sexta-feira, 26 de julho de 2024

Precisa-se de justiça


Precisamos de um senso de justiça, mas precisamos também de senso comum, de imaginação, de uma capacidade profunda de imaginar o outro, às vezes de nos colocarmos na pele do outro. Precisamos da capacidade racional de nos comprometer e, às vezes, de fazer sacrifícios e concessões.
Amós Oz

Viva Kamala Harris!

Uma das vantagens de viver num país pequeno ao qual ninguém liga nenhuma é podermos ser irresponsáveis.

Quando falamos das eleições americanas, por exemplo, temos a certeza de que a nossa influência sobre os eleitores americanos é absolutamente zero.

Logo, podemos dizer os disparates que quisermos, que daí não vem mal ao mundo: somos só portuguesinhos de peito cheio a fingir que ainda mandam no mundo, quais periquitos vaidosos, a perorar sobre a nova água-de-colónia do patrão.


Digo isto antes de oferecer as minhas perorações sobre Kamala Harris porque nada é mais divertido do que ler os comentadores portugueses a escrever como se fosse a prosa deles a impedir a Casa Branca de colapsar. Não há nada mais hilariante do que uma nulidade a levar-se a sério.

Pelo que vi, gosto muito de Kamala Harris. Os americanos de quem eu não gosto não gostam dela pelas razões que me levam a gostar dela.

Para já, ri-se muito. É o riso de quem gosta de se rir. Ri-se sinceramente e, sobretudo, rise quando não se deveria rir, o que é um sinal de liberdade.

Beija o marido na boca, mesmo que estejam milhões de pessoas a ver. Isto é o mesmo que se rir. Mostra que não tem duas caras. Não é condescendente: não pensa que é preciso ter cuidado com o povo.

Quando fala em público, pensa em voz alta. Tenta dizer coisas profundas e, quando falha, volta à carga na próxima ocasião. A espontaneidade tornou-se tão rara que já ninguém a reconhece.

Gosta de música boa – de Mingus, por exemplo – e não tenta contrabalançar o bom gosto dela com exemplos popularuchos. Kamala Harris pode ou não ser brat (e a música de Charli XCX pode não ser grande coisa), mas, pelo menos, não faz de conta que adora as cantilenas robóticas de Taylor Swift.

Kamala Harris é uma burguesa de bom gosto. A mãe era oncologista e investigadora, o pai é historiador e professor universitário.

Parece ser uma pessoa feliz.

Se os americanos não gostam dela, o problema não é de Kamala Harris.

É deles.

Mercado é o quarto poder na anarcodemocracia digital

O apagão ocorrido no universo da internet na semana passada veio confirmar que a ideia de que o mundo digital é uma espécie de paraíso da democracia plena não passa de um mito. Um erro cometido por uma única megacorporação de informática chamada CrowdStrike bastou derrubar sistemas privados e governamentais em vários países. A pisada na bola dessa empresa (com nome digno daquelas operações secretas dos filmes de espionagem) ocorreu durante um upgrade em um serviço que prestava à Microsoft.


Dito de outra forma, centenas de milhares de cidadãos mundo afora tiveram suspensos por muitas horas os seus direitos de ir e vir, de se comunicarem, de acessarem saúde, educação, trabalho e consumo. Se tal pandemônio pode ocorrer por falha involuntária de apenas uma empresa, será que alguma organização ou indivíduo não conseguiria fazer o mesmo deliberadamente?

Nesse ponto é preciso chamar a atenção para o aspecto crucial, de natureza política, que normalmente passa despercebido na atuação desse tipo de corporação tecnológica com alcance global. Elas têm se tornado verdadeiras donas da democracia, da verdade e até mesmo das diferentes expressões do direito. Apesar do seu colossal alcance público, são empresas privadas, que têm dono, mas controlam as redes sociais, aplicativos, internet, sistemas operacionais de computadores e celulares. enquanto prestadores de serviços, acessam inclusive o sistema financeiro, as agências de inteligência, segurança pública e o setor de defesa. Tudo agora turbinado por inteligência artificial e machine learning.

As autoridades reguladoras e legislativas têm demonstrado dificuldade em acompanhar a velocidade de desenvolvimento das tecnologias que transcendem fronteiras. Se, por um lado, os erros (e as vontades) desses novos atores globais podem afetar até o funcionamento das democracias, por outro lado, falta capacidade ao sistema de “freios e contrapesos democráticos” de enfrentar esses excessos adequadamente.

Podemos dizer que a caduquice dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (ou de qualquer governança multilateral) nesse tema abre espaço para que o próprio mercado assuma uma posição de Quarto Poder Moderador na arena global dos negócios digitais.

Foi justamente o que aconteceu esta semana em reação ao apagão provocado pela CrowdStrike. Imediatamente, ainda na manhã seguinte ao apagão, na abertura do pré-market da Bolsa de Nova York, os mercados já haviam derrubado o preço das ações da empresa em quase 20%, e continuam em baixa esta semana, enquanto as ações da sua concorrente SentinelOne subiam 10%.

Enquanto isso, passado uma semana desse incidente com escala planetária, o Congresso americano não havia feito mais do que convidar a CrowdStrike para “prestar informações” sobre o apagão.

Nada contra as companhias digitais. Pelo contrário, elas representam um avanço tecnológico com potencial de transformar para melhor a sociedade, os governos e os negócios em uma escala formidável. No entanto, isso não dispensa o Estado e a sociedade civil das suas atribuições como garantidores dos interesses individuais e coletivos, bem como dos princípios democráticos.

Antevendo o passado em que estamos vivendo.

Em março de 2022 reli o "Turning Back the Clock", de Umberto Eco (Vintage Books, 2008). O livro é uma coleção de artigos e ensaios em que ele analisa o que chamou, no sub-título, de "hot wars and media populism".

Um desses artigos, de julho de 2003, publicado no L'Espresso, prendeu minha atenção. Neste, Eco comenta uma tentativa de Berlusconi, de "retirar a legitimidade do sistema judiciário italiano". Berlusconi era então primeiro-ministro, pela segunda vez (2001-06). Em tom de desafio, ele disse que "já que foi eleito pelo povo" ele não aceitaria "ser julgado por alguém que alcançou aquele posto no judiciário graças apenas à sua qualificação profissional".

Ora – prossegue Eco –, "se levarmos a sério esse raciocínio, eu não posso concordar em ter uma operação de apendicite feita por um cirurgião, ou mandar meus filhos para a escola – e poderia até mesmo resistir a uma ordem de prisão por um policial; porque essas pessoas são autorizadas a executar suas funções devido às suas qualificações profissionais e não por eleição popular."


Quase duas décadas depois, em janeiro desse 2022, li nos jornais brasileiros que o então presidente "desobedeceu a uma determinação do presidente do Supremo Tribunal Eleitoral e não compareceu à sede da Polícia Federal para prestar depoimento no inquérito que apurava um vazamento de investigação sobre ataque de hacker a urnas eletrônicas". Isso apesar da sua "atuação direta, voluntária e consciente" na quebra daquele sigilo, conforme termos da investigação. Ele se colocava acima da lei porque o povo (e Deus, segundo ele) foi quem o colocou no comando.

Chamou-me a atenção, neste ponto, o conceito de "povo", ou de "eleição popular". Berlusconi, falecido em 2023, era dono da maior rede de empresas de comunicação da massa na Itália. E nos seus dias de primeiro-ministro a internet apenas engatinhava. Hoje, plataformas de redes sociais atingem mais pessoas – e mais diretamente, através do celular – do que as telas gigantescas das TVs.

Para Eco, "como uma entidade única, natural, congregando as mesmas vontades, sentimentos ou valores morais, o povo não existe". Segundo ele, o que existe são grupos de cidadãos, com suas crenças, princípios e mesmo idéias diferentes. Assim torna-se mais correto dizer que um presidente (ou qualquer outro representante) foi eleito pela maioria dos votos dos "cidadãos", do que dizer simplesmente que ele foi eleito "pelo povo".

Dentro desse enfoque, se "povo" não existe, os populistas (hoje, como de praxe) sempre tentam (e geralmente conseguem...) criar – segundo Eco – "uma imagem virtual de vontade popular".

A palavra virtual, embora usada naquele texto de 2003, ganha dimensão nova nos dias de hoje. A televisão torna-se obsoleta diante das redes sociais. Afora ideologia, envolvimento e compromissos comerciais, as emissoras de televisão, em países democráticos, são sujeitas a certas formas de controle, normas legais a serem observadas. Já uma plataforma digital se torna uma ferramenta poderosa – quase não controlada, de custo baratíssimo, quase nulo – para a implementação e manutenção do populismo.

