domingo, 3 de novembro de 2019

'Sabe com quem está falando?'

Quem já não esteve na situação de receber essa carteirada de algum interlocutor com ares de autoridade? Houve tempo em que essa relíquia do passado autoritário e, por que não dizer, paternalista do Brasil tornara-se mais rara, apesar de jamais ter desaparecido por completo. Eis que, em tempos de hienas e fricotes nas redes sociais, a carteirada voltou a ser um meio de vida para o governo brasileiro. Afogado em estultices e falta de competência, sobrou apenas o bom e velho método de intimidação tropical-lusófona. E aí, “sabe com quem está falando”?

Dia desses e outros também tenho visto muita gente reclamar das carteiradas constantes. Muitas são inevitavelmente dirigidas a jornalistas, cujo trabalho é apurar fatos, mas muita gente no Brasil de hoje — no mundo de hoje — não gosta de fatos. Fatos muitas vezes são inconvenientes. Por exemplo: imagine que você tenha ficado preocupada e tenha decidido pesquisar sobre a Amazônia. Se você fez seu trabalho de forma cuidadosa, leu vários artigos científicos, aprendeu sobre as minúcias dos pontos de não retorno — os tipping points a partir dos quais a floresta vira savana —, conversou com cientistas, ambientalistas e ministros e ministras do Meio Ambiente de governos anteriores. Se você é economista tem a vantagem de ter passado por um rigoroso treinamento matemático. Quem sabe você aprendeu a gostar especialmente de modelos dinâmicos não lineares, aqueles que retratam a instabilidade do mundo como ele realmente é. Sendo esse o caso, há uma boa possibilidade de que você tenha decidido fazer umas contas para traçar cenários sobre a morte da floresta. Cenários não são certezas, mas ajudam a dar uma boa noção da urgência de certos problemas. E, bem, se dia sim e outro também você está acompanhando a cobertura jornalística dos desastres ambientais brasileiros, a Amazônia tem moradia certa em sua cabeça. Você faz a conta e traça o cenário. Eis que você descobre que o cenário catastrófico que tantos temem pode estar mais próximo do que muitos imaginam.


Inevitavelmente, você escreve e publica um artigo sobre a Amazônia. Evidentemente, alguns cientistas concordarão com seus achados e outros discordarão deles. Concordar e discordar fazem parte do método científico, da dialética da descoberta, por assim dizer. Sistemas dinâmicos não lineares, comumente chamados de sistemas dinâmicos complexos, são fascinantes pelo alto grau de instabilidade e imprevisibilidade. São, por essa razão, um prato cheio para o debate científico. Mas... “o governo desconhece o debate científico. O governo conhece apenas o pensamento linear”

Vejam, o pensamento linear, quando bem embasado por vetores, matrizes e álgebra linear, pode ser bastante sofisticado. Mas o pensamento linear unidimensional baseado em crendices, teorias conspiratórias e pitadas de magia pueril nada tem de interessante. Tem, sim, o poder destruidor. E, é claro, não consegue resistir à carteirada. Como assim você produziu um cenário de que não gostamos? Como ousa dizer que nosso governo pode vir a ser o responsável pela maior catástrofe ambiental do planeta, acentuada pelas mudanças climáticas em curso — nas quais não acreditamos — e com capacidade de acelerar as próprias mudanças climáticas em curso — e já dissemos que nelas não acreditamos? Em bom inglês: how dare you?

O presidente aparece na TV. Aparece na TV na Arábia Saudita. Ao aparecer na TV na Arábia Saudita para falar a um grupo de investidores, ele afirma ter potencializado as queimadas e o desmatamento na Amazônia porque ele não se “identificou com políticas anteriores no tocante à Amazônia”. Arremata: “A Amazônia é nossa! A Amazônia é do Brasil!”. Dias antes, membros do governo dele haviam tentado dar a carteirada em você porque seus números, poxa, seus números. A carteirada vem com um palavrório sobre os compromissos do governo com a Amazônia. A Amazônia acima de tudo, a Amazônia acima de todos. Trata-se da melhor política ambiental do planeta. Ela é fantástica, ela é memorável, ela é estupenda. How dare you?

O problema. O problema é que logo em seguida você e toda a torcida do Flamengo — sim, do Flamengo, viva o Flamengo — viram o presidente na TV. Na Arábia Saudita. Coitada da carteirada. Ela já não tem mais o fôlego de outrora. “Sabe com quem está falando?” Sei muito bem. Portanto, sente-se aí porque ainda não acabei de dizer tudo que tenho a escrever sobre a Amazônia.
Monica de Bolle

Aos 'tresloucados e malucos'

Em entrevista ao Estado, em dezembro de 2016, o então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, me contou que “tresloucados e malucos” batiam às portas das Forças Armadas pedindo a volta dos militares ao poder e que, de pronto, ele advertia que algo assim tinha “chance zero”. Três anos depois, porém, o clã Bolsonaro arrepia o País com sua apologia a ditaduras.

Villas Bôas relatou que respondia com o artigo 142 da Constituição àquela versão atualizada das “vivandeiras alvoroçadas” que, segundo o marechal Castello Branco, primeiro presidente do regime de 1964, exigiam “extravagâncias” do Poder Militar. Por esse artigo, as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Boa lembrança, já que o capitão da reserva Jair Bolsonaro nem completou um ano de mandato e seu filho Eduardo, deputado federal e quase embaixador (em Washington!), choca o País inteiro ao defender a volta do demoníaco AI-5, enquanto o presidente, como informa o repórter Renato Onofre, costura sua filiação ao ainda em gestação Partido Militar Brasileiro.

Assim, o novo partido embolaria perigosamente o presidente da República com militares, policiais, a bancada da bala e “tresloucados e malucos” de diversas espécies. E sob o número 38, em referência ao revólver mais conhecido, principalmente entre os bandidos, no bang-bang nacional. O presidente no “três oitão”...


Eduardo Bolsonaro uniu o País inteiro, da esquerda à direita, do PT de Lula ao PSC do Pastor Everaldo, ao defender a volta do demoníaco AI-5. Para o pai Jair, quem fala uma coisa dessas está “sonhando, sonhando, sonhando”. Há quem sonhe com o paraíso, ganhar na loteria, a casa própria ou um bom prato de comida. Fazer apologia a ditaduras não é sonho, é pesadelo — além de crime.

Só não é novidade no clã Bolsonaro, já que o patriarca saiu pela porta dos fundos do Exército após ser acusado de planejar explodir quartéis, passou três décadas no Congresso defendendo ditadores, torturadores, censura e dedicou seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff a Brilhante Ustra, a estrela dos livros sobre tortura no Brasil.

Já eleito presidente, Bolsonaro chocou o Paraguai ao elogiar Stroessner e irritou o Chile duas vezes: com loas ao igualmente sanguinário Pinochet e depois atacando o pai da ex-presidente Michelle Bachelet, morto sob tortura. Até o atual presidente Sebastián Piñera reagiu.

Foi assim que Bolsonaro criou os filhos. Eduardo já tinha feito a bravata infantil de que, para fechar o Supremo, bastam um cabo e um soldado. Carlos lidera uma guerra insana pela internet contra tudo e todos. Flávio mantém relações complexas com ex-policiais de má fama no Rio.

Perguntei a um oficial muito entrosado com as três Forças como militares reagiam à fala sobre o AI-5 e ele: “Rindo. Só rindo de um absurdo desses”. E disse que “nunca” haverá um partido militar, incompatível com a missão constitucional das Forças Armadas e um retrocesso gravíssimo no longo processo de profissionalização e descontaminação dos quartéis.

A manifestação do oficial está perfeitamente de acordo com o que me disse naquela entrevista o brilhante general Villas Bôas, ao descartar aventuras golpistas e apelos de vivandeiras: “Nós aprendemos a lição. Estamos escaldados”. Só que o presidente e seus filhos talvez não.

A Câmara, por corporativismo ou preguiça, apenas advertiu o deputado Jair, que em 1999 queria fechar o Congresso, disse que “o erro do regime militar foi (só) torturar, não matar” e lamentou que o então presidente Fernando Henrique não tivesse sido fuzilado. Parecia só bravata e, impune, Jair acabou presidente. Como a Câmara vai reagir agora ao deputado Eduardo?

Imagem do Dia

Via Láctea capturada por Jheison Huerta no Salar de Uyuni, na Bolívia

Os sonhadores do nosso pesadelo

O reaparecimento do AI-5 abafou o insulto das hienas. Que por sua vez abafou a confirmação das opressões a presos na Lava Jato. Com isso abafando a reação às ameaças de isolamento da Argentina e de fim do Mercosul.

A veloz sobreposição dos desvarios é a lógica dos ataques corrosivos com que o movimento autoritário vai expulsando do país, sem reação, os “ares democráticos” —na boa designação do ministro Marco Aurélio Mello para o nosso indefinível regime.

Os intervalos prestam-se a desautorizações de Bolsonaro e outras saídas inconvincentes. Caso, por exemplo, da explicação para os registros comprometedores de entradas e comunicações no condomínio de Jair e Carlos Bolsonaro. A confusão agora atribuída ao porteiro experiente, entre os números 58 e 65 no registro de entradas, está longe de ser admissível. E ainda a confusão entre duas vozes, que ouve há muitos anos, na autorização para entrada de um envolvido na morte de Marielle, isso apenas completa o primarismo do socorro buscado pelos Bolsonaros.

