segunda-feira, 7 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Protesto do batom escancara estratégia de u m Bolsonaro pré-condenado

A manifestação deste domingo, na Avenida Paulista, em São Paulo, ganhou a maquiagem, carregada no batom, de um ato a favor da anistia aos condenados de 8 de janeiro. Mas, por baixo da camada de tinta, a mensagem central dos discursos, principalmente os de Jair Bolsonaro e de sua esposa, Michelle, foi outra: preparem-se para o sacrifício do seu líder e lembremse de que vocês também estão ameaçados.

O círculo próximo do expresidente está convencido de que a condenação e a prisão são favas contadas. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara dos Deputados, chegou a dizer, antes mesmo da aceitação, pelo STF, da denúncia por tentativa de golpe de Estado, que Bolsonaro “já é um pré-condenado”. Os discursos deste domingo serviram ao propósito de preparar o terreno para a reação à condenação de Bolsonaro.


O projeto de anistia não resolve o problema de Bolsonaro, pois o STF pode impedir sua aplicação. A direita bolsonarista precisa manter o assunto em voga, contudo, por dois motivos. Primeiro, para justificar a narrativa de que o Brasil vive uma ditadura do Judiciário que persegue a direita. Segundo, para reforçar o vínculo de lealdade entre Bolsonaro e seus seguidores. Ele precisa que seus apoiadores estejam convencidos de que sua liberdade, seus bens e até mesmo suas vidas estão em risco, e que, se seu líder vai se sacrificar para salvá-los, devem estar preparados para fazer o mesmo por ele.

Bolsonaro sintetizou as duas ideias, ditadura e perseguição, em uma fala: “Se eu estivesse no Brasil (em 8 de janeiro de 2023), estaria apodrecendo na cadeia ou teria sido assassinado pelos mesmos que colocaram esse vagabundo na Presidência”.

Ele quer que sua condenação e sua prisão despertem um grande clamor popular. O pastor Silas Malafaia, organizador dos atos pró-Bolsonaro, deu a dica: “Se os senhores (ministros do STF) prenderem Bolsonaro, o que pode acontecer no Brasil? Pode não acontecer nada, ou pode acontecer tudo!” Não é por acaso que o protesto do batom ganhou contornos religiosos tão acentuados. Bolsonaro, disse Michelle, é o “escolhido” por Deus para enfrentar a “maldade de alguns do STF”. O ato deste domingo, apesar de toda a fanfarra em torno da ideia de aprovação de uma anistia para os “inocentes” do 8 de Janeiro, representou, isso sim, o início da incitação de uma futura revolta contra a condenação de Bolsonaro.

Não foi sobre anistia. Foi sobre provocar a revolta dos bolsonaristas

Em Paris, a líder da ultradireita Marine Le Pen disse no que vai se inspirar no pastor Martin Luther King Jr., assassinado em 1968 por lutar contra a segregação racial nos Estados Unidos, para enfrentar a Justiça que a tornou inelegível por cinco anos.

Há quase uma semana, Le Pen foi condenada por desviar fundos do Parlamento Europeu para o caixa de seu partido, a Reunião Nacional (RN), e impedida de concorrer a cargos públicos – medida que entrou em vigor imediatamente apesar de ainda ser passível de recursos.

Na Avenida Paulista, o líder da ultradireita Jair Bolsonaro disse que “algo o avisou”, porque se ele estivesse no Brasil no dia do golpe de 8 de janeiro de 2023, “teria sido preso e estaria apodrecendo até hoje ou até assassinado”. Bolsonaro e Le Pen são dois contraventores.

Le Pen ainda tem chances de disputar a presidência da França em 2027. Bolsonaro, inelegível até 2030, não tem, de vez que foi condenado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em breve, o Supremo Tribunal Federal o condenará por golpe de Estado.


É remota a possibilidade de Le Pen ser presa. A de Bolsonaro é mais do que certa, a não ser que fuja. Há poucos dias, ele admitiu que conversou com chefes militares sobre a adoção de medidas de exceção que impediriam a posse do presidente eleito, Lula.

Bolsonaro sabe melhor do que ninguém que o Congresso não aprovará a anistia que o beneficiaria. E que se a aprovasse, ela seria barrada pelo Supremo por ferir a Constituição. Só lhe resta, pois, estimular seus seguidores à revolta caso ele seja preso.

O pastor Silas Malafaia, um dos promotores do comício na Avenida Paulista, disse aos manifestantes:

“Se os senhores [ministros do STF] prenderem Bolsonaro, o que pode acontecer no Brasil? Pode não acontecer nada, ou pode acontecer tudo!”

O que seria “acontecer tudo”? Baderna, estradas bloqueadas por caminhoneiros, acampamentos à porta de quarteis, invasões de prédios públicos, milhares de pessoas a clamarem por um golpe? Esse filme já passou, e no fim os bandidos morrem.

De resto, segundo pesquisa da Quaest, a maior parte dos brasileiros (49%) acredita que Bolsonaro participou de uma tentativa de golpe, contra 36% que não acreditam; e 52% concordam que o Supremo Tribunal foi justo ao tornar Bolsonaro réu no inquérito do golpe.

Patética a cena de Bolsonaro ao tentar ler em inglês uma mensagem dirigida ao mundo. Bolsonaro sugeriu que a perseguição a ele é parte de uma conspiração internacional contra a direita, e citou Le Pen, os processos contra Trump e a oposição venezuelana.

Bolsonaro criou o bordão que espera ver repetido por todos os seus asseclas:

“O que os canalhas querem é me matar!”

Fazia parte do golpe que Bolsonaro quis aplicar o assassinato de Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Esqueci algum nome?

Baderna não é golpe, em alguns casos é crime. Tentativa de golpe é crime, como tentativa de homicídio também é.

Golpe mata. Mata a democracia. Mata e tortura pessoas. Enterra sonhos de gerações inteiras.

Os derrotados

Somente os vencedores têm a sua história contada. Não existe tempo nem espaço na memória dos homens para a história dos que perderam, dos que ficaram pelo meio do caminho, dos que tentaram e não conseguiram. São a cara da humanidade; mas a própria humanidade os despreza. São a parte submersa do iceberg da história, do qual forçamo-nos a ver somente o que se eleva e se destaca, e fingimos que por baixo nada mais existe. Cadê a biografia dos que nunca subiram ao pódio, dos que perderam todas as eleições, dos que foram passados-no-rodo nas batalhas, dos que ficaram em décimo-primeiro lugar nas listas dos dez melhores, dos que buscados no Google dão zero hits?


Toda história de sucesso é praticamente a mesma coisa, mas cada derrota e cada tragédia é mais individualizada, mais pessoal e mais de-carne-e-osso do que o mero triunfo. Perguntem a Dante Alighieri, que já respondeu. É uma verdadeira assimetria filosófica que um escritor que publicou dez livros receba uma biografia e um pretendente a escritor que pensou em escrever dez livros e não o fez não receba sequer dez linhas de wiki. Sem falar naqueles que escreveram livros trabalhosíssimos e deixaram a única cópia datilografada no banco traseiro de um táxi ou numa maleta esquecida na plataforma de um trem.

O sucesso tem uma função meramente ampliadora, mas as histórias que conta não têm um grama sequer a mais do que as catástrofes de subúrbio, os naufrágios de piscina de quintal, os apocalipses em plena adolescência, os hindemburgs que colecionamos na interminável infância. Mandem parar a van em qualquer estrada lateral de qualquer interiorzão brabo, e detenham o primeiro transeunte que for passando, como faziam aqueles califas e vizires das mil e uma noites. Ele lhes contará uma história pessoal que bem escrita deixaria um bilhão de mentes estremecendo mundo afora.

A vitória é um cheque pré-datado de imortalidade, mas sem fundos. A derrota é o destino cósmico do universo: a extinção da humanidade, indivíduo por indivíduo, ou seja, a demissão da espécie por justa causa. O derrotado é aquele a quem coube receber em nome da espécie esse incômodo recado e essa ainda mais desconfortável eliminação. Toda vitória é um adiamento; uma história só se conclui de fato quando atinge sua derradeira derrota, que para uns é a morte, para outros é a não-existência de alguma coisa depois dela. Humilhados, ofendidos, condenados da terra, desvalidos, quixotes visionários, drogados incorrigíveis, missionários que em oitenta anos deixam um resíduo de estalactite e cedem lugar ao próximo, artistas jamais ouvidos, vidas que encontraram uma linha reta na direção do fim.

