sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O papel do Estado


 O Governo Federal tem uma notícia boa e uma ruim.

A boa: não haverá nenhum tipo de racionamento de energia elétrica nesta Administração.

A ruim: a população precisa economizar papel higiênico.

Com o lobby ecológico, não se pode mais sair desmatando por aí como antigamente, usando motosserras em qualquer jacarandá. Um número enorme de entidades internacionais vêm nos boicotando. E nossa dependência a elas é considerável.

Como papel é feito de celulose e celulose vem de árvores, não temos mais condição de esbanjar folhas de nenhuma espécie. Pedimos assim a todos os brasileiros: diminuam em 50% a utilização de papel higiênico.
Temos consciência da enorme importância da assepsia nas áreas íntimas corpóreas. Uma nação nunca será altiva em meio ao caos e à catinga. Mas existem formas criativas de se manter asseado, sem consumir meio rolo a cada ida ao toalete.

Nunca dobre muitas vezes o papel antes de efetivar a operação em si. Dobrando-o apenas uma vez, já é possível evitar que ele se fragmente, causando danos a você e ao meio-ambiente.

Enrolar um pedaço pequeno de papel no dedo indicador e fazer todo o procedimento apenas, e tão-somente, com essa pequena faixa é a recomendação mais sensata, segundo respeitados institutos de pesquisas tecnológicas. Corre-se o risco de algum acidente, mas nada que uma ducha rápida (lembre-se de que a água continua sendo racionada) não resolva.

O uso de algodão pode ser uma alternativa à necessidade premente de não gastar papel. Desde que não se use álcool ou benzina no momento da limpeza.
Cortar os pedacinhos em cima do picote é igualmente recomendável, posto que um milímetro economizado multiplicado por milhões de habitantes evitaria o Privadão – retirada de todo papel higiênico do mercado pelo Governo Federal por tempo indeterminado.

O consumidor de mais de um rolo semanal receberá uma notificação informando-o de quanto será sua economia-mês. Quem consumir mais de três rolos semanais será inicialmente notificado e, repetindo a infração, pesadamente multado (valores e cálculos no sítio do Ministério da Fazenda). Se continuar infringindo, o banheiro da casa será lacrado pelo Ministério da Saúde.
Usuários de fraldas e consumidores de menos de um rolo semestral estão fora do novo racionamento.

Os pedidos de revisão de meta devem ser enviados por e-mail para o Ministério da Justiça acompanhados de provas materiais da necessidade de mais rolos (relatos juramentados de situações constrangedoras em público, perda de emprego, estados diarréicos crônicos).

São medidas duras e que não vão cheirar nada bem na Comunidade Internacional.

Mas sem elas, o país vai descarga abaixo.

Belo Monte: anatomia de um etnocídio


A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas
Quando alguém passa num concurso do Ministério Público Federal, costuma estrear no que se considera os piores postos, aqueles para onde os procuradores em geral não levam a família e saem na primeira oportunidade. Um destes que são descritos como um “inferno na Terra” nos corredores da instituição é Altamira, no Pará, uma coleção de conflitos amazônicos à beira do monumental rio Xingu. Em 2012, Thais Santi – nascida em São Bernardo do Campo e criada em Curitiba, com breve passagem por Brasília nos primeiros anos de vida – foi despachada para Altamira. Ao ver o nome da cidade, ela sorriu. Estava tão encantada com a possibilidade de atuar na região que, no meio do curso de formação, pegou um avião e foi garantir apartamento, já que as obras da hidrelétrica de Belo Monte tinham inflacionado o mercado e sumido com as poucas opções existentes. Thais iniciava ali a sua inscrição na tradição dos grandes procuradores da República que atuaram na Amazônia e fizeram História.

Ela (Hannah Arendt) lia o mundo do genocídio judeu. E eu acho que é possível ler Belo Monte da mesma maneira

Ela já teve a oportunidade de deixar Altamira três vezes, a primeira antes mesmo de chegar lá. Recusou todas. Junto com outros procuradores do MPF, Thais Santi está escrevendo a narrativa de Belo Monte. Ou melhor: a narrativa de como a mais controversa obra do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento dos governos Lula-Dilma, um empreendimento com custo em torno de R$ 30 bilhões, poderá ser julgada pela História como uma operação em que a Lei foi suspensa. E também como o símbolo da mistura explosiva entre o público e o privado, dada pela confusão sobre o que é o Estado e o que é a Norte Energia S.A., a empresa que ganhou o polêmico leilão da hidrelétrica. Fascinante do ponto de vista teórico, uma catástrofe na concretude da vida humana e de um dos patrimônios estratégicos para o futuro do planeta, a floresta amazônica.
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A jovem procuradora, hoje com 36 anos, conta que levou quase um ano para ver e compreender o que viu – e outro ano para saber o que fazer diante da enormidade do que viu e compreendeu. Ela se prepara agora para entrar com uma ação denunciando que Belo Monte, antes mesmo de sua conclusão, já causou o pior: um etnocídio indígena.
Leia a entrevista
O mundo do tudo é possível é um mundo aterrorizante, em que o Direito não põe limite. O mundo do tudo possível é Belo Monte.

