segunda-feira, 20 de julho de 2015

As meninas entram em cena


Você poderia chamá-las de petroputas ou prostipetro, mas não seria preciso. As meninas aparecem em quase todo grande escândalo em Brasília. Não são especializadas. Finalmente, deram as caras no escândalo do Petrolão. Documentos da PF indicam que houve gastos com garotas de programa, mencionadas em rubricas como Jô 132 e 3 Monik nas planilhas de Alberto Youssef, um dos grandes nomes do caso.

Lembro-me de que uma das grandes cafetinas de Brasília uma vez me perguntou no aeroporto o que pensava das garotas de programa nesses escândalos. Disse que não as incriminava. Os políticos e empresários gostam de Rolex, compram sapatos Labutin para suas mulheres. Não se podem culpar as marcas, muito menos os vendedores que não costumam perguntar sobre a origem do dinheiro.
Mas a presença das meninas dá um tom global ao escândalo. O ex-dirigente do FMI Dominique Strauss-Kahn foi preso em Nova York por assédio. Mas na França, onde a prostituição é criminalizada, teve de responder a processo. O mesmo se passa com Silvio Berlusconi, com suas famosas bunga-bungas. Também foi processado.

Num contexto de prostituição legalizada, as coisas seriam mais fáceis. Aos documentos da Lava-Jato seriam incorporados recibos de prestação de serviços. Papai e mamãe, blow jobs e o caríssimo beijo na boca seriam especificados.
A Lava-Jato já tem inúmeros componentes cinematográficos. Mas a entrada das meninas nas festas dos poderosos assaltantes da Petrobras era uma espécie de elo que faltava. Gurus, políticos e empresários costumam revelar nesses episódios o desejo de uma satisfação sexual ilimitada. É uma espécie de calcanhar de Aquiles.

Leio que as garotas de programa já apareceram em revistas e talvez por isso cobrem mais caro. São contratadas como os ricos compram quadros, não pelas formas, mas pela fama do pintor.

Outro dia, um grupo de São Paulo me convidou para contribuir com o roteiro de um filme sobre Brasília. Respondi com uma ideia tão maluca que nunca mais voltaram ao assunto.

Era uma nave de outra galáxia que se aproximava de Brasília com a missão de ocupar alguns prédios habitados por duas tribos de cabelos pintados: os Acaju e os Graúna. Na medida em que eles se aproximavam, acompanhavam pela tela da nave o comportamento da sociedade que ainda não conheciam em detalhes.

Agora vejo que caberia nesse argumento cinematográfico uma garota de programa infiltrada que mandaria mensagens constantes para o big data; crescimento dos implantes de pênis, baixa da tesão nos dias em que o Banco Central anuncia a taxa de juros.

Sempre me interessei pela economia libidinal de Brasília. No passado, escrevi sobre as prostitutas que faziam um cordão em torno do setor de hotéis. Cheguei a propor uma cartilha para os prefeitos do interior distinguirem uma travesti de uma garota de programa.

Um equívoco. Creio hoje que para todos é melhor uma dose de ambiguidade. Uma travesti que conheço, talentosa técnica administrativa, me contou que ao descobrirem o que se trata, alguns políticos fingem que não viram.

Talvez no futuro vejamos um livro do tipo “Memórias de uma cafetina em Brasília”. Espero também que não tenha nomes. Apenas elementos que nos ajudem a descortinar o universo libidinal do poder. Se não servir para a história, no sentido mais amplo, servirá para os roteiristas que buscam histórias de gente de carne e osso.

As meninas custaram a aparecer no Petrolão. Parecia um escândalo baseado em fortunas, compra de apartamentos, obras de arte. Elas apelam não só para um sentido universal, o sexo, mas também para o fugaz reencontro com o doce pássaro da juventude.

Com a entrada da Polícia Federal na casa de Fernando Collor, constatei que, além de seu carro oficial, ele tem três carros de luxo na garagem que devem valer juntos R$ 6 milhões. São apenas três de sua coleção de 14.

Qual o sentido disso, exceto garantir a Collor que ele tem carros de luxo na garagem, que é o bambambã?

Com a grana da corrupção, compram um sopro de juventude, transando com as meninas: com a coleção carros compra-se uma infância de brinquedos de luxo.

A nave se aproxima horrorizada.

Questão de sobrevivência

Brasília está desconectada do Brasil. A vida segue na Praça dos Três Poderes como se o país vivesse no melhor dos mundos. A presidente diz que não vai cair com a maior naturalidade. Porém, dificilmente vai comer o peru de Natal no Palácio do Planalto. A gravidade da crise é tão grande que até seu criador está procurando uma forma de se livrar da criatura. O caudilho, que destruiu as instituições de Estado, tem plena consciência do significado negativo da permanência de Dilma para seu projeto pessoal. A tarefa para os brasileiros é se safar — política e democraticamente — tanto do criador, como da criatura. É uma questão de sobrevivência.
Marco Antonio Villa

Caridade, pobreza e desenvolvimento social


Se formos buscar nos Evangelhos algumas réguas para aferir os valores segundo os quais nos devemos conduzir, veremos que a régua da caridade, do zelo pelos mais necessitados, serve como medida do amor a Deus. Nenhum cristão negará essa realidade ao mesmo tempo material e espiritual. No entanto, o pobre dos Evangelhos é, principalmente, o carente de Deus. E é também, entre muitos outros aspectos, o materialmente pobre, o necessitado de afeto, de justiça, de liberdade, de oportunidade. Desconhecer isto é uma primeira e muito comum perversão do sentido evangélico da palavra "pobre" e da situação da pessoa humana a ela correspondente.

Infelizmente, muitos alegam encontrar, nos Evangelhos, inspiração para uma visão sociopolítica do pobre. O pobre das Escrituras, nessa hipótese, não seria uma pessoa concreta, mas uma classe social. Mais um passo, e ele muda de nome, tornando-se o "excluído" da teologia da libertação. É fácil perceber onde se quer chegar com a substituição do vocábulo por um suposto sinônimo. Dizer-se "excluído" implica a ideia simétrica do "incluído", ou seja, de alguém que ocupou determinado espaço e rejeita a presença do outro. É o que sugere Lula, por exemplo, cada vez que coloca um suposto pobre num suposto avião e diz que os demais passageiros, supostamente, não o querem ali. Não há limite para a demagogia do multimilionário Lula. E não há limite para a malícia sociopolítica, supostamente religiosa, da teologia da libertação. Esta é uma segunda perversão envolvendo o mesmo conceito.

Uma terceira corresponde ao culto à pobreza material como um bem em si. Nessa perspectiva, muito comum, tudo se passa como se o empenho individual ou coletivo para sair de uma situação de carência material em direção a uma vida com maior dignidade e bem-estar fosse desvio de finalidade da existência humana e não um bem a ser buscado. Afirmo, aqui, o oposto: o ser humano não foi criado com tantos dons físicos, espirituais e intelectuais para se nutrir num pomar e se vestir com folhas de parreira.

Uma quarta perversão - e talvez a socialmente mais maléfica - é a que procura enfrentar a pobreza mediante políticas e sistemas econômicos que a conservam, reproduzem e aprofundam. Refiro-me ao igualitarismo percebido como ideal de vida social, cujos péssimos resultados se tornam nítidos nas experiências comunistas. Em nome da igualdade, mata-se a riqueza na sua fonte. Solapa-se a iniciativa dos indivíduos e das comunidades. Cerceia-se a liberdade de criação, condena-se o mérito e planeja-se a mediocridade. Se a igualdade é o objetivo, a pobreza de todos não perturba os adeptos dessa estranha ideologia que se diz protetora e defensora dos pobres.

A sociedade contemporânea já demonstrou, com excesso de evidências, que o modo mais eficiente de promover o desenvolvimento social, sem prejuízo da caridade, da solidariedade e do amor cristão ao próximo, exige: zelosa formação de recursos humanos, através da educação; inserção dos indivíduos de modo eficiente na vida social, política e econômica; segurança jurídica e atividades produtivas desempenhadas em economia livre, de empresa. Só são contra isso os que têm mais ódio ao materialmente rico do que amor ao materialmente pobre. Cegos pela ideologia, semeiam o que dizem combater: pobreza material e crescentes desníveis sociais.

