quinta-feira, 15 de setembro de 2022

O macho fascista

Itália, 1938. “O homem fascista é pai, marido e soldado.” Esse slogan publicitário circula como propaganda oficial de Mussolini. A frase estampa pôsteres e outros materiais do regime.

Um desses pequenos cartazes pode ser visto numa cena do filme Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare), de Ettore Scola. A produção de Carlo Ponti, lançada em 1977, narra o encontro improvável de um radialista (Marcello Mastroianni) e de uma dona de casa (Sophia Loren) que, no domingo de 8 de maio de 1938, ficam sozinhos num prédio de apartamentos em Roma. Naquele dia, Hitler e alguns de seus ministros visitam a cidade. Todas as outras pessoas que moram no edifício, vestidas com suas melhores roupas, foram aplaudir o Führer e o Duce, que discursam diante do Monumento Nacional a Victor Manuel II. O radialista não se sente parte dos festejos, uma vez que, além de intelectual, é gay (não é pai, nem marido, nem soldado). A dona de casa tem que lavar roupas e, aos poucos, percebe que o fascismo só lhe reserva um papel subalterno. Ela deseja desejar outra vida.


Brasil, 2022. Aqui não existe fascismo propriamente dito, mas traços do fascismo estão em toda parte. A misoginia autoritária é um desses traços. Falocentrismo armado. O ódio aos intelectuais é outra peculiaridade da mesma doutrina, assim como a repressão às artes, o desprezo pelas universidades e os ataques incessantes contra a imprensa.

Qualquer cidadão que adote a profissão de jornalista se vê sujeito a perseguições e intimidações. Se esse cidadão for uma cidadã, seus riscos são redobrados. A mentalidade instalada no poder abomina repórteres com a mesma fúria que oprime a liberdade feminina. Autoridades do governo federal e seus apoiadores dirigem insultos às jornalistas mulheres, em ofensas repletas de insinuações de cunho sexual. Para eles, a condição feminina é um handicap: na mulher, o desejo é doença, fraqueza e déficit de virtude, ao passo que, no homem, o desejo é vigor, coragem e força. Para o macho fascista, a mulher que deseja e é livre padece de alguma demência contagiosa. Deve ser combatida, desqualificada, achincalhada – e queimada, como bruxa. Nada o apavora mais que uma cidadã que pense por si e não se dobre. Esse é o sujeito que bate em mulher, se não com as mãos, com palavras ultrajantes.

O homem fascista, o que é? Um mau pai, um marido insensível e um soldado covarde. Quando se aventura na política, é uma fraude. Machista.

O Brasil não é mais o mesmo

Faltando três semanas para o primeiro turno das eleições, deixando um pouco de lado a dança das pesquisas, podemos perceber que mudanças políticas importantes estão tomando corpo na nossa realidade política. Embora a disputa, como quase sempre ocorre, esteja polarizada entre personalidades, é muito difícil compreender o que estamos vivendo se nos ativermos apenas aos perfis dos personagens. Estas eleições transcendem, e muito, a estreiteza dos dois candidatos principais.


As manifestações do dia 7 de setembro foram impressionantes em termos de espontaneidade e mobilização. Não me lembro de ter visto antes tanta gente na Esplanada em Brasília. Em São Paulo, na avenida Paulista a quantidade de gente reunida foi tão grande quanto a dos maiores eventos políticos ali já realizados. No Rio de Janeiro foi a mesma coisa. Podemos discutir indefinidamente se os eventos foram apropriados para a data, mas o fato político, que não se pode questionar honestamente, é que Bolsonaro é capaz de mobilizar mais gente do que qualquer outro político brasileiro neste momento atual.

As nossas eleições, para dizer a verdade, foram sempre um pouco frias em termos de participação popular. Nunca testemunhei grandes concentrações espontâneas ou comícios que chamassem a atenção. Na verdade, nunca conhecemos eleições duramente polarizadas em que vencer era uma questão existencial, a ponto de cada eleitor se tornar um ativista ou um militante.

Os atos de 7 de setembro revelam a emergência de um sólido movimento conservador, organizado e militante, de abrangência nacional, que se apoia na figura de Bolsonaro, mas não se resume a ele e certamente poderá sobreviver a ele. O que isto tem de importância para o futuro do país é que este movimento não pode ser simplesmente derrotado porque ele reflete realidades humanas e sociais que não se apagam com uma derrota, ou com uma vitória eleitoral. A pluralidade democrática determina que este movimento, suas aspirações e interesses, sejam assimilados e reconhecidos nas políticas de Estado e de governo, sob pena de nos tornarmos uma sociedade dividida e um país paralisado.

Em contraposição à emergência conservadora, é difícil não admitir que as chamadas forças progressistas perderam muito de sua força e do apelo que tiveram no passado. O próprio PT é hoje muito menor do que o Lula. A levar em conta as pesquisas de opinião, o PT está encolhendo em todo o país e está presente nas eleições para Governador em pouquíssimos Estados, na maioria deles relegado a segundo plano. Até onde se pode ver, a candidatura favorita de Lula, apesar da vantagem clara nas pesquisas, não tem grande poder de mobilização popular, parecendo encarnar hoje uma espécie de maioria silenciosa, exatamente o contrário do que sempre foi. Em grande medida ele é o único recurso para derrotar o Bolsonaro, um instrumento de defesa, não um projeto de futuro.

Se este quadro é verdadeiro, o que temos pela frente é um grande desafio. Está ficando claro que o sistema partidário ruiu inteiramente e já não realiza minimamente a mediação política entre a sociedade e o Estado. Um sistema político numa sociedade complexa e cheia de carências não pode se apoiar apenas em personalidades que, por natureza, são efêmeras. Os movimentos, por sua vez, não são substitutos perfeitos dos partidos políticos, porque carecem da organização e da estrutura que são necessárias para a ação política permanente. E as maiorias silenciosas não tem estrutura ou comando para assegurar seu protagonismo.

Continuo convencido de que estamos diante de duas escolhas insatisfatórias. Nenhuma delas reúne as condições para liderar nosso pais para a mudança e o progresso. A política está dividida hoje em lados que não se reconhecem e que, portanto, não podem cooperar entre si.

Nada disto, no entanto é destino. A história é contingente e tudo pode mudar. Este é o Brasil que temos. Antes de mudá-lo precisamos reconhecê-lo e aceitá-lo como ele é. Este sempre será o primeiro passo se quisermos transformá-lo.

Receita para uma guerra civil

Quando a guerra civil começou em Angola, em 1975, eu tinha 15 anos. Vivi aqueles dias com mais euforia do que inquietação. Acreditava, como a maioria dos angolanos, que a guerra era um episódio terrível, mas que depressa passaria, e que depois disso viveríamos dias luminosos num país independente e mais justo.

Lembro-me que dançávamos enquanto os morteiros explodiam, e balas tracejantes riscavam as noites. Os jovens militantes dos diferentes movimentos saíam das festas para fazer a guerra e voltavam ao amanhecer para terminar as cervejas, como se os combates fizessem parte da folia.

Logo a euforia acabou, mas os tiros não. Finalmente, a 22 de fevereiro de 2002, o líder da guerrilha, Jonas Savimbi, foi morto em combate. A bala que o matou foi a última a ser disparada. Contudo, já Angola estava destruída.

Não consigo imaginar pior tragédia para um país do que uma guerra civil. Uma guerra civil começa antes que alguém dispare o primeiro tiro, e as suas consequências prolongam-se décadas para além do último morto.

A receita para uma guerra civil exige, em primeiro lugar, a criação de uma cultura de exclusão. Regra geral, os movimentos em confronto não defendem posições novas. A novidade é a agressividade com que as defendem e a convicção de que não existe conciliação possível entre os diferentes projetos.


Amigos de toda uma vida zangam-se. Famílias separam-se. As mães proíbem os filhos de conversar sobre política à hora das refeições. Emergem líderes messiânicos, com um discurso de ódio, eventualmente exibindo armas de fogo, enquanto exploram velhos rancores partidários e fraturas sociais.

Logo surgem os primeiros assassinatos e atentados com motivação política. O Estado vai-se esboroando e perdendo terreno.

Muitas vezes, a cultura de exclusão, que serve de gatilho à guerra, é importada, obedecendo a interesses ou estratégias de outros países. Foi o que aconteceu em Angola, com os Estados Unidos e a União Soviética a combaterem no terreno através não só dos movimentos angolanos, mas também de tropas sul-africanas, cubanas e zairenses, bem como de mercenários portugueses, ingleses e americanos.

No limite, uma guerra civil pode destruir completamente um país, apagando-o dos mapas, como aconteceu com a Iugoslávia. Viajando pela Sérvia ou pela Croácia anda é possível encontrar pessoas que continuam a reconhecer-se como iugoslavos: “Antes de a guerra começar”, disse-me um desses órfãos, “eu nem sequer sabia que a minha família era sérvia ou que os meus vizinhos eram muçulmanos. Éramos todos iugoslavos, falávamos a mesma língua e tínhamos um destino comum”.