Tanto mais que, entre a correta revelação, feita pela TV Globo, das anotações originais e a inculpação do porteiro, o filho Carlos teve em mãos o material da portaria, teve contatos com o porteiro, e foi o lançador da nova versão. Já descuidado então das hienas levadas ao saite, ou ao zoo, que divide com o pai, para insultar o Supremo, a ONU, a CNBB, a OAB, o Congresso, a “mídia”.

O filho da vez, Eduardo, costuma ser mais direto. Assim como se referiu ao fechamento do Supremo, apenas com o poder de um cabo e um soldado, invocou o AI-5 como possível solução para insatisfações por aqui. O que mereceu do pai um comentário dúbio, não por inteligência, mas por lapso freudiano: quem “fala em AI-5 está sonhando”. Está fora da realidade ou o seu sonhar é ter um desejo forte? Não é o caso do velho “ou ambos”.


A realidade, hoje, não é só ameaçadora. Já derrubou muitos valores da democracia e da civilização. Como sabem os artistas, os docentes universitários, os pesquisadores científicos, os que lutam pela Amazônia, os ambientalistas todos, os indígenas, os cansados de ver as “reformas” tirarem sempre dos que menos têm.

O ataque constante ao sistema constitucional de Três Poderes independentes, a intromissão ideológica na política interna de países vizinhos, as contradições da política externa, além daquelas violentas práticas administrativas, são realidades objetivas.

Se os desatinos dos Bolsonaro fossem apenas blefes, como alguns imaginam, esses fatos não estariam tão à vista de quem os queria ver a sério. Blefe, obviamente por ser blefe, nem se pode saber se é, até que por fim se exponha, caso o faça.

Os Bolsonaro não suscitam dúvida. A incógnita está nos militares, em especial os do Exército, da ativa e reformados. Sabe-se, por exemplo, que as ideias adotadas por Bolsonaro para a Amazônia, para as reservas indígenas e para os próprios índios coincidem, como conjunto, com as vigentes no Exército.

Já no começo dos anos 1970, Médici no Planalto e o AI-5 no poder, isso foi explicitado publicamente, sobretudo a partir de intenções devastadoras para os ianomâmi. A “questão indígena do Brasil” tornou-se preocupação internacional, e a ditadura foi compelida a conter-se.

Mas o silêncio dos generais bolsonaristas diante dos acontecimentos produzidos pelos Bolsonaro e seus bolsonaretes, dos mais grotescos aos mais comprometedores do país, significa algo que não se sabe o que é. Sim, quem cala consente. Mas nem sempre. E se consente, por que o faz e até onde o fará? Não há sequer sugestão de resposta, embora não falte quem veja resposta na ausência de resposta.

A profissionalização militar parece prosseguir na Marinha e na Aeronáutica, as duas forças nas quais, não por coincidência, a formação tem melhor nível em conhecimento e em costumes. No Exército, a profissionalização sofreu forte recuo, personificado no general reformado Eduardo Villas Bôas.

Patrocinador da candidatura Bolsonaro, conselheiro do governo, é a voz das pressões sobre o Supremo contra decisão que possa libertar Lula (na primeira investida, a pressão foi vitoriosa; a segunda não está decidida).

Mas não há clareza sobre a representatividade política desse general nos dias atuais, nem tampouco a do também bolsonarista Augusto Heleno, que contradiz com ira extremada e permanente o diminutivo Heleninho do tratamento de camaradas.

O bolsonarismo sonha e não para. Dos democratas, apenas se sabe que dormem. Ou fingem dormir.

Ecoturismo faz renascer região abalada por um dos piores desastres ambientais do governo militar

Quem avista pela primeira vez as árvores semi-submersas que parecem flutuar no céu espelhado no leito do rio Uatumã, na Amazônia, dificilmente dirá que este já foi o cenário de um dos maiores desastres ambientais da história brasileira recente.

Nos anos que se seguiram à crise do petróleo, na década de 1970, o governo militar e a Eletronorte decidiram construir uma hidrelétrica na cidade de Presidente Figueiredo, pouco mais de 100 quilômetros rio acima.


Decomposição das árvores submersas produz impacto 25
vezes maior no efeito estufa do que antes da hidrelétrica
 
O objetivo declarado da construção da usina de Balbina era reduzir a dependência de Manaus de usinas movidas a combustíveis fósseis. A usina, porém, inundou uma área de floresta nativa equivalente a 2,4 mil quilômetros quadrados, quase duas vezes maior que a do Lago de Itaipu (maior hidrelétrica do mundo,) para produzir menos de 2% da energia produzida pela usina binacional.

Mesmo depois que a obra ficou pronta, Manaus continuou dependendo de usinas térmicas para mais da metade de sua demanda na época. Quando a cidade se conectou ao Sistema Interligado Nacional (SIN), com o linhão de Tucuruí, em 2013, Balbina não respondia por mais de 20% da eletricidade consumida na capital do Amazonas.

Contaminada pelo apodrecimento das árvores e animais mortos pelo lago, a água do Uatumã nessa área se tornou imprópria para banho e consumo humano e, assim que as comportas foram abertas, em 1989, deixou um rastro de mortes de peixes e animais rio abaixo.

Essa história é contada, entre outras fontes, no documentário "Balbina no País da Impunidade", também de 1989, e por matérias de importantes jornais estrangeiros.

Orçada oficialmente em US$ 750 milhões, Balbina levou quase nove anos para ser construída. Tida como cara e de alto custo de manutenção, recebeu críticas desde que ainda era projeto.

Para o físico e então reitor da Universidade de São Paulo, José Goldemberg, havia alternativas melhores, como a construção de térmicas abastecidas por gás natural que a Petrobras havia descoberto em Juruá, a 500 quilômetros de Manaus.

Também se falava do fato de a obra ser construída em uma região de floresta com imensa biodiversidade. Em março de 1988, cerca de seis meses após o início do alagamento dessa região da Amazônia, a repórter Marlise Simons, do The New York Times, acompanhou uma das equipes de um grupo de 250 pessoas encarregado de encontrar, capturar e soltar em áreas seguras animais ilhados.

O título apontava: "O Brasil quer hidrelétricas, mas a que custo?"

"Os animais terrestres aqui ou fugiram ou morreram", contava à jornalista o zoólogo Bento Melo, enquanto seguiam pelo rio em expedição. "Estamos buscando animais de árvores, como primatas, preguiças, felinos e tamanduás."

Usina de Balbina foi considerada a pior hidrelétrica brasileira,
em uma lista de mais de 100 nomes composta por especialistas
Sem o mesmo tipo de socorro, bichos menores como lagartos, escorpiões e aranhas se defendiam como podiam - ficavam amontoados na copa das árvores, o que resultava em imagens insólitas de folhagens tomadas por essas espécies.

Animais que nadam bem foram deixados sozinhos. O alagamento resultou na criação de mais de 3,5 mil ilhas no lago, algumas pequenas, outras com alguns quilômetros quadrados. "Ninguém tem a mínima ideia de quantos bichos há nesta área, nem a quantidade de vida que ela pode sustentar", dizia Melo.

Ao menos duas aldeias indígenas existentes na região do lago — como a dos Waimiri-Atroari — foram transferidas e, com a morte dos peixes, após o início da operação, muitos moradores da região ficaram sem ter o que comer e beber.

Os efeitos ambientais são sentidos até hoje. A decomposição das árvores submersas geram dióxido de carbono na superfície e, no fundo do lago, metano, com impacto 25 vezes maior no efeito estufa do que antes da hidrelétrica, segundo cálculos do ecólogo Alexandre Kemenes, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Preso ao fundo pela pressão, o gás é liberado na passagem da água pelas turbinas da usina e contribui para a morte de peixes do fundo do rio, como os bagres. Com isso, de acordo com Kemenes, Balbina emite dez vezes mais gases do efeito estufa que uma usina termelétrica a carvão com a mesma potência — há outros estudos que apontam um número menor, mas todos trazem evidências de que a hidrelétrica emite mais gases de efeito estufa que uma termelétrica com potencial equivalente.

Por tudo isso, e pela baixa capacidade de geração em relação ao tamanho do lago, recentemente a usina foi considerada a pior hidrelétrica brasileira, em uma lista de mais de 100 nomes composta por especialistas como Luiz Pinguelli Rosa, ex-presidente da Eletrobrás e professor de planejamento energético da Coppe/UFRJ.

Passados 30 anos, a água do Uatumã ainda não voltou a ser potável e peixes de algumas espécies, antes comuns, são hoje relativamente raros.

"Quando as águas baixaram, o cheiro de peixe morto era insuportável. Tudo aqui em volta, no mato, onde a água chegou, cheirava muito mal", lembra o ribeirinho Antônio Martins Queirós, de 65 anos.

A situação, hoje, é outra e o que era degradação, nos últimos anos, vem se transformando em oportunidade para quem vive em uma área rica em belezas naturais.

Três décadas depois do desastre ambiental, o ecoturismo encontra espaço no rio Uatumã, com a criação de uma reserva de desenvolvimento sustentável, controle do acesso de barcos-hotéis vindos de fora e participação da população local na atividade turística.

Aos poucos, o turismo vai substituindo como fonte de renda a pesca, a caça e outras formas de extrativismo nocivas ao meio ambiente.

Sentado sobre uma pilha de tijolos, descalço, de bermuda e camisa pólo, o ribeirinho Antônio Queirós discorre sobre seus planos. Até 2018, vivia da agricultura de subsistência e da venda de melancias que plantava no entorno da casa onde mora.