A maré montante da autocracia

A prisão em 19 de março do prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, principal líder da oposição e candidato à presidência da Turquia, mostra que o regime de Recep Tayyip Erdogan dá mais um passo no sentido de se tornar uma autocracia plena. Membro fundador da Otan, a Turquia tem papel importante na geopolítica global, pela região em que se situa e pelo papel ambivalente que joga entre as grandes potências.

A decisão de Erdogan de dar um passo decisivo na direção da autocracia é parte do novo contexto global que se vai delineando com rapidez desde a posse de Donald Trump. Mais um sinal claro de que as transformações das políticas interna e externa dos Estados Unidos terão graves consequências para a democracia no plano internacional. A erosão deliberada dos pilares da democracia norte-americana caminha de mãos dadas com o completo abandono pelos Estados Unidos da ordem liberal cuja construção o país liderou após a Segunda Guerra Mundial.

Nem a democracia americana nem a chamada ordem liberal podem ser idealizadas. Entre outros defeitos, a primeira ainda hoje preserva uma relíquia do século 18, o Colégio Eleitoral, que impede a eleição direta do presidente da república. Já a ordem internacional erguida depois de 1945, seja na sua concepção, seja na sua aplicação, jamais representou um obstáculo suficiente para que os Estados Unidos exercitassem o seu poder de potência dominante ou hegemônica, à sua conveniência.

Ainda assim, quando essa ordem desmorona, importa reconhecer o que estamos perdendo e os imensos riscos que essa perda acarreta. É inegável que sem o Plano Marshall e a Otan a Europa ocidental teria enfrentado dificuldades muito maiores, talvez intransponíveis, para consolidar regimes democráticos avançados, na segunda metade do século 20. Mais provável teria sido o domínio soviético se estender para além da Cortina de Ferro (contido, paradoxalmente, facilitou a formação dos Estados de bem-estar na Europa ocidental). Vale lembrar que a Europa do leste só se livrou de regimes autocráticos e Estados policiais pouco antes do colapso final da União Soviética, quase 50 anos depois do fim do conflito mundial.

No mesmo período, em outras regiões do mundo, os Estados Unidos apoiaram golpes de Estado e ditaduras amigas, enquanto durou a guerra fria.

Porém, junto com a Europa, eles desempenham papel importante na chamada “terceira onda democrática”, iniciada ao fim da década de 1970, seja por não interferir, como no caso da América Latina, seja por apoiar, como no caso do leste da Ásia e da Europa do leste, processos de transição para a democracia.

Em resumo, em matéria de democracia e direitos humanos, o mundo que conhecemos nos últimos 80 anos teria sido bem pior se o desprezo pelas instituições multilaterais e pelos valores democráticos, típicos do que Trump representa, tivesse orientado a política externa americana.

A ruptura interna e externa dos Estados Unidos com a chamada ordem liberal se dá num momento em que ela já se encontrava gravemente enfraquecida. O espectro de um sistema internacional dividido em esferas de influência dominadas por grandes potências autocráticas (Estados Unidos, China e Rússia) ronda o mundo.

Engana-se quem acredita que, com Trump, os Estados Unidos serão menos intervencionistas. Ele e seus aliados se mexem para apoiar forças de extrema direita na Europa e na América Latina, valendo-se do governo americano e de grandes oligarcas, como Elon Musk, uma fusão entre poder político e econômico que ameaça a democracia e a economia de mercado nos Estados Unidos e em outros países.

O pesadelo de uma ordem global autocrática despertou a Europa da sua letargia. O fortalecimento da União Europeia é indispensável para reverter a maré montante da autocracia. O desafio do Velho Continente está em compatibilizar o aumento dos gastos em defesa e a adoção de políticas de competitividade, tais como as recomendadas pelo Relatório Draghi, com a preservação/atualização do Estado de bem-estar social. Para vencer esse desafio, os membros da União Europeia precisam agir em conjunto, com objetivos e mecanismos de financiamento comuns. O que era muito difícil antes de Trump se tornou mais provável em resposta ao abandono da aliança atlântica pelo novo ocupante da Casa Branca. As forças democráticas da centro-direita à centroesquerda europeia parecem dispostas à convergência.

Para a América Latina, em geral, e para o Brasil, em particular, interessa o fortalecimento da União Europeia. Temos atritos comerciais, mas temos complementaridade econômica e, não menos importante, um lastro comum no compromisso com a defesa da democracia e a proteção dos direitos humanos. Cá, como lá, as lideranças políticas democráticas, da centro-direita à centro-esquerda, precisam entender o que está em jogo. Na política interna, é preciso isolar a extrema direita. Na externa, o indispensável pragmatismo deve se aliar a uma orientação valorativa que reforce a nossa identidade democrática.
Sergio Fausto

Trump tenta coibir uso de quase 200 palavras. Pode um governante legislar sobre a linguagem?

No começo de março, deu no New York Times que 197 palavras e expressões vêm sendo excluídas do léxico do governo americano e devem ser evitadas em documentos e na comunicação oficial. Entre elas: “antirracismo”, “energia limpa”, “orientação”, “historicamente”, “mulheres”, “transexual”, “pronomes”, “trauma”, e até “Golfo do México”. Todas pertencem ao vocabulário “woke”, isto é, são utilizadas por determinada militância progressista deplorada pelo presidente Donald Trump. Ou se referem a obsessões do republicano, como renomear o Golfo do México como Golfo da América (nos Estados Unidos, mapas do Google e da Apple já adotaram o topônimo trumpista).


O dicionário de expressões indesejáveis foi compilado a partir da consulta de documentos que ordenam sua remoção de sites do governo e de outros materiais, como currículos escolares. Quando não há proibição explícita, recomenda-se cautela do uso de certas palavras. O NYT supõe que a lista de palavras banidas seja ainda maior. A presença desses termos pode resultar na revisão de contratos e na reprovação do financiamento de pesquisas científicas, afirmou o jornal.

Mas, afinal, pode um governante legislar sobre a linguagem? O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) acreditava que sim. Em “O cidadão”, ele afirma que cabe ao soberano impor o significado das palavras, pois “uma denominação incorreta pode levar à revolta e à sedição”, ou seja, a divisões sociais que abalem o poder político. Hobbes é um teórico da soberania e, embora admita leituras mais democráticas, sua obra é mais comumente associada a uma defesa do poder ilimitado do monarca. Leitor de Hobbes, o professor de filosofia e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro explica que o problema não é os governantes criarem um vocabulário próprio, mas como eles definem certos conceitos.

— A palavra “povo” é outro exemplo. “Povo” é o conjunto da população ou são só aqueles que apoiam determinado político? Essa definição tem consequências — afirma o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, acrescentando que “o significado das palavras está sempre em disputa”.

No dicionário trumpista, termos como “homem” e “mulher” se referem ao “gênero atribuído a uma pessoa ao nascer”, o que exclui homens e mulheres trans. Há uma semana, um repórter perguntou a Trump: “O que é uma mulher?” “É alguém que pode ter um bebê”, ele respondeu. A expressão “Pessoas gestantes”, que inclui homens trans que engravidam, também foi banida.

Em “Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI” (Record), Idelber Avelar analisa diferentes forças políticas e adoção de figuras de linguagem. A hipérbole (exagero), por exemplo, é usada para fomentar o nacionalismo e a fé no desenvolvimento econômico. Já o oxímoro (contradição insolúvel, como um círculo quadrado) aparece nos discursos de políticos que tentam unir forças sociais opostas, ignorando de propósito as diferenças inconciliáveis. Em alguns casos, nota o autor, algumas palavras desparecem paulatinamente do discurso público, como “latifundiário”, substituído nas últimas décadas por “ruralista”.

— A concentração de terras no Brasil não diminuiu, ainda existem latifúndios, mas o termo para designar essa realidade mudou de tal forma que o abismo social entre ricos e pobres no país ficou menos visível. A substituição de “latifundiário”, um termo essencial da historiografia e da sociologia brasileira, por “ruralista” amaciou nossa percepção da desigualdade — diz o professor da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos.

