nos damos conta de que o governo não tem instrumentos ou capacidade para lidar com os problemas fora de uma esclerosada politicagem personalista, que reduz questões sociais a pessoas.
Nessa velha politicagem, basta um discurso veemente, um churrasco ou um encontro discreto, regado a troca de privilégios em alguma “Bras”, para selar “soluções” que significam adiamentos, porque “mexer nisso dá muito problema”.
O sistema político, a despeito de suas iniquidades, contradições e ineficácia, ganha em estabilidade, tornando-se um fosso de contradições. Ambiguidades que, no plano legal e ético, despertam e lamentavelmente justificam todas as desconfianças, engendrando os aventureiros que podem terminar no seu cume.
O que fazer — perguntam os “povos originais” ao lado de quem tem um mínimo de senso — com um sistema cujo projeto consiste precisamente em confundir progresso civilizatório com derrubada, poluição, contrabando, contravenção e desmatamento?
Tudo se passa como se fôssemos vítimas de nossos costumes. Como se fôssemos dominados por um viés antitransformação que nos obriga a viver a História sem viver as transformações que o devir histórico obriga a realizar. Negamos ou pouco valorizamos nossas conquistas e avanços se eles forem obras de adversários — o que mostra como, na política, o outro conta mais que o Brasil.
Quando um partido político que se pensa como inovador classifica como “herança maldita” um plano que restituiu a universalidade da moeda, como o Plano Real, temos a prova de quanto somos conservadores, senão reacionários. Aliás, seria a Rússia reacionária por ainda ser comunista? E você, meu amigo, não acha que o comunismo de Lênin ficou tão idoso quanto o capitalismo de Rockefeller e Henry Ford, hoje confrontado com o capitalismo digitalizado de Musk e Trump?
Como disse noutra crônica, é preciso não misturar o conceito de polaridade, que faz parte da cognição humana, com polarização, que leva ao assassinato do novo antes mesmo de conhecê-lo. E produz um reacionarismo incapaz de distinguir progresso, desde que esse progresso venha do outro: do bandido suspeito.
O tal solucionar não solucionando que tipifica o sistema em que somos “educados” para concordar com tudo e esperar — porque um dia “tudo será resolvido”— tem marcado nosso viés político. A tal ponto que hoje, além dos confrontos rotineiros entre posicionamentos ideológicos, temos de agir concreta e resolutamente para fazer face às devastações climáticas. Um tipo de problema que nossa cosmologia católico-jesuítica jamais poderia prever. Pois, nela, o mundo não seria feito por nossa ações, mas por artes divinas, e seria imutável. Foi essa relação entre nosso “Brasil brasileiro” e a natureza — esta terra que tudo produz — que mudou e hoje se agrava numa dinâmica que nosso sistema governamental, voltado para si próprio, é incapaz de enfrentar. O Brasil está, pois, em meio a fogos ideológicos e incêndios históricos. Haja Apocalipse...
Abrigados por Deus e pela Virgem, estávamos livres para fazer tudo com nossas matas, montanhas e rios. Até que surgiu a tal “mudança climática” — obra de comunistas e malvados capitalistas. Sua última encarnação é o bandoleiro golpista Elon Musk, que abriu o perturbador baú da informação com liberdade — mercadorias funestas porque obrigam a discutir limites, sobretudo para o enraizado elitismo que os rejeita.
Estávamos a salvo e “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”. Dormitávamos numa terra açucarada, movida a escravidão africana e baronatos amulatados. Não precisávamos de segregação porque todos os inferiores conheciam seus lugares. Desse modo, a massa de imigrantes-escravos finalizou a modelagem de uma cruel hierarquia social que nosso elitismo de direita e esquerda jamais percebeu.
Hoje, entretanto, nos damos conta de que o governo não tem instrumentos ou capacidade para lidar com os problemas fora de uma esclerosada politicagem personalista, que reduz questões sociais a pessoas.
Nessa velha politicagem, basta um discurso veemente, um churrasco ou um encontro discreto, regado a troca de privilégios em alguma “Bras”, para selar “soluções” que significam adiamentos, porque “mexer nisso dá muito problema”.
O sistema político, a despeito de suas iniquidades, contradições e ineficácia, ganha em estabilidade, tornando-se um fosso de contradições. Ambiguidades que, no plano legal e ético, despertam e lamentavelmente justificam todas as desconfianças, engendrando os aventureiros que podem terminar no seu cume.
O que fazer — perguntam os “povos originais” ao lado de quem tem um mínimo de senso — com um sistema cujo projeto consiste precisamente em confundir progresso civilizatório com derrubada, poluição, contrabando, contravenção e desmatamento?
Tudo se passa como se fôssemos vítimas de nossos costumes. Como se fôssemos dominados por um viés antitransformação que nos obriga a viver a História sem viver as transformações que o devir histórico obriga a realizar. Negamos ou pouco valorizamos nossas conquistas e avanços se eles forem obras de adversários — o que mostra como, na política, o outro conta mais que o Brasil.
Quando um partido político que se pensa como inovador classifica como “herança maldita” um plano que restituiu a universalidade da moeda, como o Plano Real, temos a prova de quanto somos conservadores, senão reacionários. Aliás, seria a Rússia reacionária por ainda ser comunista? E você, meu amigo, não acha que o comunismo de Lênin ficou tão idoso quanto o capitalismo de Rockefeller e Henry Ford, hoje confrontado com o capitalismo digitalizado de Musk e Trump?
Como disse noutra crônica, é preciso não misturar o conceito de polaridade, que faz parte da cognição humana, com polarização, que leva ao assassinato do novo antes mesmo de conhecê-lo. E produz um reacionarismo incapaz de distinguir progresso, desde que esse progresso venha do outro: do bandido suspeito.
O tal solucionar não solucionando que tipifica o sistema em que somos “educados” para concordar com tudo e esperar — porque um dia “tudo será resolvido”— tem marcado nosso viés político. A tal ponto que hoje, além dos confrontos rotineiros entre posicionamentos ideológicos, temos de agir concreta e resolutamente para fazer face às devastações climáticas. Um tipo de problema que nossa cosmologia católico-jesuítica jamais poderia prever. Pois, nela, o mundo não seria feito por nossa ações, mas por artes divinas, e seria imutável. Foi essa relação entre nosso “Brasil brasileiro” e a natureza — esta terra que tudo produz — que mudou e hoje se agrava numa dinâmica que nosso sistema governamental, voltado para si próprio, é incapaz de enfrentar. O Brasil está, pois, em meio a fogos ideológicos e incêndios históricos. Haja Apocalipse...
Bolsonaro está desmoronando?
O bolsonarismo está destinado a perdurar como quadro da extrema direita brasileira, uma mistura de fascismo com conotações nazistas, que tenta se conectar com a nova direita que cresce no mundo, do bizarro ao perigoso, porque questiona os valores da democracia e assassina a essência da política com o seu extremismo.
O Brasil, com o capitão Jair Bolsonaro, que emergiu das trevas dos anos como deputado sem luz nem poder à Presidência da República de uma forma bizarra, uma mistura de messianismo religioso e anseios autoritários e até golpistas, criou uma revolução que ajudou a desenterrar uma direita que esperava por um líder depois dos governos lulistas de esquerda.
Se a pseudo-revolução de Bolsonaro serviu a algum propósito, foi para dar espaço a um direito que estava latente à espera de um líder e que contava com o apoio do grande capital e do desejo de liberalismo face a anos de políticas sociais que libertaram milhões de pessoas do inferno da fome. Hoje Bolsonaro, como ficou demonstrado na manifestação a seu favor e contra o poder do Supremo Tribunal Federal, realizada no mítico cenário da Avenida Paulista, a maior cidade da América Latina com 20 milhões de habitantes – a das grandes concentrações, que já recebeu meio milhão de pessoas no passado -, continua a ser uma referência para a bizarra extrema-direita. O legado da manifestação, vista à luz de alguns detalhes que por vezes apontam para o futuro, foi a crise de um mito em declínio.
Convocada no momento mais grave para Bolsonaro, que enfrenta mais de uma dezena de processos judiciais que podem levá-lo à prisão e que têm gerado dúvidas até entre seus seguidores mais próximos, a manifestação realizada no simbólico aniversário da República revelou alguns sinais de decadência do mito e uma espécie de carreira dos maiores líderes da direita. Para substituí-lo ou encurralá-lo.
Os números nas manifestações de protesto não são tudo, mas acabam tendo um valor simbólico que reflete a força do ídolo exaltado. Nas últimas cinco manifestações a favor de Bolsonaro, a do último sábado ganhou importância extra porque ocorreu às vésperas das eleições municipais que são vistas como o prelúdio das eleições presidenciais de 2026. Nelas, em jogo, a verdadeira força no poder local da extrema direita e o governo de centro-esquerda que luta pela reeleição de Lula.
É verdade que os números das manifestações são relativos, mas por vezes também significativos. A manifestação de sábado foi fundamental porque serviu de termómetro da força ainda viva de um bolonarismo que está em crise, mas não desapareceu.
No dia 25 de fevereiro deste ano, a manifestação a favor de Bolsonaro, acusado de ter tentado um golpe de estado militar, reuniu 185 mil pessoas em São Paulo. Foi uma multidão que impressionou a esquerda. Em 2022, também no dia 7 de setembro, festa da República, 64 mil pessoas participaram de uma manifestação na mítica praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. E agora, o que foi apresentado como contestação ao Supremo acusado de perseguição ao bolsonarismo? Segundo dados oficiais, compareceram apenas 45.700 pessoas, todas, como sempre, envoltas nas cores verde-amarela da bandeira nacional que os ultras de direita assumiram.
Mas talvez o que melhor revele um certo colapso do mito neste momento tenha sido uma série de detalhes que podem parecer insignificantes, mas que concentram um forte significado simbólico. E como dizem, o diabo está nos detalhes. No sábado, Bolsonaro teve que subir à tribuna da Avenida Paulista como vencedor, o “imortal”, como se define na medalha que oferece aos amigos e às autoridades internacionais. E esperava que eles estivessem ao seu lado, não apenas apoiando-o em sua contestação ao Supremo Tribunal Federal, mas também apoiando-o, aqueles que aspiram a sucedê-lo, entre eles um punhado de governadores que se formam para entrar na área como seus sucessores. Não foi assim. Muitos deles preferiram ficar em casa e observar os touros do lado de fora.