A picada de uma surucucu (a segunda), no entanto, o levou a repensar o futuro.

Animado pelos resultados de outros ribeirinhos, decidiu usar suas economias para construir uma pousada e se somou ao grupo que vem investindo no ecoturismo.

Já são dez as pousadas em funcionamento na região, e outras cinco devem entrar em operação até 2020. Até cinco anos atrás, eram apenas duas pousadas. "É minha aposentadoria. Já não tenho disposição para a agricultura", diz Queirós.

O bom momento atual é reflexo de ações de preservação ambiental na região.

Em 2004, depois de um período de forte degradação do rio, iniciado com a abertura das comportas de Balbina, o governo do Estado do Amazonas transformou uma área quase duas vezes maior que o município de São Paulo, no entorno do rio, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã (RDS Uatumã).

A unidade de preservação ambiental foi o ponto de partida de um plano estratégico de desenvolvimento sustentável para a região, que prevê, entre outras coisas, a exploração do ecoturismo, do turismo de base comunitária e da pesca esportiva como alternativas de renda para as populações ribeirinhas.

Primeiro, veio a proibição à exploração de pousadas na região por quem não fosse morador — havia duas, hoje fechadas. Depois, o ordenamento para a construção de pousadas pelos ribeirinhos.

Mais recentemente, houve a restrição a barcos-hotéis, vindos de Manaus, que até 2016 podiam circular em qualquer um dos três pólos da reserva.

As embarcações costumavam trazer dezenas de pessoas e deixavam para trás apenas lixo, contam os ribeirinhos.

Desde então, porém, a circulação ficou restrita a um dos pólos, o menor, onde não há pousadas. "Assim, os barcos deixaram de concorrer com as comunidades locais", afirma Cristiano Gonçalves, gerente da unidade de preservação.

Levantem-se pelos mortos!

Caros brasileiros,

Neste Dia de Finados me dei conta do quanto os mortos estão presentes na vida. Na vida pessoal e na política também. Por mais que tentamos esquecê-los, apagar ou deturbar suas memórias, eles voltam.

No Brasil, é o caso Marielle Franco. Cada vez mais aparecem contradições. A intenção de acobertar o crime fica cada vez mais evidente.

Nesse contexto pesado, Eduardo Bolsonaro ligou a metralhadora verbal. Insinuou que os protestos atuais no Chile poderiam acabar chegando ao Brasil. Tentou criar um cenário ameaçador dizendo que, caso haja um efeito de contágio no Brasil, um novo AI-5 poderia ser editado.

Será que a intenção dele era tira a atenção do caso Marielle e "proteger" o pai dele? Se for, o plano não deu certo. Mas a atitude dele revela em dose dupla a falta de respeito perante os mortos. Brasileiros mortos por motivos políticos, como Marielle e as vítimas da ditadura.


Mostra também a ilusão de que reprimir adversários políticos pode resolver a briga pelo poder ou por ideologia. Pois os mortos não respeitam a lei do silêncio. Os espíritos deles continuam rodando e "perturbando”, confrontando todo mundo com o passado.

Na Alemanha, infelizmente, a vontade de banalizar e minimizar os perigos da extrema direita também cresce. Faz pouco tempo, o partido populista de direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) gerou enorme controvérsia ao comentar sobre o memorial aos judeus mortos no Holocausto em Berlim.

O chefe da AfD no estado de Turínga, Björn Höcke, afirmou que os alemães são "os únicos do mundo a ter plantado um monumento da vergonha no coração de sua capital". E continuou: "Essas políticas estúpidas de enfrentar o passado nos paralisam – tudo de que precisamos é de uma virada de 180 graus na política da memória".

Nas eleições estaduais de 27 de outubro, esse político ultradireita da AfD conseguiu 23,4 por cento dos votos. Foi uma vitória arrasadora, pois quatro anos atrás, o partido AfD tinha conquistado 10,6%.

Durante muitos anos, o crescimento da ultradireita na Alemanha foi banalizado. E com isso, também, a violência e os crimes antissemitas, xenófobos e racistas. Só com o escândalo do grupo terrorista Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU), o erro ficou evidente, e um debate foi iniciado.

O grupo neonazista NSU foi fundado em 1999 com o "objetivo” de assassinar estrangeiros na Alemanha. Os integrantes do grupo mataram dez pessoas entre 2000 e 2007 e tentaram matar outras 43. As investigações, porém, excluíram motivos xenófobos durante muitos anos.

As vitimas da NSU foram assassinadas em plena democracia por motivos políticos. Como Marielle no Brasil. E como muitos outros líderes comunitários, ativistas e militantes políticos em diferentes regiões brasileiras.

No Dia de Finados, eles levantam a voz novamente. Morreram, mas os ideais continuem vivos. Eles precisam de aliados, como a democracia que precisa ser defendida. Os mortos governam juntos. Vamos nos levantar por eles.
Astrid Prange de Oliveira

Os BolsoLulas

Em abril de 2018, horas antes de se entregar à Polícia Federal, Lula discursou para sua militância diante do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e disse que "eu não sou um ser humano, sou uma ideia". Foi adiante:

"Eu fico imaginando o tesão da Globo colocando a minha fotografia preso. Eles vão ter orgasmos múltiplos. (...) Eles têm de saber que vocês, quem sabe, são até mais inteligentes que eu, e queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas, as ocupações no campo e na cidade; parecia difícil a ocupação de São Bernardo, e amanhã vocês vão receber a notícia que vocês ganharam o terreno que vocês invadiram."

Era sonho. Lula foi para a cadeia, ninguém foi para a rua, seu candidato a presidente foi derrotado por 55% a 45% e em janeiro de 2019 o capitão Jair Bolsonaro tomou posse na Presidência da República. Logo o capitão, que Lula achava fácil derrotar.

Passaram-se dez meses, Lula conta o tempo para deixar a carceragem de Curitiba e os Bolsonaros deixaram na porta da sua cela a bandeira da pacificação. Num país com 12 milhões de desempregados eles brigam aqui e alhures, para nada. Se Lula vai empunhar essa bandeira, só ele sabe, mas vale a pena lembrar que há poucas semanas o PT foi para a avenida Paulista com poucas camisas vermelhas. A deputada Gleisi Hoffmann vestia uma camiseta branca com o rosto de Lula enfeitado por flores.


Em sua entrevista a Leda Nagle, o deputado Eduardo Bolsonaro disse que "vai chegar um momento em que a situação vai ser igual ao final dos anos 60 no Brasil, quando sequestravam aeronaves, quando sequestravam-se e executavam-se autoridades, cônsules, embaixadores, com execuções de policiais e de militares. Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar de uma resposta. Ela pode ser via um novo AI-5".

Eduardo Bolsonaro corrigiu-se e seu pai condenou a fala. Mesmo assim deve-se registrar que no final dos anos 60 havia também um terrorismo de direita, cujo núcleo clandestino era composto por militares e civis. Era menos letal, mas buscava estimular a tensão política.

O nervo da formulação do deputado esteve na frase "se a esquerda radicalizar". E se a esquerda não radicalizar? Até agora, o radicalismo da inépcia foi monopólio do governo. Ademais, o último atentado terrorista ocorrido no Brasil, em 1981, foi a bomba do Riocentro, mas ele saiu do DOI-Codi do 1º Exército.

Há radicais na esquerda, mas no Brasil o que está na vitrine é outro radicalismo tosco, demófobo e desorientado. Ele teceu a bandeira da pacificação, levou-a a Curitiba e deixou-a na porta da cela de Lula.

Porteiros e polícia

Além do fantasma de Marielle Franco, outra assombração ronda o movimento de carros no condomínio onde viviam Jair Bolsonaro e o miliciano Ronnie Lessa no dia do assassinato da vereadora. É o risco de que acabe sobrando para o porteiro que registrou a entrada de Élcio Queiroz na propriedade.

Não se sabe o que aconteceu naquele dia, mas uma velha história ensina que polícia e porteiros produzem situações fantásticas.


Em maio de 1976, Íris Coelho, ex-secretária do general Golbery do Couto e Silva e do presidente Castello Branco, escreveu-lhe uma carta contando o que havia acontecido ao porteiro de seu edifício. Haviam roubado objetos de carros que estavam na garagem e ele foi preso. Com 11 anos de serviço e pai de três filhos, soltaram-no 24 horas depois: "O pobre estava todo machucado, os tímpanos perfurados. Aplicaram-lhe choque, bateram-lhe a cabeça contra a parede. Foi fichado como ladrão de automóveis e arrombador".

Íris não era uma novata. Depois de uma audiência com o embaixador soviético, Castello chamou-a para ditar uma minuta da conversa secreta.


Passaram-se seis meses e o governador do Rio remeteu o resultado da investigação a Golbery, o então poderoso Chefe da Casa Civil da Presidência. Resultava que depois de novos depoimentos e acareações, a polícia apurou o seguinte:

1- O porteiro disse que conversou com Íris, expressou-se mal ou ela não entendeu o que ele falou. Além disso, não a autorizou a fazer qualquer reclamação.

2- As marcas que tinha pelo corpo eram produto de uma alergia.

Íris Coelho voltou a escrever:

"Sinto muito, acredite que lastimo realmente ter sido causa de tanto trabalho e perda de tempo. Do modo como o processo se encaminhava, achei que a melhor solução seria aquela que foi dada na acareação com o porteiro. Creia-me, aprendi uma grande lição."