Outro fator, as técnicas de venda, me chama a atenção. Uma delas, muito usada, é "ser vítima de perseguição". Funcionou, naquele ano, como um escudo para o então presidente do Brasil, razão pela qual ele decidiu não atender ao chamado de um juiz federal.

Trago aqui um outro ponto que não estava no contexto da Itália, pelos idos de 2003: o uso da fé, o uso das religiões – quanto mais dogmática, melhor – para manter no cabresto esse tal "povo virtual" citado por Umberto Eco. Esse povo, alimentado pelo que vem das redes sociais, obedece ao que vem dos seus dirigentes, de forma cega, pré-medieval até, ignorando erros desses mesmos dirigentes – sejam eles falhas acidentais ou crimes premeditados.

Eco acerta de novo lá no título do livro: o populismo, avançando hoje a passos largos, é uma força gigantesca que vem contribuindo para atrasar o relógio da história.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Pensamento do Dia

 


Mal sem fim


O problema dos gastos no Brasil não é o pobre no Orçamento, são os privilégios dos ricos 
Simone Tebet, ministra do Planejamento

O risco de retrocesso

O primeiro dos grandes males do Brasil é a existência de um Congresso Nacional corrupto e descompromissado com os interesses da Nação. A maioria dos atuais parlamentares age somente para a formação e/ou aumento dos seus patrimônios pessoais e para se perpetuar no poder. Estão quase todos aliados ao poder econômico, especialmente o estrangeiro. São eles que realmente estão no comando do País.

E o pior: nada indica que tenhamos condições de mudar esta realidade triste no curto, médio e até no longo prazo. Para isso, o povo precisaria ter consciência da necessidade urgente de esta aliança – Congresso/poder econômico – ser desmontada. Todos estão atuando para sedimentar a volta dos conservadores ao poder em 2026.

As eleições de 2024 se aproximam. Nelas serão eleitos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores. O cenário que se apresenta é bastante preocupante. E os resultados delas são fundamentais para as eleições de 2026. O risco de retrocesso é imenso.

Os partidos de centro, direita e extrema direita estão unidos, no chamado Centrão, comandado pelo Arthur Lira, com os bolsos cheios de dinheiro público e com todo o poder. Vão lutar para eleger o maior número de aliados possível e, assim, já ir pavimentando as suas próprias reeleições em 2026.

Os prefeitos aliados destes parlamentares foram beneficiados com uma avalanche de recursos, provenientes das emendas parlamentares, que alcançaram no orçamento da União para 2024 valores astronômicos: R$ 44,7 bilhões (Individuais: R$ 25,0 bilhões; Bancadas: R$ 8,5 bilhões; e de Comissões (substitutas do antigo orçamento secreto): R$ 11,0 bilhões. Estes recursos, por imposição do Congresso, já foram quase integralmente disponibilizados aos parlamentares para serem usados nas eleições desse ano.

Somem-se, ainda, os valores do Fundo Eleitoral (R$ 4,96 bilhões; na eleição de 2020, R$ 2,0 bilhões) e do Fundo Partidário (R$ 1,2 bilhão).

Apesar de o povo ter elegido o presidente Lula, que sinalizava avanços, este está inteiramente refém do Centrão e com grande risco de repetir na próxima eleição o fiasco de Bolsonaro. A correlação de forças continua extremamente favorável ao Parlamento corrupto que a ele se opõe. O Congresso continua apropriando cada vez mais fatias do orçamento da União, em benefício principalmente dos partidos fisiológicos. O “orçamento secreto” mudou somente de nome e no modo de distribuição dos recursos, agora alocados nas comissões.

Os atuais prefeitos, com os cofres cheios, estão muito bem avaliados pela população e, portanto, com amplas possibilidades de serem reeleitos. O índice de reeleição tem chance de alcançar valor jamais antes visto.

Infelizmente, a população não percebe que estes recursos são aportados a determinados municípios por critérios exclusivamente políticos: enquanto alguns nadam em dinheiro, outros continuam com suas demandas essenciais desatendidas.

Os recursos são aplicados sem nenhum planejamento, critério técnico ou de prioridade. A seleção das obras/serviços visa dar visibilidade política e a possibilidade de retorno, em forma de propinas, para os políticos que os disponibilizaram. Assim, se uma empresa da área de pavimentação tem um bom esquema de retorno - é informalmente do próprio político ou de aliado de confiança -, o asfaltamento passa a ser a “grande prioridade” do município.

Além de serem mal selecionadas, as obras são também mal executadas, visando o aumento dos lucros.

Não é possível que continuemos assistindo passivamente este assalto aos cofres públicos e o desperdício dos recursos, pela ação nefasta de políticos corruptos e descompromissados com os interesses do povo brasileiro.

O perigo de retrocesso é imenso! Vamos sair da letargia?

De novo, complexo de vira-lata?

À vera? Temos problemas de sobra por aqui, assuntos não nos faltam. A economia, claro, sofre as consequências da politica adotada pelos EUA. Medidas drásticas lá, óbvio, repercutem fortemente por aqui. A tendência ideológica de direita que se desenha no mundo também nos afeta. Temos uma cópia mal feita de Trump, um ex-presidente do Brasil que bate continência para bandeira americana. Vira-lata total.

Os Estados Unidos sempre estiveram afundados no próprio umbigo. Há de se dizer: a briga deles é gigantesca, e nós teremos zero consequências positivas. Seja Trump, seja Kamala. O que acontece lá de bom não reverbera aqui. O que acontece de ruim, muitas vezes.


Em 2016, preso em Curitiba, Lula disse a Folha de S. Paulo e ao El País, exatamente o que repetiu ontem, em Brasília, sobre a possibilidade de eleição de Trump.


“Seja um candidato democrata, seja Trump, nossa relação será civilizada. Temos parcerias estratégias com os EUA, e queremos mante-las”, disse Lula, lembrando mais uma vez: “Sabem em quem os americanos pensam em primeiro lugar? Neles. Em segundo? Neles. Em terceiro? Neles … Em quarto .. ”

Kamala será melhor? Claro, qualquer candidato será melhor que um nefasto Trump, criminoso condenado pela justiça americana, fascista, negacionista. Mas nem Kamala, nem Biden, nem Michelle Obama, farão dos EUA um país pacifista. Sob qualquer governo, serão sempre uma ameaça ao mundo.

Vejamos Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz, em 2009. Somente no ultimo ano de seu governo, os EUA realizaram 26.171 bombardeios em sete países, segundo levantamento do Council on Foreign Relations. Ou 70 ações por dia. Esse numero pode ser muito maior, os pesquisadores consideram o numero como “minimo”.

Obama passou seus dois mandatos em guerra. Herdou dois conflitos, tropas no Iraque e no Afeganistão, e durante oito anos não foi capaz de resolvê-los. Ao contrário, enviou forças especiais e comandou ataques via área e com drones. Não é considerado um presidente pacifista. Franklin Roosevelt, que comandou o esforço militar americano na Segunda Guerra, não passou tanto tempo em litigio pelo mundo, quanto Obama.

Durante 20 anos, cada presidente americano enfrentou uma guerra em evolução no Afeganistão, dizem os estudiosos. Dezenas de milhares de vitimas americanas e afegãs. O Talibã jamais aceitou a derrota. A saída apressada de Cabul, e a tomada do país pelos aiatolás, evidenciaram a derrota da super potência e o desperdício de bilhões de dólares.

E o que dizer de Biden? Seu currículo político é admirável. Defensor da igualdade racial, dos mais carentes (seu primeiro projeto como vereador em New Castle, Delaware, foi a construção de casas populares para negros sem teto). Biden lutou pelo pleno emprego. Mas nada disso o impediu de fomentar com armas e dinheiro a carnificina ocorrida em Gaza. Mais de 36 mil palestinos mortos desde o indefensável ataque terrorista do Hamas a um show em Israel, em 7 de outubro.

Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel, patrocinador da guerra contra a Palestina, desembarcou ontem em Washington. Não deixou dúvidas de que, assim como os americanos, não tem lado a escolher, a não ser o seu. “O momento da visita é importante devido às incertezas politicas”, disse o premier. Com direito a discursar no congresso americano, Netanyahu foi o que é. “Tentarei consolidar o apoio bipartidário que é tão importante para Israel”. Kamala ou Trump. Tanto faz.

A investida contra o devedor contumaz

O fim do recesso legislativo trará à tona nova tentativa de se votar a tipificação do devedor contumaz. Nenhum projeto simboliza melhor a borra que entope o futuro do Brasil. De um lado estão algumas das maiores empresas do país e o Ministério da Fazenda. Do outro, um punhado de empresas que competem por meio da evasão fiscal, parlamentares e dirigentes partidários cooptados.