Medida de Mujica

Não estamos aqui pelo dinheiro e temos que botar para correr da política a todos aqueles que gostam muito de dinheiro. Essa é a primeira medida
José Mujica

O presidente do 'Clube'


O empresário Ricardo Pessoa, presidente da empreiteira UPC e do “Clube” do cartel das 13 empresas, que o professor Helio Duque chama de “Clube da Roubança”, ainda hoje preso na Policia Federal, confessou :

– “Só tenho um amigo no governo, o Lula”

É por isso que de repente Lula sumiu. Ele está sentindo a batata assando perto dele. As “delações premiadas” continuam, cada dia mais numerosas e mais reveladoras. O Ministério Publico já começou a encaminhar ao Supremo Tribunal Federal, que é o relator da ação, as confissões, denúncias e provas de crimes  de políticos ou onde os políticos são citadas ou denunciados. Um paiol de escândalos. Lula e Dilma já ardem.

O doleiro confessou que Lula e Dilma sabiam de tudo. E é evidente que sabiam. Com tantos milhões de dólares escorrendo por cima e por baixo das mesas e gavetas deles, seria impensável não saberem de nada.

Quando deixou o Governo, Lula saiu pelo mundo, em jatinhos dos empreiteiros, financiado pelos empreiteiros, fingindo que estava fazendo “conferências lá fora” (logo ele que mal e tropegamente fala o  português), mas na verdade fazendo lobby para os empreiteiros, patrões do “Clube”.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Jeitinho brasileiro de governar


Superávit inconstitucional, ilegítimo e imoral


Como se comportarão as ruas diante deste anunciado corte distributivista e do momento eleitoral que os municípios viverão em dois anos?

Qualquer que seja o tamanho do pedágio que Dilma e o governo do PMDB (com o PT o secundando) paguem aos rentistas para governar, urge lembrar o óbvio. Em um Brasil cheio de dívidas sociais históricas, é ilegítimo e imoral tirar dinheiro da saúde, educação, saneamento e outras áreas prioritárias para pagar uma dívida pública que não se sabe até onde atende mínimos preceitos republicanos – como preconiza o instrumento do superávit primário, vaca sagrada do credo neoliberal.

É, também, inconstitucional poupar naquilo que de redistributivo tem o Estado para atender à banca e seus associados no Congresso e nos conglomerados da comunicação, que sempre viveram de drenar volumes massivos e crescentes de recursos públicos.

Pra frente, Brasil!

 
Foto: José Castello
Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, Essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude. E vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os crimes que germinavam desde o berço, em suas almas. E, no entanto, que é que fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los
Thomas Morus 

Melhorar nem daqui a um ano



O tamanho do ajuste fiscal requerido para pôr a casa em ordem é sem precedentes. É inviável atingir tal melhora em apenas um ano. Trata-se de um programa de ajuste para ser realizado em três anos, contra o pano de fundo de uma administração que não só se mostrou incapaz de atingir suas metas mas também deliberadamente produziu a maior deterioração fiscal de que se tem notícia no país nos últimos 20 anos
Alexandre Schwartsman, Ex-diretor do Banco Central no governo Lula

Lula tenta esconder cartão corporativo de Rose


Em plena efervescência da nomeação do novo ministério, o ex-presidente Lula anda muito sumido e a gente fica até pensando se desta vez ele vai mesmo permitir que, pelo menos, a presidente Dilma faça a escolha dos seis ministros da chamada “cota” dela.

Lula submergiu, mas sabe-se que ele não abriu mão de nomear os ministros da Fazenda, da Educação e das Cidades. Quer dizer, Joaquim Levy é indicação dele. Falta preencher as outras duas pastas, e todos sabem que Dilma Rousseff não ousa contraditar seu antecessor, criador e preceptor.

Nos bastidores, no momento Lula tenta cuidar de um problema muito mais grave do que nomear ministros. Trata-se de evitar mais desgaste em sua imagem de homem público, que desde o episódio do mensalão vem sendo deteriorada progressivamente, e agora a situação se complicou muito com a corrupção na Petrobras e o desenrolar do caso Rosemary Noronha.

No momento, a preocupação maior de Lula e evitar a divulgação dos abusivos gastos feitos no cartão corporativo da Presidência por sua companheira de viagens internacionais, digamos assim. Como se sabe, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) já determinou que o Planalto divulgue ao jornal O Globo os gastos de Rosemary no cartão.

Com a morte de Marcio Thomaz Bastos, Lula ficou desprotegido em matéria de assessoria jurídica. Não há maiores informações, mas tudo indica que, no desespero, o governo impetrou um recurso extraordinário ao Supremo. Acontece, porém, que o próprio STJ pode indeferir a manobra protelatória, por não se tratar de questão constitucional, e dar a questão por encerrada. Portanto, em breve saberemos se houve recurso e se subiu ou não.

O que se sabe é o seguinte: se forem divulgados os gastos de Rosemary com o cartão corporativo da Presidência da República, a imagem de Lula estará seriamente comprometida junto à opinião pública, porque ele será ridicularizado no Brasil e no exterior.

E o mais interessante é que a presidente Dilma Rousseff está doida para liberar logo essas informações. Se depender do apoio dela, Lula estará liquidado. A verdade é que Dilma não quer mais aceitar as ordens do ex-presidente, mas ainda não tem como se livrar dele. Por isso, vai quebrar o sigilo do cartão corporativo de Rose com um sorriso enviesado nos lábios.

Há alguns meses, quando o movimento “Volta, Lula” estava ganhando força no PT, foi Dilma quem mandou “vazar” uma série de informações sobre Rosemary ao repórter Vinicius Sassine, de O Globo. Dilma e Lula se odeiam e fingem que se amam. Mas em sociedade tudo se sabe, como dizia Ibrahim Sued. 

O dragão da roubalheira

Hospital em Maricá vai reproduzir na
fachada silhueta de Che em ministério cubano
Os escândalos não bastam ao PT. Agora já antecipam os próximos crimes com naturalidade. Fazem do novo lance de criminalidade explícita um evento maravilhoso. 

