quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Queima total

Em inglês é “burnout”. Em português existem alguns sinônimos tentando resumir, numa só palavra, o terrível estresse que leva uma pessoa além do limite suportável. Burnout é quando o indivíduo pifa. É a queima total da energia; o sujeito se consumiu física e emocionalmente.

Se comparada a poucas décadas atrás, a vida agora não é mesmo brincadeira. No intervalo do meio-dia, meu pai almoçava calmamente em casa e ainda se dava direito a um cochilo – às vezes, até de pijama. Hoje, a pausa do almoço é espremida, e muitos resumem essa pequena folga a um salgadinho e refri engolidos às pressas na lanchonete mais próxima. Olhando ansiosos as mensagens do celular, correm de volta para o serviço.


Vida apertada, competição insana, dinheiro curto, compromissos demais, preservação estúpida da imagem de “sucesso”. Vai que um dia – puf! Os sintomas do burnout geralmente são a falta de energia e entusiasmo; uma certa despersonalização – distanciamento, indiferença – e pior – a incômoda sensação de impotência diante de tudo. É um grito de alerta, é a vida de saco cheio do que estamos fazendo dela.

Uma lista preparada recentemente por estudiosos da síndrome indicou as profissões mais afetadas. Médicos, enfermeiros e psicólogos encabeçam a relação, vejam só. Em seguida, professores (pensei logo nos professores brasileiros, idealistas malpagos e agredidos por bandidos vestindo uniforme escolar). Depois vêm policiais, bombeiros, carcereiros, advogados, oficiais de Justiça – enfim, quem ganha a vida em meio a conflitos, violências, ansiedades e situações desagradáveis de todo tipo.

Conversando com um querido amigo médico psiquiatra de pé engessado por um tombo e repousando na marra, ouvi dele as agruras que costumam acometer profissionais da área da saúde. Trata-se de um universo que ele conhece bem, já que está envolvido – como voluntário, de pura generosidade – com programas de humanização nos hospitais onde trabalha.

Baseados em grupos socioeconômicos semelhantes em vários países, pesquisadores descobriram que médicos, comparados à população normal, têm maior incidência de doenças cardiovasculares, leucemia, cirrose e suicídio – este, tenebrosamente, em dobro.

As causas desse cenário são diversas, com destaque para o contato contínuo com a dor, o sofrimento e a morte; o receio constante de cometer erros; pressões por escassez de tempo, questões financeiras ou políticas do empregador.

Às doutoras leitoras, segue um alerta inquietante do Medscape Physician Lifestyle Report: na população geral, as mulheres vivem em média dez anos mais que nós, homens. No entanto, as médicas vivem dez anos a menos que seus colegas. Se cuidem aí, pô.

Já que profissões penosas trazem dores inevitáveis, creio que podemos e devemos desenvolver nossas imunidades particulares. Aceitam minha modesta receita, senhores doutores e público em geral? Menos ambição, menos vaidade, menos consumo. Menos TV e internet. Mais ócio, meditação, ioga, esportes, livros, boas amizades e, sobretudo, amores gostosos de corpo e alma – santos remédios.

Tempos atrás, não cheguei propriamente ao burnout, mas à beiradinha. Trabalhando feito um idiota, pensando em trocar de carro (embora o atual ainda estivesse perfeito), exigindo o máximo de mim, vinha eu correndo desorientado para pegar um voo – e quase atravessei uma parede de blindex do aeroporto. Resultado: nariz sangrando sem parar, um galo monumental na testa e atendimento de urgência. Sem falar nas risadinhas dos que presenciaram a cena ridícula, já que uma sonora porrada num blindex – tóin! – é cruel, mas é também hilária.

Um pequeno acidente, bobagem. No entanto, foi desse quase burnout e de reflexões posteriores que tirei a lição preciosa: rico não é quem tem muito, mas quem precisa de pouco. Mas esse já é outro assunto.

Pensamento do Dia


Milícias amazônicas

Defender a Amazônia é uma atividade de alto risco. Na última década, mais de 300 pessoas foram mortas em conflitos pela terra e pelas riquezas da floresta. A lista inclui agentes públicos, ativistas e indígenas que tentam resistir às motosserras.

O relatório “Máfias do Ipê”, da Human Rights Watch, aponta ligações entre o crime organizado e o desmatamento. Os devastadores contratam grupos armados para proteger seus negócios ilegais. “É bem similar às milícias”, define o defensor público Diego Rodrigues Costa, que acompanhou a investigação de chacinas encomendadas por madeireiros em Mato Grosso.


A HRW afirma que a violência é uma realidade antiga, mas tende a se agravar com a política anti-ambiental em vigor. “O governo Bolsonaro tem agido de forma agressiva para diminuir a capacidade do país de fazer cumprir suas leis ambientais”, acusa.

De acordo com a entidade, o presidente “tem reduzido a fiscalização ambiental, enfraquecido as agências ambientais federais e atacado organizações e indivíduos que trabalham para preservar a floresta”. “Suas palavras e ações na prática têm dado sinal verde às redes criminosas envolvidas na extração ilegal de madeira”, afirma o relatório.

Os pesquisadores citam fatos e dados oficiais para embasar o diagnóstico. Nos primeiros sete meses do ano, o desmatamento avançou 67% em relação ao mesmo período de 2018. O número de multas aplicadas pelo Ibama caiu 38%. Enquanto a floresta arde, o governo “tem sinalizado perigoso apoio aos responsáveis pelo desmatamento”, acusa a HRW.

Na segunda-feira, o Planalto forneceu mais um exemplo dessa cumplicidade. Os ministros Onyx Lorenzoni e Ricardo Salles receberam garimpeiros que invadiram uma floresta pública no Pará. Eles protestavam contra uma operação do Ibama, do ICMBio e da Força Nacional de Segurança que destruiu equipamentos usados em crimes ambientais.

Os garimpeiros pressionaram os ministros a punir os fiscais, que apenas cumpriram a lei. Deixaram o palácio animados, segundo relatos enviados aos colegas.