Seja qual for versão, sempre que se chega à conclusão de que o porteiro mentiu, vale a pena perguntar quem estava interessado nisso.

Novos 'atos' do Brasil


Em estado de autoflagelo

Na tarde de ontem, o presidente Jair Bolsonaro usou a conta pessoal que tem no Twitter para fazer uma comparação entre o primeiro ano de seu governo e o primeiro ano do segundo governo de Dilma Rousseff (2015). Eis a tabela: inflação no governo Dilma, 10,67%, no de Bolsonaro, 3%; juros com Dilma, 14%, com Bolsonaro, 5%; índice da Bolsa no governo Dilma, 38 mil, no governo de Bolsonaro, 108 mil pontos; risco-país sob Dilma, 533 pontos, sob Bolsonaro, 117; PIB de Dilma, -3,8%, de Bolsonaro, 0,8%. Goleada para Bolsonaro.

Certamente seus partidários mais fiéis vão dizer que é um placar semelhante ao 7 a 1 aplicado pela seleção de futebol da Alemanha na seleção do Brasil na Copa da Fifa de 2014, competição que Dilma chamou de “Copa das Copas”, e que para o Brasil foi o vexame dos vexames.

Bolsonaro não disse, mas isso ninguém costuma mesmo dizer, é que os índices econômicos tão diferentes para melhor foram conseguidos por vários motivos, com destaque para dois. O primeiro, é que ele recebeu do presidente Michel Temer uma economia já em recuperação, lenta, mas não mais em depressão. O segundo é que sua equipe econômica trabalha duro e sem interferências mais sérias. Na economia, nem o presidente nem seus filhos criam crises como criam na política. Além do mais, o Congresso decidiu parar de fazer marolas, de votar pautas-bomba. Abraçou as reformas econômicas, passou confiança para o mercado, permitiu que investidores pensem no Brasil como um bom lugar para pôr o dinheiro que têm.


Imagina o cenário que o presidente poderia mostrar no Twitter se o País tivesse um mínimo de paz na política, se o presidente não criasse uma crise nova a todo momento, se os filhos decidissem ser só o que são: filhos do presidente da República, um envolvido com o trabalho no Senado, outro com o trabalho na liderança do PSL e na presidência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e outro na sua função de vereador no Rio de Janeiro, fiscalizando o que faz a administração de Marcelo Crivella. E não pensando que, por serem filhos do presidente, podem também ocupar a Presidência de vez em quando. E nessa função à qual não têm direito, pensar em uma guerra contra inimigos imaginários, planejar a assinatura de um novo AI-5 e jogar a Nação e seu povo de volta a uma ditadura que ninguém quer.

Sem as crises políticas, Bolsonaro poderia usar o Twitter não só para fazer uma comparação entre seu governo e o de Dilma. Poderia também dizer que em seu governo não se registrou, até agora, nenhuma crise política, ao contrário do que ocorreu no de Dilma em 2015. Naquele ano, em novembro, aliados fugiam dela como se ela fosse o diabo. E dali a um mês seria aberto um processo de impeachment.

O problema é que Bolsonaro não consegue usar o Twitter só para enaltecer as coisas boas que seu governo tem feito, e que até permitiram uma recuperaçãozinha do emprego. Vai à rede social para agredir instituições que são os pilares do estado democrático de direito, como fez com o STF, ao compará-lo a uma hiena que tenta destruir o leão-Bolsonaro. E os filhos, um aproveita que o pai está fazendo uma cirurgia para dizer que o regime democrático não permite mudanças rápidas, insinuando que as coisas só se resolvem numa ditadura; o outro dá uma entrevista para convocar fantasmas e falar que pode ser necessário editar um novo AI-5. Isso contra um adversário hipotético, incapaz de chamar uma manifestação de rua contra a reforma da Previdência. E que ainda reúne os cacos do desastre em que se meteu ao confundir o público com o privado, ao criar uma máquina de corrupção nas estatais. O que permitiu a eleição de Bolsonaro.

O sonho da grande pátria

O dado surpreende: cerca de 80 grupos criminosos controlam os presídios, com extraordinário poder de matar, extorquir, traficar drogas e expandir a violência. Assustador, ainda mais diante da possibilidade do fim das prisões após segunda instância. Ah, mas a prisão provisória vai continuar, alguns argumentam. A previsão é que os cárceres ficarão superlotados.

Hoje, somam 337 mil os presos “provisórios” – 41,5% dos encarcerados. Prevê-se que se aprofunde o ciclo da prisão provisória em mais um estrangulamento no sistema, retrocesso a ser endossado pela mais alta Corte.

Generaliza-se a sensação de impunidade. Leves e soltos, donos de lavanderias de dinheiro, exércitos do crime e bandidos de todo tipo confirmarão a tese de que o Brasil é o território da desobediência explícita. Nada mais surpreende. Vejam que esculacho: chefes de grupos criminosos, mesmo em prisões longínquas, fazem do cárcere seu escritório. E têm na ponta da língua a indagação: qual a diferença entre nós e os bandidos de colarinho-branco?

Numa expressão enganadora, governantes dizem controlar o crime organizado. Balela. O poder invisível festeja a barbárie sem escrúpulos. Só falta mobilizar seus “exércitos nas ruas e nos cárceres” em movimentos cívicos contra os “criminosos da política”.

Não será surpresa se parcela da população aplaudir a bandidagem do andar de baixo contra a turma do andar de cima. Afinal, a criminalidade e a impunidade são escandalosas. O ex-juiz Sergio Moro imaginou que, como ministro, poderia agregar mais força no combate ao crime. Ledo engano. O Legislativo, por conveniência, faz restrições a seus projetos. Ante a possível decisão do STF, corruptos e facínoras farão uso da protelação – recursos e embargos até eventual condenação em terceira ou última instância.

Não é de estranhar que a anomia – o descumprimento da lei – tome conta do país. Voltaremos aos idos da Colônia e do Império. Tomé de Souza, primeiro governador geral, chegou quando os crimes proliferavam. Avocou a imposição da lei e tirou o poder das capitanias. Mandou amarrar na boca de um canhão um índio que assassinara um colono. Mas o tiro não assombrou os tupinambás. Difícil evitar a desordem. Então apareceram as Ordenações do Reino (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas), que vigoraram até 1830. Severas, com pena de morte para a maioria das infrações, o que espantou Frederico, o Grande, da Prússia. Ao ler Livro das Ordenações, indagou: “Há ainda gente viva nas terras de Portugal?” Com o tempo, castigos foram atenuados, e a criminalidade voltou.

Entre sustos e panos quentes, o Brasil semeou a cultura do faz de conta na aplicação das leis. A população ficou indiferente diante de crimes mais atrozes. Nesse ambiente floresce o poder invisível, cancro das democracias. A violência no Brasil custa cerca de R$ 300 milhões por dia, segundo cálculos antigos do ex-secretário nacional de Segurança Pública coronel José Vicente. Mas o custo emocional é impagável. Morre-se um pouco a cada dia, levando a esperança, a fé e o sonho de uma grande pátria.

A história de umas sandálias

A moça tinha uma placa no peito: “Janaína Muanda”. Estranhei encontrar uma angolana com um nome onde o tupi se misturava com o bacongo. Eis a lusofonia colocada em prática — pensei. Como não havia mais ninguém na fila do supermercado ficamos um tempo conversando. Janaína ganhara esse nome porque, 30 anos antes, uma médica brasileira, de visita a Luanda, fora ao Mercado de São Paulo e encontrara Dona Ximinha, a mãe de Janaína, grávida de nove meses, vendendo fruta. Simpatizaram uma com a outra. A médica voltou ao mercado por diversas vezes. Contou-lhe a lenda de Janaína. Quando a menina nasceu, Dona Ximinha deu-lhe o nome da médica.

Começamos a conversar sobre nomes e destinos e acabamos, quase sem dar conta, discutindo a difícil situação de Angola e do mundo. Quando me queixei dos dias que correm, Janaína saiu em defesa deles. Fiquei surpreso, pois são poucos aqueles que defendem estes dias. A maioria das pessoas mostra mais carinho e simpatia pelo passado ou pelo futuro do que pelo presente. O presente é muito desvalorizado.

Então, Janaína contou-me a sua história. Em criança, viveu tempos realmente difíceis. Naquela época partilhava as sandálias com a mãe. Acordava de manhã muito cedo, ainda o sol não tinha nascido, para acompanhar a mãe, Dona Ximinha, ao mercado. Ela descalça, a mãe calçada. No mercado, Dona Ximinha descalçava-se e Janaína ia a correr para a escola com as sandálias dela. Na escola, os outros meninos troçavam de Janaína por calçar umas sandálias muito maiores do que os seus pequenos pés. Contudo, pelo menos tinha sandálias. Mal as aulas terminavam, a garota corria para o mercado, a devolver o calçado à mãe. Voltava para casa descalça. A maior alegria que teve em criança foi quando o pai apareceu em casa com um par de sandálias novas, ajustadas aos seus pés. Janaína dormia abraçada a elas.

Fui forçado a dar-lhe razão. Angola enfrenta muitos problemas — milhões de desempregados, uma sociedade dividida entre uma larga maioria de pessoas muito pobres e uma estreita minoria de gente extremamente rica; assistência médica precária e um péssimo sistema de ensino público etc. Contudo, já vai sendo difícil encontrar alguém descalço nas ruas das principais cidades. O mesmo acontece no resto do continente.

