Não estou inventando a roda, nem descobrindo a pólvora. E, para continuar com as velhas e desgastadas expressões, estou chovendo no molhado, falando do todo mundo sabe, quase todo mundo vê, poucos se mexem.
Quem nunca ouviu falar dos nem-nem – os que não estão na escola, nem têm trabalho? Têm entre 15 e 29 anos. São milhares. Em 2013, eram 73 milhões estimados no mundo. No Brasil, em 2015, são quase 10 milhões.
Espelham um dos defeitos capitalismo contemporâneo. Aqui, o desemprego entre os desse recorte de idade chega aos 16%. Quase três vezes mais do que a taxa média nacional, que está em 6%.
Mundo afora, os nem-nem são párias do mundo dito moderno. Eles não cabem na planilha dos empregos, sobram na das escolas. Desesperançados ou indignados, são zumbis do sistema social que, para dar identidade aos adultos, exige qualificação e produção. Dai saem rebelião e rebelados. Vide incêndios nas periferias francesas, ocupe wall street, junho de 2013 no Brasil.
Os nem-nem não tem nem uma, nem outra. Seu ninho é o limbo social. Uma minoria, sortuda, ainda merece o apelido de nem-nem acolchoado. São aqueles que a família abriga e suporta (nos dois sentidos do termo).
A maioria fica na coluna dos nem-nem desfamiliarizados, os que não têm - ou têm pouco - vínculo familiar, nem qualquer proteção social. São só números estimados do PNAD. Se viram. E o sevirex é cargo que não exige liturgia, cerimônia ou especialidade. Só improviso. Do bem e do mal.
A estimada maioria dos nem-nem brasileiros é composta de meninas - 69% contra 57% de meninos. Só dar uma espiadela nos números das mulheres presas – que cresce a cada ano, aliás – para ver qual a faixa etária das meninas delinquentes ou criminosas mesmo.
Os meninos-bandidos estão aí nas páginas. Já se espalharam das periferias para os interiores brasileiros. Quantos anos têm os quatro estupradores de Castelo, a cidadezinha de 18 mil habitantes lá do Piauí? De 15 a 17 anos.
O mais novo, aos 15, já tem 13 processos. A primeira vez que “passou” pela polícia tinha oito anos. Só um frequenta a escola esporadicamente. Nenhum tem trabalho fixo, todos têm famílias problemáticas.
Não é diferente com os esfaqueadores do Rio de Janeiro, São Paulo, DF, Goiânia...
Para eles e contra eles o que estamos planejando? Cadeia. Essa que têm altíssimos índices de recuperação dos que por lá passam. Nossas cadeias, afinal, são um primor. Masmorras invariavelmente superlotadas, escolas de violência e degradação.
Mas tudo será diferente com a lei para redução da maioridade penal – dos 18 para os 16. Pronto. Meninos que estupram, espancam e matam agora vão pra cadeia brava, não mais terão a moleza dos três anos das internações socioeducativas.
Tudo resolvido. A sociedade amedrontada poderá respirar aliviada.
Pode mesmo?
A violência está restrita aos menores-bandidos? Não deixou de ser epidêmica para ser endêmica?
Como teremos cadeias para todos os criminosos – menores e maiores?
Agora mesmo, enquanto escrevo, vejo manchete on-line: “Presos liberados por falta de delegado”. Isso em Tocantins. Estado rico, vizinho do DF.
Castelo, do Piauí, onde as meninas estudantes foram trucidadas – e uma morreu -, tem 500 menores em situação de vulnerabilidade listados pelo Conselho Tutelar, e alguns programas sociais voltados para eles.
A segurança pública de Castelo conta com três policiais militares. O delegado, além da cidade, atende a três outros municípios.
As exemplares prisões brasileiras têm déficit de 210 mil vagas. São 567 mil presos para 357 vagas, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. Isso sem contar a nova leva dos ex-menores.
As equipes técnicas que atuam nas prisões também são de primeira. Semana passada, por exemplo, de novo em Tocantins, dois presos que denunciaram tortura foram decapitados uns dias depois. Cadeia exemplar, sem dúvida.
É aflitivo ver o reducionismo com que são tratadas – engolidas e adotadas até por gente insuspeita - questões cruciais da sociedade brasileira.
Fala sério. Redução da maioridade penal sem cadeia, sem polícia, sem nem bordejar a questão dos nem-nem é má intenção, banalidade, faz de conta. Jogada para a plateia. Mais uma.
PS.: Por falar em nem-nem, alguém tem notícia do Programa Nacional do Primeiro Emprego? Morreu de inanição antes da maioridade?
terça-feira, 16 de junho de 2015
Espalhafatosa defesa da criminalidade
A gritaria da deputada Maria do Rosário, que pode ser assistida neste vídeo, impõe alguns comentários. Os adjetivos selecionados pela oradora visam a criar uma dicotomia, onde a perversidade está nos deputados favoráveis à redução da maioridade penal e a bondade nas "organizações sociais" que a ela se opõem. De onde saiu a ideia de que a defesa da sociedade, mediante a privação da liberdade dos criminosos, é um ato mau? A deputada acusa a comissão, também, de estar assumindo uma ideologia de classe que é, por definição, a ideologia dela mesma, como petista e ex-PCdoB. Por isso, fala como se a redução da maioridade penal visasse seleção por classe social. Foi Sua Excelência e não a comissão ou o projeto que quis pautar o assunto como conflito de classe.
Tomada pela ira, sem pedir licença ao bom senso, afirma que "eles estão tentando aqui é colocar na prisão não os que matam, não os que cometem crimes bárbaros". Enorme esforço retórico para sair da sinuca de um discurso sem pé nem cabeça. Em sua exaltação cotidiana, sempre preocupada com os criminosos e desinteressada de suas vítimas, afirma, também, que o Código Penal não resolve o problema da criminalidade. Mas o Código Penal, deputada, não existe para isso. Ele existe para punir culpados, para reduzir a sedução da vida criminosa e para que o condenado, no dizer deles mesmos, "pague sua conta com a sociedade". O que a senhora deseja, a retificação da vida do criminoso, é uma das tarefa do sistema penitenciário e não do Código Penal. Aliás, para que o sistema (bem preparado para isso) faça o que a senhora pretende é necessário, primeiro, que o bandido seja preso. Precisarei desenhar?
"Cinquenta mil presos a mais" não reduziram a insegurança social? E graças a qual estranho para-efeito isso virou motivo para que se desista de prender bandidos? Entende-se, assim, o motivo pelo qual o governo da deputada jogou a sociedade no atual nível de insegurança, sem vagas nos presídios, sem controle de fronteiras, desarmando os cidadãos de bem e se opondo à redução da maioridade penal, numa sequência de condutas que ofendem o bom senso. Quantos marmanjos de 16 anos merecem, de fato, ser tratados como inimputáveis, irresponsáveis e incapazes? A legislação penal já prevê a inimputabilidade dos que o forem, independentemente da idade! Chega a ser desrespeitoso tratar um marmanjo de 16 anos como se fosse criança, e criança pequena mal educada, incapaz de distinguir o certo do errado. A distorção da atual legislação está, visivelmente, ampliando aquilo que pretende evitar e desprotegendo aqueles que pretende resguardar. Por isso aumenta a criminalidade entre os jovens. E, não por acaso, são eles mesmos, as primeiras e principais vítimas da regra cega que a deputada se esforça em preservar.
"Cinquenta mil presos a mais" não reduziram a insegurança social? E graças a qual estranho para-efeito isso virou motivo para que se desista de prender bandidos? Entende-se, assim, o motivo pelo qual o governo da deputada jogou a sociedade no atual nível de insegurança, sem vagas nos presídios, sem controle de fronteiras, desarmando os cidadãos de bem e se opondo à redução da maioridade penal, numa sequência de condutas que ofendem o bom senso. Quantos marmanjos de 16 anos merecem, de fato, ser tratados como inimputáveis, irresponsáveis e incapazes? A legislação penal já prevê a inimputabilidade dos que o forem, independentemente da idade! Chega a ser desrespeitoso tratar um marmanjo de 16 anos como se fosse criança, e criança pequena mal educada, incapaz de distinguir o certo do errado. A distorção da atual legislação está, visivelmente, ampliando aquilo que pretende evitar e desprotegendo aqueles que pretende resguardar. Por isso aumenta a criminalidade entre os jovens. E, não por acaso, são eles mesmos, as primeiras e principais vítimas da regra cega que a deputada se esforça em preservar.
A frente socialista dos palestrantes milionários

Enquanto a Polícia Federal descobre R$ 4,5 milhões pagos por uma empreiteira a Lula, o PT lança a candidatura presidencial do filho do Brasil com uma "guinada à esquerda". Coerência total: o dinheiro da empreite ira; segundo o Instituto Lula, era para "erradicar a pobreza e a fome no mundo". É um projeto ambicioso, mas pode-se dizer que já está dando resultado, com a erradicação da fome da esquerda por verbas e cargos. Uma fome de cada vez.
O discurso preparado pelo PT para seu Congresso em Salvador inicia a arrancada para dar ao Brasil o que ele merece: a volta de Lula da Silva em 2018. Com sua consciência social e convicção progressista, o Partido dos Trabalhadores salta na trincheira contra o neoliberalismo, assumindo sua vocação de governo de oposição - o único no mundo. O truque é simples, e vai colar de novo: a vida piorou e o desemprego voltou por causa "da crise global do capitalismo", esse monstro que infiltrou Joaquim Levy no governo popular. Lula voltará à Presidência para enxotar novamente essa maldição capitalista (bancado pelo socialismo das empreiteiras amigas).
O gigante se remexe na cama, mas a armação dos companheiros definitivamente não atrapalha seu sono. ÉPOCA mostrou o ex-operário trabalhando duro pelo sucesso internacional da Odebrecht, a campeã de financiamentos externos do BNDES.Revelou que o Ministério Público investiga o ex-presidente por tráfico de influência. Vem a Polícia Federal e flagra as planilhas da Camargo Corrêa, investigada na Operação Lava Jato, com uma média anual superior a R$ 1 milhão em transferências para Lula (Instituto e empresa de palestras) desde que ele deixou.a Presidência. E o gigante ronca.
O Brasil não se incomoda com a dinheirama entregue a Lula. É uma ajudinha ao grande líder para que ele combata a pobreza no planeta,' qual o problema? Nenhum. A não ser para essa elite branca invejosa, que acha estranho - o dinheiro vir .de empreiteiras que têm como cliente o governo no qual Lula manda.
Os petistas, como se sabe, são exímios palestrantes e consultores. Destacam-se nessa arte estrelas como o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, e o ex-ministro Antonio Palocci, ambos consagrados por suas consultorias mediúnicas milionárias. Lula deve ter passado seus oito anos no Palácio do Planalto treinando duro, porque saiu de lá em ponto de bala. Não é qualquer um que chega a Moçambique, faz uma palestra e embolsa R$ 815 mil- pagos à vista por uma empreiteira brasileira. Deve ser isso o paraíso socialista: empresários pagando fortunas a iluminados por palestras em outro continente, para a construção de um mundo melhor.
Assim fica fácil salvar o Brasil da crise global do capitalismo, conforme a plataforma do PT no seu 5º Congresso Nacional. Com a assinatura da delação premiada de Júlio Faerman, ex-representante da empresa holandesa SBM, os brasileiros entenderão ainda melhor como o capital internacional elitista e malvado escorre docemente para o bolso dos defensores do povo - através das fantásticas operações socialistas envolvendo a maior estatal do país. A Petrobras é uma mãe - e se você não está na ninhada é porque não se filiou ao partido certo.
A inflação bate 8,5%, e o milagre brasileiro (da miopia) permite que a presidente da República assegure, tranquilamente, o respeito à meta - que é de 4,5%. Quem quiser chamá-Ia de mentirosa assegurando o respeito ao que ela diz, portanto, estará dentro da margem de erro. Mas ninguém fará isso, porque o Brasil adormeceu de novo, em bloco. A recessão iminente, a escalada do desemprego e o consequente aumento da violência urbana - com tiros e facadas democraticamente distribuídos nas capitais do país - são problemas que a nova Frente Popular vai resolver em 2018,com Lula lá. Duvida? Então procure saber o tamanho do caixa que a frente de palestrantes e consultores formou nos últimos 12 anos, com o mais sórdido dos cúmplices: a opinião pública brasileira.
A reeleição de Lula após o mensalão permitiu a ascensão de Dilma. A reeleição de Dilma após o petrolão permitirá a volta de Lula. A divertida gangorra prova que o crime compensa. A não ser que... Melhor não falar, para não perturbar o sono do gigante.