No feudo petista de Maricá, o prefeitinho continua a copiar modelos federais para instituir a cidade modelo da estrela vermelha, mas que não passa de uma vilazinha recheada do neo-coronelismo.

Com a infestação do comissariado, como guarda-costas, e sem novidades para anunciar em sua agenda positiva, aposta num crime amnunciado. Antecipa a corrupção e o superfaturamento num só pacote. Estrondosa salva de patas.

Tudo bem embrulhado sob o nome e a imagem de Che Guevara, ícone de camiseta para muitos dos que se arvoram revolucionários no município. Sabem do médico argentino de ouvir falar, ainda mais que na maioria são analfabetos funcionais. O resto da muletada, nem isso.

É que prometido desde a campanha da reeleição, há dois anos, o novo hospital, apelidado de Che Guevara, que nem saiu do papel e só teve o terreno limpo do matagal, vai ter novo orçamento. Devido aos ajustes no projeto – sem falar nos aditivos que inevitavelmente virão como já são de praxe no petismo - o valor de construção, segundo o governo, pulou de R$ 16 milhões para R$ 60 milhões, um aumento de 275%.

O alto preço, segundo justificava municipal, se deve à necessidade de “se antecipar às recomendações que seriam encaminhadas pela Vigilância Sanitária estadual”. Leia-se assim que o projeto inicial foi propositadamente incompleto para justificar não só uma “reformulação”, mas um aumento exagerado a fim de atender ao superfaturamento de obras como já se tornou comum nos inúmeros roubos protagonizados por esse governo municipal.   

Essa não será a primeira roubalheira orquestrada pela quadrilha petista no município. Da mesma forma, inauguraram simbolicamente um centro cultural que deveria ser entregue em setembro de 2012 dentro da campanha de reeleição. Este ano, depois de mais um ano de paralisação, as obras recomeçaram ao custo de quase R$ 900 mil como complementação, quando o custo do centro era de R$ 1 milhão.

A obra do hospital será mais uma falcatrua governamental no rosário de apropriação indébita dos cofres públicos não só como roubo pra valer, mas como ajuda de custo às candidaturas da mulher do prefeito e de seu líder de governo respectivamente à Alerj e à Câmara federal. Serão dois postes para gerar as famigeradas verbas parlamentares que nunca chegam para a melhoria de vida do município, porque escoam pelo caminho. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Matar é limpo


Chantagem explícita


 Al Capone vendia proteção aos comerciantes de Chicago. Se não pagassem, mandava seus capangas incendiar e até jogar bombas nos estabelecimentos.

Exceção das explosões, qual a diferença entre a ação do rei dos bandidos americanos e a ameaça feita pela presidente Dilma aos líderes dos partidos da base oficial, na noite de segunda-feira? Ela comunicou que só liberaria 444,7 milhões para as emendas individuais ao orçamento, de deputados e senadores, caso eles aprovassem o projeto alterando as metas fiscais para o ano em curso. Condicionou a entrega de recursos para obras nos municípios à votação do projeto alterando a Lei de Diretrizes Orçamentárias, permitindo ao governo descumprir a meta fiscal deste ano e transformar deficit em superavit.

O nome dessa operação é chantagem. Importa menos se parte das emendas individuais cheira mal, tendo em vista ligações espúrias entre seus autores e empreiteiros de obras superfaturadas. De qualquer forma, serão escolas, postos de saúde, pontes, estradas vicinais e uma infinidade de outras iniciativas destinadas a beneficiar municípios e regiões do interior.

A gente pergunta como tamanha barganha pode acontecer senão à luz do dia, pelo menos já de noite, sob os holofotes da sala de reuniões da presidente Dilma com seus líderes. Pior é que os fotógrafos registraram todo mundo rindo, como numa festa de Natal antecipada. Houve um adendo, quando a anfitriã acrescentou que seria aprovar o projeto de mudança na LDO ou o governo cortar verbas para obras em estados e municípios.

Como tamanha indecência pode acontecer? Primeiro por não ser novidade, muito menos prerrogativa da administração do PT. Ainda que sem a desfaçatez de um ato público, faz tempo que essas coisas se repetem, calcadas na Oração de São Francisco: é dando que se recebe. Do Brasil Colônia à Monarquia e à República, das ditaduras à democracia, a regra tem sido a mesma.

DE HERODES AOS TEMPOS ATUAIS
Herodes cuidou das criancinhas, chacinando milhares. Agora chegou a vez dos velhinhos. O governo anuncia que por conta do aumento da idade média dos brasileiros, será reduzido em 0.65% o cálculo das aposentadorias. Quer dizer, os velhinhos receberão menos porque viverão mais.
Artigo de Carlos Chagas transcrito de Tribuna da Internet

Confirmado o que se desconfiava


Passei seis meses na carceragem de Curitiba, até que, por ter uma alma mais pura, resolvi fazer a delação de tudo o que acontecia na Petrobras. E não só lá: isso acontece no Brasil inteiro, nas rodovias, nas ferrovias, nos portos, nos aeroportos e nas hidrelétricas.
Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras 

Dilma manda às favas todos os escrúpulos




Quer saber o que é diálogo no entendimento da presidente Dilma Rousseff?

Em resumo, é o seguinte: eu mando e você obedece. Se obedecer será gratificado. Do contrário, prepare-se para sofrer represália.

Fui claro?

Ninguém foi mais claro do que a própria Dilma.

Na semana passada, os partidos aliados do governo fizeram corpo mole e faltou quórum para que o Congresso votasse o decreto assinado por Dilma que muda a meta fiscal de 2014.