É possível identificar no momento que se vive hoje no Brasil alguns dos ingredientes necessários para o desastre. Em épocas assim, a primeira vítima costuma ser o bom senso.

Quero acreditar, porém, que ainda exista espaço para um diálogo o mais aberto possível, de forma a permitir a convergência de todas as forças políticas e da sociedade civil que defendam a paz e a democracia. Ao longo das próximas semanas assistiremos a um combate entre construtores de pontes e construtores de muros. Pobre Brasil se os construtores de muros ganharem.

O Brasil, um país amado no mundo inteiro pela sua cultura, pela sua alegria e generosidade, não pode permitir que o ódio se alastre e triunfe.

José Eduardo Agualusa (O Globo, 12.10.2018)

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

De qual Brasil falamos?

O da Colônia ou o do Império, o do republicanismo elitista ou o democrático, o do sertão ou o do litoral, o dos aristocratas ou o Brasil polarizado e sectário de hoje?

No meu trabalho, distingo um Brasil lido como sociedade (costumes e cultura) de um Brasil representado como nação e Estado nacional. O primeiro seria governado por hábitos do coração, conforme diriam Rousseau e Tocqueville; o segundo, administrado por uma legião de leis e procedimentos jurídicos.

Nossas sociologias e politicologias falam do Brasil como Estado nacional e pouco do Brasil como um sistema de valores. E menos ainda dos diálogos, dilemas e paradoxos dos encontros entre esses Brasis.

Um encontro responsável pela emergência de estadolatria, estadomania e estadopatia. Sem perceber que não há governo sem sociedade e que povo e governo não podem ser inimigos, numa polarização em que um “Estado forte” (ou uma “Nova República”) deveria corrigir uma sociedade velha e fraca, a solução tem sido a adoção de “estadolatrias” messiânicas. Despotismos, entretanto, destinados a se desfazer porque os hábitos relacionais do “Brasil sociedade” acabam englobando e criando uma inércia histórica promotora de retornos aterradores, das tais leis que não pegam.


Uma visão enviesada do Brasil engendra batalhas entre costumes não escritos (mas estabelecidos) e leis explícitas (destinadas a corrigir a índole de tais costumes). Ela conduz ao que estamos revivendo hoje: um momento eleitoral que seria de futuro nos leva ao passado justamente porque há um impasse entre o “Brasil nação” e o “Brasil das simpatias populistas”. O Brasil das impessoalidades legais encontra seu limite no Brasil das pessoalidades do “você sabe com quem está falando?” e das “leis que não pegam”.

O Brasil dos personalismos avessos à igualdade é mais resistente que o das normas que valem para todos. Mas como ter normas valendo para todos sem realizar uma crítica honesta do peso das obrigações familísticas? Não para liquidá-las, mas seria possível neutralizá-las escolhendo os valores democráticos da liberdade sem esquecer a igualdade.

Um primo é por mim nomeado ministro. Devo tratá-lo como primo ou como ministro? Ele se comportará como dono do meu governo ou como um funcionário? Se houver um conflito entre o ministério e o governo, ele agirá como primo ou como ministro?

Essas são questões que jamais discutimos francamente, que foram providencialmente esquecidas por nossa agenda democrática, que teria de passar a limpo o Brasil da casa pelo Brasil impessoal da rua e vice-versa.

A dificuldade com a democracia tem a ver com esse dilema entre o poder insuspeito da simpatia pessoal, que tende ao segredo e à corrupção, e a demanda da liberdade igualitária, que tende ao mundo público da impessoalidade e do anonimato — esses pilares do dinamismo democrático.

Em relação ao tamanho imenso da tarefa de implantar democracias em sociedades relacionais e patriarcais, há a dificuldade de perceber que nossos amados ou odiados “políticos” não vieram de Marte, de Pasárgada, do inferno ou do céu, mas são nossos amigos, filhos e compadres. As acusações quase sempre irascíveis com que os tratamos só podem ser compreendidas quando nos damos conta do isolamento com que situamos o “político” num campo em que o “poder” — como uma ponte desgastada entre o pessoal e o impessoal — tem a elasticidade das simpatias e conveniências. Do ganhar brutalmente muito dinheiro até o dobrar (ou driblar) legalismos para favorecer os amigos.

Com isso, entramos no terreno da impunidade, mas isso é, como diria o poeta, uma outra história...

Na bala, na faca, na fome

O ódio destilado contra Dona Ilza por um “empresário do agronegócio” prova até onde pode chegar um covarde embeiçado pelo genocida. O sujeito ameaçou a sobrevivência da faxineira ao deixar gravado em vídeo que, se votar em Lula, não terá sua marmita semanal. A marmita alimentava três famílias.

O vídeo, claro, viralizou. A fome se alastra no País, aterroriza, comove. Dona Ilza teve a solidariedade do ex-Presidente Lula e ganhou campanha nacional de ajuda financeira. O sujeito desumano virou a cara da campanha do Capitão. Maldades, ameaças, crimes. Fraudes. O tal “empresário” recebeu 15 parcelas da ajuda emergencial que o mito jura ter destinado aos “mais carentes”. Dinheiro vivo, ao gosto da família Bolsonaro.


Violência extrema, de Norte a Sul do País. Recente pesquisa Quaest, contratada pelo Monitor do Debate Político da USP, traz, nesse sentido, dado estarrecedor: um a cada cinco eleitores considera “justificável utilizar violência caso o lado opositor vença a eleição presidencial”.

Tragédia anunciada. O negacionista se alimenta do ódio. Por ele, a situação pode sair do controle. Há casos chocantes de fúria selvagem. Em Confresa, Mato Grosso, o pedreiro bolsonarista Rafael Silva de Oliveira desfechou 15 golpes de faca no olho, na testa e no pescoço de seu colega Benedito Cardoso dos Santos, eleitor de Lula. Rafael confessou o crime, contou que tentou decapitar a vítima com um machado.

Apenas na primeira metade de 2022, a violência política no Brasil deixou 40 mortos. O Observatório da Violência Política e Eleitoral, da UERJ, constata que, de janeiro a junho de 2022, ocorreram 214 casos de violência, número 4,5 vezes maior do que o total de 47 casos identificados no mesmo período de 2021.

Nas eleições municipais de 2020, entretanto, houve 380 casos de violência, no terceiro e quarto trimestres. Ou seja, estamos no pico da selvageria. Desgovernados, perturbados e desregrados. Átimo comandado por um homem obcecado em mentir, mentir e mentir, e fazer arminha com seu órgão genital.

A violência crescente chegou ao TSE na forma de pedidos de reforço policial pelos Estados: no primeiro turno das eleições de 2014, 279 cidades contaram com o apoio da força federal. Em 2016, 467. Em 2018, 513 municípios tiveram o reforço policial. Em 2020, subiu para 613. Veremos o balanço final de 2022.

O que mudou desde 2002, 2006, 2010, 2014? A eleição do incapaz e odiento alterou profundamente o padrão da violência eleitoral no País. Felippe Angeli, gerente do Instituto Sou da Paz, diz que até anos atrás, as brigas eram consequência de questões paroquiais e disputas territoriais”. Não são mais em sua maioria.

“Com a eleição de Jair Bolsonaro, os autores dos atentados não são mais coronéis da política, justiceiros de uma comunidade carioca. Hoje, a violência é cometida pelo “cidadão de bem”, no sentido do cidadão comum. É o cara que passa na frente de uma festa de aniversário e decide atirar contra o aniversariante”.

Foi assim, em sua festa de aniversário, que o tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, Marcelo Arruda, foi friamente assassinado pelo bolsonarista declarado, o policial Jorge Paranho. Dois meses depois, e Paranho, preso por homicídio duplamente qualificado, ainda não foi ouvido. A defesa de Paranho entrou com pedido de habeas corpus. A Justiça negou, alegando justamente a proximidade das eleições. Alivio em Foz do Iguaçu.

Para registro: num raro fato político, Lula anda com colete à prova de bala.

Vamos parar de falar do coiso.

Bolsonaro, coveiro da rainha

O sujeito que disse não ser coveiro, para justificar sua incompetência diante de uma crise mundial, vai atravessar o Atlântico para enterrar a rainha da Inglaterra. Em mais de dois anos da pandemia que deixou quase 700 mil mortos no país, Jair Bolsonaro nunca visitou um hospital abarrotado de pessoas à beira da cova. Jamais demonstrou solidariedade a uma família brasileira. Mas vai se aboletar com líderes mundiais, com quem nem se dá, para tentar ganhar votos.

Prestes a ser derrotado nas urnas, segundo projeção das pesquisas, ele se comporta como o típico calhorda que bate na mulher e, na iminência de ser abandonado, diz que se arrepende. Mentira. São dois anos da mais profunda indiferença, de negacionismo, de negligência com o povo do país que desgoverna.


