sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Brasil a(r)mado

 


Os caminhos para o crescimento e a equidade

O grande desafio do Brasil no início do seu terceiro centenário é definir um projeto nacional capaz de fazer frente à necessidade de se re-industrializar e de se colocar em sintonia com um mundo em transição para uma economia verde e de mudança de sua matriz energética. Identificar as vantagens comparativas do nosso país nessa nova realidade planetária passa a ser estratégica para o alcance do crescimento sustentado e a promoção da equidade.

Salta aos olhos o enorme potencial do país para ser um protagonista internacional na economia de baixo carbono. Um dos maiores especialistas da área, Eduardo Viola, do Instituto de Estudos Avançados da USP, identifica três fatores que podem nos dar esse status: 1) O Brasil é decisivo no ciclo mundial do carbono. 2) Também é decisivo na biodiversidade mundial. 3) Sua política ambiental, para o bem ou para o mal, impacta no mundo.


Agregue-se a isso outra vantagem comparativa. Somos um dos celeiros do mundo, o maior exportador de grãos, detentor de um agronegócio competitivo no mercado internacional devido aos seus ganhos de produtividade e de inovação. Seu polo dinâmico e moderno entende perfeitamente a necessidade de compatibilizar o agronegócio e o meio ambiente, até para manter sua posição privilegiada no mercado internacional. Cada vez mais os grandes mercados internacionais levam em conta a questão ambiental nas suas relações comerciais.

A mudança da matriz energética baseada em combustíveis fósseis para fontes renováveis é um caminho sem volta. Há uma corrida internacional para definir quem sai na frente. Um dos objetivos do “New Green Deal” do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, é recuperar o terreno perdido para a China, hoje o maior produtor mundial de painéis solar e de turbinas eólicas. Nove das dez maiores empresas do mundo produtoras de painéis solares são Chinesas. O país de Xi Jinping é também líder na geração de energia energética.

A Alemanha é outro país que iniciou sua “revolução verde” e hoje é o quarto maior país gerador de energia solar, apesar de sua desvantagem comparativa de uma radiação solar mais baixa do que a dos países do trópico como o nosso. Segundo o Portal Solar, o Brasil sequer faz parte da lista dos dez maiores país geradores de energia fotovoltaica. Só em 2020 os investimentos mundiais em energias renováveis, principalmente solar e eólica, foram de 303 bilhões de dólares e a nossa participação nesse bolo foi residual.

Além de contribuir para o enfrentamento das mudanças climáticas, a economia verde também traz vantagens econômicas e sociais quando se leva em conta uma nova modelagem na agricultura, nas florestas, na matriz energética, na mobilidade urbana e na produção de novos materiais substitutivos de produtos não biodegradáveis.

Segundo estudo liderado pela WRI Brasil e a New Climate Economy, em parceria com institutos de pesquisas como o COPPE/UFRJ, a economia verde, na comparação com o atual modelo de desenvolvimento, geraria mais dois milhões de empregos até 2030 e um valor adicional do PIB de RS 2,8 trilhões.

Há um filão imenso a ser explorado e nossas vantagens são muitas. O Brasil tem uma grande capacidade de produzir aço com baixa emissão de gás de efeito estufa por meio da utilização de madeira oriunda de reflorestamento, como já vem acontecendo na produção de ferro gusa. Segundo especialistas, como o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, a diminuição do impacto ambiental colocaria o nosso país em vantagem competitiva no mercado internacional.

O reflorestamento se liga com a indústria e o agronegócio, aumentando a fonte de renda do produtor ao alimentar um potencial mercado de carbono. Pesquisas já estão sendo feitas para a madeira oriunda do reflorestamento seja utilizada na construção. Suzano, maior empresa reflorestadora do mundo, tem como meta substituir, nos próximos dez anos, dez milhões de toneladas de plásticos pela produção de celulose.

A combinação da economia verde com o agronegócio sustentado é peça chave de um novo projeto de Nação que deve ser pensado como um projeto de estado e não de governo, gerando um modelo econômico de longo prazo e um processo de reindustrialização completamente diferente do modelo de substituição de importações, cujo esgotamento se deu na década de oitenta.

A necessidade da reindustrialização decorre também de um novo fenômeno mundial, como consequência da pandemia e da guerra da Ucrânia: a desglobalização. A dependência excessiva das cadeias produtivas globais deixou expostas as vulnerabilidades dos países em áreas estratégicas como saúde, energia e alimentos. Não se trata de voltar aos modelos “autóctones”, mas de diminuir essa dependência em áreas sensíveis. O Brasil não pode ficar de fora dessa tendência.

Desde meados da década de 80 a indústria de transformação vem diminuindo a sua participação no PIB nacional. Em 1985 representava cerca de 25% do nosso Produto Interno Bruto, hoje representa pouco mais 10%. Por outro lado, o agronegócio, mesmo com todo seus ganhos de produtividade e de representar 22% do nosso PIB, gera pouco valor agregado, pois exportamos bens primários, sem processá-los industrialmente. Para agregar novos valores, deveríamos dar o salto para a agroindústria, de forma competitiva.

No novo modelo de desenvolvimento, a indústria brasileira deverá se basear na inovação e em áreas nas quais temos mais vantagens competitivas. Inovação é o grande requisito para o salto de qualidade do nosso parque industrial.

Isto nos remete para o terceiro elemento estratégico de um novo projeto nacional: a educação. Não só no sentido da superação da pouca qualificação da nossa mão de obra, um dos fatores impeditivos de ganhos de produtividade da nossa indústria, mas também para a promoção da equidade e da cidadania. A rigor, é necessário um projeto nacional específico para a educação, tema de próximos artigos.

Rapidamente o Brasil pode superar sua condição de pária na questão ambiental e retomar a sua boa tradição de vanguarda na questão ecológica, desde a ECO 92. Mas há condicionantes, entre elas a de deixar de ser o quarto maior país emissor de carbono, manter suas florestas em pé e criar um consenso nacional em torno de um crescimento sinônimo de prosperidade e equidade.

Democracias sofrem erosão antes de ruir

Antes de ser eleito presidente, em 2018, Jair Bolsonaro exerceu sete mandatos na Câmara dos Deputados. Agora candidato à reeleição, ele se vê diante da possível primeira derrota eleitoral de sua carreira e sugeriu diversas vezes que poderia não reconhecer o resultado das urnas se perdesse. "Só Deus me tira da cadeira presidencial", declarou Bolsonaro, aparentemente ameaçando desafiar o próprio sistema democrático que o alçou ao poder.

Países mundo afora são ameaçados por potenciais autocratas, e o caminho para restaurar a democracia é longo e difícil, aponta uma análise feita pela DW.

O Brasil é um dos 12 países cujo sistema democrático está pendendo para a autocracia, de acordo com dados publicados pelo Instituto Variedades da Democracia (V-Dem), um grupo de pesquisa independente sediado na Universidade de Gotemburgo, na Suécia.

As outras 11 nações nessa condição são: Polônia, Níger, Indonésia, Botswana, Guatemala, Tunísia, Croácia, República Tcheca, Guiana, Maurício e Eslovênia.

Além desses 12 países onde crises democráticas ainda se desenrolam, pesquisadores do V-Dem identificaram outros 17 que perderam essa luta na década passada – incluindo a Turquia, as Filipinas e a Hungria.

Não apenas democracias de longa data estão se voltando para o autoritarismo, mas regimes autocráticos estão segurando com mais firmeza as rédeas do poder. Em países como Rússia e Venezuela, governos autoritários têm se consolidado e as liberdades civis vêm sendo reduzidas.

Apesar de hoje existirem mais países democráticos do que há 100 anos, o processo de democratização se estagnou globalmente no início dos anos 2000 — e o de autocratização interrompeu sua trajetória de declínio.


Geralmente, imaginamos a democracia como algo binário: ou um país é democrático ou não é. Na verdade, o conceito tem mais nuances. Pesquisadores do V-Dem classificam os países em quatro grandes categorias.

Em autocracias fechadas, como a China e o Catar, não há eleições multipartidárias para chefe do Executivo ou para o Poder Legislativo.

Em autocracias eleitorais, como a Turquia e a Venezuela, há eleições, mas não são livres ou justas.

Em democracias eleitorais, como o Brasil e a África do Sul, há eleições livres e justas, apesar de existir desigualdade e de algumas minorias não terem seus direitos resguardados.

Nas democracias liberais, como a Alemanha e a Suécia, há direitos garantidos para minorias e um sistema funcional de freios e contrapesos entre os Poderes.