É preciso proteger a natureza

O Brasil poderia ser aplaudido de pé e não correr o risco de vaias na Cimeira da Ação Climática, na ONU, próxima segunda feira, caso conhecimento e bom senso orientassem determinados integrantes do governo Bolsonaro. O milagre se materializaria se apresentassem ao mundo muito mais do que um Exército especializado em combate na selva, como sugeriu o professor de Direito Universidade de Lisboa, Carlos Blanco de Morais, renunciando a teses olavistas para se aliar aos países civilizados empenhados em travar a crise ambiental.

Mas há portugueses e portugueses. O presidente da ONU, o português Antônio Guterres, disse que todos sabemos o que tem de ser feito pois as provas científicas são evidentes.” Esta é a batalha das nossas vidas”, declarou. E outro português, o Presidente da Fundação Oceano Azul,Tiago Pitta e Cunha, brilhou no último final de semana, durante a conferência “ O Futuro do Planeta” , organizada pela instituição que dirige em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, apresentando ideias nada bélicas e sem se referir aos defensores da bala como recurso para afirmar a soberania das suas florestas .

Tiago Pitta não acredita na força das armas para deter, quem sabe reverter, o aumento dos problemas climáticos. Ele defende que o problema pode ser enfrentado com a adoção de um modelo econômico que atribua efetivamente valor econômico à natureza. Se a natureza fosse tratada com o maior capital do futuro, naturalmente seria protegida de agressões e não explorada como uma fábrica que não para de produzir.

Enquanto no Brasil, o presidente Bolsonaro e ministros desperdiçam tempo e energia com conversas nada republicanas sobre a mulher alheia, se mais bonita, feias ou mais jovem, o mundo civilizado concentra-se no fundamental para a humanidade. Ernesto Araújo e Ricardo Sales Moraes recusam a existência da crise ambiental, investindo contra o que chamam de “climatismo”. Desmentem-se e censuram-se informações verídicas de conceituados órgãos, nacionais e internacionais, enquanto o país se descredibiliza-se perante o mundo.

Puro retrocesso e na contramão do que ocorre em outras nações, onde estudiosos, ambientalistas, associações, fundações, ONGs e especialistas no assunto tratam com a devida atenção, seriedade, cautela e respeito os bens da natureza sem que por isso sejam perseguidos e acusados de fanatismo pelos seus governos.

Com uma organização impecável e os 888 lugares da plateia do Teatro Camões ocupados, sobretudo pelos mais jovens, que são os que mais se movimentam contra os crimes ambientais ,50 conferencistas sucederam-se no palco durante dois dias. Foram apresentados estudos, documentários, informações e dados demonstrando que, se nada for feito, os termômetros não pararão de subir, aquecendo oceanos, causando secas, incêndios nas florestas, inundações, furacões e tempestades, causando mais mortes, dor e sofrimento.

A decana mundialmente respeitada, Sylvia Earle, bióloga e exploradora subaquática, propôs, por exemplo, a criação de áreas marítimas protegidas que assegurem a adaptação das espécies às mudanças climáticas. Milhares já desapareceram. Já o diplomata e ex-secretário de Estado do Governo Obama, John Terry, à semelhança de Guterres, advertiu que a luta contra as alterações climáticas e proteção do planeta é a da nossa própria sobrevivência.

A discussão sobre o futuro do planeta não pode ser vista como ideologia ou rancor das esquerdas como tenta fazer crer o presidente Bolsonaro. No mundo dos que pensam, estudam, pesquisam, leem e fazem ciência, representa um questionamento global sobre a atuação do ser humano com relação à natureza. É preciso indagar como chegamos até aqui, criando problemas que só aumentam e que muitos líderes e governantes não sabem como lidar. Por causa disso, alguns apelam para panfletismos que não convencem às pessoas informadas.

Em meios às tragédias, uma boa noticia. O projeto Covering Climate Now, que, em parceria com a revista norte-americana The Nation e o jornal britânico The Guardian, reúne 250 órgãos de comunicação social – jornais,revistas,televisões , rádios bloques,podcasts -espalhados pelo mundo-estarão unidos para uma publicação intensiva de trabalhos sobre alterações climáticas ao longo da semana que antecede a Cimeira para a Ação Climática ,da ONU,próximo dia 23.

Os fundadores do projeto, os jornalistas norte-americanos Mark Hertsgaard e Kyle Pope, estão entusiasmados pois acreditam que nenhum outro problema coloca mais desafios e ao mesmo tempo mais oportunidades. A experiência é inédita e deve alcançar cerca de milhões de pessoas. O objetivo das iniciativas, liderada pela Columbia Journalism Review, é incentivar redações em todo o mundo a aprofundar a cobertura climática, tornando-a mais próxima dos leitores, ouvintes e espectadores. Quem sabe a imprensa brasileira ultrapassa a cobertura da família Lero Lero para se dedicar ao que importa. Antes tarde do que nunca.

'A notícia é esta: o Xingu vai morrer'

Quando os incêndios na floresta queimaram as telas do planeta, a cidade de Altamira foi ocupada pela imprensa. “O mundo descobriu a Amazônia”, as pessoas falavam nas ruas, enquanto eram abordadas por uma babel de línguas. Algumas tinham a esperança de que as atrocidades tantas vezes denunciadas contra a floresta e os povos da floresta fossem finalmente vistas. Outras apenas sentiam raiva, porque a volta das operações de órgãos de governo —enfraquecidos na gestão de Michel Temer e desidratados até quase a extinção no governo de Jair Bolsonaro— atrapalhavam temporariamente o lucrativo negócio de comercializar a floresta. “Onde está o fogo? Onde está o fogo?”, perguntavam os jornalistas que chegavam de todas as partes ao maior município do Brasil. Dentro de Altamira, cabem Portugal e Suíça e ainda sobra espaço. No criminoso Dia do Fogo, em 10 de agosto, 194 focos subiram neste território. Epicentro dos conflitos amazônicos, Altamira é redescoberta periodicamente. E, em seguida, esquecida. Essa é a angústia de quem luta pelo meio ambiente nesse centro do mundo que é tratado como periferia. As chamas podem se apagar e, se Jair Bolsonaro não for impedido de seguir desprotegendo a floresta, voltar a acender e a queimar ainda mais. Algo aterrador e menos visível, porém, está em curso: a Volta Grande do Xingu está morrendo.