A resistência a esta tipificação vale-se cada vez mais do poder de barganha dos interessados junto ao Supremo Tribunal Federal. Na defesa de devedores contumazes estão alguns dos maiores escritórios de advocacia do país, alguns dos quais com parentes de ministros e ex-ministros.

A turma da resistência oferece carona ao crime organizado, cada vez mais espraiado na economia, e deixa a pé não apenas políticas públicas desprovidas de bilhões de reais quanto o poder do Estado na garantia de um ambiente de negócios seguro.


Não são inadimplentes ou sonegadores comuns. São contumazes. Quando autuados, passam a operar sucessivamente por outros CNPJs de maneira que nunca deixam de operar. No limite, há os que se valem de mercadoria desviada, depósitos clandestinos, fraudes nas alfândegas, venda fictícia e empresas fantasmas.

A margem de lucro nesse setor é de centavos. O ganho vem pelo volume. Quando uma empresa consegue praticar preços com uma diferença de R$ 1 vira suspeita. Pelo menos um dirigente partidário já foi flagrado como intermediário da venda de uma empresa montada em São Paulo com GLP desviado para um empresário tradicional do setor. Dos 20 milhões de CNPJs existentes no país, apenas 1 mil são de devedores contumazes, que, nas contas da Receita, já deixaram de recolher R$ 200 bilhões.

Ao longo de sete anos, o Senado ergueu uma muralha. Sucessivamente, barrou três projetos. O primeiro foi o projeto da ex-senadora Ana Amélia (PP-RS), de 2017, que atravessou o governo Bolsonaro parado na Comissão de Constituição e Justiça e lá permanece.

Em 2022, o ex-senador Jean Paul Prates (PT-RN) apresentou texto parecido, com o mesmo destino. Ambos têm por relator o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB). No mesmo ano, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente da Casa, apresentou pacote tributário de 10 projetos. Oito foram votados. Entre os dois que restaram está aquele que trata do devedor contumaz. Chegou a ter pedido de urgência, revogado sem que ninguém, nem mesmo o autor - do projeto e da revogação da votação -, se lembre por quê.

O devedor contumaz está em todos os setores da economia, mas a abertura condescendente no monopólio de petróleo fez com que a prática se espraiasse no setor. As distribuidoras se multiplicaram. A autorização de cotas pela agência reguladora (ANP) gerou um cartório.

Grupos que não produziam uma gota de combustível passaram a negociar cotas de distribuição. Parlamentares - que aprovam diretores das agências - passaram a gravitar em torno das máfias de cotas. Em troca, dispõem, no mínimo, de combustível de graça nas eleições. A Lava-Jato não teve esse nome por acaso. Um doleiro dono de posto de gasolina que lavava dinheiro (Alberto Youssef) foi o fio de onde se puxou a operação.

No Amapá do presidente da comissão onde estão parados os projetos sobre devedor contumaz surgiu um corredor de importações que beneficiou, particularmente, o setor de combustíveis. O senador Davi Alcolumbre não comenta.

As empresas importavam o combustível pelo Amapá e - nem todas - pagavam uma tarifa mínima (3%) no Estado. O combustível seguia para outros portos. Ao desembarcar, informavam que o imposto já havia sido recolhido. Só que não.

De novembro do ano passado até maio deste ano, quando o Conselho dos secretários estaduais de Fazenda conseguiu suspender a farra, 14 navios já tinham passado pelo corredor. Nesse período, o Amapá tornou-se o maior importador de diesel russo do país. O prejuízo dos Estados superou R$ 1 bilhão.

Por meio de estreladas bancas de advocacia, alguns desses importadores conseguiram liminares de desembargadores do Paraná e de Tocantins que permitiram o ingresso desse diesel barrado pelo Comsefaz.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) deixou digitais em pelo menos três emendas que apresentou. Uma delas estabelece o Cade, velho feudo do Senado, como instância de arbitragem por entender que a Constituição prevê regimes especiais de tributação para prevenir desequilíbrios concorrenciais.

Nas outras emendas, preserva competidores de setores com “forte influência estatal”, carimbo do setor energético, e estabelece, na tipificação do devedor contumaz, o crivo das agências reguladoras, outro feudo do Senado. O senador não comenta.

Os argumentos são os mesmos usados pela defesa do grupo Refit, do empresário Ricardo Magro. Junto à Copape, de São Paulo, são os dois principais alvos do Instituto Combustível Legal, montado pelas grandes empresas para pressionar pela aprovação do projeto. Ambos se dizem favoráveis à regulamentação. Interlocutores da Refit advogam que Magro foi o primeiro do setor a ser ameaçado pelo crime organizado.

A muralha do Senado levou o governo a se voltar para a Câmara, onde hoje tramita um texto do Executivo com a relatoria de Danilo Forte (União-CE). A chance é maior, pelo entendimento entre a Receita e empresários. As ambições se avolumam para atingir também quem negocia com o crime organizado, mas também há gatos nessa tuba. Ao Valor, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que o texto chegou com uma “subjetividade muito forte”.

Todas as vírgulas são negociadas de olho na lista que a Receita prepara com as empresas que seriam tornadas inaptas no dia seguinte à aprovação, depois que todas as subjetividades tiverem sido superadas.

Num plano B, que pode virar A, os empresários recorreram ao Ministério da Justiça, onde já foram realizadas cinco reuniões para a montagem de operações de cerco aos contumazes. Desde que a Polícia Federal abandone a pauta de uma nota só da caça ao bolsonarismo.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Pensamento do Dia

 


Legião de fanáticos


O que vivemos não é um choque de civilizações, é um choque entre os fanáticos e o resto de nós
Amós Oz

Democratas precisam entender as ideias de Trump e usá-las a seu favor

Em 2016, o movimento Faça a América Grande de Novo (MAGA), de Donald Trump, era apenas um slogan – ou, na melhor das hipóteses, um espasmo de ressentimentos e instintos sobre questões como a imigração. Nos últimos oito anos, pesquisadores, ativistas e políticos transformaram o MAGA em uma visão de mundo, uma visão de mundo que agora transcende Donald Trump.

Em todo o mundo ocidental, os partidos de direita deixaram de ser partidos das elites empresariais e se tornaram partidos da classe trabalhadora. O MAGA é a visão de mundo que está de acordo com essa realidade em transformação. Ele tem suas raízes no populismo ao estilo de Andrew Jackson (sétimo presidente dos EUA, um dos fundadores do Partido Democrata, criticado pelo tratamento de indígenas e deslealdade política), mas atualizado e mais abrangente. É a visão de mundo que representa uma versão dos interesses da classe trabalhadora e oferece respeito a esses eleitores.


J.D. Vance é a personificação e um dos desenvolvedores dessa visão de mundo – com sua suspeita em relação ao poder corporativo, envolvimentos estrangeiros, livre comércio, elites culturais e altas taxas de imigração. Em Milwaukee, na semana passada, com Vance como o escolhido de Trump para vice-presidente, ficou claro como o MAGA substituiu o reaganismo como o principal sistema operacional do Partido Republicano.

Se os democratas quiserem derrotar o MAGA, não basta dizer: o homem laranja é ruim. Falar incessantemente sobre o dia 6 de janeiro não adianta nada. Se esperam vencer, eles precisam levar a sério a visão de mundo do MAGA e defender respeitosamente, especialmente para os eleitores da classe trabalhadora, algo melhor.

Na melhor das hipóteses, o que é o MAGA, afinal? Bem, em qualquer sociedade, há uma tensão legítima entre segurança e dinamismo. Em um mundo volátil, o MAGA oferece segurança às pessoas. Ele promete fronteiras e bairros seguros, proteção contra a globalização, contra a destruição criativa do capitalismo moderno, contra uma classe instruída que o despreza e doutrina seus filhos na escola. Como o senador Josh Hawley argumentou na revista Compact esta semana: “A diretoria há muito tempo vendeu os EUA, fechando fábricas no país e eliminando empregos americanos”.

Para aqueles que, com razão, se sentem atingidos por forças vastas e desestabilizadoras, Trump surge como uma espécie de personagem de Aaron Sorkin: “Vocês me querem naquele muro. Vocês precisam de mim naquele muro”. Ele oferece segurança para as pessoas seguirem com suas vidas.

Agora, o problema com o MAGA – e aqui reside a oportunidade democrata – é que ele emerge de um modo de consciência que é muito diferente da consciência americana tradicional.