Os 179 países classificados pelo V-Dem estão divididos quase igualmente entre autocracias eleitorais ou fechadas e democracias liberais ou eleitorais. Alguns dos países reconhecidos pelas Nações Unidas, como o Vaticano ou San Marino, não têm dados disponíveis.

Essa divisão, porém, pode esconder sutilezas importantes, de acordo com Bastian Herre, pesquisador da organização sem fins lucrativos Our World in Data que estudou a relação entre ideologias de governos e democracia durante seu doutorado em ciência política na Universidade de Chicago.

"Com essa divisão, sabemos que a Coreia do Norte e o Irã não são democracias e que o Chile e a Noruega são", diz Herre. "Mas não sabemos o quão mais democrático o Irã é em relação à Coreia do Norte, nem quão menos democrático o Chile é em relação à Noruega."

Herre diz que essas categorias não são necessariamente úteis para detectar recuos na democracia enquanto eles acontecem. "Se queremos ter um sistema de alerta, essas não são as medidas certas. Elas só iriam aparecer quando uma ruptura democrática já aconteceu", diz.

É aí que o Índice de Democracia Liberal (LDI, na sigla em inglês) entra em ação. Trata-se de um índice que varia de 0 até 1, e quanto mais alto ao valor, mais perto dos ideais da democracia liberal está um país.

No LDI, diferenças importantes entre países que estão em uma mesma categoria se tornam mais aparentes. O índice também permite que pesquisadores vejam como o estado da democracia em determinado país muda ano após ano. Isso é especialmente significativo porque, hoje, as democracias não costumam morrer do dia para a noite.

Tanques desfilando, tropas mobilizadas e a democracia indo embora com uma explosão (ou uma série de explosões) – golpes são imagens que geralmente vêm à mente quando pensamos em países que passaram a ter regimes autoritários.

Embora esse tipo de ruptura ainda aconteça, atualmente a marcha rumo à autocracia geralmente é mais gradual, com pequenas mudanças se acumulando até que reste muito pouco do antigo sistema.

Isso é o que aconteceu em alguns dos exemplos mais recentes de democracias estabelecidas que se tornaram autocracias. Essa dinâmica está acontecendo também em países que ainda continuam democráticos, mas que estão na mesma trajetória de declínio.

Os movimentos mais fortes em direção à autocracia costumam coincidir com a eleição de líderes iliberais, como Jair Bolsonaro, no Brasil, Andrzej Duda, na Polônia, Viktor Orbán, na Hungria, Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, e Narendra Modi, na Índia.

Entretanto, o pesquisador brasileiro Fernando Bizarro, que estuda instituições de governo na Universidade de Harvard, afirma que a ascensão de políticos antidemocráticos pode ser geralmente atribuída ao agravamento de problemas mais antigos.

"Para que esses líderes cheguem ao poder, você precisa de outros elementos, como uma crise dos partidos tradicionais", afirma. Um aumento da hostilidade política também pode estar entre as causas de crises democráticas, aponta. "A polarização cria o sentimento de que, como você detesta seu oponente, vale tudo para se livrar dele – inclusive destruir a democracia."

Pesquisadores do V-Dem identificaram 81 períodos em que países viveram quedas prolongadas na qualidade da democracia desde 1900 – e 50 destes aconteceram a partir dos anos 2000. Em aproximadamente 75% dos casos, a crise resultou em uma transição completa para um regime autocrático.

"Os atores que promovem a autocratização são geralmente os chefes do Executivo, e eles podem ter grandes maiorias parlamentares", diz Sebastian Hellmeier, um dos pesquisadores que analisou episódios de crise democrática. "No fim, é como se fosse uma 'morte por um milhão de cortes', com muitas mudanças pequenas que são difíceis de impedir até que seja tarde demais."

Além de simplesmente detectar quando uma crise na democracia aconteceu, a pesquisa feita por Hellmeier e seus colegas tenta entender por que algumas democracias entram em colapso e por que outras resistem.

Para essa análise, os pesquisadores estavam mais preocupados com a competitividade e a justiça das eleições. Assim, eles usaram uma ferramenta de análise um pouco diferente: o Índice de Democracia Eleitoral (EDI, na sigla em inglês). O EDI funciona quase como o LDI, mas sem considerar elementos como liberdades civis e freios e contrapesos entre os Poderes.

De acordo com os resultados, essa resiliência democrática pode acontecer em duas etapas diferentes. De início, países podem evitar que uma crise se instale. Isso é o que os pesquisadores chamam de "resiliência inicial". Países em que não ocorreram episódios de erosão democrática recentemente, como a Finlândia e o Canadá, são exemplos desse tipo de resistência.

A "resistência a rupturas", por sua vez, ocorre em países onde crises de qualidade da democracia se estabelecem, mas são contidas antes que o sistema político descambe para alguma forma de autocracia. Trata-se de um fenômeno mais raro que a resiliência inicial, mas que aconteceu recentemente em países como Equador e Coreia do Sul.

A análise destaca diversos fatores associados com cada tipo de resiliência. Desenvolvimento econômico, por exemplo, anda lado a lado com a resiliência inicial, mas parece não afetar o desfecho de uma crise uma vez que ela já tenha começado. Por outro lado, ter países vizinhos democráticos parece ser um fator importante para que um país consiga conter a crise antes de uma ruptura.

Uma tradição democrática mais longa e um Poder Judiciário independente estão associados com ambos os tipos de resiliência. De acordo com Hellmeier, a presença de instituições longevas faz com que os cidadãos pensem na democracia como o "único jogo possível", forçando os atores políticos a atuarem de acordo com as regras estabelecidas. Um Judiciário forte, por sua vez, pode agir como último bastião de defesa contra um líder que tente violá-las.

Em alguns casos, especialmente em países com instituições menos desenvolvidas, fatores externos também podem cumprir um papel significativo.

Em 2013, o presidente equatoriano Rafael Correa venceu sua terceira eleição consecutiva. Ele era um político popular, fortalecido pelo crescimento econômico e pelo aumento de políticas de bem-estar social. Seu governo, porém, também foi marcado pela redução de liberdades para a mídia, a oposição e a sociedade civil.

Correa era o tipo de líder que democracias têm dificuldades de controlar. Isso mudou quando o crescimento econômico estagnou, e o presidente viu seu governo mergulhado em um escândalo internacional envolvendo a construtora brasileira Odebrecht.

Correa decidiu não concorrer a mais uma reeleição em 2017, mas declarou apoio ao seu então vice-presidente, Lenin Moreno. Moreno venceu, mas rompeu relações com seu antigo mentor e posteriormente desfez algumas de suas mudanças constitucionais e regulações restritivas.

Melis Laebens, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade DE Oxford, diz que o caso equatoriano é um exemplo de um possível caminho de recuperação para democracias sob ameaça. Mesmo que líderes com pretensões autocráticas tenham um controle firme sobre a política doméstica, eventos internacionais inesperados, como crises econômicas e investigações sobre corrupção, podem deixá-los vulneráveis.

"No caso Odebrecht, o fato de a investigação der internacional fez muita diferença em termos de pressionar os aliados de Correa a mudarem de posição", diz a pesquisadora. "O que importa é que a oposição, quando tem oportunidade, mesmo que não seja capaz de remover o incumbente, consiga ao menos manter algumas fontes legítimas de poder."

O Equador também serve como um alerta sobre o que pode acontecer depois que o retrocesso democrático é aparentemente revertido. Desde então, o país convive com protestos que parecem não ter fim.

O atual presidente, Guillermo Lasso, acabou de sobreviver a uma votação de impeachment. Correa foi condenado por corrupção e deixou o país, mas ainda tem influências sobre política local e muitos apoiadores.

"Às vezes, um Poder Executivo excessivo pode simplesmente estar se alternando com uma fraqueza excessiva do governo", diz Laebens. "Esses eventos transformam a política no longo prazo. É raro que eles simplesmente desapareçam."

No Brasil, Bolsonaro enfrentará nas urnas o ex-presidente e atual favorito nas pesquisas Luiz Inácio Lula da Silva no próximo dias 2 de outubro. Caso o atual mandatário saia derrotado da disputa, analistas temem que o país seja palco de violência política e cenas como as vistas durante a invasão de apoiadores do ex-presidente americano Donald Trump ao Capitólio, em Washington.

Bolsonaro vem espalhando paranoia infundada sobre a confiabilidade do sistema eleitoral e, em recente entrevista ao Jornal Nacional, afirmou que respeitaria os resultados das urnas "desde que as eleições fossem limpas". No 7 de Setembro, o presidente citou episódios históricos de tensão política e ruptura democrática no Brasil, incluindo o golpe militar de 1964, e disse que a "a história pode se repetir".