Esta era a mensagem que a procuradora da República em Altamira Thais Santi tentava passar aos jornalistas. Os incêndios são graves e devem ser denunciados e combatidos, mas é necessário compreender também que um rio está morrendo. Morrendo. “É ecocídio, e é genocídio”, ela afirma. A procuradora não exagera. Os fatos são eloquentes, investigados e mensurados pelos melhores cientistas da área do Brasil, e também por documentos oficiais. Na história recente da Amazônia, a grande causadora e reprodutora de violências na região do Médio Xingu, onde está a cidade de Altamira, foi e segue sendo a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Muito pouco acontece na cidade que não tenha o DNA da Norte Energia S. A., a empresa concessionária da barragem. Esse DNA está marcado na agonia da Volta Grande do Xingu, uma região belíssima de 100 quilômetros onde vivem os povos Juruna e Arara, assim como população ribeirinha e espécies endêmicas de peixes. É também nesta região que, nos últimos anos, outra gigante, a mineradora canadense Belo Sun, pressiona a população local e assedia políticos de Belém para obter autorização para explorar aquela que seria a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil – e também o sepultamento oficial da Volta Grande embaixo de toneladas de rejeitos tóxicos.

Volta Grande do Xingu em 2015, antes da seca e
do início do funcionamento da usina
Esta não é nenhuma novidade. Em 2011, publiquei uma entrevista na Revista Época com Celio Bermann, professor da Universidade de São Paulo. Especialista na área energética, ele também havia trabalhado no Ministério de Minas e Energia com Dilma Rousseff no início do primeiro mandato de Lula (PT). Bermann dizia com todas as letras que Belo Monte seria construída mais para gerar propina, menos para gerar energia. E afirmava que, para gerar energia, a usina era economicamente inviável. A entrevista gerou respostas e pressões de vários protagonistas, como o então senador José Sarney (PMDB), uma das figuras mais influentes do setor energético por décadas, em diferentes governos.No final de agosto, Thais Santi e outros 23 procuradores, incluindo coordenadores de câmaras, assinaram uma recomendação para o Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) afirmando que o hidrograma – a administração da água pela usina – deve ser suspenso e revisado. Caso isso não aconteça, o Ministério Público Federal entrará com uma ação judicial. Na prática, o que o documento demonstra e afirma é o que já se dizia e escrevia antes de Belo Monte ser construída: preservando as condições mínimas para a vida de indígenas e ribeirinhos e para a vida das outras espécies, numa das regiões mais biodiversas da Amazônia, e preservando o Xingu, um dos mais magníficos afluentes do Amazonas, do qual depende a vida de dezenas de povos originários, Belo Monte é economicamente inviável.

Qual é o problema político com Belo Monte, acentuado num país polarizado?

Belo Monte é um crime construído pelos governos do PT/PMDB. Segundo a Operação Lava Jato, uma obra construída para a geração de propina. Como é uma obra que começou a ser articulada com Lula e foi materializada por Dilma Rousseff, uma parcela significativa da esquerda preferiu fechar os olhos para Belo Monte, como faz até hoje. Os direitos humanos tanto dos povos indígenas, o que fere diretamente a Constituição, quanto das populações ribeirinhas foram violados sistematicamente para que a usina fosse construída.

Durante a construção da usina, na segunda década deste século, pessoas analfabetas foram pressionadas a assinar papéis que não eram capazes de ler, onde aceitavam perder tudo em troca de nada ou de uma indenização que mal permitia viver alguns meses nas periferias de Altamira. Ninguém pode dizer que não sabia. Embora grande parte da imprensa exaltasse a “grandiosa obra de engenharia”, eu e outros jornalistas denunciamos as violações em nossas reportagens. E fomos fortemente pressionados junto a nossos editores pela empresa. Também fomos atacados por militantes nas redes sociais.

Este, de novo, é o problema com a morte da Volta Grande do Xingu. No momento, Lula está preso por um processo em que há escandalosas evidências de abusos cometidos por agentes públicos durante a instrução e julgamentos, excessos totalmente incompatíveis com qualquer ideia de justiça. Para piorar, a situação foi agravada pela parcialidade explícita exposta pelo vazamento das trocas de mensagens entre o então juiz Sergio Moro, atual ministro da Justiça do Governo Bolsonaro, e os procuradores da Operação Lava Jato, revelado pela série de reportagens do jornal The Intercept. Neste cenário, quem quer lembrar do crime que é Belo Monte, este que tem o DNA de Lula e de Dilma Rousseff?

O outro grande obstáculo que impede a salvação da Volta Grande do Xingu, e portanto da floresta amazônica, é que Belo Monte está totalmente afinada com a visão de Jair Bolsonaro e do grupo de militares que o acompanha no governo de extrema-direita. Bolsonaro já anunciou, por meio do ministro de Minas e Energia, que viajará para Altamira no final do ano, para orgulhosamente inaugurar a última turbina de Belo Monte, o que significará a conclusão de uma obra que custou várias vezes mais do que o previsto.

É preciso reconhecer e dizer, mesmo que seja duro para alguns: a visão para a Amazônia dos governos de Lula e de Dilma, de centro-esquerda, e do governo de Bolsonaro, de extrema direita, é semelhante. E é totalmente afinada com a visão dos militares, construída e difundida durante a ditadura (1964-1985): a exploração da floresta por meio de grandes obras e grandes projetos, sem escutar os povos da floresta nem respeitar seus direitos constitucionais, usando como estratégia a falácia da ameaça à soberania. No trato com a Amazônia não houve ruptura política, mas continuidade.

Acompanhem o que Lula afirmou à repórter Mariana Schreiber, da BBC Brasil, em excelente entrevista feita na prisão e publicada no último 29 de agosto. “Tenho orgulho de ter feito Belo Monte”. E, em outro ponto: “Não tente culpar a Dilma pelo que está ocorrendo em Belo Monte hoje. Cada um de nós é responsável pelo período que governou o país”. Lula defende Belo Monte durante vários parágrafos e empurra os problemas para os governos municipal e estadual, assim como para o atual governo federal.