Cada vez que percebe o cenário negativo, Bolsonaro recua um pouco para logo mostrar sua natureza nefasta. Embora a reprovação a sua atuação contra a Covid tenha caído, como mostrou o Datafolha no começo de abril, 46% ainda lembravam que tivemos uma gestão criminosa.

Esse é o foco do "arrependimento", tentar reverter a imagem de genocida estampada em sua cara. Se fazer de coitado para conquistar votos de gente distraída e muito mal-informada. Ainda que jure terem sido uma "aloprada" as declarações dadas por ele sobre mortos e sobre a falta de vacina, faltaria ao presidente se posicionar sobre outras três dezenas de episódios em que se pronunciou com completo desdém e irresponsabilidade.

As lembranças da tragédia da Covid podem estar cada vez mais mergulhadas em nossa vontade de deixar no passado um período de desesperança, mas não nos esqueçamos de quem é Jair Bolsonaro. Fascista, golpista, encrenqueiro, machista, racista, falso cristão, pilantra. Bolsonaro não está arrependido de ser o que é, está desesperado ao ver a conta da destruição causada por ele chegar.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Brasil do 'Bem'

 


O povo da rachadinha no palanque em nome de Deus

A turma da rachadinha, os bolsonaristas e agregados, embora desconheçam, intuem que toda crueldade tem origem no medo. Não devem ser leitores de Lúcio Sêneca, o tutor de Nero, mas é possível que desconfiem que o homem é tão miserável quanto ele imagina que seja.

Bolsonaro parece temer a prisão. Pastores como Silas Malafaia, a perda das celestiais isenções de impostos — na pessoa física e na jurídica. É uma boa dupla. Enquanto o primeiro libera as armas, o segundo evoca Jesus Cristo, mas escamoteia o Sexto Mandamento.

O que o pastor responderia ao axioma proposto dias atrás pelo capitão: se você (mulher) está trocando um pneu e surge um bandido, prefere ter na bolsa a (lei) Maria da Penha ou um revólver? Difícil essa?


Pergunto: assassinato sempre será pecado? Por certo, disse Jesus, que seguia a pobreza voluntária e mantinha notória indiferença pelas posses materiais. Daí que, se um despreza o Sexto Mandamento e outro (com seus pares) usufrui a riqueza (e financia trio elétrico com o troco agraciado pelas isenções), vale lembrar Marco Aurélio, o imperador romano: para ele, são os atos, e não palavras vãs, que configuram um bom ou mau homem.

Com o apreço divino de Bolsonaro pelas coisas materiais, apoiado por um discurso de incentivo ao ódio (“extirpar” a esquerda, como vociferou o capitão, não é um dos mandamentos), percebe-se outra traição por quem se diz cristão. Já no Velho Testamento se condena a violência, e o sempre citado Jesus Cristo refutava a premissa de um golpe ser retribuído com outro golpe.

As palavras e os atos de Bolsonaro, incensados por evangélicos de extrema direita, se contradizem os ensinamentos cristãos, também estão inseridos numa prática política de intimidação e assédio copiados, pela ordem, de Mussolini e Hitler. Curiosamente, ambos ditadores que contaram com a simpatia da Igreja.

Para ter certeza de que as palavras de Lev Tolstói a Mahatma Gandhi foram prenúncios de tragédias — a Igreja dos homens e seus exércitos seriam traições às palavras de Cristo, acreditava o escritor russo em carta ao hindu que libertaria a Índia do jugo britânico.

Inspirado por Tolstói, Gandhi praticaria a não resistência em favor da não violência, o pacifismo como ferramenta política contra tiranos e algozes. Como bem sabe Bolsonaro, Wittgenstein e Proust também foram bafejados pelo tolstoísmo. Vale lembrar que Tolstói acabou excomungado (!) pela Igreja Ortodoxa Russa em 1905, por causa de seu livro “Ressurreição” e pelas críticas ao belicismo do czar Nicolau II, além de sua pregação contra o Estado. Ao contrário dos pastores bolsonaristas, abriu mão de suas posses (amplas fazendas e direitos autorais de seus livros).

É o oposto do que se vê na troca de apoio entre o capitão e seus apoiadores evangélicos. Enquanto o mandatário mente, os religiosos forjam ensinamentos bíblicos em benefício próprio para uma plateia assustada pela miséria e ignorância.

Sem perceber, com a pantomima ou palhaçada no 7 de Setembro, os bolsonaristas reviveram o dia em que Mussolini recebeu Hitler em Roma, em 1938. A multidão acorreu com bandeiras fascistas em saudação ao desfile dos dois ditadores. Ali se ouviram gritos de “Deus, pátria e família”. As amantes de Mussolini não foram convidadas para a festa.

O clima de apoiadores com a bandeira brasileira às costas, nas ruas de São Paulo e Rio, pareceu sair do filme “Um dia muito especial”, de Ettore Scola, que retrata a visita.

A obra mostra uma Roma quase vazia e fanatizada, ora com seus cidadãos trancados em casa, receosos da violência da turba fascista, ora em disparada para o desfile. É quando, naquele ar nebuloso, retorna ao conjunto de apartamentos o professor vivido por Marcello Mastroianni e se encontra com a dona de casa interpretada por Sophia Loren. Ele é um homossexual discreto, e ela uma mulher sexualmente frustrada, casada com um membro fanático das forças de Mussolini.

Ela não foi ao desfile porque não simpatiza com as ideias do ditador, tampouco com os métodos de suas milícias que correm as periferias e matam a pauladas ou tiros seus adversários de esquerda (lembre: “extirpar a esquerda do Brasil”). O professor também se mantém longe da parada militar porque os fascistas e os nazistas já começavam a matar homossexuais.

Foi o que ocorreu no 7 de Setembro. Como na Roma fascista, um palanque cheio de militares ao lado de tipos investigados pela Justiça. Enquanto na imensa maioria das casas brasileiras se encontrava uma população que optou pelo pacifismo e pela não violência como forma de denunciar sua ojeriza aos incréus que cobram dízimos ou rachadinhas. Como o diabo gosta.

Psicologia do fascismo brasileiro

Ao optar por viver apartado da vida em comunidade com formação acadêmica, em vez de estudar mais, o idiota se julga superior a esse coletivo desprezado por ele. Transmite essa intolerância ou negacionismo científico para seus descendentes e a compartilha com os amigos de sua “câmara de eco”.

Idiotas sem consciência de fazer mal a si mesmo e, pior, aos outros, não conseguem aceitar pontos de vista, ideias ou culturas divergentes de sua doutrina, imposta pela família, tradição religiosa e pela ideia deturpada de pátria como submissa às Forças Armadas. Estas receberam a missão constitucional exclusiva de defesa do território nacional, mas isso não é compreendido por gente inculta sem esforço educacional.

Os reacionários reagem contra, pois têm muita dificuldade de compreensão da diversidade pela qual é formado o mundo. Quem pensa diferentemente seria um doutrinado, seja pela “esquerda ateia e personificação do diabo”, seja pela Ciência, pesquisada em Universidades públicas, todas dominadas por essa “gente cumunista”.

Anacrônicos, imaginam pensar por si só ao compartilhar os memes de maneira robótica. O idiota acha estar bem defendido de questionamentos se ficar fechado na sua “bolha”.

Resolvi testar essas hipóteses, de maneira impressionista, ao assistir depoimentos apresentados na reportagem da BBC News Brasil, intitulada “Eleitores de Bolsonaro falam sobre governo e corrupção”.

Típicos velhos reacionários, moradores de Copacabana, todos vestidos de verde-e-amarelo, disseram o seguinte. “Eu me considero bolsonarista porque não vejo outro político. O Brasil não tem outro”. “Eu não sou bolsonarista, mas sim um patriota”. “Eu não sou bolsonarista, sou sim contra a corrupção!” “Eu sou bolsonarista, sou pela família, por tudo normal, isto é, é a gente ter moral, ter princípios”.

Uma jovem com aparência de classe média alienada afirmou ter votado no dito cujo, “apesar de seu jeito agressivo contra as mulheres, para o Partido dos Trabalhadores não voltar ao Poder”. Outra idosa reconheceu: “ele é temperamental, ele fala tudo aquilo vindo à sua mente, e a gente estranha gente autêntica. Assusta um pouco, mas ele é maravilhoso!”

Disse uma agressiva: “Ele é franco, como eu…” Disse um macho: “Sempre foi assim mal-educado, não vejo por qual razão ele mudar no cargo de presidente”.

Uma adepta fervorosa clama: “Ele fez o possível dele fazer. Houve a pandemia… Mas ele acertou mais em relação a errar”. Um jovem não vê alternativa: “Ele hoje é o cavalo encilhado para a gente montar”. Outro condescendente justifica sua escolha: “Ele reduziu o preço da gasolina e concedeu o auxílio para melhorar muito a vida no dia a dia”.