Percival Puggina

O ataque dos zumbis

Eles respiram, movem-se – até na escuridão – e falam. Falam muito. Dão entrevistas. Tuítam. Fazem pronunciamentos. Da cadeia (de rádio e TV) ou de veículos oficiais que comandam, eles bravateiam e intimidam. Assim, parecem saudáveis e fortes. Desviam a atenção da iminente ameaça à sua sobrevivência no poder que vem do Ministério Público. Fazem do ataque a sua defesa. Alimentam-se de rivais. São os mortos-vivos da política.

Nesses dias, são mais frequentemente encontrados em Brasília do que em seriados televisivos sobre o fim do mundo tipo The Walking Dead. Deslocam-se em carros oficiais, usam terno, gravata e disfarçam a decadência da cabeleira com penteados elaborados. Manter a aparência similar aos do entorno é vital à sua camuflagem. “Se acontecer comigo, pode acontecer com você” é seu mantra. Quantos mais puderem contaminar com o medo, melhor.

O vírus que os deixou nesse estado é tão comum quanto o da gripe. Transmite-se principalmente – mas não só – durante o período eleitoral. Como vetor, usa doações legais (e nem tanto) para candidatos a todos os cargos. É incerto quantos ele infectou, mas estima-se que, no Congresso, a epidemia chegue às dezenas. Talvez às centenas. Há segurança nos números, pois um protege o outro. Maior o cardume, melhor a chance de escapar.

Por isso, organizam-se em bandos de denominações diversas. Uns referem-se ao coletivo de zumbis como “nosso grupo”, outros preferem chamar de “nosso partido”. Os mais ousados, de “nosso Poder”. A generalização exagerada faz parte da tática de parecer maior, mais poderoso, feroz e onisciente do que realmente é.


Quem olha a repetição, o volume e a riqueza de detalhes das denúncias que delatam o real estado de seu ser deve perguntar-se como é possível aos mortos-vivos políticos continuar dando as cartas para tantos deputados e senadores. Para solucionar o mistério, é preciso entender de onde vem o seu poder.

Do carisma pessoal certamente é que não é. Podem acusar os zumbis de muitas coisas, menos de carismáticos. Virá então da simpatia que despertam em quem está ao seu redor? Piada. Se há algum sentimento que acordam nos pares é o temor, não a empatia. Será então a eloquência, a facilidade para discursar e convencer? A leitura do teleprompter em pronunciamentos oficiais revela um estilo mais rousseffiano do que lacerdista.

Dilma Rousseff tampouco é carismática, nem desperta empatia entre políticos ou é craque na oratória, mas ela tem a caneta que faz nomeações e libera verbas – algo que falta aos zumbis. Pelo menos por enquanto.

O mistério permanece. A esta altura, só o Ministério Público será capaz de desvendar, com a ajuda do Supremo Tribunal Federal, a origem do poder que mantém os mortos vivos. Talvez.

Calendário da crise. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, é o responsável pela investigação dos mortos-vivos da política. Ele poderá ou não apresentar denúncia contra eles ao STF. Mas há um problema de timing. Seu mandato no cargo acaba em setembro. Para ser reconduzido, depende de três coisas: ser o mais votado na eleição por seus colegas procuradores no dia 5 de agosto, ser indicado por Dilma e ser referendado pelo Senado.

Ele é o favorito na eleição, e a presidente tem dado sinais de que pretende chancelar seu nome. O problema de Janot está no Senado. Não há prazo para que os senadores confirmem sua indicação. Não precisam nem rejeitá-la, basta que não a coloquem em votação. Se protelarem até depois de 17 de setembro, Janot sairá do cargo de procurador-geral. E daí?

Quem assume, interinamente, é o primeiro vice-presidente do Conselho Superior do Ministério Público, cujo mandato terá expirado em agosto. O novo terá que ser eleito pelos dez conselheiros. Nos votos deles pode estar o nome do procurador-geral que vai ou não definir o destino dos zumbis da política.

Reflexão na flexão

Escracho, teu nome agora é Brasil

Digam-me: há palavra melhor para definir o que está acontecendo nesse país para tudo quanto é lado que se olha? Temo que não. Escracho, em todos os seus mais variados sentidos. Um escracho. Um escracha o outro. Nós escrachamos todos. O juiz escracha uns. Os políticos se escracham entre si. O ex escracha a atual. Eu escracho certas pessoas, de um lado, junto de vocês, que também escracham outros e outros; quando não os mesmos, que todos estão se esculachando felizes da vida. Virou Babel
Na boa, isso aqui virou uma esculhambação total. Que até teria um lado divertido se nós também não estivéssemos sendo grandes vítimas desse processo todo. Volto a pensar se não é alguma coisa que estão pondo na água, tão desmedida e pouco produtiva está essa já muito vergonhosa esculhambação geral que assola o Brasil, e que ultrapassa em muito o antigo Febeapá - o festival de besteiras.

Desde muito criança tinha na Dercy Gonçalves, a Rainha do Escracho com faixa e tudo, e a quem se associa imediatamente a palavra, uma ídola. Imaginava até na minha cacholinha que ela bem que podia ser minha parente. Adorava vê-la fazendo aquelas caras de esgares, a boca de caçapa, da qual vertiam impropérios e impropérios. Adorava, não. Adoro ainda, porque a cada dia que passa ela está mais atual, embora tenha morrido há exatos 7 anos, completados agora neste 19 de julho. Na época, assistia a ela onde aparecia, na tevê; enchi e bati pé para que me levassem ao teatro para vê-la e, já jornalista, sempre que podia tentava ouvi-la sobre algum acontecimento. 


Imaginam o que ela diria se estivesse acompanhando o atual momento político nacional? Bippi, xxx, bi,bi,biiii, asteriscos - certamente tudo seria impublicável, tantos falsos moralistas estamos criando sobre este chão e que ela apontaria satisfeita. O engraçado é que sei que ela era até meio reacionária depois de tudo o que passou para se firmar na vida artística, mas imagino o que diria agora ouvindo os discursos da presidente, a falação (ah, aqui ela trocaria uma letra, certamente) das CPIs que a cada dia mais parecem espetáculos burlescos de um cabaré viciado, vendo os cabelos asas de graúna tentando se explicar se roubaram mas não sabiam. Depois de tanta luta pelo respeito à mulher artista, queria saber o que ela pensaria da glamorização absurda da prostituição. Dos pitacos religiosos de plantão. Da gargalhada que soltaria acompanhando os passos da oposição. Ou o topete do prefeito modernudo que se acha o coco da cocada (aqui, ela poria um acento, ah, poria sim).

Imagino-a falando a palavra impeachment de todas as formas, menos a normal, e terminando com um sonoro palavrão e gargalhada sempre. Achei um relato, achei sim, de um centro espírita, onde ela teria "baixado" e os médiuns a repreenderam por todos esses palavrões ditos durante toda a sua vida, e até sobre os oito abortos que sempre admitiu ter feito. Não acreditei que esse espírito era ela mesmo, não xingou ninguém nesta sessão! Acho que a gente quando morre leva pro espírito o que temos de melhor.

Pena que Dercy não tenha vivido esses 108 anos completos; só 101. Embora antes de morrer já tenha visto o país começar a virar uma curva esquisita, não imaginaria como tanta coisa se degringolaria e tornaria difícil até diferenciar o ético, o saudável, o progresso quase forçado dos costumes. Veria sendo mantidos os destratos, o racismo, a homofobia, a violência contra a mulher, esse gênero que sempre tem alguém controlando o que faz com a vagina, seus buracos, diria Dercy. "A perereca da vizinha tá presa na gaiola! Xô, perereca! Xô, perereca!"

"Represento exatamente o escracho do Brasil", disse certa vez, completando: "Eu posso ser escrachada, mas não sou bandalha". Não era mesmo, Dercy. Bandalha é essa gente que está comandando cadeiras importantes de vários poderes. 


E escracho é o que estão fazendo primeiro para perguntar depois - polícia escracha; imprensa escracha. A gente escracha, mostra o quão desmoralizados são, não usamos mais nem meias palavras para nos referir até às pessoas às quais deveríamos guardar certo pudor, certo respeito. Mas elas próprias também se escracham, e acabam desmascaradas em seus atos. Provocam nosso escrachamento.

