domingo, 19 de julho de 2015

Manual de uso de esquerdas e direitas


Levantamos com boa sorte se for “com o pé direito”. Ao contrário, o dia começa mal se levantamos com “o pé esquerdo”. Na Bíblia a bênção é dada e a herança é transmitida com a mão direita. Os justos estarão à direita de Deus, e os condenados, à esquerda. No entanto, nascemos com o coração à esquerda. E o coração é considerado popularmente o motor dos afetos e da vida.

É curioso que, desde a mais remota Antiguidade, tudo o que é melhor se atribui ao lado direito, e o pior, ao esquerdo. No sistema dos hieróglifos egípcios, entrar é ir para a direita, e sair é para a esquerda. Na Grécia antiga, Pitágoras obrigava a entrar nos templos pagãos com o pé direito. Para Píndaro, a direita significava a sabedoria e a astúcia.

Em nosso mundo pós-moderno discute-se o significado dos termos esquerda e direita sobretudo depois do recrudescimento do capitalismo financeiro de rapina, da queda do comunismo e do desastre dos populismos socialista que acabam resvalando no fascismo de Estado.

Ao mesmo tempo, psicólogos, antropólogos, sociólogos e linguistas continuam sem saber decifrar por que, como afirma o poeta simbolista catalão Juan Eduardo Cirlot, desde sempre os humanos identificam o lado direito com o futuro, o legítimo e a vida e o esquerdo com o passado, o reprimido e a própria morte.

A Bíblia, e com ela toda a cultura do judaísmo, também elogia e privilegia a direita. Aos sacerdotes era oferecida a perna direita da vítima sacrificada, segundo o livro do Levítico (7).

Moisés, no Êxodo (15) dirige-se assim a Deus: “Em sua direita, gloriosa está a força.” E no Eclesiastes (10) se lê: “O coração do sábio o guia para a direita, e o do néscio, para a esquerda.”

Em toda a tradição rabínica, a escuridão foi criada pela mão esquerda de Deus, e a luz por sua direita. Na língua hebraica se lê da direita para a esquerda.

No Novo Testamento, o Messias se sentará “à direita de Deus” (Mt16) e, depois do juízo final, os justos se colocarão à direita do Altíssimo e os condenados à sua esquerda.

Os evangelistas recordam que, na cruz, o bom ladrão estava à direita de Cristo e o mau à sua esquerda. E na maior parte da iconografia cristã, a cabeça de Cristo morto se inclina para o lado direito, raramente para o esquerdo.

Quando os apóstolos se queixam ao Mestre que não conseguiam pescar, Jesus lhes diz que é porque estavam jogando a rede para a esquerda. “Jogue-as à direita” (Jn.21), recomenda-lhes, e as redes voltaram carregadas de peixes. A sorte e a eficácia eram prerrogativas da direita.

Mais tarde, Dante Alighieri, na Divina Comédia, coloca o Paraíso à direita e o inferno à esquerda.

A única explicação plausível, segundo antropólogos e historiadores, para essa preferência dos antigos pela direita é que se acreditava que o sol nascia à direita, trazendo a luz e a vida, e se punha à esquerda, causando a escuridão e a morte.

A preferência dos antigos pela direita é que se acreditava que o sol nascia à direita, trazendo a luz e a vida, e se punha à esquerda, causando a escuridão e a morte

Na era moderna, os termos esquerda e direita adquirem na política significados diferentes dos meramente históricos. Tudo começa com a Revolução Francesa. Os nobres se sentavam à direita do monarca e os radicais, à esquerda.

Ainda hoje, nos banquetes e cerimônias oficiais, o comensal mais importante é colocado à direita do anfitrião. Curiosamente, até nos rituais marxistas, levanta-se com punho cerrado a mão direita, não a esquerda.

Depois das revoluções socialistas, a esquerda se vinga de seu atávico papel de inferioridade espacial. Os comunistas e socialistas começam a identificar-se com as causas da justiça e da liberdade, colocam-se ao lado dos mais fracos e marginais e lutam contra o capitalismo para dar o poder à classe trabalhadora.

É a reivindicação da esquerda social em defesa dos trabalhadores contra a injustiça de uma direita egoísta e excludente.

Hoje essa esquerda aparece em crise ou desiludida, e o jogo das políticas é no centro.

O que ocorreu é que uma certa esquerda, cuja bandeira era empunhada pelas massas deserdadas e órfãs de identidade, acabou aburguesando-se, contagiando-se com os pecados da direita até perder sua virgindade ética. Ocorreu na Itália, onde floresceu um dos partidos comunistas mais fortes da Europa. E está acontecendo no Brasil, onde até Lula admite que seu partido, que já foi o maior e com maior prestígio da América Latina, está em crise e não entusiasma os jovens.

A esquerda se deixou seduzir pelas seduções da riqueza fácil, e seus dirigentes começaram a viver como os ricos capitalistas.

No Brasil, como em boa parte da América Latina, a esquerda continua, no entanto, mantendo para muitos a fascinação e a memória das reivindicações sociais contra a avareza capitalista.


Mesmo assim, depois da queda do comunismo e do Muro de Berlim, os países procuraram novos rumos de política social-democrata sem dicotomias radicais, fazendo política distanciada da esquerda e da direita.

A defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores já não é prerrogativa única das esquerdas. Foi um imperativo para criar sociedades mais igualitárias.

Hoje o mundo vive momentos de areia movediça. Voltam, alimentados pelas crises econômicas mundiais, os extremismos de ambas as cores e as novas classes médias, chegadas do mundo do trabalho, movem-se com parâmetros diferentes das antigas reivindicações radicais da luta do proletariado contra a burguesia.

É um momento de passagem da ciência política e econômica, que exige soluções novas e criativas para fugir de velhos esquemas do passado.

Quando minha filha Maya tinha 5 anos e começava a aprender os conceitos básicos de tempo e espaço, perguntava-me onde ficavam a direita e a esquerda. Lembro que lhe dizia, com clara cumplicidade, que a esquerda estava sempre do lado do “coração” e que era com ele que ela “me amava”.

Muitos anos depois, um pedreiro que fez reformas na casa onde moro tornou-se alcoólatra. Teve que deixar de trabalhar. De vez em quando o encontro, cambaleando em sua velha bicicleta. Ainda se lembra de mim. Para, tira o gorro e me dá a mão, mas não a direita. Faz isso com a esquerda. “É a mão do coração”, explica.

Quando a esquerda se esquece, no entanto, de usar o coração na hora de defender os direitos dos mais desafortunados e prefere o compadrio e a fascinação pelos privilégios e luxos burgueses da direita, há o perigo de que se sinta tentada, como na Antiguidade, a crer que o bom está sempre à direita e a traição, à esquerda.

Dilma não sabe a diferença entre democracia e ditadura

Se alguém tivesse de cumprir a desagradável missão de escolher o discurso mais infeliz de Dilma Rousseff, estaria certamente diante de uma difícil tarefa. A competição da presidente consigo mesma, nesse quesito, é feroz. A fala desta sexta-feira, ao receber presidentes do Mercosul, no Palácio do Itamaraty, chega a ser nauseante. E por vários fatores que se combinam.

Para uma audiência que reunia truculentos notáveis como Nicolás Maduro (Venezuela), Cristina Kirchner (Argentina) e Evo Morales (Bolívia), a presidente brasileira teve a coragem de afirmar: “Somos uma região que sofreu muito com as ditaduras. Somos uma região onde a democracia floresce e amadurece. No ano passado, houve eleições gerais no Uruguai e no Brasil. Este ano, é a vez da Argentina e da Venezuela. A realização periódica e regular desses pleitos dá capacidade de lidar com as diferenças políticas. Temos de persistir nesse caminho, evitando que as disputas incitem a violência. Não há espaço para aventuras antidemocráticas na América do Sul.”