O gigante se remexe na cama, mas a armação dos companheiros definitivamente não atrapalha seu sono. ÉPOCA mostrou o ex-operário trabalhando duro pelo sucesso internacional da Odebrecht, a campeã de financiamentos externos do BNDES.Revelou que o Ministério Público investiga o ex-presidente por tráfico de influência. Vem a Polícia Federal e flagra as planilhas da Camargo Corrêa, investigada na Operação Lava Jato, com uma média anual superior a R$ 1 milhão em transferências para Lula (Instituto e empresa de palestras) desde que ele deixou.a Presidência. E o gigante ronca.
Os petistas, como se sabe, são exímios palestrantes e consultores. Destacam-se nessa arte estrelas como o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, e o ex-ministro Antonio Palocci, ambos consagrados por suas consultorias mediúnicas milionárias. Lula deve ter passado seus oito anos no Palácio do Planalto treinando duro, porque saiu de lá em ponto de bala. Não é qualquer um que chega a Moçambique, faz uma palestra e embolsa R$ 815 mil- pagos à vista por uma empreiteira brasileira. Deve ser isso o paraíso socialista: empresários pagando fortunas a iluminados por palestras em outro continente, para a construção de um mundo melhor.
Assim fica fácil salvar o Brasil da crise global do capitalismo, conforme a plataforma do PT no seu 5º Congresso Nacional. Com a assinatura da delação premiada de Júlio Faerman, ex-representante da empresa holandesa SBM, os brasileiros entenderão ainda melhor como o capital internacional elitista e malvado escorre docemente para o bolso dos defensores do povo - através das fantásticas operações socialistas envolvendo a maior estatal do país. A Petrobras é uma mãe - e se você não está na ninhada é porque não se filiou ao partido certo.
A inflação bate 8,5%, e o milagre brasileiro (da miopia) permite que a presidente da República assegure, tranquilamente, o respeito à meta - que é de 4,5%. Quem quiser chamá-Ia de mentirosa assegurando o respeito ao que ela diz, portanto, estará dentro da margem de erro. Mas ninguém fará isso, porque o Brasil adormeceu de novo, em bloco. A recessão iminente, a escalada do desemprego e o consequente aumento da violência urbana - com tiros e facadas democraticamente distribuídos nas capitais do país - são problemas que a nova Frente Popular vai resolver em 2018,com Lula lá. Duvida? Então procure saber o tamanho do caixa que a frente de palestrantes e consultores formou nos últimos 12 anos, com o mais sórdido dos cúmplices: a opinião pública brasileira.
A reeleição de Lula após o mensalão permitiu a ascensão de Dilma. A reeleição de Dilma após o petrolão permitirá a volta de Lula. A divertida gangorra prova que o crime compensa. A não ser que... Melhor não falar, para não perturbar o sono do gigante.
Há advogados da Lava Jato que acreditam em 'arquivamento'
Está cada vez mais evidente a linha de defesa adotada por alguns dos réus da Operação Lava Jato, que parecem confiantes em seguir a “doutrina jurídica” consagrada pelo banqueiro corrupto Daniel Dantas: “Só tenho medo da Primeira Instância. Lá em cima, nos tribunais superiores, eu resolvo tudo”. E isso realmente aconteceu com ele.
No inquérito e no processo restou provado que ele era corrupto, mas no Supremo Tribunal Federal o banqueiro escapou da prisão e inacreditavelmente virou o jogo, passando de réu a acusador.

No Supremo, a defesa alegou que o delegado Protógenes Queiroz colhera provas irregularmente (apenas algumas provas) e que a agência federal Abin havia colaborado ilegalmente na investigação.
Com isso, Dantas conseguiu anular a ação, mediante apoio público e notório do então presidente do tribunal, ministro Gilmar Mendes, e depois moveu processo contra o delegado, que era deputado federal em 2014 quando foi condenado no Supremo à prisão e à perda do cargo funcional e do mandato, mas apresentou recurso, que ainda não foi julgado.
Agora, advogados de vários réus da Operação Lava Jato tentam adotar a mesma estratégia da defesa de Daniel Dantas. É justamente por isso que o ex-diretor da Petrobras Renato Duque insiste em se declarar inocente, apesar das abundantes provas de enriquecimento ilícito já apresentadas contra ele. Da mesma forma, o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e os ex-deputados André Vargas, Luiz Argolo, Pedro Correa a Aline Correa (pai e filha) também se dizem inocentes e parecem dispostos a enfrentar os processos até o final. Ou seja, até o Supremo.
Desta vez, a estratégia é um pouco diferente. Ao invés de acusarem os delegados federais e os procuradores que integram a força-tarefa, os advogados farão carga contra o juiz federal Sérgio Moro, por decretar prisões preventivas injustificadas, visando a prender liminarmente os envolvidos, de forma a pressioná-los a aceitar delações premiadas.
Esta linha de defesa montada para demolir o juiz federal Sergio Moro foi apoiada na última terça-feira pelo ministro Marco Aurélio Mello, no programa “Espaço Público”, da TV Brasil, vejam a que ponto chegamos, em que um magistrado se julga no direito de criticar publicamente o procedimento de outro juiz, postura que é proibida pela Lei Orgânica da Magistratura. Mas no Brasil de hoje quem se importa pelo que dizem as leis?
A tese de Marco Aurélio é consistente, não há dúvida, mas terá dificuldades para sair vitoriosa, porque as prisões preventivas decretadas pelo juiz Moro têm sido mantidas pelo Tribunal Regional Federal, pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo próprio Supremo. Apenas em uma oportunidade o ministro-relator Teori Zavascki revogou uma prisão preventiva determinada por Moro e mandou soltar Renato Duque. Algumas semanas depois, porém, surgiram novas provas contra o ex-diretor da Petrobras, o juiz federal mandou prendê-lo de novo, e tanto o STJ quanto o ministro Zavascki já se recusaram a revogar a preventiva.
Ou seja, a linha de defesa apoiada por Marco Aurélio pode se tornar suicida. Mesmo assim, há advogados que ainda apostam nela. Certamente, têm informações de cocheira, como se diz no Jóquei Club, num linguajar que até se adapta à situação do Supremo.
No inquérito e no processo restou provado que ele era corrupto, mas no Supremo Tribunal Federal o banqueiro escapou da prisão e inacreditavelmente virou o jogo, passando de réu a acusador.
Foi realmente impressionante a manobra de Dantas para bloquear a Operação Satiagraha, desfechada pela Polícia Federal contra o Banco Opportunity, que nas instâncias inferiores levara o banqueiro a ser condenado a 10 anos de prisão por suborno.
No Supremo, a defesa alegou que o delegado Protógenes Queiroz colhera provas irregularmente (apenas algumas provas) e que a agência federal Abin havia colaborado ilegalmente na investigação.
Com isso, Dantas conseguiu anular a ação, mediante apoio público e notório do então presidente do tribunal, ministro Gilmar Mendes, e depois moveu processo contra o delegado, que era deputado federal em 2014 quando foi condenado no Supremo à prisão e à perda do cargo funcional e do mandato, mas apresentou recurso, que ainda não foi julgado.
Agora, advogados de vários réus da Operação Lava Jato tentam adotar a mesma estratégia da defesa de Daniel Dantas. É justamente por isso que o ex-diretor da Petrobras Renato Duque insiste em se declarar inocente, apesar das abundantes provas de enriquecimento ilícito já apresentadas contra ele. Da mesma forma, o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e os ex-deputados André Vargas, Luiz Argolo, Pedro Correa a Aline Correa (pai e filha) também se dizem inocentes e parecem dispostos a enfrentar os processos até o final. Ou seja, até o Supremo.
Desta vez, a estratégia é um pouco diferente. Ao invés de acusarem os delegados federais e os procuradores que integram a força-tarefa, os advogados farão carga contra o juiz federal Sérgio Moro, por decretar prisões preventivas injustificadas, visando a prender liminarmente os envolvidos, de forma a pressioná-los a aceitar delações premiadas.
Esta linha de defesa montada para demolir o juiz federal Sergio Moro foi apoiada na última terça-feira pelo ministro Marco Aurélio Mello, no programa “Espaço Público”, da TV Brasil, vejam a que ponto chegamos, em que um magistrado se julga no direito de criticar publicamente o procedimento de outro juiz, postura que é proibida pela Lei Orgânica da Magistratura. Mas no Brasil de hoje quem se importa pelo que dizem as leis?
A tese de Marco Aurélio é consistente, não há dúvida, mas terá dificuldades para sair vitoriosa, porque as prisões preventivas decretadas pelo juiz Moro têm sido mantidas pelo Tribunal Regional Federal, pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo próprio Supremo. Apenas em uma oportunidade o ministro-relator Teori Zavascki revogou uma prisão preventiva determinada por Moro e mandou soltar Renato Duque. Algumas semanas depois, porém, surgiram novas provas contra o ex-diretor da Petrobras, o juiz federal mandou prendê-lo de novo, e tanto o STJ quanto o ministro Zavascki já se recusaram a revogar a preventiva.
Ou seja, a linha de defesa apoiada por Marco Aurélio pode se tornar suicida. Mesmo assim, há advogados que ainda apostam nela. Certamente, têm informações de cocheira, como se diz no Jóquei Club, num linguajar que até se adapta à situação do Supremo.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Sessenta tons de vermelho (ou sessenta motivos para não apoiar o PT)
Atendendo solicitação de leitores, republico aqui um artigo que postei em outubro de 2014. Sugerem os leitores que o texto permaneça aberto a receber novas sugestões para posterior inclusão, ampliando a lista. Aguardarei as sugestões. Este site, assim como minhas páginas no Facebook são frequentados por pessoas de alto nível e boa educação, de modo que quaisquer agressões e grosserias serão eliminadas. Com pequenas correções e adaptações ao momento atual, o texto era como segue.
Lembro, inicialmente, que o PT foi fundado em 1980 e atuou na oposição nacional durante 22 anos, até alcançar o poder com Lula, em 2003. Durante esse período, quem houver observado atentamente os fatos políticos, terá percebido que o PT atrapalhou sucessivos governos. Só para recordar:
1. votou contra a Constituição Federal;
2. foi contra o Plano Real;
3. criou organizações para promover a luta de classes, conflitos raciais, conflitos de gênero, invasões de terra, violência sindical;
4. foi contra todas as privatizações;
5. foi contra a lei de responsabilidade fiscal;
6. foi contra o cumprimento de nossas obrigações com credores externos;
7. foi contra a geração de superávit fiscal;
8. foi contra o agronegócio e a agricultura empresarial que o PT queria (e ainda quer) substituir por assentamentos do MST;
9. foi um partido golpista, tentando derrubar quem se antepusesse a seu projeto de poder;
10. se é verdade que apontou à nação alguns corruptos, firmando um conceito de partido diferente, formado por gente de bem, gente honesta, também é verdade que assassinou reputações, e, quando chegou ao poder, juntou-se aos maiores canalhas da República.
VEJAMOS, AGORA, COMO SÃO AS COISAS COM O PT NO GOVERNO
12. Há 12 anos, tenta reimplantar a censura através do marco regulatório da imprensa que pretende criar uma arbitragem sobre conteúdos;
13. através da criação do Conselho Federal de Jornalismo para punir jornalistas considerados incômodos;
14. através do PNDH-3;
15. através do marco civil da internet, que inicia censura virtual;
16. através do PLC 122 (da "homofobia") e seus disparates;
17. através da imposição do "politicamente correto" e da novilíngua e das confabulações do Foro de São Paulo.
18. Dá apoio e refúgio a terroristas (Cesar Battisti é apenas um dos casos).
19. Captura e devolução a Fidel os boxeadores cubanos.
20. Apoia politicamente e financia os governos comunistas de Cuba, Venezuela e demais países do Foro de São Paulo;
21. Faz o mesmo, incondicionalmente, com qualquer governo ou movimento adversário do Ocidente.
22. Seus legisladores municipais se dedicam a homenagear com líderes comunistas e guerrilheiros com nomes de ruas.
23. Criou um memorial para Luiz Carlos Prestes em Porto Alegre.
24. Concede apoio explícito a companheiros condenados pela justiça por graves crimes.
25. Revela verdadeira fobia pela construção de presídios e órgãos de segurança, resultando em gravíssima insegurança social.
26. Manifesta incondicional dedicação aos direitos humanos dos bandidos e total desconsideração pelos direitos das vítimas.
27. Empenha-se em inibir a ação armada das instituições policiais;
28. Dedica-se à causa do desarmamento dos cidadãos.
29. Rejeita a redução da maioridade penal.
30. Criou o MST o movimentos sociais semelhantes apoiando suas truculentas invasões às propriedades públicas e privadas.
31. Empenhou-se intensamente em ampliar as restrições ao direito de propriedade através do Código Florestal.
32. Apoia a expansão das reservas indígenas sobre áreas de lavoura.
33. Pretende retirar símbolos religiosos dos locais públicos;
34. Dedica-se a destruir os valores morais e familiares "conservadores" nas escolas e nos materiais didáticos.
35. Inventou a "Lei da palmada".
36. Apoia a legalização do aborto;
37. Dedica-se a implantação das políticas de gênero e à respectiva ideologia.
38. Concebeu kit gay e pretendia distribuí-los nas escolas;
39. Apoia e/ou financia com recursos públicos a parada gay;
40. a marcha das vadias e
41. a marcha pela maconha.