Escracho aqui é tão escracho e tem tanto que perde até um de seus sentidos, o político, aquele de ser o protesto que se faz diante da casa de quem desrespeita os direitos humanos.

Afinal, é ou não é um escracho esse mundo estar dividido em partes? PT e os outros. O PT também estar em polvorosa, o PT puro e o sujo? As debandadas sem ideologia para viver. A oposição apoiar o Eduardo Cunha que é uma síntese do atraso? Cada um correndo para um lado? O país à deriva? O ordenamento jurídico sendo estilhaçado numa primeira instância; juiz endeusado e promovido a herói?

Em cima desse palco tem muita gente, e o assoalho não está firme. Tem ator querendo matar outro para pegar o papel. Nem tudo se pode falar. Nas coxias tem gente sabotando até a comida do camarim. E isso não é uma comédia. Está mais para ópera bufa.

Falta uma Dercy para falar umas poucas e boas - definitivas - ela sim, escracharia de verdade tudo isso, com seu palavrório picante.

Falta novidade na notícia

Vamos combinar que faltam novidades. Não que seja época de pouca noticia. Pelo contrario. Tem mais noticia de sobra. Mas, a noticia não é novidade. Talvez não sejam nem mesmo novas. Tem gosto de pão dormindo. Parece filme repetido. Ou mesmo disco arranhado.


Faz tempo que a gente não acompanha historia com enredo original, trama inteligente, ou pelo mesmo interessante. É tudo a mesma coisa. Os mesmos temas. Os mesmos problemas. E, mais preocupante de tudo, os mesmos personagens.

Duas décadas e meia após conquistarmos o direito de eleger o presidente da republica, a gente nossa historia continua as voltas com os mesmos personagens. O enredo, simples farsa que nem mesmo se traveste de tragédia, não se renova. Os mesmos personagens praticando atos previsíveis em cenas lamentáveis agridem os ouvidos, ferem o olfato, e saltam aos olhos.

Por preguiça ou pura falta de criatividade, até mesmo os argumentos são os mesmos. E na mesma ordem. Começam com a negação dos fatos. Transformam-se em ignorância. Passam pela ausência autoproclamada de responsabilidade. E, atropelados pela realidade gritante, degeneram em acusações e ameaças.

Tudo usando as mesmas palavras. Vem com uma historia de golpismo. Ameaçam com a falta de governabilidade. E, aparentemente a ameaça preferida, levantam o fantasma ou fantoche da crise institucional. É muita falta de inspiração. Ou de criatividade. Ou de tudo junto.

Mas, diante da normalidade e da obviedade dos fatos, a única coisa que salta aos olhos mesmo é a falta de novidades. As instituições, em perfeito funcionamento, jogam luz na triste realidade de que a grande crise é a falta de renovação.

Os personagens deste enredo lamentável estão envelhecidos, fora do seu tempo, obsoletos. Sem que, no entanto, existam novos rostos que inspirem um mínimo de confiança, carisma ou fé em sua competência.

A crise é a completa ausência de cabeças capazes de produzirem ideias viáveis. É deserto de homens e ideias que a gente, cedendo de esperança, não consegue atravessar. Em aridez que mata tudo. Sem oferecer nem mesmo o alivio enganoso da miragem.

Cinco pontes até o Rubicão

Dilma Rousseff atravessará o seu Rubicão? Há fortes razões para apostar no “Não”, até por se saber que ela não contaria com tropas poderosas como dispunha Júlio César em 11 de janeiro de 49 a. C, quando transgrediu a ordem de Roma, lançando uma declaração de guerra contra Pompéia com a célebre tirada: “a sorte está lançada”.

Seu arsenal no Congresso se esvazia e escasseia a munição das ruas. Mas em política contorna-se frequentemente o que parece impossível, por meio de fatores que integram o escopo de viabilidade, a começar pela própria índole da presidente.  Entre as duas estratégias do jogo político – cooperação e confronto – a que mais combina com o ethos presidencial é esta última, conforme se pode constatar na entrevista que ela concedeu à FSP (“eu não vou cair”). Sabendo que Lula também é de briga, como ele mesmo propaga,  a engenharia política  conveniente  ao projeto do PT é a do embate.



Em seu livro “Estratégias Políticas”, o cientista social Carlos Matus, que trabalhou no governo Allende, no Chile, distingue três estilos de governantes: o modo Chimpanzé, centrado nas relações de dominação/submissão, que se ampara em alianças táticas e transitórias e rivalidade permanente; o modo Maquiavel, centrado no projeto de um grupo, um partido, que permite o uso de quaisquer meios para viabilizá-lo.

O chefe (por exemplo, Lula/Dilma) não é o projeto, mas o projeto será inexequível sem ele(s). O terceiro é a maneira Gandhi, inspirada no respeito às posições de todos, na busca de cooperação. O líder é a personificação da honestidade. Nesse tipo, não existem inimigos, mas adversários. Nas três décadas de vida do PT, o estilo Maquiavel predominou. A confrontação está no DNA petista.

Sob o lume maquiavélico, o Partido dos Trabalhadores tentará prolongar o ciclo de poder que detém há 12 anos e meio. O primeiro grande entrave é a salvação do governo Dilma. Não há como dissociar PT, Lula e Dilma, como alas petistas tentam. O desafio que se apresenta ao lulopetismo é fazer com que a presidente atravesse cinco pontes até chegar ao famoso cruzamento do Rubicão. Elas estão interligadas, a indicar que os obstáculos existentes numa influenciarão a passagem na seguinte.  

A primeira é a ponte pessoal, a do jeito de ser. Dilma não é uma pessoa cordata. É de briga, de desafios, como ilustra com seu passado guerrilheiro. Assim, a estratégia de cooperação ficará em segundo plano, o que sugere continuação das querelas entre a base governista e o Executivo e entre alas do próprio PT. O confronto  é a pior alternativa para ela nesse momento. Brigar com Eduardo Cunha, por exemplo, seria um ponto fora de curva.  


A segunda é a ponte econômica, para cuja travessia a presidente usa a competência técnica do timoneiro Joaquim Levy e a articulação do vice Michel Temer. Aprovado o pacote fiscal, mesmo com ajustes, a presidente terá de correr para apressar o fim do ciclo da economia recessiva, sob altos juros, inflação renitente e desemprego crescente. A redução da meta fiscal de 1,1% do PIB este ano para 0,5%, conforme se prevê, abre horizontes sombrios.

A insatisfação grassará em todos os estratos, a partir das margens e da classe C, a emergente, que esvazia o bolso, sob ameaça de regredir à base da pirâmide. As massas voltarão às ruas, os movimentos sociais agitarão bandeiras e a esfera política, sob os índices negativos de avaliação do governo, aproveitará para deitar conveniências. O congestionamento da via econômica provocará danos nas pontes seguintes – social e política – dificultando a travessia presidencial. Se o rigor fiscal der resultados ainda este ano, um raio de luz pode aparecer. Pouco provável.

Para diminuir os acessos, a Operação Lava Jato, com alta estridência, tem potencial para criar abalos nas conchas côncava e convexa do Congresso  e provocar fissuras nas imagens de suas lideranças. Mas a questão vai longe. Ante o foro privilegiado que abriga a representação política e com a tramitação de processos na Alta Corte sob embargos de todos os tipos, os casos deverão durar bons dois anos.

As pontes de passagem da presidente Dilma encontrarão ainda outros obstáculos, como a decisão do TCU, em agosto, sobre a responsabilidade da mandatária no caso das “pedaladas” fiscais e a votação do TSE sobre eventuais irregularidades nas contas de campanhas de Lula e Dilma.

É quando entra em cena a quinta ponte, a da gestão, pela qual a presidente deverá caminhar nos próximos meses. Pode ser atropelada pelos questionamentos que advirão. E, na sequencia, tentar se escudar na base governista. Se a administração ganhar ritmo, vislumbra-se uma réstia de esperança. Esse pacto pela governabilidade firmado por partidos da base resistirá aos tempos de vacas magras?