É bem provável que Dilma estivesse querendo dizer que uma eventual ação em favor do seu impeachment ou que a cassação do seu mandato pelo TSE se encaixariam na classificação de “aventuras antidemocráticas”. É claro que ela sabe ser uma mentira escandalosa.

Dilma pode não ser o melhor exemplo a que pode chegar a inteligência política brasileira, mas ela sabe que a simples realização de eleições não garante um regime democrático. Fazer tal afirmação diante de um ditador asqueroso como Nicolás Maduro e de um protoditador como Evo Morales chega a ser uma provocação grotesca ao bom senso. No ano passado, 40 pessoas foram assassinadas nas ruas da Venezuela por milícias a serviço do regime. Há presos políticos no país, e a imprensa está sob severa censura.

E coube justamente a Maduro descer ao esgoto moral. Afirmou: “Temos um presidente indígena (Morales), há um movimento bolivariano, que somos nós, de pé. E ninguém vai nos apagar do mapa. Nenhuma pressão política vai nos apagar. Há 40 anos, houve o Plano Condor, e não desaparecemos. Somos um projeto democrático, inclusivo”.

O “Plano Condor” é o nome pelo qual é conhecida a colaboração entre as várias ditaduras militares havidas na América do Sul nas décadas de 60 e 70. Hoje, regimes violentos e populistas também se amparam mutuamente, todos eles endossados pelos governos do PT, partido que sonhou emplacar por aqui algo semelhante. Trata-se de um “Plano Condor de esquerda”. Aliás, quando Dilma insiste em associar o cumprimento da lei à quebra da ordem democrática, ela o faz sob a inspiração desse pensamento delinquente.

E, claro, a pantomima não estaria completa sem a homenagem de Dilma a Cristina Kirchner, que voltou a levar a Argentina à beira do abismo: “Nesses oito anos em que lhe coube presidir a nação Argentina, você imprimiu posição firme e democrática a seu país. Do ponto de vista pessoal e político, quero dizer que você terá no Brasil uma amiga sempre pronta para compartilhar sistematicamente sonhos e esperanças”.

A brasileira, acreditem, tinha lágrimas nos olhos. No poder, Cristina Kirchner estimulou, ela também, a formação de verdadeiras milícias e tentou censurar a imprensa livre. O cadáver do promotor Alberto Nisman se revirou no túmulo. Dilma, no entanto, chorou de emoção. E aí falou a louca de Buenos Aires: “Qualquer estado integrante do Mercosul, ou da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), em que o governo seja removido por outro que não seja produto de eleições livres, populares e democraticamente eleito perde o caráter de estado membro.”

Também é de revirar o estômago. Cristina e Dilma, juntas, suspenderam o democrático Paraguai do Mercosul — por ter deposto legal e legitimamente um presidente — e aproveitaram o momento para abrigar a Venezuela do ainda vivo Hugo Chávez. Até então, o Senado paraguaio se negava a aprovar o ingresso do novo membro justamente porque reconhecia o país por aquilo que é: uma ditadura.

Ah, sim: a cerimônia marcou o ingresso da… Bolívia no Mercosul! O bloco já é hoje um atraso de vida para o Brasil. Entre outras razões, porque as decisões têm de ser tomadas por consenso. O bloco impede o Brasil de celebrar acordos bilaterais substantivos porque tem de se vergar às restrições de seus parceiros. Agora, teremos de nos submeter também às exigências bolivianas.

Enquanto isso, livres para voar, Chile, Peru, Colômbia e México celebram a Aliança do Pacífico, de costas, literalmente, para os bocós do Mercosul. O mal que o PT faz ao Brasil vai deixar marcas por muitas décadas. Já estamos começando a viver a herança maldita. E ela está apenas no começo.

Reinaldo Azevedo

O espetáculo da canalhice

Dado o pouco a que se presta a TV em matéria de discussão de ideias, é natural que a atenção, aflita à procura de um foco, se concentre no espetáculo nada elevado mas divertido dos mútuos assanhamentos da política. Fazem bem jornalistas e realizadores em deixar chover as chapadas ao gosto dos pugilistas.
Miguel Esteves Cardoso

Os donos da crise

Salve-se quem puder e como puder. Desde que a Operação Lava-Jato se aproximou de forma incontestável do Planalto e do Congresso Nacional, essa tem sido a regra.

Com a lama já batendo no queixo, aqueles que deveriam ser exemplares na defesa e respeito aos poderes constituídos agem para desestabilizar as instituições. E, com a já conhecida desfaçatez, o fazem em nome da normalidade democrática.

Ninguém escapa: a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer, os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha - um showman especializado em pirotecnias -, o ex Lula e dirigentes do PT.

Na tentativa desesperada de se safarem, tentam fazer crer que são as instituições, e não eles, o cerne da crise.

Cada um despeja culpas em outros e todos culpam o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal por fazerem exatamente o que tem de ser feito: investigar e denunciar.

A categoria dos que se acham intocáveis parece nada ter apreendido com o Mensalão. Reincide nos delitos e na conduta pós-crime.

Espanta-se com as ações das diferentes instâncias da Justiça. Considera ingratidão a recusa do ministro do Supremo, Teori Zavascki, em abrandar prisões. Esperneia nas aprovações de delações premiadas, quebras de sigilo e de mandados de busca e apreensão em casas de políticos, como o que desbaratou a frota não declarada de carros de luxo do ex-presidente deposto e senador da base aliada, Fernando Collor de Mello (PTB-AL).

A saída, com menor ou maior estardalhaço - caso típico do presidente da Câmara, acusado de ter recebido uma bolada de US$ 5 milhões -, é fazer confusão, ameaçar, subir o tom, criar clima de ruptura institucional.

A tese de instituições e democracia em risco, levada ao extremo por Renan e Cunha na semana passada, já vinha povoando discursos de Dilma e de seu vice, de Lula e do PT. Acuados, todos reclamam de vazamentos seletivos de depoimentos à Justiça, denunciam interesses escusos genéricos e golpismo.

Os petistas, com uma imaginação fertilíssima, materializam maquiavélicas fileiras da direita, orquestradas para barrar o projeto do PT – sabe-se lá qual – e a volta de Lula, o grande, à Presidência da República.


O país já está mergulhado em crises política e econômica gravíssimas, com crescimento negativo, desemprego e inflação em alta, uma presidente da República frágil, impopular, sem crédito algum depois de se reeleger sob um manto de mentiras. Tudo o que não precisa é de uma crise institucional forjada ora por Lula e o PT, ora pelo Planalto, ora por Renan ou Cunha.

Todos, sem exceção, miram na destruição da credibilidade da Justiça para salvar suas peles.

Mas, por maior que seja a tentação do presidente do STF, Ricardo Lewandowski, que, em inexplicável segredo, se reuniu com Dilma em Portugal -, as instituições de Estado provaram e continuam a demonstrar que não caem em armadilhas. A expectativa é de que nem ao menos tropecem.

Do contrário, aí sim, a crise institucional se tornaria real. Uma temeridade.

Um a putrefação lenta demais

A percepção externa da crise brasileira está bem retratada na revista peruana "Caretas", cujo número mais recente diz que a Lava Jato "é a mais importante investigação anticorrupção na história brasileira e latino-americana".

É dizer muito quando se conhece como a história latino-americana é prenhe de escândalos formidáveis de corrupção.

O ponto alto do escândalo em curso foi a abertura de investigação a respeito de Luiz Inácio Lula da Silva, notícia que não escapou a nenhum jornal mais ou menos relevante do planeta.

"The New York Times" deu, aliás, um título significativo: "Brasil acrescenta ao inventário dos escândalos de corrupção a investigação de um ex-presidente".

