sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Crônicas macunaímicas
Severos cientistas sociais de óculos de lentes grossas poderiam dizer, em mesas redondas da TV, que estamos vivendo um estado de “anomia” - um país sem rumo, sem bússola, sem projeto.
Alguém que tivesse a alma mais leve de um artista, por exemplo, poderia citar o Manifesto Surrealista de André Breton, no trecho em que ele defende que qualquer controle exercido pela razão seja suspenso, de forma a dar vida à nova arte “alheia a qualquer preocupação estética ou moral”.
Como estamos na terra de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, seria mais apropriado mesmo dizer que isso aqui está “uma bagunça”. É mais fácil de digerir, mais fácil para fazer-se entender, mais adequado ao linguajar popular.
Já não sabemos mais se o governo existe para cumprir a tarefa básica de governar - ou seja, de dirigir os chamados destinos da Nação, através de decisões políticas e econômicas que imprimam um rumo à navegação comum - ou se existe apenas com a finalidade de evitar que deixe de existir de um momento para o outro.
Viver para simplesmente não parar de respirar não é um objetivo muito engrandecedor para nenhum governo, convenhamos. Sobreviver até o fim do mandato deixou de ser um meio para executar um programa e passou a ser um programa de governo em si mesmo.
Alguém que levanta e lê jornal (partindo do pressuposto de que já não soubesse tudo desde a noite anterior, pela TV ou pela internet) tem mais motivos para debater-se contra a escuridão do que encontrar, digamos, um sendeiro luminoso que ajude a entender o que está acontecendo.
O sujeito vai dormir pensando na hecatombe que será o Congresso derrubando todos os vetos presidenciais sob o comando da brigada ligeira do PMDB, inviabilizando as contas do pais pelos próximos séculos, e acorda com a presidente tramando a entrega de quatro ou cinco ministérios àquele mesmo partido que um dia antes não queria saber de ministério nenhum mas que garantiu a manutenção da pilha de vetos.
A Eduardo Cunha, o ferrabrás da pautas- bomba, que ameaça demolir o castelo das contas públicas deixando proliferar sobre a mesa a cornucópia de benesses de todos os deputados clientelistas do Oiapoque ao Chuí, coube a honra de uma conversa ao pé de ouvido. Protagonista: o presidente excelso, honorário e eterno, Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula, informam os jornais virtuais e materiais, cochichou a Cunha um pedido para empurrar com a barriga qualquer pedido de impeachment contra Dilma, até que…bem, até qualquer dia que não esteja muito perto, para não atrapalhar, afinal, as articulações do ajuste fiscal e da tal reforma ministerial.
Lula é a favor mas é contra o ajuste fiscal, e enquanto tenta equilibrar essa bola no nariz, como uma foca, articula um novo ministério para sua criatura. O objetivo é transparente: ir ficando, enquanto der. Quanto mais perto de 2018 chegarmos, melhor. E com quanto menos escoriações, melhor também.
Ou seja: Cunha ë inimigo, mas pode ser parceiro também. Tanto que um compadre dele, um certo deputado da Paraíba, Manoel Junior, que já aconselhou Dilma a renunciar, aparece como favorito para o cargo de ministro da Saúde, aquela pasta que se não ajuda em nada a saúde física do brasileiro, oferece luminosas atrações aos vampiros que preferem o sangue à luz.
Bem, onde estávamos mesmo? Ah, ainda não temos ajuste, ainda não temos reforma ministerial, ainda não sabemos se o PMDB assumiu ou não o governo, um terço do governo, metade dele ou o governo inteiro, o dólar sai em louca disparada, e a presidente….
…a presidente? Bem, ela foi a Nova York pedir uma reforma na ONU.
As amargas vão para Dilma
Só os trouxas acreditaram que a reforma ministerial desta semana serviria para aprimorar e enxugar a administração federal, adaptando-a às necessidades do combate à crise econômica. Com a operação de compra, venda e troca de ministérios por votos no Congresso, a presidente Dilma deixa claro que nada mudou. Seu governo continua rezando a Oração de São Francisco e praticando a lambança de aceitar a indicação de ministros sem qualquer relação com as pastas que vão ocupar. Só que a relação dos prováveis escolhidos consegue ficar pior do que a equipe atual, já por si lamentável quando da reforma anterior. Com todo o respeito, diminui o número de ministérios, aumenta o número de incapazes.
Vale evitar o constrangimento de referências nominais, mas importa acentuar a total dissonância entre os novos ministros e as funções para as quais estão sendo nomeados. O grave, nessa histriônica operação, é registrar que Madame não dá a mínima para o critério eficiência. Influenciada pelo Lula, acomodou-se à importância de garantir os votos do PMDB no Congresso para evitar a surpresa do impeachment e garantir a aprovação do pacote de maldades há pouco divulgadas, com a volta da CPMF à frente.