Outra senhora reconhece: “eu não entendo nem acompanho política, mas sou contra qualquer tipo de corrupção, se for provado a da sua família, tem de punir”. Um senhor mais popular acha “a família dele está envolvido em ‘rachadinhas’, assim como todos os políticos. O mal dele é passar a mão na cabeça dos filhos. Quanto a ele, não vejo nada!”.

Uma jovem fantasiada também de bandeira brasileira é perguntada sobre corrupção nos ministérios e na família do presidente desqualificado – e não consegue responder: “Hum… [ri]” Você vai votar nele?! “Lógico, aquele cara… como chama mesmo?” Alexandre Moraes. “Ah, é um homem super-corrupto! Tudo feito pelo presidente ele derrubou, soltou culpados, prendeu inocentes”.

Outra idosa afirma: “Quando a gente sai em passeata, pedindo liberdade, não diz respeito ao presidente, mas sim à ditadura da Suprema Corte”. Sem resposta para o argumento contraditório da repórter, ela só pergunta: “Você é comunista?!”.

Esta é uma amostra do comportamento político desse nicho da classe média. É base de apoio para emergência do fascismo tupiniquim (sic) sobre a ordem armada na base de ameaças de violência e assassinatos. Para o compreender vale reler o livro de Wilhelm Reich Psicologia de massas do fascismo (Martins Fontes, original de 1933).

Acusar o comportamento conservador das massas de “irracional”, de constituir uma “psicose de massas” ou uma “histeria coletiva” em nada contribui para jogar luz sobre a raiz do problema e compreender a razão pela qual essa fração de classe social respalda o discurso fascista. Afinal, o neofascista ataca os interesses coletivos e reserva, para seu clã, uma riqueza imobiliária, adquirida com dinheiro vivo/sujo.

Wilhelm Reich localiza a expressão da psicologia de massas do fascismo em uma certa forma de família, tendo no centro a repressão à sexualidade, e no caráter da “classe média baixa”. Para ele, a repressão à satisfação das necessidades materiais difere da repressão aos impulsos sexuais. A primeira leva à revolta, enquanto a segunda impede a rebelião. Isto porque a retira do domínio consciente, “fixando-a como a defesa da moralidade”.

O próprio recalque do impulso é inconsciente, não visto pela pessoa como uma característica de seu caráter. O resultado, segundo Wilhelm Reich, “é o conservadorismo, o medo a liberdade, em resumo, a mentalidade reacionária”.

Essa amostra de classe média (carioca/paulistana/brasiliense) não é composta dos únicos a viver esse processo conservador, mas ela vive de maneira singular. Imagina-se estar acima dos outros (adversários a serem extirpados) e representarem a nação. Praticam a defesa das barreiras sociais, impostas como garantia da sobrevivência da autoestima. Temem a quebra da ordem na qual se equilibram, precariamente, e, por isso, pedem controle e repressão dos pobres e negros desejosos de emergência social.

Alinhados à defesa militar da “nação” (pátria armada), adotam o “moralismo” quanto aos costumes, ligado a preconceitos, à misoginia, à homofobia, ao racismo etc. Arrematam esse discurso com a defesa da “família” e o clamor pela “ordem”. O comportamento fascista não pode ser reduzido à manipulação e à cilada, mas encontra-se sim na consciência imediata e nas relações afetivas quanto ao reconhecimento ou acolhimento por gente inculta também vestida de verde-e-amarelo.

O ato de acolher expressa uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, uma atitude de inclusão social, ocorrida também em templos evangélicos, mesmo sob a cobrança de dízimos para obter essa sensação de reconhecimento individual. Essa atitude implica na busca de estar em relação presencial com muita gente parecida consigo, seja em aparência, seja em posse de poucas ideias inteligentes.

Daí a leviana substituição do Datafolha, pesquisa feita com método científico de amostragem, pelo Datapovo, visualização impressionista de manifestações de rua. Tanto à direita, quanto à esquerda, muitos imaginam essas serem decisivas para o resultado eleitoral, como a minoria ruidosa em espaços delimitados em algumas poucas metrópoles expressasse uma vontade reprimida de a maioria silenciosa gritar em praça pública. Aquela não representa esta, pelo contrário, a maioria quer paz e não violência!

Uma amostra visual é uma pequena porção de alguma coisa dada para ver, mas não é suficiente para provar ou analisar determinada qualidade do todo. A visão holista necessita de uma amostra representativa para o comportamento coletivo de todo o eleitorado ser avaliado ou julgado a priori.

Em metodologia da pesquisa quantitativa, uma amostra é um conjunto de dados coletados e/ou selecionados de uma população estatística por um procedimento definido. Como a população é muito grande, fazer um censo ou uma enumeração completa de todos os valores existentes é impossível rapidamente com poucos recursos.

A amostra geralmente representa um subconjunto de tamanho manejável. Há método científico para se fazer inferências ou extrapolações da amostra à população. No entanto, a massa ignara não o (re)conhece.

A melhor forma de evitar viés ou não representatividade, presente em manifestações de rua, é selecionar uma amostra aleatória, também conhecida como amostra probabilística. Nela, cada membro individual da população tem uma chance conhecida e diferente de zero de ser selecionado como parte dela.

A amostragem estratificada, como é a sociedade, consiste em dividir ou estratificar a população em um certo número de subpopulações. Elas deveriam não se sobreporem, de modo a extrair uma amostra de cada estrato. Mas este tipo de amostragem nem sempre é usado, quando métodos diferentes de coleta de dados são aplicados em diferentes partes da população.

Na amostra da Datafolha, a faixa até dois salários mínimos é 51%, enquanto a preferência pelo PT é 27%. Isso representa 42,2 milhões de votos. Minha “tese”, hipótese defendida com dados, é a esperada vitória de Lula, apesar da melhora do rival, se dar basicamente por causa dos pobres simpatizantes do PT. Nem todas as pesquisas eleitorais fazem amostra por partido de preferência. Um fator eleitoral decisivo é o PT ser o único partido com massa popular simpatizante. Esta é a verdadeira razão do “antipetismo”. Ressentimento.–
Fernando Nogueira da Costa

Um país diante de tempos conturbados

Por volta do meio-dia, Claudio A. partiu com sua família para defender a pátria. "Contra a corrupção, a ideologia de gênero e comunismo." O advogado de 38 anos, que não quer que seu nome completo seja publicado, é do bairro de classe média da Glória, no Rio de Janeiro. Ele foi com a esposa e dois filhos para Copacabana.

Na quarta-feira passada, houve ali um evento de celebração do bicentenário da Independência do Brasil. Como o país se encontra em plena campanha eleitoral, Jair Bolsonaro anunciou sua participação no ato, e consequentemente milhares de fãs do presidente partiram para o bairro à beira-mar – entre eles a família de Claudio.

A família A. se espreme no metrô em meio a uma multidão bolsonarista. As camisetas dos bolsonaristas são estampadas com slogans como "Meu partido é o Brasil" ou "Sou soldado a serviço do Brasil". Na hora de descer em Copacabana, a família de Claudio se perde na multidão, mas no metrô o pai ainda disse acreditar fortemente que o povo apoia Bolsonaro. "Ele vai ganhar as eleições." E passageiros gritaram em coro: "Mito, mito, mito". Soava como uma ameaça.


Copacabana está cheia de bolsonaristas. O movimento de ultradireita conseguiu sequestrar mais um símbolo nacional: o Dia da Independência. E o estragou para o resto do país. De carros de som ao longo da praia, candidatos ultradireitistas gritam: "Sou a favor da liberação da posse de armas". Outros discursantes exigem a destituição imediata do Supremo Tribunal Federal (STF). Faixas pedem um golpe militar para que Bolsonaro possa governar sem interferências. Num cartaz enorme, há uma foto da jornalista Vera Magalhães e a frase: "Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro".

Sabiamente, aqueles que consideram isso tudo repugnante se mantiveram longe de Copacabana. Somente em uma varanda foi pendurada uma toalha vermelha com o rosto de Lula, que é encarada com olhares cheios de ódio. Então gritos são direcionados à toalha: "Lula ladrão, seu lugar é na prisão!"

Quando Bolsonaro chega e discursa de um trio elétrico, o mais notável é que ele não diz nenhuma palavra sobre os 200 anos da Independência. Nenhuma palavra sobre a história do Brasil, sobre as dificuldades do passado que foram superadas ou sobre a longa trajetória do maior país da América Latina. Bolsonaro não diz nada conciliador ou unificador, não há nenhum gesto em direção daqueles que não o aprovam. Na memória desse Dia da Independência fica o coro do "imbrochável" entoado em Brasília, onde Bolsonaro fez um discurso parecido pela manhã.

"Sim, Bolsonaro é rude", afirma em Copacabana uma senhora loira de 55 anos. "Mas ele é verdadeiro e não é ladrão." Ela considera uma campanha da imprensa as várias suspeitas de corrupção envolvendo a família do presidente.