Já estamos, pois, pelo menos aos olhos de um dos grandes jornais do planeta, com um dossiê tão formidável de corrupção que se transformou em inventário –algo que usualmente se faz post-mortem.

É natural, em assim sendo, que o público brasileiro sinta um cheiro nauseabundo de putrefação do ambiente político.

Claro que sempre é preciso ressalvar que todo mundo é inocente até prova em contrário –e a delação premiada não é suficiente como prova.

Mas o inventário a que se refere "The New York Times" está durando tempo demais, sem que haja culpados em definitivo, condenados pela Justiça ou inocentes definitivamente declarados, depois das investigações competentes.

É urgente acelerar as coisas, sem, claro, abandonar todas as cautelas que garantam uma investigação limpa e legítima e a preservação integral do direito de defesa.

Está na hora de o Judiciário, até agora o único dos três Poderes cuja cúpula não foi colocada sob suspeição, criar uma força-tarefa, em coordenação com o Ministério Público e a Polícia Federal, para encerrar o "inventário", mandando para a cadeia quem merecer e passando atestado de bons antecedentes para quem for inocente.

Um país, qualquer que seja, não pode conviver eternamente com a suspeita de que seus principais líderes e alguns de seus principais empresários são corruptos.

Como diz o subtítulo do artigo de sexta-feira, 17, de Pedro Luiz Passos, presidente do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial, "sem solução do imbróglio político em que o país se meteu, a economia não voltará a crescer".

Uma parte importante do imbróglio é dada pela discussão cada vez mais escancarada sobre uma eventual defenestração da presidente Dilma Rousseff.

É importante deixar claro, nesse capítulo, que impeachment não é golpe, pela simples e óbvia razão de que está previsto na Constituição e –como diria o Conselheiro Acácio– o que é constitucional não é golpismo.

Feita essa ressalva, é indecente tratar do afastamento da presidente pelas costas, em conversas de bastidores entre altas autoridades.

Impeachment é algo que se tem de encarar de frente. Se alguém acha que há razões que justifiquem a abertura do processo (eu acho que não há), que as apresente de peito aberto no foro adequado.

Seria a única maneira decente de encerrar pelo menos parte desse sórdido "inventário".

Sucupirópolis, do vagão rosa ao fuá grá

Primeiro Haddad sancionou a lei que proíbe a venda e produção de foie gras em São Paulo. Depois, no Rio, aprovaram o projeto do vereador Cesar Maia que transforma o sotaque carioca em bem imaterial da cidade. Ainda cabe o veto de Eduardo Paes, é verdade, assim como a iguaria das iguarias já está liberada na Pauliceia, entretanto os dois casos dizem muito sobre nossa vocação para a caipirice.

Claro que o episódio paulista foi mais emblemático. São Paulo é cinza, dura e raçuda, cidade impermeável aos estereótipos de uma nação tropical e portanto nada afeita a perder tempo com tolices. Digo, tivesse a praia ao invés do Ibirapuera, duvido que o paulista cairia na pataquada de bater palmas para o pôr do sol. Quando muito buzinaria em protesto, certamente atrasado para algo mais importante.

Fica a pergunta, como podem tentar impor um nível tão grotesco de provincianismo ao cidadão paulista, precisamente ao cidadão paulista, sortudo habitante de uma terra onde pelo menos fagulhas de cosmopolitismo ainda conseguem ser percebidas? De resto, apoiar a demonização de um alimento, sob o pretexto deste ser fruto de tortura aos animais? Fico exausto só de pensar no trabalho que deve dar levar-se tão a sério.

Já sobre a outrora Cidade Maravilhosa, o que dizer? Como carioca, lamento vê-la cada vez mais cafona, cara e perigosa. Eu, que sempre critiquei a masturbatória ladainha narcisista, como se beleza natural fosse mérito e não um tremendo golpe de sorte, hoje em dia me vejo obrigado a capitular, até por que não restou outro argumento.

Rio, São Paulo, Brasil. A verdade é que somos imbatíveis no quesito auto-elogio. Nossa vaidade é tanta que transborda e acaba se misturando a outras nojeiras como hipocrisia, demagogia e, claro, ao populismo. Ficamos sexualmente excitados quando damos de cara com a oportunidade de chafurdar no lugar comum, em regurgitar qualquer baboseira com a mínima pinta que seja de politicamente correta. E pouco interessa se de fato comungamos do ponto em questão.

Pois essa maneira de pensar subdividiu-se e deu luz a um falso “autoritarismo do bem”, este endossado em programas de tv, jornais e botequins. No fundo um subterfúgio, assim conseguimos fechar nossos olhos para questões espinhosas e ainda reforçamos a ilusão de sermos moralmente superiores.

Esses episódios mais recentes, tanto o do foie gras quanto o do sotaque carioca, são fanfarras, se comparados ao vagão exclusivo para mulheres, o veto de bebidas alcoólicas em estádios, a tresloucada proibição de armas brancas após um assassinato, sem esquecer das infinitas gratuidades e filas preferenciais.

Estou exagerando? Tudo bem, aceito a crítica. Tanto que convido você para um papo franco em qualquer bar ou restaurante do Espírito Santo, assim deixamos um pouco Rio e São Paulo de lado.

Em tempo: Pensei em algo simples, uma conversa regada a guaraná e batatas fritas, mas me lembrei que por lá, de olho na saúde da população, foi sancionada uma lei proibindo o saleiro.

Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum. 

José Miguel Silva

Unusquisque

No primeiro semestre deste ano perderam-se 350 mil empregos, e muitos outros estão assustadoramente dependurados por um fio. Pagamos pecados, mas, além de os pagarmos, nota-se pouca competência para minorar os efeitos dolorosos. Parece que no país se instalou uma renúncia à inteligência, uma espécie de fatalismo que engessa a capacidade de reação.

É preciso recorrer à psicologia para entender o estado surrealista que se instalou.

Para George Groddeck, os sinais exteriores denotam a essência que predomina no interior do ser humano. Joaquim Levy não enxerga bem de longe, faltam-lhe muitos graus, e usa lentes espessas. Os traços exteriores, segundo Groddeck, refletem e explicam o que há no interior. Quem deixa crescer a barba tem no íntimo o desejo de se esconder atrás dela, não quer se mostrar, despista a insegurança; quem não enxerga bem de perto é porque perto não quer ver algo que o incomoda; com o envelhecimento isso se acentua para não se ver a decadência insurgente; quem não enxerga bem de longe costuma ter uma visão mais confusa de futuro. Esse é o caso de Levy.

Quem se interessa, e tem disposição ao esforço mental para uma autoanálise, leia esse autor, contemporâneo de Sigmund Freud, cuja importância não é menor que a do precursor da psicologia moderna.

O abade Constant reconheceu que a mulher bondosa, gentil, caridosa consegue manter traços mais suaves e graça feminina apesar dos anos. Para manter-se atraente e charmosa, a prática de virtudes ajuda mais que maquiagem e botox. Também o homem se conserva atraente exercitando bons pensamentos e ações.

Não se trata apenas de uma lenda ou de suposição, fica claro com os adeptos da ioga que conservam aspecto extraordinariamente juvenil com idade de mais de 100 anos. Você nunca viu? Procure. São raros, existem e fogem da regra da vida comum. Sabem se esconder.

O mito da imortalidade é o segredo de não envelhecer, de se manter intacto e jovem de alma, consequentemente de corpo. “Mens sana in corpore sano”, o indivíduo deve lembrar que se imunizará à oxidação evitando maus pensamentos e as práticas de vida corrosivas.

Não precisará de fármacos contra o envelhecimento.

“Somos o que pensamos”, lembra o sábio. Disso a importância da higiene nos pensamentos, sem “gorduras e tóxicos mentais”.