E talvez o mais simbólico do evento e o que mais exasperou Bolsonaro foi o fato de Bolsonaro estar prestes a não poder comparecer ao evento. Ele mesmo, o político que costuma exibir seu machismo, sua força, seu desprezo pelo feminino, seu amor por se exibir em grandes motos ou cavalos de corrida como os antigos imperadores, o imbatível que Deus, segundo ele, tirou a salvo da faca recebeu na barriga no meio da campanha que o levou à vitória e que de alguma forma o santificou.
Na verdade, ele acordou na manhã da manifestação sem voz, doente. Ele foi levado às pressas para o hospital enquanto seus seguidores o esperavam como um deus imortal. No final, conseguiu conquistar a torcida, embora ainda quase sem voz e com menos presença do que o previsível. Bolsonaro não escondia sua irritação. Será que não só os milhares de seguidores começaram a abandoná-lo, mas também os possíveis substitutos de uma direita que já existia e espera que alguém levanta a sua bandeira?
Essa direita, nem sempre extremista, liberal, anti-social, lutava há algum tempo para chegar ao poder. Embora a tinta do bolsonarismo esteja sempre em suas mãos, não será mais a do capitão que começa a vislumbrar o fim de seus sonhos de dar um golpe de estado e acabar com uma ditadura que, segundo ele, a brasileira , era muito mole e não sabia como liquidar com todos os “comunistas”.
Mas a manifestação a favor de Bolsonaro e da sua direita esdrúxula e perigosa ainda não acabou. Sua intensidade será medida no próximo dia 4 de outubro, data do comparecimento dos brasileiros às urnas. Do resultado, dependerá também a sorte da possível e desejada reeleição de Lula.
Se a pseudo-revolução de Bolsonaro serviu a algum propósito, foi para dar espaço a um direito que estava latente à espera de um líder e que contava com o apoio do grande capital e do desejo de liberalismo face a anos de políticas sociais que libertaram milhões de pessoas do inferno da fome. Hoje Bolsonaro, como ficou demonstrado na manifestação a seu favor e contra o poder do Supremo Tribunal Federal, realizada no mítico cenário da Avenida Paulista, a maior cidade da América Latina com 20 milhões de habitantes – a das grandes concentrações, que já recebeu meio milhão de pessoas no passado -, continua a ser uma referência para a bizarra extrema-direita. O legado da manifestação, vista à luz de alguns detalhes que por vezes apontam para o futuro, foi a crise de um mito em declínio.
Convocada no momento mais grave para Bolsonaro, que enfrenta mais de uma dezena de processos judiciais que podem levá-lo à prisão e que têm gerado dúvidas até entre seus seguidores mais próximos, a manifestação realizada no simbólico aniversário da República revelou alguns sinais de decadência do mito e uma espécie de carreira dos maiores líderes da direita. Para substituí-lo ou encurralá-lo.
Os números nas manifestações de protesto não são tudo, mas acabam tendo um valor simbólico que reflete a força do ídolo exaltado. Nas últimas cinco manifestações a favor de Bolsonaro, a do último sábado ganhou importância extra porque ocorreu às vésperas das eleições municipais que são vistas como o prelúdio das eleições presidenciais de 2026. Nelas, em jogo, a verdadeira força no poder local da extrema direita e o governo de centro-esquerda que luta pela reeleição de Lula.
É verdade que os números das manifestações são relativos, mas por vezes também significativos. A manifestação de sábado foi fundamental porque serviu de termómetro da força ainda viva de um bolonarismo que está em crise, mas não desapareceu.
No dia 25 de fevereiro deste ano, a manifestação a favor de Bolsonaro, acusado de ter tentado um golpe de estado militar, reuniu 185 mil pessoas em São Paulo. Foi uma multidão que impressionou a esquerda. Em 2022, também no dia 7 de setembro, festa da República, 64 mil pessoas participaram de uma manifestação na mítica praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. E agora, o que foi apresentado como contestação ao Supremo acusado de perseguição ao bolsonarismo? Segundo dados oficiais, compareceram apenas 45.700 pessoas, todas, como sempre, envoltas nas cores verde-amarela da bandeira nacional que os ultras de direita assumiram.
Mas talvez o que melhor revele um certo colapso do mito neste momento tenha sido uma série de detalhes que podem parecer insignificantes, mas que concentram um forte significado simbólico. E como dizem, o diabo está nos detalhes. No sábado, Bolsonaro teve que subir à tribuna da Avenida Paulista como vencedor, o “imortal”, como se define na medalha que oferece aos amigos e às autoridades internacionais. E esperava que eles estivessem ao seu lado, não apenas apoiando-o em sua contestação ao Supremo Tribunal Federal, mas também apoiando-o, aqueles que aspiram a sucedê-lo, entre eles um punhado de governadores que se formam para entrar na área como seus sucessores. Não foi assim. Muitos deles preferiram ficar em casa e observar os touros do lado de fora.
E talvez o mais simbólico do evento e o que mais exasperou Bolsonaro foi o fato de Bolsonaro estar prestes a não poder comparecer ao evento. Ele mesmo, o político que costuma exibir seu machismo, sua força, seu desprezo pelo feminino, seu amor por se exibir em grandes motos ou cavalos de corrida como os antigos imperadores, o imbatível que Deus, segundo ele, tirou a salvo da faca recebeu na barriga no meio da campanha que o levou à vitória e que de alguma forma o santificou.
Na verdade, ele acordou na manhã da manifestação sem voz, doente. Ele foi levado às pressas para o hospital enquanto seus seguidores o esperavam como um deus imortal. No final, conseguiu conquistar a torcida, embora ainda quase sem voz e com menos presença do que o previsível. Bolsonaro não escondia sua irritação. Será que não só os milhares de seguidores começaram a abandoná-lo, mas também os possíveis substitutos de uma direita que já existia e espera que alguém levanta a sua bandeira?
Essa direita, nem sempre extremista, liberal, anti-social, lutava há algum tempo para chegar ao poder. Embora a tinta do bolsonarismo esteja sempre em suas mãos, não será mais a do capitão que começa a vislumbrar o fim de seus sonhos de dar um golpe de estado e acabar com uma ditadura que, segundo ele, a brasileira , era muito mole e não sabia como liquidar com todos os “comunistas”.
Mas a manifestação a favor de Bolsonaro e da sua direita esdrúxula e perigosa ainda não acabou. Sua intensidade será medida no próximo dia 4 de outubro, data do comparecimento dos brasileiros às urnas. Do resultado, dependerá também a sorte da possível e desejada reeleição de Lula.
Desfazimentos e omissão
Com autoridade de ministra do Meio Ambiente e símbolo mundial na defesa da natureza e do desenvolvimento sustentável, Marina Silva disse que até o final deste século o Pantanal poderá deixar de existir. A responsabilidade por esse desfazimento não é apenas do Brasil: a crise ambiental é resultado de dois séculos, sobretudo sete décadas, de progresso mundial baseado na produção e consumo desenfreados.
Mas a responsabilidade do Brasil é especial, por termos uma das maiores economias, sermos o maior destruidor de florestas e não usarmos com seriedade nossa força política para defesa e exemplo de desenvolvimento sustentável. Apesar da ECO-92, Rio 20, da COP30, do Proálcool nos anos 1970 e do recente esforço na área de energia solar e eólica, o desfazimento que a ministra denuncia para o Pantanal pode ser percebido também para as demais florestas, inclusive a Amazônica, para os rios e as cidades. No mesmo ano em que organizamos a realização da COP30, comemoramos o aumento na produção de petróleo e estamos caminhando para autorizar sua exploração no mar a pouca distância da foz do Rio Amazonas e da cidade onde essa reunião ocorrerá. A destruição de nosso patrimônio natural é apenas uma mostra dos significativos desfazimentos que ocorrem no Brasil.
A violência urbana mostra o desfazimento do tecido social corrompido pela insegurança que caracteriza a sociedade brasileira, cercada e assustada, ameaçada por balas perdidas, assaltos e altíssimos índices de assassinatos; suas crianças impedidas de irem à escola enquanto bandidos e policiais não adotam trégua entre eles. A desconfiança e o medo são provas do desfazimento da convivialidade em cidades partidas por apartação social, com parcela presa em condomínios e parte jogada em calçadas.
A prática política é demonstração e causa de desfazimento pela corrupção generalizada, gigantescos saques e assaltos dos recursos do povo, apropriados ou roubados sob o título de emendas parlamentares enormes e sem destinação de interesse público, e pela perda de credibilidade e legitimidade na democracia usada para atender aos interesses dos políticos e dos partidos enredados no individualismo, imediatismo, eleitoralismo, sem causas e sem propósitos. O Brasil também se desfaz pela instabilidade das regras e da prática do sistema jurídico, movido muitas vezes por razões políticas, não por justiça. A união da corrupção política com a instabilidade jurídica leva ao desfazimento da democracia.
A impunidade, como o crime é tratado, especialmente, o roubo chamado de corrupção, contribui para desfazer o Brasil. Sobretudo quando se percebe a força das milícias e do crime organizado, em cidades e regiões como a Amazônia. O crescimento da dependência das drogas e a ocupação de cidades por cracolândias demonstram um desfazimento do Brasil. No lugar de reduzir a impunidade, a prisão de quase um milhão de criminosos em condições desumanas, a maioria negros, pobres e analfabetos, aumenta o sentimento de desfazimento. Igualmente indicadores são os milhões de jovens que resistem e não caem na tentação da droga, para o consumo ou o tráfico, mas sobrevivem sem escola e sem emprego, sem sonhos e sem perspectivas. Muitos deles sonhando apenas em emigrar para fugir pessoalmente do desfazimento.