A consciência americana tem sido uma consciência de abundância. Ondas sucessivas de imigrantes encontraram um vasto continente de campos férteis e cidades movimentadas. Em 1910, Henry van Dyke, que mais tarde se tornou embaixador dos EUA na Holanda e em Luxemburgo, escreveu o livro The Spirit of America, no qual observou que “o Espírito da América é mais conhecido na Europa por uma de suas qualidades – a energia”. No século 20, Luigi Barzini, um observador italiano, argumentou que os americanos têm um zelo pelo autoaperfeiçoamento contínuo, uma “necessidade incansável de consertar, melhorar tudo e todos, nunca deixar nada sozinho”.

Muitos observadores estrangeiros viam, e os americanos não viam isso, essa nação como dinâmica por excelência. Os americanos não tinham um passado comum, mas sonhavam com um futuro comum. O senso de lar não estava enraizado no nacionalismo de sangue e solo. O lar era algo que estavam construindo juntos. Durante a maior parte da história dos EUA, os americanos não eram conhecidos por sua profundidade ou cultura, mas por viver a todo vapor.

O MAGA, por outro lado, emerge de uma consciência de escassez, de uma mentalidade de soma zero: se os EUA decidirem deixar entrar toneladas de imigrantes, eles tomarão os empregos. Se os EUA ficarem mais “marrons”, “eles” substituirão “nós”. O MAGA é baseado em uma série de histórias de vítimas: as elites estão querendo nos ferrar. Nossos aliados estão se aproveitando de nós. Os EUA de linha secular estão oprimindo os EUA de raiz cristã.

Visto a partir da mentalidade tradicional de abundância americana, o MAGA se parece menos com um tipo de conservadorismo americano e mais com um conservadorismo europeu. Ele se assemelha às gerações de chauvinistas russos que argumentavam que as massas russas incorporam tudo o que é bom, mas são ameaçadas por estrangeiros. O MAGA se parece a uma espécie de marxismo de direita, que pressupõe que a luta de classes é a característica permanente que define a política. O MAGA é uma mentalidade de fortaleza, mas os EUA têm sido tradicionalmente definidos por uma mentalidade pioneira.

Se os democratas quiserem prosperar, eles precisam explorar as raízes culturais dinâmicas dos EUA e mostrar como elas podem ser aplicadas ao século 21. Deve-se dizer que o dinamismo social é mais complicado do que parece à primeira vista. Não se trata realmente de individualismo robusto ou da versão libertária de liberdade como ausência de restrições.

Minha definição favorita de dinamismo foi adaptada do psicólogo John Bowlby: toda a vida é uma série de explorações ousadas a partir de uma base segura. Se os democratas quiserem prosperar, eles precisam oferecer às pessoas uma visão tanto da base segura quanto das explorações ousadas.

Os americanos não podem estar seguros se o mundo estiver em chamas. É por isso que os EUA precisam estar ativos no exterior, em lugares como a Ucrânia, mantendo lobos como Vladimir Putin à distância. Os americanos não podem estar seguros se a fronteira estiver um caos. O apoio popular à imigração depende da sensação de que o governo tem tudo sob controle. Os americanos não podem estar seguros se um único contratempo levar as pessoas à pobreza esmagadora. É por isso que os programas de seguro social que os democratas construíram são tão importantes. Mas o que os democratas precisam fazer, na minha opinião, é oferecer às pessoas uma visão das explorações ousadas que as aguardam. É nesse ponto que os republicanos pessimistas pós-Reagan não podem competir.

Pessoalmente, gostaria que os democratas defendessem a agenda de abundância sobre a qual pessoas como Derek Thompson e meu colega Ezra Klein têm escrito. Precisamos construir coisas. Muitas casas novas. Aviões supersônicos e trens de alta velocidade.

Os democratas precisam enfrentar seus sindicatos de professores e se comprometer com o dinamismo na educação. Eles precisam enfrentar o protecionismo. Aumentar as tarifas, como Trump quer fazer, não só aumentaria os custos para os consumidores, mas geraria preguiça e mediocridade nos setores protegidos da concorrência. Os democratas precisam reduzir os órgãos reguladores que receberam tanta liberdade que sufocaram a inovação.

Se os republicanos vão se dedicar mais uma vez à retórica da guerra de classes, os democratas precisam sair disso. Eles precisam se voltar para a aspiração americana mais tradicional: não estamos condenados a um futuro permanente de luta de classes, mas podemos criar uma sociedade fluida e móvel.

Em Milwaukee, ouvi muito patriotismo, mas era o patriotismo da nostalgia, não o patriotismo da esperança. Isso deixa uma abertura para as pessoas que se reunirão em Chicago no próximo mês para a convenção do Partido Democrata.

A eleição e a alma do Vale do Silício

Confirmado que Kamala Harris será candidata à Presidência dos Estados Unidos, esta se torna uma eleição-chave para o Vale do Silício. A divisão política que se instalou no coração digital do país será o pano de fundo do pleito. Kamala iniciou a carreira política como procuradora-geral da região da Califórnia que inclui o Vale. Mas não só. O vice escolhido por Donald Trump, J.D. Vance, vem da elite do investimento em tecnologia. Tem ideias próprias fortes, que ajudam a compor um novo tipo de reacionarismo digital. O choque ideológico entre ambos é o choque ideológico que vem se desenhando na indústria da tecnologia nos últimos dez anos.


Em nenhum grupo a divisão política é mais nítida que no conhecido como “Máfia do PayPal”, um conjunto de homens na casa dos 50 anos que ajudou a criar o primeiro sistema de pagamento da internet, nos anos finais do século XX. Depois da venda do PayPal, que tornou todos muitas vezes milionários, eles se mantiveram próximos, numa rede de apoio mútuo, aconselhando uns aos outros em investimentos. Elon Musk fundou Tesla, SpaceX e é hoje dono da rede social X. Peter Thiel, David Sacks, Reid Hoffman e Pierre Omidyar viraram alguns dos investidores mais influentes da tecnologia. Seu dinheiro ajudou a financiar, nos estágios iniciais, empresas como Facebook e LinkedIn, e o mais bem-sucedido berçário de startups, a Y Combinator.

J.D. Vance — que trabalhou tanto com Sacks quanto com Thiel em suas firmas de investimento — tem ambos como mentores e principais apoiadores. Mas o caminho de influência é de mão dupla. Vance é um pensador com ideias próprias, que em muito ajuda a organizar o pensamento de ambos e de Musk. Não apenas. Aos três, somam-se Marc Andreessen, criador do primeiro navegador gráfico, e Ben Horowitz, seu sócio noutra empresa de venture capital particularmente bem-sucedida.

A concepção de mundo que esse grupo tem parte de uma visão radical de meritocracia. Quem manda na indústria da tecnologia está na crista da onda do desenvolvimento humano e seu caminho de domínio deveria ser facilitado pelo Estado. (Musk chega a ponto de ter muitos filhos por julgar ser sua obrigação passar adiante seus genes.) Eles acreditam ter maior competência para julgar como desenvolver melhor inteligência artificial e instalar um novo sistema financeiro global. (A Andreessen Horowitz é investidora importante no mundo das criptomoedas.) Querem menos regulação e consideram que os Estados Unidos se enfraqueceram com o discurso identitário em instituições de elite, que abre espaço a gente fraca e frágil em detrimento de quem tem real vocação para domínio.00:00

Vance elabora mais: apelida a elite americana de “A Catedral”, um grupo formado pelas mesmas escolas, que se encontra nos mesmos clubes, frequenta as mesmas festas e se espalha pelo comando das maiores empresas, dos dois partidos políticos e das redações de jornais e TVs importantes. Por compartilharem a mesma ideologia, variações do liberalismo fundador do país, em essência bloqueiam o acesso dos mais pobres, que se viciam com auxílios estatais e programas sociais. Seu libertarianismo econômico se mistura com a pauta conservadora de costumes e deságua numa versão mais sofisticada do trumpismo. Considera um mito a possibilidade de crescer por conta própria nos Estados Unidos, que enxerga como oligarquia.

Até o fim da primeira década deste século, era difícil encontrar gente declaradamente de direita no Vale — quanto mais esse misto de libertários com reacionários. Hoje o liberalismo progressista ainda está presente em executivos como Tim Cook, da Apple, nos fundadores de Google e Netflix, na ex-todo-poderosa da Meta Sheryl Sandberg e, claro, isso inclui gente da Máfia do PayPal. É o caso de Reid Hoffman, criador do LinkedIn, e Pierre Omidyar. São todos doadores do Partido Democrata. Muitos deles, doadores pessoais das campanhas de Kamala Harris desde os primeiros passos dela.