Tarefa hercúlea

Diferente do novo rei da Inglaterra, Charles III, que iniciou no corre só agora aos 73 anos, Hércules, herói mitológico, filho de Zeus e Alcmena, teve doze trabalhos. Tá, foi mais punição do que propriamente trabalho, mas vá lá, até que trabalhou duro e com afinco para um semideus. E assim, sem férias remuneradas, décimo, vale alimentação, direito ao aviso prévio, seguro desemprego, nada. Era tipo um MEI.

O quinto trabalho de Hércules é um dos menos conhecidos e mais enigmáticos: limpar as estrebarias de Aúgias, que era filho de Poseidon, rei de Elis e um dos argonautas, e que, dizem os faladores da época (sempre existiram) tinha vínculos diretos com o centrão. Seu rebanho de gado (sempre existiram) era o maior de toda a Grécia. Porém, seus estábulos não eram limpos há trinta anos. Peço que não façam ainda comparações com a nossa política. Agradeço.

Essa tarefa difere das outras porque dessa vez não lhe é exigido força nem astúcia, e sim humanidade. Afinal, como poderia realizar um serviço tão mundano sem se contaminar com a sujeira acumulada? Aúgias redobra a dificuldade do trabalho, prometendo a Hércules que se fizesse a tarefa em apenas um dia seria recompensado com um décimo de seu rebanho, mas, se fracassasse, sua vida e seus bens seriam dele. Como um bom patrão.

Hércules vagou pelo reino observando carroças que passavam com cadáveres vítimas da pestilência do local. Notou também que dois rios, o Alfeu e o Peneu, corriam mansamente pela região. Então, reuniu os dois rios alterando-lhes o curso de tal maneira que eles passaram a correr por entre as estrebarias, limpando assim seus detritos em apenas um dia, sem que ele tivesse que sujar as mãos. Como um bom estagiário.

Quando Hércules obteve êxito improvável em seu quinto trabalho, escuta a seguinte resposta de Aúgias: “Os rios fizeram o trabalho, e não tu. Foi uma manobra para tirar meu gado, uma conspiração contra meu trono. Não terás recompensa. Vais daqui ou te mandarei decapitar”. Resumindo, foi golpe, siiim! Ou seja, o apego ao gado e ao trono vem lá da Grécia antiga. Não é, definitivamente, uma invenção nossa.

Agora, no próximo dia dois de outubro, uma tarefa hercúlea (sempre quis usar o termo, agradeço a oportunidade) se apresenta. Se não tivermos força e astúcia suficientes, que tenhamos a humanidade necessária para imaginarmos, como o também semideus Eduardo Galeano, “outra possibilidade de mundo, um que seja feito de alegrias miúdas e não de migalhas miseráveis”.

A mentira como base para a instalação de um regime fascista

Mais um ato falho de Bolsonaro. Na terça-feira, em conversa amigável no programa do Ratinho, do SBT, oferecida ao público como se fosse uma entrevista de verdade, Bolsonaro disse:

“Caiu assustadoramente no Brasil o número de casos de violência contra as mulheres”.

Assustadoramente? Se tivesse caído, não seria coisa para assustar a ninguém, mas para ser comemorado. Verdade que Bolsonaro é um analfabeto funcional que não sabe usar as palavras.


De resto, nesse caso, ele mentiu, outra vez. Bolsonaro mente com tamanha frequência e naturalidade que é incapaz de se dar conta disso. A mentira compulsiva é uma das armas do fascista.

Não caiu o número de casos de violência contra as mulheres no Brasil; pode ter caído, por variadas razões, o registro do número de casos. Bolsonaro não consegue esconder sua aversão às mulheres.

E, entre essas, às jornalistas, de preferência. Por que? Porque elas perguntam ou dizem o que ele não gostaria de responder nem de escutar. Sua misoginia contamina seus seguidores.

Segundo o Repórter sem Fronteira, no primeiro mês de campanha das eleições deste ano no Brasil, apareceram nas redes 2,8 milhões de posts com ofensas a jornalistas, 88% deles mulheres.

Bastidores da Rússia: sanções podem causar danos mais graves do que Putin espera

Bolsonaro ama a violência; sentee prazer com o sofrimento alheio. Não sentisse, não exaltaria a tortura de opositores da ditadura militar de 64. Lamentou que ela não tivesse matado mais gente.

Está no livro “O negócio de Jair”, da jornalista Juliana Dal Piva, o que Bolsonaro disse em entrevista à BAND em 1999 e nunca retificou:

“Através do voto, você não vai mudar nada neste país. Você só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para a guerra civil aqui dentro matando 30 mil pessoas”.

Nos seus quatro tristes anos de desgoverno, Bolsonaro começou a criar as condições para isso com o programa armamento para todos – ou melhor: para os que possam comprar armas.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Pensamento do Dia

 


Incomunicável

O saudoso comunicador da TV Abelardo Chacrinha Barbosa, especialista em cunhar bordões, adorava dizer que “estava ali para confundir, não para explicar”. Sem saber ele profetizou nosso presente de hoje. E olha que naquela época o celular ainda não havia aprisionado corações e mentes como agora. Nos nossos dias até a respiração é digitalizada. No metrô, nas ruas, na bicicleta, todos olham para a telinha. É mais fácil você encontrar alguém pelas redes sociais mesmo que ela esteja passando por você no mesmo momento, na rua.

Contemplação é uma palavra que saiu de circulação, assim como várias outras que o povo deixou de falar e sobretudo, de escrever. É claro que para escrever você precisa ler e a linguagem quer a internet nos trouxe e estabelece como base é a linguagem cifrada, resumida, abreviada. Lemos pouco, todos sabemos e mesmo no celular, as mensagens podem ser faladas e não escritas. A preguiça e a falta de hábito em escrever transformou a mensagem de áudio na maneira mais comum de se comunicar. A língua se simplifica, se empobrece, e comunica através do básico, sem espaço para a interpretação ou para a abstração.

Pois é, abstração. Chegamos ao núcleo do problema. Abstração e abreviação não costumam viver bem juntas. Uma requer a abertura da mente, a colocação no espaço e no tempo, a permissão para a mente viajar e elaborar. A outra é a jato e tudo que é a jato pode ser perigoso. Um texto escrito no celular tem tantas abreviações e simplificações que fica difícil de entender. O texto falado é repetitivo, ilustra sem abstrair o que está sendo dito. Repete frases e diálogos que retratam um fato, sem a conclusão da interpretação pessoal e da abstração que se resume a um conceito criado. É mais rico e facilita a expressão.


Estou falando de coisas que a juventude viciada na telinha nem tem ideia do que seja. A leitura é fundamental. Começa nos livros, nos jornais e revistas, nos computadores, celulares e tvs e mesmo cifrada precisa alimentar a imaginação. Não pode só passar a informação abreviada que interessa. Não pode também só repetir o que já vinha sendo dito nas redes e, principalmente, não pode alimentar as mentiras.

Essa simplificação favorece o não aprofundamento. Fulano disse isso. Ok, mas de onde ele tirou? Não interessa. O que interessa é a rede de mentiras que se estabelece com um intuito muito claro. Parafraseando o Chacrinha, essa gente está ai para confundir e não para informar.

Um país que tem mais celulares que gente poderia até se dar bem se houvesse um projeto de desenvolvimento social usando o poder do aparelho no bom sentido. Mas de uns tempos pra cá o que vemos é um país cada vez mais alienado, mais conduzível, mais influenciável que chega ao cúmulo de se dizer imbrochável. A maioria dos apoiadores do presidente concorda sem saber o que significa. Essa virilidade tóxica se estabelece porque não se pensa sobre ela. Não se abstrai. Não abstraímos sobre a barbárie que vivemos e o estrago que ela pode causar.

Mas ainda dá tempo. Precisamos voltar para a escola, abrir nossos livros, trocar ideias e pensar, refletir, mesmo que o pensamento vá sem direção, sem destino, apenas solto no ar. Já experimentou? É muito bom.

O macho fascista

Itália, 1938. “O homem fascista é pai, marido e soldado.” Esse slogan publicitário circula como propaganda oficial de Mussolini. A frase estampa pôsteres e outros materiais do regime.

Um desses pequenos cartazes pode ser visto numa cena do filme Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare), de Ettore Scola. A produção de Carlo Ponti, lançada em 1977, narra o encontro improvável de um radialista (Marcello Mastroianni) e de uma dona de casa (Sophia Loren) que, no domingo de 8 de maio de 1938, ficam sozinhos num prédio de apartamentos em Roma. Naquele dia, Hitler e alguns de seus ministros visitam a cidade. Todas as outras pessoas que moram no edifício, vestidas com suas melhores roupas, foram aplaudir o Führer e o Duce, que discursam diante do Monumento Nacional a Victor Manuel II. O radialista não se sente parte dos festejos, uma vez que, além de intelectual, é gay (não é pai, nem marido, nem soldado). A dona de casa tem que lavar roupas e, aos poucos, percebe que o fascismo só lhe reserva um papel subalterno. Ela deseja desejar outra vida.