O maior exemplo do desfazimento nacional está na permanência da pobreza e da desigualdade social, que assumem o atual quadro de apartação, com a população tão dividida e segregada em condomínios ou favelas que a ideia de nação parece extemporânea. De tão antigo, esse desfazimento social decorre sobretudo da omissão ao longo de décadas ignorando a necessidade de um sistema nacional robusto de educação de base para todos, independentemente da renda ou do endereço da família. Incinerando patrimônio maior do que o Pantanal: o potencial dos cérebros das crianças deixadas sem a educação de base, despreparadas para a busca da felicidade pessoal e para a construção do progresso econômico, com justiça social e equilíbrio ecológico.
A ministra símbolo mundial da ecologia nos alertou para o caso do Pantanal, mas não deve ficar omissa diante dos muitos outros incêndios que desfazem o Brasil em outros setores, especialmente o maior deles: o desprezo pela educação de base. O Brasil precisa enfrentar e punir os que fazem incêndios de florestas, mas também os que ficam omissos diante do descuido com a educação de qualidade para nossas crianças.
Mas a responsabilidade do Brasil é especial, por termos uma das maiores economias, sermos o maior destruidor de florestas e não usarmos com seriedade nossa força política para defesa e exemplo de desenvolvimento sustentável. Apesar da ECO-92, Rio 20, da COP30, do Proálcool nos anos 1970 e do recente esforço na área de energia solar e eólica, o desfazimento que a ministra denuncia para o Pantanal pode ser percebido também para as demais florestas, inclusive a Amazônica, para os rios e as cidades. No mesmo ano em que organizamos a realização da COP30, comemoramos o aumento na produção de petróleo e estamos caminhando para autorizar sua exploração no mar a pouca distância da foz do Rio Amazonas e da cidade onde essa reunião ocorrerá. A destruição de nosso patrimônio natural é apenas uma mostra dos significativos desfazimentos que ocorrem no Brasil.
A violência urbana mostra o desfazimento do tecido social corrompido pela insegurança que caracteriza a sociedade brasileira, cercada e assustada, ameaçada por balas perdidas, assaltos e altíssimos índices de assassinatos; suas crianças impedidas de irem à escola enquanto bandidos e policiais não adotam trégua entre eles. A desconfiança e o medo são provas do desfazimento da convivialidade em cidades partidas por apartação social, com parcela presa em condomínios e parte jogada em calçadas.
A prática política é demonstração e causa de desfazimento pela corrupção generalizada, gigantescos saques e assaltos dos recursos do povo, apropriados ou roubados sob o título de emendas parlamentares enormes e sem destinação de interesse público, e pela perda de credibilidade e legitimidade na democracia usada para atender aos interesses dos políticos e dos partidos enredados no individualismo, imediatismo, eleitoralismo, sem causas e sem propósitos. O Brasil também se desfaz pela instabilidade das regras e da prática do sistema jurídico, movido muitas vezes por razões políticas, não por justiça. A união da corrupção política com a instabilidade jurídica leva ao desfazimento da democracia.
A impunidade, como o crime é tratado, especialmente, o roubo chamado de corrupção, contribui para desfazer o Brasil. Sobretudo quando se percebe a força das milícias e do crime organizado, em cidades e regiões como a Amazônia. O crescimento da dependência das drogas e a ocupação de cidades por cracolândias demonstram um desfazimento do Brasil. No lugar de reduzir a impunidade, a prisão de quase um milhão de criminosos em condições desumanas, a maioria negros, pobres e analfabetos, aumenta o sentimento de desfazimento. Igualmente indicadores são os milhões de jovens que resistem e não caem na tentação da droga, para o consumo ou o tráfico, mas sobrevivem sem escola e sem emprego, sem sonhos e sem perspectivas. Muitos deles sonhando apenas em emigrar para fugir pessoalmente do desfazimento.
O maior exemplo do desfazimento nacional está na permanência da pobreza e da desigualdade social, que assumem o atual quadro de apartação, com a população tão dividida e segregada em condomínios ou favelas que a ideia de nação parece extemporânea. De tão antigo, esse desfazimento social decorre sobretudo da omissão ao longo de décadas ignorando a necessidade de um sistema nacional robusto de educação de base para todos, independentemente da renda ou do endereço da família. Incinerando patrimônio maior do que o Pantanal: o potencial dos cérebros das crianças deixadas sem a educação de base, despreparadas para a busca da felicidade pessoal e para a construção do progresso econômico, com justiça social e equilíbrio ecológico.
A ministra símbolo mundial da ecologia nos alertou para o caso do Pantanal, mas não deve ficar omissa diante dos muitos outros incêndios que desfazem o Brasil em outros setores, especialmente o maior deles: o desprezo pela educação de base. O Brasil precisa enfrentar e punir os que fazem incêndios de florestas, mas também os que ficam omissos diante do descuido com a educação de qualidade para nossas crianças.
segunda-feira, 9 de setembro de 2024
Riqueza fascina nas redes e na política
Há duas semanas, eu disse na TV que Pablo Marçal usava uma aura de sucesso profissional e prosperidade para seduzir a juventude da periferia. As patrulhas caíram em cima, por acharem que não o criticava com vigor. Ignoram meus artigos e não percebem que eu apenas buscava uma vereda de análise para entender um fenômeno político.
Com a prisão no Recife da advogada Deolane Bezerra, posso voltar ao tema, com um pouco de calma. Ela tem 20 milhões de seguidores. O exame de suas postagens nas redes sociais mostra Deolane testando carros de luxo, navegando com a família, saindo carregada de compras de uma loja da Louis Vuitton. Tudo com a ajuda de Deus.
As pessoas parecem se identificar com os que amealham grandes fortunas, sem se questionar muito sobre os métodos usados. Quem conhece melhor que eu comunidades pobres costuma dizer que os meninos que trabalham para o tráfico de drogas parecem mais atraentes para as garotas porque ostentam um nível de consumo maior.
Uma das minhas hipóteses é que essa vertente que se revela na política é inspirada pelo sucesso pentecostal da Teologia da Prosperidade. Muitas denominações religiosas apresentam a prosperidade como uma espécie de amor divino e argumentam com esta passagem da Bíblia, em João 10:10:
— Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.
Naturalmente, o favor divino é atrelado à generosidade com que se paga o dízimo. Quanto maiores as doações à igreja, maior será o retorno financeiro como resposta divina.
A Teologia da Prosperidade é alvo de controvérsia entre religiosos que centram sua vida espiritual no amor ao próximo, independente de riqueza pessoal. Mas o conflito maior se dá na projeção política. Se a esquerda não fosse tão entorpecida, poderia compreender a Teologia da Prosperidade como algo que desafia as propostas de políticas públicas em busca de segurança coletiva. Educação de qualidade, serviços de saúde eficazes e saneamento só se tornam um antídoto contra essa ilusão de enriquecimento pessoal nos lugares onde funcionam. Mesmo assim, como pude testemunhar nos longos anos vividos na Escandinávia, muita gente reclama do Estado de Bem-Estar porque, segundo dizem, os impostos altos reduzem seu crescimento individual.
No caso brasileiro, a julgar pelas manifestações de 2013, não se confia mais em partido político. Mesmo aqueles que adotam o discurso do bem-estar coletivo são vistos como usando um disfarce para esconder aquilo que realmente interessa: o enriquecimento pessoal. As denúncias de corrupção em governos servem para confirmar a suspeita de que a realidade é a busca pessoal de enriquecimento, e a segurança coletiva apenas uma cantiga para ninar os ingênuos.
Com esse contrabando das práticas religiosas para a política, não teremos adiante apenas um grande número de candidatos ostentando luxo e prometendo-o a seus potenciais eleitores. Muito possivelmente, tentarão fazer milagres, estimulando paralítico a andar, prometendo curas para todas as doenças. Quando o espaço político entra em decadência, começa não só o paraíso da aventura, mas torna-se mais fraca a própria mensagem religiosa de amor ao próximo e solidariedade.
O caminho não é fazer o elogio da pobreza, muito menos defender a segurança coletiva desprezando a singularidade individual. As políticas públicas precisam funcionar, e a prosperidade obedecer a alguns princípios éticos, não pode florescer à margem da lei.
Neste momento, as perspectivas são desoladoras. O país arde, e a elite política trata incêndios como algo que acontece no Afeganistão. É cedo para afirmar, mas pode ser que a campanha americana produza alguma indicação de como combater a antipolítica sem cair no terreno pantanoso da pura troca de acusações.
Fernando Gabeira
Com a prisão no Recife da advogada Deolane Bezerra, posso voltar ao tema, com um pouco de calma. Ela tem 20 milhões de seguidores. O exame de suas postagens nas redes sociais mostra Deolane testando carros de luxo, navegando com a família, saindo carregada de compras de uma loja da Louis Vuitton. Tudo com a ajuda de Deus.
As pessoas parecem se identificar com os que amealham grandes fortunas, sem se questionar muito sobre os métodos usados. Quem conhece melhor que eu comunidades pobres costuma dizer que os meninos que trabalham para o tráfico de drogas parecem mais atraentes para as garotas porque ostentam um nível de consumo maior.
Uma das minhas hipóteses é que essa vertente que se revela na política é inspirada pelo sucesso pentecostal da Teologia da Prosperidade. Muitas denominações religiosas apresentam a prosperidade como uma espécie de amor divino e argumentam com esta passagem da Bíblia, em João 10:10:
— Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.
Naturalmente, o favor divino é atrelado à generosidade com que se paga o dízimo. Quanto maiores as doações à igreja, maior será o retorno financeiro como resposta divina.
A Teologia da Prosperidade é alvo de controvérsia entre religiosos que centram sua vida espiritual no amor ao próximo, independente de riqueza pessoal. Mas o conflito maior se dá na projeção política. Se a esquerda não fosse tão entorpecida, poderia compreender a Teologia da Prosperidade como algo que desafia as propostas de políticas públicas em busca de segurança coletiva. Educação de qualidade, serviços de saúde eficazes e saneamento só se tornam um antídoto contra essa ilusão de enriquecimento pessoal nos lugares onde funcionam. Mesmo assim, como pude testemunhar nos longos anos vividos na Escandinávia, muita gente reclama do Estado de Bem-Estar porque, segundo dizem, os impostos altos reduzem seu crescimento individual.