O abandono de determinados termos, diz Avelar, aponta para tentativas de apagar a realidade que eles nomeiam. A linguista Jana Viscardi concorda:

— Se não é mais possível nomear a existência de uma pessoa transexual, como pensar em políticas públicas para essa população? — questiona ela.

Autora de “Escrever sem medo” (Planeta), Viscardi diferencia o que considera propostas “autoritárias” da linguagem que é cunhada por militâncias progressistas e de tentativas de banir estrangeirismos (como a encampada pelo ex-deputado Aldo Rebelo no fim do século passado), que estão fadadas ao fracasso dada à própria dinâmica da língua.

— Uma coisa é questionar como o preconceito se dá por meio do uso da língua. Outra é proibir palavras que incluem a descrição de seres humanos com o intuito de apagar um conjunto de existências e práticas — diz ela.

Para o historiador americano Robert Darnton, o objetivo de Trump é atacar o vocabulário de uma certa elite ligada a universidades de prestígio e à militância progressista. Estudioso do Século das Luzes, ele lembra que a Revolução Francesa também ousou intervir diretamente na linguagem: mudou os nomes dos meses do ano e incentivou a adoção de “citoyen” (cidadão) no lugar de “monsieur” (senhor) e “madame” (senhora) para solidificar a identidade da nação sob os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

No livro “Censores em ação: como os estados influenciaram a literatura” (Companhia das Letras), Robert Darnton conta que, na Alemanha Oriental, a repressão às ideias era tamanha que, no limite, a fiscalização se tornou desnecessária, pois os próprios intelectuais internalizaram as restrições. Ele não descarta que algo ocorra nos EUA. Acadêmicos talvez pensem duas vezes (ou mais) antes de escrever e submeter projetos que contemplem iniciativas de diversidade, equidade e inclusão (DEI, na sigla em inglês).

— Um amigo matemático brincou que não sabe mais se vai poder usar a palavra “igual” — diz ele. — Acho que vai haver muita autocensura. Tenho editores na China e na Rússia e sempre sou muito cuidadoso nos e-mails, não escrevo nada que eu imagino que possa causar problemas para eles. Talvez eu comece a tomar esse cuidado aqui também.

O escritor, tradutor e linguista Caetano Galindo lembra que são raríssimos os casos em que governantes de fato conseguem alterar um idioma. Uma exceção é Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), o pai da Turquia moderna, que impôs reformas para expurgar a influência do árabe e do persa na língua pátria. O alfabeto árabe foi substituído pelo latino. Em vez de proibir vocábulos estrangeiros, Atatürk patrocinou a criação de novas palavras, legitimamente turcas, que eram publicadas no jornal para o conhecimento dos falantes. Deu certo, mas o caso turco é quase a exceção que confirma a regra.

— A tentativa de intervir sobre o vocabulário só toca a superfície da superfície da língua. O idioma é muito maior do que isso. Se você proíbe um termo, em dois dias a sociedade começa a usar outro que cumpre um papel parecido — afirma o autor do recém-lançado “Na ponta da língua: o nosso português da cabeça aos pés” (Companhia das Letras). — O idioma é a nossa realidade mais premente, mais constante, ele é comum a todos e impossível de controlar. Ninguém legisla sobre um idioma. Quem determina como ele vai ser é o coletivo dos falantes, que vive num permanente cabo de guerra.

Em “Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português” (Companhia das Letras), Galindo escreve que a maneira própria como se dá a “mudança linguística”, alterando implacavelmente idiomas impostos de cima, “pode ser uma curiosa lição de democracia”.

O drama das cobaias humanas em Gaza

Na semana passada, mais que em qualquer momento anterior, nosso planeta viu-se forçado a mudar de órbita e girar em torno de Donald Trump, autoproclamado rei-sol do desvario tarifário em curso. Consequências e reverberações da medida têm sido dissecadas em todos os quadrantes, exceto na estreita faixa de terra, sangue e história chamada Gaza. Ali não há o que taxar. Ali uma vida humana vale menos que a de um cachorro.

Foi em agosto de 2024 que se ouviu a primeira referência ao termo shawish, empregado no contexto da guerra desencadeada por Benjamin Netanyahu em retaliação ao atentado terrorista do Hamas de outubro de 2023. A palavra de origem turca significa “sargento”, mas, segundo revelou à época o jornalista investigativo Yaniv Kubovich, passou a ser usada como sinônimo de “escravo” ou “escudo humano” pelas Forças de Defesa de Israel (FDI). A longa reportagem de Kubovich publicada no jornal de oposição Haaretz causou incômodo. Ela deu voz a soldados e oficiais da frente de combate que denunciaram o uso de civis palestinos como cobaias em operações militares.


A prática, também conhecida como Protocolo Mosquito, consiste em pinçar algum jovem ou idoso entre civis palestinos, vesti-lo com uniforme das FDI, amarrar-lhe as mãos pelas costas, afixar uma câmera ao colete à prova de balas e obrigá-lo a entrar em túneis do Hamas ou imóveis semidestruídos. Com dez minutos de antecedência em relação à tropa. Se o local estiver minado, o “escudo” civil explode primeiro. Caso contrário, ele tem a promessa de ser libertado uma vez cumprida a missão. Em tese, são recrutados à força por apenas 24 horas, mas há relatos de shawishes sendo usados ao longo de uma semana inteira. Para tanto, recebem rações militares e água.

Segundo a reportagem original, houve instâncias em que unidades de combate chegaram a questionar seus superiores sobre a legalidade do procedimento, inquiriram sobre a origem e a necessidade da ordem recebida. Recebiam respostas impacientes:

— Você concorda que é melhor seus amigos continuarem vivos e não estraçalhados por algum explosivo, e que eles ‘se explodam’ no nosso lugar, certo?

— Um soldado não deve se interessar por leis de guerra. Vocês precisam pensar nos valores da nossa defesa.

A proteção à unidade canina militar Oketz também era ressaltada — vários cães farejadores haviam morrido ou saído horrendamente feridos desse tipo de incursão, enquanto outros, apesar de sobreviver, perdiam seus sentidos operacionais. Era preciso protegê-los. Melhor, portanto, usar cobaias humanas. Leia-se, palestinos inocentes.

Dias atrás, foi a vez de um oficial israelense (não identificado nominalmente, por motivos óbvios) publicar seu desabafo diante da normalização do procedimento. Entre as primeiras denúncias e hoje, a Divisão de Investigações Criminais das FDI abriu apenas seis inquéritos referentes ao uso de palestinos como escudos.

— Hoje, praticamente todo pelotão mantém um shawish de prontidão. Isso significa quatro escudos palestinos por companhia, 12 por batalhão e pelo menos 36 numa brigada. Estamos operando com um subexército de escravos — escreveu o militar.

O signatário do desabafo serviu por nove meses no inferno de Gaza e testemunhou várias ações do gênero. O procedimento não exige tecnologia — é mais barato e simples que o uso de robôs ou drones. Relatos de combatentes coletados pela ONG Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio) sustentam que pelo menos dois oficiais do mais alto escalão das FDI tinham conhecimento da prática ilegal.

— Não sei o que é pior — escreve o autor da denúncia — Se os comandantes não saberem o que ocorre nas fileiras subalternas ou saberem e ignorarem.

Ele acredita que os seis inquéritos em curso visam somente a aplacar a consciência nacional e mundial pinçando alguns bodes expiatórios.

Enquanto isso, prosseguem o fatiamento e a ocupação de Gaza, a expansão da operação militar, a criação de mais “zonas de segurança” para as FDI, o enxotamento de mais de 140 mil para a nova “zona humanitária”. Ganho territorial parece ter se tornado a prioridade única de Netanyahu. O cessar-fogo inicial de 42 dias expirou em fevereiro e, desde então, vigora a suspensão de qualquer ajuda humanitária para o enclave. Um diretório especial israelense já começou a ser formado para supervisionar a “saída voluntária” de palestinos do enclave e, segundo revelou o site Axios, agentes do Mossad iniciaram o trabalho de “convencimento” de países africanos como Somália e Sudão do Sul para que aceitem receber esses excluídos à força.

Quantos shawishes mais precisarão ser usados para limpar Gaza de sua vida palestina?