42. Criou as cotas raciais que reintroduzem no país a discriminação racial.
43. Faz uso intenso do material didático, especialmente de livros didáticos para doutrinação ideológica.
44. Criou com Fidel Castro o “Foro de São Paulo” onde ditadores e simpatizantes entram em conluio para produzir a hegemonia marxista na América Latina.
45. Tentou acabar com a lei de anistia e manipula a História para transformar guerrilheiros e terroristas comunistas em paladinos da democracia.
46. Promove gigantesco aparelhamento da administração pública, dos órgãos de Estado e dos tribunais superiores pelos partidos do governo.
47. Criou uma infinidade de ONGs, financiadas pelo governo, para servir a seus objetivos políticos com dinheiro da nação.
48. Fez do programa Bolsa Família um instrumento de dominação política das classes sociais mais desprotegidas, cristalizando nelas uma situação de dependência do governo.
49. Faz uso sistemático da mentira como forma de comunicação com a sociedade.
50. Corrompeu o Congresso Nacional com o mensalão.
51. Perdoa dívidas de ditadores africanos e tiranetes sul-americanos para favorecer contratação de obras suspeitíssimas, financiadas com recursos do BNDES enquanto cobra, centavo por centavo, as dívidas dos estados e municípios brasileiros.
52. No caso do porto cubano de Mariel, o PT investiu ali nos últimos anos dez vezes mais do que nos portos brasileiros.
53. Usa o programa mais médicos para financiar a ditadura cubana.
54. Tentou implantar o decreto 8423 que instituiria os conselhos bolivarianos no Brasil, em afronta à Constituição e ao Congresso Nacional.
55. Toma decisões irresponsáveis, como as campanhas para atrair a Copa de 2014, os jogos Olímpicos de 2016.
56. A gestão pública é um desastre que se expressa em irresponsabilidade fiscal, corrupção e ausência de prioridades.
57. Seus 40 ministérios viraram fatias de um bolo para a festa dos governantes onde cada ministro faz a própria política e serve aos interesses de seu partido.
58. Leva o "pragmatismo" ao nível do mais puro cinismo, como aconteceu foi abraçar-se com Paulo Maluf no exato momento em que isso foi conveniente à eleição de Haddad à prefeitura de São Paulo.
59. Como se viu no início desta exposição, o PT, na oposição, é um partido que não deixa governar.
60. E como se viu agora, o PT é um partido que não sabe governar.
Você pode estar se perguntando: Mas não existe gente boa no PT? Claro que há. Mas o problema está no partido. O partido dessa pessoa boa é um partido que faz mal ao Brasil e deve ser mantido longe do poder e a quilômetros de distância dos cargos públicos.
PT sem petismo
Ele foi citado na abertura e no fechamento do 5º Congresso do PT, em Salvador.
Na quinta-feira à noite, lembrado por um militante, Vaccari ganhou três minutos de aplausos.
No sábado à tarde, elogiado por Rui Falcão, presidente do partido, foi de novo demoradamente aplaudido.
Nenhum dos 720 congressistas mencionou os nomes de José Dirceu, ex-ministro de Lula, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, ambos condenados como mensaleiros. Foi como se jamais tivessem existido.
Quanto à corrupção, assunto incômodo para petistas de todos os matizes, nada se discutiu no congresso. Por isso ficou de fora da “Carta de Salvador”, documento com 3.834 palavras.
Um anexo à “Carta” reuniu as 13 resoluções aprovadas pelo congresso. Com 4.730 palavras, dedica à corrupção menos de 600. Dessas, 415 se ocupam do que os governos do PT fizeram para combatê-la.
As demais informam que o partido promoverá uma campanha de comunicação a respeito. E criará um grupo de "juristas progressistas" para refletir sobre o papel da Justiça “na criminalização da política, dos partidos e dos movimentos sociais”.
O congresso ensinou ou reforçou duas coisas: o PT está longe de morrer como querem seus adversários. E longe de voltar a se parecer com o que foi.
Congresso de partido por aqui se resume a aclamar seus líderes e a deliberar sobre o que eles propõem.
Em Congresso do PT, a discussão corre solta. Quem tem mais votos, leva. E, salvo Lula, os demais líderes não escapam a duras críticas.
Entenda-se por petismo um conjunto generoso de valores, princípios e boas ideias que foram desprezadas tão logo o partido chegou ao poder.
Ou antes, quando Lula concluiu que para o PT chegar lá precisava jogar conforme as regras do jogo. Para tal orientou Dirceu.
O partido fez concessões reprováveis. Desfigurou-se. Mergulhou na lama. E está ameaçado de perder sua base social.
O PT não está apenas “machucado” como admite Lula. Atravessa a pior crise dos seus 35 anos.
Reelegeu Dilma pelo pau do canto. E à custa de um formidável estelionato eleitoral.
Nem Fernando Collor, deposto por corrupção, foi tão impopular quanto Dilma é.
Os 30% dos brasileiros que preferiam o PT se reduziram a 5%. O partido perdeu o monopólio das ruas desde 2013.
Parte dos petistas que não se reconhece no atual PT alimentou o sonho de que o 5º Congresso pudesse marcar o início da reconciliação entre o partido e o petismo. Pois sim...
Foi o triunfo da insolência burra.
Envelhecido, o PT avisou aos eventuais interessados: “Quem quiser venha conosco pelo que fizemos até aqui, e que já foi muito”.
Não acenou para eles: “Quem quiser venha conosco pelo que já fizemos e pelo que ainda pretendemos fazer”.
A saber: isso, aquilo e aquilo outro. Tópicos de uma nova agenda capaz de atrair uma nova esquerda e de agradar aqueles à procura de uma ideologia.
Na véspera da instalação do congresso, a propósito de meios para financiar campanhas, Jaques Wagner, ministro da Defesa, disse que o PT não é melhor do que os outros. Portanto, não deve recusar dinheiro de empresas privadas.
Ora vejam! O PT que há 12 anos se apresentava como um partido diferente dos outros suplica, agora, para ser tratado, pelo menos, como igual aos outros.
Da boa governança a má governanta
Eventualmente, algum sociólogo, historiador ou arqueólogo explicará. Em retrospectiva, claro. Afinal, em retrospecto, todos os absurdos fazem sentido. Especialmente em uma nação especializada em explicar, eloquente e coerentemente, as razoes pelas quais ela não ocupa o lugar que julga merecer na ordem natural das coisas.
O diabo é que simplesmente encontrar formas elegantes de justificar fracassos não resolve nada. Não ajuda no presente. Não promete um futuro. Apenas serve de desculpa. E, nestes tempos, nem mesmo as desculpas fazem mais sentido.
Não da para entender nossa obsessão com culpar os outros. A perturbadora e aparentemente inevitável autocritica a favor. O escracho e o desrespeito pela inteligência alheia. Crivada de autoelogios. Alimentada pelo delírio. Temperada com cinismo.
Enquanto a gente administra a imagem e tenta explicar o irrelevante, em outros lugares, o pensamento é reservado à solução de problemas concretos. Reconhecem que o presente é a matéria prima com que são fabricados futuros. Melhorar o presente, olhando para o futuro, é, portanto, a missão mais nobre de cada geração.
Bom governo não é direito adquirido. É conquista diária baseada em trabalho constante de supervisão e controle pela população de seus governantes. Boa governança é o que resulta deste derramamento diário de suor.
Imperfeitos que possam ser, governos são retratos das populações que representam. Portanto, a melhor maneira de obter um bom governo é fazer a escolha correta na eleição. E, depois da eleição, acompanhar e fiscalizar sem descanso, as ações dos eleitos. Assim é a democracia.
Escolher errado custa caro. Quando acontece, ao invés de boa governança, convive-se, por anos, com más governantas.
O diabo é que simplesmente encontrar formas elegantes de justificar fracassos não resolve nada. Não ajuda no presente. Não promete um futuro. Apenas serve de desculpa. E, nestes tempos, nem mesmo as desculpas fazem mais sentido.
Não da para entender nossa obsessão com culpar os outros. A perturbadora e aparentemente inevitável autocritica a favor. O escracho e o desrespeito pela inteligência alheia. Crivada de autoelogios. Alimentada pelo delírio. Temperada com cinismo.
Enquanto a gente administra a imagem e tenta explicar o irrelevante, em outros lugares, o pensamento é reservado à solução de problemas concretos. Reconhecem que o presente é a matéria prima com que são fabricados futuros. Melhorar o presente, olhando para o futuro, é, portanto, a missão mais nobre de cada geração.
Bom governo não é direito adquirido. É conquista diária baseada em trabalho constante de supervisão e controle pela população de seus governantes. Boa governança é o que resulta deste derramamento diário de suor.
Imperfeitos que possam ser, governos são retratos das populações que representam. Portanto, a melhor maneira de obter um bom governo é fazer a escolha correta na eleição. E, depois da eleição, acompanhar e fiscalizar sem descanso, as ações dos eleitos. Assim é a democracia.
Escolher errado custa caro. Quando acontece, ao invés de boa governança, convive-se, por anos, com más governantas.

Passos largos, poço fundo
Entre anúncios do fim de livrarias e museus, ameaça de fechamento da Escola de Teatro Martins Pena, onde dei aula, e do encerramento do Centro de Referência Cultura Infância, no Jockey do Rio (ainda que nesse caso a batalhadora Karen Acioly tenha conseguido migrar para outros espaços), chega outra notícia: a Jornada de Passo Fundo vai acabar. É triste.
Há 34 anos essa cidade gaúcha vinha realizando suas Jornadas Nacionais de Literatura, um importante evento que deu à região a mais alta média de leitura do país — 6,5 livros por ano. Sempre com a professora Tânia Rösing à frente, a Universidade de Passo Fundo e a prefeitura municipal criaram também em 2001 a “Jornadinha”, estendendo a iniciativa ao público infantil e adolescente. É muito mais do que uma feira de livros semelhante às que se multiplicam pelo país. A Jornada sempre foi diferente. Partia de um trabalho prévio abrangente, coordenado pela universidade. Durante meses, na cidade e nos municípios vizinhos, escolas e faculdades se dedicavam à leitura dos autores cuja presença estava programada para aquele ano. A iniciativa envolvia enorme quantidade de professores e estudantes, muitos trazidos de ônibus das cidades vizinhas e devidamente assistidos para aproveitarem ao máximo a oportunidade. A culminância desse convívio atento com as obras se dava durante a Jornada, em encontro direto com os escritores.
Nos primeiros anos, foi em salas de aula da universidade. Depois, o sucesso obrigou a procurar o espaço mais amplo de um ginásio esportivo, onde da mesa os autores viam as cuias de chimarrão circulando pela plateia para ajudar a espantar o frio. A partir de certo ponto, abrigou-se sob a imensa lona de um circo especialmente montado, em sessões que se repetiam de manhã, de tarde e de noite, para que as cinco mil pessoas da plateia pudessem se revezar. Os debates incluíam escritores estrangeiros, trocando pontos de vista sobre temas diversos. Todos saíam admirados, certos de que jamais haviam visto algo semelhante, em lugar algum. Não viram mesmo. Porque não há nem nunca houve. E se depender do poder público, pode não haver de novo.
É que agora se anuncia o cancelamento da Jornada, por falta de verbas. A reitoria explica que “ante a incerteza desse momento, a realização de um evento de natureza tão grandiosa não se mostra recomendada.” Dá perfeitamente para entender que, a esta altura, não dá para querer reduzir a Jornada a uma mera feira de livros com barraquinhas na praça para desovar encalhes de distribuidoras. E o momento atual é mesmo incerto, diante da certeza de que a conta dos desmandos e da incompetência chegou (para não falar da corrupção) e é preciso apertar o cinto para pagá-la. O que espanta é a inversão de prioridades. Continua a haver dinheiro para despesas de custeio, milhares de cargos comissionados, 39 ministérios. Triplica-se a verba do fundo partidário. Infiltra-se em votação no Congresso a construção de um shopping no Parlamento. Aprovam-se aumentos e inconcebíveis auxílios-educação no Judiciário. Aumentam-se as isenções fiscais de igrejas. Mas se evita encarar a urgência das necessidades da educação e das humanidades, das alternativas de lazer e sonho para os jovens, por meio de reais oportunidades para que suas vidas façam sentido e que convivam com a arte, a cultura, o esporte. Sem que fiquem condenados ao fundo do poço. E à violência de quem se sente encurralado, sem horizontes.