Com esse objetivo, está marcada para esta noite uma nova sessão do Congresso.

O que fez Dilma para “convencer” senadores e deputados a aprovarem o decreto?

Editou outro decreto que condiciona uma nova liberação de R$ 444,7 milhões para pagamento das emendas individuas dos parlamentares ao Orçamento da União à aprovação do decreto que muda a meta fiscal deste ano.

É dando que se recebe, segundo São Francisco de Assis.

Os R$ 444,7 milhões garantem uma fatia de R$ 748 mil para cada um dos 513 deputados e 81 senadores – dinheiro a ser empregado em obras nos redutos eleitorais deles.

Se a meta fiscal não for mudada, adeus o dinheiro das emendas. É o que está dito no novo decreto assinado por Dilma.

Para que os parlamentares não sejam amanhã acusados de trocar o voto por dinheiro, Dilma se reuniu ontem à noite com 23 líderes de partidos (isso mesmo, 23 líderes de partidos) e pediu o empenho deles pela aprovação da nova meta fiscal.

Era a desculpa que queriam os líderes para justificar o voto dos seus liderados. Como recusar um pedido da presidente? E logo agora quando a caneta dela está cheia de tinta para assinar promoções e distribuir cargos?

Verdadeiramente espantosa a sem cerimônia com que Dilma 2, a pragmática, está se impondo à Dilma 1 - a ex-faxineira ética.

Sem cerimônia e sem vergonha.

Entre vaias e segredos


Metade da diretoria da Petrobras sob comando de José Gabrielli é alvo de investigações por corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil, nos EUA, na Holanda e na Suíça

Ele se surpreendeu ao voltar de uma viagem a Portugal, dias atrás. Primeiro, com ocasionais zombarias dentro do avião, audíveis o suficiente para incomodá-lo durante toda a travessia do Atlântico. Na chegada, sob um coro de vaias a bordo, o baiano José Sérgio Gabrielli de Azevedo, 65 anos, achou melhor desembarcar e procurar outro voo rumo a Salvador.

Um dos personagens mais influentes da era Lula, Gabrielli trocou o circuito acadêmico dos economistas em 2003 pela cadeira de diretor financeiro da Petrobras. Embarcado na presidência em 2005, ali ficou por sete anos. Tornou-se o mais longevo entre os 34 que comandaram a estatal nas últimas seis décadas.

Saiu há dois anos e nove meses, com a fantasia da candidatura ao governo da Bahia pelo PT. O sonho se perdeu na poeira da confusão crescente nas últimas 132 semanas sobre a sua gestão na Petrobras: num breve passeio pela sede da empresa, na Avenida Chile, no Centro do Rio, percebe-se como a maior estatal brasileira virou um conglomerado de advocacia e contabilidade, que também produz petróleo e derivados.

Metade da diretoria comandada por Gabrielli, até fevereiro de 2012, é alvo de investigações por corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil, nos EUA, na Holanda e na Suíça. Dos seis ex-diretores, dois estão presos. Balanços estão em revisão, e auditores ainda relutam em subscrever a contabilidade de novos ativos, entre eles os da refinaria Abreu e Lima (US$ 20 bilhões), do Comperj (US$ 15 bilhões), de plataformas e sondas (US$ 17 bilhões). Os gastos nessas três áreas equivalem à soma do Produto Interno Bruto do Uruguai, do Paraguai e da Bolívia.
Leia mais o artigo de José Casado 

Agora é lei


A falta de escrúpulos do governo Dilma protagonizou esta semana um ato comparável ao fechamento do Congresso pelos militares. Se um utilizou um ato de força, os petistas apelaram para a "lei" e oficializaram a compra dos parlamentares através das verbas partidárias, concretizando em lei a prática condenada do mensalão. Todo o Congresso assim se torna um Poder títere, movimentado a dinheiro das emendas parlamentares e não mais ao respeito ao voto do eleitor.

Para o governo, a compra vai sair mais barata e muito mais segura do que a artimanha dos mensaleiros de Lula. Cada político, em Brasília, vai sair pela bagatela de R$ 748mil.

Vote comigo ou não terá dinheiro, chantageia a presidente em decreto, com a supremacia dos ditadores. O gesto é um ato arbitrário que condiciona os políticos eleitos aos desmandos governamentais em troca de dinheiro.
Fica claro o aparelhamento descarado e hipócrita do Legislativo, que poderá ter reflexos ainda maiores quando esse poderio da caneta e do dinheiro condicionar as Câmaras estaduais e municipais.

Pode haver quem veja algo comum, mas é incomum um Poder ser comprado pelo outro em uma democracia. A compra e venda só determina que a democracia propalada pelo PT não é nada mais do que uma ditadura partidária com sérios e perigosos efeitos para o país, sua governabilidade e seu desenvolvimento, ainda mais quando desce ladeira abaixo nas contas.

Se oficializa e se estabelece o preço de um deputado ou de um senador, para legalizar um crime administrativo, Dilma esclarece com o decreto que a eleição no Brasil é apenas uma questão de dinheiro e poder. O voto, que se dane, tanto do eleitor quanto do político foi jogado na lata do lixo. É mera formalidade na democracia do PT.

O fim num imenso bocejo


Arrisca-se a morrer de um ataque de bocejos quem permanecer, no PT, confiando nas promessas da presidente Dilma. Como aconteceu na reunião do Diretório Nacional do partido, em Fortaleza, no final da semana que passou, a primeira-companheira inundou a plateia com chavões de mudanças sociais cada vez mais ousadas. Parecia sobrinha do Lenin, tanto ao referir-se aos últimos quatro anos quanto aos próximos. Em vez de arrancar aplausos generalizados, porém, inaugurou um festival de imensos bocejos.