— Estremeço ao pensar no dano causado à psique de quem é obrigado a entrar numa casa como cobaia, sozinho, desarmado e aterrorizado. Também estremeço ao pensar no dano que isso causa a nossos jovens soldados israelenses que prepararam a vítima — escreveu o oficial no Haaretz. — Não apenas falhamos na proteção de nossas tropas, como também corrompemos suas almas. Não há como saber o que será de nós, como sociedade, quando eles retornarem da linha de frente.

domingo, 6 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Trump estabelece nova forma de governo: a extorsocracia

O segundo governo de Donald Trump trata de forma peculiar atores políticos e sociais, como governos locais, universidades e escritórios de advocacia: submete-os à extorsão sistemática.

Se não se curvarem a seus caprichos e diretrizes, pune-os severamente, abusando dos poderes presidenciais, algo certamente inconstitucional. Porém, a estratégia de não ceder à extorsão, enfrentando o presidente nas cortes, é demasiado custosa. Leva muito tempo, com prejuízos imediatos irrecuperáveis e ameaças à própria sobrevivência.


Veja-se o caso da cidade de Washington, capital do país. Trump a achacou, ameaçando-a com grandes cortes de recursos caso a prefeita Muriel Bowser não removesse a inscrição "Black Lives Matter" do pavimento de uma praça. Segundo o republicano, a expressão seria "símbolo de ódio". Diante do risco de penúria, a prefeita —negra e democrata— curvou-se ao capricho presidencial. Justificou sua sujeição assim: "Agora nosso foco é garantir que nossos moradores e nossa economia sobrevivam".

A situação é mesmo crítica, pois as finanças de Washington são ameaçadas também pelo risco de 40 mil residentes perderem o emprego devido a cortes de pessoal promovidos pelo governo federal. Isso se confirmando, menos gente poderá pagar impostos e consumir na capital do país, minando a arrecadação local.

Outra frente de ataque são as grandes universidades americanas, que correm três riscos significativos quanto a seu financiamento. Um, o aumento de 1,4% para 21% na taxação sobre ganhos advindos de seus fundos. Outro, a limitação do montante desses fundos: de US$ 500 mil por estudante para apenas US$ 200 mil, definhando a base do autofinanciamento. Por fim, o puro e simples corte de verbas federais necessárias para diversas atividades acadêmicas, em particular a pesquisa científica.

Tais iniciativas visam esmagar princípios e práticas progressistas vigentes nas universidades. Tom Cotton, senador republicano do Arkansas, afirmou no X: "Nossas universidades de elite precisam saber o custo de promover agendas antiamericanas e pró-terroristas". Chama atenção o termo "antiamericanas": evoca o Comitê de Ações Antiamericanas da Câmara e sua perseguição a supostos comunistas nos anos 1950, associadamente a Joseph McCarthy no Senado. Ou seja, o macarthismo ressurge em nova roupagem e com escopo ampliado.

O estrangulamento financeiro das universidades visa submetê-las à agenda reacionária do trumpismo. No caso de Columbia, a sujeição chega ao ponto de a universidade permitir ao governo nomear o chefe do departamento de estudos do Oriente Médio, escrutinando o currículo e seus professores, avaliando se os deve manter ou demitir.

Um terceiro alvo do presidente dos EUA são escritórios de advocacia que recentemente o enfrentaram na Justiça. Dois deles, Perkins Coie e Paul Weiss, foram nominalmente citados em ordens executivas (tipo de decreto presidencial com força de lei) especificamente editadas para inviabilizar seu trabalho junto a órgãos governamentais. Em decorrência de tais atos normativos, os dois escritórios sofreram uma sangria de clientes, que não teriam como ser representados. O Paul Weiss rapidamente negociou com o presidente, sujeitando-se a seus termos e lhe oferecendo serviços "pro bono" (sic) no valor de US$ 40 milhões.

A terrível novidade é que a extorsão não é mero instrumento para a obtenção ilícita de ganhos pontuais, como propinas. Trata-se de exercício imediato do poder para a sujeição política dos demais atores. Ou seja, torna-se a própria forma de governo —uma "extorsocracia", ou "ekviasmocracia", considerando o termo grego para extorsão, "ekviasmos".

Donald Trump requinta e acrescenta nova dimensão aos processos de erosão democrática promovidos por governantes populistas. Valendo-se da capacidade coercitiva do Estado e de seu poderio financeiro, achaca governos subnacionais, entes da sociedade civil e empresas, minando sua autonomia. Desse modo, pouco a pouco, instaura um governo autoritário na mais antiga democracia do mundo.

A guerra comercial de Trump contra a realidade

O Dia da Libertação é um nome oportuno para a política do presidente Donald Trump de impor novas tarifas massivas sobre produtos de todo o mundo. Ele considera os EUA uma colônia vitimizada, explorada por outros países que lhes roubaram empregos, indústrias e dinheiro. “Nosso país e seus contribuintes foram enganados por mais de 50 anos”, disse ele ao anunciar seus planos, na quarta-feira.

Seus asseclas, como o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Comércio Howard Lutnick, repetem essa percepção como papagaios, definindo a imagem de um país destituído, com fábricas esvaziadas, trabalhadores desempregados e salários estagnados.

A realidade é o oposto. E somente porque é o oposto – em outras palavras, por causa do poder econômico inigualável dos EUA – Trump é capaz de tentar sua política tarifária. O peso econômico dos EUA lhe permite tentar forçar o restante do mundo a se curvar à sua vontade. Mas Trump está usando o poder americano de uma forma tão arbitrária, destrutiva e burra que isso quase certamente resultará em um desfecho “perde-perde” para todos.


A verdadeira história econômica das últimas três décadas é que os EUA estiveram à frente de todos os seus principais concorrentes. Em 2008, a economia americana era quase do mesmo tamanho que a economia da zona do euro, agora é quase o dobro.

Em 1990, a média salarial dos EUA era cerca de 20% maior do que a média geral no mundo industrializado avançado; agora é cerca de 40% maior. Em 1995, um japonês era 50% mais rico do que um americano em termos de PIB per capita, hoje um americano é cerca de 150% mais rico do que um japonês.

Na realidade, o Estado americano mais pobre, o Mississippi, tem um PIB per capita maior que o do Reino Unido, da França ou do Japão.

E ainda assim Trump está convencido de que, ao longo de todas essas décadas, os EUA estiveram em um declínio acentuado. Sua visão de mundo parece ter sido definida na década de 60, quando, em sua memória, os EUA eram uma grande potência industrial (outra parte dessa antiga visão de mundo é estimar exageradamente a capacidade de Moscou, que em sua mente, ao que parece, continua sendo um ator econômico imponente no cenário mundial, com o qual ele poderia fazer muitos negócios importantes. A Rússia, bizarramente, foi excluída das novas tarifas).

A realidade de os EUA serem a nação dominante nas esferas de crescimento mais rápido e mais críticas da economia global atualmente – tecnologia e serviços – parece não significar nada para ele.

Suas tarifas foram calculadas usando um método mais próximo ao vodu que à economia. Entre os muitos erros, elas se baseiam apenas nos déficits comerciais em mercadorias dos EUA em relação aos outros países. De alguma maneira, não importa que os EUA gerem superávits enormes em serviços – exportando softwares, serviços de software, filmes, músicas e serviços jurídicos e financeiros para o mundo. Mais de 75% da economia dos EUA é aparentemente uma penugem impalpável; o aço é o verdadeiro negócio.

Mas embora sejam a potência dominante no mundo, os EUA não são tão fortes a ponto de poderem agir de forma tão irracional. A economia mundial cresceu em tamanha magnitude e escala que encontrará maneiras de contornar o protecionismo americano, que agora figura entre os mais notórios do mundo.

Ao contrário das teimosas convicções de Trump, os EUA já eram realmente um tanto quanto protecionistas, com barreiras comerciais tarifárias e não tarifárias maiores do que em outros 68 países. Com essas novas tarifas, o protecionismo americano foi às alturas, com taxas mais altas que as da Lei Tarifária de 1930, que exacerbaram a Grande Depressão. No curto prazo, todos sofrerão. No médio e longo, porém, os países começarão a evitar negócios com os EUA.

Esse movimento já começou. Desde que Trump assumiu o cargo em 2017, os EUA abandonaram praticamente todos os esforços para expandir o comércio, mas outros países assumiram a responsabilidade. A União Europeia assinou oito acordos comerciais novos; a China, nove. Conforme observou o presidente da Rockefeller International, Ruchir Sharma: “Dos 10 corredores comerciais de crescimento mais rápido, cinco têm terminal na China; apenas dois têm terminal nos EUA”. Países precisam de crescimento, e isso significa comércio.