Existe uma incrível inteligência na natureza, à disposição de qualquer um, que faz com que um carnívoro evite se alimentar de outro carnívoro, pois nem ele suportaria a dose.

Dante Alighieri deu uma dica: “Feitos não fomos para viver como energúmenos brutais, mas para nos exercitarmos nas virtudes e no conhecimento”. Justamente por isso no Inferno dantesco encontramos os pecadores hediondos, e nos piores lugares desse fim de outro mundo, sofrendo as penas mais duras, aqueles que em “época de crise moral se mantiveram neutros”. Podiam intervir, e não o fizeram.

Abster-se do “dever” representa falha grave, assim como assistir imóvel a uma criança exposta ao risco de ser tragada pelo vício.

Os efeitos da ação e da omissão precisam ser devidamente considerados, como adverte o provérbio romano “unusquisque est faber suae fortunae”. Quer dizer que a nossa sorte nós mesmos a construímos. Culpar os outros... pouco adianta.

Neste momento de grave crise que se abate sobre a nação cabe a qualquer um, que possua um mínimo de lucidez, enxergar não apenas em volta, mas especialmente dentro de si, parar de reclamar de braços cruzados, sair da neutralidade. E quem tem mais, mais deve oferecer nesse esforço.

A nudez crua da verdade

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A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma

Desalento e desesperança estão no ar. Ambos são tóxicos e maus conselheiros. Conduzem à paralisia ou ao cinismo do salve-se quem puder.

Sem minimizar o peso que a corrupção da política e os desastres da economia têm no cotidiano de cada um é bom lembrar que por maiores que sejam os desgostos que provocam o Brasil não se esgota na Praça do Três Poderes. A vida é feita de luzes e sombras e se só enxergarmos as sombras estaremos pecando por omissão. Há uma leitura possível dos fatos que é produtora de sentido e renovadora de esperança.

Saint Exupéry conhecia o poder constituinte da esperança. “Quem quiser construir um barco, não comece por juntar as madeiras, cortar as tábuas e distribuir o trabalho, e sim por despertar nos homens o desejo do mar aberto e infinito”.

É esse desejo de um novo horizonte, a dimensão da esperança, que já não conseguimos experimentar. Colados à temporalidade vertiginosa da notícia, a vista vai ficando míope. Sabemos tudo e imediatamente sobre a cotação das bolsas e os escândalos do dia. Telas divididas em quatro informam sobre quatro continentes, mil amigos na internet filmam o que acontece em cada esquina. A enxurrada de informações transborda da capacidade de processamento e nos deixa órfãos de sentido.

Essa subversão contínua do imediato por outro imediato, essa aceleração patológica não dá chance ao pensamento de amadurecer. Vão ficando à margem questões essenciais. Em que tipo de sociedade queremos viver? É possível escapar à violência de todos contra todos? Que novos atores estão influindo no destino do país? Questões que pedem maturação quando os velhos arcabouços ideológicos estão caindo de podres.


O cenário político é degradante, com dois ex-presidentes da República e os presidentes da Câmara e do Senado sob investigação da Justiça. Em compensação temos um Poder Judiciário que funciona. A coragem de juízes e procuradores que conduzem a operação Lava-Jato redime o país das bandalheiras que a operação vai revelando. O país que eles desvelaram não teria existido se o Judiciário tivesse sempre atuado como está atuando agora. Daqui para frente será bem mais difícil debochar da lei e transformar o Congresso em esconderijo.

Os brasileiros em sua esmagadora maioria ganham suas vidas com trabalho honesto e mal visualizam as cifras delirantes envolvidas na roubalheira de que ouvem falar. A indignação dessa população cresce a cada dia, alheia às querelas intramuros de partidos decadentes. É dela e, sobretudo, da juventude, que não se reconhece no Brasil que estertora, corrupto e carcomido, que virá a invenção de contextos originais de participação e a renovação de lideranças para governar o pais.

A execração pública de políticos que sempre foram de moralidade duvidosa, até aqui blindados em suas imunidades, o desmascaramento dos falsos heróis populares que, enfim, começa a romper a blindagem até mesmo dos que se julgavam invulneráveis, é uma purga necessária. Razão de otimismo.

Se dos porões do obscurantismo ressurgem atitudes e ideias que imaginávamos superadas e que se traduzem em tentativas de, via Congresso Nacional, balizar a sociedade brasileira com dogmas religiosos, esse açodamento tem a natureza aterrorizada de um exorcismo. O pavor de ver triunfar a ética libertária na maneira de viver e fazer escolhas morais.

Esse reacionarismo — e aqui essa palavra tão ultrapassada se justifica — é o reconhecimento por falsos moralistas de que a sociedade mudou. Improvisam-se, então, às pressas, projetos de lei estapafúrdios para tentar deter o curso do mundo contemporâneo. O destino desses projetos de lei que, na contramão da experiência vivida pela maioria da população, visam a cortejar o eleitorado mais conservador é virar letra morta. Mais uma razão de otimismo.


Se tanta violência eclode entre nós, sobretudo na internet onde as facadas virtuais são impunes, é porque este continente selvagem tem muito do mundo inconsciente. Sem lei, sem tabu, sem superego, o comportamento dessa população incorpórea assusta. Não somos as doces criaturas que pensávamos ser. A evidência de nossa violência envergonha e está sendo reconhecida e condenada. Instrumentos de vigilância e de regulação já tentam civilizar o continente selvagem.

A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma.

Não há razão para desalento. O Brasil está vivendo um dos momentos mais fascinantes de sua história. O fim da impostura, a hora da nudez crua da verdade.

sábado, 18 de julho de 2015

A agonia do Brasil

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Poucos dias atrás, o ex-presidente Lula se reuniu em Brasília com a presidenta Dilma Rousseff e os seus ministros mais próximos para lhes dar um recado contundente: “A agenda do Governo do Brasil não pode ser ocupada pela Operação Lava Jato”, que investiga a corrupção na Petrobras e está prendendo dezenas de políticos e grandes empresários do país. Lula acrescentou: “Saiam às ruas e mostrem as obras realizadas pelo Governo.”

Pouco depois, chegou a notícia de que a Procuradoria da República do Distrito Federal abriu inquérito também contra Lula por suposto tráfico de influência internacional. Na mesma hora, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, o maior partido aliado do Governo, era acusado por um dos empresários presos de ter recebido 5 milhões de dólares em propina no escândalo da Petrobras. Foi praticamente sua morte política.

A opinião pública está desconcertada diante do quadro de incertezas vivido pelo Brasil, que enfrenta uma dura crise econômica e outra política já considerada uma das mais graves de sua história democrática.

É difícil imaginar como o Brasil poderá sair do quebra-cabeça em que as maiores autoridades políticas aparecem sob suspeita de ilegalidades e corrupção.

Já são dois ex-presidentes (Fernando Collor e Lula) sob investigação, assim como as maiores autoridades do Estado, a presidenta Dilma, os presidentes da Câmara e do Senado e outros 30 deputados e senadores de vários partidos.

A pergunta feita pelos brasileiros é quem ainda tem autoridade no Estado para oferecer um mínimo de confiança à sociedade, que já convocou para 16 de agosto uma nova manifestação nacional –apoiada pela oposição – contra o Governo, a crise econômica e a corrupção. O único aplauso hoje da sociedade é para os juízes, que pela primeira vez estão enfrentando os políticos e empresários acusados de corrupção.

O Ministro da Economia, o banqueiro liberal Joaquim Levy, tem se esforçado para fazer um mínimo de ajustes econômicos a fim deconter a sangria da dívida pública e tentar fazer o país voltar a crescer. Seu temor é que o Brasil perca o nível de investimentos – medo que ele mesmo confessou aos parlamentares.