No caso brasileiro, a julgar pelas manifestações de 2013, não se confia mais em partido político. Mesmo aqueles que adotam o discurso do bem-estar coletivo são vistos como usando um disfarce para esconder aquilo que realmente interessa: o enriquecimento pessoal. As denúncias de corrupção em governos servem para confirmar a suspeita de que a realidade é a busca pessoal de enriquecimento, e a segurança coletiva apenas uma cantiga para ninar os ingênuos.
Com esse contrabando das práticas religiosas para a política, não teremos adiante apenas um grande número de candidatos ostentando luxo e prometendo-o a seus potenciais eleitores. Muito possivelmente, tentarão fazer milagres, estimulando paralítico a andar, prometendo curas para todas as doenças. Quando o espaço político entra em decadência, começa não só o paraíso da aventura, mas torna-se mais fraca a própria mensagem religiosa de amor ao próximo e solidariedade.
O caminho não é fazer o elogio da pobreza, muito menos defender a segurança coletiva desprezando a singularidade individual. As políticas públicas precisam funcionar, e a prosperidade obedecer a alguns princípios éticos, não pode florescer à margem da lei.
Neste momento, as perspectivas são desoladoras. O país arde, e a elite política trata incêndios como algo que acontece no Afeganistão. É cedo para afirmar, mas pode ser que a campanha americana produza alguma indicação de como combater a antipolítica sem cair no terreno pantanoso da pura troca de acusações.
Fernando Gabeira
A leveza do ser já era
Como o silêncio não entra na prioridade das políticas públicas, os ônibus continuam fazendo seu barulho metálico nas ruas. Aliás, quais seriam essas prioridades? Ninguém discute. O que vemos por aí são candidatos vestidos da antipolítica agarrados a um humor de baixo nível, o que parece fundamental para angariar votos. Saudades do macaco Tião, voto de protesto, sim, mas incapaz de entregar a coroa aos patifes que a querem só para si.
Atualmente, novos patifes. Ou canalhas. Gosto tanto desta palavra. Salve Nelson Rodrigues, um de seus cultuadores. Volto ao raciocínio. Os novos canalhas não querem apenas roubar o erário, mas, em nome – e só em nome – de não roubar, anseiam destruir o que é público. E por razão nenhuma. Quer dizer, alguns candidatos não têm a menor ideia do que querem. São eficientes em manipular o mundo virtual, embora ideologicamente não passem de títeres em mãos para lá de gananciosas e poderosas. E só. O presidente anterior foi o que foi, um desastre. Mas isso não parece depor contra ele e seus seguidores amestrados. A cidade de São Paulo corre o risco de ser entregue a um sujeito que, na pele de um coach, meteu seus seguidores numa fria, perdidos na floresta. Não fosse o corpo de bombeiro. Mas ele, se chegar à prefeitura, acabará com o corpo de bombeiro. Quer dizer, acabaria, caso fosse de sua alçada. É a turma do incêndio. Dos que aumentarão o subsídio aos que investirem no barulho metálico dos ônibus e promoverão o fim das campanhas de vacinação. Dos que permitirão a volta dos cigarros em ambientes públicos fechados. Tudo em nome de Deus, contra o qual, desconfio, lutam, pois, não sendo nem ateus nem agnósticos, estão na trincheira do diabo.
Disse a uma amiga que sou um cara leve. É verdade, as coisas estão ruindo – pessoal ou socialmente – e estou fazendo graça, fiel à ironia. Aprendi a ser assim. Meu pai e o mundo em torno dele eram assim. Paciência. Mas ultimamente transpus a fronteira. Piso agora o solo do pessimismo (não ainda o do mau humor). Os ônibus continuarão a fazer seu barulho metálico, às nove da manhã, às três da tarde, às dez da noite e, quando passam, em plena madrugada. Que se dane o sono dos justos e dos injustos. O meu, antes tão profundo, hoje com o pé na insônia, não é interrompido pelos ônibus, pelos tiros nas comunidades mais ou menos perto – nas quais, devo confessar, os conflitos não têm sido tão comuns –, pela saída noturna do filho, pela cirurgia que a prima fez, pelos perrengues dos amigos e os meus. O meu sono picotado responde ao fato de minha leveza ter ido para o vinagre, e com ela lá vai indo minha saúde (não se assustem, por enquanto é uma metáfora).
Atualmente, novos patifes. Ou canalhas. Gosto tanto desta palavra. Salve Nelson Rodrigues, um de seus cultuadores. Volto ao raciocínio. Os novos canalhas não querem apenas roubar o erário, mas, em nome – e só em nome – de não roubar, anseiam destruir o que é público. E por razão nenhuma. Quer dizer, alguns candidatos não têm a menor ideia do que querem. São eficientes em manipular o mundo virtual, embora ideologicamente não passem de títeres em mãos para lá de gananciosas e poderosas. E só. O presidente anterior foi o que foi, um desastre. Mas isso não parece depor contra ele e seus seguidores amestrados. A cidade de São Paulo corre o risco de ser entregue a um sujeito que, na pele de um coach, meteu seus seguidores numa fria, perdidos na floresta. Não fosse o corpo de bombeiro. Mas ele, se chegar à prefeitura, acabará com o corpo de bombeiro. Quer dizer, acabaria, caso fosse de sua alçada. É a turma do incêndio. Dos que aumentarão o subsídio aos que investirem no barulho metálico dos ônibus e promoverão o fim das campanhas de vacinação. Dos que permitirão a volta dos cigarros em ambientes públicos fechados. Tudo em nome de Deus, contra o qual, desconfio, lutam, pois, não sendo nem ateus nem agnósticos, estão na trincheira do diabo.
Disse a uma amiga que sou um cara leve. É verdade, as coisas estão ruindo – pessoal ou socialmente – e estou fazendo graça, fiel à ironia. Aprendi a ser assim. Meu pai e o mundo em torno dele eram assim. Paciência. Mas ultimamente transpus a fronteira. Piso agora o solo do pessimismo (não ainda o do mau humor). Os ônibus continuarão a fazer seu barulho metálico, às nove da manhã, às três da tarde, às dez da noite e, quando passam, em plena madrugada. Que se dane o sono dos justos e dos injustos. O meu, antes tão profundo, hoje com o pé na insônia, não é interrompido pelos ônibus, pelos tiros nas comunidades mais ou menos perto – nas quais, devo confessar, os conflitos não têm sido tão comuns –, pela saída noturna do filho, pela cirurgia que a prima fez, pelos perrengues dos amigos e os meus. O meu sono picotado responde ao fato de minha leveza ter ido para o vinagre, e com ela lá vai indo minha saúde (não se assustem, por enquanto é uma metáfora).
Pensar dói?
Pesquisadores da Universidade Raboud, na Holanda, analisando cerca de 5.000 participantes de 358 tarefas cognitivas, chegaram à conclusão de que pensar dói. Não ria. A análise foi feita com o auxílio de um programa especial da Nasa, o que lhe dá mais autoridade do que a de pesquisadores limitados a só usar o cérebro. Pelo que entendi, certas atividades cerebrais, como fazer cálculos matemáticos, ler Gertrude Stein ou tomar decisões que envolvam um sim ou não de vida ou morte, provocam sensações orgânicas que podem ser classificadas como dolorosas.
Segundo o estudo, quanto maior o esforço mental, maior o desconforto físico. Não é preciso pensar muito para se chegar a este óbvio, por definição, ululante. O estudo não considera a hipótese de todo esforço mental ser relativo —para muitos, calcular uma reles raiz quadrada será uma tarefa intransponível, enquanto, para outros, discutir a Conjectura de Poincaré com Alfred North Whitehead pode ser tão simples como falar de futebol no botequim. O estudo, pelo menos, admitiu certa possibilidade de diferença entre as pessoas, citando estudantes universitários e militares —imagino que cada um numa ponta do espectro cognitivo.
O que me espanta é que a conclusão de que pensar dói tenha vindo de uma instituição da Holanda, país admirado por produzir pensadores em tantos ramos. Eram holandeses Erasmo de Roterdão (1466-1536) e Spinoza (1632-1677), dois pilares da filosofia, atividade cuja única ferramenta é o pensamento. E não há registro de que Erasmo e Spinoza sofressem de lumbago ou dor de dentes por pensar.
Holandeses foram enormes pintores como Van Gogh, Rembrandt, Hieronymus Bosch, Vermeer e De Kooning, e pintar envolve decidir em um segundo se se dá esta ou aquela pincelada. E alguns dos jogadores mais cerebrais da história do futebol eram holandeses —Cruyff, Van Basten, Gullitt, Neeskens, Bergkamp—, a provar que nem sempre o cérebro precisa estar na cabeça.
Os holandeses inventaram também a fita cassete, o CD e o DVD, e temos de lhes ser gratos por isso. Mas depois os desinventaram — e pensar nisso, sim, dói.
O que me espanta é que a conclusão de que pensar dói tenha vindo de uma instituição da Holanda, país admirado por produzir pensadores em tantos ramos. Eram holandeses Erasmo de Roterdão (1466-1536) e Spinoza (1632-1677), dois pilares da filosofia, atividade cuja única ferramenta é o pensamento. E não há registro de que Erasmo e Spinoza sofressem de lumbago ou dor de dentes por pensar.
Holandeses foram enormes pintores como Van Gogh, Rembrandt, Hieronymus Bosch, Vermeer e De Kooning, e pintar envolve decidir em um segundo se se dá esta ou aquela pincelada. E alguns dos jogadores mais cerebrais da história do futebol eram holandeses —Cruyff, Van Basten, Gullitt, Neeskens, Bergkamp—, a provar que nem sempre o cérebro precisa estar na cabeça.
Os holandeses inventaram também a fita cassete, o CD e o DVD, e temos de lhes ser gratos por isso. Mas depois os desinventaram — e pensar nisso, sim, dói.
O dilúvio das chamas
O título é um paradoxo. Figura de linguagem que associa ideias opostas: de um lado, a água; do outro o fogo. Não se fundem, mas separadamente reforçam a imagem escatológica que antecipa o final dos tempos. Têm guarida na mitologia de variadas culturas e, constitui parte da teologia de muitas religiões que trata dos eventos do fim do mundo.