A China será claramente a grande vencedora nessa nova economia mundial porque se posicionará como o novo centro de comércio. Adicionando a isso a hostilidade de Trump em relação aos aliados mais próximos dos EUA, os americanos provavelmente verão a Europa, o Canadá e até mesmo alguns dos aliados na Ásia buscarem maneiras de trabalhar com a China.

A visão de mundo nostálgica de Trump remonta a uma época ainda mais distante do que a década de 60. O presidente evoca com carinho o fim do século 19, quando, conforme ele descreveu esta semana, os EUA tinham apenas tarifas e nenhum imposto de renda e eram mais fortes economicamente do que jamais haviam sido em comparação ao restante do mundo. Essa história é absurda. Em 1900, os EUA eram responsáveis por cerca de 16% da economia global segundo uma métrica. Agora, sua participação equivale a 26%. Os padrões de vida e de saúde dos americanos são muito mais elevados hoje.

Mas ao agir segundo sua fantasia nostálgica, Trump pode muito bem acabar arrastando os EUA de volta ao que o país era naquela época: uma nação mais pobre, dominada por oligarcas e corrupção e contente com sua arrogância em seu próprio quintal e em intimidar seus vizinhos, mas secundário em relação às grandes correntes globais da economia e da política.

Espaço vital

A minha geração entendia que a época de um governante invadir outro país já tinha passado. Hitler justificava a necessidade de expandir a área do território alemão como “espaço vital”. Este argumento permitiu que ele anexasse a Áustria, parte da Tchecoslováquia e depois invadisse a Polônia e a União Soviética. Mas o que Putin faz hoje é algo semelhante: ele precisa anexar a Ucrânia, que segundo a versão oficial russa sequer existe, para criar um cordão sanitário ao redor de seu território. Ele pretende recriar o território da extinta União Soviética.

Trump quer anexar a Groelândia, o Canadá e o Canal do Panamá com o mesmo argumento. É necessário ampliar o espaço vital dos Estados Unidos para garantir a paz entre os países. Ou seja, de repente, o mundo regrediu décadas e voltou a frequentar os anos trinta do século passado quando as potências da época entraram em guerra. A guerra da Ucrânia lembra o conflito na Espanha, em 1936, quando comunistas e fascistas experimentaram suas armas em confronto direto. Foi a preliminar do que viria a seguir. Mas hoje a guerra é mais devastadora. A bomba atômica tem o poder de exterminar a vida no planeta Terra. Todos perdem. Então, mesmo com os mais tresloucados ditadores tendem a ter cautela, porque em caso de guerra ele vai perder. E provavelmente morrer.


A eterna questão que opõe palestinos a judeus há muito tempo deixou de ser religiosa. O estado de Israel tem expandido suas fronteiras ao longo dos últimos anos. Ao mesmo tempo em que restringe o espaço de seus vizinhos constrangidos a viver numa área cercada por arame farpado, controlada por soldados e armas de guerra. Em nenhuma destas questões existe a perspectiva de paz duradoura. O forte quer se impor pelas armas. Grandes Impérios, a começar pelo Romano, cresceram, se desenvolveram e terminaram. A vida é finita em todas suas dimensões. A dos países também.

No forte discurso de Trump, no dia da libertação dos Estados Unidos, 2 de abril, ele insistiu que o país perdeu milhares de indústrias, milhões de empregos e bilhões de dólares por auxiliar países em todo o mundo. Ato contínuo decretou taxação recíproca em todos os países que fazem comércio com o maior mercado do mundo. O Brasil ganhou uma taxa de 10%. Os chineses vão pagar 34% para exportar para os Estados Unidos. Cada país tem uma taxa específica. O objetivo é que a grande indústria passe a produzir dentro dos Estados Unidos, e ofereça, novamente, milhares de empregos, roubados na expressão dele, pelos países chamados amigos. É a nova face da guerra moderna. Tarifas.

O grande pretende esmagar o pequeno e não se conforma com a marcha do tempo. O que os especialistas anunciavam com alguma cautela está diante de todos: o colosso norte-americano balançou, acusou o golpe das empresas e empregos que abandonaram a meca do capitalismo para se aninhar em outras e melhores circunstâncias. É difícil para o empresário retornar ao mercado norte-americano onde a mão de obra é muito mais cara, os insumos não são baratos e agora há a imprevisibilidade do governante. É uma jogada arriscadíssima, que vai provocar elevação de preços internos e desorganização das cadeias de produção. O solavanco vai demorar e custar caro.

É o confronto moderno, limpo, sem sangue, mas capaz de produzir vítimas em vários cantos do mundo. Os norte-americanos, na palavra de seu presidente, perderam a vanguarda em diversos setores da indústria, como a produção de navios ou de produtos de grande tecnologia utilizados na indústria de informática. Muitas atividades se transferiram para China, Taiwan, Vietnã e outros países que constituíram o alvo prioritário do golpe de Trump. É um ataque feroz à industrialização dos países do antigo terceiro mundo e também dos antes chamados tigres asiáticos.

A questão econômica é óbvia. Haverá consequências na medida em que os afetados deverão retaliar. É razoável prever uma inflação global de bom tamanho. O que ainda não se pode prever, nem medir, são as consequências políticas, porque a tendência é que os nacionalismos passem a ser valorizados e estimulados. Os países vão se fechar para se defender do ataque norte-americano. O ouro já se valorizou muito e deve se valorizar ainda mais. A moeda digital, ao contrário, caiu. Acabou a era de prosperidade do mundo ocidental. Os Estados Unidos querem retomar seu protagonismo, decidiram se fechar para demonstrar sua capacidade de influir nos destinos da humanidade. Para chegar a este resultado, além das sobretaxas, eles precisam dominar o Canadá, o Panamá e a Groelândia. É, de novo, a busca do espaço vital, cujas consequências todos conhecemos.

Uma economia para o Antropoceno

José Eli da Veiga é um economista que gosta e entende de ciências — as de verdade (desculpem-me não resisti à provocação). É também um dos sujeitos mais eruditos que conheço. Quando Zé Eli se dispõe a escrever sobre um assunto, já leu quase tudo de relevante que foi publicado sobre a matéria. E ele é metódico ao explicitar suas fontes.

Daí que seus livros são sempre um ótimo mapa do caminho para quem quer assenhorar-se de um tema. Quem quiser se aprofundar pode ir às obras citadas; quem não quiser pode fiar-se em seu resumo do panorama das discussões. "O Antropoceno e o Pensamento Econômico", terceiro livro de sua trilogia sobre o impacto da humanidade na biosfera, não foge a esse padrão.


Para Zé Eli, a maioria dos manuais de economia tem um problema, que é o de ser excessivamente mecanicista e ignorar a física mais moderna, mais especificamente a termodinâmica e a entropia.

A forma extrativista de que nos valemos para produzir coisas inevitavelmente degrada o sistema. Podemos e devemos tentar minimizar nossas "pegadas", a de carbono, a da depleção dos recursos naturais e a do aumento de poluições diversas, mas não há mágica que permita fugir às leis da termodinâmica.

Se formos reescrever os livros-texto levando isso em conta e em consonância com a obrigação moral de legar um mundo habitável para as próximas gerações, então precisamos abandonar a ideia de que o crescimento econômico é a resposta infalível para todos os nossos problemas sociais.

Fatores ambientais precisam entrar nas equações ensinadas nos cursos de economia. É preciso desacoplar o bem-estar humano de um contínuo aumento da produção e do consumo.

Zé Eli reserva várias páginas para mostrar como esse desacoplamento pode ser feito. Não cai nem no pessimismo extremo dos que afirmam que o decrescimento já é inevitável, nem no otimismo panglossiano dos que dizem que o desenvolvimento tecnológico nos presenteará com uma saída indolor.


Basicamente, a responsabilidade é nossa —e estamos falhando.

Quando um elefante cai

Na minha última coluna chamei a atenção para a extraordinária ironia histórica que estamos testemunhando — a possibilidade de os Estados Unidos deixarem de ser um país de imigrantes, para se transformarem num país de emigrantes.