Porque os petistas conformaram-se com as notícias de que Joaquim Levy seria ministro da Fazenda, Katia Abreu, da Agricultura, Armando Monteiro, do Desenvolvimento, e Henrique Alves, da Previdência, além da certeza de que PR, PP, PSD, PDT e PTB não ficariam fora do ministério.

Todo esse conjunto, além de outras nomeações previstas, indica de forma inexorável o recuo definitivo do governo até as trincheiras da extrema direita. Tudo ao contrário da pregação de campanha da então candidata e, até mesmo, de suas atuais definições retóricas. Numa palavra, embromação. Na verdade, o segundo mandato prenuncia submissão aos postulados neoliberais e aos seus agentes. Mais uma vitória dos mesmos de sempre, anunciando aumento de impostos sobre a classe média, jamais dos potentados. Além de predomínio do agronegócio diante das pequenas propriedades, dos benefícios aos usineiros e do predomínio cada vez maior da previdência privada sobre a previdência pública. A conclusão é de que o PT, coitado, acabou no Irajá. Termina num imenso bocejo…

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Manutenção


Por que esse medo de escolher os mais bem preparados?


Novo Governo do Brasil será um teste para saber se estamos diante de algo novo ou se tudo acabará na clássica contemporização
Uma vez perguntei ao dono de uma grande empresa a que se devia o sucesso da mesma, e me respondeu sem pensar: “Porque sempre escolhi os melhores para dirigi-la”. Voltei a lhe perguntar se não temia ficar rodeado de personalidades até mais valiosas do que ele, já que poderiam lhe fazer sombra. Sorriu e me disse enigmaticamente: “Quem teme a luz ao seu redor é porque só sabe trabalhar nas trevas”.

No sábado passado um dos participantes do programa de televisão Globo News Painel, dirigido pelo genial jornalista William Waack, me trouxe à memória aquela conversa. O participante destacou a dificuldade que os governantes brasileiros demonstram para escolher (por exemplo para o cargo de ministro) os mais bem preparados, personalidades indiscutíveis, para quem não deveria ser difícil – exatamente por seu grau de excelência – oferecer toda a liberdade em suas decisões sem medo de que lhe façam sombra.

Pelo contrário, é quase impossível ver à frente de um ministério alguém de absoluta competência e rigor ético. O preço maldito que os governantes têm de pagar aos partidos políticos para ganhar seu apoio faz com que não cheguem a um ministério pessoas preparadas e de reconhecido conhecimento na matéria da qual serão responsáveis, mas figuras cinzentas para quem é mais fácil manejar e trabalhar para atuar em favor próprio do que para a nação.

Por que para ministérios vitais como o da Educação, das Cidades, da Saúde ou da Energia é necessário escolher um político de certo partido apesar de existirem personalidades muito mais brilhantes e capazes ainda que sem militância política concreta? Os ministros devem servir ao Governo da nação e não a estreitos cálculos políticos.

Verdades


Mentira, hábito e método



De comportamento inaceitável, a mentira virou hábito. E foi depois promovida a método. Esqueceu-se que mentira não constrói. Apenas entrega ilusão travestida de realidade.
 A verdade parece cada vez mais incômoda, inconveniente, desagradável, indesejável, enfim. Destinada a ser sempre protegida por um muro de mentiras.
A verdade não mais é ditada pelos fatos. A verdade passou a ser simples consequência da narrativa. De quem narra. De quando narra. Do por que narra.
                       Deu no que deu.

Faz 100 dias que Lula afronta o Brasil


Faz 100 dias que os brasileiros decentes foram afrontados pela descoberta do  escândalo em que Lula se meteu ao lado de Rosemary Noronha. Faz 100 dias que o país que presta é afrontado pela mudez malandra do caçador de votos que promoveu uma gatuna de quinta categoria a chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo. Faz 100 dias que o ex-presidente foge de perguntas sobre o caso de polícia que protagonizou em companhia da Primeiríssima Amiga e dos bebês quadrilheiros de Rosemary.

Surpreendido pela divulgação das maracutaias comprovadas por policiais federais engajados na Operação Porto Seguro, Lula fez o que sempre faz quando precisa costurar algum álibi menos cretino: perdeu a voz e sumiu. Passou a primeira semana enfurnado no Instituto Lula. Passou as duas seguintes longe do Brasil, driblando repórteres com escapadas pela porta dos fundos ou pela cozinha do restaurante.

Recuperou a voz no começo do ano, mas ainda garimpa no porão das desculpas esfarrapadas alguma que o anime a enfrentar jornalistas armados apenas de perguntas sem resposta. Para impedir que a aproximação do perigo, tem recorrido a cordões de isolamento, cercadinhos, muralhas humanas e outras mesquinharias improvisadas para livrá-lo de gente interessada no enredo da pornochanchada financiada por cofres públicos que apresentou ao Brasil, entre outros espantos, os talentos ocultos de Rosemary Noronha.

O silêncio que vai completando 2.500 horas, insista-se, só vale para o caso Rose. Entre 23 de novembro de 2012 e 3 de março de 2013, excluídos os poucos dias em que teve de desativar o serviço de som, o palanque ambulante continuou desempenhando simultaneamente os papeis de co-presidente da República, presidente honorário da base alugada, chefe supremo da seita, protetor dos pecadores companheiros, arquiteto do Brasil Maravilha e consultor-geral do mundo.