Brasil, 2022. Aqui não existe fascismo propriamente dito, mas traços do fascismo estão em toda parte. A misoginia autoritária é um desses traços. Falocentrismo armado. O ódio aos intelectuais é outra peculiaridade da mesma doutrina, assim como a repressão às artes, o desprezo pelas universidades e os ataques incessantes contra a imprensa.

Qualquer cidadão que adote a profissão de jornalista se vê sujeito a perseguições e intimidações. Se esse cidadão for uma cidadã, seus riscos são redobrados. A mentalidade instalada no poder abomina repórteres com a mesma fúria que oprime a liberdade feminina. Autoridades do governo federal e seus apoiadores dirigem insultos às jornalistas mulheres, em ofensas repletas de insinuações de cunho sexual. Para eles, a condição feminina é um handicap: na mulher, o desejo é doença, fraqueza e déficit de virtude, ao passo que, no homem, o desejo é vigor, coragem e força. Para o macho fascista, a mulher que deseja e é livre padece de alguma demência contagiosa. Deve ser combatida, desqualificada, achincalhada – e queimada, como bruxa. Nada o apavora mais que uma cidadã que pense por si e não se dobre. Esse é o sujeito que bate em mulher, se não com as mãos, com palavras ultrajantes.

O homem fascista, o que é? Um mau pai, um marido insensível e um soldado covarde. Quando se aventura na política, é uma fraude. Machista.

O Brasil não é mais o mesmo

Faltando três semanas para o primeiro turno das eleições, deixando um pouco de lado a dança das pesquisas, podemos perceber que mudanças políticas importantes estão tomando corpo na nossa realidade política. Embora a disputa, como quase sempre ocorre, esteja polarizada entre personalidades, é muito difícil compreender o que estamos vivendo se nos ativermos apenas aos perfis dos personagens. Estas eleições transcendem, e muito, a estreiteza dos dois candidatos principais.


As manifestações do dia 7 de setembro foram impressionantes em termos de espontaneidade e mobilização. Não me lembro de ter visto antes tanta gente na Esplanada em Brasília. Em São Paulo, na avenida Paulista a quantidade de gente reunida foi tão grande quanto a dos maiores eventos políticos ali já realizados. No Rio de Janeiro foi a mesma coisa. Podemos discutir indefinidamente se os eventos foram apropriados para a data, mas o fato político, que não se pode questionar honestamente, é que Bolsonaro é capaz de mobilizar mais gente do que qualquer outro político brasileiro neste momento atual.

As nossas eleições, para dizer a verdade, foram sempre um pouco frias em termos de participação popular. Nunca testemunhei grandes concentrações espontâneas ou comícios que chamassem a atenção. Na verdade, nunca conhecemos eleições duramente polarizadas em que vencer era uma questão existencial, a ponto de cada eleitor se tornar um ativista ou um militante.

Os atos de 7 de setembro revelam a emergência de um sólido movimento conservador, organizado e militante, de abrangência nacional, que se apoia na figura de Bolsonaro, mas não se resume a ele e certamente poderá sobreviver a ele. O que isto tem de importância para o futuro do país é que este movimento não pode ser simplesmente derrotado porque ele reflete realidades humanas e sociais que não se apagam com uma derrota, ou com uma vitória eleitoral. A pluralidade democrática determina que este movimento, suas aspirações e interesses, sejam assimilados e reconhecidos nas políticas de Estado e de governo, sob pena de nos tornarmos uma sociedade dividida e um país paralisado.

Em contraposição à emergência conservadora, é difícil não admitir que as chamadas forças progressistas perderam muito de sua força e do apelo que tiveram no passado. O próprio PT é hoje muito menor do que o Lula. A levar em conta as pesquisas de opinião, o PT está encolhendo em todo o país e está presente nas eleições para Governador em pouquíssimos Estados, na maioria deles relegado a segundo plano. Até onde se pode ver, a candidatura favorita de Lula, apesar da vantagem clara nas pesquisas, não tem grande poder de mobilização popular, parecendo encarnar hoje uma espécie de maioria silenciosa, exatamente o contrário do que sempre foi. Em grande medida ele é o único recurso para derrotar o Bolsonaro, um instrumento de defesa, não um projeto de futuro.

Se este quadro é verdadeiro, o que temos pela frente é um grande desafio. Está ficando claro que o sistema partidário ruiu inteiramente e já não realiza minimamente a mediação política entre a sociedade e o Estado. Um sistema político numa sociedade complexa e cheia de carências não pode se apoiar apenas em personalidades que, por natureza, são efêmeras. Os movimentos, por sua vez, não são substitutos perfeitos dos partidos políticos, porque carecem da organização e da estrutura que são necessárias para a ação política permanente. E as maiorias silenciosas não tem estrutura ou comando para assegurar seu protagonismo.

Continuo convencido de que estamos diante de duas escolhas insatisfatórias. Nenhuma delas reúne as condições para liderar nosso pais para a mudança e o progresso. A política está dividida hoje em lados que não se reconhecem e que, portanto, não podem cooperar entre si.

Nada disto, no entanto é destino. A história é contingente e tudo pode mudar. Este é o Brasil que temos. Antes de mudá-lo precisamos reconhecê-lo e aceitá-lo como ele é. Este sempre será o primeiro passo se quisermos transformá-lo.

Receita para uma guerra civil

Quando a guerra civil começou em Angola, em 1975, eu tinha 15 anos. Vivi aqueles dias com mais euforia do que inquietação. Acreditava, como a maioria dos angolanos, que a guerra era um episódio terrível, mas que depressa passaria, e que depois disso viveríamos dias luminosos num país independente e mais justo.

Lembro-me que dançávamos enquanto os morteiros explodiam, e balas tracejantes riscavam as noites. Os jovens militantes dos diferentes movimentos saíam das festas para fazer a guerra e voltavam ao amanhecer para terminar as cervejas, como se os combates fizessem parte da folia.

Logo a euforia acabou, mas os tiros não. Finalmente, a 22 de fevereiro de 2002, o líder da guerrilha, Jonas Savimbi, foi morto em combate. A bala que o matou foi a última a ser disparada. Contudo, já Angola estava destruída.

Não consigo imaginar pior tragédia para um país do que uma guerra civil. Uma guerra civil começa antes que alguém dispare o primeiro tiro, e as suas consequências prolongam-se décadas para além do último morto.

A receita para uma guerra civil exige, em primeiro lugar, a criação de uma cultura de exclusão. Regra geral, os movimentos em confronto não defendem posições novas. A novidade é a agressividade com que as defendem e a convicção de que não existe conciliação possível entre os diferentes projetos.


Amigos de toda uma vida zangam-se. Famílias separam-se. As mães proíbem os filhos de conversar sobre política à hora das refeições. Emergem líderes messiânicos, com um discurso de ódio, eventualmente exibindo armas de fogo, enquanto exploram velhos rancores partidários e fraturas sociais.

Logo surgem os primeiros assassinatos e atentados com motivação política. O Estado vai-se esboroando e perdendo terreno.

Muitas vezes, a cultura de exclusão, que serve de gatilho à guerra, é importada, obedecendo a interesses ou estratégias de outros países. Foi o que aconteceu em Angola, com os Estados Unidos e a União Soviética a combaterem no terreno através não só dos movimentos angolanos, mas também de tropas sul-africanas, cubanas e zairenses, bem como de mercenários portugueses, ingleses e americanos.

No limite, uma guerra civil pode destruir completamente um país, apagando-o dos mapas, como aconteceu com a Iugoslávia. Viajando pela Sérvia ou pela Croácia anda é possível encontrar pessoas que continuam a reconhecer-se como iugoslavos: “Antes de a guerra começar”, disse-me um desses órfãos, “eu nem sequer sabia que a minha família era sérvia ou que os meus vizinhos eram muçulmanos. Éramos todos iugoslavos, falávamos a mesma língua e tínhamos um destino comum”.

É possível identificar no momento que se vive hoje no Brasil alguns dos ingredientes necessários para o desastre. Em épocas assim, a primeira vítima costuma ser o bom senso.

Quero acreditar, porém, que ainda exista espaço para um diálogo o mais aberto possível, de forma a permitir a convergência de todas as forças políticas e da sociedade civil que defendam a paz e a democracia. Ao longo das próximas semanas assistiremos a um combate entre construtores de pontes e construtores de muros. Pobre Brasil se os construtores de muros ganharem.