A partir do Salão Oval, na Casa Branca, Donald Trump vem arquitetando um gigantesco desastre político, social, diplomático e econômico, que ameaça a democracia, despreza a Justiça, hostiliza os imigrantes, e aterroriza os mercados. Como resultado, cresce o número de cidadãos pensando em emigrar.

A ciência tem sido das áreas mais atingidas pela criativa insensatez do novo governo de extrema direita. A acreditar num inquérito divulgado pela revista científica Nature, três em cada quatro cientistas americanos, ou estrangeiros radicados no país, ponderam abandoná-lo nos próximos meses.

Durante longas décadas os EUA se beneficiaram da instabilidade prevalecente noutros territórios para recrutarem cientistas, e assim desenvolverem os seus centros de pesquisa e de saber. Chegou a hora da vingança.

Instituições científicas europeias, mas também chinesas e indianas, estão articulando estratégias para atrair os cérebros descontentes. Nas revistas científicas prosperam os anúncios de emprego, provenientes de universidades europeias, e que prometem aos investigadores liberdade acadêmica e um ambiente de trabalho no qual eles não terão de se preocupar com censura e interferência política.

Operando no interior do extravagante caos deflagrado por Trump, e esforçando-se por lhe dar alguma coerência ideológica, estão movimentos ligados ao fundamentalismo cristão e ao supremacismo branco. Para esses movimentos, a academia é o inimigo. A ciência é o inimigo.

A ciência, já se sabe, prefere a democracia. Precisa de liberdade. Ainda assim, consegue prosperar em ambientes totalitários, desde que estes respeitem a racionalidade científica — a lógica cartesiana. É o caso da China, país que, embora sujeito a um sistema de partido único, de inspiração marxista, se vem afirmando como a grande potência tecnológica do nosso tempo. Já em teocracias violentas, como a que temos hoje no Irã ou no Afeganistão, e, pelo andar da carruagem, teremos em breve nos EUA, é muito difícil alcançar avanços científicos relevantes.

A ofensiva do governo Trump contra as instituições de pesquisa, universidades, museus, e outros centros de produção de conhecimento, é uma tragédia para os americanos, que serão rapidamente ultrapassados na corrida tecnológica — inteligência artificial, engenharia genética, energias limpas ou computação quântica.

Estamos assistindo ao vivo ao colapso americano. Espero que o espetáculo sirva como alerta global para os perigos da direita selvagem, que pretende substituir o pensamento científico pelo religioso; a diplomacia pelo bullying; o livre comércio pela agressão predatória.

Quando um elefante cai levanta muita poeira. Depois a poeira assenta e a vida continua.
José Eduardo Agualusa

Estás a ouvir, Canadá?

Tem piada como Trump ameaça castigar o Canadá e a União Europeia se estes se entenderem para enfrentar os EUA.

Olhem que boa ideia! Proponho já que alguns dos países ameaçados pelas tarifas de Trump assinem um acordo comercial de curto prazo, só até Trump acabar o mandato.

Já falta pouco para 2028. Porque não aproveitar para fazer uma enorme área de livre comércio em que todos possamos vender e comprar as mercadorias que produzimos, sem tarifas de qualquer espécie?



A febre tarifeira de Trump deixou de fora o Canadá, para ver se desnorteava os canadianos. Mas os canadianos são difíceis de desnortear – sobretudo quando um americano lhes diz que não podem fazer acordos com os europeus.

Para já, os canadianos são mais europeus do que alguns europeus. São bastante ingleses e bastante franceses. São muito bem-educados, pacíficos, valentes, honestos e pouco dados a bazófias e aldrabices. Enfim, não poderiam ser mais diferentes de Trump.

Incluamos também neste acordo de free trade e free love países que também sabem falar inglês, para que Trump possa perceber o que dizem. Como o Reino Unido, a Austrália e a Nova Zelândia.

O que é que os EUA têm para nos vender? Comida de carregar pela boca, má amêndoa, mau whisky, maus refrigerantes e automóveis feitos por facínoras. Façamos um breve detox de três anos, nem que seja para estimular as saudades até ao dia de 2028 em que Trump se for embora.

Não é essa a resposta mais eficaz a qualquer bully – isolá-lo?

Nem se tenha medo de prejudicar os nossos amigos americanos. Metade deles não pode com ele. Até agradecem, porque, mal ele se vá embora, poderemos reatar e reforçar as nossas relações comerciais com os EUA. Assim, os consumidores americanos notarão a diferença: muitos mais produtos europeus, e muito mais baratos.

Temos de agradecer a Trump a ideia. Se ele tem medo de que “o Canadá e a União Europeia se juntem para prejudicar os EUA”, é porque é isso que nos beneficiará. Juntemo-nos, pois.

sábado, 5 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Onde foi que erramos?

Diversos países têm um livro de referência ao qual os cidadãos, de tempos em tempos, recorrem para retemperar seu entendimento da sociedade em que vivem.

O exemplo hors-concours é, com certeza, a França, que compartilha com os Estados Unidos a obra-prima de Alexis de Tocqueville A Democracia na América (1835). O Brasil é um caso especial. Para identificar o “nosso” livro, devemos, primeiro, descartar a geração dos críticos da Constituição Republicana de 1891, quase todos medíocres e propensos a ouvir o canto de sereia de Mussolini. Depois da Segunda Guerra, sim, passamos a contar com autores do quilate de Victor Nunes Leal, Raymundo Faoro, Simon Schwartzman e José Murilo de Carvalho. Mas, sem demérito para nenhum desses, penso que o status de “clássico” cabe ainda a Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936 e diversas vezes reeditado.


Minha avaliação não se deve apenas à beleza da escrita e à vastidão do conhecimento histórico de Sérgio Buarque. Deve-se, a meu juízo, à atualidade da questão que ele suscitou. Não nos esqueçamos de que a obra a que me refiro data de meados dos anos 1930, época em que a maioria de nossa população vivia no interior e em pequenas comunidades e era quase toda analfabeta. Mesmo assim, o que Sérgio se indagou foi: por que o Brasil parecia incapaz de construir um verdadeiro Estado? Sim, caro leitor, eu escrevi “parecia”, mas talvez o verbo me esteja traindo, pois não descabe indagar se, finalmente, temos um verdadeiro Estado. Quem aterrissa em Brasília por certo avista, lá embaixo, o Palácio do Planalto, as conchas invertidas do Congresso e todos os demais edifícios que sugerem a pujante presença de um Estado. O saudoso mestre Hélio Jaguaribe costumava dizer que o Estado brasileiro era o mais moderno do Terceiro Mundo. Mas, nesses quase 90 anos, algo parece não ter se encaixado. Pior: a estagnação da economia é um claro reflexo da debilidade do Estado.

Raízes do Brasil parte de um valioso acerto. Ou pelo menos de um aparente acerto, ao descartar a monocultura, a escravidão, o patriarcalismo – ou seja, toda a cantilena da colonização ibérica. Mas logo reafirma que o principal impedimento à emergência do Estado são os grupos primários – leia-se, a família extensa, avessa a qualquer impessoalidade. Aqui, sem dúvida, começamos a pisar em terra escorregadia. “A solidariedade entre (grupos primários) – o autor prossegue – existe somente onde há vinculação de sentimentos mais do que relações de interesses – no recinto doméstico ou entre amigos” (Holanda, página 10). Essa premissa leva-o a tipificar a contraposição entre laços sentimentais e Estado remontando à tragédia Antígona, de Sófocles, escrita há mais de 2.400 anos. A razão dessa escolha é indicada nesta bela passagem: “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e ainda menos uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. É só pela transgressão da ordem doméstica e familiar que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade”. O problema é que Sérgio Buarque, embora invoque o antagonismo entre a heroína Antígona e Creonte, o rei de Tebas, para frisar o caráter universal da incompatibilidade entre os dois referidos, baseia praticamente toda a sua exemplificação histórica e cultural na história ibérica.

Descontem-se pequenos equívocos de leitura, como o que ocorre na página 101, em que Sérgio se refere a Antígona como irmã do rei Creonte. Na peça de Sófocles, ela não é irmã, mas futura nora, por ser noiva de Héron, filho de Creonte. Mais importante é o fato de Sérgio incorrer num equívoco que atribui a Max Weber, qual seja, o de dar um peso excessivo à esfera dos valores, em detrimento de fatores mais objetivos. Referindose à ideia de um Estado em sua plena configuração impessoal – já “depurado” de todo vínculo primário, Sérgio afirma: “A ideia de uma espécie de entidade imaterial e impessoal, pairando sobre os indivíduos e presidindo os seus destinos, é dificilmente inteligível para os povos da América Latina” (Holanda, página 138).