Concordo com Lula que é suficiente e justo responsabilizá-lo apenas pelo período em que ele e Dilma governaram o país e impuseram aos povos do Xingu uma hidrelétrica que nem a ditadura tinha conseguido materializar num dos rios mais importantes da Amazônia. E, assim, fazer a conversão de povos ricos da floresta em pobres urbanos da periferia da cidade. E, tudo isso, justamente num momento em que o planeta vive a emergência climática. Para mim, e acredito que para muitos, se ele assumir a responsabilidade do PT no que se refere à Belo Monte durante os três mandatos completos e o quarto mandato interrompido pelo impeachment está suficiente.

É nesse ponto de rara intersecção entre Lula e Bolsonaro que o Xingu está morrendo. Quem então vai defender a vida na Volta Grande do Xingu no Brasil polarizado, se isso significa tocar no vespeiro das verdades das quais não se pode escapar? Este tem sido o desafio da parcela respeitável do Ministério Público Federal e das ONGs que lutam pela preservação da floresta e de seus povos, mas que hoje foram criminalizadas por Bolsonaro e seus seguidores. Está bastante claro que, sem a mobilização da população, não será possível salvar o Xingu. É na Amazônia que as lideranças políticas emergentes, em especial as identificadas com a esquerda, vão mostrar de fato quem são. Observemos.

Gente fora do mapa


Comanches

Uma curiosidade: quantos dos milhões de eleitores do Bolsonaro sabiam que estavam elegendo um governo militar quando votaram nele? Talvez a maioria não desconfiasse, talvez a maioria soubesse e não se importasse, talvez a maioria soubesse e concordasse. Se há uma coisa que ninguém pode dizer do Bolsonaro é que ele disfarça seus preconceitos, suas opiniões, sua grosseria — enfim, sua personalidade. Ele nunca escondeu que é um homem autoritário, que adora armas, admira monstros como Pinochet, não perde oportunidade de exaltar gente como o famigerado Ustra, defende a tortura, nega que tenha havido uma ditadura militar de 20 anos no Brasil e costuma recorrer ao insulto pessoal como contra-ataque, mesmo quando o inimigo é a primeira-dama da França ou vítimas da repressão brutal no Brasil e no Chile.

Para os que concordam com tudo que o Bolsonaro diz e faz e simboliza, a rudeza dele é autenticidade, a apologia da tortura é realismo, e os 20 anos supostamente sem democracia no Brasil precisam ser vistos de outro ângulo, como 20 anos de eficiente supressão do comunismo, já que tudo na história é uma questão de ângulo — o que, de certa forma, absolve tudo na história. E há a inegável onda conservadora que inunda o país, alimentada pelo pavor da retribuição que espera a elite de uma das sociedades mais desiguais do mundo, quando a miséria que ela criou se tornar insuportável. Para esta elite, Bolsonaro representa a reação sem pruridos, com licença para dizer barbaridades. E ostentar armas, como fez seu filho ao visitar o pai no hospital (não sei se o filho era o embaixador, ainda me confundo com os guris).

Se a pistola bem à vista na cintura nos permite pensar neste filme que nos assola como um western, pode-se dizer como disse o John Wayne, estranhando que os índios não atacavam: “Os comanches estão quietos...” Quietos nada. Os militares brasileiros estão ativos, reforçando sua presença no governo. Exemplo: não existe na História do Brasil precedente para as escolas cívico-militares, de clara inspiração fascista, que os militares estão montando sem nenhuma oposição em todo o país. Os comanches, decididamente, não estão quietos. 

Alerta da ONU

Quero toda a sociedade pressionando os Governos para que entendam que precisam ir mais rápido, porque estamos perdendo a corrida, as consequências dos desastres naturais são cada vez mais devastadoras. A natureza está furiosa, e você não pode ameaçar a natureza, porque ela devolve o golpe. 

É preciso fazer as pessoas compreenderem que há uma emergência climática hoje, que o problema da mudança climática é de hoje, que a saúde pública está ameaçada hoje, que o mar está subindo hoje, que as temperaturas já estão provocando problemas muito graves
António Guterres , secretário-geral da ONU 

Recaídas do Congresso pedem reações à 2013

Depois do surpreendente ímpeto reformista que colocou em pé a reforma da Previdência, a ala bandalha do Congresso voltou a elaborar projetos e emendas como quem joga barro na parede. Se colar, colou. Para os adeptos da tática do barro na parede não existe noção de certo ou errado. Há coisas que são absorvidas e outras que pegam mal.

Quando pega muito mal, como no caso do projeto que aplicou a lógica do 'liberou geral' nas regras eleitorais e partidárias, promove-se um recuo tático. Os senadores deram meia-volta. Os deputados voltaram ao barro para selecionar os pedaços de desfaçatez que achavam possível colar novamente na parede.


Essa movimentação mostra que a história que começou a ser escrita no em junho de 2013 virou um pesadelo do qual o Brasil não consegue acordar. Há seis anos, as ruas roncaram para reivindicar menos roubalheira, mais prosperidade e serviços públicos decentes. O sistema político ofereceu na época uma espécie de Bolsa Teatro. Entrou em cartaz um espetáculo de cinismo. Vieram a Lava Jato, o impeachment de Dilma, o entreato apodrecido de Temer e a eleição de Bolsonaro, um personagem antissistema cuja Presidência se ajusta gradativamente ao seu passado sistêmico.

O esforço para a restauração da imoralidade não se limita ao Legislativo. Há adeptos da volta ao passado no Executivo e também no Judiciário. Se essa movimentação revela alguma coisa é que 2013 tornou-se o ano mais longo da história do Brasil. E ainda vai longe. A diferença em relação ao passado é que o cinismo agora encontra resistência. Há uma reação —externa, via entidades civis e redes sociais; e interna, exercida pelo pedaço do Legislativo que nasceu da fome de limpeza da sociedade. O brasileiro continua de saco cheio de sua própria realidade.