O Brasil, um país amado no mundo inteiro pela sua cultura, pela sua alegria e generosidade, não pode permitir que o ódio se alastre e triunfe.

José Eduardo Agualusa (O Globo, 12.10.2018)

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

De qual Brasil falamos?

O da Colônia ou o do Império, o do republicanismo elitista ou o democrático, o do sertão ou o do litoral, o dos aristocratas ou o Brasil polarizado e sectário de hoje?

No meu trabalho, distingo um Brasil lido como sociedade (costumes e cultura) de um Brasil representado como nação e Estado nacional. O primeiro seria governado por hábitos do coração, conforme diriam Rousseau e Tocqueville; o segundo, administrado por uma legião de leis e procedimentos jurídicos.

Nossas sociologias e politicologias falam do Brasil como Estado nacional e pouco do Brasil como um sistema de valores. E menos ainda dos diálogos, dilemas e paradoxos dos encontros entre esses Brasis.

Um encontro responsável pela emergência de estadolatria, estadomania e estadopatia. Sem perceber que não há governo sem sociedade e que povo e governo não podem ser inimigos, numa polarização em que um “Estado forte” (ou uma “Nova República”) deveria corrigir uma sociedade velha e fraca, a solução tem sido a adoção de “estadolatrias” messiânicas. Despotismos, entretanto, destinados a se desfazer porque os hábitos relacionais do “Brasil sociedade” acabam englobando e criando uma inércia histórica promotora de retornos aterradores, das tais leis que não pegam.


Uma visão enviesada do Brasil engendra batalhas entre costumes não escritos (mas estabelecidos) e leis explícitas (destinadas a corrigir a índole de tais costumes). Ela conduz ao que estamos revivendo hoje: um momento eleitoral que seria de futuro nos leva ao passado justamente porque há um impasse entre o “Brasil nação” e o “Brasil das simpatias populistas”. O Brasil das impessoalidades legais encontra seu limite no Brasil das pessoalidades do “você sabe com quem está falando?” e das “leis que não pegam”.

O Brasil dos personalismos avessos à igualdade é mais resistente que o das normas que valem para todos. Mas como ter normas valendo para todos sem realizar uma crítica honesta do peso das obrigações familísticas? Não para liquidá-las, mas seria possível neutralizá-las escolhendo os valores democráticos da liberdade sem esquecer a igualdade.

Um primo é por mim nomeado ministro. Devo tratá-lo como primo ou como ministro? Ele se comportará como dono do meu governo ou como um funcionário? Se houver um conflito entre o ministério e o governo, ele agirá como primo ou como ministro?

Essas são questões que jamais discutimos francamente, que foram providencialmente esquecidas por nossa agenda democrática, que teria de passar a limpo o Brasil da casa pelo Brasil impessoal da rua e vice-versa.

A dificuldade com a democracia tem a ver com esse dilema entre o poder insuspeito da simpatia pessoal, que tende ao segredo e à corrupção, e a demanda da liberdade igualitária, que tende ao mundo público da impessoalidade e do anonimato — esses pilares do dinamismo democrático.

Em relação ao tamanho imenso da tarefa de implantar democracias em sociedades relacionais e patriarcais, há a dificuldade de perceber que nossos amados ou odiados “políticos” não vieram de Marte, de Pasárgada, do inferno ou do céu, mas são nossos amigos, filhos e compadres. As acusações quase sempre irascíveis com que os tratamos só podem ser compreendidas quando nos damos conta do isolamento com que situamos o “político” num campo em que o “poder” — como uma ponte desgastada entre o pessoal e o impessoal — tem a elasticidade das simpatias e conveniências. Do ganhar brutalmente muito dinheiro até o dobrar (ou driblar) legalismos para favorecer os amigos.

Com isso, entramos no terreno da impunidade, mas isso é, como diria o poeta, uma outra história...

Na bala, na faca, na fome

O ódio destilado contra Dona Ilza por um “empresário do agronegócio” prova até onde pode chegar um covarde embeiçado pelo genocida. O sujeito ameaçou a sobrevivência da faxineira ao deixar gravado em vídeo que, se votar em Lula, não terá sua marmita semanal. A marmita alimentava três famílias.

O vídeo, claro, viralizou. A fome se alastra no País, aterroriza, comove. Dona Ilza teve a solidariedade do ex-Presidente Lula e ganhou campanha nacional de ajuda financeira. O sujeito desumano virou a cara da campanha do Capitão. Maldades, ameaças, crimes. Fraudes. O tal “empresário” recebeu 15 parcelas da ajuda emergencial que o mito jura ter destinado aos “mais carentes”. Dinheiro vivo, ao gosto da família Bolsonaro.


Violência extrema, de Norte a Sul do País. Recente pesquisa Quaest, contratada pelo Monitor do Debate Político da USP, traz, nesse sentido, dado estarrecedor: um a cada cinco eleitores considera “justificável utilizar violência caso o lado opositor vença a eleição presidencial”.

Tragédia anunciada. O negacionista se alimenta do ódio. Por ele, a situação pode sair do controle. Há casos chocantes de fúria selvagem. Em Confresa, Mato Grosso, o pedreiro bolsonarista Rafael Silva de Oliveira desfechou 15 golpes de faca no olho, na testa e no pescoço de seu colega Benedito Cardoso dos Santos, eleitor de Lula. Rafael confessou o crime, contou que tentou decapitar a vítima com um machado.

Apenas na primeira metade de 2022, a violência política no Brasil deixou 40 mortos. O Observatório da Violência Política e Eleitoral, da UERJ, constata que, de janeiro a junho de 2022, ocorreram 214 casos de violência, número 4,5 vezes maior do que o total de 47 casos identificados no mesmo período de 2021.

Nas eleições municipais de 2020, entretanto, houve 380 casos de violência, no terceiro e quarto trimestres. Ou seja, estamos no pico da selvageria. Desgovernados, perturbados e desregrados. Átimo comandado por um homem obcecado em mentir, mentir e mentir, e fazer arminha com seu órgão genital.

A violência crescente chegou ao TSE na forma de pedidos de reforço policial pelos Estados: no primeiro turno das eleições de 2014, 279 cidades contaram com o apoio da força federal. Em 2016, 467. Em 2018, 513 municípios tiveram o reforço policial. Em 2020, subiu para 613. Veremos o balanço final de 2022.

O que mudou desde 2002, 2006, 2010, 2014? A eleição do incapaz e odiento alterou profundamente o padrão da violência eleitoral no País. Felippe Angeli, gerente do Instituto Sou da Paz, diz que até anos atrás, as brigas eram consequência de questões paroquiais e disputas territoriais”. Não são mais em sua maioria.

“Com a eleição de Jair Bolsonaro, os autores dos atentados não são mais coronéis da política, justiceiros de uma comunidade carioca. Hoje, a violência é cometida pelo “cidadão de bem”, no sentido do cidadão comum. É o cara que passa na frente de uma festa de aniversário e decide atirar contra o aniversariante”.

Foi assim, em sua festa de aniversário, que o tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, Marcelo Arruda, foi friamente assassinado pelo bolsonarista declarado, o policial Jorge Paranho. Dois meses depois, e Paranho, preso por homicídio duplamente qualificado, ainda não foi ouvido. A defesa de Paranho entrou com pedido de habeas corpus. A Justiça negou, alegando justamente a proximidade das eleições. Alivio em Foz do Iguaçu.

Para registro: num raro fato político, Lula anda com colete à prova de bala.

Vamos parar de falar do coiso.

Bolsonaro, coveiro da rainha

O sujeito que disse não ser coveiro, para justificar sua incompetência diante de uma crise mundial, vai atravessar o Atlântico para enterrar a rainha da Inglaterra. Em mais de dois anos da pandemia que deixou quase 700 mil mortos no país, Jair Bolsonaro nunca visitou um hospital abarrotado de pessoas à beira da cova. Jamais demonstrou solidariedade a uma família brasileira. Mas vai se aboletar com líderes mundiais, com quem nem se dá, para tentar ganhar votos.

Prestes a ser derrotado nas urnas, segundo projeção das pesquisas, ele se comporta como o típico calhorda que bate na mulher e, na iminência de ser abandonado, diz que se arrepende. Mentira. São dois anos da mais profunda indiferença, de negacionismo, de negligência com o povo do país que desgoverna.


Cada vez que percebe o cenário negativo, Bolsonaro recua um pouco para logo mostrar sua natureza nefasta. Embora a reprovação a sua atuação contra a Covid tenha caído, como mostrou o Datafolha no começo de abril, 46% ainda lembravam que tivemos uma gestão criminosa.