Ora, dessa formulação deveria decorrer que o Estado em sua plena configuração requer uma superestrutura normativa capaz de limitar quaisquer excessos que ocorressem entre os cidadãos, tal função não poderia ficar na dependência de uma ordem normativa apenas valorativa, e sim a uma ordem jurídica respaldada na força.

Saltemos para 2025. Hoje, uma enorme parcela da população vive em grandes metrópoles, não em comunidades rurais. A força de sentimentos de discórdia ou de concórdia como balizadores do comportamento social declinam de forma acelerada. A criminalidade não só aumenta, como se torna a cada dia mais bestial. E mesmo em Brasília, onde o esqueleto de um Estado é perceptível, o que mais vemos são interesses (não sentimentos) antiestatais.

Assim falou Zaratustra

“Para os puros tudo é puro”: 
– Assim fala o povo. 
– Mas eu vos digo: para os porcos tudo é porco!

Por isso os fanáticos e os que curvam a cerviz,
que também têm o coração inclinado, predicam
desta forma:
“O próprio mundo é um monstro lamacento!”

Porque todos esses têm o espírito sujo,
especialmente os que se não dão paz nem sossego
enquanto não veem o mundo por trás:
são os crentes no mundo posterior.

A esses lhes digo eu na cara, enquanto não
soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter também traseiro; isto é uma verdade!

Há no mundo muita lama; isto é
muita verdade! Mas nem por isso o mundo é um
monstro lamacento!

É sensato haver no mundo muitas coisas
que cheirem mal; o próprio asco cria asas e
forças que pressentem mananciais!

Até nos melhores há qualquer coisa repugnante, e até
o melhor é coisa que se deve superar!

Oh! meus irmãos! é sensato haver
muita lama no mundo!
Friedrich Nietzsche

'Éramos todos civis'

"Sou o único sobrevivente que viu o que aconteceu com meus colegas", diz Munther Abed, enquanto mostra fotos de seus colegas paramédicos no telefone.

Ele sobreviveu ao ataque israelense que matou 15 profissionais de emergência em Gaza na madrugada de 23 de março, ao se jogar no chão na parte de trás da ambulância, enquanto seus dois colegas que estavam na frente foram atingidos pelos disparos.

No ataque, cinco ambulâncias, um caminhão dos bombeiros e um veículo da Organização das Nações Unidas (ONU) foram atacados "um por um" na região de al-Hashashin, no sul de Gaza, informou a ONU.

Os 15 corpos foram recuperados de uma vala comum no último domingo.


"Saímos da base perto do amanhecer", Munther contou a um dos jornalistas freelancers que trabalham em Gaza.

Ele explicou como a equipe de emergência do Crescente Vermelho Palestino, da agência de Defesa Civil de Gaza e da agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA, na sigla em inglês) se reuniu nos arredores da cidade de Rafah, no sul do país, depois de receber informações sobre tiros e feridos.

"Por volta das 4h30, todos os veículos da Defesa Civil estavam a postos. Às 4h40, os dois primeiros veículos saíram. Às 4h50, chegou o último. Por volta das 5h, o veículo da agência [da ONU] foi alvo de disparos diretos na rua", diz ele.

O Exército israelense afirma que suas forças abriram fogo porque os veículos estavam se movimentando de forma suspeita em direção aos soldados sem coordenação prévia, e com as luzes apagadas. E também alega que nove membros do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina foram mortos no incidente.

Munther contesta esta versão.

"Durante o dia e à noite, é a mesma coisa. As luzes externas e internas ficam acesas. Tudo indica que se trata de um veículo ambulância que pertence ao Crescente Vermelho Palestino. Todas as luzes estavam acesas até que o veículo ficou sob fogo direto", diz ele.

Depois disso, ele contou que foi retirado dos escombros por soldados israelenses, preso e vendado. Ele afirmou que foi interrogado por mais de 15 horas antes de ser liberado.

A BBC apresentou as alegações dele às Forças de Defesa de Israel (FDI), mas ainda não obteve resposta.

"As FDI não atacaram aleatoriamente uma ambulância", afirmou o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, quando questionado em uma entrevista coletiva de imprensa, ecoando as declarações das FDI.

"Vários veículos descoordenados foram identificados avançando de forma suspeita em direção às tropas das FDI, sem faróis ou sinais de emergência. Os soldados das FDI abriram então fogo contra os veículos suspeitos."

Ele acrescentou que "após uma avaliação inicial, foi determinado que as forças haviam eliminado um terrorista militar do Hamas, Mohammed Amin Ibrahim Shubaki, que participou do massacre de 7 de outubro, junto a outros oito terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica".

O nome de Shubaki não consta da lista dos 15 profissionais de emergência mortos— oito deles eram paramédicos do Crescente Vermelho Palestino, seis eram socorristas da Defesa Civil e um era membro da equipe da UNRWA.

Israel não deu informações sobre o paradeiro do corpo de Shubaki, nem apresentou qualquer evidência da ameaça direta que os profissionais de emergência representavam.

Munther rejeita a alegação de Israel de que o Hamas pode ter usado as ambulâncias como fachada.

"Isso é totalmente falso. Todos nas equipes eram civis", diz ele.

"Não pertencemos a nenhum grupo militante. Nosso principal dever é oferecer serviços de ambulância e salvar vidas. Nem mais, nem menos."

Os paramédicos de Gaza transportaram os corpos de seus próprios colegas para os funerais no início desta semana. Houve um clamor de pesar e apelos por prestação de contas. Um pai enlutado disse à BBC que seu filho foi morto "a sangue frio".

As agências internacionais só puderam acessar a área para recuperar seus corpos uma semana após o ataque. Eles foram encontrados enterrados na areia junto às ambulâncias, o caminhão dos bombeiros e o veículo da ONU destruídos.

Sam Rose, diretor interino do escritório da UNRWA em Gaza, declarou: "O que sabemos é que 15 pessoas perderam a vida, que foram enterradas em covas rasas em um banco de areia no meio da estrada, tratadas com total indignidade e o que parece ser uma violação do direito humanitário internacional".

"Mas somente se realizarmos uma investigação, uma investigação total e completa, é que poderemos chegar ao fundo da questão."

Israel ainda não se comprometeu a realizar uma investigação. De acordo com a ONU, pelo menos 1.060 profissionais de saúde foram mortos desde o início do conflito.

"Sem dúvida, todos os funcionários de ambulância, todos os paramédicos, todos os trabalhadores humanitários dentro de Gaza neste momento se sentem cada vez mais inseguros, cada vez mais frágeis", afirma Rose.

Um paramédico segue desaparecido após o incidente de 23 de março.

"Eles não eram apenas colegas, mas amigos", diz Munther, enquanto passa nervosamente as contas de oração pelos dedos. "Costumávamos comer, beber, rir e fazer piadas juntos... Eu os considero minha segunda família."

"Vou expor os crimes cometidos pela ocupação [de Israel] contra meus colegas. Se eu não fosse o único sobrevivente, quem poderia ter contado ao mundo o que fizeram com eles, quem poderia contar sua história?"

As duas anistias do bolsonarismo

A medida que avança no STF o julgamento dos golpistas do bolsonarismo, cresce no Congresso e nas ruas a mobilização em torno de uma possível anistia. Buscando legitimar o perdão aos golpistas, a ultradireita foca seus esforços nos condenados pela intentona do 8 de Janeiro, estejam presos ou foragidos da justiça. É mais fácil tentar justificar o perdão a um bando de palermas manipulados pelos artífices do golpe do que isentá-los de responsabilidade.

Os palermas, contudo, não são meros inocentes úteis. São gente que, antes de invadir e destruir as sedes dos Três Poderes, acampou por semanas diante de instalações militares, clamando pelo cometimento do maior dos crimes, o golpe de Estado. Este é o maior dos crimes porque não se limita à transgressão pontual de alguma lei. Em vez disso, busca derrubar o próprio Estado de Direito, sem o qual nenhuma lei legítima vigora. Se tanto, após um golpe passa a viger uma pretensa legalidade, imposta por usurpadores que alegam legitimar a si mesmos graças a terem sido vitoriosos no emprego da violência para derrocar a ordem legal sob o pretexto de uma ilusória “causa justa”.