Diz-se que e política é a arte de fazer possível o impossível. Eis o desafio que se impõe à Sua Excelência antes de chegar ao Rubicão.

domingo, 19 de julho de 2015

Manual de uso de esquerdas e direitas


Levantamos com boa sorte se for “com o pé direito”. Ao contrário, o dia começa mal se levantamos com “o pé esquerdo”. Na Bíblia a bênção é dada e a herança é transmitida com a mão direita. Os justos estarão à direita de Deus, e os condenados, à esquerda. No entanto, nascemos com o coração à esquerda. E o coração é considerado popularmente o motor dos afetos e da vida.

É curioso que, desde a mais remota Antiguidade, tudo o que é melhor se atribui ao lado direito, e o pior, ao esquerdo. No sistema dos hieróglifos egípcios, entrar é ir para a direita, e sair é para a esquerda. Na Grécia antiga, Pitágoras obrigava a entrar nos templos pagãos com o pé direito. Para Píndaro, a direita significava a sabedoria e a astúcia.

Em nosso mundo pós-moderno discute-se o significado dos termos esquerda e direita sobretudo depois do recrudescimento do capitalismo financeiro de rapina, da queda do comunismo e do desastre dos populismos socialista que acabam resvalando no fascismo de Estado.

Ao mesmo tempo, psicólogos, antropólogos, sociólogos e linguistas continuam sem saber decifrar por que, como afirma o poeta simbolista catalão Juan Eduardo Cirlot, desde sempre os humanos identificam o lado direito com o futuro, o legítimo e a vida e o esquerdo com o passado, o reprimido e a própria morte.

A Bíblia, e com ela toda a cultura do judaísmo, também elogia e privilegia a direita. Aos sacerdotes era oferecida a perna direita da vítima sacrificada, segundo o livro do Levítico (7).

Moisés, no Êxodo (15) dirige-se assim a Deus: “Em sua direita, gloriosa está a força.” E no Eclesiastes (10) se lê: “O coração do sábio o guia para a direita, e o do néscio, para a esquerda.”

Em toda a tradição rabínica, a escuridão foi criada pela mão esquerda de Deus, e a luz por sua direita. Na língua hebraica se lê da direita para a esquerda.

No Novo Testamento, o Messias se sentará “à direita de Deus” (Mt16) e, depois do juízo final, os justos se colocarão à direita do Altíssimo e os condenados à sua esquerda.

Os evangelistas recordam que, na cruz, o bom ladrão estava à direita de Cristo e o mau à sua esquerda. E na maior parte da iconografia cristã, a cabeça de Cristo morto se inclina para o lado direito, raramente para o esquerdo.

Quando os apóstolos se queixam ao Mestre que não conseguiam pescar, Jesus lhes diz que é porque estavam jogando a rede para a esquerda. “Jogue-as à direita” (Jn.21), recomenda-lhes, e as redes voltaram carregadas de peixes. A sorte e a eficácia eram prerrogativas da direita.

Mais tarde, Dante Alighieri, na Divina Comédia, coloca o Paraíso à direita e o inferno à esquerda.

A única explicação plausível, segundo antropólogos e historiadores, para essa preferência dos antigos pela direita é que se acreditava que o sol nascia à direita, trazendo a luz e a vida, e se punha à esquerda, causando a escuridão e a morte.

A preferência dos antigos pela direita é que se acreditava que o sol nascia à direita, trazendo a luz e a vida, e se punha à esquerda, causando a escuridão e a morte

Na era moderna, os termos esquerda e direita adquirem na política significados diferentes dos meramente históricos. Tudo começa com a Revolução Francesa. Os nobres se sentavam à direita do monarca e os radicais, à esquerda.

Ainda hoje, nos banquetes e cerimônias oficiais, o comensal mais importante é colocado à direita do anfitrião. Curiosamente, até nos rituais marxistas, levanta-se com punho cerrado a mão direita, não a esquerda.

Depois das revoluções socialistas, a esquerda se vinga de seu atávico papel de inferioridade espacial. Os comunistas e socialistas começam a identificar-se com as causas da justiça e da liberdade, colocam-se ao lado dos mais fracos e marginais e lutam contra o capitalismo para dar o poder à classe trabalhadora.

É a reivindicação da esquerda social em defesa dos trabalhadores contra a injustiça de uma direita egoísta e excludente.

Hoje essa esquerda aparece em crise ou desiludida, e o jogo das políticas é no centro.

O que ocorreu é que uma certa esquerda, cuja bandeira era empunhada pelas massas deserdadas e órfãs de identidade, acabou aburguesando-se, contagiando-se com os pecados da direita até perder sua virgindade ética. Ocorreu na Itália, onde floresceu um dos partidos comunistas mais fortes da Europa. E está acontecendo no Brasil, onde até Lula admite que seu partido, que já foi o maior e com maior prestígio da América Latina, está em crise e não entusiasma os jovens.

A esquerda se deixou seduzir pelas seduções da riqueza fácil, e seus dirigentes começaram a viver como os ricos capitalistas.

No Brasil, como em boa parte da América Latina, a esquerda continua, no entanto, mantendo para muitos a fascinação e a memória das reivindicações sociais contra a avareza capitalista.


Mesmo assim, depois da queda do comunismo e do Muro de Berlim, os países procuraram novos rumos de política social-democrata sem dicotomias radicais, fazendo política distanciada da esquerda e da direita.

A defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores já não é prerrogativa única das esquerdas. Foi um imperativo para criar sociedades mais igualitárias.

Hoje o mundo vive momentos de areia movediça. Voltam, alimentados pelas crises econômicas mundiais, os extremismos de ambas as cores e as novas classes médias, chegadas do mundo do trabalho, movem-se com parâmetros diferentes das antigas reivindicações radicais da luta do proletariado contra a burguesia.

É um momento de passagem da ciência política e econômica, que exige soluções novas e criativas para fugir de velhos esquemas do passado.

Quando minha filha Maya tinha 5 anos e começava a aprender os conceitos básicos de tempo e espaço, perguntava-me onde ficavam a direita e a esquerda. Lembro que lhe dizia, com clara cumplicidade, que a esquerda estava sempre do lado do “coração” e que era com ele que ela “me amava”.

Muitos anos depois, um pedreiro que fez reformas na casa onde moro tornou-se alcoólatra. Teve que deixar de trabalhar. De vez em quando o encontro, cambaleando em sua velha bicicleta. Ainda se lembra de mim. Para, tira o gorro e me dá a mão, mas não a direita. Faz isso com a esquerda. “É a mão do coração”, explica.

Quando a esquerda se esquece, no entanto, de usar o coração na hora de defender os direitos dos mais desafortunados e prefere o compadrio e a fascinação pelos privilégios e luxos burgueses da direita, há o perigo de que se sinta tentada, como na Antiguidade, a crer que o bom está sempre à direita e a traição, à esquerda.

Dilma não sabe a diferença entre democracia e ditadura

Se alguém tivesse de cumprir a desagradável missão de escolher o discurso mais infeliz de Dilma Rousseff, estaria certamente diante de uma difícil tarefa. A competição da presidente consigo mesma, nesse quesito, é feroz. A fala desta sexta-feira, ao receber presidentes do Mercosul, no Palácio do Itamaraty, chega a ser nauseante. E por vários fatores que se combinam.

Para uma audiência que reunia truculentos notáveis como Nicolás Maduro (Venezuela), Cristina Kirchner (Argentina) e Evo Morales (Bolívia), a presidente brasileira teve a coragem de afirmar: “Somos uma região que sofreu muito com as ditaduras. Somos uma região onde a democracia floresce e amadurece. No ano passado, houve eleições gerais no Uruguai e no Brasil. Este ano, é a vez da Argentina e da Venezuela. A realização periódica e regular desses pleitos dá capacidade de lidar com as diferenças políticas. Temos de persistir nesse caminho, evitando que as disputas incitem a violência. Não há espaço para aventuras antidemocráticas na América do Sul.”

É bem provável que Dilma estivesse querendo dizer que uma eventual ação em favor do seu impeachment ou que a cassação do seu mandato pelo TSE se encaixariam na classificação de “aventuras antidemocráticas”. É claro que ela sabe ser uma mentira escandalosa.

Dilma pode não ser o melhor exemplo a que pode chegar a inteligência política brasileira, mas ela sabe que a simples realização de eleições não garante um regime democrático. Fazer tal afirmação diante de um ditador asqueroso como Nicolás Maduro e de um protoditador como Evo Morales chega a ser uma provocação grotesca ao bom senso. No ano passado, 40 pessoas foram assassinadas nas ruas da Venezuela por milícias a serviço do regime. Há presos políticos no país, e a imprensa está sob severa censura.