Esse é o foco do "arrependimento", tentar reverter a imagem de genocida estampada em sua cara. Se fazer de coitado para conquistar votos de gente distraída e muito mal-informada. Ainda que jure terem sido uma "aloprada" as declarações dadas por ele sobre mortos e sobre a falta de vacina, faltaria ao presidente se posicionar sobre outras três dezenas de episódios em que se pronunciou com completo desdém e irresponsabilidade.

As lembranças da tragédia da Covid podem estar cada vez mais mergulhadas em nossa vontade de deixar no passado um período de desesperança, mas não nos esqueçamos de quem é Jair Bolsonaro. Fascista, golpista, encrenqueiro, machista, racista, falso cristão, pilantra. Bolsonaro não está arrependido de ser o que é, está desesperado ao ver a conta da destruição causada por ele chegar.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Brasil do 'Bem'

 


O povo da rachadinha no palanque em nome de Deus

A turma da rachadinha, os bolsonaristas e agregados, embora desconheçam, intuem que toda crueldade tem origem no medo. Não devem ser leitores de Lúcio Sêneca, o tutor de Nero, mas é possível que desconfiem que o homem é tão miserável quanto ele imagina que seja.

Bolsonaro parece temer a prisão. Pastores como Silas Malafaia, a perda das celestiais isenções de impostos — na pessoa física e na jurídica. É uma boa dupla. Enquanto o primeiro libera as armas, o segundo evoca Jesus Cristo, mas escamoteia o Sexto Mandamento.

O que o pastor responderia ao axioma proposto dias atrás pelo capitão: se você (mulher) está trocando um pneu e surge um bandido, prefere ter na bolsa a (lei) Maria da Penha ou um revólver? Difícil essa?


Pergunto: assassinato sempre será pecado? Por certo, disse Jesus, que seguia a pobreza voluntária e mantinha notória indiferença pelas posses materiais. Daí que, se um despreza o Sexto Mandamento e outro (com seus pares) usufrui a riqueza (e financia trio elétrico com o troco agraciado pelas isenções), vale lembrar Marco Aurélio, o imperador romano: para ele, são os atos, e não palavras vãs, que configuram um bom ou mau homem.

Com o apreço divino de Bolsonaro pelas coisas materiais, apoiado por um discurso de incentivo ao ódio (“extirpar” a esquerda, como vociferou o capitão, não é um dos mandamentos), percebe-se outra traição por quem se diz cristão. Já no Velho Testamento se condena a violência, e o sempre citado Jesus Cristo refutava a premissa de um golpe ser retribuído com outro golpe.

As palavras e os atos de Bolsonaro, incensados por evangélicos de extrema direita, se contradizem os ensinamentos cristãos, também estão inseridos numa prática política de intimidação e assédio copiados, pela ordem, de Mussolini e Hitler. Curiosamente, ambos ditadores que contaram com a simpatia da Igreja.

Para ter certeza de que as palavras de Lev Tolstói a Mahatma Gandhi foram prenúncios de tragédias — a Igreja dos homens e seus exércitos seriam traições às palavras de Cristo, acreditava o escritor russo em carta ao hindu que libertaria a Índia do jugo britânico.

Inspirado por Tolstói, Gandhi praticaria a não resistência em favor da não violência, o pacifismo como ferramenta política contra tiranos e algozes. Como bem sabe Bolsonaro, Wittgenstein e Proust também foram bafejados pelo tolstoísmo. Vale lembrar que Tolstói acabou excomungado (!) pela Igreja Ortodoxa Russa em 1905, por causa de seu livro “Ressurreição” e pelas críticas ao belicismo do czar Nicolau II, além de sua pregação contra o Estado. Ao contrário dos pastores bolsonaristas, abriu mão de suas posses (amplas fazendas e direitos autorais de seus livros).

É o oposto do que se vê na troca de apoio entre o capitão e seus apoiadores evangélicos. Enquanto o mandatário mente, os religiosos forjam ensinamentos bíblicos em benefício próprio para uma plateia assustada pela miséria e ignorância.

Sem perceber, com a pantomima ou palhaçada no 7 de Setembro, os bolsonaristas reviveram o dia em que Mussolini recebeu Hitler em Roma, em 1938. A multidão acorreu com bandeiras fascistas em saudação ao desfile dos dois ditadores. Ali se ouviram gritos de “Deus, pátria e família”. As amantes de Mussolini não foram convidadas para a festa.

O clima de apoiadores com a bandeira brasileira às costas, nas ruas de São Paulo e Rio, pareceu sair do filme “Um dia muito especial”, de Ettore Scola, que retrata a visita.

A obra mostra uma Roma quase vazia e fanatizada, ora com seus cidadãos trancados em casa, receosos da violência da turba fascista, ora em disparada para o desfile. É quando, naquele ar nebuloso, retorna ao conjunto de apartamentos o professor vivido por Marcello Mastroianni e se encontra com a dona de casa interpretada por Sophia Loren. Ele é um homossexual discreto, e ela uma mulher sexualmente frustrada, casada com um membro fanático das forças de Mussolini.

Ela não foi ao desfile porque não simpatiza com as ideias do ditador, tampouco com os métodos de suas milícias que correm as periferias e matam a pauladas ou tiros seus adversários de esquerda (lembre: “extirpar a esquerda do Brasil”). O professor também se mantém longe da parada militar porque os fascistas e os nazistas já começavam a matar homossexuais.

Foi o que ocorreu no 7 de Setembro. Como na Roma fascista, um palanque cheio de militares ao lado de tipos investigados pela Justiça. Enquanto na imensa maioria das casas brasileiras se encontrava uma população que optou pelo pacifismo e pela não violência como forma de denunciar sua ojeriza aos incréus que cobram dízimos ou rachadinhas. Como o diabo gosta.

Psicologia do fascismo brasileiro

Ao optar por viver apartado da vida em comunidade com formação acadêmica, em vez de estudar mais, o idiota se julga superior a esse coletivo desprezado por ele. Transmite essa intolerância ou negacionismo científico para seus descendentes e a compartilha com os amigos de sua “câmara de eco”.

Idiotas sem consciência de fazer mal a si mesmo e, pior, aos outros, não conseguem aceitar pontos de vista, ideias ou culturas divergentes de sua doutrina, imposta pela família, tradição religiosa e pela ideia deturpada de pátria como submissa às Forças Armadas. Estas receberam a missão constitucional exclusiva de defesa do território nacional, mas isso não é compreendido por gente inculta sem esforço educacional.

Os reacionários reagem contra, pois têm muita dificuldade de compreensão da diversidade pela qual é formado o mundo. Quem pensa diferentemente seria um doutrinado, seja pela “esquerda ateia e personificação do diabo”, seja pela Ciência, pesquisada em Universidades públicas, todas dominadas por essa “gente cumunista”.

Anacrônicos, imaginam pensar por si só ao compartilhar os memes de maneira robótica. O idiota acha estar bem defendido de questionamentos se ficar fechado na sua “bolha”.

Resolvi testar essas hipóteses, de maneira impressionista, ao assistir depoimentos apresentados na reportagem da BBC News Brasil, intitulada “Eleitores de Bolsonaro falam sobre governo e corrupção”.

Típicos velhos reacionários, moradores de Copacabana, todos vestidos de verde-e-amarelo, disseram o seguinte. “Eu me considero bolsonarista porque não vejo outro político. O Brasil não tem outro”. “Eu não sou bolsonarista, mas sim um patriota”. “Eu não sou bolsonarista, sou sim contra a corrupção!” “Eu sou bolsonarista, sou pela família, por tudo normal, isto é, é a gente ter moral, ter princípios”.

Uma jovem com aparência de classe média alienada afirmou ter votado no dito cujo, “apesar de seu jeito agressivo contra as mulheres, para o Partido dos Trabalhadores não voltar ao Poder”. Outra idosa reconheceu: “ele é temperamental, ele fala tudo aquilo vindo à sua mente, e a gente estranha gente autêntica. Assusta um pouco, mas ele é maravilhoso!”

Disse uma agressiva: “Ele é franco, como eu…” Disse um macho: “Sempre foi assim mal-educado, não vejo por qual razão ele mudar no cargo de presidente”.

Uma adepta fervorosa clama: “Ele fez o possível dele fazer. Houve a pandemia… Mas ele acertou mais em relação a errar”. Um jovem não vê alternativa: “Ele hoje é o cavalo encilhado para a gente montar”. Outro condescendente justifica sua escolha: “Ele reduziu o preço da gasolina e concedeu o auxílio para melhorar muito a vida no dia a dia”.