Produto de crenças ou anúncios proféticos que afetam a imaginação humana, o fato é que o Brasil tem assistido e vivido catástrofes reais na repetição de inundações e incêndios de proporções devastadoras em que a sensação de horror gera o medo generalizado de que esta associação inacreditável – o fogo e a água – prenuncie o cenário do apocalipse.
Um enorme pedaço do Brasil está pegando fogo; outro, morrendo afogado. É o que revelam as gigantescas labaredas associadas ao imenso volume de inundações que destroem mais a bela, diversificada e generosa natureza do planeta: a natureza brasileira. Por consequência, ameaçam seriamente a vida na sua totalidade.
O choque da paisagem que dissemina a destruição e o medo das pessoas é revoltante porque a obra não decorre dos desastres naturais ou acidentes pontuais: é o resultado da ação enfurecida da cobiça humana.
O que mais fere o cidadão brasileiro é a dimensão perversa do crime porque atinge mortalmente o mais precioso patrimônio da nação brasileira: a natureza que lhe deu o nome de batismo e abriu as portas do futuro. O singularíssimo patrimônio, além do valor concreto, econômico, estratégico, sempre foi uma fonte de inspiração para os espíritos sensíveis à ética da vida e à estética da criação artística.
O anúncio do colonizador, em 1500, “terra à vista”, foi um o grito premonitório, pois, segundo, Caminha, “a terra em si é de muito bons ares, frescos e temperados […] Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por causa das águas que tem!”
O deslumbramento com o “novo mundo” era o ponto convergência dos dois olhares conflitantes do ato fundador do Brasil: uma visão edênica cheia de arrebatamento romântico proclamando o mito do paraíso perdido; o olhar cúpido da exploração colonialista.
O “espírito do tempo” acolhia com benevolência e, até mesmo com entusiasmo, a ambição econômica, para além dos metais e pedras preciosas, a despeito de vozes que, em reflexões antecipatórias atribuíam valoração concreta e afetiva ao patrimônio natural.
É o que certificam as ideias de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da independência, personagem de sólida e eclética formação intelectual (Direito, Filosofia Natural, Matemática, pesquisador naturalista e mineralogista). Há dois séculos, escreveu: “Destruir matas virgens, como até agora tem sido praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos”. Uma referência que dá a dimensão Bonifácio: em 1790 publicou seu primeiro trabalho científico na defesa da preservação das baleias.
No Início do século XX, Euclides da Cunha descreveu a dinâmica da economia nacional: “Temos sido um agente geológico nefasto, e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia […] não há exemplo mais típico de um progresso às recuadas. Vamos para o futuro sacrificando o futuro como se andássemos nas vésperas do dilúvio” (Obra Completa, Rio, Ed. José Aguilar, 1966, Vol. I, p. 181).
Ainda no século XIX, a luminosidade das mentes abolicionistas, a exemplo de Rebouças e Nabuco, revelava um diagnóstico ambiental desalentador causado pelo vetor da destruição, a escravidão, que ao queimar florestas, esgotar o solo, produzia uma população miserável de proprietários nômades.
Não faltaram, mundo afora ideias, que semearam uma nova consciência ambiental, a princípio, ignoradas e, até certo ponto, consideradas ingênuas ou subversivas, frente a uma noção linear progresso assentada em dois pilares falaciosos: o crescimento econômico, qualquer custo, é um bem; os recursos naturais são inesgotáveis.
Bastaram dois séculos para demonstrar que as sucessivas revoluções industriais comprometeriam gravemente os limites biofísicos da natureza e, sequer, distribuíram equitativamente a afluência nunca vista na história. É o ponto dramático a que chegamos: natureza escassa e desigualdade social extrema.
O risco é real e a ameaça de uma catástrofe planetária tem data marcada para acontecer. O estimado leitor, então, poderia indagar: se era para enfatizar os eventos catastróficos por que não começou o artigo pelas causas, agora, resumidamente, mencionadas?
Por uma simples razão, a raiz mais profunda da crise ambiental está fincada na relação entre o Humano e a Natureza, o Dominante e a Dominada como se fossem realidades separadas ou entidades antagônicas. Ou seja, o rumo do dualismo antropocêntrico entrou em rota de colisão com os limites planetários. Generosa, a natureza, afirmam alguns pensadores, não se vinga, mas reage. A semântica não altera a tragédia anunciada. Somos a Unidade ou nada seremos.
É fundamental compreender que a natureza tem um valor intrínseco. Respira, expira, transpira, acolhe, expulsa, afaga, castiga e nesta variedade de sentimentos, emoções, ela se integra na comunhão dos cuidados.
A partir desta mudança, que venha de dentro para fora, o futuro é possível. No Brasil, natureza escolheu o domicílio para todos os biomas. O singularíssimo pampa; a heroica caatinga; a colorida mata atlântica; o generoso cerrado; o acolhedor pantanal; a monumental Amazônia, um bem da vida, como dizia o poeta Thiago de Melo.
Não por outra razão, a natureza é fonte de inspiração e afeto dos poetas, romancista, cancioneiros: Gonçalves Dias (Canção do Exílio); Guimarães Rosas (Grande Sertão: Veredas); Luiz Gonzaga (Asa Branca); Cecília Meireles (Mar Absoluto); Érico Veríssimo (O Tempo e o Vento) e por aí vai.
Somente o poder do amor e a força da arte são capazes de colocar o fogo e a água nos seus devidos lugares para não se consumar a sabedoria indígena: “só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro”.
Produto de crenças ou anúncios proféticos que afetam a imaginação humana, o fato é que o Brasil tem assistido e vivido catástrofes reais na repetição de inundações e incêndios de proporções devastadoras em que a sensação de horror gera o medo generalizado de que esta associação inacreditável – o fogo e a água – prenuncie o cenário do apocalipse.
Um enorme pedaço do Brasil está pegando fogo; outro, morrendo afogado. É o que revelam as gigantescas labaredas associadas ao imenso volume de inundações que destroem mais a bela, diversificada e generosa natureza do planeta: a natureza brasileira. Por consequência, ameaçam seriamente a vida na sua totalidade.
O choque da paisagem que dissemina a destruição e o medo das pessoas é revoltante porque a obra não decorre dos desastres naturais ou acidentes pontuais: é o resultado da ação enfurecida da cobiça humana.
O que mais fere o cidadão brasileiro é a dimensão perversa do crime porque atinge mortalmente o mais precioso patrimônio da nação brasileira: a natureza que lhe deu o nome de batismo e abriu as portas do futuro. O singularíssimo patrimônio, além do valor concreto, econômico, estratégico, sempre foi uma fonte de inspiração para os espíritos sensíveis à ética da vida e à estética da criação artística.
O anúncio do colonizador, em 1500, “terra à vista”, foi um o grito premonitório, pois, segundo, Caminha, “a terra em si é de muito bons ares, frescos e temperados […] Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por causa das águas que tem!”
O deslumbramento com o “novo mundo” era o ponto convergência dos dois olhares conflitantes do ato fundador do Brasil: uma visão edênica cheia de arrebatamento romântico proclamando o mito do paraíso perdido; o olhar cúpido da exploração colonialista.
O “espírito do tempo” acolhia com benevolência e, até mesmo com entusiasmo, a ambição econômica, para além dos metais e pedras preciosas, a despeito de vozes que, em reflexões antecipatórias atribuíam valoração concreta e afetiva ao patrimônio natural.
É o que certificam as ideias de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da independência, personagem de sólida e eclética formação intelectual (Direito, Filosofia Natural, Matemática, pesquisador naturalista e mineralogista). Há dois séculos, escreveu: “Destruir matas virgens, como até agora tem sido praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos”. Uma referência que dá a dimensão Bonifácio: em 1790 publicou seu primeiro trabalho científico na defesa da preservação das baleias.
No Início do século XX, Euclides da Cunha descreveu a dinâmica da economia nacional: “Temos sido um agente geológico nefasto, e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia […] não há exemplo mais típico de um progresso às recuadas. Vamos para o futuro sacrificando o futuro como se andássemos nas vésperas do dilúvio” (Obra Completa, Rio, Ed. José Aguilar, 1966, Vol. I, p. 181).
Ainda no século XIX, a luminosidade das mentes abolicionistas, a exemplo de Rebouças e Nabuco, revelava um diagnóstico ambiental desalentador causado pelo vetor da destruição, a escravidão, que ao queimar florestas, esgotar o solo, produzia uma população miserável de proprietários nômades.
Não faltaram, mundo afora ideias, que semearam uma nova consciência ambiental, a princípio, ignoradas e, até certo ponto, consideradas ingênuas ou subversivas, frente a uma noção linear progresso assentada em dois pilares falaciosos: o crescimento econômico, qualquer custo, é um bem; os recursos naturais são inesgotáveis.
Bastaram dois séculos para demonstrar que as sucessivas revoluções industriais comprometeriam gravemente os limites biofísicos da natureza e, sequer, distribuíram equitativamente a afluência nunca vista na história. É o ponto dramático a que chegamos: natureza escassa e desigualdade social extrema.
O risco é real e a ameaça de uma catástrofe planetária tem data marcada para acontecer. O estimado leitor, então, poderia indagar: se era para enfatizar os eventos catastróficos por que não começou o artigo pelas causas, agora, resumidamente, mencionadas?
Por uma simples razão, a raiz mais profunda da crise ambiental está fincada na relação entre o Humano e a Natureza, o Dominante e a Dominada como se fossem realidades separadas ou entidades antagônicas. Ou seja, o rumo do dualismo antropocêntrico entrou em rota de colisão com os limites planetários. Generosa, a natureza, afirmam alguns pensadores, não se vinga, mas reage. A semântica não altera a tragédia anunciada. Somos a Unidade ou nada seremos.
É fundamental compreender que a natureza tem um valor intrínseco. Respira, expira, transpira, acolhe, expulsa, afaga, castiga e nesta variedade de sentimentos, emoções, ela se integra na comunhão dos cuidados.