E coube justamente a Maduro descer ao esgoto moral. Afirmou: “Temos um presidente indígena (Morales), há um movimento bolivariano, que somos nós, de pé. E ninguém vai nos apagar do mapa. Nenhuma pressão política vai nos apagar. Há 40 anos, houve o Plano Condor, e não desaparecemos. Somos um projeto democrático, inclusivo”.

O “Plano Condor” é o nome pelo qual é conhecida a colaboração entre as várias ditaduras militares havidas na América do Sul nas décadas de 60 e 70. Hoje, regimes violentos e populistas também se amparam mutuamente, todos eles endossados pelos governos do PT, partido que sonhou emplacar por aqui algo semelhante. Trata-se de um “Plano Condor de esquerda”. Aliás, quando Dilma insiste em associar o cumprimento da lei à quebra da ordem democrática, ela o faz sob a inspiração desse pensamento delinquente.

E, claro, a pantomima não estaria completa sem a homenagem de Dilma a Cristina Kirchner, que voltou a levar a Argentina à beira do abismo: “Nesses oito anos em que lhe coube presidir a nação Argentina, você imprimiu posição firme e democrática a seu país. Do ponto de vista pessoal e político, quero dizer que você terá no Brasil uma amiga sempre pronta para compartilhar sistematicamente sonhos e esperanças”.

A brasileira, acreditem, tinha lágrimas nos olhos. No poder, Cristina Kirchner estimulou, ela também, a formação de verdadeiras milícias e tentou censurar a imprensa livre. O cadáver do promotor Alberto Nisman se revirou no túmulo. Dilma, no entanto, chorou de emoção. E aí falou a louca de Buenos Aires: “Qualquer estado integrante do Mercosul, ou da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), em que o governo seja removido por outro que não seja produto de eleições livres, populares e democraticamente eleito perde o caráter de estado membro.”

Também é de revirar o estômago. Cristina e Dilma, juntas, suspenderam o democrático Paraguai do Mercosul — por ter deposto legal e legitimamente um presidente — e aproveitaram o momento para abrigar a Venezuela do ainda vivo Hugo Chávez. Até então, o Senado paraguaio se negava a aprovar o ingresso do novo membro justamente porque reconhecia o país por aquilo que é: uma ditadura.

Ah, sim: a cerimônia marcou o ingresso da… Bolívia no Mercosul! O bloco já é hoje um atraso de vida para o Brasil. Entre outras razões, porque as decisões têm de ser tomadas por consenso. O bloco impede o Brasil de celebrar acordos bilaterais substantivos porque tem de se vergar às restrições de seus parceiros. Agora, teremos de nos submeter também às exigências bolivianas.

Enquanto isso, livres para voar, Chile, Peru, Colômbia e México celebram a Aliança do Pacífico, de costas, literalmente, para os bocós do Mercosul. O mal que o PT faz ao Brasil vai deixar marcas por muitas décadas. Já estamos começando a viver a herança maldita. E ela está apenas no começo.

Reinaldo Azevedo

O espetáculo da canalhice

Dado o pouco a que se presta a TV em matéria de discussão de ideias, é natural que a atenção, aflita à procura de um foco, se concentre no espetáculo nada elevado mas divertido dos mútuos assanhamentos da política. Fazem bem jornalistas e realizadores em deixar chover as chapadas ao gosto dos pugilistas.
Miguel Esteves Cardoso

Os donos da crise

Salve-se quem puder e como puder. Desde que a Operação Lava-Jato se aproximou de forma incontestável do Planalto e do Congresso Nacional, essa tem sido a regra.

Com a lama já batendo no queixo, aqueles que deveriam ser exemplares na defesa e respeito aos poderes constituídos agem para desestabilizar as instituições. E, com a já conhecida desfaçatez, o fazem em nome da normalidade democrática.

Ninguém escapa: a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer, os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha - um showman especializado em pirotecnias -, o ex Lula e dirigentes do PT.

Na tentativa desesperada de se safarem, tentam fazer crer que são as instituições, e não eles, o cerne da crise.

Cada um despeja culpas em outros e todos culpam o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal por fazerem exatamente o que tem de ser feito: investigar e denunciar.

A categoria dos que se acham intocáveis parece nada ter apreendido com o Mensalão. Reincide nos delitos e na conduta pós-crime.

Espanta-se com as ações das diferentes instâncias da Justiça. Considera ingratidão a recusa do ministro do Supremo, Teori Zavascki, em abrandar prisões. Esperneia nas aprovações de delações premiadas, quebras de sigilo e de mandados de busca e apreensão em casas de políticos, como o que desbaratou a frota não declarada de carros de luxo do ex-presidente deposto e senador da base aliada, Fernando Collor de Mello (PTB-AL).

A saída, com menor ou maior estardalhaço - caso típico do presidente da Câmara, acusado de ter recebido uma bolada de US$ 5 milhões -, é fazer confusão, ameaçar, subir o tom, criar clima de ruptura institucional.

A tese de instituições e democracia em risco, levada ao extremo por Renan e Cunha na semana passada, já vinha povoando discursos de Dilma e de seu vice, de Lula e do PT. Acuados, todos reclamam de vazamentos seletivos de depoimentos à Justiça, denunciam interesses escusos genéricos e golpismo.

Os petistas, com uma imaginação fertilíssima, materializam maquiavélicas fileiras da direita, orquestradas para barrar o projeto do PT – sabe-se lá qual – e a volta de Lula, o grande, à Presidência da República.


O país já está mergulhado em crises política e econômica gravíssimas, com crescimento negativo, desemprego e inflação em alta, uma presidente da República frágil, impopular, sem crédito algum depois de se reeleger sob um manto de mentiras. Tudo o que não precisa é de uma crise institucional forjada ora por Lula e o PT, ora pelo Planalto, ora por Renan ou Cunha.

Todos, sem exceção, miram na destruição da credibilidade da Justiça para salvar suas peles.

Mas, por maior que seja a tentação do presidente do STF, Ricardo Lewandowski, que, em inexplicável segredo, se reuniu com Dilma em Portugal -, as instituições de Estado provaram e continuam a demonstrar que não caem em armadilhas. A expectativa é de que nem ao menos tropecem.

Do contrário, aí sim, a crise institucional se tornaria real. Uma temeridade.

Um a putrefação lenta demais

A percepção externa da crise brasileira está bem retratada na revista peruana "Caretas", cujo número mais recente diz que a Lava Jato "é a mais importante investigação anticorrupção na história brasileira e latino-americana".

É dizer muito quando se conhece como a história latino-americana é prenhe de escândalos formidáveis de corrupção.

O ponto alto do escândalo em curso foi a abertura de investigação a respeito de Luiz Inácio Lula da Silva, notícia que não escapou a nenhum jornal mais ou menos relevante do planeta.

"The New York Times" deu, aliás, um título significativo: "Brasil acrescenta ao inventário dos escândalos de corrupção a investigação de um ex-presidente".

Já estamos, pois, pelo menos aos olhos de um dos grandes jornais do planeta, com um dossiê tão formidável de corrupção que se transformou em inventário –algo que usualmente se faz post-mortem.

É natural, em assim sendo, que o público brasileiro sinta um cheiro nauseabundo de putrefação do ambiente político.

Claro que sempre é preciso ressalvar que todo mundo é inocente até prova em contrário –e a delação premiada não é suficiente como prova.

Mas o inventário a que se refere "The New York Times" está durando tempo demais, sem que haja culpados em definitivo, condenados pela Justiça ou inocentes definitivamente declarados, depois das investigações competentes.

É urgente acelerar as coisas, sem, claro, abandonar todas as cautelas que garantam uma investigação limpa e legítima e a preservação integral do direito de defesa.

Está na hora de o Judiciário, até agora o único dos três Poderes cuja cúpula não foi colocada sob suspeição, criar uma força-tarefa, em coordenação com o Ministério Público e a Polícia Federal, para encerrar o "inventário", mandando para a cadeia quem merecer e passando atestado de bons antecedentes para quem for inocente.

Um país, qualquer que seja, não pode conviver eternamente com a suspeita de que seus principais líderes e alguns de seus principais empresários são corruptos.