A crise dividiu seriamente a irritada sociedade entre os que exigem uma mudança de governo e os que acusam a oposição de “golpismo”

Os esforços de Levy têm sido freados pela disputa entre o Congresso e o Governo, que perdeu a maioria do apoio e não faz mais do que colecionar derrotas.

Este é, de fato, um momento de certa agonia para o Brasil. A crise dividiu seriamente a irritada sociedade entre os que exigem uma mudança de governo e os que acusam a oposição, sobretudo a do PSDB, de “golpismo” e de não aceitar o resultado das urnas, que deu vitória a Dilma.

A abertura do inquérito contra o carismático Lula traz um novo fator de instabilidade, pois ainda não é possível saber qual será a reação do seu partido e dos movimentos sociais. Ao mesmo tempo, afasta a possibilidade da candidatura de Lula em 2018, que acabava de ser lançada por seus correligionários do PT.

Já se chegou a dizer que existem seguidores de Lula “dispostos a morrer” por ele, enquanto fica cada vez mais evidente o seu divórciocom Dilma.

Lula, que foi sempre um dos mais hábeis estrategistas da política brasileira, tem preferido, até agora, a prudência do silêncio.

Barco faz água em Brasília, violinos na Bahia

Se quiser entender os motivos de tanto barulho na Corte, preste bem atenção nos sussurros e gemidos que se escutam nas províncias.

Este singelo pensamento político - provavelmente desconsiderado às vésperas do baile da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, quando o Império se findava - ganhou incrível atualidade e relevância nesta semana da passagem emblemática e fulminante da Operação Politeia. Agentes da Policia Federal cumprindo mais de 50 mandados de "busca e apreensão" por várias regiões do país.


É que a expressão do jargão jurídico, policial e das redações, antes só era utilizado, no Brasil, em casos envolvendo receptadores de furtos, estelionatários notórios, "subversivos" no tempo da ditadura, ou simples ladrões de galinhas. Jamais em casos de figurões do poder e da política nacional. Tim Tim !!!. Saudemos com um brinde "Sua Excelência, o fato", à exemplo do que costumava dizer o saudoso deputado Ulysses Guimarães. Um brinde de fé e confiança na firmeza, agilidade, desassombro e vigor das instituições democráticas e republicanas estáveis. Nada, nem ninguém, acima da lei.

Este o principal ensinamento que fica deste mais recente e impactante desdobramento da Operação Lava Jato, conduzida com desvelo e incontestável competência profissional pelo juiz paranaense Sérgio Moro. No caso em pauta, porém, repita-se a bem da verdade dos fatos e da justiça, a Politeia foi cobrada pela Procuradoria Geral da República e a sua execução determinada ao comando da PF por três ministros do Supremo Tribunal Federal: Teori Zavaski, Celso de Melo e o presidente da Corte, Ricardo Lewandowski.

O feito segue causando barulho ensurdecedor e arrepios na espinha pelos quatro cantos de Brasília e do País. A demonstração mais visível e cabal disso foi o tão veloz quanto surpreendente pouso do ex-presidente Lula, na capital federal, já na terça-feira, 14. O fundador e líder maior do PT, padrinho e guia da mandatária, tem atuado nesta fase cavernosa da vida nacional (por mais que ele e os seus neguem ou tentem disfarçar) como espécie de eminência parda do governo (para dizer o mínimo).


Um tipo que na fase pré-Golbery era chamado nos ambientes palacianos e na imprensa, de "ministro sem Pasta". Aquele que manda e atua por todo lugar: na política, na economia e, principalmente, nos "negócios do governo". Nos "arranjos", para usar a expressão preferida do governador petista da Bahia, Rui Costa.

Com a presidente Dilma, - até a véspera de sua mais recente passagem pelo Planalto, para conversar e dar conselhos, - se dizia que Lula estava "de mal". Quase irremediavelmente separados e rompidos. Depois da passagem da Politeia por Brasília e da movimentação barulhenta ou silenciosa que se seguiu às “buscas e apreensões”, até na velha Casa da Dinda, de Collor de Mello, acredite nisso quem quiser.

Antes de baixar no palácio presidencial, para tentar acalmar o barulho no poleiro do poder (desculpem os de ouvidos mais sensíveis a expressão popular "politicamente incorreta"), o fundador do PT fez uma parada estratégica na Esplanada dos Ministérios. Procedente de São Paulo, território da FIESP, na poderosa Avenida Paulista, tambor de ressonância dos donos do dinheiro na Indústria, nos negócios do Comércio e, principalmente, das monumentais transações financeiras dos Bancos. Ao que se diz, nem sempre à boca pequena, o último sustentáculo do governo petista de Dilma, diante da ameaça de um impeachment.

Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas, diriam os irônicos franceses.

Em seguida, já se sabe, veio o almoço com Dilma e vários ministros, no Palácio da Alvorada. Ali , entre um prato e outro, foram servidos também os desabafos e as advertências. Lula, sobre a crise atual do governo da afilhada, disse que "a situação vai piorar mais ainda". Dilma concordou com a análise e com o recado, mas não passou batida. Disse que, infelizmente, nem ela nem seu ministro da Justiça podem conter o avanço da Lava Jato, nem impedir as batidas da Polícia Federal. Salve-se quem puder, portanto.

Barulho na corte, ampliado pelo surpreendente fato seguinte, do próprio ex-presidente Lula (depois de Collor) ter virado alvo de investigação criminal.

Sussurros na província da Bahia, que também merecem muita atenção. O senador Walter Pinheiro, fundador e nome de proa do petismo nacional, ex-líder do governo Lula no Congresso, dá sinais cada vez mais explícitos de que se prepara para deixar o barco. Falta só definir-se pelo novo pouso partidário, diante de muitas e tentadoras propostas recebidas. Depois de longo silêncio nas conversas com a imprensa, semana passada, em entrevista na Radio Metrópole, comparou drasticamente o quadro atual de seu partido e do governo Dilma, com a cena famosa da orquestra na hora do naufrágio no filme “Titanic”.

"Não ficarei esperando o violino tocar, para afundar como o violinista do Titanic”, disse o senador. Se um petista como Walter Pinheiro já proclama de público uma frase como esta, quem restará para defender o PT e o governo Dilma na hora do desenlace? Responda quem souber.

O strip-tease da República

A crise política agrava-se e transcende as que a precederam. Não há paralelo possível entre a queda de Collor ou o Mensalão e o que se passa agora. Há uma crise de credibilidade nas instituições, que dificulta a construção de uma saída pacífica ou previsível.

Nenhum dos poderes está sendo poupado na guerra institucional que está sendo travada. Nenhum escapa à decepção popular. Na raiz do problema, está a promiscuidade que marca as relações entre eles. A Constituição fala em poderes independentes e harmônicos, mas harmonia não é promiscuidade.

O encontro secreto, em Portugal, entre a presidente Dilma e o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, para discutir a operação Lava-Jato e o impeachment – temas que chegarão àquela corte –, foi, por exemplo, promiscuidade institucional pura.

Maculou sobretudo o Judiciário, sobre o qual recai, ainda por cima, a desconfiança da opinião pública quanto à isenção de alguns ministros com recente passado partidário.

O Executivo, cuja titular será alvo de processo de impeachment, já confirmado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o elenco de acusados e suspeitos começa no seu entorno: seu chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e seu ministro da Comunicação Social (e ex-tesoureiro de campanha), Edinho Silva, foram citados na delação de Ricardo Pessoa, na Lava-Jato.

Lavajato-no-congresso

No Congresso, o mais aberto dos poderes, a bagunça (para dizer o mínimo) é geral. Não bastasse haver ali 29 partidos – a maioria representando coisa nenhuma -, nenhum se apresenta de maneira unívoca quanto ao que acontece.

Os presidentes da Câmara e Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, têm em comum o incômodo da Lava-Jato, que os transfigurou em oposicionistas, depois de mais de uma década como aliados incontestes do petismo.