O Vale tem problemas com algumas propostas do governo de Joe Biden, incluindo o avanço antitruste sobre as grandes plataformas. Curiosamente, Vance apoia esse movimento do governo. Foi também um dos entusiastas investidores no Rumble, versão trumpista do YouTube. Em parte, Vance e os seus olham com desconfiança para seus pares no mundo digital por considerar que as gigantes de tecnologia são hostis à direita.

Desregulação de criptomoedas é uma das expectativas da direita do Vale. O lado progressista está aflito por maior discussão sobre o impacto econômico que o meio digital causa no mundo. Querem regulação por considerar que isso ajuda, no futuro, a imagem da indústria. E há um ponto que une a todos: a China é o adversário comum.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Pensamento do Dia

 


A Espiritualidade: Luz x Trevas

Ao ler uma entrevista recente publicada pela ‘Visão’, destacou-se-me a afirmação do psicoterapeuta João Carlos Melo quando salientou que “Assistimos ao avanço dos populismos e da direita radical, mas há também grandes grupos que resistem e têm influência para mudar esse rumo. O caminho faz-se entre a luz e as trevas”.

Com efeito, essa convicção de que a luz tem de estar presente para eliminar as trevas que assolam e afligem as nossas vidas é um pressuposto base na minha vida como cidadão e, evidentemente, como maçom.

As mudanças que ocorrem na sociedade e no mundo em que vivemos são tempos desafiantes, a nível social, económico e mesmo de saúde mental. E as encruzilhadas em que nos encontramos demonstram um avassalador acréscimo de guetos e becos sem saída.


A esse propósito, lembro um trabalho de Zygmunt Bauman (publicado entre nós em 2014 pela Relógio de Água) em resultado de um diálogo com o filósofo Leonidas Donskis em torno da perda de sensibilidade num tempo marcado pelo terrorismo, a guerra, as migrações e outras formas de violência. Donskis: “O mal não está confinado às guerras ou às ideologias totalitárias. Hoje ele revela-se com mais frequência quando deixamos de reagir ao sofrimento de outra pessoa, quando nos recusamos a compreender os outros, quando somos insensíveis e evitamos o olhar ético silencioso.”

Há, na opinião destes autores, um afastamento de demasiadas pessoas face às regras morais da sociedade. Um alheamento à dor, aos sentimentos e ao sofrimento dos outros. E é nessa atitude perante o ser mais fragilizado, perante a comunidade necessitada, ou perante a premência de ajudar a encontrar rumos justos na sociedade, que estaremos a erguer um novo mundo, aquele em que habitarão os nossos filhos e os nossos netos.

É esta a convicção que devemos manter sempre, mesmo perante a incerteza sobre o que vai acontecer. Nesse desígnio, é dever de todos estarem disponíveis e prontos a transportar a fulgurante Luz, pois é com ela que cegaremos os avanços dessa espécie de peste maléfica que, por ora, prospera no mundo.

Ora, isto prende-se com o facto de os governantes, decisores e outros intervenientes, se posicionarem perante as ocorrências como meros interlocutores dos interesses imediatos, da busca pela satisfação dos egoísmos misóginos xenófobos e da inevitável ascendência dos autoritarismos impositivos sem curar das visões alheias e das vontades do próximo, do outro, do diferente e diverso.

Esta constatação mostra flagrantemente a ausência da espiritualidade, a sonegação do divino, a supremacia da arrogância, a emergência das ignorâncias absolutas e a assunção das leviandades, das baixezas, da falta de escrúpulos, das mentiras e das descaradas apropriações de dados e fatos históricos totalmente deturpados, com o fim de assaltar os poderes e submeter os outros, tal como noutros tempos de trevas.

No livro ‘QS – Inteligência Espiritual’, a física e filósofa americana Danah Zohar aborda um tema tão novo quanto polémico: A existência de um terceiro tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e que se manifesta na necessidade de encontrar um significado para a vida. Ela baseia o seu trabalho sobre Quociente Espiritual (QS) em pesquisas, só há pouco divulgadas, de cientistas de várias partes do mundo e que descobriram o que está sendo chamado “Ponto de Deus” no cérebro, uma área que seria responsável pelas experiências espirituais das pessoas.

Compete-nos agora sermos nós os “transportadores” da luz e do conhecimento. Precisamos de estar disponíveis e sempre em pé, para que nas guaritas em que teremos de viver, possamos alertar a proveniência dos perigos e estarmos prontos para os desfeitear.

A dualidade do combate entre a Luz e as Trevas (o conhecimento e a ignorância) é uma constante do quotidiano dos maçons, onde fica claro que a Luz só provem de Deus, Grande Arquiteto Do Universo e só com essa Luz é possível aos maçons concluírem a edificação do seu Templo.

Quanto aos perigos, sendo tantos, tão dispersos e temíveis, eles contribuem para tornar maior e mais importante a responsabilidade da Maçonaria Regular. Eles não passam de ocorrências que, em si mesmas, são protagonizadas a montante e a jusante por seres humanos. É a consciência destes o nosso alvo, visando o burilar da pedra, o aperfeiçoamento da construção e a conclusão perfeita da obra.

Voltamos assim ao essencial: O ser humano precisa de ajuda, de amparo e…de luz. Essa luz que é a derradeira fonte para a solução dos problemas que enfrentamos.

Deus apoia, nos EUA, um narcisista patológico

Há momentos na história em que se entra numa era negra quase sem se dar por ela. No caso actual, damos de tal maneira por ela que o céu já está todo negro. Parece um filme de terror, é um filme de terror. Com a escuridão vem toda uma série de prodígios maléficos, o principal é ver o Diabo à solta travestido de Deus.

Trump e toda a convenção republicana apresentam-se como os ungidos de Deus, que, pelos vistos, entrou nas eleições americanas para apoiar um narcisista patológico. Que Deus o tenha salvo da bala muito bem, é sua obrigação, mas uma outra coisa é Deus ser agora da equipa MAGA. É por isso que suspeito que, cumprida a obrigação de Deus, entrou em cena o Diabo disfarçado de Deus, de boné MAGA na cabeça, e sentou-se na primeira fila para lançar o mundo no caos e na escuridão. Vem na Bíblia em Coríntios, 2, 12:14, “o próprio Satanás disfarça-se de anjo da Luz”.


Se Trump ganhar as eleições, o mundo vai conhecer uma crise que pode ser daquelas que marcam o fim de uma era. Estou a ser catastrofista? Podem ter a certeza de que sim, estou. E, para mim, pouco valem os argumentos desculpatórios, como o de que a democracia é assim, o povo pode querer votar no Diabo, que se ele for eleito não há volta a dar, é a democracia. Não, não é. Não basta sequer apresentar o precedente de Hitler, porque a democracia não se limita ao voto popular, é o voto popular mais o primado da lei e dos procedimentos democráticos legais. As democracias não se esgotam no voto, podendo os eleitos fazer o que quiserem, sem lei nem limites ao seu poder. Isso não é democracia, mas demagogia.

Trump poderá ter a legitimidade para governar, mas não tem legitimidade para fazer o que quiser, para se substituir à lei e à Constituição, actuar como um ditador pessoal, que está acima da lei, e ser “ditador por um dia”, vingar-se dos seus adversários e entender a sua imunidade como podendo matar alguém em plena 5.ª Avenida como uma vez afirmou. Mas, quando se apresenta um homem como sendo a mão terrestre de Deus, a pressão sobre a democracia é global, porque a vontade do ungido é que é a lei. O que vale a democracia quando é a mão de Deus que está a actuar?

Trump tem os seus fiéis, OK. Mas a força de Trump não vem só daí, ela estende-se por toda uma mancha de minimizadores, que fazem a expressão wishful thinking ganhar um pleno sentido. Nestes dias, ouvi todas as versões de explicações e justificações do tipo que, afinal, há um exagero na avaliação de Trump, ele não vai fazer nada daquilo que diz que vai fazer, a OTAN e a Europa podem estar descansadas, a Ucrânia poderá, no limite, continuar a defender-se, e as instituições americanas são suficientemente fortes para o travar.

Será que se esquecem de um homem que não aceita os resultados eleitorais quando perde, tentou de forma ilegal mudá-los, que impulsionou uma tentativa de golpe de Estado a 6 de Janeiro de 2021, que ameaça com uma guerra civil, que se gaba de ter consigo os americanos que têm armas, que violou e viola todas as leis, comete fraudes como quem respira e acha que tem imunidade para fazer tudo o que quer, pela forma como moldou o Supremo Tribunal e os juízes que escolheu, politizando a justiça sem paralelo no passado, e que mostra claros sinais de desequilíbrio narcisista apresentando-se sempre como o “melhor”, “maior”, o “mais amado”, o “único capaz”, mentindo sobre tudo, dos números do crime e da imigração à sua performance no golfe. Será capaz de querer ser outro, ou de ser outro?