Foi-se a derradeira oportunidade da escolha dos melhores de cada setor, com o ingresso das mesmas nulidades pinçadas num Congresso ávido de indicar ministros comprometidos com interesses partidários. Na sombra, continua dando as cartas o triunvirato composto por Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha.
Indaga-se o preço da ascensão do PMDB a mais um patamar de poder. Não será, com certeza, elaborar a tal agenda positiva de que tanto se fala. Muito menos assumir parcelas de responsabilidade na queda da performance do governo. As amargas permanecerão debitadas a Dilma. Também, nada mais justo, dadas as trapalhadas que continua produzindo em série.
Inexistem sinais de estar o governo elaborando qualquer programa de combate ao desemprego, que avança em massa. Os arrastões hoje assolando o Rio exprimem apenas uma das muitas faces do mal que assola as camadas menos favorecidas e começa a atingir a classe média. O problema é que as Olimpíadas estão chegando, calculando-se a presença na antiga capital federal de centenas de milhares de turistas. Eles serão presa fácil para as levas de meliantes dispostos a agir nas praias e bairros mais procurados.
Carlos Chagas
Governos apostam em errar
Entre nós tem-se visto governos que parecem absurdamente apostados em errar, errar de propósito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. Há períodos em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco conta. No momento histórico a que chegamos, porém, cada erro, por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação que todos temos do futuro e do desconhecido que cada acerto, cada bom acerto é uma estaca mais, sólida e duradoura, para esteiar as instituições.Eça de Queirós ( 1845 - 1900)
Porres de irresponsabilidade
Um dos mais experientes observadores do Congresso, o ministro Eliseu Padilha diz que, nestes tempos em que lideranças não sabem com quem contar em seus partidos, "nem vaca reconhece bezerro". Aliás, nem os eleitores, porque os parlamentos se transformaram em oceanos de irresponsabilidade assolados por vagalhões de contradições demagógicas. O bem comum foi para o brejo e deu lugar à disputa insana pelo poder. Desgastar os governos, mesmo às custas do suicídio coletivo de Estados e da União, passou a ser a palavra de ordem que move grande parte dos votos nos plenários.
Seja aumento de impostos ou contenção de despesas, linhas ideológicas que votam contra em Brasília votam a favor no Rio Grande do Sul, e vice-versa, porque identificam na presidente ou no governador um adversário a ser destruído, desmoralizado, arrasado sem piedade, mesmo que o desejo de sangue político leve a economia e o povo de roldão. Coerência zero. Com saudáveis exceções, os parlamentares desfilam para as arquibancadas neste Carnaval do populismo, distantes da maioria silenciosa que alimenta o rancor em casa e volta e meia o destampa em grandes manifestações.
Em democracias maduras, o parlamento fiscaliza e obstrui os gastos públicos. Cada proposta de despesa é esquadrinhada em comissões e espremida até ser derrubada ou finalmente seguir em frente. Os eleitores desses países valorizam quem defende seus impostos com ardor e rejeitam vendedores da ilusão de que dinheiro público jorra de uma fonte mágica. Em suma, em ambientes de responsabilidade fiscal, o Executivo tenta executar novos programas e gastar mais, enquanto os parlamentares se esforçam em travar desperdícios.
Por aqui, nem uma coisa, nem outra. Só agora, depois de exaurir as burras estatais em farras de reajustes, benesses e juros de dívidas contraídas para pagar os reajustes, as benesses e mais dívidas, os governos federal e estaduais estão começando a acordar para a realidade do aqui se faz, aqui se paga. O porre de hoje é a ressaca de amanhã, mas os parlamentos ainda vivem embriagados pela noção de que perderão eleitorado se disserem não aos excessos. O resultado é que a classe política toda, com levianos e responsáveis misturados, acaba como alvo do rancor generalizado. Mas é preciso abrir o olho antes que seja tarde: os que aplaudem agora o extermínio de governos pela via da bancarrota não se levantarão depois para defender os parlamentos irresponsáveis.
Seja aumento de impostos ou contenção de despesas, linhas ideológicas que votam contra em Brasília votam a favor no Rio Grande do Sul, e vice-versa, porque identificam na presidente ou no governador um adversário a ser destruído, desmoralizado, arrasado sem piedade, mesmo que o desejo de sangue político leve a economia e o povo de roldão. Coerência zero. Com saudáveis exceções, os parlamentares desfilam para as arquibancadas neste Carnaval do populismo, distantes da maioria silenciosa que alimenta o rancor em casa e volta e meia o destampa em grandes manifestações.