A partir desta mudança, que venha de dentro para fora, o futuro é possível. No Brasil, natureza escolheu o domicílio para todos os biomas. O singularíssimo pampa; a heroica caatinga; a colorida mata atlântica; o generoso cerrado; o acolhedor pantanal; a monumental Amazônia, um bem da vida, como dizia o poeta Thiago de Melo.
Não por outra razão, a natureza é fonte de inspiração e afeto dos poetas, romancista, cancioneiros: Gonçalves Dias (Canção do Exílio); Guimarães Rosas (Grande Sertão: Veredas); Luiz Gonzaga (Asa Branca); Cecília Meireles (Mar Absoluto); Érico Veríssimo (O Tempo e o Vento) e por aí vai.
Somente o poder do amor e a força da arte são capazes de colocar o fogo e a água nos seus devidos lugares para não se consumar a sabedoria indígena: “só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro”.
Quase mil cidades no Brasil têm menos habitantes do que eleitores
Uma em cada cinco cidades no Brasil conta com mais eleitores do que habitantes, uma anomalia que atinge sobretudo pequenos municípios e se concentra principalmente em cinco estados: Minas Gerais, Goiás, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Sul. Eles somam 624 das 995 localidades com mais voto na urna do que residentes. O resultado é absurdo, já que pelo menos 20 % da população no Brasil está abaixo do limite etário para votar, de 16 anos. O levantamento cruza dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de julho de 2024 com os dados preliminares do censo do IBGE de 2022 e foi elaborado pelo Valor Data.
Essa situação passa longe das grandes e médias cidades, mas a conta sobre o eleitorado total pesa em Estados com base eleitoral nos pequenos municípios, abaixo de 10 mil habitantes. Nessa faixa se enquadram 921 dos 995 municípios com eleitorado excedente. Estão nessa situação 42% das cidades do Piauí, 40,4% da Paraíba e 39,8% de Goiás. No caso de Minas e Rio Grande do Sul, o percentual se dilui. A proporção nacional é de 17,9%.
No caso do Piauí, 19% do eleitorado vota em cidades com menos habitantes do que eleitores, um recorde nacional. Paraíba e Rio Grande do Norte também têm percentuais acima de dois dígitos, o que sinaliza que esta particularidade pode ter peso na eleição proporcional para deputado estadual e federal, em que a base municipal é estratégica.
A situação de um eleitor migrar para outra cidade sem transferir o título para onde reside na eleição subsequente é extremamente normal no Brasil, tanto que a abstenção eleitoral, ou seja, a ausência do eleitor na votação, costuma ficar na faixa de 20% a cada eleição Mas o caso do Piauí chama a atenção porque há um processo de transferência de títulos para os micromunicípios, em que normalmente a prefeitura é o único empregador.
Há várias ações em tramitação na Justiça Eleitoral do Piauí pedindo uma revisão do eleitorado nessas cidades, por indício de fraude. Em Assunção do Piauí, por exemplo, a base de eleitores cresceu 24% entre 2020 e 2024, por meio de transferência de domicílio. Advogados do PSD e do PT locais tentaram impugnar este ano 114 transferências como sem vínculo com o município. A Procuradoria Regional Eleitoral tem rejeitado todas elas. Um dos argumentos é que a revisão em ano eleitoral é inviável.
Procurada por essa coluna, a Procuradoria Regional Eleitoral do Piauí enviou uma nota, em que afirma que a revisão eleitoral para ser autorizada depende de dotação orçamentária prévia. Além disso precisa atender a três quesitos: " o total de transferências ser 10% superior ao do ano anterior; o eleitorado for superior ao dobro da população entre dez e quinze anos, somada à de idade superior a setenta anos; e superior a 80% da população projetada para aquele ano ".
De acordo com Wallyson Soares dos Anjos, advogado do PSD do Piauí, transferências irregulares podem definir uma eleição. " Estamos falando de municípios com menos de 8 mil eleitores, em que uma vaga de vereador pode ser decidida por 35 votos", afirma.
Mas há fatores estruturais para se entender a força dos pequenos municípios no Piauí, para além da fraude. Dos 240 municípios do Estado, boa parte é bem recente. 114 deles foram criados depois da Constituição Federal, sendo que 82 entre 1995 e 2001, durante o governo de Francisco Souza, o Mão Santa, atual prefeito de Parnaíba, um grande município.
Foram 82 novos municípios, cada um deles com prefeito, vice-prefeito e pelo menos nove vereadores, que geraram por si só uma máquina política alternativa, enfraquecendo a base oligárquica anterior.
"O Piauí é o único Estado nordestino construído de dentro para fora, do interior para os pontos de comunicação. Em geral as cidades se originaram de grandes fazendas", explica o cientista político Vitor Sandes, da Universidade Federal do Piauí. "Cada cidade média é cercada por um cordão de pequenos municípios, com famílias políticas muito consolidadas, ao contrário do que acontece nas cidades polos. E isso cria um fator de atração para transferências de título em anos eleitorais", afirmou.
Essa situação bizarra não é nova, mas a evolução impressiona. Em 2018, a Confederação Nacional dos Municípios divulgou um Estudo em que identificou a mesma situação em 231 municípios, sendo 75 em Minas Gerais. Em 2007, de ofício, o TSE fez uma revisão do eleitorado em 1.128 cidades com uma quantidade suspeita de eleitores em relação ao total de habitantes. É uma pista que talvez esquemas arcaicos de criações de currais eleitorais, que evocam a República Velha, tenham deixado algum vestígio no chamado Brasil Profundo.
Essa situação passa longe das grandes e médias cidades, mas a conta sobre o eleitorado total pesa em Estados com base eleitoral nos pequenos municípios, abaixo de 10 mil habitantes. Nessa faixa se enquadram 921 dos 995 municípios com eleitorado excedente. Estão nessa situação 42% das cidades do Piauí, 40,4% da Paraíba e 39,8% de Goiás. No caso de Minas e Rio Grande do Sul, o percentual se dilui. A proporção nacional é de 17,9%.
No caso do Piauí, 19% do eleitorado vota em cidades com menos habitantes do que eleitores, um recorde nacional. Paraíba e Rio Grande do Norte também têm percentuais acima de dois dígitos, o que sinaliza que esta particularidade pode ter peso na eleição proporcional para deputado estadual e federal, em que a base municipal é estratégica.
A situação de um eleitor migrar para outra cidade sem transferir o título para onde reside na eleição subsequente é extremamente normal no Brasil, tanto que a abstenção eleitoral, ou seja, a ausência do eleitor na votação, costuma ficar na faixa de 20% a cada eleição Mas o caso do Piauí chama a atenção porque há um processo de transferência de títulos para os micromunicípios, em que normalmente a prefeitura é o único empregador.
Há várias ações em tramitação na Justiça Eleitoral do Piauí pedindo uma revisão do eleitorado nessas cidades, por indício de fraude. Em Assunção do Piauí, por exemplo, a base de eleitores cresceu 24% entre 2020 e 2024, por meio de transferência de domicílio. Advogados do PSD e do PT locais tentaram impugnar este ano 114 transferências como sem vínculo com o município. A Procuradoria Regional Eleitoral tem rejeitado todas elas. Um dos argumentos é que a revisão em ano eleitoral é inviável.
Procurada por essa coluna, a Procuradoria Regional Eleitoral do Piauí enviou uma nota, em que afirma que a revisão eleitoral para ser autorizada depende de dotação orçamentária prévia. Além disso precisa atender a três quesitos: " o total de transferências ser 10% superior ao do ano anterior; o eleitorado for superior ao dobro da população entre dez e quinze anos, somada à de idade superior a setenta anos; e superior a 80% da população projetada para aquele ano ".
De acordo com Wallyson Soares dos Anjos, advogado do PSD do Piauí, transferências irregulares podem definir uma eleição. " Estamos falando de municípios com menos de 8 mil eleitores, em que uma vaga de vereador pode ser decidida por 35 votos", afirma.
Mas há fatores estruturais para se entender a força dos pequenos municípios no Piauí, para além da fraude. Dos 240 municípios do Estado, boa parte é bem recente. 114 deles foram criados depois da Constituição Federal, sendo que 82 entre 1995 e 2001, durante o governo de Francisco Souza, o Mão Santa, atual prefeito de Parnaíba, um grande município.
Foram 82 novos municípios, cada um deles com prefeito, vice-prefeito e pelo menos nove vereadores, que geraram por si só uma máquina política alternativa, enfraquecendo a base oligárquica anterior.
"O Piauí é o único Estado nordestino construído de dentro para fora, do interior para os pontos de comunicação. Em geral as cidades se originaram de grandes fazendas", explica o cientista político Vitor Sandes, da Universidade Federal do Piauí. "Cada cidade média é cercada por um cordão de pequenos municípios, com famílias políticas muito consolidadas, ao contrário do que acontece nas cidades polos. E isso cria um fator de atração para transferências de título em anos eleitorais", afirmou.
Essa situação bizarra não é nova, mas a evolução impressiona. Em 2018, a Confederação Nacional dos Municípios divulgou um Estudo em que identificou a mesma situação em 231 municípios, sendo 75 em Minas Gerais. Em 2007, de ofício, o TSE fez uma revisão do eleitorado em 1.128 cidades com uma quantidade suspeita de eleitores em relação ao total de habitantes. É uma pista que talvez esquemas arcaicos de criações de currais eleitorais, que evocam a República Velha, tenham deixado algum vestígio no chamado Brasil Profundo.
sexta-feira, 6 de setembro de 2024
Liberdade de expressão?
No tempo da ditadura, sinais de emissoras exóticas chegavam livremente aos rincões da pátria armada e fardada. Em ondas curtas, a Rádio Moscou ressoava com seu português escorreito em todo o território nacional, dos igapós amazônicos às roças de Nuporanga. E não era só ela. Junto, vinham também as locuções da Rádio Pequim, da Rádio Tirana e da Rádio Bulgária. Comunismo na carótida, calafrios na caserna. As autoridades se inquietavam: como bloquear a radiofrequência da Cortina de Ferro?