Outra senhora reconhece: “eu não entendo nem acompanho política, mas sou contra qualquer tipo de corrupção, se for provado a da sua família, tem de punir”. Um senhor mais popular acha “a família dele está envolvido em ‘rachadinhas’, assim como todos os políticos. O mal dele é passar a mão na cabeça dos filhos. Quanto a ele, não vejo nada!”.

Uma jovem fantasiada também de bandeira brasileira é perguntada sobre corrupção nos ministérios e na família do presidente desqualificado – e não consegue responder: “Hum… [ri]” Você vai votar nele?! “Lógico, aquele cara… como chama mesmo?” Alexandre Moraes. “Ah, é um homem super-corrupto! Tudo feito pelo presidente ele derrubou, soltou culpados, prendeu inocentes”.

Outra idosa afirma: “Quando a gente sai em passeata, pedindo liberdade, não diz respeito ao presidente, mas sim à ditadura da Suprema Corte”. Sem resposta para o argumento contraditório da repórter, ela só pergunta: “Você é comunista?!”.

Esta é uma amostra do comportamento político desse nicho da classe média. É base de apoio para emergência do fascismo tupiniquim (sic) sobre a ordem armada na base de ameaças de violência e assassinatos. Para o compreender vale reler o livro de Wilhelm Reich Psicologia de massas do fascismo (Martins Fontes, original de 1933).

Acusar o comportamento conservador das massas de “irracional”, de constituir uma “psicose de massas” ou uma “histeria coletiva” em nada contribui para jogar luz sobre a raiz do problema e compreender a razão pela qual essa fração de classe social respalda o discurso fascista. Afinal, o neofascista ataca os interesses coletivos e reserva, para seu clã, uma riqueza imobiliária, adquirida com dinheiro vivo/sujo.

Wilhelm Reich localiza a expressão da psicologia de massas do fascismo em uma certa forma de família, tendo no centro a repressão à sexualidade, e no caráter da “classe média baixa”. Para ele, a repressão à satisfação das necessidades materiais difere da repressão aos impulsos sexuais. A primeira leva à revolta, enquanto a segunda impede a rebelião. Isto porque a retira do domínio consciente, “fixando-a como a defesa da moralidade”.

O próprio recalque do impulso é inconsciente, não visto pela pessoa como uma característica de seu caráter. O resultado, segundo Wilhelm Reich, “é o conservadorismo, o medo a liberdade, em resumo, a mentalidade reacionária”.

Essa amostra de classe média (carioca/paulistana/brasiliense) não é composta dos únicos a viver esse processo conservador, mas ela vive de maneira singular. Imagina-se estar acima dos outros (adversários a serem extirpados) e representarem a nação. Praticam a defesa das barreiras sociais, impostas como garantia da sobrevivência da autoestima. Temem a quebra da ordem na qual se equilibram, precariamente, e, por isso, pedem controle e repressão dos pobres e negros desejosos de emergência social.

Alinhados à defesa militar da “nação” (pátria armada), adotam o “moralismo” quanto aos costumes, ligado a preconceitos, à misoginia, à homofobia, ao racismo etc. Arrematam esse discurso com a defesa da “família” e o clamor pela “ordem”. O comportamento fascista não pode ser reduzido à manipulação e à cilada, mas encontra-se sim na consciência imediata e nas relações afetivas quanto ao reconhecimento ou acolhimento por gente inculta também vestida de verde-e-amarelo.

O ato de acolher expressa uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, uma atitude de inclusão social, ocorrida também em templos evangélicos, mesmo sob a cobrança de dízimos para obter essa sensação de reconhecimento individual. Essa atitude implica na busca de estar em relação presencial com muita gente parecida consigo, seja em aparência, seja em posse de poucas ideias inteligentes.

Daí a leviana substituição do Datafolha, pesquisa feita com método científico de amostragem, pelo Datapovo, visualização impressionista de manifestações de rua. Tanto à direita, quanto à esquerda, muitos imaginam essas serem decisivas para o resultado eleitoral, como a minoria ruidosa em espaços delimitados em algumas poucas metrópoles expressasse uma vontade reprimida de a maioria silenciosa gritar em praça pública. Aquela não representa esta, pelo contrário, a maioria quer paz e não violência!

Uma amostra visual é uma pequena porção de alguma coisa dada para ver, mas não é suficiente para provar ou analisar determinada qualidade do todo. A visão holista necessita de uma amostra representativa para o comportamento coletivo de todo o eleitorado ser avaliado ou julgado a priori.

Em metodologia da pesquisa quantitativa, uma amostra é um conjunto de dados coletados e/ou selecionados de uma população estatística por um procedimento definido. Como a população é muito grande, fazer um censo ou uma enumeração completa de todos os valores existentes é impossível rapidamente com poucos recursos.

A amostra geralmente representa um subconjunto de tamanho manejável. Há método científico para se fazer inferências ou extrapolações da amostra à população. No entanto, a massa ignara não o (re)conhece.

A melhor forma de evitar viés ou não representatividade, presente em manifestações de rua, é selecionar uma amostra aleatória, também conhecida como amostra probabilística. Nela, cada membro individual da população tem uma chance conhecida e diferente de zero de ser selecionado como parte dela.

A amostragem estratificada, como é a sociedade, consiste em dividir ou estratificar a população em um certo número de subpopulações. Elas deveriam não se sobreporem, de modo a extrair uma amostra de cada estrato. Mas este tipo de amostragem nem sempre é usado, quando métodos diferentes de coleta de dados são aplicados em diferentes partes da população.

Na amostra da Datafolha, a faixa até dois salários mínimos é 51%, enquanto a preferência pelo PT é 27%. Isso representa 42,2 milhões de votos. Minha “tese”, hipótese defendida com dados, é a esperada vitória de Lula, apesar da melhora do rival, se dar basicamente por causa dos pobres simpatizantes do PT. Nem todas as pesquisas eleitorais fazem amostra por partido de preferência. Um fator eleitoral decisivo é o PT ser o único partido com massa popular simpatizante. Esta é a verdadeira razão do “antipetismo”. Ressentimento.–
Fernando Nogueira da Costa

Um país diante de tempos conturbados

Por volta do meio-dia, Claudio A. partiu com sua família para defender a pátria. "Contra a corrupção, a ideologia de gênero e comunismo." O advogado de 38 anos, que não quer que seu nome completo seja publicado, é do bairro de classe média da Glória, no Rio de Janeiro. Ele foi com a esposa e dois filhos para Copacabana.

Na quarta-feira passada, houve ali um evento de celebração do bicentenário da Independência do Brasil. Como o país se encontra em plena campanha eleitoral, Jair Bolsonaro anunciou sua participação no ato, e consequentemente milhares de fãs do presidente partiram para o bairro à beira-mar – entre eles a família de Claudio.

A família A. se espreme no metrô em meio a uma multidão bolsonarista. As camisetas dos bolsonaristas são estampadas com slogans como "Meu partido é o Brasil" ou "Sou soldado a serviço do Brasil". Na hora de descer em Copacabana, a família de Claudio se perde na multidão, mas no metrô o pai ainda disse acreditar fortemente que o povo apoia Bolsonaro. "Ele vai ganhar as eleições." E passageiros gritaram em coro: "Mito, mito, mito". Soava como uma ameaça.


Copacabana está cheia de bolsonaristas. O movimento de ultradireita conseguiu sequestrar mais um símbolo nacional: o Dia da Independência. E o estragou para o resto do país. De carros de som ao longo da praia, candidatos ultradireitistas gritam: "Sou a favor da liberação da posse de armas". Outros discursantes exigem a destituição imediata do Supremo Tribunal Federal (STF). Faixas pedem um golpe militar para que Bolsonaro possa governar sem interferências. Num cartaz enorme, há uma foto da jornalista Vera Magalhães e a frase: "Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro".

Sabiamente, aqueles que consideram isso tudo repugnante se mantiveram longe de Copacabana. Somente em uma varanda foi pendurada uma toalha vermelha com o rosto de Lula, que é encarada com olhares cheios de ódio. Então gritos são direcionados à toalha: "Lula ladrão, seu lugar é na prisão!"

Quando Bolsonaro chega e discursa de um trio elétrico, o mais notável é que ele não diz nenhuma palavra sobre os 200 anos da Independência. Nenhuma palavra sobre a história do Brasil, sobre as dificuldades do passado que foram superadas ou sobre a longa trajetória do maior país da América Latina. Bolsonaro não diz nada conciliador ou unificador, não há nenhum gesto em direção daqueles que não o aprovam. Na memória desse Dia da Independência fica o coro do "imbrochável" entoado em Brasília, onde Bolsonaro fez um discurso parecido pela manhã.