Abençoou catadores de lixo e metalúrgicos, leu mais de 300 livros, fingiu entender o que Sofia Loren disse em italiano, avisou que os EUA nunca mais elegerão um negro se Barack Obama fizer besteira, louvou bandidos de estimação, insultou a oposição, deliberou sobre a tragédia ocorrida no jogo do Corithians em Oruro, explicou aos governantes europeus como se transforma tsunami em marolinha, recomendou a FHC que pare de dizer o que pensa e descobriu que Abraham Lincoln reencarnou no Brasil com o nome de Luiz Inácio Lula da Silva. Fora o resto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dilma.2, a transparência


A obsessão do PT


Ao fim e ao cabo, até para controlar a mídia, o maior entre todos os desejos, o PT mantém a marca da esquizofrenia.

É uma obsessão, uma doença crônica. Não há encontro do PT ou de maioria petista que a tal da regulação da mídia não seja um dos eixos estruturantes das discussões, para não fugir à linguagem que faz sucesso entre esta turma.

No primeiro encontro do Diretório Nacional do PT depois das eleições, encerrado ontem, o tema esteve lá o tempo todo, desde a abertura. “A presidenta já fez menção sobre a regulação da mídia e deve lançar uma consulta pública sobre essa questão em 2015”, garantiu Rui Falcão, que dirige a sigla.

Apareceu ainda espalhada em documentos diversos. Neles, a diaba da mídia é acusada de todos os males – especialmente de divulgar as denúncias de corrupção que quebraram de vez o encanto do partido que se dizia guardião da moralidade.

Sob os domínios do ex Lula, o PT tentou aprovar a criação de um órgão regulador, o Conselho Nacional de Comunicação, e de mecanismos de controle da mídia. Foi rechaçado. No Congresso Nacional e fora dele.

Em 2009 a tese do cabresto emergiu com força a partir do “clamor” de centenas de representantes da autoproclamada mídia independente reunida na Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), integralmente patrocinada pelo governo – da organização ao resultado. No ano seguinte, pás de cal foram despejadas sobre a questão.

Ainda que refutada por Dilma Rousseff no primeiro mandado, a regulação nunca deixou de ser crucial ao projeto de hegemonia do PT. E o partido já avisou a presidente que não pretende abrir mão dela. Topa até engolir alguns ministros-sapo, mas exigirá que o projeto regulatório avance.  Afinal, 2018 está logo ali.

Para amenizar o tom, o PT usa diabruras do dialeto. Controle virou “regulação econômica” na boca de Dilma e é “democratização dos meios” na galera que não consegue esconder o desejo expresso de dominar a mídia.
Leia mais o artigo de Mary Zaidan

Criminologia


A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três milhões de camponeses.

A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez mil trabalhadores.

A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.

Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as guerras, atos normais de canibalismo.

Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que os pobres merecem.

Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine:
“Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não seja pobre?”

Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filet mignon, embora esses pratos apareçam no menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo hambúrguer e batata frita, como de costume.
Eduardo Galeano

Francis e o Petrolinho


Naquele outubro de 1996, no café da manhã antes da gravação, Francis estava de mau humor. Era normal. Acabava de sair da cama.

Meia hora depois ele estava de bom humor. Era normal. Nossa conversa na copa antes de gravar era fiada. Francis não falou em Petrobras. No meio do programa, ele jorrou denúncia e transcrevo a gravação:

Francis: "Os diretores da Petrobras todos põe o dinheiro lá...(Suíça) tem conta de 60 milhões de dólares..."

Lucas: "Olha que isso vai dar processo..."

Francis: "É...um amigo meu advogado almoçou com um banqueiro suíço e eles falaram que bom mesmo é brasileiro (…) que coloca 50 milhões de dólares e deixa lá".

Lucas: "Os diretores da Petrobras tem 50 milhões de dólares?"

Francis: "Ahh é claro... imaginem... roubam... superfaturamento...é a maior quadrilha que já existiu no Brasil".

Foi além, mas não deu nomes dos diretores. Nem citou fontes. No próprio programa, o número variou de US$ 50 milhões para 60 milhões. Preocupado, perguntei se queria que cortasse a denúncia, embora o programa, depois de gravado, só sofra cortes por tempo. Francis disse que não.

Na imprensa, numa escala de 1 a 10 em repercussão, a denúncia do Francis mal registrou uns 2 pontinhos. Saíram notas em colunas. Ninguém cobrou da Petrobras. Não sei por que o Francis nunca levou a denúncia para os poderosos Globo, Estadão e Jornal da Globo, onde trabalhava, além do Manhattan Connection, e tinham calibre muito mais grosso do que o GNT.

Seria o poder da Petrobras de silenciar a mídia com sua publicidade? Ou sua reputação na época estava acima de qualquer suspeita? A limitada audiência do canal?

Em novembro, Francis anunciou no programa, também sem aviso prévio, que estava sendo processado pelos diretores da Petrobras, que "queriam US$ 100 milhões de indenização". Na primeira página da carta de intimação dos advogados dos diretores aparecem sete nomes, mas não há este número.

Ainda não descobri de onde saiu. Estes valores quase nunca constam da primeira comunicação entre o processador e o processado.

E pagou sete mil...

Francis entrou num inferno legal. Por sugestão do amigo Ronald Levinsohn, contratou uma advogada e pagou US$ 7 mil. Quando comentei que não era muito, o Francis ficou furioso. Disse que eu não sabia das finanças dele. Até que sabia, porque ele me contava, mas uma só defesa num processo grande poderia destruir a poupança dele. Se perdesse, ficaria arruinado por muito menos do que US$ 100 milhões.