O PSDB, maior partido de oposição – ou por outra, o segundo maior, já que o PMDB deve migrar para a mesma trincheira – diverge internamente quanto ao desfecho da crise.

Aécio Neves sonha com a cassação da chapa Dilma-Temer, o que provocaria novas eleições, em que as pesquisas o mostram como franco favorito. Já o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também postulante à presidência, quer manter Dilma sangrando até 2018, período de que carece para firmar sua candidatura presidencial em âmbito nacional.

O PMDB, que, independentemente de crises, é um saco de gatos, também tem sonho duplo: ou o impeachment de Dilma, que lhe daria o comando do país, com Michel Temer, ou o parlamentarismo, segundo propõe Eduardo Cunha.


O problema do parlamentarismo, um sistema efetivamente mais funcional, é a credibilidade do presente Parlamento, que as pesquisas, em que algumas dezenas de integrantes andam às voltas com o Código Penal.

O Tribunal de Contas da União (TCU), órgão de apoio ao Legislativo – e que irá julgar as contas do governo Dilma em agosto -, teve sua credibilidade abalada pela denúncia de tráfico de influência do filho de seu presidente, Augusto Nardes, acusado por Ricardo Pessoa de fornecer informações reservadas sobre processos que lá tramitam. Acusação séria e documentada. Questionam-se (expressão moderada) suas condições de continuar onde está.

Não há, em suma, um projeto para o país, mas tão somente para cada qual dos protagonistas, que não percebem – ou pelo menos parece – que esta crise, diferentemente das outras, tem povo, que promete voltar às ruas no dia 16 de agosto e já se manifesta com veemência nas redes sociais.

Nenhuma das propostas até aqui conhecidas tem consenso – e nenhuma é indolor. Qualquer delas provocará reações das facções derrotadas, não se devendo subestimar a tropa de choque do PT, que perdeu popularidade, mas não organicidade.

O “exército do Stédile” promete entrar em cena e a militância já convoca os black blocs, assumindo, num ato falho (ou de desespero) sua paternidade, antes negada.

Supondo que, em vez de impeachment, haja a cassação da chapa eleitoral, alvo das denúncias da Lava-Jato, a linha sucessória está contaminada: Eduardo Cunha e Renan Calheiros podem até já não estar ocupando as respectivas cadeiras naquela ocasião.

Para complicar, já se anunciam as CPIs do BNDES, da Eletrobras e dos fundos de pensão. Nada menos. Sabe-se que irão mexer em vespeiros assemelhados aos da Petrobras, com os mesmos métodos e personagens em ação.

Como pano de fundo, a crise econômica, que se retroalimenta da crise política e não dá sinais de melhora.

A cultura do terror

A extorsão, o insulto, a ameaça
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa,
a proibição de fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
— Os direitos humanos deveriam começar em casa — comenta comigo, no Chile, Andrés Domínguez.
Eduardo Galeano



Fora da lei não há salvação

Ficar na cama, debaixo das cobertas, até depois de apurada toda a corrupção, não vai dar. Muito menos embarcar numa espaçonave para Plutão. Sendo assim, cabe-nos acompanhar as investigações e rezar para que as instituições democráticas sobrevivam. Mas não está fácil. Dois ex-presidentes da República tornaram-se objeto de inquérito policial. Dois ministros do atual governo também. Os presidentes da Câmara, do Senado e do Tribunal de Contas da União estão acusados de participar da roubalheira. Quantos deputados e senadores? Em volta deles, montes de grandes empresários, aliás, muitos na cadeia.


Não se tem notícia de período igual em toda a história nacional. Para cada lado que se olhe a lambança é generalizada. Escapam poucas ilhas de honestidade nas estruturas dos poderes público e privado, onde suas lideranças buscam levar vantagem em tudo.

Assim, uns pedem a volta dos militares, outros aguardam que Jeová ou o Padre Eterno desencadeiem um novo dilúvio. Há os que pretendem o país transformado numa imensa penitenciária, como os que imaginam a pena de morte para crimes de corrupção. Muitos ensandecidos pela indignação sustentam que todo o poder deve ser oferecido aos sindicatos. Que tal, argumenta-se também, restabelecer a Monarquia?

É preciso calma e bom senso. Pode ser que o Brasil saia mais forte de toda essa lambança. Nada de propostas malucas ou ideias sem sentido. Como ponto de partida surgem os julgamentos e as condenações. Estas, implacáveis. Aqueles, rápidos. Depois, a reconstrução, através de profunda conscientização cultural. Mais do que de correções na lei, torna-se necessário respeitá-la. Sentir, como décadas atrás já se sentiu, que fora dela não há salvação. A massa de corruptos sendo agora em parte denunciados e punidos enveredou para o crime pelo descumprimento da lei. Pela pouca importância dedicada aos postulados que deveriam reger a sociedade. Policiais, promotores e juízes são seus guardiães, cabendo-lhes zelar por sua aplicação. Exemplos tem sido dados ainda recentemente pelo juiz Sergio Moro e pelo ex-ministro Joaquim Barbosa, que longe de parecerem salvadores da pátria, apenas cumpriram e cumprem seu dever.


Em suma, não haverá que desesperar. Nem ficar na cama ou aguardar uma espaçonave. Basta cultuar a lei, exigindo que seja aplicada. Claro que a referência vai para leis democráticas, provindas da maioria da população, por meio de seus representantes. Expurgados, por certo, os corruptos.

Vale voltar à questão da finalidade da pena. Serve para reparar o passado ou para preservar o futuro? O condenado à perda da liberdade responde pelo mal praticado ou pela oportunidade de regenerar-se e não reincidir? Dividiram-se por muito tempo as correntes jurídicas, prevalecendo hoje a via de mão dupla. No caso de crimes de corrupção, vem um adendo: deve ser obrigado a ressarcir o prejuízo material e moral causado ao patrimônio público e a terceiros. Esse bando de pilantras flagrados em ilícitos penais sentirá mais pelos anos de cadeia ou pela perda de milhões de reais?

Dilma, em popularidade, fica em último nas Américas

Os presidentes dominicano, Danilo Medina, e o boliviano, Evo Morales, são os líderes políticos mais bem avaliados na América, de acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto mexicano Consulta Mitofsky. A brasileira Dilma Rousseff aparece na última colocação. Enquanto Medina e Morales possuem 89% e 75% de aprovação da população, respectivamente, a petista aparece na 21ª posição, com apenas 10% de aceitação pública.

Dilma perdeu para o venezuelano Nicolás Maduro (17ª posição, com 26%) e para o cubano Raúl Castro (7ª posição, com 47%). O norte-americano Barack Obama ocupa a 10ª colocação, com 46%, à frente da argentina Cristina Kirchner (11º lugar, com 40%) e do mexicano Enrique Peña Nieto (12º lugar, com 39%).

Os cinco melhores colocados, além de Medina e Morales, são o panamenho Juan Carlos Varela (3º lugar, com 63%), o equatoriano Rafael Correa (4º lugar, com 61%) e o nicaraguense Daniel Ortega (5º lugar, com 57%).

Na outra ponta, além de Dilma, aparecem o peruano Ollanta Humala (20ª posição, com 17%) e o costarriquenho Luis Guillermo Solis (19ª posição, com 20%). De acordo com o instituto, que analisa o estado de ânimo e as percepções da população, a média de aprovação na América caiu sete pontos percentuais e passou de 49% para 42%, atingindo a menor nível em uma década.

Princípios, fins e meios

Em nome da ‘causa popular’ vale tudo, extorsão, suborno, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, agir como uma máfia para destruir os adversários e se eternizar no poder

Posso até acreditar que João Vaccari não ficou com um tostão dos pixulecos milionários que arrecadou para o PT na Petrobras. Mas isso não faz dele um guerreiro do povo brasileiro e nem é atenuante para seus crimes; é agravante.