Em paralelo, vivemos também a consequência de aceitar uma atitude paternalista em relação à cultura, onde tudo depende do Estado e a ele tem de agradar para sobreviver. Este, por sua vez, terceirizou sua obrigação de desenvolver política cultural, delegando a patrocínios e renúncia fiscal a tarefa de apoiar o setor, sem incentivá-lo a buscar outros caminhos de produção que sustentassem o crescimento próprio — com frequência se limitando a apoiar quem demonstrava afinidade ideológica ou tinha condições de contratar profissionais especializados em apresentar projetos de forma palatável, para vencer editais. Desde que se garantisse a publicidade por meio de logomarca ostensiva e slogan repetido. E tomou decisões polêmicas, como o apoio à publicação brasileira de um jornal francês especializado em diplomacia, ou o subsídio a um circo estrangeiro que cobrava ingressos milionários. Com isso, o setor perdeu a prática de caminhar pelas próprias pernas, se acomodou e atrofiou sua capacidade de levantar recursos sem depender do governo. Ainda mais com uma legislação que não ajuda. De sua parte, muitas vezes a iniciativa privada lavou as mãos.
Chegamos assim a esta série de projetos culturais frustrados, filmagens canceladas, montagens teatrais e exposições suspensas, shows musicais e feiras de livro abortados, museus e livrarias que se fecham.
Que o momento, pelo menos, estimule a reflexão e busca de novos caminhos. E que Tânia possa seguir os passos de Karen e encontrar alternativas.
Nos primeiros anos, foi em salas de aula da universidade. Depois, o sucesso obrigou a procurar o espaço mais amplo de um ginásio esportivo, onde da mesa os autores viam as cuias de chimarrão circulando pela plateia para ajudar a espantar o frio. A partir de certo ponto, abrigou-se sob a imensa lona de um circo especialmente montado, em sessões que se repetiam de manhã, de tarde e de noite, para que as cinco mil pessoas da plateia pudessem se revezar. Os debates incluíam escritores estrangeiros, trocando pontos de vista sobre temas diversos. Todos saíam admirados, certos de que jamais haviam visto algo semelhante, em lugar algum. Não viram mesmo. Porque não há nem nunca houve. E se depender do poder público, pode não haver de novo.
É que agora se anuncia o cancelamento da Jornada, por falta de verbas. A reitoria explica que “ante a incerteza desse momento, a realização de um evento de natureza tão grandiosa não se mostra recomendada.” Dá perfeitamente para entender que, a esta altura, não dá para querer reduzir a Jornada a uma mera feira de livros com barraquinhas na praça para desovar encalhes de distribuidoras. E o momento atual é mesmo incerto, diante da certeza de que a conta dos desmandos e da incompetência chegou (para não falar da corrupção) e é preciso apertar o cinto para pagá-la. O que espanta é a inversão de prioridades. Continua a haver dinheiro para despesas de custeio, milhares de cargos comissionados, 39 ministérios. Triplica-se a verba do fundo partidário. Infiltra-se em votação no Congresso a construção de um shopping no Parlamento. Aprovam-se aumentos e inconcebíveis auxílios-educação no Judiciário. Aumentam-se as isenções fiscais de igrejas. Mas se evita encarar a urgência das necessidades da educação e das humanidades, das alternativas de lazer e sonho para os jovens, por meio de reais oportunidades para que suas vidas façam sentido e que convivam com a arte, a cultura, o esporte. Sem que fiquem condenados ao fundo do poço. E à violência de quem se sente encurralado, sem horizontes.
Chegamos assim a esta série de projetos culturais frustrados, filmagens canceladas, montagens teatrais e exposições suspensas, shows musicais e feiras de livro abortados, museus e livrarias que se fecham.
Que o momento, pelo menos, estimule a reflexão e busca de novos caminhos. E que Tânia possa seguir os passos de Karen e encontrar alternativas.
A verdade vem nas frestas
Um homem aprende a reconhecer a verdade, mesmo quando só há mentiras à sua volta. Às vezes ele deseja a verdade e não há quem o demova. As autoridades do governo podem não querer que conheçamos a verdade, mas ela chega assim mesmo, pelas frestas dos muros, como se diz. Eles podem tentar nos enganar, e o fazem com frequência, mas nós saberemos garimpar as evidências e, se os fatos não são como eles dizem, o problema é deles. Eles que enfrentem suas consciênciasBernard Mallamud
A revolução verde de Copenhague
A Capital Verde Europeia de 2014 possui uma política ambiental defendida por todos
| Praça no centro da cidade preparada também para grandes chuvaradas |
Escolhida três vezes consecutivas pela revista britânica de tendências globais Monocle a cidade mais habitável do planeta, eleita Capital Verde Europeia 2014 e designada por uma pesquisa da The Economist Intelligence Unit como a capital mais sustentável da Europa, Copenhague está imersa numa revolução verde que afeta todos os aspectos de sua vida urbana. Uma das escolas financeiras mais prestigiosas do mundo, a London School of Economics, publicou recentemente um estudo sobre o processo que levou Copenhague a se transformar na "líder mundial em economia verde”. O relatório conclui que a redução de emissões e a aposta em políticas ambientais não apenas são positivas para o planeta, mas também se transformaram num belo negócio para o país nórdico. A cidade dinamarquesa pretende se tornar a primeira capital neutra em emissões de carbono até 2025. E seus habitantes estão certos de que vão conseguir: houve uma redução de 40% nas emissões desde 1990, e a partir de 1980 o PIB da Dinamarca cresceu 80%, enquanto o consumo energético se manteve estável.
“O que estamos fazendo aqui é novo, ocorre pela primeira vez”, explica em seu gabinete o ministro dinamarquês de Clima, Energia e Construção, Rasmus Helveg Petersen, de 46 anos. A inclusão dessas três pastas num só Ministério é uma verdadeira declaração de princípios. “Há 20 anos, a Dinamarca era famosa pela indústria pornô e pelo bacon. Hoje, é conhecida pela transição rumo a uma economia sustentável”, diz esse político do centrista Partido Social Liberal. Em seu escritório com uma vista magnífica para os canais do centro de Copenhague, Petersen mostra um mapa da Groenlândia, território ártico pertencente à Dinamarca. “Se esse gelo derretesse, a água inundaria toda a nossa cidade. É uma questão de bom senso, mas também é algo bom para a economia do país.”
Como vender o socialismo no século XXI?

Boa noite, companheiros e companheiras. Como vocês sabem, estamos passando por um momento muito complicado. Vender a ideia de socialismo no século XXI está cada vez mais difícil. O verdadeiro socialismo ainda está por vir, é verdade, mas a luta por justiça social e igualdade proletária foi adiada mais uma vez. Claro, o neoliberalismo está por trás de tudo isso e é ele que vem nos roubando o protagonismo. Se não fizermos nada agora, perderemos espaço no debate público e não conseguiremos angariar nem mesmo os jovens de até vinte anos que leram dois ou três livros a mais que o adolescente médio, ou seja, aquele que nunca leu livro nenhum.
Hoje, mesmo as minorias mais discriminadas, marginalizadas e esquisitinhas estão sendo aos poucos assimiladas pela lógica do mercado. Vejam só vocês, eu estava vindo para esta reunião quando passei numa banca e vi que na capa de uma revista importada, uma revista estadunidense, estava estampada a foto de uma transexual idosa. Quer dizer, mesmo a questão de identidade de gênero, da qual começamos a tratar não tem nem quinze anos, querem nos roubar. Onde o neoliberalismo vai parar?
Assim não há ideologia que resista. O show business está tomado por questões nossas. A mídia golpista abre espaço para colunista do movimento dos trabalhadores sem-teto. As empresas mais capitalistas do mundo apoiam abertamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eles estão roubando o nosso protagonismo. Fazem comerciais com gays, lésbicas e o que mais aparecer na frente. Quando achamos que descobrimos o novo proletário para trazer para a nossa causa, lá vai o neoliberalismo com os seus eletrônicos e sites de compra coletiva para pegá-los de volta. Assim não dá.
Passamos anos atacando as redes de fast food e as comidas enlatadas até que o neoliberalismo nos apareceu com os produtos orgânicos, a comida sem glúten e os iogurtes probióticos - e o pior, lucrando muito com isso!
Quando tratamos da fome, eles nos trazem a obesidade; quando falamos da obesidade, eles nos trazem as bicicletas ergométricas, shakes para emagrecer e academias de musculação; quando criticamos os padrões de beleza impostos pela indústria dos suplementos alimentares, eles nos trazem colchões e camas king size e videogames e salgadinhos; quando criticamos o sedentarismo, eles nos vendem bolas de futebol e pranchas para a prática de stand up paddle; quando falamos que só quem tem dinheiro pode aproveitar tudo isso, eles nos trazem créditos para negativados, brechós, sebos e produtos de segunda mão; quando criticamos o entulho causado pela obsolescência programada, eles nos trazem chips que podem armazenar milhares de livros, fotos e vídeos; quando criticamos o consumismo, eles nos vendem livros sobre isso. E agora eles me vêm com uma transexual idosa na capa de uma revista de grande circulação? Esse foi um golpe baixo, baixíssimo.
Minha preocupação é que, do jeito que a coisa anda, até mesmo a minoria mais negligenciada, mas encardidinha, seja absorvida pela lógica do mercado. Está cada vez mais difícil de expandir o número de novos proletários para a nossa causa. Ano a ano, o neoliberalismo vem estragando o efeito que o nosso discurso tinha lá no início. O mercado apanha a todos com os seus tentáculos. E – o horror, o horror! – como lucram com isso!
Governados por assassinos e ladrões
O Brasil é o país da mesmice, que se repete ad aeternum e sobre o qual as mesmas coisas são escritas todos os dias sem que se tome qualquer medida saneadora. Aqui, nada deu certo e jamais dará. O país produz certo cansaço porque basta repetir diariamente tudo aquilo de mais desmoralizante que já se escreveu sobre ele, seja nos últimos dias, meses ou ano, pois os fatos são recorrentes e a população se acostumou à bandalheira. Ninguém possui a menor noção de dever, direito ou cidadania.
Diariamente, basta se adicionar ao noticiário o escândalo atual. Ele terá a mesma característica dos demais e os mesmos personagens. O que de melhor aconteceu no Brasil foi a internet, porque agora sabemos nomes e detalhes dos assaltantes do dinheiro público, embora eles cumpram penas ridículas e continuem roubando com a vantagem de poder sair da cadeia no dia dos pais, das mães, dos namorados e dias assemelhados, já que os próprios ladrões na maioria esmagadora dos casos é que elaboram as leis.
Mas o pior de tudo é verificar que quem deveria dar declarações sensatas e enriquecer o nível de informação das pessoas concorre para desmontar a ordem e desmoralizar as instituições. O jornalista Paulo Francis (1930-97) escreveu há muitos anos um artigo na Folha de S. Paulo em que dizia que as pessoas costumam ficar de queixo caído quando enxergam alguma celebridade nas ruas e tendem a seguir seus conselhos por mais disparatados.
Dizia, ainda, que acompanhava entrevistas concedidas por tais celebridades e o que impressionava era o grau de desconhecimento exibido a respeito de tudo, o vazio cultural e a desinformação plena. Às vezes, aparecia algum que sabia das coisas, mas que optava deliberadamente pela mentira, gravitando em torno dos próprios interesses. Outros, ao contrariarem forças corporativas, corriam o risco de exclusão de contratos ou vantagens que pudessem auferir. O mundo, finalmente, pertence aos medíocres!
Ele se referia a famosos atores e atrizes de cinema que, pelo simples fato de aparecerem nas telas, eram considerados como deuses, ditando normas, regras e padrões. De lá para cá, nada mudou. O agravante é que a televisão jogou para dentro dos lares das pessoas uma cambada de marginais impondo posturas e valores, inclusive de natureza sexual, banalizando a pornografia e mudando as referências que transformaram o Brasil do século XXI num bordel de quinta categoria!
Seria ótimo ouvir argumentos convincentes contrários, porque existe o convencimento de que a Rede Globo comanda, desde a sua fundação (fraudada com a bênção do regime militar, 1964-85), este horror em que se transformou nossa desmoralizada República, casa de prostituição e pouca vergonha onde não há referência moral nem difusão de atitude que se possa louvar.
Pior: a emissora não consegue enxergar o óbvio, atolada na podridão moral que escolheu, pois será engolfada pelo mar da insatisfação geral que um dia virá no ritmo de alternância cuja estrutura dialética se constitui na essência do próprio funcionamento do nosso mundo. Pois esqueçam Chico Buarque, louvando as misérias de Cuba e os crimes impunes de Fidel Castro e o fedorento Che Guevara.
Esqueçam o ator global petista Paulo Betti, justificando a roubalheira do PT e dizendo que Lula da Silva, o Lularápio, teria de “colocar a mão na merda” para fazer política (ele se banhou nela). Vejam o vídeo que corre no facebook, onde o ator global petista Sérgio Mamberti diz que a manifestação de quase dois milhões de pessoas na Avenida Paulista (SP) foi um “convescote de rico”. Ele ainda convoca os Black Blocs, deixando claro que é a tropa de destruição do PT, assumindo isso.