Repercussão na imprensa sobre o processo? Mínima. Saíram notas sobre os assombrosos US$ 100 milhões. 

Paisagens Brasileiras

"Viaduto Santa Efigênia de noite", Gregório Gruber 

Crônica (atual) de velhos tempos



“A nobreza e a lacaiada não são as únicas salsas dos assaltos e roubos que vos deixam desolado”

Os homens fizeram os reis para os homens e não para os reis; colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis.

Sustentar a miséria pública é a melhor salva-guarda da monarquia, é sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se veem mais querelas e rixas do que entre os mendigos?

Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele cuja existência atual é miserável? Qual Estado? Não será aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a perder?

Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e cujo governo não pudesse se manter senão pelas vexações, pela pilhagem, pelo confisco e pela miséria universal, deveria descer do trono e depor o poder supremo. Empregando estes meios tirânicos, talvez pudesse conservar o nome de rei, mas de rei não teria mais nem o ânimo nem a majestade. A dignidade real não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes”

Thomas Morus (1478-1535)

domingo, 30 de novembro de 2014

Está escrito


Segundo mandato


Sem qualquer formalidade, com uma ostensiva aparência de rotina, o Palácio do Planalto apresentou a troika responsável pelo comando da nossa economia
Quase envergonhado, afinal inaugurou-se o propalado processo de mudança. Faltou-lhe um ingrediente indispensável, tão indispensável que sua ausência pareceu a alguns como comprometedora. Sem qualquer formalidade, rito ou liturgia, com uma ostensiva aparência de rotina o Palácio do Planalto apresentou a troika responsável não apenas pelo comando da nossa economia mas pela alteração do seu modelo.

Dilma Rousseff não presidiu a primeira solenidade do seu segundo mandato simplesmente porque o primeiro ainda está em curso. Para evitar constrangimentos encurtou um final melancólico e dispensou as fanfarras que abriria sua segunda presidência com a ostensiva sem-cerimônia conduzida pelo competente jornalista Thomas Traumann, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que apresentou os nomes de Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini respectivamente Ministro da Fazenda, do Planejamento e Presidente do Banco Central. Em seguida, entregou-os ao escrutínio da imprensa.

Na aparência descuidado, o formato foi cuidadosamente preparado para disfarçar a drástica guinada e o seu subproduto mais inconfortável – o reconhecimento de que uma das mais substantivas promessas eleitorais está esquecida. Haverá controle de gastos, apertos, enxugamentos, haverá intervenções ortodoxas no laissez-faire vigente, haverá responsabilidade fiscal e controle da inflação.

O ministro Gilberto de Carvalho que em breve deixará a Secretaria Geral da Presidência, com a sua proverbial espontaneidade ofereceu uma versão extremamente criativa para justificar a escolha do novo ministro da Fazenda: Levy aderiu à política do PT. Não explicou qual o PT a que se referia. Na verdade, deu-se exatamente o contrário: o governo afinal reconheceu que a errática política econômica era equivocada. Não por culpa do ministro Guido Mantega (o mais longevo da pasta), mas por culpa dos que o obrigaram a esquecer o que sabe e adotar um receituário de curtíssimo prazo, contraditório, destinado a agradar marqueteiros e produzir resultados eleitorais.

Piratas e corsários


Não há dúvida de que a Petrobras já foi alvo de larápios em governos anteriores, mas nenhum deles, além do próprio bolso, intentava apossar-se da República.

Em tese, roubar um fusca ou um BMW enquadra o infrator no mesmo dispositivo do Código Penal. Roubo é roubo, não importa a quantia. Do ponto de vista moral, não há dúvida. Mas, como indica a lei processual, há agravantes e atenuantes em qualquer espécie de delito: o que o move, a premeditação, os meios etc.

No caso específico das denúncias em curso na Petrobrás e adjacências – Eletrobrás e PAC, por exemplo -, o que se conhece e o que se vislumbra até aqui remetem ao quesito agravante. Não se trata de mero roubo, que se pratica para enriquecimento próprio.

Os sinais de que se estabeleceu uma operação sistêmica, com o objetivo de financiar partidos políticos – e, nesses termos, um projeto de poder –, vai muito além do que seria mais um caso de corrupção. Agride o próprio sistema democrático e a República.

E um crime contra a República, convenhamos, é bem mais grave que roubar um fusca ou mesmo um BMW – ou ambos. Nesse caso, o remédio é simples: prende-se o ladrão, recupera-se o produto do roubo e ponto final. Tudo começa e acaba numa delegacia de polícia. No caso, porém, do que ocorre na Petrobras, não basta recuperar o que foi roubado e enquadrar os operadores.

É preciso desmontar a engrenagem da qual eles eram apenas peças e responsabilizar os que a moviam e beneficiavam-se de seus propósitos políticos. Aí, o caso extrapola o âmbito das delegacias de polícia e necessariamente ascende ao das instituições.


Não importa se a presidente da República e seu antecessor embolsaram ou não algum centavo. Ainda que não – e lhes cabe o benefício da dúvida -, são os contemplados políticos do produto do crime. Que sabiam do que lá se passava só não crê quem não quer.

De surpresa em surpresa


Você se surpreendeu ao saber que houve corrupção numa estatal? E que envolveu funcionários pagos com seu dinheiro?
 Há poucos dias, o ministro do STF Luís Roberto Barroso nos instigou a refletir. Falando do mensalão (e o mesmo vale para o petrolão), frisou que o que mais lhe chamou a atenção em todo o caso foi que nenhum dos condenados, em momento algum, revelou arrependimento, culpa sincera ou achou que devia desculpas ao país. Todos se acham vítimas — quando não heróis, guerreiros do povo brasileiro. Acima das leis que valem para os outros. E, espanto dos espantos! Há quem queira lhes dar crédito.