Ora, a palermada golpista não ocorreu diante das casernas à toa. Os ali reunidos pediam que militares saíssem de seus quartéis para efetuar uma violenta virada de mesa. Não fosse esse o objetivo, teriam se reunido noutro lugar – em frente a tribunais ou igrejas, por exemplo, apelando à justiça dos homens ou de Deus. Por isso mesmo, quando saí­ram da frente de um quartel em Brasília para assaltar os Três Poderes, pretenderam produzir o que não haviam conseguido após meses de acampamento golpista, uma ação militar. Caísse o governo recém-empossado nessa esparrela, teria decretado uma operação de garantia da lei e da ordem (GLO), convocando os militares a debelar o caos produzido justamente por aqueles que, por meses (e incitados a isso pelo bolsonarismo), imploraram pela intervenção castrense.

Aprovar a anistia para essa ­arraia-miú­da do golpismo significa normalizar o golpe de Estado, pois implica afirmar, por meio de um diploma legal, que o maior dos crimes não é coisa grave. Uma das várias falácias brandidas por Bolsonaro et caterva­ é que isso seria necessário para “pacificar o País”. Ora, mas quem é que perturbou e segue perturbando a paz neste País? Não é quem insistiu (e segue insistindo) em questionar sem qualquer fundamento factual a licitude das eleições? Havia um meio simples de manter o Brasil pacificado: o respeito à ordem legal, às instituições democráticas e ao resultado das urnas. Quem se negou a isso, perturbando a paz, foram Bolsonaro e sua gangue. Para eles, a pacificação vem do perdão a seus crimes, de modo que possam continuar a cometê-los. Que paz seria essa?

Contudo, se a anistia jurídica ainda é algo incerto (não me arrisco a dizer improvável), a anistia política já é um fato. Ela se dá pela normalização da ultradireita por políticos, partidos, órgãos de imprensa e analistas convencionais. Ora, quem numa eleição busca o apoio de Bolsonaro, coliga-se com ele e aparece a seu lado em atos de campanha, está o normalizando e, portanto, anistiando seu golpismo.

E como classificar quem, como Tarcísio de Freitas, sobe ao lado de Bolsonaro num palanque, clamando pela anistia aos golpistas do 8 de Janeiro e afirmando que o ex-presidente e seus colegas de banco dos réus são perseguidos políticos? Ora, trata-se de alguém em negacionismo democrático, seja por supor que todas as evidências colhidas pela investigação da Polícia Federal são invenções (ou, quem sabe, miragens), seja por acreditar que não há mal algum em tentar golpes de Estado. Da mesma forma, está em negacionismo quem, diante disso, afirma ser Tarcísio um político moderado ou de centro. Igualmente, normaliza-se a ultradireita, neste caso não em sua forma tosca e explícita, mas na pretensiosa e dissimulada.

Eis a gravidade não só de aprovar uma anistia legal para o golpismo bolsonarista (da arraia-miúda, das lideranças ou do médio escalão), mas de seguir aprovando a anistia política ao tratar como normal o extremismo direitista com modos. Acreditar em bolsonarismo moderado (isto é, em extremismo moderado, evidente oxímoro) equivale a anistiar politicamente o golpismo que ameaçou a democracia no passado recente e seguirá ameaçando-a no futuro próximo, se lhe for permitido. Ou alguém crê que, mesmo que o atual projeto de anistia aos golpistas naufrague no Congresso, outro não surgirá com a eleição de um aliado seu para a Presidência?

Quem são os invisíveis e ausentes no julgamento do 8 de Janeiro

Os aspectos mais retrógrados e sombrios da sociedade brasileira vieram à tona com a subversão olavo-bolsonarista em aspectos que nos perturbam e nos colocam diante daquilo que somos e não julgamos ser. Da cabeleireira ao general, todos expressam o fato de que o país está à beira do abismo de sua história. Ao menos um dos brasis que conhecemos está chegando ao fim. Resta saber qual deles.

O caso da cabeleireira sugere que uma inocente mãe de família, por ter participado de uma alegre excursão a Brasília e açulada por circunstantes movidos pelo mesmo espírito, depredou uma obra de arte, a escultura “A Justiça”, do artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti. Escrevendo-lhe no peito “Perreu, Mané” (sic).

Uma bandeira brasileira foi amarrada no pescoço da escultura, mais ou menos como o faziam as centenas de manifestantes que com o mesmo ímpeto invadiram e depredaram os palácios dos Três Poderes.

A ocorrência por ter mobilizado os contraditórios sentimentos que formam a personalidade nacional transformou-se em símbolo dessas contradições. Há nela todos os indícios do que não conseguimos ser, que manifestamos naquilo que achamos que somos, os patriotas que não somos.


Pátria somos quando estamos comprometidos com o nosso nós. O olavo-bolsonarismo nos dividiu e fragmentou, nos privou de pátria. Gente que vai ao governo americano pedir uma intervenção em nosso país, para assegurar interesses que não são os de nossa pátria, trai a pátria. Gente que ataca as instituições, que planeja assassinato de autoridades, é inimiga da pátria e inimiga de todos nós.

Gente, civil ou militar, que não sabe a diferença entre um botequim de Xiririca e os palácios que em Brasília abrigam as instituições, ao se comunicar por meio de palavrões, diz que por ela a pátria acabou. Porque pátria é também uma linguagem, a de uma unidade política de referência comum a todos. Religiosos, não só evangélicos que aceitam naturalmente essa linguagem são o quê?

O ato em torno da escultura de Ceschiatti reuniu e consagrou várias ignorâncias. A de não saber escrever. “Perreu”, em lugar de “perdeu”. A de achar que escultura é mera estátua e não saber que é obra de arte, obra de conhecimento e, nos países civilizados, de respeito e de admiração.

Não é estranho, pois, que os subversivos, imediatamente após a decisão do STF de transformar os acusados em réus, já têm montado o discurso de continuidade do golpe. Começam artimanhas para justificar as próprias ilegalidades com base na própria lei. Fragmentar o criminoso coletivo para diluir o delito na suposta multiplicidade de individualidades.

Justiça e Parlamento parecem propensos a cair na armadilha. O que aconteceu no dia 8 de janeiro de 2023 foi crime de multidão. Tem explicação sociológica e psicológica como crime de um sujeito único, um sujeito social e político. O próprio Código Penal atenua, mas não perdoa a participação nele.

Na imensa pesquisa que fiz sobre linchamentos no Brasil, crime de multidão, 2 mil casos num período de mais de 20 anos, ficou evidente que os participantes nesse tipo de violência coletiva têm consciência de que “linchar não é crime”, o que não é verdade.

Em seus depoimentos, os participantes da insurreição de 8 de janeiro de 2023 dão várias indicações de que se consideravam convocados por Bolsonaro e pelo Exército para depor o presidente eleito da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Aqueles acampamentos às portas dos quartéis só foram possíveis porque legitimados por diferentes modos de solidariedade e apoio de militares, de empresários e igrejas e seitas.

A multidão é um ente coletivo. Desde Gustave Le Bon, o médico e psicólogo que no século XIX estudou o surgimento e a ação desse sujeito social da modernidade, sabe-se que a personagem da turba é instrumento voluntário do que a turba faz. Ela se dirige com precisão aos objetivos e símbolos disseminados da ação coletiva.

Neste caso atual, a conspiração golpista desde 2021 era meramente indicial. A multidão subversiva da Praça dos Três Poderes revelou-lhe os meandros e os laços de unidade, o invisível tornou-se visível e deu sentido ao que já se vinha vendo.

Houve uma omissão na investigação. Muitos dos que foram presos e interrogados disseram que foram a Brasília orar pelo Brasil, mesmo as velhinhas com Bíblia nas mãos. De fato as filmagens registraram exaltados pentecostais orando aos berros dentro dos palácios, exorcizando o satanás do poder, isto é, das instituições democráticas.

A convergência das justificativas dos acusados indica um dos sujeitos invisíveis da mobilização e da violência, as igrejas e seus pastores. Não foram indiciados e continuam conspirando.