Tem gente que envelhece e não aprende nada. O que se pode esperar deste país?
Mas o pior de tudo é verificar que quem deveria dar declarações sensatas e enriquecer o nível de informação das pessoas concorre para desmontar a ordem e desmoralizar as instituições. O jornalista Paulo Francis (1930-97) escreveu há muitos anos um artigo na Folha de S. Paulo em que dizia que as pessoas costumam ficar de queixo caído quando enxergam alguma celebridade nas ruas e tendem a seguir seus conselhos por mais disparatados.
Dizia, ainda, que acompanhava entrevistas concedidas por tais celebridades e o que impressionava era o grau de desconhecimento exibido a respeito de tudo, o vazio cultural e a desinformação plena. Às vezes, aparecia algum que sabia das coisas, mas que optava deliberadamente pela mentira, gravitando em torno dos próprios interesses. Outros, ao contrariarem forças corporativas, corriam o risco de exclusão de contratos ou vantagens que pudessem auferir. O mundo, finalmente, pertence aos medíocres!
Ele se referia a famosos atores e atrizes de cinema que, pelo simples fato de aparecerem nas telas, eram considerados como deuses, ditando normas, regras e padrões. De lá para cá, nada mudou. O agravante é que a televisão jogou para dentro dos lares das pessoas uma cambada de marginais impondo posturas e valores, inclusive de natureza sexual, banalizando a pornografia e mudando as referências que transformaram o Brasil do século XXI num bordel de quinta categoria!
Seria ótimo ouvir argumentos convincentes contrários, porque existe o convencimento de que a Rede Globo comanda, desde a sua fundação (fraudada com a bênção do regime militar, 1964-85), este horror em que se transformou nossa desmoralizada República, casa de prostituição e pouca vergonha onde não há referência moral nem difusão de atitude que se possa louvar.
Esqueçam o ator global petista Paulo Betti, justificando a roubalheira do PT e dizendo que Lula da Silva, o Lularápio, teria de “colocar a mão na merda” para fazer política (ele se banhou nela). Vejam o vídeo que corre no facebook, onde o ator global petista Sérgio Mamberti diz que a manifestação de quase dois milhões de pessoas na Avenida Paulista (SP) foi um “convescote de rico”. Ele ainda convoca os Black Blocs, deixando claro que é a tropa de destruição do PT, assumindo isso.
Tem gente que envelhece e não aprende nada. O que se pode esperar deste país?
Di'menor, inocente ou delinquente
Muito se discute a respeito da maioridade penal do Brasil. Por conta disso, pelo clamor popular, a Câmara dos Deputados deve votar nos próximos dias a nova lei sobre a redução da maioridade penal.
Entendo, com a devida vênia, que tal matéria deveria estar decidida há muito tempo e não somente agora ir a plenário.
O mundo mudou, tudo evoluiu. Se compararmos os costumes antes da década de 20 com os de agora, não existe semelhança. A história nos mostra que um garoto naquele tempo era verdadeiramente uma criança, não tinha o discernimento, o conhecimento e a vivacidade das crianças atuais, não exercia as funções sociais e nem tinha responsabilidade, portanto, não era cobrado como hoje.
O adolescente mudou muito. Hoje tem tanto ou mais conhecimento que um maior de idade, pratica crimes hediondos, chefia quadrilha de criminosos, tanto na venda de drogas, quanto em assaltos ou sequestros. Tem mais periculosidade e inteligência para o crime que muitos criminosos com mais idade.
Se o menor hoje é considerado capaz para tantos atos da vida civil, destacando-se, inclusive, para votar e eleger governadores e presidente da República, por que o absurdo de ser isento da responsabilidade penal pelos crimes bárbaros que praticam?
Ora, se assim fosse, mostrariam fragilidade e não arrogância e prepotência quando presos. Outro dia, conversando com um amigo, membro do Poder Judiciário que defende a não redução da menoridade penal, lhe falei: "Se o menor é tão bonzinho, porque você não o leva para sua casa?”, confesso, não obtive resposta.
Como advogado criminalista há mais de 30 anos, diuturnamente presenciamos nas delegacias a polícia se desdobrar para descobrir o criminoso e, quando prende, ouve a célebre fase "não me toque sou ‘di’ menor". Às vezes, infelizmente, o menor criminoso sai da delegacia antes das testemunhas e da vítima, pois a polícia pouco ou nada pode fazer.
A sociedade não pode continuar calada, não pode permitir esse descaso legal, verdadeiro absurdo. É necessário pressão em cima dos nossos legisladores, em movimento nacional, semelhante a de um Impeachment, para que se opere mudanças e a sociedade possa dar um passo à frente, buscando um pouco de paz.
Se nada fizermos e continuarmos somente reclamando para nos mesmos, vamos continuar a conviver com esse estado de coisas, com os crimes violentos praticados, perda de entes queridos e importantes em nossas vidas, sabendo de antemão que o menor não é inocente, mas sim delinquente, e o que é pior, será solto sumariamente, dando risadas de nossa caras. E a polícia, mais uma vez, será desmoralizada e ridicularizada, com a palavra mágica “sou ‘di’ menor".
Entendo, com a devida vênia, que tal matéria deveria estar decidida há muito tempo e não somente agora ir a plenário.
O mundo mudou, tudo evoluiu. Se compararmos os costumes antes da década de 20 com os de agora, não existe semelhança. A história nos mostra que um garoto naquele tempo era verdadeiramente uma criança, não tinha o discernimento, o conhecimento e a vivacidade das crianças atuais, não exercia as funções sociais e nem tinha responsabilidade, portanto, não era cobrado como hoje.
O adolescente mudou muito. Hoje tem tanto ou mais conhecimento que um maior de idade, pratica crimes hediondos, chefia quadrilha de criminosos, tanto na venda de drogas, quanto em assaltos ou sequestros. Tem mais periculosidade e inteligência para o crime que muitos criminosos com mais idade.
Se o menor hoje é considerado capaz para tantos atos da vida civil, destacando-se, inclusive, para votar e eleger governadores e presidente da República, por que o absurdo de ser isento da responsabilidade penal pelos crimes bárbaros que praticam?

Ora, se assim fosse, mostrariam fragilidade e não arrogância e prepotência quando presos. Outro dia, conversando com um amigo, membro do Poder Judiciário que defende a não redução da menoridade penal, lhe falei: "Se o menor é tão bonzinho, porque você não o leva para sua casa?”, confesso, não obtive resposta.
Como advogado criminalista há mais de 30 anos, diuturnamente presenciamos nas delegacias a polícia se desdobrar para descobrir o criminoso e, quando prende, ouve a célebre fase "não me toque sou ‘di’ menor". Às vezes, infelizmente, o menor criminoso sai da delegacia antes das testemunhas e da vítima, pois a polícia pouco ou nada pode fazer.
A sociedade não pode continuar calada, não pode permitir esse descaso legal, verdadeiro absurdo. É necessário pressão em cima dos nossos legisladores, em movimento nacional, semelhante a de um Impeachment, para que se opere mudanças e a sociedade possa dar um passo à frente, buscando um pouco de paz.
Se nada fizermos e continuarmos somente reclamando para nos mesmos, vamos continuar a conviver com esse estado de coisas, com os crimes violentos praticados, perda de entes queridos e importantes em nossas vidas, sabendo de antemão que o menor não é inocente, mas sim delinquente, e o que é pior, será solto sumariamente, dando risadas de nossa caras. E a polícia, mais uma vez, será desmoralizada e ridicularizada, com a palavra mágica “sou ‘di’ menor".
domingo, 14 de junho de 2015
Embrulhando o arco-íris
O afã de trocar de carros a toda hora, de mudar de casa, de ostentar roupa de grife, por vez exótica e embaraçosa, de comprar o que tem de mais caro é uma atitude que precisa ser analisada com atenção. É hábito “generalizado” desde que Eva, por uma maçã, jogou Adão fora do paraíso terrestre. Assim, de maçã em maçã, o consumo aumentou e, mais recentemente, se turbinou pela propaganda, contudo, mantendo a insatisfação em altíssimo grau. No niilismo budista, explica-se que a “felicidade está na ausência de desejo”, exatamente o contrário do que se vende aos incautos, do que se dissemina.
O desejo é apresentado pelas serpentes que prometem uma ilimitada satisfação, sofisticação, realização. Fazem com que as mulheres prefiram um salto de 20 centímetros, equilibrando-se sobre um ponteiro, ao prazer de um confortável sapato. Todas sabem disso, todas sentem o conforto de um contra a dificuldade e os calos do outro. E daí?
Nas ruas por onde passamos, nas novelas, nos jornais, a dose inoculada obsessivamente estimula a compulsão; esta movimenta as lojas. Quando estudante, um professor contou-me que um sujeito com a mão apoiada na fria bigorna a golpeava com martelo; questionado sobre a “loucura”, respondeu que tinha imenso prazer quando não acertava os dedos. Quer dizer, fazemos da nossa vida um sacrifício inútil. Não temos educação para conseguir separar o bom do supérfluo. A vaidade tomou o lugar que deveria ser ocupado pelo justo discernimento.
Sacrificam-se coisas indispensáveis por um par de óculos usado por uma atriz de novela.
Assisti, faz tempo, à palestra de um “mago internacional de marketing”, uma aula de feitiçaria para vender por meio de compulsões provocadas nos incautos. Mostrava que as medidas devem insinuar-se como a serpente – em nada espalhafatosas ou faraônicas – e atingir o ponto fraco, inserir a chave na fechadura e rodá-la para entrar na cabine que comanda as decisões. Escrúpulos ele nunca acenou.
Antigamente eram as bruxas que sabiam criar a mandinga fatal e fazer acreditar: “Nisso está a felicidade”. Posta a premissa, o indivíduo passa a ser um atormentado. Um Perseu acorrentando à rocha com o fígado arrancado aos pedaços pela águia. Nesse conto, os antigos mostraram que conheciam bem que o fígado não tem nervos, não dá dor, e que, mesmo despedaçado, se regenera em qualquer idade. É o órgão do desejo, só tem ambição. A mulher, para ser admirada, se expõe a qualquer frio para mostrar o decote. E não sente frio. O desejo desconhece a dor, assim como o fígado, e ainda se perpetua.
O Perseu do século XXI se acorrenta aos desejos mais fúteis, não se apercebe de que é infeliz por não saber dominá-los. Acredita no “não tenho, portanto, sou infeliz”, mas ao contrário, é “infeliz por desejar demasiadamente e sem educação emocional”.
O niilismo budista ensina que o Nirvana se abre quando os desejos deixam de se recompor, quando morre o mecanismo que os cria, quando a matéria é dominada e, por isso, extinta em sua importância.
Nas últimas décadas, a vaidade encontrou um forte concorrente na “necessidade”, esta entrou no mercado com força total e o dominou. Como explicou muito bem Steve Jobs, da Apple, vender algo que muda para melhor a forma de viver e introduz num mundo mais amplo e mais rápido passa, em importância, os motivos que levam a desejar. A utilidade do produto cria a necessidade de comprá-lo para não ser excluído. Quem está fora se arrisca a se transformar num ser que não acompanha a manada global. A pouco tempo de ser um desconectado.
Jobs, antes de ser empresário, fez vida mística na Índia, se aproximou do conceito de “karma”, entendeu a sutileza tão abstrusa para o ocidental, da concatenação da causa e dos efeitos. Enxergou na vaidade um sentimento apenas “analógico”, e na “necessidade”, outro muito mais poderoso. Nesse campo, se deram seus estrondosos sucessos, como assim se deu nessa geração de “gênios nascidos em garagens”. Microsoft, Apple, Facebook, Alibaba, Oracle etc. Os Nasdaq.
Produtos “imprescindíveis”, “sine qua non”, ultrapassando a mera vaidade no ranking de valores que dominaram por séculos a humanidade.
Apesar disso, o segredo da felicidade permanece o mesmo explicado por Buda e por Cristo no Sermão da Montanha. Este mundo é uma mera passagem, um quebra-cabeça para se enfrentar com sabedoria.
Um desses “afortunados” gênios, Pierre Omidyar, da eBay, titular de uma dezena de bilhões, explica que, alcançando a riqueza espetacular, entendeu que esta não provoca necessariamente a satisfação. “Fiquei, da noite para o dia, estupidamente rico e vi que podia comprar não só o carro dos meus sonhos, mas como todos os 30 carros que estavam na loja. E, quando você percebe isso, todos os carros, de repente, deixam de ser interessantes e não satisfazem mais nada”.
Enfim, o desejo e a felicidade são tão efêmeros como tentar embrulhar um arco-íris. Nunca o serão. Ao menos nesta terra.