“O teu problema é que tens mais sapatos do que pés”, dizia-me a minha avó, sempre que eu me queixava sem um motivo sério. Depois contava-me a história do Joãozinho Centopeia, que nascera com três pernas e três pés, de forma que quando precisava comprar sapatos ficava com um a mais. Acho que ela inventava aquelas histórias, as quais, de resto, seriam impublicáveis nos dias que correm. E pronto, lá estou eu a queixar-me dos dias que correm. Venho tentando não o fazer, juro. Lembrar-me da história de Janaína ajuda-me. Lembrar-me da minha avó também. Elas estão certas: por um lado o mundo já foi um lugar pior, guerras por todo o lado, ditaduras e miséria extrema. Por outro, na maioria das vezes as nossas queixas (as minhas queixas) são fúteis. Afinal de contas, tenho sapatos. Tenho, inclusive, mais sapatos do que pés.
José Eduardo Agualusa

sábado, 2 de novembro de 2019

Relaxe


Moro desce mais um degrau

No balanço de perdas e ganhos, o ministro Sérgio Moro é o que sai pior até este momento no episódio do porteiro que ligou o presidente Jair Bolsonaro ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do seu motorista.

Augusto Aras, o novo Procurador Geral da República, não se saiu bem. De cara, disse que tudo não passou de um “factoide” que só merecia ser arquivado – e arquivou. Mas Aras, por ter assumido o cargo recentemente, tem capital para desperdiçar.

As primeiras pesquisas de opinião encomendadas pelo governo mostram que não houve deserção entre os devotos de Bolsonaro que o veem como uma vítima inocente da Globo e como o santo guerreiro disposto a vencer sua cruzada contra os infiéis.


Mas Moro, não – pelo menos no entendimento da parcela mais crítica dos bolsonaristas, e não somente dela. O ministro da Justiça não pronunciou uma só palavra em defesa do presidente da República e pediu a Aras que mandasse investigar o porteiro.

O silêncio em relação a Bolsonaro descontentou aqueles que esperavam de Moro uma defesa veemente do patrão. O pedido para que o porteiro fosse investigado contrariou os que acham que esse papel não caberia ao ministro da Justiça.

Naturalmente, o juiz encarregado do inquérito que apura a morte de Marielle mandará – se é que ainda não o fez – investigar o porteiro para saber se ele disse a verdade, se apenas se enganou ou se mentiu. E se mentiu, por quê? Estaria a serviço de quem?

Moro tentou dar uma de esperto, espertíssimo. Não poderá ser acusado de ter se prestado mais uma vez ao papel de advogado de Bolsonaro porque nada disse a seu favor. Ao mesmo tempo, de fato prestou-se a tal papel ao pedir para que o porteiro fosse investigado.

Convidado para servir a quem se elegeu com a sua ajuda à frente da Lava Jato, Moro foi para o governo com a intenção de ser Ministro da Justiça do Brasil. Em 10 meses, viu-se reduzido à condição de Ministro da Justiça do governo e advogado de Bolsonaro.

Isso pode não lhe custar um único voto por enquanto, mas corrói gravemente a sua reputação. Tanto mais se ele quiser voltar um dia à toga que abandonou por excesso de vaidade e erro de cálculo.

Ódio e nojo

Eduardo Bolsonaro nasceu um mês antes de Tancredo Neves se desincompatibilizar do cargo de governador de Minas Gerais para disputar o Colégio Eleitoral e derrotar a ditadura militar. Saberia nada da repugnância do regime não fossem os livros de História. Ocorre que o garoto foi educado na escola dos professores Jair, Olavo e Eremildo. Os dois primeiros ensinaram a Eduardo que a História fora mal contada, que a verdade estava descrita no livro do torturador Brilhante Ustra. Com Eremildo ele aprendeu a discernir. Deu nisso.

Dizer que um novo AI-5 pode ser baixado se a esquerda radicalizar é parecido com afirmação feita anteriormente de que um soldado e um cabo seriam suficientes para fechar o Supremo. Mais grave, talvez, por supor um quadro que não existe nem na mais sombria das cabeças. A esquerda brasileira não consegue se mobilizar sequer para fazer oposição ao governo, imagine organizar-se para sequestrar aviões e embaixadores ou executar policiais nas ruas.


Foi um delírio extremo, de abundante tolice, que o pai bondoso chamou de sonho ao desautorizar o filho. Enganou-se mais uma vez o presidente. O que se viu foi um pesadelo emulado por uma boca torta. Eduardo Bolsonaro é filho de Jair e pensa como ele. Se pudesse escolher, fecharia o Congresso e o Supremo, empastelaria jornais e editaria medidas de exceção. Prenderia e arrebentaria. Tudo em nome do pai. Alguém duvida?

Depois ele pediu desculpas esfarrapadas que não convenceram a ninguém. Disse que não repetiria a afirmação se pudesse refazer a entrevista, “para não gerar esta polêmica toda”. Está claro que o arrependimento é falso. Ele salientou ainda que como deputado tem “imunidade parlamentar por opiniões, palavras e votos”. Significa que essa é a sua opinião, que ele tem direito de expressá-la. Outra rematada besteira. O que ele fez foi trair a Constituição que jurou defender.


Além de atrair contra si 16 partidos e muito provavelmente responder a um processo na Comissão de Ética da Câmara, Eduardo conseguiu contrariar até mesmo setores da direita nacional que apoiam incondicionalmente o governo de seu pai. O resultado da declaração é mais uma tormenta no governo. Mesmo nos bastidores do Planalto a afirmação foi considerada absurda. Só o general Heleno deu uma resposta enviesada, mas parece que ele não entendeu bem do que estava tratando.

O aluno aplicado de Eremildo conseguiu também jogar por terra um pequeno momento de comemoração da família em razão do episódio da visita de um dos assassinos de Marielle Franco ao condomínio do pai. Claro que o caso ainda precisa ser esclarecido. A história contada pelo porteiro tem que ser melhor esmiuçada pelo Ministério Público do Rio, sobretudo depois que descobriu-se que a perícia vapt-vupt das procuradoras foi realizada em apenas duas horas.

O mais incrível é que a Eduardo, dono dessa vasta sabedoria, foi entregue o papel de formulador político da família. Ao fã do torturador Ustra deveria ser entregue o discurso de Ulysses Guimarães, proferido no dia 5 de outubro de 1988, na promulgação da Constituição. Foi um discurso épico em defesa das leis, da Nação e dos seus cidadãos. “Traidor da Constituição é traidor da pátria. (...) Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações”.

Peixe é inteligente

O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo. Então, obviamente, você pode consumir o seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano, capitão
Jorge Seif Júnior, secretário de Aquicultura e Pesca

A geopolítica social da insurgência popular

O presidente, desde a posse, opina belicosamente sobre a situação política de países vizinhos. Tem saudade de Pinochet e de seu fascismo no Chile: as atuais manifestações de rua estariam ocorrendo porque a ditadura militar de lá acabou. Não sabe que acabou faz tempo.

Deu palpites agressivos nos rumos da campanha eleitoral argentina, censurou o candidato de oposição. Manteve pé atrás em relação a governos de outros países. Não sabe que a Segunda Guerra Mundial terminou, que o muro de Berlim caiu, que ideologia não é só a dos outros, mas também a sua. Trava combates como Dom Quixote combatia moinhos de vento. Falta-lhe um Sancho Pança no governo.

Já que se meteu em seara alheia, onde aliás não foi chamado, o presidente vem sendo derrotado politicamente, nestes dias, em todas essas suas “frentes internacionais”. Acaba de perder a eleição na Argentina. Da diplomacia do coturno, diz que sequer vai cumprimentar Alberto Fernández, o vitorioso.


Foi derrotado pela multidão nas ruas do Chile, que protestam contra a política econômica e os retrocessos sociais de Sebastián Piñera, basicamente a mesma política que está adotando aqui, guiado pelo cérebro de quem foi servidor do regime de Pinochet.

Um reajuste no preço das passagens do metrô de Santiago do Chile colocou nas ruas 1 milhão de pessoas em manifestações contra o governo conservador do país. O protesto foi detonado pelos centavos, mas gestado aos poucos pelas medidas e inovações dos gênios da economia neoliberal. Depois de mortos, feridos e prisioneiros, o presidente chileno tentou recuar. Falou de seu apreço pelo teor do protesto popular e pediu a seus ministros que renunciem. Quer recuar para ficar.

É uma indicação de que os desse naipe sabem que, nas medidas que tomam, estão fazendo uma experimentação para sentir até onde podem chegar nas iniquidades econômicas que praticam contra o povo de seu país. O que mostra que os políticos que se servem do neoliberalismo econômico para atenuar a democracia e assegurar o jugo do capital sobre a população têm medo. Sabem que se passarem do limite de tolerância desencadearão transformações políticas completamente fora do controle da racionalidade instrumental simplória que adotam para governar. Vale lá e vale aqui.

A fragilidade da prepotência antiliberal e anticapitalista ganhou um teste no Brasil, no medo manifestado pelo general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, em relação ao que poderá ocorrer também aqui, já que este governo segue a mesma receita econômica do desastre social de lá. Ele deu indicações aos supostamente poderosos da economia brasileira do que está acontecendo no Chile.

Nas reformas econômicas daqui podem estar criando as condições políticas de explosões populares como as de lá.