Não havia como. Veteranos da radiodifusão lembram até hoje que os militares tentavam usar engenhocas para atrapalhar o som das invasoras, ao menos nas regiões ditas estratégicas, mas a manobra não dava certo. Vetaram peças de teatro, canções de protesto, revistas de mulheres nuas, filmes sortidos, telenovelas picantes e romances de esquerda, mas fracassaram indigentemente no projeto de emudecer as estações alienígenas. Falta de vontade não foi.
Agora, o mundo é outro, já sabemos. Você quase não encontra mais aparelhos de rádio de ondas curtas, e, quando os encontra, não vê ninguém de ouvido colado na geringonça. Tudo ficou diferente. Só uma coisa não mudou: desafiando a lei da evolução natural das espécies, os apoiadores do golpe de 1964 ainda andam por aí, preservadíssimos, e não escondem de ninguém a saudade que sentem da ditadura, da tortura e da censura – ridícula, mas teimosa.
Essa turma andou alvoroçada ao longo da semana. Ao saber que a plataforma denominada X, antes conhecida como Twitter, foi banida de celulares e computadores por uma decisão judicial, voltou a enxergar fantasmas. As assombrações são as mesmas de antigamente, mas as aparições sobrenaturais vieram com os sinais trocados. Antes, o espectro do comunismo era externo, vinha de fora para dentro. Agora, é interno, vem da sede do Supremo Tribunal Federal (STF) e se irradia mundo afora. Antes, a proteção da liberdade marchava de coturno sobre o mármore branco do Palácio da Alvorada. Agora, mora longe e atende pelo nome de Elon Musk. Ectoplasmas reencarnados e revirados.
Fantasmagorias reversas. Nas suas alucinações miasmáticas, as viúvas do AI-5 são tragadas por mirações aterrorizantes. Veem a magistratura dos nossos tempos perpetrando à luz do dia a malvadeza que a magistratura de meio século atrás não foi capaz de perpetrar na escuridão: bloquear de uma canetada a comunicação do adversário exógeno. Mas como assim? Os saudosistas não se conformam e se contorcem de inveja: “Como é que os poderes da democracia são mais efetivos que os nossos na tirania de 1970?”. Não engolem o desaforo histórico: “Deram no X o sumiço que a gente não conseguiu dar na Rádio Moscou!”.
Para não passar recibo de que tudo não passa de dor de cotovelo auriverde, a claque tardia da ditadura extinta inventou que seu problema não é ciúme, mas o compromisso raivoso que ela teria com a “liberdade de expressão”. É isto mesmo: estamos vendo a bandeira da “liberdade” ser desfraldada pelas forças que sempre a conspurcaram. Não que os apoiadores do arbítrio mudaram – apenas repaginaram a própria vaidade. Eles, que ontem só admitiam a crítica se fosse “construtiva”, hoje se declaram favoráveis à manifestação do pensamento e até do não-pensamento. Principalmente do segundo.
É curioso, antropologicamente curioso. Você nunca vai ver este pessoal respaldando a liberdade de expressão dos moradores de rua, das mulheres pró-aborto, da população trans, dos trabalhadores pobres, dos quilombolas e dos indígenas, pois, segundo denunciam energicamente, esses setores, além de preconceituosos e intolerantes, são uns ongueiros mancomunados com as potências que só querem roubar nosso nióbio e nosso grafeno. Não, os saudosistas não se deixam engrupir. Eles têm lado. Defendem a liberdade de gente desprotegida, das vítimas indefesas da brutalidade togada. Combativos, prestam sua solidariedade pungente ao estropiado mártir da democracia: Elon Musk, este, sim, um injustiçado.
Os nostálgicos do arbítrio se converteram em musketeiros aguerridos. São todos por Musk, e estão convencidos até o bolso de que Musk sempre será por todos eles. Embalados pelos pesadelos das mil e uma noites de aquecimento global, não se lembraram de acordar para os fatos e para a realidade. Fatos: o ex-Twitter saiu do ar porque se negou a cumprir uma decisão judicial – decisão ratificada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF. Realidade: nenhum Poder Judiciário, em nenhum país conhecido ou desconhecido, poderia ter tomado outra atitude. Era preciso resguardar a autoridade judicial de um país soberano. Fato e realidade: isso não teve nada que ver com ataque à “liberdade de expressão”.
No mais, você pode – e deve – criticar o STF. Há muito o que questionar na corte. Só o que não dá para dizer é que o que aconteceu com o Twitter foi mordaça. Não há ninguém censurado aí, nem o pobre perseguido Elon Musk, que segue discursando à vontade. Mais que discursando, segue abusando de seu poder econômico, mas isso é outra conversa.
Não havia como. Veteranos da radiodifusão lembram até hoje que os militares tentavam usar engenhocas para atrapalhar o som das invasoras, ao menos nas regiões ditas estratégicas, mas a manobra não dava certo. Vetaram peças de teatro, canções de protesto, revistas de mulheres nuas, filmes sortidos, telenovelas picantes e romances de esquerda, mas fracassaram indigentemente no projeto de emudecer as estações alienígenas. Falta de vontade não foi.
Agora, o mundo é outro, já sabemos. Você quase não encontra mais aparelhos de rádio de ondas curtas, e, quando os encontra, não vê ninguém de ouvido colado na geringonça. Tudo ficou diferente. Só uma coisa não mudou: desafiando a lei da evolução natural das espécies, os apoiadores do golpe de 1964 ainda andam por aí, preservadíssimos, e não escondem de ninguém a saudade que sentem da ditadura, da tortura e da censura – ridícula, mas teimosa.
Essa turma andou alvoroçada ao longo da semana. Ao saber que a plataforma denominada X, antes conhecida como Twitter, foi banida de celulares e computadores por uma decisão judicial, voltou a enxergar fantasmas. As assombrações são as mesmas de antigamente, mas as aparições sobrenaturais vieram com os sinais trocados. Antes, o espectro do comunismo era externo, vinha de fora para dentro. Agora, é interno, vem da sede do Supremo Tribunal Federal (STF) e se irradia mundo afora. Antes, a proteção da liberdade marchava de coturno sobre o mármore branco do Palácio da Alvorada. Agora, mora longe e atende pelo nome de Elon Musk. Ectoplasmas reencarnados e revirados.
Fantasmagorias reversas. Nas suas alucinações miasmáticas, as viúvas do AI-5 são tragadas por mirações aterrorizantes. Veem a magistratura dos nossos tempos perpetrando à luz do dia a malvadeza que a magistratura de meio século atrás não foi capaz de perpetrar na escuridão: bloquear de uma canetada a comunicação do adversário exógeno. Mas como assim? Os saudosistas não se conformam e se contorcem de inveja: “Como é que os poderes da democracia são mais efetivos que os nossos na tirania de 1970?”. Não engolem o desaforo histórico: “Deram no X o sumiço que a gente não conseguiu dar na Rádio Moscou!”.
Para não passar recibo de que tudo não passa de dor de cotovelo auriverde, a claque tardia da ditadura extinta inventou que seu problema não é ciúme, mas o compromisso raivoso que ela teria com a “liberdade de expressão”. É isto mesmo: estamos vendo a bandeira da “liberdade” ser desfraldada pelas forças que sempre a conspurcaram. Não que os apoiadores do arbítrio mudaram – apenas repaginaram a própria vaidade. Eles, que ontem só admitiam a crítica se fosse “construtiva”, hoje se declaram favoráveis à manifestação do pensamento e até do não-pensamento. Principalmente do segundo.
É curioso, antropologicamente curioso. Você nunca vai ver este pessoal respaldando a liberdade de expressão dos moradores de rua, das mulheres pró-aborto, da população trans, dos trabalhadores pobres, dos quilombolas e dos indígenas, pois, segundo denunciam energicamente, esses setores, além de preconceituosos e intolerantes, são uns ongueiros mancomunados com as potências que só querem roubar nosso nióbio e nosso grafeno. Não, os saudosistas não se deixam engrupir. Eles têm lado. Defendem a liberdade de gente desprotegida, das vítimas indefesas da brutalidade togada. Combativos, prestam sua solidariedade pungente ao estropiado mártir da democracia: Elon Musk, este, sim, um injustiçado.
Os nostálgicos do arbítrio se converteram em musketeiros aguerridos. São todos por Musk, e estão convencidos até o bolso de que Musk sempre será por todos eles. Embalados pelos pesadelos das mil e uma noites de aquecimento global, não se lembraram de acordar para os fatos e para a realidade. Fatos: o ex-Twitter saiu do ar porque se negou a cumprir uma decisão judicial – decisão ratificada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF. Realidade: nenhum Poder Judiciário, em nenhum país conhecido ou desconhecido, poderia ter tomado outra atitude. Era preciso resguardar a autoridade judicial de um país soberano. Fato e realidade: isso não teve nada que ver com ataque à “liberdade de expressão”.
No mais, você pode – e deve – criticar o STF. Há muito o que questionar na corte. Só o que não dá para dizer é que o que aconteceu com o Twitter foi mordaça. Não há ninguém censurado aí, nem o pobre perseguido Elon Musk, que segue discursando à vontade. Mais que discursando, segue abusando de seu poder econômico, mas isso é outra conversa.
O mundo dos admiradores de Deolanes e Marçais chega à política oficial
Talvez nunca antes tenhamos tido tanta informação a respeito de interesses e vontades mais gerais, do que se sabe agora por causa da voz do povo nas mídias sociais e dos meios de pesquisa de opinião nas redes. Sobre suas preferências quanto a políticas públicas ou programas socioeconômicos, continuamos a saber pouco. Porém, eventos ou ondas de mudanças sensacionais explodem nas nossas fuças e dizem algo de mudanças comportamentais e culturais.
Vide a maré de desgraça que vai sendo provocada por "bets", legais ou com a intenção de legalização: despesa bilionária, expansão do vício, oportunidades para o crime. Nesta quarta-feira, foi presa a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra, 36, acusada ainda de modo opaco de associação a uma quadrilha que recorria a "bets" e firmas de publicidade, de câmbio etc. a fim de lavar dinheiro.