O desejo é apresentado pelas serpentes que prometem uma ilimitada satisfação, sofisticação, realização. Fazem com que as mulheres prefiram um salto de 20 centímetros, equilibrando-se sobre um ponteiro, ao prazer de um confortável sapato. Todas sabem disso, todas sentem o conforto de um contra a dificuldade e os calos do outro. E daí?
Nas ruas por onde passamos, nas novelas, nos jornais, a dose inoculada obsessivamente estimula a compulsão; esta movimenta as lojas. Quando estudante, um professor contou-me que um sujeito com a mão apoiada na fria bigorna a golpeava com martelo; questionado sobre a “loucura”, respondeu que tinha imenso prazer quando não acertava os dedos. Quer dizer, fazemos da nossa vida um sacrifício inútil. Não temos educação para conseguir separar o bom do supérfluo. A vaidade tomou o lugar que deveria ser ocupado pelo justo discernimento.
Sacrificam-se coisas indispensáveis por um par de óculos usado por uma atriz de novela.
Assisti, faz tempo, à palestra de um “mago internacional de marketing”, uma aula de feitiçaria para vender por meio de compulsões provocadas nos incautos. Mostrava que as medidas devem insinuar-se como a serpente – em nada espalhafatosas ou faraônicas – e atingir o ponto fraco, inserir a chave na fechadura e rodá-la para entrar na cabine que comanda as decisões. Escrúpulos ele nunca acenou.
Antigamente eram as bruxas que sabiam criar a mandinga fatal e fazer acreditar: “Nisso está a felicidade”. Posta a premissa, o indivíduo passa a ser um atormentado. Um Perseu acorrentando à rocha com o fígado arrancado aos pedaços pela águia. Nesse conto, os antigos mostraram que conheciam bem que o fígado não tem nervos, não dá dor, e que, mesmo despedaçado, se regenera em qualquer idade. É o órgão do desejo, só tem ambição. A mulher, para ser admirada, se expõe a qualquer frio para mostrar o decote. E não sente frio. O desejo desconhece a dor, assim como o fígado, e ainda se perpetua.
O Perseu do século XXI se acorrenta aos desejos mais fúteis, não se apercebe de que é infeliz por não saber dominá-los. Acredita no “não tenho, portanto, sou infeliz”, mas ao contrário, é “infeliz por desejar demasiadamente e sem educação emocional”.
O niilismo budista ensina que o Nirvana se abre quando os desejos deixam de se recompor, quando morre o mecanismo que os cria, quando a matéria é dominada e, por isso, extinta em sua importância.
Jobs, antes de ser empresário, fez vida mística na Índia, se aproximou do conceito de “karma”, entendeu a sutileza tão abstrusa para o ocidental, da concatenação da causa e dos efeitos. Enxergou na vaidade um sentimento apenas “analógico”, e na “necessidade”, outro muito mais poderoso. Nesse campo, se deram seus estrondosos sucessos, como assim se deu nessa geração de “gênios nascidos em garagens”. Microsoft, Apple, Facebook, Alibaba, Oracle etc. Os Nasdaq.
Produtos “imprescindíveis”, “sine qua non”, ultrapassando a mera vaidade no ranking de valores que dominaram por séculos a humanidade.
Apesar disso, o segredo da felicidade permanece o mesmo explicado por Buda e por Cristo no Sermão da Montanha. Este mundo é uma mera passagem, um quebra-cabeça para se enfrentar com sabedoria.
Um desses “afortunados” gênios, Pierre Omidyar, da eBay, titular de uma dezena de bilhões, explica que, alcançando a riqueza espetacular, entendeu que esta não provoca necessariamente a satisfação. “Fiquei, da noite para o dia, estupidamente rico e vi que podia comprar não só o carro dos meus sonhos, mas como todos os 30 carros que estavam na loja. E, quando você percebe isso, todos os carros, de repente, deixam de ser interessantes e não satisfazem mais nada”.
Enfim, o desejo e a felicidade são tão efêmeros como tentar embrulhar um arco-íris. Nunca o serão. Ao menos nesta terra.
Tudo vai bem (nos poderes da República)
Quando tudo vai bem, o que a gente menos quer falar é em mudança. Deixa como está! Não mexe!

Estou falando dos membros das instituições. Dos órgãos do Estado, do governo, do parlamento, da justiça. Para esse específico e decisivo conjunto de pessoas, de autoridades, tudo está muito bem. Não têm do que se queixar. Os vencimentos são bons, os subsídios idem, prerrogativas e privilégios também, o modelo lhes garantiu acesso aos postos que ocupam, as regras do jogo lhes foram convenientes. Em grande parte, conquistaram suas posições com méritos intelectuais nos postos ocupados por concurso, e por méritos políticos nos postos eletivos ou de indicação. Tudo está no seu lugar e todos estão onde querem. Deixa tudo como está!
Esse tem sido um clássico entre os problemas brasileiros. Muda-se apenas o mínimo necessário para que nada mude, como já disse alguém. Estamos em meio a uma crise cujos promotores são conhecidos e sobre cujas causas ninguém tem dúvidas. Tudo vai mal para quase todos. Mas tudo vai bem para quem decide sobre quaisquer mudanças e sobre os rumos a serem dados ao país. Provavelmente, os "honorable gentlemen", como diria Churchill a eles se referindo, ouviram dizer que a sociedade se inquieta. Escutaram panelaços. Souberam que o povo saiu às ruas. Perceberam que a eleição e a apuração dos votos de outubro de 2014 transcorreram numa caixa preta. Têm consciência de que quem venceu mentiu mais que o capeta e alcançou seus fins pelos piores meios. Não desconhecem que há um escândalo em cada esquina. Acham o juiz Sérgio Moro um chato de galocha. Mas a experiência lhes ensinou que o melhor remédio, para quem não quer marola, vem com um dia depois do outro.
Eis aí o motivo pelo qual nada está acontecendo, embora todos esperem que algo aconteça. Por mais que as circunstâncias favoreçam seu trabalho, nem mesmo a dita oposição se atreve a cumprir seu papel. No Congresso Nacional, ela, a oposição, é a turma do "deixa disso!". Quando o clima esquenta, os caciques botam fogo. No cachimbo da paz, quero dizer. E trocam apaziguadoras baforadas. Os "honorable gentlemen" vão muito bem, obrigado, e nada têm a reclamar. As eventuais dificuldades pessoais se decidem com alguma leizinha privada, em benefício próprio, de comum acordo, porque nada é mais sagrado do que o bem estar e o estar bem nas instituições da República.
A conivência e a conveniência, vêm sustentando a hegemonia de um projeto de poder que já não esconde a que veio. Quem acha que nada deve mudar, em breve verá tudo mudado. Saiba, portanto, o leitor: em tais condições, nada serve melhor à ruína do país que a modorra institucional, que o conformismo dos tíbios e o silêncio dos omissos. Espero que o Congresso do PT desperte as instituições para seus compromisso com o bem do país, que não pode ser boi de canga para um projeto totalitário de poder.
Percival Puggina
O país dos paliativos
Em um certo país, que talvez conheçamos bem, a regra parece ser “tape o sol com a peneira” e tome atitudes meramente paliativas. Lá, ou aqui para ser mais exato, as coisas funcionam mais ou menos assim: não consegue passar para faculdade? Ofertamo-lhe uma cota.
No entanto, o ideal é construir uma educação básica de qualidade como fazem os países desenvolvidos ou verdadeiramente em desenvolvimento, não é mesmo? Assim, todos teriam condições de serem aprovados para o curso superior ou ingressariam diretamente de acordo com o currículo escolar. Todavia, isso não facilitaria a carreira acadêmica dos filhos e netos dos “donos do poder” neste tal país. Esses (os filhos e netos dos donos do poder) estudam nos colégios e escolas mais caros e melhores preparados para aprová-los no tão concorrido ENEM.
Eles não precisam de cotas, são representantes da educação de qualidade e com toda certeza terão condições de concluírem seus cursos, diferentemente dos cotistas que por bulling, baixo conhecimento intelectual, dificuldades financeiras, necessidade de trabalhar, dentre outras questões acabam por abandonarem seus cursos.
A verdade é que este tal país mal administrado há séculos precisa de cursinhos, de escolas particulares, eles pagam impostos. Como impostos são o que mais importa por “laaqui”, neste tal país bem pertinho de você e de mim a educação pública básica e média de qualidade não existirá. A não ser que haja uma revolução social, que pessoas de bem passem a administra-lo. A educação, já vimos, vai mal! Como vai a segurança publica?
Neste determinado momento, existem menores cometendo crimes país afora, roubos de bicicletas, macha criminal sobrevoando a zona sul, ataques à faca e crianças, jovens e adultos usando “drogas pobres” nos principais pontos da cidade. Os agentes políticos que adoram adotar soluções paliativas para temas polêmicos como modo de manterem suas cadeiras ditam: reduza-se então a maioridade penal, reforce-se o policiamento por algum tempo, criminalize-se o uso de arma branca, põe-se à cavalaria nas ruas.
Está resolvido. Será? As causas, quem investiga, quem combate? Perguntamo-nos. As respostas vêm e começam a demonstração da paliatividade de tais medidas. Os presídios, casas de recuperação e casas de albergados, neste tal tão conhecido país não são reeducadores, muito menos ressocializadores, são verdadeiras escolas do crime. É possível julgar o grau de civilização de uma sociedade visitando suas prisões – Dostoiésvki – Crimes e Castigos. Novamente, o ideal é, como em países desenvolvidos…, tirar a população da marginalização através de abertura de postos de trabalhos, de formação profissional de qualidade, do incentivo ao consumo controlado.
Quanto às penitenciárias, fazer delas centros de recuperação através de atividades profissionais, sócias e culturais, além é evidente do término da superlotação. Não para por aí! O transporte público deste tal país “paliativista” também é decadente.
Meus Deus, Mulheres são assediadas nos trens abarrotados de passageiros! Grita o resolvedor palitivista que quer votos por uma lei que mascarará o verdadeiro problema. Fácil, de agora em diante haverá vagões exclusivamente para as mulheres nos horários- de-pico. Pronto. Mais fácil do que se imaginávamos, não? Não mesmo. O transporte público deste tal país, B, continua uma humilhação diária para mulheres e homens que além de tudo agora aglomeram-se juntos aos do mesmo sexo. Talvez logo tenhamos de por vagões exclusivos para os homossexuais e tenhamos de criar também cadeiras rosas para as mulheres, ou as elas não são assedias nos ônibus? Algumas das declarações mais constantes dos passageiros é que se sentem em uma lata de sardinha, que ao entrarem não conseguem mais mexerem-se, que é um dia-a-dia difícil nos transportes públicos.
Será que algum dos dirigentes, os “donos do poder” no país Brasil utilizam-se de transportes públicos? Será que durante a criação da “lei do vagão-rosa” foi discutido que uma das causas deste assédio era a superlotação dos trens? Pensemos…não, não. Praticamente, todas as respostas sobre representantes deste país utilizarem serviços prestados ao povo serão negativas. Os semideuses do Bras…não podem nem querem sentir ou mais sentir o que se passa com sua gente.
Os problemas e suas soluções que não procuram o cerne da problemática continuam. São problemas na saúde, nas rodovias, nos portos, problema com reforma política, com agronegócio, com reforma agrária e todos os demais que pararmos para pensar.
O mais importante objetivo deste texto é que percebamos o quanto nossas “autoridades” não possuem interesse em resolver realmente aquilo que é realmente necessário. Não obstante, precisamos entender, eles não vivem esses problemas, nunca saberão como é ser criado sem educação de qualidade, assistir às pessoas morrem nas portas dos hospitais, ser humilhado sendo pisoteado nas saídas dos trens, ter seus poucos bens tirados, quando não sua vida, por marginais que se tornam mais especializados a cada internação e tantas questões vividas e vivenciadas por integrantes da classe média até a base da pirâmide social. Este é o Brasil, o país dos paliativos!
No entanto, o ideal é construir uma educação básica de qualidade como fazem os países desenvolvidos ou verdadeiramente em desenvolvimento, não é mesmo? Assim, todos teriam condições de serem aprovados para o curso superior ou ingressariam diretamente de acordo com o currículo escolar. Todavia, isso não facilitaria a carreira acadêmica dos filhos e netos dos “donos do poder” neste tal país. Esses (os filhos e netos dos donos do poder) estudam nos colégios e escolas mais caros e melhores preparados para aprová-los no tão concorrido ENEM.
Eles não precisam de cotas, são representantes da educação de qualidade e com toda certeza terão condições de concluírem seus cursos, diferentemente dos cotistas que por bulling, baixo conhecimento intelectual, dificuldades financeiras, necessidade de trabalhar, dentre outras questões acabam por abandonarem seus cursos.
Neste determinado momento, existem menores cometendo crimes país afora, roubos de bicicletas, macha criminal sobrevoando a zona sul, ataques à faca e crianças, jovens e adultos usando “drogas pobres” nos principais pontos da cidade. Os agentes políticos que adoram adotar soluções paliativas para temas polêmicos como modo de manterem suas cadeiras ditam: reduza-se então a maioridade penal, reforce-se o policiamento por algum tempo, criminalize-se o uso de arma branca, põe-se à cavalaria nas ruas.