Tudo será grave mal ele ganhe as eleições, começará a vingança interna no minuto seguinte e, na hora seguinte, entregará a Ucrânia a Putin. Há os que dizem que Trump é “transaccional”, ou seja, se os aliados dos EUA pagarem os custos relativos à sua defesa, não haverá mudanças significativas na política americana face à OTAN e à Rússia. Duvido muito. O célebre plano para acabar a guerra na Ucrânia, e de passagem por Gaza, passa por dar a Putin e Netanyahu o que eles querem sem restrições, quando muito um qualquer acto de vassalagem ao génio da política internacional, Trump.

Há um homem que conhece bem Trump: Putin. Sob todos os aspectos. E há outro que conhece a vaidade de Trump, e isso basta: Kim Jong-un. Ambos sabem como manipulálo, embora no caso de Putin possa haver mais do que isso. Ambos querem o mundo a seus pés, a Ucrânia derrotada, a Europa subjugada, toda a terra e mar à volta da Coreia do Norte sob a chantagem nuclear da monarquia cruel iniciada por Kim Il-sung. Ambos sabem que o seu melhor instrumento é um homem, Trump, que acha ele próprio que manda em tudo e que comprou o espelho da Rainha Má a Elon Musk, que fez um espelho muito especial, que lhe responde que é sempre o melhor em tudo. Nestas coisas o Diabo é mesmo bom.

Velhas e Novas Extremas-Direitas

Em todo o mundo, as extremas-direitas que na geografia política estão no seu extremo, radicais, duras, sem alternativas factíveis, em tudo distantes dos inúmeros ramos clássicos da direita que perfaz conservadores, liberais, conservador-liberal, liberal-conservador, entre tantas desenhos possíveis que os englobam, são um fenômeno emotivo tanto aliciante para uma minoria e repulsiva para o Grande Número.

Eles desenvolvem a maior desconfiança dos filiados da direita clássica. Eles irritam além dessas Direitas, os Centros e as Esquerdas. Recentemente essa rejeição pelo Centro se deu em França como declarou o antigo primeiro-ministro do Centro de Macron, Édouard Philippe: “É necessário bloquear o "Reunião Nacional" (Rassemblement National, partido de extrema-direita). E no domingo (no último dia 7) do segundo turno votou num candidato de esquerda.

Apesar desta rejeição universal, a extrema-direita permanece. O que os caracteriza?

Primeiro, a crítica ao liberalismo político, inseparável da democracia pluralista. Em vez disso, aspiram a uma ordem política autoritária eleita, capaz de mobilizar as capacidades coercivas do Estado para manter a sociedade sob controle e disciplinada. Por isso se percebe que cultivam uma ideologia antiliberal a despeito de alguns deles se alegarem liberista e admirarem ditos líderes fortes.

Em segundo lugar, um foco intenso nas questões de segurança numa chave do século XVIII leitora de Hobbes, partindo do pressuposto de que vivemos num estado de exceção permanente, sitiados num ambiente de ameaças e riscos. Tal como no poema de 1904 de Konstantínos Kaváfis existimos sob a advertência de que os bárbaros chegarão hoje.

Terceiro, a vontade contínua de travar uma guerra ideológica e rodear-se de paliçadas morais. Com isto, colocaram os setores da direita clássica como Sparrings, fazendo-os parecer indiferentes e/ou pouco dispostos a defender fronteiras simbólicas e imaginárias à revelia das físicas e constitucionais. Ao mesmo tempo, transformam os Centros e as Esquerdas – por vezes como cúmplices – de um conglomerado de reivindicações tais como dos identitários, antinacionais, anticostumes e inimigas do bom senso.

É assim que a extrema-direita surge na cena global em toda a sua variedade: autoritária, contrária aos limites e equilíbrios da democracia liberal, com uma mentalidade de manada sitiada, disposta a reunir os ressentimentos da sociedade numa cruzada cultural contra os Centros que seriam Fracos e as ditas Esquerdas Woke.

Há espaço para tudo, desde o chamado anarcocapitalismo de Milei até ao capitalismo de compadrio de Putin; das ideologias eurocéticas as ultranacionalistas; desde aqueles “nostálgicos do fascismo”, como parcela dos Irmãos de Itália (Fratelli d'Italia), os cúmplices da ditadura de Pinochet; do “Deus acima de tudo”, pátria e família de Bolsonaro ao “a guerra foi vencida no nível espiritual” do elsalvadorenho Bukele; desde a acusação contra a direita clássica de ser uma “direita covarde e fraudadora”, como disse o chefe do Vox na Espanha, e até o José Antonio Kast que negou que o Chile nos governos do recém-falecido Sebastián Piñera era governos de direita.

Pois bem. Após termos acompanhado a Convenção do Partido Republicano em Milwaukee nos últimos dias é inequívoco dizer que houve nele a ascensão avassaladora de uma visão, de valores e de um projeto de restauração conservadora; de um nacionalismo cristão a favor de uma guerra ideológica contra tudo o que não é “norteamericano”. E inimigo do estrangeiro, diverso, híbrido. Ao mesmo tempo, um populismo surpreendente – vindo de um partido tradicionalmente plutocrático. A guerra ideológica da extrema-direita estava lá.

Daí que nós defensores e defensoras da democracia, liberdade e igualdade seguiremos a encorajar sempre a tolerância e a doçura emanadas da flor de lótus e as nossas tendências confessas a favor da paz.

Ataques a Kamala Harris: quando a misoginia é arma política

"Kamala Harris assumiu o controle do partido democrata por meio de suas habilidades de sexo oral”. Esse comentário misógino foi feito por um usuário americano do X (ex-Twitter) na noite de domingo pouco depois de o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciar que havia desistido de concorrer à reeleição e endossar Kamala Harris, sua vice, para concorrer em seu lugar.

Desde então, esse tipo de comentário passou a circular em massa nas redes sociais. Kamala é chamada por odiadores de "Blow Job Harris”, algo como "Boquete Harris” e outras ofensas misóginas horríveis.

Vale lembrar que Kamala ainda não é, até o fechamento desta coluna, a candidata oficial. Seu nome recebeu o endosso, além de Biden, de democratas poderosos como Bill e Hillary Clinton. A chance de que ela seja a indicada é alta. Mas de fato isso só deve ser oficialmente divulgado na convenção do partido, em agosto.

Mas só o fato de uma mulher negra ser a favorita para a vaga que vai concorrer contra o radical de direita Donald Trump já foi o suficiente para que uma tempestade de misoginia e racismo fosse despejada nas redes sociais. Kamala é chamada pelos haters de vadia, de louca e "retardada” (sic).


Esse tipo de ataque de ódio não começou no domingo e é incitado pelo próprio Donald Trump. Em um comício em Michigan, no sábado, o candidato radical de direita disse: "Eu a chamo de 'Kamala risonha'. Vocês já viram ela rindo? Ela é maluca. Ela é louca.”. Essa frase de Trump, famoso por sua misoginia, já mostra o tom da campanha de ódio que será lançada se Kamala de fato for candidata: o líder incita, seus súditos e apoiadores seguem na linha do ataque.
O ódio como método

A misoginia contra uma mulher que disputa um espaço de poder, ainda mais contra um famoso "machão”, não é empregada por acaso. Há método. A ideia é desqualificar a candidata usando o repertório sexista que conhecemos bem: falar que é louca, descontrolada, e que só chegou onde chegou por causa de habilidades sexuais e por ter se relacionado com homens poderosos.

Então, não é por acaso que, desde domingo, apoiadores de Trump vêm compartilhando no X uma mensagem que diz que Kamala só conquistou poder porque foi "amante de um famoso político democrata, um homem muito mais velho e casado”.

Trata-se de Willie Brown, ex-prefeito de São Francisco. A agência de notícias Reuters publicou uma checagem ainda em 2020, quando Harris disputava com Biden a vice-presidência. À época, mensagens desse tipo já circulavam, como ataque contra a candidata. O fato: Kamala Harris realmente namorou Brown na década de 90. Só que ele já estava separado há dez anos e o relacionamento com Kamala nunca foi um segredo. Mas quem liga para a realidade? "Amante”, dizem os haters nas redes.