Em países civilizados, de maior tradição jurídica do que o Brasil, como a Itália, a Alemanha e a Inglaterra, a motivação política é um agravante dos crimes, aumenta a pena. Porque o produto do roubo servirá para fraudar processos legais, para atentar contra as instituições democráticas, para prejudicar adversários políticos, e terá consequências na vida de todos os cidadãos que tiveram seus direitos lesados em favor de um plano de poder de um partido.

O ladrão em causa própria dá prejuízos pontuais a pessoas físicas ou jurídicas. O que usa o dinheiro sujo para fraudar o processo eleitoral e manipular a vontade popular, para corromper parlamentares e juízes, para impor o seu projeto político, causa irreparáveis prejuízos a todos porque desmoraliza a democracia, institucionaliza a impunidade e interfere — sejam lá quais forem as suas intenções — de forma decisiva e abusiva nos direitos e na vida dos cidadãos que sustentam o Estado.

Uma das mais nefastas heranças do PT no poder foi a institucionalização — e absolvição — do roubo com motivações políticas, com mensaleiros e tesoureiros corruptos ovacionados como guerreiros e heróis pela militância cega, surda e bem empregada. Por essa ética peculiar, em nome da “causa popular" vale tudo, extorsão, suborno, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, agir como uma máfia para destruir os adversários e se eternizar no poder. Em nome do povo, é claro...

É claro que na maioria desses “roubos políticos", chamados de “expropriação” no tempo da luta armada de Dilma e Dirceu, os guerreiros, diante de tanto dinheiro e tão fácil, não resistem a cobrar seu próprio pixuleco, como registram as históricas imagens de Waldomiro Diniz, braço direito de José Dirceu, pedindo a sua comissão de uma “doação” do bicheiro Carlinhos Cachoeira ao partido, no início da era Lula.

Esse tempo acabou, lugar de ladrão é na cadeia.

Nelson Motta 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Para sair dessa maré


A BR-020 é uma estrada radial de longas retas que liga Brasília ao Piauí. Aproveitei o percurso para refletir sobre o rumo dos meus artigos. Vale a pena insistir nos erros de Dilma e do PT, ambos no volume morto? A maioria do povo brasileiro já tem uma visão sobre o tema.

Num hotel do oeste baiano, abri uma revista na mochila e me deparei com uma frase do escritor argelino Kamel Daoud: “Se já não há vida antes da morte, por que se preocupar com a vida após a morte?”. Ele se referia à sorte do septuagenário presidente argelino Abdelaziz Bouteflika, internado num hospital de Paris. Mas sua frase é uma pista para buscar outro rumo.

Visitei a cidade de Luís Eduardo Magalhães (BA), um polo do agronegócio. Ali se tornaram campeões mundiais da produtividade nas culturas do milho e da soja. Construíram um aeroporto com uma pista de 2 mil metros, quase o dobro da pista do Aeroporto Santos Dumont. Numa só fazenda, vi uma lagoa artificial maior que a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. O número de habitantes ali cresceu 300% em 15 anos. Tudo marchou num progresso acelerado, em níveis chineses – pelo menos os do passado recente. Mas a crise começa a afetar até mesmo essas áreas do agronegócio, que exporta e se favorece com o preço do dólar. Somos todos interligados.

A região depende de um Estado e de um governo federal mergulhados numa grave crise. Mesmo para os que estão bem situados há um desejo de achar o caminho do desenvolvimento, sair dessa maré.

É possível que alguma forma de unidade nacional possa ser alcançada pelos que querem superar a crise. E o ajuste na economia deve ser a base de seu programa. Quando digo alguma forma de unidade nacional, deixo de fora aqueles que ainda creem que um ajuste seja o caminho errado. Gostaria de incluir aqueles que acham o ajuste um caminho certo, mas agem no Parlamento como se não houvesse amanhã: gastos e mais gastos.

O fator Grécia continua perturbando os que romanticamente acham possível desafiar as leis do capitalismo: aqui se faz, aqui se paga. Admiradores de Cuba e Venezuela se voltam, agora, para a Grécia democrática, sem perceber que estão apenas trocando de fracasso econômico.

A realidade impôs à esquerda grega uma tarefa mais árdua do que seus antecessores. O governo teve de passar no Congresso um projeto mais draconiano do que a direita tentou, sem êxito, aprovar. O plebiscito disse não, o próprio governo de Alexis Tsipras disse não e, no entanto, o acordo com a Europa diz sim às condições dos credores.

O que o exemplo mostra também é que, às vezes, saídas românticas podem conduzir a um processo de humilhação nacional. No caso grego, creio, houve uma diferença de tom entre a França latina e a Alemanha. Os franceses acham que os alemães têm um enfoque vingativo. William Waack, que foi correspondente na Alemanha, lembra do fator cultural. Num país de formação calvinista, a palavra dívida é a mesma de culpa: Schuld.

Não creio que as coisas sejam as mesmas entre países tão diferentes como a Grécia e o Brasil. Mas um colapso econômico, com bancos fechados, é sempre uma lição.

Não existe necessariamente uma catástrofe no horizonte brasileiro. Mas seria bom que houvesse uma discussão sobre as premissas para sair da crise e algum compromisso com elas.

A oposição tem seus objetivos eleitorais. Precisa combater o PT. Mas o combate erradamente, quando usa os mesmos métodos do adversário, falando uma coisa, fazendo outra. Buscar uma saída estratégica não jogaria a oposição no volume morto. Muitas pessoas que encontro pelo País estão ansiosas não pela solução imediata da crise, mas por um sentimento de que o barco anda no rumo certo. O grande motor seria a política. A crise econômica depende do impulso favorável do processo político.


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Hoje, o quadro é caótico. Dilma, escorregando na rede, na Itália, ilustrou sua própria situação. Meio à Guimarães Rosa, ela disse: “Quando você está lá em cima, você inclina para um lado e, imediatamente, para o outro, você fica balançando mesmo, você consegue se equilibrar. Eu não caí, mas para não cair é preciso ser ajudada”. Quem ajudará Dilma a não cair? Por que ajudá-la a não cair? Em respeito aos seus eleitores? Mas eles já a rejeitam há algum tempo.

Há três frentes acossando o Planalto: TCU, TSE e Operação Lava Jato. Isso tem uma certa autonomia, não depende de ajuda. Dilma se encontrou com Lewandowski em Portugal. Supremo e Planalto se encontram, discretamente, em Porto. Não vou especular sobre o que disseram. Lembrarei apenas que se encontraram em Porto no auge da crise.

Mesmo neste caos, é preciso encontrar saídas. Na política, ela passa pela punição dos culpados de corrupção e campanhas pagas por ela. Simultaneamente, precisava surgir algo no Parlamento e na sociedade, um desejo real de superar a crise, uma unidade nessa direção. No momento, estamos saudando a mandioca e vivendo num parlamentarismo do crioulo doido.

Se estivéssemos vendo o Brasil de uma galáxia distante, até nos divertiríamos. Mas eles estão entre nós.


É preciso pensar o pós-Dilma. Ela fala muito em queda, parece preocupada com isso. Não deve doer tanto. Collor caiu e reaparece – como coadjuvante, é verdade – no maior escândalo do século. E muito mais rico: do Fiat Elba ao Lamborghini.

É preciso, pelo menos, pensar o País sem Dilma, deixá-la balançar na etérea sala do palácio, criar uma unidade em torno de um ajuste possível, recuperar o mínimo de credibilidade no sistema político.