"Sim, Bolsonaro é rude", afirma em Copacabana uma senhora loira de 55 anos. "Mas ele é verdadeiro e não é ladrão." Ela considera uma campanha da imprensa as várias suspeitas de corrupção envolvendo a família do presidente.

No auge de seu discurso, Bolsonaro xinga Lula de "quadrilheiro de nove dedos". "Esse tipo de gente tem que ser extirpado da vida pública." Bolsonaro fala numa eleição entre "o bem e o mal" e pede que a multidão esteja pronta para defender a pátria. Não são convocações para violência disfarçadas. São convocações para violência, caso ele não ganhe as eleições. Bolsonaro pressente que não haverá golpe militar quando ele perder. Por isso, agita seus apoiadores, muitos dos quais agora possuem armas. Eles devem provocar caos e violência após as eleições para que surjam as condições para Bolsonaro declarar estado de emergência.

Bolsonaro alega defender a família tradicional, Deus, a pátria e aliberdade. A senhora loira de Copacabana também acredita "fortemente" nessas palavras. Mas não acredita que as urnas eletrônicas sejam seguras. "Eu acho que pode haver manipulação para Bolsonaro não ganhar." Indícios para essas alegações, ela não tem, são apenas "um pressentimento", diz.

Depois do discurso de Bolsonaro, o evento se dispersa. Foi uma forte demonstração de poder do bolsonarismo: antidemocrática, irracional, agressiva, ameaçadora.

No mesmo dia, o deputado estadual bolsonarista Delegado Cavalcante discursou no 7 de Setembro diante de centenas de "cidadãos de bem" em Fortaleza. Ele prometeu: "Se não ganharmos nas urnas, ganharemos na bala. Na bala!" Não se engane, isso não é apenas retórica. Pensamentos se transformam em palavras, e palavras se transformam em atos. Nos seus 200 anos de Independência, o Brasil está na iminência de tempos conturbados.

Agora é tarde, Bolsonaro, Inês é morta

Do alto da sua vasta experiência como presidente do Ibope, hoje Ipec, Carlos Augusto Montenegro, 68 anos de idade, vaticinou na semana passada:

“A campanha demorou quase dois anos. Mas acabou. Falta o eleitor pôr o voto na urna”.

Referia-se à campanha para presidente da República travada por Lula e Bolsonaro que oficialmente começou apenas em meados de agosto último, mas extraoficialmente desde que o Supremo Tribunal Federal, em março do ano passado, tornou Lula elegível.

Embora não tenha dito na ocasião, a amigos Montenegro confidencia que Lula sucederá a Bolsonaro. Quanto às eleições para os governos estaduais, só agora elas começarão a esquentar, e as para o Senado só serão decididas nos últimos 10 dias.

Faltam menos de três semanas para a abertura das urnas eletrônicas, que se dependesse de Bolsonaro teriam sido trocadas pelo voto impresso. Na prática, duas semanas, de vez que na última, a levar-se em conta a história, nada acontece de relevante.

Bolsonaro jogou seu último ruidoso trunfo na mesa ao trazer de Portugal o coração de Dom Pedro a pretexto de celebrar o Bicentenário da Independência do Brasil. Ao contrário do que imaginava, o coração não voltou a bater por ele.


Seus showmícios militarizados atraíram 64 mil pessoas no Rio, menos de 40 mil em São Paulo, e longe de 100 mil em Brasília. De toda forma, serviram para turbinar sua propaganda eleitoral no rádio e, especialmente, na televisão. E renderam mais o quê?

A justiça eleitoral proibiu o uso das imagens. E duas pesquisas consecutivas do Ipec, uma da semana passada e outra desta, atestaram que a onda de entusiasmo bolsonarista morreu antes de chegar à praia. Não foi um tsunami, mas uma marolinha.

Tanto barulho por tão pouco. Para se eleger no primeiro turno, sem disputar o segundo, um candidato precisa ter 50% dos votos válidos (excluídos nulos, brancos e indecisos) mais um voto. Lula tinha 50% na semana passada. Agora, 51%.

Oscilar para cima é sempre melhor do que oscilar para baixo. Bolsonaro prepara-se para pôr em cena um novo plano: comparecer aos funerais da rainha Elizabeth II em Londres, e à abertura em Nova Iorque de mais uma Assembleia Geral da ONU.

Quem sabe, os brasileiros não o socorrem depois de vê-lo em Londres entre os maiores líderes mundiais, e de ouvi-lo falar em Nova Iorque… Dizem que seu isolamento internacional é brutal. Bolsonaro quer provar que isso é mentira dos adversários.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Brasil capa de revista

 


Que país é este do ‘imbrochável’?

Sei que é uma pergunta batida, mas, na comemoração dos 200 anos da Independência, é razoável perguntar que país é este.

O que nos diz o presidente Bolsonaro subindo no palanque e gritando que é imbrochável? O que nos diz a multidão que o segue? O que nos diz o presidente comparando sua mulher com a do rival?

Estava meio perdido na melancolia de um desfile militar quando comecei a fazer essas perguntas. Como um velho delirante, concluí que estávamos quase prontos para participar da Segunda Guerra Mundial, embora até para isso os equipamentos tenham me parecido um pouco obsoletos.

No momento em que um grupo fez acrobacias com a própria arma, jogando-a para o ar, rodando-a febrilmente, pensei: isso é uma preparação para dias difíceis, um trampo diante dos sinais luminosos de trânsito?

Na verdade, enquanto Bolsonaro exorcizava aos gritos seu pavor da castração, a fumaça das queimadas na Amazônia começava a chegar a São Paulo. O cheiro de fumaça sempre teve um efeito de despertar consciências adormecidas, sobretudo quando acompanhado de calor.


Pouca coisa acontece. O presidente beijou sua mulher na boca, a conselho do marketing. Alguns vizinhos saem vestidos de amarelo com a bandeira do Brasil. Ignoram que um grande porta-aviões, o São Paulo, navega pelo mundo, carregado de substância tóxica, o amianto, e é rejeitado por todos. Venderam para a Turquia, e os turcos se uniram na praia com cartazes: não somos a lixeira do mundo. O Reino Unido proibiu que navegasse pelo Estreito de Gibraltar, e ele segue, solitário e rejeitado, para consumir-se no seu veneno, possivelmente na Ilha das Cobras.

A fumaça de nossa futura ruína continua chegando às metrópoles do Sudeste, e tudo o que presidente pode nos dizer é isto: “Sou imbrochável”. É preciso mais que um pênis ereto para debelar a fome de 33 milhões de brasileiros e a insegurança alimentar de quase 100 milhões.

Segundo Vinícius, o homem que diz sou não é, o homem que diz “tou” não “tá”. Os gritos de Bolsonaro na esteira de um desfile militar não são de bom-tom, diante do grande consumo de Viagra pelas Forças Armadas.

Na véspera desse espetáculo, em Copacabana, se você gritasse o clássico “joga a chave, meu amor”, era capaz de cair um paraquedista. Trazidos pelo vento, andaram se embaralhando nas árvores. Felizmente ninguém se feriu, exceto a confiança na eficácia de nossa defesa.

Foi um aniversário melancólico, se olhamos para a saúde de nossa democracia arranhada por Bolsonaro, para a integridade de nossas florestas, ardendo com o sopro de uma política destruidora.

Continuo acompanhando a saga de nosso porta-aviões, vendido como ferro-velho, expulso de portos onde tenta ancorar, e fico me perguntando se isso não é o Brasil ou apenas o símbolo de uma época, cujo veneno ainda pode durar muito e demandará paciência e habilidade para neutralizá-lo.

Se nosso limitado presidente fosse visitar Paquetá e refletir um pouco sobre José Bonifácio, certamente aprenderia alguma coisa — pelo menos a lição elementar de que a História não é algo que se conquiste com um pênis ereto, mas uma construção coletiva que nos tornou uma das importantes nações econômicas do mundo, com suor, coração e cérebro. Em outras palavras, estamos comemorando 200, e não 12 anos. Não é possível que, agitando tanto a Bíblia, ainda não tenha deparado com a “Primeira carta de Paulo aos Coríntios”: quando era menino, pensava como menino, agia como menino, agora que sou grande, dei de mão às coisas de menino.

No fim da tarde, quando saí para o trabalho, vi alguns vizinhos de Ipanema voltando com suas bandeiras, um pouco desfeitos pelo calor da primavera que se anuncia.

Pensei: este é o nosso país. Sobreviveremos ou seremos destruídos por uma política suicida? Duzentos anos de independência, não imaginava conviver com essas dúvidas. Muito menos, que estadistas como José Bonifácio fossem substituídos por fanfarrões gritando “imbrochável, imbrochável”.