Mau humor e pessimismo

É histórico, dias bicudos geram pessoas bicudas. Todas as crises, não importa onde ocorram e qual seja a sua natureza, causam rebuliço no coração humano capaz de mudar dramaticamente o humor de cada um. São poucos os episódios na história da humanidade que produziram povos mais infelizes do que os europeus que viveram durante a agoniante e sanguinária Segunda Guerra Mundial, ou os africanos das nações colonizadas e escravizadas no século XIX. Quanto maior o drama, maior a crise, mais sombrio o povo. E deriva daí um mau humor sistêmico e um pessimismo contagiante. Viu-se isso ao longo dos últimos anos no Brasil, uma gangorra no humor e nas expectativas dos brasileiros.


Vivemos momentos de júbilo e esperança, como nos primeiros mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Passamos períodos de incerteza, nos segundos mandatos de ambos, e de medo e ansiedade, nas administrações de Fernando Collor, Dilma Rousseff e Michel Temer. E em cada uma dessas temporadas, o humor nacional ia sendo moldado pelo ambiente político e econômico da ocasião. Não foi por outra razão que as pessoas saíram às ruas em 2013, no auge do desgaste de Dilma, no seu segundo e mais torturante mandato.

Nos pouco mais de dois anos de gestão de Temer, o país já estava dividido entre uns e outros e seu governo foi marcado por manifestações de repúdio. Esse quadro piorou ainda mais quando o presidente recebeu no Palácio do Jaburu o empresário Joesley Batista e com ele manteve a conversa em que produziu a famosa frase “Tem que manter isso, viu?”. Diante do quadro de incertezas no Brasil desde o segundo mandato de Lula, é justo afirmar que o brasileiro tem vivido inseguro nos últimos dez anos. Inseguro e intrinsecamente infeliz.

Quando uma nova eleição poderia recriar o otimismo no coração dos nacionais, o presidente que foi eleito no ano passado preferiu permanecer em campanha, mantendo permanente litígio com inimigos invisíveis e brandindo furiosamente contra castelos de fumaça. E o resultado é o que se vê no país. Um povo amargurado e indisposto. Mal-humorado e pessimista. O pessimismo, aliás, se reflete não apenas nas pessoas, mas em todo o tecido da sociedade. Na economia, o desânimo é visível. O governo de Jair Bolsonaro não empolga. Poucos mostram disposição para investir, o emprego não cresce, e a economia patina, anda de lado e em alguns setores recua.

Nas artes, o pessimismo tem reflexo até quando se olha para o futuro. O filme “Bacurau”, dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, mostra uma pequena cidade no agreste pernambucano que em alguns anos vai dispor de tecnologia de comunicação de ponta, sinal de internet melhor do que no Alto Leblon, mas não terá água e esgoto sanitário. A educação será uma lástima, e os políticos serão tão esdrúxulos quanto aqueles hoje encarcerados em Bangu, na Papuda ou em Curitiba. Em alguns poucos momentos se experimenta certa euforia, mas ela é localizada e passageira. Como foi o caso da Bienal do Rio, que deu uma banana e um chega pra lá no prefeito-censor Marcelo Crivella.

No mundo não é muito diferente. A mistura de mau humor com pessimismo não é uma jabuticaba. O planeta busca soluções para inúmeros problemas, do aquecimento global à crise mundial de refugiados. E o que resulta disso aparece mais uma vez nas telas e nos livros. Em 2015, o escritor Michel Houellebecq publicou seu sexto romance, “Submissão”. Nele, a França se vê na contingência de votar no segundo turno das eleições presidenciais de 2022 entre Marine Le Pen, da extrema direita, e Mohammed Ben Abbes, um candidato muçulmano radical. Ben Abbes ganha a eleição e transforma a França. Para pior, muito pior, claro.

E o que dizer da série “Years and years”, do roteirista Russell T Davies, no ar na HBO? Ela trata de um futuro tão estarrecedor quanto o imaginado em “Bacurau” e “Submissão”. Há de tudo nos seis episódios da série. Gente que quer virar transumana, transformando sua consciência num software, perseguição a gays, negros e refugiados e governos que se tornam autoritários depois de eleitos pelo voto popular. No jornalismo não é muito diferente. Como produzir boa notícia quando a sua cidade, o seu país e o mundo experimentam uma onda depressiva que parece não ter fim?

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O fundão eleitoral, o carguinho do filho e a república do miserê

O procurador que chamou seu salário de R$ 24 mil de "miserê" poderia ser nomeado porta-voz de um grupo que está espalhado pela máquina pública. Sua desfaçatez representaria bem os partidos que tentaram engordar seus caixas em mais um ano de crise. Serviria também ao político que move montanhas para dar um cargo ao próprio filho.

Numa cultura de privilégios e cegueira deliberada, servidores, parlamentares, dirigentes partidários e o presidente da República tratam o Estado como patrimônio pessoal.

Um integrante do Ministério Público de Minas achou razoável fazer queixa de sua remuneração numa reunião do órgão. "Já estou baixando meu padrão de vida bruscamente, mas eu vou sobreviver", afirmou. Num lamento, ele disse que precisou reduzir seus gastos com cartão de crédito para R$ 8.000 por mês.


Certas autoridades costumam deixar de lado o pudor quando discutem seus interesses financeiros, mesmo quando as contas do governo estão na pindaíba. A manobra desastrada dos partidos para colocar até R$ 3,7 bilhões no fundo eleitoral e reduzir as regras de fiscalização desse dinheiro é uma face desse pouco-caso.

O país ainda não conseguiu elaborar uma maneira justa e responsável de financiar as campanhas depois que foram proibidas as doações empresariais. É inexplicável, porém, que o Congresso tenha trabalhado só para pegar mais recursos enquanto, na surdina, afrouxava as regras para a prestação de contas.

Mas a república do miserê não se manifesta só em busca de moedas no cofre. É a mesma força que impulsiona Jair Bolsonaro a colocar a Presidência a serviço do esforço para emplacar um filho na embaixada brasileira em Washington e a interferir em órgãos de investigação para proteger outro de seus rebentos.