Ataques fazem parte da disputa política, ainda mais a americana, que costuma ser realmente pesada. Mas tudo fica muito pior quando o alvo é uma mulher. Se for uma mulher negra, então, que é o caso de Kamala, a guerra é suja. A gente tem que se preparar para ver todo o tipo de preconceito sendo dito sem vergonha nos próximos meses.

Não estou falando que Kamala Harris não possa ser criticada. Claro que pode. E deve. Faz parte da democracia. Mas uma coisa é crítica sobre posições e atitudes de uma política. Outra coisa é usar misoginia e racismo para desqualificar uma mulher. Isso não dá para aceitar.

A misoginia rola solta no ambiente da política no mundo todo. Mas, nessas eleições, o desprezo às mulheres parece estar mesmo em alta nos EUA.

Em 14 de julho, Donald Trump sofreu um atentado, durante um comício na Pensilvânia, um fato que obviamente deplorável e que precisa ser condenado. Uma vítima e o assassino, um homem filiado ao Partido Republicano, morreram no local.

É absurdo e chocante que uma coisa assim tenha acontecido. Mas o que os republicanos influentes próximos a Trump fizeram depois do ataque? Disseram que a culpa era das…. agentes mulheres do Serviço Secreto, que, segundo eles, não tinham capacidade para proteger o ex-presidente.

Segundo essas pessoas, a inclusão de mais mulheres no Serviço Secreto nos últimos anos teria enfraquecido a capacidade de segurança da agência. No momento do atentado, várias mulheres com óculos e a vestimenta típica do serviço se lançaram para proteger Trump. Sim: se colocaram na linha de tiro, se arriscaram para fazer seu trabalho.

Mas a resposta dos misóginos foi atacar essas mulheres nas redes sociais. "Não deveria haver mulheres no Serviço Secreto. Os agentes devem ser os melhores e nenhum dos melhores é mulher”, escreveu no X o ativista de extrema direita Matt Walsh. Escuta, o assassino era um homem. Mulheres podem trabalhar onde quiserem. Deixem-nas fora disso.

O problema dessas pessoas com mulheres é patológico. E, sim, tudo indica que nós, mulheres, vamos passar muita raiva nos próximos meses.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Exagerado culto ao dinheiro

O mal da província não está só nessas pequenas vaidades inofensivas, o seu pior mal provém de um exagerado culto ao dinheiro. Quem não tem dinheiro nada vale, nada pode fazer, nada pode aspirar com independência. Não há metabolia de classes. A inteligência pobre que se quer fazer, tem que se curvar aos ricos e cifrar a sua atividade mental em produções incolores, sem significação, sem sinceridade, para não ofender os seus protetores. A brutalidade do dinheiro asfixia e embrutece as inteligências.

Lima Barreto, "Os Bruzundangas"

Um dia na vida de um vagabundo

Em primeiro lugar, o que é um vagabundo?


O vagabundo é uma espécie nativa inglesa. Estas são as características que o distinguem: ele não tem dinheiro, veste-se com andrajos, caminha cerca de vinte quilômetros por dia e nunca dorme duas noites seguidas no mesmo lugar.

Em suma, ele é um andarilho que vive de caridade, perambula dia após dia durante anos e atravessa a Inglaterra de ponta a ponta muitas vezes em suas andanças.

Ele não tem emprego, lar ou família, nada de seu no mundo, exceto os farrapos que cobrem seu pobre corpo; vive às custas da comunidade.

Ninguém sabe de quantos indivíduos é composta a população de vagabundos. Trinta mil? Cinquenta mil? Talvez cem mil na Inglaterra e no País de Gales, quando o desemprego é particularmente alto.

O vagabundo não perambula para se divertir, ou porque herdou os instintos nômades de seus ancestrais; antes de mais nada, ele tenta não morrer de fome.

Não é difícil ver por quê: o vagabundo está desempregado em consequência da situação da economia inglesa. Assim, para existir, ele precisa apelar à caridade pública ou privada. Para ajudá-lo, as autoridades criaram asiles (albergues) onde os destituídos podem encontrar alimento e abrigo.

Esses lugares estão a vinte quilômetros uns dos outros e ninguém pode ficar em um deles mais que uma vez por mês. Daí as peregrinações sem fim dos vagabundos, que, se quiserem comer e dormir embaixo de um teto, precisam buscar um novo lugar de repouso todas as noites.

Essa é a explicação para a existência dos vagabundos. Agora, vejamos que tipo de vida eles levam. Será suficiente examinar um dia apenas, pois os dias são sempre iguais para esses desafortunados habitantes de um dos países mais ricos do mundo.

Tomemos um deles no momento em que sai do albergue, por volta das dez da manhã.

Ele está a cerca de vinte quilômetros do próximo albergue. Levará provavelmente cinco horas para caminhar essa distância e chegará ao seu destino por volta das três da tarde.

Ele não descansará muito no caminho, porque a polícia, que vê com suspeição os vagabundos, tratará de mandá-lo logo embora de qualquer cidadezinha ou aldeia onde possa tentar parar. É por isso que nosso homem não se demorará no caminho.

Como dissemos, são cerca de três horas da tarde quando ele chega ao albergue. Mas o albergue só abre às seis. Três horas desgastantes para esperar em companhia dos outros vagabundos que já estão esperando. O bando de seres humanos, extenuados, barbas por fazer, sujos e maltrapilhos, cresce a cada minuto. Logo há centenas de homens desempregados que representam quase todas as profissões.

Mineiros e fiandeiros de algodão, vítimas do desemprego que grassa no norte da Inglaterra, compõem a maioria, mas todas as profissões estão representadas, especializadas ou não.

A idade deles?

Dos dezesseis aos setenta.

Sexo? Há cerca de duas mulheres para cada cinquenta homens.

Aqui e ali, um imbecil matraqueia palavras sem sentido. Alguns vagabundos estão tão fracos e decrépitos que nos perguntamos como podem caminhar vinte quilômetros.

As roupas impressionam pelo grotesco, esfarrapadas e de imundície repugnante.

Os rostos nos fazem pensar no focinho de um animal selvagem, talvez não perigoso, mas que se tornou ao mesmo tempo selvagem e assustadiço, por falta de descanso e cuidado.

Lá eles esperam, deitados na relva ou agachados na terra. Os mais corajosos rondam o açougue ou a padaria, na esperança de catar algum resto de comida. Mas isso é perigoso, porque mendigar é proibido por lei na Inglaterra; então, na maior parte do tempo eles se contentam em ficar ociosos, trocando palavras vagas numa gíria estranha, a língua especial dos vagabundos, cheia de palavras esquisitas e pitorescas e expressões que não se encontram em nenhum dicionário.

Eles vieram de todos os cantos da Inglaterra e do País de Gales e contam uns aos outros suas aventuras, discutindo sem muita esperança sobre a probabilidade de encontrar trabalho no caminho.

Muitos já se encontraram antes em algum albergue do outro extremo do país, pois seus passos não param de se cruzar nas perambulações sem fim.

Esses albergues são hospedarias deploráveis e sórdidas, onde os peregrinos ingleses miseráveis se reúnem por algumas horas antes de se espalhar novamente em todas as direções.

Todos os vagabundos fumam. Como é proibido fumar dentro do albergue, eles aproveitam ao máximo as horas de espera. Seu tabaco consiste principalmente em baganas de cigarro que catam nas ruas. Eles as enrolam em papel ou enfiam em cachimbos velhos.

Quando um vagabundo consegue algum dinheiro, ganho num trabalho ou por esmola, seu primeiro pensamento é comprar fumo, mas na maior parte do tempo ele tem de se satisfazer com baganas apanhadas da calçada ou da rua. O albergue lhe dá apenas comida: para o resto, roupas, tabaco etc., ele tem de se virar.

Mas está quase na hora de o portão do albergue se abrir. Os vagabundos se levantaram e fazem fila junto ao muro do enorme prédio, um desprezível cubo amarelo de tijolos, construído em algum subúrbio distante e que pode ser confundido com uma prisão.

Mais alguns minutos e os pesados portões se abrem e o bando de seres humanos entra.

A semelhança entre um desses albergues e uma prisão é ainda mais notável depois que se passa pelos portões. No meio de um pátio vazio, cercado por muros altos de tijolos, encontra-se o prédio principal que abriga celas de paredes nuas, um banheiro, as dependências administrativas e uma sala minúscula mobiliada com bancos de madeira simples que serve de refeitório. Tudo é tão feio e sinistro quanto se possa imaginar.

A atmosfera de prisão está em todo canto. Funcionários uniformizados intimidam os vagabundos e os empurram, sem esquecer de lembrar-lhes que, ao entrar no albergue, eles abriram mão de todos os seus direitos e de sua liberdade.