Em democracias maduras, o parlamento fiscaliza e obstrui os gastos públicos. Cada proposta de despesa é esquadrinhada em comissões e espremida até ser derrubada ou finalmente seguir em frente. Os eleitores desses países valorizam quem defende seus impostos com ardor e rejeitam vendedores da ilusão de que dinheiro público jorra de uma fonte mágica. Em suma, em ambientes de responsabilidade fiscal, o Executivo tenta executar novos programas e gastar mais, enquanto os parlamentares se esforçam em travar desperdícios.
Por aqui, nem uma coisa, nem outra. Só agora, depois de exaurir as burras estatais em farras de reajustes, benesses e juros de dívidas contraídas para pagar os reajustes, as benesses e mais dívidas, os governos federal e estaduais estão começando a acordar para a realidade do aqui se faz, aqui se paga. O porre de hoje é a ressaca de amanhã, mas os parlamentos ainda vivem embriagados pela noção de que perderão eleitorado se disserem não aos excessos. O resultado é que a classe política toda, com levianos e responsáveis misturados, acaba como alvo do rancor generalizado. Mas é preciso abrir o olho antes que seja tarde: os que aplaudem agora o extermínio de governos pela via da bancarrota não se levantarão depois para defender os parlamentos irresponsáveis.
Moro: 'O futuro da Lava Jato não está garantido'

Um dia após sofrer derrota no Supremo Tribunal Federal, que tirou de suas mãos parte dos inquéritos da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro se reuniu com empresários em São Paulo. Sem comentar diretamente a decisão da corte, o magistrado afirmou que existe o risco de que a operação “caia no esquecimento”. A decisão do STF, criticada pela Procuradoria da República e pelo próprio Moro em um de seus despachos, transferiu para São Paulo um dos processos da operação, o que abriu precedente para que advogados tentem tirar outros inquéritos de Curitiba – e de Moro. Ele participou nesta quinta-feira de um almoço organizado pelo Lide, o grupo empresarial presidido por João Dória Júnior, um dos pré-candidatos do PSDB à Prefeitura de São Paulo. Foi ovacionado mais de uma vez pelos mais de 500 presentes. As grandes construtoras agora alvo da Lava Jato, que no passado já foram homenageadas por eventos do grupo, estavam ausentes.
Moro usou como analogia sua grande inspiração, a operação Mãos Limpas, desencadeada pela procuradoria de Milão nos anos de 1990 para combater a corrupção no Governo italiano, para afirmar que o futuro da Lava Jato corre perigo. “De 1992 a 1994, a Mãos Limpas teve uma importância tremenda, mais do que a Lava Jato tem hoje em dia”, afirmou, citando os mais de 4.500 investigados e 800 presos na ação italiana. No entanto, continuou o juiz, “depois de 1995 houve uma reação significativa do poder político, que eliminou ganhos da operação”. De acordo com ele, foram aprovadas leis que favoreceram os suspeitos: “O resultado foi que 40% dos 4.500 investigados foram beneficiados por leis de anistia ou com a prescrição do caso”, diz.
O exemplo, segundo ele, “é importante para mostrar que o futuro [da Lava Jato] não está garantido”. Moro disse ainda que muita gente o parabeniza nas ruas pelo trabalho feito no caso, e falam que a Lava Jato vai mudar o país. “Não acredito nisso, só mudará o país se houver mudanças reais no âmbito da iniciativa privada e das instituições públicas”, disse, defendendo em seguida o projeto de lei do Ministério Público Federal intitulado Dez Medidas Contra a Corrupção. Ainda em fase de coleta de assinaturas para ser enviado ao Congresso, o texto facilita repatriação de recursos de investigados por corrupção, além de dificultar a prescrição dos crimes. “O empresariado precisa apoiar essas medidas, até porque não acarretam aumento do gasto público”, afirmou.
'Não saio daqui: Não devo nada. Não fiz nada de errado'
O país tornou-se um espectro do que já foi. Há mais de duas décadas as expectativas em torno da economia nacional não andavam tão baixas. Foi tanta coisa errada ao longo dos últimos 13 anos, tanto abuso praticado com os recursos dos contribuintes, tanta corrupção, que cresce no país a ideia segundo a qual está em curso um plano maligno, ainda mais maligno do que o resultado obtido até aqui. Quem sustenta essa opinião está convencido (e tem bons motivos para estar) que tamanho desastre exige cuidadoso planejamento e primorosa execução.