No auge de seu discurso, Bolsonaro xinga Lula de "quadrilheiro de nove dedos". "Esse tipo de gente tem que ser extirpado da vida pública." Bolsonaro fala numa eleição entre "o bem e o mal" e pede que a multidão esteja pronta para defender a pátria. Não são convocações para violência disfarçadas. São convocações para violência, caso ele não ganhe as eleições. Bolsonaro pressente que não haverá golpe militar quando ele perder. Por isso, agita seus apoiadores, muitos dos quais agora possuem armas. Eles devem provocar caos e violência após as eleições para que surjam as condições para Bolsonaro declarar estado de emergência.

Bolsonaro alega defender a família tradicional, Deus, a pátria e aliberdade. A senhora loira de Copacabana também acredita "fortemente" nessas palavras. Mas não acredita que as urnas eletrônicas sejam seguras. "Eu acho que pode haver manipulação para Bolsonaro não ganhar." Indícios para essas alegações, ela não tem, são apenas "um pressentimento", diz.

Depois do discurso de Bolsonaro, o evento se dispersa. Foi uma forte demonstração de poder do bolsonarismo: antidemocrática, irracional, agressiva, ameaçadora.

No mesmo dia, o deputado estadual bolsonarista Delegado Cavalcante discursou no 7 de Setembro diante de centenas de "cidadãos de bem" em Fortaleza. Ele prometeu: "Se não ganharmos nas urnas, ganharemos na bala. Na bala!" Não se engane, isso não é apenas retórica. Pensamentos se transformam em palavras, e palavras se transformam em atos. Nos seus 200 anos de Independência, o Brasil está na iminência de tempos conturbados.

Agora é tarde, Bolsonaro, Inês é morta

Do alto da sua vasta experiência como presidente do Ibope, hoje Ipec, Carlos Augusto Montenegro, 68 anos de idade, vaticinou na semana passada:

“A campanha demorou quase dois anos. Mas acabou. Falta o eleitor pôr o voto na urna”.

Referia-se à campanha para presidente da República travada por Lula e Bolsonaro que oficialmente começou apenas em meados de agosto último, mas extraoficialmente desde que o Supremo Tribunal Federal, em março do ano passado, tornou Lula elegível.

Embora não tenha dito na ocasião, a amigos Montenegro confidencia que Lula sucederá a Bolsonaro. Quanto às eleições para os governos estaduais, só agora elas começarão a esquentar, e as para o Senado só serão decididas nos últimos 10 dias.

Faltam menos de três semanas para a abertura das urnas eletrônicas, que se dependesse de Bolsonaro teriam sido trocadas pelo voto impresso. Na prática, duas semanas, de vez que na última, a levar-se em conta a história, nada acontece de relevante.

Bolsonaro jogou seu último ruidoso trunfo na mesa ao trazer de Portugal o coração de Dom Pedro a pretexto de celebrar o Bicentenário da Independência do Brasil. Ao contrário do que imaginava, o coração não voltou a bater por ele.


Seus showmícios militarizados atraíram 64 mil pessoas no Rio, menos de 40 mil em São Paulo, e longe de 100 mil em Brasília. De toda forma, serviram para turbinar sua propaganda eleitoral no rádio e, especialmente, na televisão. E renderam mais o quê?

A justiça eleitoral proibiu o uso das imagens. E duas pesquisas consecutivas do Ipec, uma da semana passada e outra desta, atestaram que a onda de entusiasmo bolsonarista morreu antes de chegar à praia. Não foi um tsunami, mas uma marolinha.

Tanto barulho por tão pouco. Para se eleger no primeiro turno, sem disputar o segundo, um candidato precisa ter 50% dos votos válidos (excluídos nulos, brancos e indecisos) mais um voto. Lula tinha 50% na semana passada. Agora, 51%.

Oscilar para cima é sempre melhor do que oscilar para baixo. Bolsonaro prepara-se para pôr em cena um novo plano: comparecer aos funerais da rainha Elizabeth II em Londres, e à abertura em Nova Iorque de mais uma Assembleia Geral da ONU.

Quem sabe, os brasileiros não o socorrem depois de vê-lo em Londres entre os maiores líderes mundiais, e de ouvi-lo falar em Nova Iorque… Dizem que seu isolamento internacional é brutal. Bolsonaro quer provar que isso é mentira dos adversários.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Brasil capa de revista

 


Que país é este do ‘imbrochável’?

Sei que é uma pergunta batida, mas, na comemoração dos 200 anos da Independência, é razoável perguntar que país é este.

O que nos diz o presidente Bolsonaro subindo no palanque e gritando que é imbrochável? O que nos diz a multidão que o segue? O que nos diz o presidente comparando sua mulher com a do rival?

Estava meio perdido na melancolia de um desfile militar quando comecei a fazer essas perguntas. Como um velho delirante, concluí que estávamos quase prontos para participar da Segunda Guerra Mundial, embora até para isso os equipamentos tenham me parecido um pouco obsoletos.

No momento em que um grupo fez acrobacias com a própria arma, jogando-a para o ar, rodando-a febrilmente, pensei: isso é uma preparação para dias difíceis, um trampo diante dos sinais luminosos de trânsito?

Na verdade, enquanto Bolsonaro exorcizava aos gritos seu pavor da castração, a fumaça das queimadas na Amazônia começava a chegar a São Paulo. O cheiro de fumaça sempre teve um efeito de despertar consciências adormecidas, sobretudo quando acompanhado de calor.


Pouca coisa acontece. O presidente beijou sua mulher na boca, a conselho do marketing. Alguns vizinhos saem vestidos de amarelo com a bandeira do Brasil. Ignoram que um grande porta-aviões, o São Paulo, navega pelo mundo, carregado de substância tóxica, o amianto, e é rejeitado por todos. Venderam para a Turquia, e os turcos se uniram na praia com cartazes: não somos a lixeira do mundo. O Reino Unido proibiu que navegasse pelo Estreito de Gibraltar, e ele segue, solitário e rejeitado, para consumir-se no seu veneno, possivelmente na Ilha das Cobras.

A fumaça de nossa futura ruína continua chegando às metrópoles do Sudeste, e tudo o que presidente pode nos dizer é isto: “Sou imbrochável”. É preciso mais que um pênis ereto para debelar a fome de 33 milhões de brasileiros e a insegurança alimentar de quase 100 milhões.

Segundo Vinícius, o homem que diz sou não é, o homem que diz “tou” não “tá”. Os gritos de Bolsonaro na esteira de um desfile militar não são de bom-tom, diante do grande consumo de Viagra pelas Forças Armadas.

Na véspera desse espetáculo, em Copacabana, se você gritasse o clássico “joga a chave, meu amor”, era capaz de cair um paraquedista. Trazidos pelo vento, andaram se embaralhando nas árvores. Felizmente ninguém se feriu, exceto a confiança na eficácia de nossa defesa.

Foi um aniversário melancólico, se olhamos para a saúde de nossa democracia arranhada por Bolsonaro, para a integridade de nossas florestas, ardendo com o sopro de uma política destruidora.

Continuo acompanhando a saga de nosso porta-aviões, vendido como ferro-velho, expulso de portos onde tenta ancorar, e fico me perguntando se isso não é o Brasil ou apenas o símbolo de uma época, cujo veneno ainda pode durar muito e demandará paciência e habilidade para neutralizá-lo.

Se nosso limitado presidente fosse visitar Paquetá e refletir um pouco sobre José Bonifácio, certamente aprenderia alguma coisa — pelo menos a lição elementar de que a História não é algo que se conquiste com um pênis ereto, mas uma construção coletiva que nos tornou uma das importantes nações econômicas do mundo, com suor, coração e cérebro. Em outras palavras, estamos comemorando 200, e não 12 anos. Não é possível que, agitando tanto a Bíblia, ainda não tenha deparado com a “Primeira carta de Paulo aos Coríntios”: quando era menino, pensava como menino, agia como menino, agora que sou grande, dei de mão às coisas de menino.

No fim da tarde, quando saí para o trabalho, vi alguns vizinhos de Ipanema voltando com suas bandeiras, um pouco desfeitos pelo calor da primavera que se anuncia.

Pensei: este é o nosso país. Sobreviveremos ou seremos destruídos por uma política suicida? Duzentos anos de independência, não imaginava conviver com essas dúvidas. Muito menos, que estadistas como José Bonifácio fossem substituídos por fanfarrões gritando “imbrochável, imbrochável”.

Frei Caneca lutou contra Portugal e dom Pedro e acabou fuzilado

Frei Caneca foi o principal pensador político do processo de emancipação do Brasil que se desenhou a partir de Pernambuco, saltando do convento para as trincheiras na Revolução de 1817 e na Confederação do Equador, de 1824. Em seus escritos e atos práticos, associou a ideia de pátria à noção de virtude civil em relação à terra que se habita, defendeu uma Constituição que abarcasse uma lista de direitos e se opôs ao despotismo de dom Pedro, o que o levou à morte por fuzilamento.