Nenhum se arrependeu. Nenhum sentiu vergonha. Desmentiram Freud, para quem a vergonha, ao causar uma reação involuntária no corpo — o rubor — mostra ser tão forte quanto o desejo sexual ou o asco, que não conseguem controlar as reações físicas que despertam. Mas nossos “heróis” não têm vergonha, não se arrependem, não reconhecem que fizeram nada errado. São juízes de si mesmos e se absolvem.

Isso é surpreendente. Mas os escândalos em série não chegaram a surpreender ninguém. Você se surpreendeu ao saber que houve corrupção numa estatal? Ou ao saber que ela envolveu empreiteiros e funcionários pagos com seu dinheiro? A ingenuidade brasileira não chega a tanto. Aceitava essa existência como parte do aparelhamento. Algo inevitável, que se varre para baixo do tapete ou se faz de conta que não há. Quando agora se fala em corrupção espantosa, o espanto não é porque ela existiu. É com o montante dos valores, o caráter sistemático, a alta hierarquia dos envolvidos, a sua ligação direta com quadros partidários. E com a investigação equilibrada que não entornou antes da hora, não fez estardalhaço prematuro antes das eleições de modo a tumultuar o pleito, administrou bem as delações premiadas, se escorou em informações confiáveis sobre o dinheiro, checou dados com o exterior, talvez recupere parte do prejuízo. E parece caminhar por partes, um passo de cada vez, só indo para a etapa seguinte quando já amarrou a anterior com alguns nós bem apertados.

 E os que mandam em tudo? Não têm mesmo culpa nenhuma? Nenhuma responsabilidade? Não sabiam de nada? Reconhecem que perderam a autoridade e foram enganados por subalternos que lhes davam relatórios fajutos enquanto praticavam malfeitos? Serão culpados apenas de incompetência e boa-fé? Ou sinceramente acreditavam que em nome de interesses mais altos para o país deviam fechar os olhos? Que interesses? Seu projeto de poder? A infalibilidade da causa e do projeto que defendem? Querem que o povo aceite que há um teto de corrupção inerente ao sistema e propõem uma espécie de franquia para isso? De quanto acham que seria palatável? Ou será que se envergonham?

Falta vontade

 

Anos atrás, perguntei ao embaixador do Brasil na Irlanda, Stelio Amarante, por que aquele país tinha estradas tão ruins, apesar de uma das melhores educações. Ele respondeu: “Por isso!” Fez pausa e continuou: “Deixaram para investir nas estradas depois da educação.”

No Brasil, sempre que se propõe educação de qualidade, vem a pergunta: “Onde encontrar o dinheiro necessário?” Para responder esta pergunta, o relator de uma comissão do Senado, presidida pela senadora Ângela Portela, concluiu seu trabalho, ainda não debatido pelos senadores, mostrando que o Brasil dispõe de recursos necessários.

A primeira parte do relatório calcula que, para oferecer educação com a máxima qualidade, da pré-escola ao fim do ensino médio, seria necessário investir R$ 9.500 por aluno por ano. Com este valor seria possível atrair e manter no magistério os professores com salário mensal de R$ 9.500; reconstruir e equipar todas as escolas com as melhores edificações e tecnologia da informação e comunicação, e funcionando em horário integral. Para os 52,3 milhões de alunos, estimados para 2034, o custo total seria de R$ 496 bilhões anuais.

Assumindo uma taxa de crescimento do PIB de 2% ao ano — a média, nos últimos 20 anos, foi de 3,1% —, em 2034 o Brasil precisará de 7,4% do PIB. Valor menor do que os 10% determinados por força do segundo Plano Nacional de Educação II. Ainda sobrariam 2,6% (R$ 174,2 bilhões) para os demais setores da educação. Apenas 2,3% (R$ 154,1 bilhões) a mais do que os 5,1% gastos atualmente.

Para identificar a origem destes recursos, foram apontadas 15 fontes. Quatro delas representam redução de gastos, por exemplo, com renúncia fiscal para a venda de automóveis e a redução nos gastos sociais graças à educação, de até R$ 360 bilhões por ano. Caso não haja vontade política para sacrificar os beneficiados por estes gastos e renúncias fiscais, o relatório apresenta sete outras fontes que permitiriam R$ 355 bilhões, por meio da emissão de títulos públicos, uso de lucro das estatais, atuação do BNDES, uso dos recursos provindos do aumento na produtividade graças à melhoria na própria educação. Se estas fontes não forem aceitas, o estudo identificou R$ 174 bilhões oriundos de quatro outras fontes que exigiriam aumento de impostos — como se fosse uma CPMF para a educação e imposto sobre grandes fortunas. A tudo isso se agregaria o valor esperado de R$ 35 bilhões dos royalties do pré-sal. O total das 15 fontes e do pré-sal chegaria a R$ 924 bilhões por ano, de acordo com o relatório ainda a ser votado pelos senadores da comissão, que está disponível em http://bit.ly/1ycAkBA .
  
Portanto, para cobrir o custo adicional necessário a uma educação ideal em todo o país, bastaria que fossem usados menos de 25% de cada fonte.

A pergunta, portanto, não é mais: “O Brasil tem recursos para fazer a educação que precisa?” Agora será: “O Brasil tem vontade de usar os recursos disponíveis para oferecer educação de qualidade a todos os brasileiros?”
Cristovam Buarque (Transcrito de Tribuna da Internet)