Governantes que atuam em causa própria são uma tradição brasileira. Alguns podem tentar se esconder atrás da retórica da nova política e de reformas econômicas, mas dificilmente conseguirão disfarçar suas ambições particulares.

Bolso do Brasil


Bolsas e navios

As palavras chegam como guardas. É por meio delas que ficamos sabendo quando somos bem-vindos, corremos perigo ou somos inscientes. Como ensinou um filósofo, as palavras fazem coisas como juramentos, ofensas e promessas. Com elas travamos uma infinito combate contra a ignorância.



O governo tem persistido na estupidez de confundir certas manifestações do mundo universitário com a sua nobre dimensão intelectual. Estou farto de conhecer a precariedade brasileira relativa ao mundo da instrução, da vida acadêmica e, acima de tudo, da grandeza intelectual. Uma prova disso é piada abominável segundo a qual quem não sabe, ensina! E para tanto recebeu uma “bolsa de estudo”, cujo sentido ambíguo remete tanto ao combate à estupidez quanto às vergonhosas mochilas e quartos cheios de dinheiro roubado. “A bolsa ou a vida!” dizem bandidos, jamais um ministério que “cuida” da educação...

Há diferenças entre ensinar crianças e instruir adultos pesquisadores e intelectuais. Há motivos para considerar que quem ensina crianças tem mais importância relativa do que quem ensina adultos. Ensinar a quem experimenta a vida fora de casa e do relacionamento com seus genitores é um ato “primário”. Não deve haver apenas “primeiras letras” — o que deve haver é, sobretudo, uma “primeira cidadania”. É o exercício de um comportamento igualitário e respeitoso ao lado de laços sociais isentos dos afetos lenientes da família e da casa. O ensino elementar deve transformar filhinhos de famílias, nobres ou pobres, em “alunos”. No Brasil, há o costume de chamar esses primeiros educadores de “tios” quando, de fato, eles devem ensinar como passar de filhos a alunos. Uma pessoa associada a um conjunto não governado pelas hierarquias da casa, mas por normas que valem para todos.

A escola primária faculta uma primeira experiência aberta com a igualdade. O ensino secundário e o superior deveriam consolidar tal aprendizado ofertando “bolsas” a quem precisa. Em inglês, “bolsa” é scholarship e houve quem traduzisse a palavra como “navio de acadêmicos”. O que, mesmo promovendo risos, não é de todo um erro já que um “ scholar-ship ” é um meio de realização intelectual. Traduzir “bolsa” como dinheiro fácil e ideologizado, como são as polpudas verbas que os políticos inventam em causa própria, revela ignorância (ou má-fé). Bolsas de estudo são um investimento essencial num mundo com mais informação do que compreensão. Suprimir bolsas é contribuir para manter os nossos pomposos “burros doutores” e o uso do título acadêmico como privilégio.

Fui bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas, da Comissão Fulbright, da Fundação Ford, da Universidade de Harvard, da Fundação Guggenheim e da Fundação Calouste Gulbenkian. Sem essas bolsas (ou navios), eu não teria saído de Niterói...

Foram as bolsas que me permitiram estudar numa Harvard que sempre colocou a excelência intelectual acima da tendência ao fechamento elitista. Meus pais e avós jamais saíram do Brasil para viver o “lá fora”, onde tudo seria melhor. Morreram sem saber que não há sociedades perfeitas e que em todas há um combate permanente entre interesses e normas.

Como um professor antigo, deprime-me testemunhar jovens sendo forçados a desistir de uma vida intelectual crítica e construtiva pela supressão de bolsas. Não pode haver melhor meio de assassinar vocações.

Fosse presidente, contingenciaria outras áreas; fosse milionário gratuitamente graduado numa federal e ex-bolsista, procuraria amigos igualmente milionários e faria um fundo destinado a suprir estudantes carentes. Criaríamos uma agência particular para compensar a burrice do governo. Enfim, faria alguma coisa, em vez de simplesmente falar e escrever, que é o recurso de que disponho...

A grande honra

Descende de Adão e Eva - tornou Aslam. - É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também vergonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra. Dê-se assim por satisfeito
C. S. Lewis

É possível forçar Bolsonaro a proteger o meio ambiente?

Quadrilhas criminosas destroem a Floresta Amazônica cada vez mais rápido e assassinam ambientalistas, enquanto, na maioria dos casos, autoridades e Justiça ficam só olhando: esse cenário sombrio é o que revela o relatório Rainforest Mafias (Máfias da floresta tropical), divulgado nesta terça-feira  em São Paulo pela Human Rights Watch (HRW). Nos próximos dias, a ONG apresentará o documento aos grêmios de direitos humanos das Nações Unidas.

A política indígena Sonia Guajajara quer também abordar as infrações em encontros com representantes da União Europeia (UE) e diante do Parlamento Europeu: "Quero que as pessoas lá fora reconheçam que o Brasil está violando direitos humanos e ambientais."

Ela fala ainda em crime de ecocídio (destruição em larga escala do meio ambiente), reconhecido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) como crime contra a humanidade. "Quem pratica esses crimes precisa ser penalizado", afirma.

A pressão sobre o governo brasileiro deve vir também dos mercados, frisa Guajajara: "E as empresas precisam ser responsabilizadas, quem está comprando e quem está produzindo."


Segundo Carlos Rittl, do think tank Observatório do Clima, a política ambiental do Brasil não é compatível com seus esforços de abertura econômica: "Para um país que está tentando se abrir e abrir mercados, atrair parceiros e investimentos, o governo está agora fazendo o contrário, mostrando que não é um parceiro confiável. É péssimo para a imagem do Brasil e das empresas brasileiras."

Rittl está convencido de que o presidente Jair Bolsonaro acabará cedendo à pressão internacional: "A pressão vinda através dos mercados vai trazer lições muito duras para o governo brasileiro, de que não é possível matar e desmatar e produzir em cima de sangue, de florestas destruídas, e achar que alguém vai comprar."