Ou seja, ele sabe que o economicismo do governo brasileiro, sem consideração por seus limites sociais, é o alicerce de uma política de injustiças. Sustenta uma economia de favorecimento de poucos e que, no limite, não favorece a nação. Preocupado com geopolítica, ele já deve desconfiar de que existe, também, uma geopolítica social da insurgência popular. Boa parte do continente começa a tremer.

Centavos a menos no bolso de quem vive de uma crescente desvalorização econômica do trabalho pode assegurar milhões no lucro das empresas, mas levam aos prejuízos políticos de centenas de milhares nas ruas a contestar atos do governo e, no limite, a questionar sua legitimidade. Povo na rua significa governo de menos, frágil. Mas porrete não legitima o poder de ninguém. Sob diferentes formas sociais de manifestação, as revoluções continuam sendo um ativo das grandes tradições de expressão do descontentamento popular. Aqui, também.

Mourão dá indicações de saber que o povo brasileiro, ao optar por eles, em 2018, não estava necessariamente optando por aquilo que são e pensam. Nem renunciava à sua condição de fonte da legitimidade do mandato de governar.

Deveriam saber que chegaram ao poder na onda das manifestações de rua iniciadas em 2013. Talvez Mourão esteja levando em conta que, no Brasil, as manifestações de rua de 2016, por causa de um aumento de centavos no preço das passagens de ônibus, precipitaram o fim da hegemonia política do PT e inviabilizaram o poder para o sucessor.

O bolsonarismo chegou ao poder nessa mera brecha de legitimidade. Mas ainda não levou em conta que quem põe também tira. O bolsonarismo não é o finalmente de um processo político. É apenas o entretanto de um vazio decretado pela população que foi às ruas depois de somar as demonstrações de desapreço dos políticos que se equivocam na suposição falsa de que o voto foi renúncia ao direito de eleger para discordar.
José de Souza Martins

Brasil finado


Notícias do sanatório

A desordem e o retrocesso tomam conta do Sanatório. Como disse Chesterton, há quase sempre método na loucura. Ou deveria haver. Mas em nosso Sanatório, a loucura tomou conta e jogou pelas janelas o método e a ordem e adotou como parâmetro o retrocesso.

Começa que ninguém fala a mesma língua, a oficial da Nova Política. Chama-se Bolsonarês, é de difícil compreensão e nunca diz exatamente aquilo que parece estar dizendo.

Dou como exemplo Eduardo Bolsonaro que disse em entrevista à Leda Nagle que caso houvesse manifestações esquerdistas aqui no Brasil, como as que acontecem no Chile, ele sugeria que se editasse a volta do AI5. Disse isso com a cara limpa, em alto e bom tom. Falou em puro Bolsonarês. Afrontou a Constituição que jurou defender ao tomar posse como deputado federal por São Paulo.


A reação veio com a velocidade da luz. O pai do deputado, ao sentir que o filho lhe dera uma grave rasteira, fez ver ao garoto o crime que estava cometendo e esse, habituado ao vezo do “falou, mas não foi isso que quis dizer”, já deu outra declaração, dizendo que interpretaram mal o que ele quis dizer, afirmando que não tem nenhuma proposta para a volta do AI5. Ou seja, como bom aluno da língua oficial, o que ele disse não foi bem o que ouvimos, foi aquilo que ele queria que ouvíssemos.

Assim como o capitão e seus filhotes, o ministro do Meio Ambiente, também fluente em Bolsonarês, acusou num momento a ONG Greenpeace, que ele chamou de ‘greenpixe’, pelo vazamento de óleo nas praias do nosso Nordeste, mas menos de 48 horas depois desdisse o que disse e pior, desmentiu que algum dia tivesse dito o que disse! O desmentido aconteceu no programa Central Globo News no qual o que mais chamou minha atenção foi a expertise da defesa que Ricardo Salles faz de seu chefe. É justo que se diga, Salles é um bolsonarista leal e apaixonado, nunca vi nada igual.

Nesse programa, o jornalista Fernando Gabeira fez a pergunta que eu gostaria de ter feito: sobre a vontade demonstrada por Bolsonaro de transformar a Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis, em uma reles Cancún. Resposta enfática de Salles, o defensor do capitão: o presidente não disse isso, ele apenas citou Cancún como exemplo de um resort que colabora para o progresso de seu país, o México. E onde a pesca não é multada, que foi o que aconteceu com Bolsonaro em Tamoios. Pois é...

Infelizmente, o eleitor brasileiro escolheu um homem destemperado, mal-educado, agressivo, para ser presidente do Brasil por quatro anos. Vamos ter que carregar essa cruz por mais três anos, com calma e paciência, mas sempre atentos para não deixar que os filhos do capitão extrapolem. O mais interessado em controlar os garotos é o pai. Até porque cada vez que eles movem uma peça no tabuleiro, eles prejudicam seu governo e diminuem o número de seus seguidores.

Creio ser urgente a contratação de tradutores-intérpretes bolsonarês/português, juramentados, para acompanhar, quando em Brasília ou em viagens, Jair Bolsonaro e seus filhos. Assim, a desculpa favorita deixará de funcionar. Tudo que eles disserem será traduzido para o português e não poderá ser desmentido e transformado em fumaça.

Mas não quero me despedir do Leitor sem comentar dois maravilhosos artigos publicados no jornal O Globo de 31 de outubro: Ascânio Seleme comentando sobre ‘A Ira Desnecessária’ do capitão e Cora Rónai, brilhante, lembrando a semelhança entre Jair Bolsonaro, lá em Rhiad, e Bruno Ganz, o grande ator alemão interpretando Hitler em ‘A Queda’. Simplesmente genial!</p>
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Indignações engolidas rapidamente



As indignações demoram, hoje, o tempo de um fósforo - apesar da chama vigorosa, são depressa consumidas e substituídas por outras, com a mesma duração efémera. Se, em boa verdade, a maior parte das polémicas não merece mais do que esses cinco ou seis segundos de atenção, outras há que não deviam cair no esquecimento rápido e na fosso da normalização imediata, como se aquilo que antes parecia inadmissível pudesse depois, pelo cansaço da polémica, passar a ter justificação e a ser considerado normal
Rui Tavares Guedes

Mentes reacionárias

Em A Mente Naufragada, o cientista político norte-americano Mark Lilla explica que o espírito reacionário difere muito do conservador. Trata-se de invocar o passado para nele viver sem transformações, o que é muito diferente da atitude do conservador, que tem o passado e suas tradições como referência para agir no presente e construir o futuro. Partindo da análise das ideias de três pensadores do século XX — Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss —, Lilla investiga a mente reacionária e conclui que naufragou, porque olha para os destroços de um passado que lhe parece ameaçado, e luta para salvá-lo, porque não sabe conviver com as mudanças. Ironicamente, porém, isso faz do reacionarismo um fenômeno “moderno” no mundo da globalização e do multiculturalismo.

Lilla nos ajuda a entender a diferença entre o pensamento conservador, mesmo de viés autoritário, e o pensamento reacionário. E é um autor muito oportuno, porque explica o caráter ideológico do movimento que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, se propõe a organizar no Brasil no rastro da eleição de seu pai. O clã Bolsonaro flerta com a ideias propagadas pelo escritor Olavo de Carvalho, radicado nos Estados Unidos, guru da extrema direita brasileira. Há uma diferença, sutil mas relevante, entre a declaração de Eduardo Bolsonaro a favor da reedição do AI-5 em caso de mobilizações de protestos semelhantes às do Chile e a do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), de que seria preciso estudar a forma de fazer isso. Um defendeu a volta da ditadura pura e simples; o outro, embora igualmente autoritário, sabe que os tempos mudaram e a história só se repete como tragédia ou farsa. Diante da reação negativa, o parlamentar se retratou.


O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi um golpe de Estado dentro do golpe de 1964, que destituiu o presidente João Goulart. Foi o período de maior repressão da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978, com poder de exceção para punir arbitrariamente os adversários como inimigos de Estado. O ano de 1968 havia sido marcado por manifestações estudantis em todo mundo. Eclodiram em Paris e logo chegaram ao Brasil. O lema “é proibido proibir” tinha mais a ver com as mudanças nos costumes, mas aqui se encaixou como uma luva na luta contra o regime militar.

O ambiente era de isolamento político dos militares. A Igreja atuava em defesa dos direitos humanos e as lideranças políticas cassadas pelo regime se uniam de forma, até então, inimaginável: Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek, João Goulart, com apoio do líder comunista Luís Carlos Prestes, em 1967, haviam criado a Frente Ampla, cujas atividades foram suspensas pelo ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, em abril de 1968. O ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, exigia atestado de ideologia dos dirigentes sindicais. Mesmo assim, uma greve dos metalúrgicos de Osasco sinalizava que o movimento operário se incorporaria às mobilizações de massa de estudantes, intelectuais e artistas.

O ministro do Exército, Aurélio de Lira Tavares, exigia medidas mais enérgicas contra as “ideias subversivas”. Falava em “guerra revolucionária” liderada pelos comunistas, pois parte da esquerda se preparava para a “luta armada”. A gota d’água para a promulgação do AI-5 foi o pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, na Câmara, nos dias 2 e 3 de setembro, lançando um apelo para que o povo não participasse dos desfiles militares do 7 de Setembro e para que as moças, “ardentes de liberdade”, se recusassem a sair com cadetes das escolas militares. O deputado Hermano Alves, do mesmo partido, criticara duramente o regime em artigos no antigo Correio da Manhã. Por exigência do ministro do Exército, Costa e Silva, o governo solicitou ao Congresso a cassação dos dois deputados.