A cabeleira amarelo-avermelhada era inconfundível. "Sou ruivo", disparou frei Caneca, em meio à polêmica que travou com o redator do jornal A Arara Pernambucana em junho de 1823, para confirmar, de uma vez por todas, a ascendência paterna portuguesa —aliás, a avó, Francisca Alexandrina, ganhara o apelido de Ruibaca, no Bairro Alto, em Lisboa, em consequência da ruividão.

A origem materna, ao contrário, estava entroncada desde meados do século 17, entre os indígenas e os escravizados africanos. Principiava na figura de sua trisavó, que ele reinventou com o nome Maria das Estrelas: "Pois é ponto de fé pia que essa Maria das Estrelas, minha trisavó, havia de ser alguma Tapuia, Potiguari, Tupinambá, senhora de muito mingau, tipoias, aipim e macaxeira; e também se foi alguma rainha Ginga, nenhum mal me fez; já está à porta o tempo de muito nos honrarmos do sangue africano".

O que se conhece sobre as origens de frei Caneca deve-se a ele mesmo, registrou o historiador Evaldo Cabral de Mello na introdução do volume que reúne seus principais escritos políticos. Difícil saber ao certo quando a investigação genealógica teve início, mas ela não tinha nada de inofensivo; servia bem ao debate público.

Desenrascar o enredo de sua ascendência talvez tenha lhe fornecido, ainda em 1822, algumas das respostas de que precisava para concretizar as bases de um projeto alternativo ao processo de Independência como empresado no Rio de Janeiro: federalista, voltado para a garantia do princípio do autogoverno provincial, ancorado na ideia de pátria e na figura de um personagem de inspiração republicana —o "cidadão patriota".

No dia 6 de março de 1817, antes mesmo de se processar a ruptura com Lisboa, a República foi proclamada na cidade do Recife. A Revolução de 1817 contestou o projeto de Império brasileiro encabeçado pela Corte instalada no Rio e abriu o ciclo revolucionário da Independência.

Em julho de 1824, a Confederação do Equador reafirmou a autonomia de Pernambuco, reimplantou a República, conjurou nova revolução e convidou os vizinhos do Norte a aderirem: Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Paraíba.

Foi "a outra independência", nomeou Evaldo em seu livro, e frei Caneca era seu mais importante pensador político. A "pátria do cidadão não é só o lugar em que ele nasceu como também aquele em que ele fez sua morada e fixou o estabelecimento", escreveu em sua "Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão e deveres deste para com a mesma pátria", logo nos primeiros dias de 1822.

Em uma província disposta a conceber e liderar um projeto de soberania para escapar ao controle tanto de Lisboa quanto do Rio e que sustentava uma longa história de hostilidade contra os reinóis, ele estava propondo uma solução inédita em termos de independência para o então Reino do Brasil: articulou a ideia de pátria, a terra onde se nasce, à cidade onde se compartilha uma vida em comum.

Associar pátria à noção de virtude civil permitiu-lhe convocar a sociedade pernambucana para um pacto histórico. "Patriota" identificava uma pessoa capaz de admitir ser possível compatibilizar a existência de um território nativo e ancestral com o reconhecimento de que o convívio entre os homens demanda a construção de um modo próprio de viver livre em uma cultura comum.

Como seria típico de seus escritos, o argumento exige uma tomada de posição imediata e concreta diante da conjuntura política: os portugueses domiciliados em Pernambuco e empenhados em seu progresso, onde tinham família e ofício, eram tão patriotas quanto os naturais da terra —não cabia antagonismo entre eles.

Também deixava claro que isso teria consequências frente ao que estava por vir: Pernambuco era a pátria de direito da comunidade reinol, o lugar onde se estabeleceram e por onde deveriam optar, em caso de conflito com Lisboa ou com o Rio.


Joaquim do Amor Divino Rabello, o frei Caneca, nasceu em 1779, no Recife. Era o primogênito de Francisca Alexandrina de Siqueira e Domingos da Silva Rabelo, um tanoeiro que fabricava e consertava pipas, barris, tinas e, naturalmente, canecas, que o filho iria adotar ao nome quando se ordenou frade carmelita, em 1801, com apenas 22 anos. Como a Ordem do Carmo oferecia ensino aos filhos de imigrantes portugueses e a carreira eclesiástica seria uma via segura de promoção social, Joaquim se fez noviço.

Era um leitor voraz que transitava entre a matemática e a geometria, a teoria literária e a retórica, a história e o pensamento político. Tornou-se um leitor público, anotou o historiador Denis Bernardes, partilhando e espalhando suas leituras e ideias nas salas de aula —na condição de professor de geometria, retórica e filosofia—, no púlpito da igreja e, naturalmente, nas reuniões e assembleias que se repetiam com intensidade cada vez maior no Recife, sobretudo a partir da Revolução de 1817.

Sua formação política, com as leituras republicanas, foi resultado das disciplinas que cursou no Seminário de Nossa Senhora da Graça, em Olinda, a instituição de ensino mais inovadora do Brasil no período colonial e polo irradiador das ideias do Iluminismo no Nordeste.

A frequência com que comparecia às reuniões na Academia do Paraíso, por sua vez, facultou-lhe o trânsito entre a palavra e a agitação revolucionária. Instalada no hospital do Paraíso, a academia se organizava como círculo de sociabilidade intelectual e intervenção política, além de centro de difusão de ideias republicanas e núcleo de conspiração anterior à Revolução de 1817.

A carreira eclesiástica deslanchou bem. O problema eram os interesses de frei Caneca que ultrapassavam, e muito, os muros do convento do Carmo. Havia a relação amorosa que manteve com uma mulher que nunca nomeou e com quem teve uma filha. Às vésperas de sua execução, em 1825, escreveu uns versos que ficaram famosos, dedicados à mulher que arrebatou seu coração e a quem se dirigia de acordo com o protocolo árcade, bem à moda de Tomás Antônio Gonzaga: "Entre Marília e a Pátria/ coloquei meu coração:/ A Pátria roubou-m’o todo;/ Marília que chore em vão".

E havia a política. Na Revolução de 1817, frei Caneca é um insurgente. Conclamou a população a se levantar contra o domínio português, animou grupos de pessoas em exercícios de tiro praticados no quintal do Convento do Carmo e ingressou nas tropas da República que deveriam marchar para o Norte.

Caiu prisioneiro ainda em território pernambucano na batalha do engenho Utinga, na região do Cabo de Santo Agostinho. Nos anos seguintes, equilibrou-se entre insurgente, agitador, polemista e pensador político. Em seus escritos, contudo, nunca se sabe onde começa a palavra e termina a ação, registrou o cientista político Vamirech Chacon, na introdução ao livro que reúne os artigos originalmente publicados no Typhis Pernambucano, o jornal que frei Caneca editou entre dezembro de 1823 e agosto de 1824.

Às vésperas da Confederação do Equador, ele alinhavou nas páginas desse jornal o formato final do argumento autonomista que Pernambuco estava construindo desde a Revolução de 1817 para sustentar o projeto político dessa outra independência. "Nós estamos, sim, independentes, mas não constituídos", escreveu em 1824.

"O Brasil, só pelo fato de sua separação de Portugal e proclamação da sua Independência, ficou de fato independente, não só no todo como em cada uma de suas partes ou províncias; e estas independentes umas das outras. Ficou o Brasil soberano, não só no todo, como em cada uma de suas partes ou províncias."

Uma vez desfeita a unidade do Reino de Portugal, Brasil e Algarves, a soberania revertia às províncias onde, aliás, deveria residir. Cabia a elas negociar um pacto constitucional com a Coroa, no Rio, ou constituir unidades separadamente sobre o sistema que melhor lhes conviesse.

Em 1823, com a reunião da Assembleia Constituinte, frei Caneca avaliava ser possível pactuar com o Rio a aceitação da monarquia —desde que autenticamente constitucional e desde que estivesse garantido o principio da autonomia provincial na Constituição brasileira.

Pedro 1º, contudo, tinha outros planos. Em novembro de 1823, fechou a Constituinte; em 1824, outorgou ao Brasil uma Constituição. Para frei Caneca, não havia mais volta: "Do Rio de Janeiro, nada, nada; não queremos nada", declarou.

A Confederação do Equador eclodiu em julho de 1824, e ele estava na liderança do movimento revolucionário. Era urgente se dirigir aos brasileiros e às províncias do Norte e frei Caneca publicou uma sequência de artigos com uma análise notável e algo profética sobre o despotismo.

"A soberania reside na Nação. [...] Como sua Majestade Imperial não é nação, não tem soberania, nem comissão da nação brasileira para arranjar esboços de Constituição e apresentá-los, não vem esse projeto de fonte legítima e por isso se deve rejeitar por exceção de incompetência."

Frei Caneca detalhou cada um dos ingredientes despóticos que Pedro 1º introduziu na Constituição. O Poder Moderador era "a chave-mestra da opressão da nação", decerto; mas "a guarda avançada do despotismo", como ele dizia, sustentava-se em duas frentes.