O nome e a profissão do vagabundo são escritos num livro de registros. Depois, ele é obrigado a tomar um banho e suas roupas e pertences pessoais são levados embora. Então, dão-lhe um camisão de algodão ordinário para passar a noite.

Se por acaso ele tiver algum dinheiro, será confiscado, mas, se ele admitir que tem mais de dois francos [quatro pence], não será aceito no albergue e terá de encontrar uma cama em outro lugar.

Em consequência, os vagabundos que têm mais de quatro pence — não há muitos deles — se esforçaram para esconder o dinheiro em suas botas sem que fossem vistos, pois essa fraude poderia ser punida com prisão.

Após o banho, o vagabundo, cujas roupas lhe foram tomadas, recebe sua ceia: meia libra de pão com um pouco de margarina e meio litro de chá.

O pão feito especialmente para os vagabundos é terrível. É cinzento, sempre dormido e tem um gosto desagradável que faz a gente pensar que a farinha de que é feito vem de grãos estragados.

O chá não poderia ser pior, mas os vagabundos o tomam de bom grado, pois os aquece e conforta depois da exaustão do dia.

Essa refeição insossa é engolida em cinco minutos. Depois disso, os vagabundos recebem ordens para entrar nas celas onde passarão a noite.

Essas celas, verdadeiras celas de prisão de tijolos ou pedras, têm cerca de três e meio por dois metros. Não há iluminação artificial — a única fonte de luz é uma janela estreita e gradeada no alto da parede e um olho mágico na porta que permite que os guardas fiquem de olho nos internos.

Às vezes, as celas têm uma cama, porém o mais comum é que os vagabundos tenham de dormir no chão, com apenas três mantas para se proteger.

Não costuma haver travesseiros, e por esse motivo os desafortunados têm permissão para ficar com seus casacos, os quais enrolam e põem sob a cabeça.

Em geral, o quarto é terrivelmente frio e as mantas, devido ao tempo de uso, são tão finas que não oferecem nenhuma proteção contra o rigor da temperatura.

Assim que os vagabundos entram nas celas, as portas são firmemente trancadas por fora: só se abrirão às sete horas da manhã seguinte.

Em geral, ficam dois internos em cada cela. Murados em sua pequena prisão por doze horas desgastantes sem nada para se proteger do frio exceto um camisão de algodão e três mantas finas, os pobres miseráveis sofrem cruelmente com o frio e a falta do conforto mais elementar.

Os lugares estão quase sempre infestados de percevejos, e o vagabundo, vítima da praga, com os membros exaustos, passa horas e horas se virando e revirando, numa vã espera pelo sono.

Se consegue adormecer por alguns minutos, o desconforto de dormir sobre o chão duro logo o desperta de novo.

Os vagabundos antigos e espertos, que estão nessa vida há quinze ou vinte anos e, em consequência, ficaram mais filosóficos, passam as noites conversando. No dia seguinte, descansarão por uma ou duas horas num campo, sob alguma cerca viva que julguem mais acolhedora do que o albergue. Mas os mais jovens, ainda não endurecidos pela familiaridade com a rotina, lutam e gemem na escuridão, esperando com impaciência que a manhã lhes traga alívio.

E no entanto, quando o sol afinal brilha dentro de sua prisão, eles consideram com desânimo e desespero a perspectiva de outro dia exatamente igual ao anterior.

Por fim, as celas são destrancadas. Está na hora da visita do médico: com efeito, os vagabundos não serão libertados enquanto essa formalidade não for cumprida.

O médico costuma se atrasar, e os vagabundos têm de esperar por sua inspeção, em fila e seminus num corredor. Nesse momento, é possível ter uma ideia da condição física deles.

Que corpos e que rostos!

Muitos têm malformações congênitas. Vários sofrem de hérnias e usam cintas. Quase todos têm pés deformados e cobertos de feridas em consequência das longas caminhadas com botas inadequadas. Os velhos não passam de pele e ossos. Todos têm músculos caídos e a aparência miserável de homens que não têm uma refeição decente do início ao fim do ano.

Seus traços emaciados, rugas prematuras, barbas por fazer, tudo neles fala de alimentação insuficiente e carência de sono.

Mas eis que chega o médico. Sua inspeção é tão rápida quanto superficial. Afinal, ela se destina apenas a detectar se algum dos vagabundos mostra sintomas de varíola.

O médico olha rapidamente para cada um deles, de cima a baixo, frente e costas.

Ora, a maioria deles sofre de uma ou outra doença. Alguns, imbecis quase completos, mal conseguem cuidar de si mesmos. No entanto, serão soltos desde que estejam livres das temíveis marcas da varíola.

As autoridades não se importam se estão bem ou mal de saúde, desde que não sofram de uma moléstia infecciosa.

Depois da inspeção médica, os vagabundos se vestem de novo. Então, na luz fria do dia, é possível ter realmente uma boa visão das roupas que os pobres-diabos usam para se proteger dos estragos causados pelo clima inglês.

Esses artigos disparatados de vestuário — a maioria esmolada de porta em porta — não servem nem para a lata do lixo. Grotescos, mal-ajambrados, longos demais, curtos demais, grandes demais ou pequenos demais, a esquisitice deles nos faria rir em qualquer outra circunstância. Aqui, sentimos uma enorme piedade ao vermos essas roupas.

Elas foram consertadas até o limite do possível, com todos os tipos de remendos. Cordões substituem botões. As roupas de baixo não passam de farrapos imundos, os buracos tapados pela sujeira.

Alguns deles não têm roupa de baixo. Muitos não têm sequer meias; depois de enrolar os pés em trapos, enfiam-nos em botas cujo couro, endurecido pelo sol e pela chuva, perdeu toda a elasticidade.

É uma visão terrível observar os vagabundos se aprontando para sair.

Depois de vestidos, eles recebem o desjejum, idêntico à ceia da noite anterior.

Então, são perfilados como soldados no pátio do albergue, onde os guardas os põem a trabalhar.

Alguns lavarão o chão, outros cortarão lenha, quebrarão carvão, farão uma variedade de tarefas até as dez horas, quando é dado o sinal para partir.

Eles recebem de volta os pertences pessoais confiscados na noite anterior. A isso acrescentam meia libra de pão e um pedaço de queijo para a refeição do meio-dia, ou às vezes, mas com menos frequência, um tíquete que pode ser trocado em cafés específicos do caminho por pão e chá, no valor de três francos [seis pence].

Um pouco depois das dez horas, os portões do albergue se abrem para deixar sair um bando de destituídos miseráveis e imundos que se espalham pelo campo.

Cada um deles parte para um novo albergue, onde será tratado exatamente da mesma maneira.

E durante meses, talvez décadas, o vagabundo não conhecerá outra existência.

Em conclusão, devemos observar que a comida para cada vagabundo consiste, no total, em cerca de 750 gramas [duas libras] de pão com um pouco de margarina e queijo, e um litro de chá; isto é, sem dúvida, uma dieta insuficiente para um homem que deve percorrer vinte quilômetros por dia a pé.

Para suplementar sua dieta, obter roupas, fumo e as mil outras coisas de que possa precisar, o vagabundo precisa mendigar quando não consegue achar trabalho (e ele dificilmente o encontra) — mendigar ou roubar.

Ora, mendigar é proibido por lei na Inglaterra e muitos vagabundos conhecem as prisões de Sua Majestade por causa disso.

É um círculo vicioso: se ele não mendiga, morre de fome; se mendiga, infringe a lei.

A vida desses vagabundos é degradante e desmoralizadora. Em muito pouco tempo pode transformar um homem ativo em eterno desempregado e parasita.

Além disso, é extremamente monótona. O único prazer deles é obter alguns xelins inesperados; isso lhes dá a chance de comer à farta por uma vez ou tomar uma bebedeira.

O vagabundo está isolado das mulheres. Poucas mulheres entram nessa vida. Para suas irmãs mais afortunadas, o vagabundo é objeto de desprezo. Assim, a homossexualidade não é um vício desconhecido para esses eternos andarilhos.

Por fim, o vagabundo, que não cometeu nenhum crime e que, no fim das contas, não passa de uma vítima do desemprego, está condenado a levar uma vida mais miserável que a do pior criminoso. Ele é um escravo com uma aparência de liberdade que é pior do que a mais cruel escravidão.

Ao refletirmos sobre seu destino miserável, que é compartilhado por milhares de homens na Inglaterra, a conclusão óbvia é que a sociedade o trataria melhor se o trancasse pelo resto de seus dias na prisão, onde ao menos ele desfrutaria de um relativo conforto.
George Orwell, "Como morrem os pobres e outros ensaios"