No dia 12 de dezembro, a Câmara recusou, por uma diferença de 75 votos (e com a colaboração da própria Arena, partido do governo), o pedido de licença para processar Márcio Moreira Alves. No dia seguinte, foi baixado o AI-5, que autorizava o presidente da República, sem apreciação judicial, decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir em estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por 10 anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas corpus. No mesmo dia, foi decretado o recesso do Congresso Nacional por tempo indeterminado, sendo reaberto somente em outubro de 1969, para referendar a escolha do general Emílio Garrastazu Médici para a Presidência da República.

Na sequência imediata do AI-5, foram cassados 11 deputados federais, entre eles Márcio Moreira Alves e Hermano Alves. As cassações prosseguiram em janeiro de 1969, atingindo não só parlamentares, mas até ministros do Supremo Tribunal Federal. A forte reação dos partidos políticos, inclusive o PSL, e da sociedade civil às declarações de Eduardo Bolsonaro, que foi aconselhado a se retratar pelo próprio pai, o presidente Jair Bolsonaro, têm esse lastro da história. O AI-5, nas palavras do falecido senador Ernâni do Amaral Peixoto, um político conservador, foi “a morte da política”. Nem por isso, a nostalgia de Eduardo Bolsonaro deixa de ser perigosa: um golpe militar no Brasil exigiria um banho de sangue e não teria apoio internacional. O general Augusto Heleno sabe disso.

Treinando para fugir

Na terça da semana passada, Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente, saiu correndo pelo Congresso, fugindo dos repórteres que queriam entrevistá-lo. Eduardo Bolsonaro acabara de se entronizar como líder do PSL na Câmara, o que, para os jornalistas, justificava uma entrevista. Sem explicação, valeu-se de seu preparo físico, arrancou em disparada e fez comer poeira os que, perplexos, tentaram segui-lo.


Na corrida em que bateu o recorde de velocidade nos três anexos da Câmara, Eduardo Bolsonaro abalroou vários incautos que cometeram o erro de estar no seu caminho e voou por uma escada rolante, saltando de cinco em cinco degraus. Seu segurança, tentando acompanhá-lo, deixou cair o celular e, na obrigação de recuperar o aparelho, ficou vários focinhos atrás do patrão. E o pobre cinegrafista do Congresso em Foco tinha não só de correr além de suas forças como tentar manter a câmera minimamente sem tremer — o que, claro, não conseguiu. O vídeo, disponível na internet, lembra os filmes do antigo Cinema Novo.

Por que Eduardo Bolsonaro saiu correndo se ninguém ali o ameaçava, exceto talvez com perguntas? Uma hipótese seria a de um súbito e urgente compromisso no banheiro. Mas, então, por que escolher um banheiro tão longe? Ou talvez só não quisesse dar entrevista — direito que não lhe assiste. Pois surge agora outra hipótese: já prevendo o momento em que ameaçaria o país com um novo Ato Institucional nº 5 — e desconfiando que talvez não ficasse impune por tal afronta—, Eduardo Bolsonaro já começou a treinar para a eventualidade de, um dia, ter de fugir às pressas.

O Congresso, as Forças Armadas e o povo brasileiro sabem muito bem o que lhes custou o AI-5. Eduardo Bolsonaro parece não saber.

Mas, se o seu AI-5 não vier e a Constituição continuar em vigência, ele talvez não seja mais deputado federal.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Autocombustão dos Bolsonaro atrapalha Guedes

Houve um tempo em que se sabia o nome das principais lideranças políticas. Quando os políticos começaram a ir para a cadeia, foi necessário aprender a composição do Supremo Tribunal Federal, tendo o cuidado de distinguir as togas que prendem daquelas que abrem as celas. Agora, exige-se do brasileiro que aprenda os nomes dos filhos do presidente da República. Há o Carlos das brigas nas redes sociais; o Flávio da rachadinha e das conexões milicianas de Fabrício Queiroz; e o Eduardo, que não conseguiu virar embaixador e continua expondo ao país seu nanismo intelectual —agora materializado na defesa da volta do AI-5.


Jair Bolsonaro tomou posse em 1º de janeiro. A partir do dia 2, deveria oferecer paz, probidade e empregos. Com o auxílio dos filhos, entrega atritos, suspeições e um tipo de déficit muito mais grave do que a ruína fiscal —um déficit localizado entre as orelhas dos membros da dinastia Bolsonaro. Só a falta de miolos explica a defesa que Eduardo Bolsonaro fez da adoção do AI-5 como remédio contra uma hipotética radicalização de esquerda, capaz de levar às ruas do Brasil uma revolta semelhante à que eletrifica a democracia chilena.

O presidente desautorizou o filho. Mas todos sabem que ele pensa a mesma coisa. O AI-5 não será reeditado porque a democracia brasileira pode eleger os Bolsonaro, mas não os autoriza a brincar de ditadores.

A plataforma reformista do ministro Paulo Guedes enfrenta muitas dificuldades. Mas nenhuma se equipara ao processo de autocombustão da família Bolsonaro. É como se o presidente e seus filhos se dedicassem à implantação de um projeto secreto de extermínio da oposição por meio da autossabotagem. Aos pouquinhos vai ficando claro para o país que o clã Bolsonaro não é conservador. A primeira-família é apenas arcaica. Bolsonaro e os filhos não desejam levar o país para a direita. Eles ambicionam a marcha à ré.

Pensamento do Dia


É repulsivo ouvir um deputado falar de um repugnante AI-5

O deputado Eduardo Bolsonaro escancarou uma limitação política e intelectual ao expor a repulsiva visão do que é democracia para quem carrega seu sobrenome. Ao sugerir um novo AI-5, o ato institucional que fechou o Congresso em 1968 no Brasil e que abriu as portas do inferno no país, o deputado mostrou o quão arrogante e mimado é para ocupar um cargo de deputado. Em sua tresloucada entrevista para a jornalista Leda Nagle, mostrou não só que o Brasil corre perigo com ele em qualquer cargo, como também que a sua irresponsabilidade em lançar suspeitas calcadas na ignorância é infinita. Sugeriu, por exemplo, que o BNDES dos tempos do PT financiou, indiretamente, os protestos de outubro no Chile, através de manifestantes radicais, no estilo blackblocs. “Para fazer isso tudo você precisa de dinheiro. De onde vem esse dinheiro? Nós desconfiamos que esse dinheiro vem muito por conta do BNDES, que no tempo de Dilma e Lula, faziam obras superfaturadas no porto de Mariel, em Cuba, ou contrato de Mais Médicos que rendia mais de 1 bilhão reais para a ditadura cubana. Por que não achar que esses dinheiro vai se voltar para cá para se fazer essas revoluções?”.

Mais ainda, sugere que a esquerda pode chegar ao ponto de sequestrar aeronaves, e autoridades, como nos anos 60, para culminar na sua brilhante ideia de que isso vai suscitar um AI-5. “Alguma resposta vai ter de ser dada”. Deputado, filho do presidente da República, entrelinhas, revela que precisaria recorrer a um ato autoritário porque seu pai não teria competência para lidar com uma possível insatisfação social.


Na entrevista, Eduardo, se mostra chocado porque seu pai é cobrado pelo que qualquer presidente da República seria: os problemas urgentes para a sociedade, como os incêndios que tomaram a Amazônia ou o derramamento de óleo nas praias do Nordeste. O mundo para ele, porém, vive nas enquetes de redes sociais, que oferecem a profundidade de um espelho d’água. Sua cegueira e deslumbramento com o cargo de filho de um presidente não o fazem admitir o gene da auto-sabotagem que herdou do seu pai. Ambos já implodiram boa parte do capital político que lhes foi favorável nas eleições de 2018.

O jornalista José Roberto de Toledo, da revista Piauí, publicou uma análise, a partir de dados de uma pesquisa do instituto Ibope, que mostra um eleitorado arredio ao PSL, maior que ao PT. A rejeição é de 50% ao partido que acolhe hoje o presidente Bolsonaro contra 43% da legenda de Lula. Ainda que tente se descolar do partido depois das desavenças com o presidente Luciano Bivar, Bolsonaro não pode negar seu poder de Midas ao revés. Queima pontes e aliados com a mesma velocidade que subiu na preferência do eleitorado, quando surfava no antipetismo. “A impressão é que fazer aliança com Bolsonaro, em regra, é um mau negócio”, analisa Toledo.

O deputado Eduardo parece seguir a mesma linha. Acredita que melhor é investir na gestão do medo para conquistar e manter a confiança de um eleitorado, sem entender que é exatamente ao contrário. Parece que não entendeu que os heróis da Internet nascem com a mesma velocidade que morrem porque, apesar de expressarem uma imagem holográfica portentosa, são confrontados com os desafios da realidade. E as pessoas buscam pessoas humanas, que tenham empatia com suas dores e ansiedades. A frase do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi direto ao ponto. “Manifestações como a do senhor Eduardo Bolsonaro são repugnantes, do ponto de vista democrático, e têm de ser repelidas como toda a indignação possível pelas instituições brasileiras”. Maia, filho de um exilado político, torturado durante a ditadura que a família Bolsonaro exalta.