Como se diz por aí, Deolane é "puro suco de Brasil". Tem 20,7 milhões de seguidores no Instagram. O jovem decano dos influenciadores do Brasil, Felipe Neto, tem 17,3 milhões, embora seu universo fosse mais o X-Twitter — um presidente da República pode se eleger com 60 milhões de votos. A foto da carta manuscrita em que Deolane se diz "vítima de grande injustiça" (sua prisão) teve 1,6 milhão de curtidas até a noite desta quarta.
Sabe-se de seus amores com "famosos", participou de um reality show de TV aberta em 2022, foi rainha da bateria de uma grande escola de samba do Rio de Janeiro em 2024. É admirada, recebe elogios e bênçãos na internet por expor sua riqueza, sua vida privada e seu corpo. A fama virtual facilita a criação de empresas no mundo real (muita vez de produtos de beleza, roupas, brinquedos, jogos e até bets). Estatísticas meio imprecisas dizem que haveria centenas de milhares de influencers profissionais no país. O sucesso virtual facilita colonização das mídias tradicionais (no entretenimento em especial).
A mudança religiosa, o avanço econômico e cultural do agro e do sertanejo, o prestígio de público de policiais e militares e a eficiência da ultradireita nas redes produzem efeitos político-eleitorais palpáveis faz uns 15 anos. Apesar da onda político-digital de 2018, o mundo influencer ainda não tem representação notável na política politiqueira. Por falar nisso, apesar de tantas novidades, o grosso da representação política é composto de homens dispostos a manter tudo como está (ou pior), o establishment mais rastaquera, negocista e fisiológico. Uma névoa de centrão cobre o país como fumaça das queimadas.
Esse mundo de influenciadores, no caso já com associações criminosas, tem agora ao menos um sério candidato ao poder, à Prefeitura de São Paulo. É, claro, Pablo Marçal, que encanta ultradireitistas, adeptos de seitas de prosperidade, aspirantes ao sucesso ou apenas a uma vida decente negada pela realidade socioeconômica; muitos são desencantados com governos, desesperados e niilistas populares em geral.
Por ora, a política costumeira fagocita esses (falsos ou não) "outsiders". Mas quem é capaz de conversa política racional com as pessoas que admiram influenciadores diversos, que vivem no mundo de Deolane e Marçais ou exemplares mais amenos da categoria? Esse mundo, "paralelo" na fantasia oficial e bem pensante, é a realidade brasileira.
Vide a maré de desgraça que vai sendo provocada por "bets", legais ou com a intenção de legalização: despesa bilionária, expansão do vício, oportunidades para o crime. Nesta quarta-feira, foi presa a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra, 36, acusada ainda de modo opaco de associação a uma quadrilha que recorria a "bets" e firmas de publicidade, de câmbio etc. a fim de lavar dinheiro.
Como se diz por aí, Deolane é "puro suco de Brasil". Tem 20,7 milhões de seguidores no Instagram. O jovem decano dos influenciadores do Brasil, Felipe Neto, tem 17,3 milhões, embora seu universo fosse mais o X-Twitter — um presidente da República pode se eleger com 60 milhões de votos. A foto da carta manuscrita em que Deolane se diz "vítima de grande injustiça" (sua prisão) teve 1,6 milhão de curtidas até a noite desta quarta.
Sabe-se de seus amores com "famosos", participou de um reality show de TV aberta em 2022, foi rainha da bateria de uma grande escola de samba do Rio de Janeiro em 2024. É admirada, recebe elogios e bênçãos na internet por expor sua riqueza, sua vida privada e seu corpo. A fama virtual facilita a criação de empresas no mundo real (muita vez de produtos de beleza, roupas, brinquedos, jogos e até bets). Estatísticas meio imprecisas dizem que haveria centenas de milhares de influencers profissionais no país. O sucesso virtual facilita colonização das mídias tradicionais (no entretenimento em especial).
A mudança religiosa, o avanço econômico e cultural do agro e do sertanejo, o prestígio de público de policiais e militares e a eficiência da ultradireita nas redes produzem efeitos político-eleitorais palpáveis faz uns 15 anos. Apesar da onda político-digital de 2018, o mundo influencer ainda não tem representação notável na política politiqueira. Por falar nisso, apesar de tantas novidades, o grosso da representação política é composto de homens dispostos a manter tudo como está (ou pior), o establishment mais rastaquera, negocista e fisiológico. Uma névoa de centrão cobre o país como fumaça das queimadas.
Esse mundo de influenciadores, no caso já com associações criminosas, tem agora ao menos um sério candidato ao poder, à Prefeitura de São Paulo. É, claro, Pablo Marçal, que encanta ultradireitistas, adeptos de seitas de prosperidade, aspirantes ao sucesso ou apenas a uma vida decente negada pela realidade socioeconômica; muitos são desencantados com governos, desesperados e niilistas populares em geral.
Por ora, a política costumeira fagocita esses (falsos ou não) "outsiders". Mas quem é capaz de conversa política racional com as pessoas que admiram influenciadores diversos, que vivem no mundo de Deolane e Marçais ou exemplares mais amenos da categoria? Esse mundo, "paralelo" na fantasia oficial e bem pensante, é a realidade brasileira.
Pela boca morre o peixe
Os barões de Silicon Valley apoiam Trump, escreve o Expresso. São os multimilionários, que se mantêm na lista da Forbes — onde esta semana, em tempo real, o nome de Amancio Ortega, o fundador da espanhola Inditex, voltou a constar entre os dez mais ricos, e que promovem a liberdade de pensarmos e de dizermos o que quisermos, mesmo que sejam insultos e mentiras; que se escudam na liberdade e se recusam a ter responsabilidades ou obrigações.
Os governos acordaram tarde para os perigos e para a necessidade de haver regulamentação. Por um lado, tementes ao argumento da liberdade de expressão, de poderem ser acusados de quererem impor a censura; por outro lado, aproveitando toda esta onda de desinformação para criarem as suas próprias narrativas — é ver a forma como tantos políticos se apresentam, baseando o seu discurso em mentiras mais ou menos descaradas, recontando os factos à sua maneira, descredibilizando ainda mais uma classe, desrespeitando toda a sociedade.
Falta sermos, todos, responsabilizados por aquilo que dizemos e foi isso que vimos acontecer no Reino Unido, depois dos tumultos, motins e manifestações da extrema-direita, há semanas, com homens e mulheres a serem condenados a penas efetivas por coisas que disseram nas redes sociais. Nesta semana, no Brasil, uma socialite foi condenada a oito anos de prisão pelo que disse nas mesmas redes sociais sobre uma criança que, na altura, tinha quatro anos. Que boa notícia esta a de não haver contemplações para mensagens de ódio, para mensagens racistas, para mentiras.
“Pela boca morre o peixe”, diz o povo. Sempre impulsiva, em pequena, o meu pai repreendia-me e dizia que eu deveria andar com um botão na boca. Assim, sempre que pensasse dizer alguma coisa, tirava o botão sete vezes. Nunca o fiz. Mas em circunstâncias mais formais, penso muito antes de agir, de escrever, de falar. E, quando olho para as redes sociais, para as declarações de políticos, comentadores ou figuras públicas, penso no conselho do meu pai. Um botão. Sete vezes. Se o fizessem, quão diferente seria tudo o que lemos, ouvimos e fazemos.
Se todos agíssemos com ponderação, Natalia Stichova poderia não ter caído de uma altura de 80 metros e perdido a vida para fazer uma selfie. A princesa Diana talvez ainda estivesse viva — vem aí um novo documentário, mas também não seguiríamos com tanta curiosidade a vida de Camila, que esta semana nos conta como é que lida com dias piores, lendo: “Quando temos um dia de loucura e tudo corre mal, podemos sentar-nos, respirar fundo, pegar num livro e pronto ─ somos transportados para outro mundo.” Faço parte do clube de Camila.
Os governos acordaram tarde para os perigos e para a necessidade de haver regulamentação. Por um lado, tementes ao argumento da liberdade de expressão, de poderem ser acusados de quererem impor a censura; por outro lado, aproveitando toda esta onda de desinformação para criarem as suas próprias narrativas — é ver a forma como tantos políticos se apresentam, baseando o seu discurso em mentiras mais ou menos descaradas, recontando os factos à sua maneira, descredibilizando ainda mais uma classe, desrespeitando toda a sociedade.
Falta sermos, todos, responsabilizados por aquilo que dizemos e foi isso que vimos acontecer no Reino Unido, depois dos tumultos, motins e manifestações da extrema-direita, há semanas, com homens e mulheres a serem condenados a penas efetivas por coisas que disseram nas redes sociais. Nesta semana, no Brasil, uma socialite foi condenada a oito anos de prisão pelo que disse nas mesmas redes sociais sobre uma criança que, na altura, tinha quatro anos. Que boa notícia esta a de não haver contemplações para mensagens de ódio, para mensagens racistas, para mentiras.
“Pela boca morre o peixe”, diz o povo. Sempre impulsiva, em pequena, o meu pai repreendia-me e dizia que eu deveria andar com um botão na boca. Assim, sempre que pensasse dizer alguma coisa, tirava o botão sete vezes. Nunca o fiz. Mas em circunstâncias mais formais, penso muito antes de agir, de escrever, de falar. E, quando olho para as redes sociais, para as declarações de políticos, comentadores ou figuras públicas, penso no conselho do meu pai. Um botão. Sete vezes. Se o fizessem, quão diferente seria tudo o que lemos, ouvimos e fazemos.
Se todos agíssemos com ponderação, Natalia Stichova poderia não ter caído de uma altura de 80 metros e perdido a vida para fazer uma selfie. A princesa Diana talvez ainda estivesse viva — vem aí um novo documentário, mas também não seguiríamos com tanta curiosidade a vida de Camila, que esta semana nos conta como é que lida com dias piores, lendo: “Quando temos um dia de loucura e tudo corre mal, podemos sentar-nos, respirar fundo, pegar num livro e pronto ─ somos transportados para outro mundo.” Faço parte do clube de Camila.
Assinar:
Postagens (Atom)











/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2020/N/w/bN63kQTBiIDb8mK8YxiQ/gbb.jpg)