Está resolvido. Será? As causas, quem investiga, quem combate? Perguntamo-nos. As respostas vêm e começam a demonstração da paliatividade de tais medidas. Os presídios, casas de recuperação e casas de albergados, neste tal tão conhecido país não são reeducadores, muito menos ressocializadores, são verdadeiras escolas do crime. É possível julgar o grau de civilização de uma sociedade visitando suas prisões – Dostoiésvki – Crimes e Castigos. Novamente, o ideal é, como em países desenvolvidos…, tirar a população da marginalização através de abertura de postos de trabalhos, de formação profissional de qualidade, do incentivo ao consumo controlado.
Quanto às penitenciárias, fazer delas centros de recuperação através de atividades profissionais, sócias e culturais, além é evidente do término da superlotação. Não para por aí! O transporte público deste tal país “paliativista” também é decadente.
Meus Deus, Mulheres são assediadas nos trens abarrotados de passageiros! Grita o resolvedor palitivista que quer votos por uma lei que mascarará o verdadeiro problema. Fácil, de agora em diante haverá vagões exclusivamente para as mulheres nos horários- de-pico. Pronto. Mais fácil do que se imaginávamos, não? Não mesmo. O transporte público deste tal país, B, continua uma humilhação diária para mulheres e homens que além de tudo agora aglomeram-se juntos aos do mesmo sexo. Talvez logo tenhamos de por vagões exclusivos para os homossexuais e tenhamos de criar também cadeiras rosas para as mulheres, ou as elas não são assedias nos ônibus? Algumas das declarações mais constantes dos passageiros é que se sentem em uma lata de sardinha, que ao entrarem não conseguem mais mexerem-se, que é um dia-a-dia difícil nos transportes públicos.
Será que algum dos dirigentes, os “donos do poder” no país Brasil utilizam-se de transportes públicos? Será que durante a criação da “lei do vagão-rosa” foi discutido que uma das causas deste assédio era a superlotação dos trens? Pensemos…não, não. Praticamente, todas as respostas sobre representantes deste país utilizarem serviços prestados ao povo serão negativas. Os semideuses do Bras…não podem nem querem sentir ou mais sentir o que se passa com sua gente.

Os problemas e suas soluções que não procuram o cerne da problemática continuam. São problemas na saúde, nas rodovias, nos portos, problema com reforma política, com agronegócio, com reforma agrária e todos os demais que pararmos para pensar.
O mais importante objetivo deste texto é que percebamos o quanto nossas “autoridades” não possuem interesse em resolver realmente aquilo que é realmente necessário. Não obstante, precisamos entender, eles não vivem esses problemas, nunca saberão como é ser criado sem educação de qualidade, assistir às pessoas morrem nas portas dos hospitais, ser humilhado sendo pisoteado nas saídas dos trens, ter seus poucos bens tirados, quando não sua vida, por marginais que se tornam mais especializados a cada internação e tantas questões vividas e vivenciadas por integrantes da classe média até a base da pirâmide social. Este é o Brasil, o país dos paliativos!
A esquizofrenia de um partido
Camisetas anti-Levy, palmas para Vaccari e protestos de rua da direita são contradições registradas no encontro do PT
Pelos saguões do hotel da praia do Rio Vermelho, em Salvador, onde acontece o V Congresso Nacional do PT, legenda de Luiz Inácio Lula da Silva e da presidenta Dilma Rousseff, há militantes que passeiam com uma mensagem explícita na camiseta: "Fora o plano de Levy". O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é um liberal alheio ao partido, mas escolhido por Dilma, em janeiro, para conduzir o ajuste fiscal e a política econômica de corte de gastos que, na opinião dos dois, são necessários para que o país volte a crescer no próximo ano (no momento flerta com a recessão). As camisetas antiministro são um sintoma da peculiar esquizofrenia vivida pelo maior partido do Brasil, no poder há mais de 12 anos (oito com Lula e quatro com o primeiro mandato de Dilma).
Outro sintoma dessa contradição é a turbulenta redação do principal documento do congresso, a chamada Carta de Salvador, da qual foram retiradas, ao longo da semana, folha por folha, as críticas escritas em um primeiro momento contra a política econômica do Governo. A própria presidenta, há poucos dias, mandou um aviso de que não se pode criticar o ministro da Fazenda por tudo ("não se pode fazer isso, criar um Judas”) em um pronunciamento que, para especialistas, foi dirigido especialmente aos que estavam preparando o congresso.
O terceiro sinal de esquizofrenia de que padece o partido apareceu quando o presidente Rui Falcão aludiu ao tesoureiro João Vaccari, acusado de pertencer à trama corrupta da Petrobras e ter angariado dinheiro para o partido proveniente dos subornos das empresas que alardeavam contratos. Ao ouvir o nome de Vaccari, os participantes do Congresso aplaudiram. Entusiasticamente. Essa aclamação, que durou três minutos e serviu para redimir o tesoureiro, pelo menos aos olhos do partido, pode se compatibilizar mal com a promessa da presidenta Dilma Rousseff de perseguir a corrupção seja lá onde ela estiver.
Poderíamos falar de outra contradição: o PT, formação esquerdista de inspiração popular, perdeu o controle das ruas. As últimas manifestações de massa pertenceram aos adversários de Lula e Dilma Rousseff, que lotaram a Avenida Paulista. As centenas de militantes e os quadros dirigentes buscam nesse Congresso recuperar a pulsação vital das pessoas comuns. Mas isso às vezes é difícil quando se detém o poder por tanto tempo e a questão é discutida no salão de um hotel.
Antonio Jiménez Barca
Hora de se mexer

A modernização do país no campo político anda a passos de caranguejo: dois para frente, um para o lado, um para trás. Como mudar? Enfrentando o cerne do problema. A reforma fundamental, mãe de todas as reformas, deverá contemplar a base da sociedade, com o objetivo de colocar no mapa da cultura política as massas incultas e analfabetas. Trata-se, portanto, de reformar a educação básica. A escola pública está deteriorada. Milhões de brasileiros afastam-se do sistema educacional.
Medidas paliativas, como as de combate à fome e à miséria, dentro de uma visão assistencialista, têm méritos no curto prazo para minorar o desespero que se alastra em algumas regiões. Mas não quebrarão os elos que prendem o país ao passado e que escancaram traços de uma sociedade agrária. Essa é a questão de fundo. A esperança é a de que a sociedade organizada, por meio de suas centenas de entidades, empurre seus movimentos para as ruas, fazendo pressão sobre os poderes centrais. 2015 é um ano propício para avanços.
Gaudêncio Torquato, "As reformas? Ora, tropeçam"
O poder do povo
Quanto mais acompanho o cenário político atual, mais aumenta o meu ceticismo sobre a possibilidade de encontrar soluções para tantos problemas com as lideranças que conduzem os nossos destinos nos dias de hoje. O governo só tem olhos para o governo, assim como o Congresso e o Judiciário, e ninguém se preocupa com o Brasil. Se não, como explicar o ajuste fiscal – sem dúvida necessário para cobrir as “brincadeirinhas”, como diria o ministro Levy, do primeiro mandato da presidente Dilma –, que corta benefícios da sociedade, aumenta impostos e mantém o Estado do mesmo tamanho, com a mesma estrutura inchada e pesada? Em nenhum momento o governo fala em reduzir custos e tornar os serviços mais eficientes. E todos nós sabemos que uma coisa é cortar despesas e contingenciar recursos e outra, muito mais profunda e abrangente, é reduzir custos.
Na contramão do ajuste que penaliza a sociedade, o Judiciário quer aumentar sua fatia no bolo dos impostos e o Congresso, depois de mais benefícios pessoais e mais repasses aos partidos políticos, pretende, ainda, construir um novo anexo para, dizem, melhorar as condições de trabalho dos parlamentares. E no meio do caminho ainda há uma reforma política capenga e a Operação Lava Jato pairando ameaçadora sobre a cabeça de tantos políticos e autoridades.
Nem mesmo no governo federal e no PT há unanimidade em torno do ajuste fiscal e do corte de despesas. Talvez nem mesmo a presidente as defenda com a convicção necessária, ela que, na campanha eleitoral, tanto execrou as propostas neoliberais que agora pretende adotar. No Congresso, o quadro parece ainda pior. Está difícil até identificar quem é da situação ou da oposição. Uns aprovam agora o que desaprovavam ontem enquanto outros fazem exatamente o contrário, como no caso do fator previdenciário.
Ninguém pensa no Brasil. Ninguém apresenta propostas, não apenas para nos tirar do atoleiro atual, mas para restituir aos brasileiros a confiança no trabalho e na produção como meios de atingir a prosperidade e o bem-estar. Não podemos ficar indefinidamente à mercê dos humores de Brasília e das guerras travadas no Congresso nem sempre com propósitos claros.
O Brasil não precisa de muitas reformas. Aliás, precisa de uma só: de uma reforma que restabeleça os princípios de uma verdadeira república democrática antes que a democracia e a república percam sentido como forma de organização social e representação diante dos absurdos que se cometem em seus nomes.

Fundamentalmente, é preciso perguntar à sociedade qual o tamanho do Estado que ela está disposta a bancar com os seus impostos. E isso não me parece tarefa para políticos. Eles não vão cortar na própria carne. Meu sentimento é de que se a sociedade quiser mudanças efetivas terá que tomar o processo em suas mãos, se organizar para pressionar, se mobilizar colocando os interesses do país acima de interesses setoriais, fazer valer, de fato, o poder que sempre deve emanar do povo.
João Elísio Ferraz de Campos
Dilma ainda acha que a saúde vai mal
Acredito que precisamos de um esforço na gestão hospitalar. Nós temos uma gestão bastante frágil. Mas é preciso de mais dinheiro, precisa. Sem dinheiro, ninguém faz.
Dilma Rousseff no Programa do Jô
O Governo Federal deixou de investir este ano cerca de meio bilhão de reais na saúde. O ministério também perdeu cerca de 10 bilhões em 2015 com o ajuste fiscal.
Veja o vídeo
Petismo e antipetismo
Petismo e antipetismo alimentam a contraposição mais marcante na conjuntura atual, algo que vem maturando desde, pelo menos, a campanha para as eleições presidenciais de 2014. Ainda que seja uma contraposição facilmente observável, nem tudo o que impulsiona os movimentos da conjuntura política pode ser reduzido a ela e, obviamente, não é aceitável tomar como verdadeira nem a narrativa nela contida nem as implicações diretas que ela imagina promover. Como autodefesa, o petismo lança mão recorrentemente da sua vitimização e o antipetismo agride inflacionando seu discurso com um anticomunismo anacrônico, que destoa do seu alvo de combate: o PT nunca foi ou se propôs a implantar o comunismo e seus governos sempre mantiveram uma distância segura em relação a qualquer orientação que possa seriamente ser qualificada como comunista.
Por antipetismo não se entende aqui a existência legítima de ação política de oposição aos governos do PT e menos ainda uma ação concertada da grande mídia em relação ao partido de Lula, argumentos da narrativa petista. O antipetismo emergiu na sociedade civil, em grupos e movimentos não conectados entre si, que se adensaram nas redes sociais para depois ganharem as ruas na campanha eleitoral, bem como nas manifestações de protesto e nos panelaços, logo depois da posse do segundo governo de Dilma Rousseff. O antipetismo é um sentimento de rechaço integral ao PT a partir de um conjunto difuso de interpretações e representações que tais movimentos lhe atribuem.
O antipetismo conseguiu ser a linha de frente do movimento pelo impeachment da presidente da República. Aventurou-se nessa estratégia e conseguiu a façanha de carrear para suas ações personalidades e grupos políticos com maior presença e experiência na cena política brasileira. Foi brevemente hegemônico, poderíamos dizer. Conseguiu quebrar o monopólio que o PT detinha sobre as ruas, como também o monopólio da qualificação do mundo político, especialmente dos seus adversários. Acertou e errou, fez o bem e o mal. Hoje não consegue reorientar sua estratégia de ação e começa a ver erodir na opinião pública o relativo prestígio que havia alcançado, ainda que, enquanto sentimento, dá sinais claros de que permanece latente e pronto para ser novamente ativado.
Formado a partir da ideia do “rechaço a tudo que está aí”, o PT não apenas se especializou em desqualificar, como sempre precisou criar ou ressignificar um ator político para se afirmar em oposição a ele. Na conjuntura atual, em razão dos inúmeros problemas que enfrenta, o petismo encontra-se na defensiva, mas continua a reiterar e a radicalizar seu método de construção identitária, brandindo sempre que necessário o “nós x eles”. Numa situação como essa, acuado, o PT manifesta sintomas mórbidos quando, em sua autodefesa, tenta mobilizar anacronicamente a noção de fascismo diante das investidas do antipetismo ou, pateticamente, busca apresentar-se como legítimo defensor da “democracia” fundada na Carta de 1988, que publicamente se recusou a votar por sua aprovação.