Uma na concentração de poderes: "se S. Majestade há de ser o chefe do Poder Executivo, como há de ter parte na legislação?". A outra frente na renitente disposição das Forças Armadas para se envolverem em política: "Quando [soldados] pretendem influir nos negócios civis e políticos são despóticos, obstruem os vasos vitais da sociedade, empecem o andamento regular das suas molas, são inimigos da pátria e temerosos aos seus cidadãos".

Como antídoto contra o despotismo, frei Caneca propôs, pela primeira vez no Brasil, os termos para uma Constituição livre que incluísse um catálogo de direitos: liberdade de imprensa, liberdade política, igualdade civil.

O Rio de Janeiro reagiu de imediato. O porto do Recife foi bloqueado, e a cidade canhoneada pelos navios de guerra do almirante Cochrane, o mercenário escocês contratado por Pedro 1º para as operações militares que garantiram a centralização do território brasileiro.

No dia 12 de setembro de 1824, o Recife rendeu-se. Comandado por frei Caneca, o Exército da Confederação tentou resistir. Entrou pelo interior rumo à Quixeramobim (CE), onde havia a esperança de unificar a resistência. Mas não deu tempo: as forças confederadas foram cercadas e derrotadas pelas tropas imperiais já em território cearense.

Após julgamento sumário, frei Caneca foi condenado à forca. Nenhum carrasco se dispôs a cumprir a sentença. Foi então fuzilado a tiros de arcabuz, em 13 de janeiro de 1825, na fortaleza das Cinco Pontas, no Recife.

A outra independência

O Bicentenário da Independência do Brasil inspirou o lançamento e relançamento de obras sobre o evento histórico. Atento ao curto espaço, dediquei algumas reflexões ao livro Adeus Senhor Portugal (Ed. Companhia das Letras) de Rafael Cariello e Thales Zamberlan Pereira e ao relançamento de A outra Independência: O Federalismo Pernambucano de 1817 a 1824 (Todavia) de Evaldo Cabral de Mello.

Ambos se distanciam da historiografia clássica marcada pela visão riocêntrica e centralista. Cariello e Zaberman enfatizam a crise fiscal que mobilizou a nascente “cultura política”, arejada pelas ideias iluministas e pela agonia do absolutismo.


De um lado, gastos extravagantes, uma burocracia parasitária e a corrupção emergente (relatório de Cailhé de Geine para o Intendente Paulo Fernandes), provocavam “ódio” e “cega prevenção” na opinião pública; de outra parte, as províncias do norte, notadamente Pernambuco, financiavam o déficit fiscal do erário e a iluminação do Rio de Janeiro, extorquindo impostos sobre a produção algodoeira.

Com precisão, os autores descrevem o cenário que precedem revoluções liberais: “gastos do governo, déficits crescentes, empréstimos do erário ao Banco do Brasil, emissão descontrolada de papel-moeda, inflação, aumento dos preços e serviços – aluguéis e alimentos – perda de poder de compra das famílias e falta de pagamento por parte do governo”.

Sobre a obra de Evaldo Cabral de Mello, a prefaciadora, Heloísa Starling, afirma: “A Outra Independência é um livro fundador: revela a existência, entre 1817 e 1825, uma alternativa concreta ao processo de emancipação como empresado no Rio de Janeiro”.

O autor identifica esta alternativa no “ciclo revolucionário da independência” que continha um projeto de País: emancipado, republicano e autonomista. É injusta a pecha separatista imputada a Pernambuco. O ideal de autonomia preconizava a ampliação do poder local, opondo-se à matriz centralizadora e autoritária consagrada na constituição outorgada pelo Imperador: déspota no Brasil e liberal em Portugal.

As lutas libertárias de 1817 e 1824 – a “Revolução dos Padres” e a Confederação do Equador – foram severamente reprimidas, porém, imortalizadas em Frei Caneca. Além do sangue derramado, o território pernambucano foi esquartejado com a perda das comarcas de Alagoas e do São Francisco.

O baiano Cipriano Barata, notável defensor da liberdade, observou: “É certamente Pernambuco a província […] mais ciosa de sua liberdade e por isso a mais abundante de sucessos políticos e a mais capaz de servir de farol ao espírito público do Brasil inteiro”.

No presente, os tempos são sombrios, mas o futuro é uma questão em aberto que depende das nossas escolhas.

O que fazer durante o horário eleitoral

Entenda aqueles minutos que invadem a programação da televisão ou do rádio como um chamado. Assim, anote o nome de um candidato a deputado estadual, de uma rara jovem lançando-se como deputada federal, de um ou uma senadora em reeleição e dê uma pesquisada para saber um pouco mais sobre eles, pois a aparição relâmpago é insuficiente, não ajuda em quase nada.

Ou fuja à análise mais detalhada do aspirante a legislador, sente-se e ria. É uma comédia, não resta dúvida. Não só há nomes estranhos — alguns remetem à profissão, ao negócio, ao fato de o indivíduo ser pastor ou policial, outros parecem apelidos forjados no mais escandaloso bullying —, como também “plataformas” de rachar o bico. No Rio, a credencial de uma determinada candidata é ser irmã de um sujeito cujo mandato acaba de ser cassado por ele ser acusado, entre outras barbaridades, de pedofilia. Quando se para e se toma fôlego, o riso estanca.

A eleição levada como esquete de circo caça-níquel prenuncia um péssimo futuro. Não seria espantoso assistir a um engolidor de fogo devorar a luz, pois é o que faz grande parte desses títeres de donos de partidos. Aquela máxima dos tempos da ditadura — o último a sair apague a luz — se voltou contra nós; não saímos, resistimos, mas um saudosista daqueles tempos não só apagou a luz, mas também arrebentou todos os fios, danificou a caixa de luz, explodiu as usinas.

Melhor então, quem sabe, se distrair com outra coisa. Um olho na TV e o outro no passado. Por favor, só não se engane com o papo de que naqueles tempos tudo era melhor. Leia “Vila dos Confins”, de Mário Palmério, e veja como eram as campanhas eleitorais quando o Brasil era rural e nem em sonho se cogitava a existência de urnas eletrônicas. No romance, um cabo eleitoral se mete no Brasil profundo com a função de agregar os grandes fazendeiros em torno da candidatura para a qual trabalha. Se o coronel fecha um acordo, bem, todos os seus empregados o acompanham — o famoso voto de cabresto. A turma que defende foto do voto ou voto manual deseja a volta daqueles tempos, bons para eles e para mais ninguém. Na realidade, sonham com a época em que nem eleições havia ou só havia, sob muita vigilância, para os cargos menores. São eles os restolhos de uma ditadura que não foi, como deveria, superada, morta e enterrada.


O tempo que o horário político sequestra de nós é propício a rememorar a infância, aquele mágico período em que, retirando alguns probleminhas, problemas ou problemões, ninguém se angustia quanto aos rumos do país, só isso vale um tesouro. Mas insisto: ontem não era melhor que agora, nem hoje será melhor que amanhã, ainda que, sim, houvesse coisas muito boas que se perderam, assim como algumas se perderão daqui para o futuro. Nesse interregno no qual uma horda de siderados quer nos convencer — seguindo um roteiro além de ruim, manipulador — de sua capacidade de resolver todos os problemas do país com soluções simplistas, malabarismos, se é para se dar o direito a um pingo de alienação, entre pela porta de Shangri-lá.

Que tal preparar um milk-shake para compartilhar com as crianças? Ou se aproximar de seu amor e dizer-lhe o quanto a vida é melhor em sua companhia? Ou roubar desse amor um beijo, um arrepio, e oferecer-se de corpo e alma ao corpo e à alma dele? Falar com um velho amigo, aquele que nunca ligou para política e só pensa em futebol? Ah, nada como uma discussão sobre futebol!

Há, ainda, o caminho dos pedregulhos, ou seja, com um paralelepípedo nas mãos, tomar as ruas com a intenção de derrubar tudo ligado a essa gente: sedes de partidos, congresso, assembleias, os palácios modernos de Niemeyer. Confesso que de vez em quando tenho vontades assim, mas a coisa só se acertará a partir da política. São falsos esses que, estando nela, vendem a ideia de que não estão. Preste atenção no horário eleitoral, ainda que só de vez em quando, pois, entre tantos paspalhos, alguns defendem causas urgentes, pertencem a grupos marginalizados, precisam ganhar voz. Alguns carregam uma vela.

domingo, 11 de setembro de 2022

A política que mata

O Brasil é um país violento. Responde por 20,4% dos homicídios do planeta embora abrigue apenas 2,7% da população mundial, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para Crimes e Drogas (Unodoc). Em números absolutos, lidera o macabro ranking de mais de 48 mil homicídios contra os 40,6 mil do segundo colocado, a Índia, com os seus 1,3 bilhão de habitantes. É um país que mata seus jovens, a maioria negros; que escurraça, violenta e mata mulheres e LGBTQIA+s. E cada vez mais agride e mata por motivação política. Não raro, com incentivo oficial para a violência.