Como diz o subtítulo do artigo de sexta-feira, 17, de Pedro Luiz Passos, presidente do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial, "sem solução do imbróglio político em que o país se meteu, a economia não voltará a crescer".

Uma parte importante do imbróglio é dada pela discussão cada vez mais escancarada sobre uma eventual defenestração da presidente Dilma Rousseff.

É importante deixar claro, nesse capítulo, que impeachment não é golpe, pela simples e óbvia razão de que está previsto na Constituição e –como diria o Conselheiro Acácio– o que é constitucional não é golpismo.

Feita essa ressalva, é indecente tratar do afastamento da presidente pelas costas, em conversas de bastidores entre altas autoridades.

Impeachment é algo que se tem de encarar de frente. Se alguém acha que há razões que justifiquem a abertura do processo (eu acho que não há), que as apresente de peito aberto no foro adequado.

Seria a única maneira decente de encerrar pelo menos parte desse sórdido "inventário".

Sucupirópolis, do vagão rosa ao fuá grá

Primeiro Haddad sancionou a lei que proíbe a venda e produção de foie gras em São Paulo. Depois, no Rio, aprovaram o projeto do vereador Cesar Maia que transforma o sotaque carioca em bem imaterial da cidade. Ainda cabe o veto de Eduardo Paes, é verdade, assim como a iguaria das iguarias já está liberada na Pauliceia, entretanto os dois casos dizem muito sobre nossa vocação para a caipirice.

Claro que o episódio paulista foi mais emblemático. São Paulo é cinza, dura e raçuda, cidade impermeável aos estereótipos de uma nação tropical e portanto nada afeita a perder tempo com tolices. Digo, tivesse a praia ao invés do Ibirapuera, duvido que o paulista cairia na pataquada de bater palmas para o pôr do sol. Quando muito buzinaria em protesto, certamente atrasado para algo mais importante.

Fica a pergunta, como podem tentar impor um nível tão grotesco de provincianismo ao cidadão paulista, precisamente ao cidadão paulista, sortudo habitante de uma terra onde pelo menos fagulhas de cosmopolitismo ainda conseguem ser percebidas? De resto, apoiar a demonização de um alimento, sob o pretexto deste ser fruto de tortura aos animais? Fico exausto só de pensar no trabalho que deve dar levar-se tão a sério.

Já sobre a outrora Cidade Maravilhosa, o que dizer? Como carioca, lamento vê-la cada vez mais cafona, cara e perigosa. Eu, que sempre critiquei a masturbatória ladainha narcisista, como se beleza natural fosse mérito e não um tremendo golpe de sorte, hoje em dia me vejo obrigado a capitular, até por que não restou outro argumento.

Rio, São Paulo, Brasil. A verdade é que somos imbatíveis no quesito auto-elogio. Nossa vaidade é tanta que transborda e acaba se misturando a outras nojeiras como hipocrisia, demagogia e, claro, ao populismo. Ficamos sexualmente excitados quando damos de cara com a oportunidade de chafurdar no lugar comum, em regurgitar qualquer baboseira com a mínima pinta que seja de politicamente correta. E pouco interessa se de fato comungamos do ponto em questão.

Pois essa maneira de pensar subdividiu-se e deu luz a um falso “autoritarismo do bem”, este endossado em programas de tv, jornais e botequins. No fundo um subterfúgio, assim conseguimos fechar nossos olhos para questões espinhosas e ainda reforçamos a ilusão de sermos moralmente superiores.

Esses episódios mais recentes, tanto o do foie gras quanto o do sotaque carioca, são fanfarras, se comparados ao vagão exclusivo para mulheres, o veto de bebidas alcoólicas em estádios, a tresloucada proibição de armas brancas após um assassinato, sem esquecer das infinitas gratuidades e filas preferenciais.

Estou exagerando? Tudo bem, aceito a crítica. Tanto que convido você para um papo franco em qualquer bar ou restaurante do Espírito Santo, assim deixamos um pouco Rio e São Paulo de lado.

Em tempo: Pensei em algo simples, uma conversa regada a guaraná e batatas fritas, mas me lembrei que por lá, de olho na saúde da população, foi sancionada uma lei proibindo o saleiro.

Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum. 

José Miguel Silva

Unusquisque

No primeiro semestre deste ano perderam-se 350 mil empregos, e muitos outros estão assustadoramente dependurados por um fio. Pagamos pecados, mas, além de os pagarmos, nota-se pouca competência para minorar os efeitos dolorosos. Parece que no país se instalou uma renúncia à inteligência, uma espécie de fatalismo que engessa a capacidade de reação.

É preciso recorrer à psicologia para entender o estado surrealista que se instalou.

Para George Groddeck, os sinais exteriores denotam a essência que predomina no interior do ser humano. Joaquim Levy não enxerga bem de longe, faltam-lhe muitos graus, e usa lentes espessas. Os traços exteriores, segundo Groddeck, refletem e explicam o que há no interior. Quem deixa crescer a barba tem no íntimo o desejo de se esconder atrás dela, não quer se mostrar, despista a insegurança; quem não enxerga bem de perto é porque perto não quer ver algo que o incomoda; com o envelhecimento isso se acentua para não se ver a decadência insurgente; quem não enxerga bem de longe costuma ter uma visão mais confusa de futuro. Esse é o caso de Levy.

Quem se interessa, e tem disposição ao esforço mental para uma autoanálise, leia esse autor, contemporâneo de Sigmund Freud, cuja importância não é menor que a do precursor da psicologia moderna.

O abade Constant reconheceu que a mulher bondosa, gentil, caridosa consegue manter traços mais suaves e graça feminina apesar dos anos. Para manter-se atraente e charmosa, a prática de virtudes ajuda mais que maquiagem e botox. Também o homem se conserva atraente exercitando bons pensamentos e ações.

Não se trata apenas de uma lenda ou de suposição, fica claro com os adeptos da ioga que conservam aspecto extraordinariamente juvenil com idade de mais de 100 anos. Você nunca viu? Procure. São raros, existem e fogem da regra da vida comum. Sabem se esconder.

O mito da imortalidade é o segredo de não envelhecer, de se manter intacto e jovem de alma, consequentemente de corpo. “Mens sana in corpore sano”, o indivíduo deve lembrar que se imunizará à oxidação evitando maus pensamentos e as práticas de vida corrosivas.

Não precisará de fármacos contra o envelhecimento.

“Somos o que pensamos”, lembra o sábio. Disso a importância da higiene nos pensamentos, sem “gorduras e tóxicos mentais”.

Existe uma incrível inteligência na natureza, à disposição de qualquer um, que faz com que um carnívoro evite se alimentar de outro carnívoro, pois nem ele suportaria a dose.

Dante Alighieri deu uma dica: “Feitos não fomos para viver como energúmenos brutais, mas para nos exercitarmos nas virtudes e no conhecimento”. Justamente por isso no Inferno dantesco encontramos os pecadores hediondos, e nos piores lugares desse fim de outro mundo, sofrendo as penas mais duras, aqueles que em “época de crise moral se mantiveram neutros”. Podiam intervir, e não o fizeram.

Abster-se do “dever” representa falha grave, assim como assistir imóvel a uma criança exposta ao risco de ser tragada pelo vício.

Os efeitos da ação e da omissão precisam ser devidamente considerados, como adverte o provérbio romano “unusquisque est faber suae fortunae”. Quer dizer que a nossa sorte nós mesmos a construímos. Culpar os outros... pouco adianta.

Neste momento de grave crise que se abate sobre a nação cabe a qualquer um, que possua um mínimo de lucidez, enxergar não apenas em volta, mas especialmente dentro de si, parar de reclamar de braços cruzados, sair da neutralidade. E quem tem mais, mais deve oferecer nesse esforço.

A nudez crua da verdade

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A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma

Desalento e desesperança estão no ar. Ambos são tóxicos e maus conselheiros. Conduzem à paralisia ou ao cinismo do salve-se quem puder.

Sem minimizar o peso que a corrupção da política e os desastres da economia têm no cotidiano de cada um é bom lembrar que por maiores que sejam os desgostos que provocam o Brasil não se esgota na Praça do Três Poderes. A vida é feita de luzes e sombras e se só enxergarmos as sombras estaremos pecando por omissão. Há uma leitura possível dos fatos que é produtora de sentido e renovadora de esperança.