Nas eleições, os políticos gostam da imagem de salvador. Isso não existe. Mas, no momento, ao menos poderiam dar uma forcinha criando um pequeno núcleo suprapartidário buscando uma saída, apontando para o futuro. Seria ignorado? Por que não experimentar? Um dos piores efeitos da crise são o desânimo e a paralisia. Por onde ando, vejo um compasso de espera. A maioria sabe que uma pessoa que mal se equilibra não consegue liderar o Brasil durante a tempestade. É preciso extrair as consequências dessa incômoda constatação.

O golpe da redenção

“Não se esqueçam, companheiros e companheiras, que gritamos “Fora Collor” e gritamos “Fora FHC”. E o ex-presidente Collor saiu da presidência num processo legal, dentro da democracia, e é isso que eles pretendem fazer agora: expelir a Dilma dentro de um processo democrático” (Ruy Falcão, presidente do PT, em ato púbico na Uninove).


Quando um petista graduado como o próprio presidente do partido formula uma frase dessas, é preciso perguntar: foi um ato falho ou isso faz parte de uma estratégia deliberada para abandonar a presidente aos leões, desde que seja em nome de uma causa maior, que é a de salvar o projeto sebastianista de Lula?

Isso quer dizer que o PT abandonou de vez a tese de “golpe”, que é como o seu exército militante classifica uma eventual decisão da abertura de um processo de impeachment contra Dilma Rousseff no Congresso, ou é uma nova espécie de desconversa para desviar a atenção do delicado momento que a política e a economia do país atravessam e tirar proveito dele?

Sabe Deus. Só um especialista nos meandros da psicopatologia petista seria capaz de fazer uma exegese ou fornecer um diagnóstico preciso das intenções do lulismo.

A extraordinária declaração do presidente do PT foi feita num ato público “em defesa da democracia” e do mandato de Dilma, realizado esta semana em São Paulo, no ambiente de uma universidade privada, a Uninove. Participaram do ato, além do PT, outros notórios defensores da democracia como o PCdoB e o PCO.

A ligação entre a defesa do mandato de Dilma e a democracia ainda está para ser explicada, uma vez que não existe nenhum parentesco entre um eventual processo de impeachment e qualquer transgressão à democracia, como reconheceu- sem querer ou não- o presidente do PT.

Golpe, como se sabe, é a destituição, por meio da força ou por outros atos ilegais, de um governo legitimamente eleito. O processo de impeachment, cuja abertura a Câmara Federal pode aceitar por uma maioria de 2/3 (com menos de 342 votos o processo não se instaura) é previsto pela Constituição, portanto golpe não pode ser.

Embora seja uma decisão mais política do que técnica, para ser instaurado, o processo de impeachment precisa enquadrar-se nas hipóteses previstas na Constituição para punir os crimes de responsabilidade. Nenhum dos partidos políticos representados no Congresso admite até este momento que haja causas suficientemente configuradas para que seja solicitada a instauração do processo.

Mas estão no horizonte duas causas possíveis para o afastamento da presidente: 1) se o TCU julgar suas contas irregulares e as rejeitar, pode configurar-se crime de responsabilidade e a Câmara decidir pela abertura do processo de impeachment; se aceita a abertura do processo, a presidente se afasta até o julgamento pelo Senado 2) se o TSE julgar que houve crime eleitoral nas contas da campanha (uso de dinheiro de procedência ilícita), o diploma da chapa- Dilma e Temer- é cassado.

As duas causas são improváveis? Sim, mas não impossíveis. As duas são constitucionais? Sim, portanto chamá-las de golpe é puro exercício de retórica.

O discurso ambíguo do presidente do PT pode significar o reconhecimento de que a palavra “golpe" está sendo usada apenas como instrumento de propaganda, e que o partido está cumprindo a sua obrigação formal de defender a presidente que elegeu.

Mas pode significar também que uma eventual queda de Dilma Roussef, no auge da impopularidade, seja vista como a única chance de salvar a candidatura de Lula em 2018.

Ninguém ignora que d. Sebastião pretende voltar nos braços do povo para tentar consertar o estrago que fez indicando Dilma.

Nada melhor para ele que sua criatura seja vitimizada e ele possa aparecer como o agente da redenção.

Politeia? Deus permita!

Dona Dilma vive numa bolha... Lá tudo é azul, nada de mal lhe acontece e quando acontece, ela rapidamente diz que é culpa de terceiros e pronto, está resolvido o impasse.

Vejam este exemplo: não é novidade para ninguém que o mundo está todo conectado. Aquele magricela, o Snowden, provou que nada escapa aos bisbilhoteiros munidos de um computador.

Dona Dilma sabe disso muito bem. Até se ofendeu amargamente ao lhe revelarem que lá nos States o que ela dizia aqui era lido pelas agências de segurança de lá.

Vejamos o que se passou agora em sua ida para a Rússia. O Aero-Lula saiu de Brasília com a intenção de fazer uma escala em Lisboa, mas dona Dilma resolveu que preferia o Porto, a bela cidade às margens do Douro. Com um detalhe: não avisou aos brasileiros de sua intenção.


Também não mencionou sua intenção de conversar, discretamente, com o presidente do Supremo Tribunal Federal. Marcaram encontro no restaurante que fica no lounge do segundo andar do Sheraton do Porto.

Logo que a notícia vazou, quiseram nos fazer crer que foi um encontro casual. Difícil de engolir. O ministro da Justiça disse que Lewandovski, ao saber que Dilma estaria ali pertinho de Coimbra, onde ele estava, pediu o encontro. Os dois trabalham a metros de distância um do outro, na capital federal, mas acharam por bem conversar num hotel no Porto.

Mas a verdade, implicante, tem o mau hábito de pipocar quando menos se espera. O ministro Cardoso, na CPI onde foi depor anteontem, querendo garantir que dona Dilma e Lewandovski não falaram sobre a Lava-Jato, saiu-se com esta: “Se fosse essa a intenção, ela teria convidado o Teori, que também estava em Coimbra!”.

Leram direitinho? “Teria convidado o Teori”. Encontro casual a convite, essa é uma novidade.

Dilma, a Magra, em Milão falou de si mesma na terceira pessoa. Com certeza quer nos convencer que Dilma, a Gorda, aquela das campanhas eleitorais, era outra, e não a que foi assistir ‘Otelo’ no Scala! Ou a que andou numa rede bamba sem cair... Ou a que, segundo coluna do Ancelmo Gois, coleciona lindos óculos de sol, daqueles que custam em média mil e duzentos reais o par.

Se estou com inveja? Claro que estou. Gosto de viajar, gosto de frequentar bons restaurantes e tenho paixão pela Itália. Mas não posso nem ir a São Paulo, o dinheiro está curto e tudo leva a crer que ficará cada vez mais curto.


Nem se eu tivesse uma das máquinas do Collorido, já que as estradas federais andam um terror. Por falar em Collor, gostava de saber por que o senador por Alagoas tem um apartamento funcional em Brasília se ele é proprietário de uma mansão na capital?

Pelo menos foi o que disse um dos membros da Segurança do Senado, que lá chamam de Polícia Legislativa, instituição inexistente, indignado com a Polícia Federal por invadir próprios do Senado Federal. Foi quando fiquei sabendo que o alagoano tem um apartamento funcional e que esses apartamentos são considerados, pelo menos pela Segurança deles lá, parte do Senado.

Não sei quanto tempo a bolha vai aguentar. Sei o que vi na TV: a expressão alterada de Renan Calheiros falando em 'tempos sombrios'. Ou o passo apressado de Eduardo Cunha em direção ao gabinete do Renan. Hoje teremos Eduardo Cunha em rede nacional. Que Deus nos ajude.

Mas não podemos fugir de um fato: temos muita culpa no cartório. Uma das penalidades na recusa em participar da Política é que acabamos sendo governados por nossos inferiores. Essa também é de Platão...

Chamaram o ladrão!