A cultura política do petismo é ainda uma incógnita. E permanecerá assim se o foco de atenção para compreendê-la continuar voltado para o embate entre suas correntes internas e para as vicissitudes da política e da economia, stricto sensu, vivenciadas pelos governos do PT. Não há certamente uma muralha chinesa entre essas dimensões e o petismo, mas não há obrigatoriamente relação de causa e efeito entre elas. O PT nasce da modernização conservadora empreendida pela ditadura, que, na clássica leitura de Luiz Werneck Vianna, resultou na “liberação dos instintos egoísticos” da sociedade civil. Na luta contra a ditadura novos seres sociais transplantaram para a política, via sindicalismo de resultados, o mundo dos interesses dos “de baixo”, recolhendo elementos como “eu quero o meu” ou “12% ou a morte”, uma consigna da primeira grande greve do final dos anos 1970. O amálgama desses anseios com ideias difusas de rebeldia, de esquerda e de um anticapitalismo romântico resultará no petismo. O PT não nasceu do embate ideológico e se julgava uma novidade que desconhecia qualquer predeterminação. Essa postura o levou inexoravelmente a uma política de polo, anticoncertacionista, que acabou por fraturar a frente oposicionista contra a ditadura. Ao rechaço à ditadura e depois aos governos de transição se somaria uma lógica de custo/benefício que instaurou definitivamente o “cálculo econômico” como critério de pragmática do PT, cimentando suas “escolhas racionais” como expressão legítima dos interesses que dizia representar. Daí aos governos petistas não há mudança significativa. O petismo estabeleceu assim um modus operandi que passou a funcionar no automático.
O PT recusou-se assim a construir a hegemonia. Desprezou possíveis aliados do difuso progressismo democrático e reformista, preferindo instaurar seu predomínio. Hoje, ao fracassar o seu “distributivismo sem reformas”, como bem apontou Cesar Benjamin, o PT dá as condições, a partir das alianças que consumou pragmaticamente, para o conservadorismo retomar seu fôlego no momento do seu ocaso.
Petismo e antipetismo são dois constructos ideológicos opostos que se estruturam em torno de discursos de padrão agonístico cujo principal objetivo é a construção intencional do adversário político. O primeiro é um mosaico disforme, que só conhece a razão dos seus interesses, um ator mais afinado com a perspectiva de “projeto de poder” do que com a noção de hegemonia de matriz gramsciana; enquanto o segundo é pura reação, errática na maior parte das vezes, sem liderança legitimada, que flutua por diversos canais e dificilmente encontrará seu Leitmotiv para estruturar sua unidade e lhe garantir alguma estratégia para o futuro.
O antipetismo conseguiu ser a linha de frente do movimento pelo impeachment da presidente da República. Aventurou-se nessa estratégia e conseguiu a façanha de carrear para suas ações personalidades e grupos políticos com maior presença e experiência na cena política brasileira. Foi brevemente hegemônico, poderíamos dizer. Conseguiu quebrar o monopólio que o PT detinha sobre as ruas, como também o monopólio da qualificação do mundo político, especialmente dos seus adversários. Acertou e errou, fez o bem e o mal. Hoje não consegue reorientar sua estratégia de ação e começa a ver erodir na opinião pública o relativo prestígio que havia alcançado, ainda que, enquanto sentimento, dá sinais claros de que permanece latente e pronto para ser novamente ativado.

A cultura política do petismo é ainda uma incógnita. E permanecerá assim se o foco de atenção para compreendê-la continuar voltado para o embate entre suas correntes internas e para as vicissitudes da política e da economia, stricto sensu, vivenciadas pelos governos do PT. Não há certamente uma muralha chinesa entre essas dimensões e o petismo, mas não há obrigatoriamente relação de causa e efeito entre elas. O PT nasce da modernização conservadora empreendida pela ditadura, que, na clássica leitura de Luiz Werneck Vianna, resultou na “liberação dos instintos egoísticos” da sociedade civil. Na luta contra a ditadura novos seres sociais transplantaram para a política, via sindicalismo de resultados, o mundo dos interesses dos “de baixo”, recolhendo elementos como “eu quero o meu” ou “12% ou a morte”, uma consigna da primeira grande greve do final dos anos 1970. O amálgama desses anseios com ideias difusas de rebeldia, de esquerda e de um anticapitalismo romântico resultará no petismo. O PT não nasceu do embate ideológico e se julgava uma novidade que desconhecia qualquer predeterminação. Essa postura o levou inexoravelmente a uma política de polo, anticoncertacionista, que acabou por fraturar a frente oposicionista contra a ditadura. Ao rechaço à ditadura e depois aos governos de transição se somaria uma lógica de custo/benefício que instaurou definitivamente o “cálculo econômico” como critério de pragmática do PT, cimentando suas “escolhas racionais” como expressão legítima dos interesses que dizia representar. Daí aos governos petistas não há mudança significativa. O petismo estabeleceu assim um modus operandi que passou a funcionar no automático.
O PT recusou-se assim a construir a hegemonia. Desprezou possíveis aliados do difuso progressismo democrático e reformista, preferindo instaurar seu predomínio. Hoje, ao fracassar o seu “distributivismo sem reformas”, como bem apontou Cesar Benjamin, o PT dá as condições, a partir das alianças que consumou pragmaticamente, para o conservadorismo retomar seu fôlego no momento do seu ocaso.
Petismo e antipetismo são dois constructos ideológicos opostos que se estruturam em torno de discursos de padrão agonístico cujo principal objetivo é a construção intencional do adversário político. O primeiro é um mosaico disforme, que só conhece a razão dos seus interesses, um ator mais afinado com a perspectiva de “projeto de poder” do que com a noção de hegemonia de matriz gramsciana; enquanto o segundo é pura reação, errática na maior parte das vezes, sem liderança legitimada, que flutua por diversos canais e dificilmente encontrará seu Leitmotiv para estruturar sua unidade e lhe garantir alguma estratégia para o futuro.
Estado de choque

A polícia agiu rapidamente nos dois casos, embora no episódio da Lagoa a coisa tenha degringolado também rapidamente. Menos de 48 horas depois do assassinato, a Divisão de Homicídios apreendeu na Favela de Manguinhos, distante cerca de 16 quilômetros da cena da violência, um menor negro, de 16 anos, que negou o crime. Nem vem ao caso discutir aqui a ação da polícia, obrigada a reabrir o caso quando um terceiro adolescente inocentou o primeiro menor.
Mas é curioso examinar as fichas corridas do menino inicialmente apontado como assassino do médico na Lagoa e a do jovem protagonista da cena de selvageria na Gávea. Veja só. O menor, criado pela mãe, catadora de papel, parou de estudar aos 14 anos, quando ainda cursava o sexto ano do ensino fundamental. Colecionou, desde os 12 anos, 15 anotações criminais: oito por roubo, três por furto, uma por desacato, uma por posse de drogas, uma por tráfico e a última por tentar esconder uma faca nas areias de Copacabana ao ser perseguido por PMs. O menino, cuja primeira apreensão ocorreu quando perambulava pelas ruas de Copacabana, esteve nove vezes aos cuidados do Degase, o Departamento de Ações Socioeducativas. Duas vezes, aos 11 anos, foi pego no Leblon passando fome, sem dinheiro para voltar para casa. Foram perdidas, portanto, pelo menos nove chances de tentar ajudá-lo a deixar o mundo de violência que, aparentemente, foi o único que ele conheceu.
A ficha corrida do jovem da Gávea também é extensa. Foram sete passagens pela polícia, antes do ataque de fúria de sábado passado. A primeira, com 16 anos, por agredir uma colega de escola. Além de outras agressões, foi condenado pela Lei Maria da Penha, mas a pena acabou sendo suspensa em troca de seu comparecimento ao Fórum a cada dois meses. Ele não cumpriu a medida, jamais compareceu ao Fórum, mas ficou tudo por isso mesmo. No seu currículo ainda consta o atropelamento de um homem na Praia do Leblon. A bordo do seu Nissan, José Phillippe tentou fugir sem prestar socorro. Com tantas anotações judiciais, ele não tinha passado um único dia preso. Até agora. “Ele não tem condições de conviver em sociedade”, justificou a delegada Monique Vidal ao pedir a prisão preventiva de Phillippe.
A violência, a maldade pela maldade, choca. Difícil aceitar que um ser humano possa ser mau a ponto de matar para roubar uma bicicleta ou partir para cima de três pessoas, entre elas uma mulher de 1,47m, irritado porque um convidado fez xixi no jardim de sua casa. Mas o que deixa a sociedade desnorteada é perceber que as instituições responsáveis por coibir a violência, punir os infratores e recuperar jovens estão fazendo tão mal o seu papel.
Mesmo em uma análise superficial, fica claro nos dois episódios a quantidade de falhas. No caso da Lagoa, a escola pública não foi capaz de ensinar o menino de Manguinhos. O serviço de assistência social não conseguiu assisti-lo. O poder público falhou de novo nas nove oportunidades de ajudá-lo com ações socioeducativas quando o levou para o Degase. E a ação policial — pelo menos a última delas — foi, no mínimo, precipitada. No caso do jovem da Gávea, sequer a punição de comparecimento ao Fórum foi cumprida. Não se trata aqui de julgar e condenar ninguém apressadamente. Pelo contrário. Os ritos da Justiça têm que ser cumpridos em todos os casos. A questão é a falta de eficiência das instituições. E é nelas que repousa boa parte das esperanças de uma sociedade civilizada.
Márcia Vieira
Dilma Rousseff e os intelectuais de segunda mão
Como dizia Nelson Rodrigues, recentemente citado pela presidente Dilma Rousseff, na sua busca insaciável de citar o que não lê, vivemos tempo de um “divertido horror”. Foi no México, ao fazer uma salada com as cores das bandeiras e das respectivas seleções de brasileiros e mexicanos. Celso Arnaldo não perdeu a chance da reflexão indispensável e brindou-nos com mais um de seus artigos antológicos.Não foi a primeira vez que a presidente invocou um autor que não lê. Tenho para mim que se trata de estratégia equivocada de seus assessores. Por ter sucedido a um homem de extraordinário poder de comunicação, que não lia nada, eles acharam de bom tom polir um pouco a sucessora com sugestões de livros lidos. Mas, ó dor, deveriam ter começado por algum autor ou livro que ao menos um deles tivesse lido. Todavia encontrar um leitor no meio de hordas ágrafas é muito difícil.
Entre jornalistas, também. É preciso pedir licença à gente da mídia para um diálogo semelhante àquele relatado pelo escritor espanhol Jorge Semprún, roteirista de filmes referenciais, como A Confissão, do cineasta grego Konstantinos Gavras, mais conhecido por Costa-Gavras. Ele diz que numa reunião do Partido, um membro dirigiu-se assim a um de seus arrogantes camaradas: “Companheiro, permita-me fazer sua autocrítica, uma vez que você não a faz?”.
A salada oferecida no México, de improviso, não superou momentos menos hilários, entretanto igualmente graves, pois se trata da presidente da República, a quem os assessores mandam que repita bobagens inventadas por eles ou captadas de ouvido de outrem. Eis esta amostra: a presidente declarou no programa de Ana Maria Braga ser leitora de Fiódor Dostoievski. Tempos depois, um dos áulicos passou a um jornalista amigo a informação de que à ateia ou religiosa comove muito um dito de Dostoiévski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
Ateia? Na verdade, depende do momento histórico de sua existência: se em campanha de apoio junto às bancadas de igrejas confessionais, é ex; se em encontros com colegas ateus, daí a conversa é outra. Mas o que nos interessa é que o romancista russo jamais disse ou escreveu estas frases. Outros disseram que ele as disse ou as escreveu, como o fez Jean-Paul Sartre. E os que passaram a repeti-las não conferiram se disse ou não disse, se escreveu ou não escreveu as tais frases.

Não se pode ler tudo, mas temos no Brasil intelectuais que leem! Sei que a espécie é rara, mas temos! Estão em extinção? Parece que sim. Ou aparecem pouco. O certo é que seria fácil conferir o dito antes de mandar a presidente proferi-lo.
Frases famosas que estão na boca e nos escritos de muita gente boa jamais foram pronunciadas. Sherlock Holmes nunca disse “elementar, meu caro Watson” nos livros do autor que criou o personagem. Isto foi acrescentado pelos roteiristas dos programas de rádio de grande sucesso nos EUA, depois divulgados pelo mundo inteiro. Mas não é uma frase de Sir Arthur Ignatius Conan Doyle!
Ainda que mal pergunte, por que levar a presidente a citar o que não lê? Porque eles também não leem!
Deonísio Silva
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