Saint Exupéry conhecia o poder constituinte da esperança. “Quem quiser construir um barco, não comece por juntar as madeiras, cortar as tábuas e distribuir o trabalho, e sim por despertar nos homens o desejo do mar aberto e infinito”.

É esse desejo de um novo horizonte, a dimensão da esperança, que já não conseguimos experimentar. Colados à temporalidade vertiginosa da notícia, a vista vai ficando míope. Sabemos tudo e imediatamente sobre a cotação das bolsas e os escândalos do dia. Telas divididas em quatro informam sobre quatro continentes, mil amigos na internet filmam o que acontece em cada esquina. A enxurrada de informações transborda da capacidade de processamento e nos deixa órfãos de sentido.

Essa subversão contínua do imediato por outro imediato, essa aceleração patológica não dá chance ao pensamento de amadurecer. Vão ficando à margem questões essenciais. Em que tipo de sociedade queremos viver? É possível escapar à violência de todos contra todos? Que novos atores estão influindo no destino do país? Questões que pedem maturação quando os velhos arcabouços ideológicos estão caindo de podres.


O cenário político é degradante, com dois ex-presidentes da República e os presidentes da Câmara e do Senado sob investigação da Justiça. Em compensação temos um Poder Judiciário que funciona. A coragem de juízes e procuradores que conduzem a operação Lava-Jato redime o país das bandalheiras que a operação vai revelando. O país que eles desvelaram não teria existido se o Judiciário tivesse sempre atuado como está atuando agora. Daqui para frente será bem mais difícil debochar da lei e transformar o Congresso em esconderijo.

Os brasileiros em sua esmagadora maioria ganham suas vidas com trabalho honesto e mal visualizam as cifras delirantes envolvidas na roubalheira de que ouvem falar. A indignação dessa população cresce a cada dia, alheia às querelas intramuros de partidos decadentes. É dela e, sobretudo, da juventude, que não se reconhece no Brasil que estertora, corrupto e carcomido, que virá a invenção de contextos originais de participação e a renovação de lideranças para governar o pais.

A execração pública de políticos que sempre foram de moralidade duvidosa, até aqui blindados em suas imunidades, o desmascaramento dos falsos heróis populares que, enfim, começa a romper a blindagem até mesmo dos que se julgavam invulneráveis, é uma purga necessária. Razão de otimismo.

Se dos porões do obscurantismo ressurgem atitudes e ideias que imaginávamos superadas e que se traduzem em tentativas de, via Congresso Nacional, balizar a sociedade brasileira com dogmas religiosos, esse açodamento tem a natureza aterrorizada de um exorcismo. O pavor de ver triunfar a ética libertária na maneira de viver e fazer escolhas morais.

Esse reacionarismo — e aqui essa palavra tão ultrapassada se justifica — é o reconhecimento por falsos moralistas de que a sociedade mudou. Improvisam-se, então, às pressas, projetos de lei estapafúrdios para tentar deter o curso do mundo contemporâneo. O destino desses projetos de lei que, na contramão da experiência vivida pela maioria da população, visam a cortejar o eleitorado mais conservador é virar letra morta. Mais uma razão de otimismo.


Se tanta violência eclode entre nós, sobretudo na internet onde as facadas virtuais são impunes, é porque este continente selvagem tem muito do mundo inconsciente. Sem lei, sem tabu, sem superego, o comportamento dessa população incorpórea assusta. Não somos as doces criaturas que pensávamos ser. A evidência de nossa violência envergonha e está sendo reconhecida e condenada. Instrumentos de vigilância e de regulação já tentam civilizar o continente selvagem.

A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma.

Não há razão para desalento. O Brasil está vivendo um dos momentos mais fascinantes de sua história. O fim da impostura, a hora da nudez crua da verdade.

sábado, 18 de julho de 2015

A agonia do Brasil

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Poucos dias atrás, o ex-presidente Lula se reuniu em Brasília com a presidenta Dilma Rousseff e os seus ministros mais próximos para lhes dar um recado contundente: “A agenda do Governo do Brasil não pode ser ocupada pela Operação Lava Jato”, que investiga a corrupção na Petrobras e está prendendo dezenas de políticos e grandes empresários do país. Lula acrescentou: “Saiam às ruas e mostrem as obras realizadas pelo Governo.”

Pouco depois, chegou a notícia de que a Procuradoria da República do Distrito Federal abriu inquérito também contra Lula por suposto tráfico de influência internacional. Na mesma hora, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, o maior partido aliado do Governo, era acusado por um dos empresários presos de ter recebido 5 milhões de dólares em propina no escândalo da Petrobras. Foi praticamente sua morte política.

A opinião pública está desconcertada diante do quadro de incertezas vivido pelo Brasil, que enfrenta uma dura crise econômica e outra política já considerada uma das mais graves de sua história democrática.

É difícil imaginar como o Brasil poderá sair do quebra-cabeça em que as maiores autoridades políticas aparecem sob suspeita de ilegalidades e corrupção.

Já são dois ex-presidentes (Fernando Collor e Lula) sob investigação, assim como as maiores autoridades do Estado, a presidenta Dilma, os presidentes da Câmara e do Senado e outros 30 deputados e senadores de vários partidos.

A pergunta feita pelos brasileiros é quem ainda tem autoridade no Estado para oferecer um mínimo de confiança à sociedade, que já convocou para 16 de agosto uma nova manifestação nacional –apoiada pela oposição – contra o Governo, a crise econômica e a corrupção. O único aplauso hoje da sociedade é para os juízes, que pela primeira vez estão enfrentando os políticos e empresários acusados de corrupção.

O Ministro da Economia, o banqueiro liberal Joaquim Levy, tem se esforçado para fazer um mínimo de ajustes econômicos a fim deconter a sangria da dívida pública e tentar fazer o país voltar a crescer. Seu temor é que o Brasil perca o nível de investimentos – medo que ele mesmo confessou aos parlamentares.

A crise dividiu seriamente a irritada sociedade entre os que exigem uma mudança de governo e os que acusam a oposição de “golpismo”

Os esforços de Levy têm sido freados pela disputa entre o Congresso e o Governo, que perdeu a maioria do apoio e não faz mais do que colecionar derrotas.

Este é, de fato, um momento de certa agonia para o Brasil. A crise dividiu seriamente a irritada sociedade entre os que exigem uma mudança de governo e os que acusam a oposição, sobretudo a do PSDB, de “golpismo” e de não aceitar o resultado das urnas, que deu vitória a Dilma.

A abertura do inquérito contra o carismático Lula traz um novo fator de instabilidade, pois ainda não é possível saber qual será a reação do seu partido e dos movimentos sociais. Ao mesmo tempo, afasta a possibilidade da candidatura de Lula em 2018, que acabava de ser lançada por seus correligionários do PT.

Já se chegou a dizer que existem seguidores de Lula “dispostos a morrer” por ele, enquanto fica cada vez mais evidente o seu divórciocom Dilma.

Lula, que foi sempre um dos mais hábeis estrategistas da política brasileira, tem preferido, até agora, a prudência do silêncio.

Barco faz água em Brasília, violinos na Bahia

Se quiser entender os motivos de tanto barulho na Corte, preste bem atenção nos sussurros e gemidos que se escutam nas províncias.

Este singelo pensamento político - provavelmente desconsiderado às vésperas do baile da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, quando o Império se findava - ganhou incrível atualidade e relevância nesta semana da passagem emblemática e fulminante da Operação Politeia. Agentes da Policia Federal cumprindo mais de 50 mandados de "busca e apreensão" por várias regiões do país.


É que a expressão do jargão jurídico, policial e das redações, antes só era utilizado, no Brasil, em casos envolvendo receptadores de furtos, estelionatários notórios, "subversivos" no tempo da ditadura, ou simples ladrões de galinhas. Jamais em casos de figurões do poder e da política nacional. Tim Tim !!!. Saudemos com um brinde "Sua Excelência, o fato", à exemplo do que costumava dizer o saudoso deputado Ulysses Guimarães. Um brinde de fé e confiança na firmeza, agilidade, desassombro e vigor das instituições democráticas e republicanas estáveis. Nada, nem ninguém, acima da lei.