Nos últimos três anos, a violência política cresceu 335%, com 1.209 ataques do tipo entre janeiro de 2019 e junho deste ano, de acordo com o levantamento realizado pelo Observatório da Violência Política e Eleitoral da UniRio. Só nos primeiros seis meses de 2022, 40 lideranças políticas foram assassinadas. Em 2020, quando se disputaram as eleições municipais, 85 candidatos a vereador, prefeito e vice foram mortos.


Portanto, as 15 facadas desferidas pelo bolsonarista Rafael de Oliveira, que na última quinta-feira deram fim à vida do petista Benedito Cardoso dos Santos, em Confresa, a mais de mil quilômetros de Cuiabá, estão longe de ser um caso isolado. São resultado da política de ódio, que, mesmo não tendo sido inventada pelo presidente Jair Bolsonaro, foi oficializada por ele. Insere-se aqui sua obsessão por armas de fogo, que na sua cabeça doentia podem ser utilizadas pela população não só para segurança pessoal, mas também para “preservação da democracia”.

Casos recentes como o assassinato de Foz de Iguaçu, quando o bolsonarista Jorge José Guaranho matou a tiros o aniversariante petista Marcelo Aloizio de Arruda, e o de Davi Augusto de Souza, baleado nas pernas pelo PM Vitor da Silva Lopes, por discordar da pregação política pró-Bolsonaro do pastor da Congregação Cristã do Brasil de Goiânia, são produtos dessa cultura. E, perigosamente, eles têm sido tratados pelas polícias locais como rivalidades “normais”, brigas como quaisquer outras, crimes torpes, mas sem motivação política – estranha característica comum que une esses últimos três episódios.

Embora a lei não trate especificamente o crime por motivação política, as ocorrências enquadradas neste tópico têm penas mais graves, qualificadas no artigo 121 do Código Penal. Adicionalmente, impõem danos aos políticos da mesma linhagem dos agressores. Isso pode explicar os pudores – para não dizer adesismo – das polícias em vincular à política os assassinatos e agressões obviamente políticos.

Para agravar o que não poderia ser mais grave, tem-se a impunidade. O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), em março de 2018, continua sem solução há mais de 1.600 dias. Na Bahia, a morte do mestre de capoeira Moa do Catendê, em outubro do mesmo ano, foi apontada como crime político, mas o esfaqueador, Paulo Sérgio Ferreira de Santana, ainda não foi julgado.

Bolsonaro não dá um pio quanto ao recrudescimento da violência política. A única ocorrência que ele inclui nesse rol é o atentado a faca do qual foi vítima em 2018, em Juiz de Fora. A investigação – virada e revirada – aponta que o culpado Adélio Bispo, cumprindo pena na Penitenciária Federal de Campo Grande (MT), tem problemas mentais. Bolsonaro discorda e insiste em associar o ato a uma conspiração da esquerda.

Quisera que a reação de Bolsonaro fosse apenas o silêncio. No dia seguinte ao esfaqueamento do petista Benedito pelo bolsonarista Rafael, o presidente aumentou o tom do enfrentamento. Tratou o PT como “praga” a ser “varrida para o lixo”. Praticamente repetiu o Lula de 2010, que pretendia “extirpar o DEM da política brasileira”. Incentivadores da divisão da sociedade – “nós versus eles”, “bons versus maus” -, ambos exibem absoluto desprezo pela democracia, que pressupõe respeito ao contraditório e aos adversários. Sem isso, a violência grassa.

E o seu nível de corrupção, como vai?

Dizem por ai que todo homem tem seu preço. Há quem vá mais longe afirmando que alguns homens são vendidos a preço de banana. Sempre esperei, na vida, o dia da Grande Corrupção, e confesso, decepcionado, que ele nunca veio. A mim só me oferecem causas meritórias, oportunidades de sacrifício, salvações da Pátria ou pura e frontalmente a hedionda tarefa de lutar.. . contra a corrupção. Enquanto eu procuro desesperadamente uma oportunidade, as pessoas e entidades agem comigo de tal forma que às vezes chego a duvidar de que a corrupção exista. Mas, falar em corrupção, como anda a sua? Vendendo saúde ou combalida e atrofiada como a minha? Responda com muito cuidado às perguntas abaixo e depois conclua sobre sua própria personalidade: você é um corrupto total ou um idiota completo? (Não há meio-termo.) Conte 10 pontos para cada resposta certa (você é quem decide qual é a certa) e verifique depois o grau de sua corruptibilidade. Nota: Se você roubar neste teste, é porque sua corrupção é mesmo absolutamente incorruptível.


A) Você descobre que o chefe do seu departamento está com um caso complicado com a secretária do outro chefe em frente. Você: 1) Finge que não viu nada. 2) Diz à secretária que ou também está, nessa ou vai botar a boca no mundo. 3) Oferece o seu sítio ao chefe pra ele passar o fim de semana. 4) Bota a boca no mundo. 5) Insinua ao chefe que há a perigosa hipótese de a mulher dele vir a saber (e enquanto isso põe a promoção embaixo do nariz dele pra ele assinar).

B) Você acha que a Lei e a Ordem é uma mística social maravilhosa para: 1) Impor a lei e a ordem. 2) Acabar com a grita dos descontentes. 3) Grandes oportunidades de ganhar algum por fora. 4) Dividir o bolo entre os íntimos sem ninguém de fora piar.

C) A primeira vez em que você ouviu falar do escândalo de Watergate você disse: 1) Isso é que é país! 2) Como é que o governo americano permite uma imprensa dessas? Isso desmoraliza um país! 3) Eu não compraria um carro usado desse Nixon. 4) Isso jamais aconteceria entre nós. 5) Quanto terão levado esses caras pra se arriscarem dessa maneira?

D) Você, como representante oficial da fiscalização, comparece à apresentação de contas, em dinheiro, no Instituto dos Cegos. Fica surpreendido com o alto volume das arrecadações e em certo momento: 1 ) Diz : “Estou surpreendido com a miserabilidade dos donativos”. E tenta enrustir algum. 2) Diz: “Como representante do fisco sou obrigado a reter 30 % de tudo porque esta arrecadação é totalmente ilegal”. 3) Diz: “Teria sido até uma boa arrecadação se metade das notas não fossem falsas”. 4) Disfarça bem a voz e diz, entredentes: “Todos quietinhos aí, seus Homeros de uma figa: Isto é um assalto!”

E) Você se demite do cargo de maneira irrevogável por insuportáveis pressões morais e absoluta impossibilidade de compactuar com a presente política da firma. Eles prometem triplicar o seu salário. Você: 1) Recusa, indignado, por pensarem que é tudo uma questão de dinheiro. Só ficará se eles derem também as três viagens anuais à Europa a que todos os diretores têm direito. E participação nos lucros retidos da companhia. 2) Diz que, evidentemente, isso e uma prova moral de que eles estão de acordo com você. O dinheiro, aí é definitivo como demonstração de confiança na sua gestão. 3) Pede para pensar 5 minutos antes de dar a resposta. 4) Explica que tem mulher e filhos e não pode manter um pedido de demissão feito, afinal de contas, por motivos tão irrelevantes.

F) Há uma diferença fundamental entre fraudar e evitar o imposto de renda. Quando você descobriu isso, você: 1) Ficou indignado com as possibilidades de os poderosos usarem tudo a seu favor. Como é que se pode escamotear um ordenado? 2) Começou a estudar furiosamente a legislação para descobrir todos os furos. 3) Tinha 11 anos de idade e estava terminando o curso primário. 4) Nunca mais pagou um tostão de imposto.

G) Você dá um nota de 10 pra pagar o jornal, no jornaleiro velhinho da banca da esquina, e percebe que ele lhe deu 50 como troco. Você imediatamente: 1) Corrige o erro do velhinho? 2) Reclama chateado aproveitando a gagaíce do vendedor: “Pô, eu lhe dei uma nota de 100?” 3) Chega em casa e manda todos os seus filhos comprarem vários jornais? 4) Bota o dinheiro no bolso e fica freguês?

H) Você teve que fazer um trabalho na rua, não pôde almoçar, comeu um sanduíche. Você apresenta a conta na companhia: 1) Um sanduíche — 3 cruzeiros. 2) Almoço — 32 cruzeiros. 3) Almoço com o representante da A&F Ltda. — 79 cruzeiros. 4) Despesas gerais — 143 cruzeiros.

I) Quando o desfalque dado pelo auditor geral (8.000.000 pratas) chega a seus ouvidos você murmura: 1) “Idiota, se deixar apanhar assim”. 2) “Será que eles vão descobrir também os meus 10.000?”. 3) “Se ele tivesse me dado 10% eu tinha feito o negócio de maneira que ninguém nunca ia descobrir”. 4) “Eu fiz bem em não entrar no negócio”.

Conselho de amigo:
Quando alguém, na rua, gritar “Pega ladrão!”, finge que não é com você.
 Millôr Fernandes