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva reagiu ao relatório do HRW com "um misto de tristeza e indignação". Em seu mandato, os padrões e controles ambientais foram elevados, reduzindo o desmatamento em 80%, e "agora, em oito meses, o trabalho que foi feito em décadas está sendo totalmente destruído". "O governo faz isso em dois níveis: num discurso que estimula a ilegalidade e numa série de atos que dão às pessoas o sentimento da impunidade. É a primeira vez que se tem um discurso oficial contrário às políticas de preservação."

Marina vê poucas chances de se alcançar algo através da pressão internacional. "Infelizmente esse governo não aceita nem a pressão interna nem a externa; o presidente tem visão negacionista, visão de início do século 20, de que os recursos naturais podem ser destruídos impunemente."

Por sua vez, o ex-ministro do Meio Ambiente e embaixador do Brasil em Washington Rubens Ricupero aposta muito na pressão vinda do exterior: "A pressão é fundamental, sem a pressão nada vai mudar. E mesmo que o governo tenha uma reação negativa e diga que não vai levar em conta essa pressão, a experiência brasileira desde a época militar mostra que a pressão é eficaz."

É de se esperar que o governo interprete isso como ingerência em assuntos internos e um atentado à soberania brasileira: "Os governos não gostam da pressão e se defendem sempre com esse argumento falso da soberania. Mas quanto mais pressão, maior é a esperança de que se possa mudar alguma coisa. E se houver consequências econômicas, melhor ainda, porque elas fazem com que os interesses das grandes organizações econômicas, como os exportadores, se movimentem."

O constante noticiário negativo sobre a destruição ambiental no Brasil prejudica a imagem do país, confirma o cientista político Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas: "O Brasil é no momento o pária global, tem dificuldade em defender a própria imagem. E no exterior isso causa perplexidade, pois foi justamente a reação de Bolsonaro aos incêndios florestais que desencadeou esse debate global."

O presidente reagiu com sarcasmo e ironia às declarações da chanceler federal alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, Emmanuel Macron, de que estavam preocupados com a Floresta Amazônica. Além disso, corresponsabilizou as organizações não governamentais pelos incêndios florestais e rejeitou ajuda internacional como sendo parte de uma conspiração contra o país.

"Bolsonaro se colocou deliberadamente como vilão na questão climática global. Isso ele calculou mal, ao reagir à crítica externa da mesma forma que à interna, ou seja, com provocação e escárnio", analisa Stuenkel. Em consequência, o presidente corre o risco de se tornar anátema para os governos estrangeiros, fato que coloca em perigo a influência política global do Brasil: "É possível que agora Bolsonaro mude seu discurso. Mas é muito improvável que a política climática brasileira vá mudar."

Nas últimas semanas, as primeiras empresas anunciaram boicotes contra o país, pois não querem ser associadas a ele, prossegue o cientista político. "E isso pode se alastrar." Quanto a uma ameaça ao acordo de livre-comércio entre a UE e o Mercosul, "a questão é até que ponto a sociedade civil alemã vai se mobilizar contra".

Contudo, uma não ratificação pela Alemanha não significa que o país mudará sua política. "No caso do Brasil, a pressão internacional pode também ser utilizada pelo governo para ainda reforçar seu argumento nacionalista, de que se trata de um complô contra o Brasil", diz Stuenkel.

Internamente, isso poderá até ter efeitos positivos para o presidente. Já em sua época de deputado, ele parecia sentir-se muito bem no papel do pária discriminado. "Não acredito que Bolsonaro se perturbaria se houvesse ainda mais boicotes de produtos. Isso o fortaleceria em sua narrativa, de que existe uma conspiração comunista contra o Brasil. Portanto é preciso tomar cuidado com a forma de reagir a essa política anticlima brasileira."
Deutsche Welle

Nosso lado fascista

"Então, vamos lá", diz minha neta Bia, 9 anos, quando começa a contar uma história.

A história, nesse caso, não é promissora. Pois então vamos lá. Pesquisas recentes de opinião mostraram que o Presidente Jair Bolsonaro vem perdendo terreno. A noticia não é nova, Fontes diferentes apresentaram resultados parecidos. Do inicio do ano para cá, o capitão perdeu mais da metade do apoio popular. Em fevereiro, 19% da população achavam o governo ruim ou péssimo. Hoje, são quase 40%.

Os brasileiros estão acordando? Antes tarde do que nunca? Até alguns famosos já se arrependeram. Políticos e outros. Por irrestrita conveniência.

E o que isso quer dizer para os bolsonaristas convictos? Absolutamente, nada. Acredite. Hoje, nove meses depois de irremediáveis atrasos na educação, meio-ambiente, saúde, tecnologia, a economia que não avança, censura descarada e a série sem fim de asneiras e ataques, há ainda quase 30 por cento de patrícios que acham o governo bom ou ótimo.

Levantamentos sérios, feitos por gente séria.

Não são fracos os que o cultuam, na tradução da força física, não do caráter. Ativos nas redes sociais, fabricam notícias falsas em tal velocidade que perdem apenas pros Estados Unidos. A maioria dos bolsonaristas convictos é violenta, gosta de armas, odeia gays, despreza os negros, tem horror à independência das mulheres, e acha que floresta boa é floresta que dá lugar a madereiros ou plantadores de soja.

Há os que amam Bolsonaro para odiar o PT. Defendem o mito para condenar Lula. Nem Ciro, e seu discurso de sinais trocados, faria diferença para esse gueto. Só o Capitão representa o antagonismo vital para sua sobrevivência politica. Casos perdidos. Como o PT não morreu, o antipetismo está mais vivo que nunca.

O lado fascista ainda é latente. Não há ilusão. O mito resiste para quem enxerga saída para o Brasil pela veia autoritária, devastadora, ultra conservadora e ditatorial. Quase 30% do eleitorado é muita gente. Não garante reeleição. Endossa alianças.

Na ribanceira eleitoral, muitos passaram a reprovar o estilo xucro do Presidente da República. Não prestaram atenção na campanha. Ele já era xucro, brega e vulgar. Ele sempre foi xucro, brega e vulgar. Mas, OK. Em fevereiro, quando o mito ainda era mito, 28,2% torciam o nariz para seu desempenho pessoal. Hoje, são 53,7% os incomodados.