É repulsivo ouvir de um deputado que comanda a Comissão de Relações Exteriores tamanho disparate sobre as manifestações do Chile, querendo tergiversar o que está colocando o presidente Sebastián Piñera contra as cordas. Reduz os problemas do país a blackblocs supostamente financiados pela esquerda, fingindo que o modelo econômico do Chile – tomado como exemplo por ele em mais de uma ocasião – não colapsou. É chamar dois terços dos chilenos de ignorantes manipuláveis.

A fala do deputado vem, ainda, num momento emblemático. Justamente na semana em que se descobre que sua família já estava a par de que o nome do presidente seria envolvido, ainda que indiretamente, na investigação sobre a execução de Marielle Franco. Seja por má fé de seus adversários ou dos que conduzem a investigação, a família Bolsonaro sabia que uma bomba estava prestes a estourar sobre ele. E a reação às pressões do cargo é a de incendiar a própria democracia. Próprio dos pobres de espírito, dos covardes que se justificam com frases como “fui mal interpretado”, ou dos que compensam sua inconsistência com arroubos autoritários. Eduardo Bolsonaro deveria encarar este como um dos pontos mais baixos do seu mandato. Mas é impossível esperar o amadurecimento de quem se alimenta de memórias brutais que envergonham o Brasil. Ao contrário, flerta com a reedição de tempos de barbárie, para se sentir relevante. Nada mais revelador.

Qual a 'culpa' ?



O porteiro é aquele que menos tem culpa nesse novo crime
Jair Bolsonaro

Brasil, uma grande aldeia isolada do mundo

O Brasil é um país fechado. Aqui vive gente de todas as partes do mundo, mas os brasileiros não estão abertos para o mundo.

Por um lado, isso tem a ver com as dimensões continentais deste país, que forçosamente dirigem o olhar para dentro. Por outro lado, a culpa é de décadas de protecionismo econômico. Durante um certo tempo, isso fazia sentido: assim como os "tigres asiáticos", o Brasil queria proteger sua economia da concorrência dos Estados Unidos e da Europa.

A ideia era que se desenvolvessem empresas brasileiras fortes, as chamadas campeãs nacionais. Mas quando isso acabou acontecendo, as barreiras comerciais, na forma de taxas de importação altas e uma burocracia kafkiana, não foram suspensas, mas mantidas.

O resultado dessa proteção do Estado é que se criaram quase monopólios no país, como o conglomerado Ambev, que inundou o país com uma bebida feita de água, milho e química, a qual teve permissão de chamar de "cerveja", sem discussões – e sem o perigo de outra empresa colocar em risco o seu domínio.

É óbvio que monopólios são ruins. Em primeiro lugar, para o consumidor, pois permitem a uma única companhia ditar a oferta e os preços. Em segundo, para a economia nacional, pois firmas protegidas de concorrência não estão expostas a pressões inovadoras, e não investem seus lucros na melhoria dos seus produtos.


Isso resulta em maus produtos brasileiros, que não correspondem mais ao padrão tecnológico internacional. Qualquer um que já tenha estado numa loja de ferragens brasileira pode confirmar: não se acha sequer uma tomada decente. A única alternativa hoje são artigos importados, os quais, no entanto, são absurdamente caros.

Isso também fez com que a maioria das casas e apartamentos tenha aparências semelhantes. Por exemplo: as trêmulas, rangedoras e emperradas janelas de correr de alumínio. Muitos brasileiros aprenderam a se contentar com pouco, pois não têm ideia de tudo o que seria possível.

Para essa constatação, não é preciso comparar o Brasil com a Europa. Basta uma olhada em países como Colômbia ou México. Quem voa do Rio de Janeiro para Bogotá ou a Cidade do México, logo tem a sensação de ter viajado de um país do passado para a atualidade. Não tem só a ver com a oferta mais variada de mercadorias, mas também com o maior profissionalismo.
No Brasil, a população se acomoda em letargia, resignação e uma restauração conservadora
Já se nota isso na diferença entre aeroportos. O Terminal 2 do Galeão é uma catástrofe de planejamento, com uma arquitetura que força passageiros e tripulações a caminharem vários quilômetros por corredores vazios.

Isso tudo nem seria tão grave, se o protecionismo econômico do Brasil não tivesse também resultado numa rejeição mental contra muito do que é novo. Pode-se observar isso especialmente bem no Rio. Em geral, os cariocas consideram sua cidade insuperável: de fato, é difícil encontrar uma metrópole tão provinciana.

Um exemplo ao acaso? Numa área urbana de 12 milhões de habitantes, o metrô para de funcionar à meia-noite. A oferta gastronômica é comparativamente pobre. E nos supermercados do Rio, continuam se promovendo orgias de sacolas plásticas – as quais atualmente já são proibidas até em diversos países africanos. No Quênia, sua produção e venda é punida com 19 mil dólares de multa e quatro anos de prisão. No Rio, assim como no resto do Brasil, sacolas plásticas ainda são vistos como um direito humano.

A falta de visão exterior igualmente marca a política brasileira. Em Bogotá, acaba de ser eleita prefeita uma mulher abertamente lésbica; em numerosos países, políticos homossexuais não são mais nenhuma raridade. Mas no Brasil eles têm que temer pela própria vida. Aqui se elege antes um evangélico incapaz do que um gay competente.

Aliás, o país com mais mulheres no Parlamento é Ruanda, onde elas são 64%. O Brasil, por sua vez, figura nessa estatística no nível da República Islâmica do Irã; nenhum outro país da América Latina tem uma percentagem tão pequena de deputadas.

Portanto aqui falta declaradamente uma percepção de common sense. É como uma pessoa que viveu sozinha a vida toda, e não percebe quão excêntrica se tornou. Ela se considera normal e todos os outros, esquisitos. Isso fica óbvio especialmente no atual pessoal do governo.

Ministros como Abraham Weintraub, Ernesto Araújo e Damares Alves têm óbvias deficiências cognitivas. Eles vivem em mundos paralelos e paranoicos. Em sociedades saudáveis jamais teriam chegado a posições de poder. Mas o Brasil é como uma comunidade de aldeões isolada, que escolheu como seus líderes justamente os habitantes mais agressivos, inescrupulosos e loucos.

Um indicador de quanto o Brasil está separado do próprio continente é o fato de, no momento, outros países da região parecerem estar avançando. No Equador e no Chile, milhões se levantaram contra as injustiças sociais. Os argentinos se cansaram dos experimentos neoliberais de Mauricio Macri. E a Bolívia se revolta contra o caudilhismo de esquerda de Evo Morales, o que atesta a favor do processo de amadurecimento da democracia local.

No Brasil, em vez disso, a população se acomoda em letargia, resignação e uma restauração conservadora. Um fim do protecionismo comercial e intelectual faria bem ao país.
Philipp Lichterbeck

Política na selva

A alusão a animais na propaganda política é recurso antigo dos demagogos. A imagem de ratos roendo a bandeira nacional, utilizada pelo PT em 2002, vem sendo retomada há décadas como uma maneira de desumanizar os adversários.

A publicação do presidente Jair Bolsonaro (PSL), numa rede social, de alegoria baseada no cerco de um grupo de hienas a um leão tem, no entanto, as suas peculiaridades.

Alegoria constitui, aliás, palavra sutil demais para qualificar o vídeo, que deixa muito claro, por meio de trucagens toscas, quem são as tais hienas: o Supremo Tribunal Federal, a Ordem dos Advogados do Brasil, veículos da imprensa (incluída esta Folha), o PT e até o PSL, que o mandatário luta para controlar com a mão pesada do Executivo.

Tampouco resta dúvida sobre a identidade do felino rodeado pelos bichos carniceiros: presidente Bolsonaro, estampa a legenda.


No reino da Arábia Saudita, que o chefe de Estado brasileiro visitava quando o vídeo foi divulgado, o regime especializou-se não só em rugir para seus críticos. Ele os mata e trucida, como foi feito com o jornalista Jamal Khashoggi em pleno consulado saudita de Istambul (Turquia), em outubro de 2018.

Com a fantasia de rei leão, Bolsonaro talvez vislumbre a latitude dos monarcas absolutos. O traje combina com os elogios velados e explícitos que veio fazendo a aspectos tenebrosos da ditadura militar (1964-1985), seja ao longo de sua extensa carreira de deputado periférico, seja mais recentemente, como candidato e presidente.

Não combina, entretanto, com as instituições da República brasileira sob a guarda da Carta de 1988.

Onde a fábula bolsonarista vê hienas, há na verdade organizações civis e estatais incumbidas de evitar o abuso no exercício do poder de Estado. Onde vê o leão, há o chefe eleito do Executivo, submetido não a seus desejos de supremacia, mas ao império universal das leis, como qualquer outro cidadão.

O choque com essa realidade levou Jair Bolsonaro a retirar o vídeo do ar e a pedir desculpas pela postagem. É um modus operandi que, de tanto repetir-se, afasta qualquer ilusão de que o presidente esteja de fato arrependido ou que tenha se convencido das vantagens do Estado democrático de Direito —se é que foi capaz de compreendê-lo.

A mensagem do leão ameaçado vem juntar-se a outra, do início de setembro, quando Bolsonaro disse que, se levantasse “a sua borduna”, todos viriam atrás dele. São rabiscos de conclamação a forças extraconstitucionais que felizmente não vicejam no Brasil de hoje.

O primeiro presidente deste ciclo democrático a apostar no “Não me deixem só” acabou isolado e defenestrado. Que Bolsonaro consiga absorver ao menos essa lição.