Este o principal ensinamento que fica deste mais recente e impactante desdobramento da Operação Lava Jato, conduzida com desvelo e incontestável competência profissional pelo juiz paranaense Sérgio Moro. No caso em pauta, porém, repita-se a bem da verdade dos fatos e da justiça, a Politeia foi cobrada pela Procuradoria Geral da República e a sua execução determinada ao comando da PF por três ministros do Supremo Tribunal Federal: Teori Zavaski, Celso de Melo e o presidente da Corte, Ricardo Lewandowski.

O feito segue causando barulho ensurdecedor e arrepios na espinha pelos quatro cantos de Brasília e do País. A demonstração mais visível e cabal disso foi o tão veloz quanto surpreendente pouso do ex-presidente Lula, na capital federal, já na terça-feira, 14. O fundador e líder maior do PT, padrinho e guia da mandatária, tem atuado nesta fase cavernosa da vida nacional (por mais que ele e os seus neguem ou tentem disfarçar) como espécie de eminência parda do governo (para dizer o mínimo).


Um tipo que na fase pré-Golbery era chamado nos ambientes palacianos e na imprensa, de "ministro sem Pasta". Aquele que manda e atua por todo lugar: na política, na economia e, principalmente, nos "negócios do governo". Nos "arranjos", para usar a expressão preferida do governador petista da Bahia, Rui Costa.

Com a presidente Dilma, - até a véspera de sua mais recente passagem pelo Planalto, para conversar e dar conselhos, - se dizia que Lula estava "de mal". Quase irremediavelmente separados e rompidos. Depois da passagem da Politeia por Brasília e da movimentação barulhenta ou silenciosa que se seguiu às “buscas e apreensões”, até na velha Casa da Dinda, de Collor de Mello, acredite nisso quem quiser.

Antes de baixar no palácio presidencial, para tentar acalmar o barulho no poleiro do poder (desculpem os de ouvidos mais sensíveis a expressão popular "politicamente incorreta"), o fundador do PT fez uma parada estratégica na Esplanada dos Ministérios. Procedente de São Paulo, território da FIESP, na poderosa Avenida Paulista, tambor de ressonância dos donos do dinheiro na Indústria, nos negócios do Comércio e, principalmente, das monumentais transações financeiras dos Bancos. Ao que se diz, nem sempre à boca pequena, o último sustentáculo do governo petista de Dilma, diante da ameaça de um impeachment.

Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas, diriam os irônicos franceses.

Em seguida, já se sabe, veio o almoço com Dilma e vários ministros, no Palácio da Alvorada. Ali , entre um prato e outro, foram servidos também os desabafos e as advertências. Lula, sobre a crise atual do governo da afilhada, disse que "a situação vai piorar mais ainda". Dilma concordou com a análise e com o recado, mas não passou batida. Disse que, infelizmente, nem ela nem seu ministro da Justiça podem conter o avanço da Lava Jato, nem impedir as batidas da Polícia Federal. Salve-se quem puder, portanto.

Barulho na corte, ampliado pelo surpreendente fato seguinte, do próprio ex-presidente Lula (depois de Collor) ter virado alvo de investigação criminal.

Sussurros na província da Bahia, que também merecem muita atenção. O senador Walter Pinheiro, fundador e nome de proa do petismo nacional, ex-líder do governo Lula no Congresso, dá sinais cada vez mais explícitos de que se prepara para deixar o barco. Falta só definir-se pelo novo pouso partidário, diante de muitas e tentadoras propostas recebidas. Depois de longo silêncio nas conversas com a imprensa, semana passada, em entrevista na Radio Metrópole, comparou drasticamente o quadro atual de seu partido e do governo Dilma, com a cena famosa da orquestra na hora do naufrágio no filme “Titanic”.

"Não ficarei esperando o violino tocar, para afundar como o violinista do Titanic”, disse o senador. Se um petista como Walter Pinheiro já proclama de público uma frase como esta, quem restará para defender o PT e o governo Dilma na hora do desenlace? Responda quem souber.

O strip-tease da República

A crise política agrava-se e transcende as que a precederam. Não há paralelo possível entre a queda de Collor ou o Mensalão e o que se passa agora. Há uma crise de credibilidade nas instituições, que dificulta a construção de uma saída pacífica ou previsível.

Nenhum dos poderes está sendo poupado na guerra institucional que está sendo travada. Nenhum escapa à decepção popular. Na raiz do problema, está a promiscuidade que marca as relações entre eles. A Constituição fala em poderes independentes e harmônicos, mas harmonia não é promiscuidade.

O encontro secreto, em Portugal, entre a presidente Dilma e o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, para discutir a operação Lava-Jato e o impeachment – temas que chegarão àquela corte –, foi, por exemplo, promiscuidade institucional pura.

Maculou sobretudo o Judiciário, sobre o qual recai, ainda por cima, a desconfiança da opinião pública quanto à isenção de alguns ministros com recente passado partidário.

O Executivo, cuja titular será alvo de processo de impeachment, já confirmado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o elenco de acusados e suspeitos começa no seu entorno: seu chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e seu ministro da Comunicação Social (e ex-tesoureiro de campanha), Edinho Silva, foram citados na delação de Ricardo Pessoa, na Lava-Jato.

Lavajato-no-congresso

No Congresso, o mais aberto dos poderes, a bagunça (para dizer o mínimo) é geral. Não bastasse haver ali 29 partidos – a maioria representando coisa nenhuma -, nenhum se apresenta de maneira unívoca quanto ao que acontece.

Os presidentes da Câmara e Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, têm em comum o incômodo da Lava-Jato, que os transfigurou em oposicionistas, depois de mais de uma década como aliados incontestes do petismo.

O PSDB, maior partido de oposição – ou por outra, o segundo maior, já que o PMDB deve migrar para a mesma trincheira – diverge internamente quanto ao desfecho da crise.

Aécio Neves sonha com a cassação da chapa Dilma-Temer, o que provocaria novas eleições, em que as pesquisas o mostram como franco favorito. Já o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também postulante à presidência, quer manter Dilma sangrando até 2018, período de que carece para firmar sua candidatura presidencial em âmbito nacional.

O PMDB, que, independentemente de crises, é um saco de gatos, também tem sonho duplo: ou o impeachment de Dilma, que lhe daria o comando do país, com Michel Temer, ou o parlamentarismo, segundo propõe Eduardo Cunha.


O problema do parlamentarismo, um sistema efetivamente mais funcional, é a credibilidade do presente Parlamento, que as pesquisas, em que algumas dezenas de integrantes andam às voltas com o Código Penal.

O Tribunal de Contas da União (TCU), órgão de apoio ao Legislativo – e que irá julgar as contas do governo Dilma em agosto -, teve sua credibilidade abalada pela denúncia de tráfico de influência do filho de seu presidente, Augusto Nardes, acusado por Ricardo Pessoa de fornecer informações reservadas sobre processos que lá tramitam. Acusação séria e documentada. Questionam-se (expressão moderada) suas condições de continuar onde está.

Não há, em suma, um projeto para o país, mas tão somente para cada qual dos protagonistas, que não percebem – ou pelo menos parece – que esta crise, diferentemente das outras, tem povo, que promete voltar às ruas no dia 16 de agosto e já se manifesta com veemência nas redes sociais.

Nenhuma das propostas até aqui conhecidas tem consenso – e nenhuma é indolor. Qualquer delas provocará reações das facções derrotadas, não se devendo subestimar a tropa de choque do PT, que perdeu popularidade, mas não organicidade.

O “exército do Stédile” promete entrar em cena e a militância já convoca os black blocs, assumindo, num ato falho (ou de desespero) sua paternidade, antes negada.

Supondo que, em vez de impeachment, haja a cassação da chapa eleitoral, alvo das denúncias da Lava-Jato, a linha sucessória está contaminada: Eduardo Cunha e Renan Calheiros podem até já não estar ocupando as respectivas cadeiras naquela ocasião.

Para complicar, já se anunciam as CPIs do BNDES, da Eletrobras e dos fundos de pensão. Nada menos. Sabe-se que irão mexer em vespeiros assemelhados aos da Petrobras, com os mesmos métodos e personagens em ação.

Como pano de fundo, a crise econômica, que se retroalimenta da crise política e não dá sinais de melhora.