Pois bem, o linguajar bronco e chulo não contaminou os 30% que o apoiam. É de assustar o que dizem seguidores. Pobres e ricos, héteros e gays. Mais ricos do que pobres, mais héteros que gays. Uma mesa num restaurante acessível apenas à fina flor do Leblon reunia dia desses uma histérica (e bem sucedida) advogada, jornalistas e economistas. Ela defendeu com tanto ardor a perversa e controversa política econômica e social de Bolsonaro, que fez calar até quem um dia votou nele.

Cenas comuns. Em ambientes onde se sentem seguros, bolsonaristas não baixaram o tom. Excitam-se ao menor sinal de oposição. Turma, seita, bando, associação, panela, panelinha, esbravejam como nunca. Para alegria da família Bolsonaro, persistem. No mundico da política, definitivamente, como diz o colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, "quem diz que gay é escandaloso, nunca viu um hétero defendendo Bolsonaro". Prestem atenção.

Gente fora do mapa


Congresso renovado tem cara de pão dormido

Celebrava-se no início do ano, a posse do Congresso mais renovado das últimas três décadas. Durou pouco a animação. Os parlamentares parecem empenhados em revogar o direito do brasileiro ao otimismo. Isso ficou evidente com a tramitação da proposta que reformula regras eleitorais e partidárias, permitindo a políticos e partidos gastarem verba pública como se fosse dinheiro grátis e tornando praticamente impossível a punição de delinquentes eleitorais. O Parlamento novo era pão dormido.

Dos 513 deputados eleitos no ano passado, 244 sentaram nas poltronas do plenário da Câmara pela primeira vez nesta legislatura. Um índice de renovação de 48%. A proposta indecente passou na Câmara por 263 votos a 144. Faltou lembrar na hora de contabilizar a taxa de renovação do Legislativo que mais da metade dos "novos" deputados eram ex-senadores, ex-governadores, ex-prefeitos, ex-deputados estaduais, ex-secretários de Estado. Quer dizer: políticos tradicionais.


O projeto do escárnio foi ao Senado. Ali, estavam em jogo nas eleições do ano passado 54 das 81 cadeiras. Elegeram-se 46 novatos. Taxa de renovação de 85%. Um pedaço do "novo" também veio acoplado ao prefixo "ex". Apesar de toda a repercussão negativa, a maioria dos senadores se equipava para aprovar o projeto indecoroso recebido da Câmara. Foi preciso que o noticiário gritasse e as redes sociais berrassem para que se produzisse nesta terça-feira algo parecido com uma meia-volta.

Continua sobre a mesa um debate esquisito sobre a definição do valor do fundo eleitoral que bancará a eleição municipal do ano que vem. Há quem queira elevar o gasto de R$ 1,7 bilhão para R$ 3,7 bilhões. Convém continuar gritando. No limite, o eleitor terá de cobrar dos parlamentares a aprovação de uma nova Constituição, na versão simplificada que foi sugerida pelo historiador Capistrano de Abreu, morto em 1927. Teria apenas dois artigos: Artigo 1º: Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Artigo 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

Escatológico

Se eu for presidente eu saio da ONU, não serve pra nada esta instituição. (O Conselho de Direitos Humanos) É uma reunião de comunistas, de gente que não tem qualquer compromisso com a América do Sul, pelo menos
Jair Bolsonaro então candidato do PSL, em 18 de agosto de 2018

O que diz o vento

Para o Brasil chegar afinal ao Primeiro Mundo, só falta vulcão. Uns abalozinhos já tem havido por aí, e cada vez mais frequentes. Agora passa por Itu esse vendaval, com tantas vítimas e tantos prejuízos a lastimar. Alguns jornais não tiveram dúvida: ciclone. Ou tornado, quem sabe. Deve ser coisa do El Niño, um fenômeno que vem pelo mar lá do Pacífico, bate nos Andes, provoca o degelo e uma sequela de cataclismos que passam pelo Brasil.


Não sei o que é pior, se furacão ou vulcão. Pior mesmo, porque conheço, é tremor de terra. Estava em Lisboa com o Vinicius de Moraes quando aconteceu o terremoto de 1968. Palavra que achei que era contra mim pessoalmente. Veio até com dois "tt". Assim: "t" e "rremOtto". Quando estive no Japão com o Cláudio Mello e Souza fomos perseguidos por um tufão. Mas japonês dá jeito em tudo. O voo atrasou e voltamos a Tóquio numa boa.

Shelley que me desculpe, mas vento me dá nos nervos. Desarruma a gente por dentro. Mas em matéria de vento, poeta tem imunidades. Manuel Bandeira associou à canção do vento a canção da sua vida. O vento varria as luzes, as músicas, os aromas. E a sua vida ficava cada vez mais cheia de aromas, de estrelas, de cânticos. O contrário do ventinho ladrão. Sabe como é que se chama vento? Com três assobios. Ou soprando num búzio. Também funciona se você invocar São Lourenço, que é o dono do vento.

Fúria dos elementos, símbolo da instabilidade, o vento é ao mesmo tempo sopro de vida. Uma aragem acompanha sempre os anjos. E foi o vento que fez descer sobre os apóstolos as línguas de fogo do Espírito Santo. Destruidor e salvador, com o vento renasce a vida, diz a "Ode to the West Wind", de Shelley. No inverno só um poeta romântico entrevê o anúncio da primavera. Divindade para os gregos, o vento inquieta porque sacode a apatia e a estagnação.

Com esse poder de levar embora, suponhamos que uma lufada varresse o Brasil, como na canção do Manuel Bandeira. Que é que esse vento benfazejo devia levar embora? Todo mundo sabe o mundo de males que nos oprime nesta hora. Deviam ser varridos para sempre. Se vento leva e traz, se vento é mudança, não custa acreditar que, passada a tempestade, vem a bonança. E com ela, o sopro renovador – garante o poeta. A casa destelhada, a destruição já começou. Vem aí a reconstrução.