A frase que dá título a este artigo sustenta a tese. Bem entendida, vale por uma confissão. Se a presidente nada fez de errado, então fez tudo certo e as ações de seu governo, de seus auxiliares diretos e de seu partido levaram o país deliberadamente ao caos (e ainda há quem afirme que “golpe” é propor seu impeachment!). Na outra hipótese, ela não tem ideia do que diz nem do que fez e supôs que o Brasil fosse uma lojinha de tudo por R$ 1,99. Nesse caso, quem a indicou para presidir a república tinha que estar enfiado em camisa-de-força. Dilma desmente a tese segundo a qual cada povo tem o governo que merece. Eu sei, o povo brasileiro elegeu quatro governos petistas, de corrida, um atrás do outro. Mas nem por isso merece tamanho castigo.
Malgrado o caos que se instalou no país, o completo desacerto do governo em relação ao modo de enfrentar a situação, a presidente agarra-se ao cargo como se sua permanência fosse mais importante do que o bem do país. O afastamento voluntário, pelo qual a nação anseia, torna-se impensável por exigir grandeza moral que não encontra medida na régua petista.
Diante de tudo que se sabe, parece inadmissível não haver previsão legal para fundamentar um processo político de impeachment contra quem deteve e detém poder de mando e função de controle sobre o corpo e o espírito do governo. Como pode não ser crime de responsabilidade comandar uma administração onde a probidade era a exceção? Como pode não ser crime de responsabilidade atentar contra a lei orçamentária? São perguntas que se faz todo cidadão medianamente informado. Então vale a informação: tudo isso é crime, sim, em todas as leis que tratam da matéria, como muito bem está salientado no pedido de impeachment formulado pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.
Volto, então, à frase do título. Ou a presidente tem responsabilidade, ou é irresponsável. Em nenhum dos dois casos deve permanecer no cargo por sobradas razões jurídicas e políticas. Isso para não mencionar a dignidade nacional nem as urgências sociais e econômicas.
Percival Puggina

Malgrado o caos que se instalou no país, o completo desacerto do governo em relação ao modo de enfrentar a situação, a presidente agarra-se ao cargo como se sua permanência fosse mais importante do que o bem do país. O afastamento voluntário, pelo qual a nação anseia, torna-se impensável por exigir grandeza moral que não encontra medida na régua petista.
Diante de tudo que se sabe, parece inadmissível não haver previsão legal para fundamentar um processo político de impeachment contra quem deteve e detém poder de mando e função de controle sobre o corpo e o espírito do governo. Como pode não ser crime de responsabilidade comandar uma administração onde a probidade era a exceção? Como pode não ser crime de responsabilidade atentar contra a lei orçamentária? São perguntas que se faz todo cidadão medianamente informado. Então vale a informação: tudo isso é crime, sim, em todas as leis que tratam da matéria, como muito bem está salientado no pedido de impeachment formulado pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr.
Volto, então, à frase do título. Ou a presidente tem responsabilidade, ou é irresponsável. Em nenhum dos dois casos deve permanecer no cargo por sobradas razões jurídicas e políticas. Isso para não mencionar a dignidade nacional nem as urgências sociais e econômicas.
Percival Puggina
Não pergunto a quem vem, de alguma forma, me ajudar numa luta, a razão de ter demorado. Se preciso da ajuda, se o essencial é a luta que travo ─ e o essencial é exatamente isso ─, não me atenho com quando ou como. Talvez não seja como eu tenha desejado, talvez não tenha sido quando eu pedi, talvez nem seja suficiente, mas a coisa está aí e pronto. Claro, sempre saberemos quem são os combatentes de primeira hora e a partilha com eles é de outra qualidade; dos tardios, quero apenas o essencialValentina de Botas
Lava Jato: STF do PT entra no verbete 'Dividir para conquistar'

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira desmembrar a investigação contra a senadora Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná, hoje concentrada nas mãos do ministro Teori Zavascki. Com o entendimento de que o caso da petista não está diretamente conectado ao petrolão, outro ministro deverá analisar as denúncias - José Dias Toffoli foi o escolhido. Outra parte da apuração, que não envolve políticos com mandato, será remetida para a Justiça de primeira instância, em São Paulo.
O inquérito 4130, integra a operação “lava jato” e no qual são investigados a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), o ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo e outros acusados sem foro por prerrogativa de função.
Por 8 votos a 2, o Supremo decidiu tirar o processo que investiga a ex-ministra da Casa Civil do governo Dilma, Gleisi Hoffmann, da relatoria de Teori. Por 7 a 3, o caso foi tirado das mãos de Sergio Moro.
A maioria do Supremo entendeu que, apesar de os fatos envolvendo a senadora terem surgido no âmbito da operação Lava Jato e tenham sido delatados por um mesmo colaborador ou tenham conexão, não significa que precisam estar atrelados ao mesmo juiz.
Vencido, o ministro Gilmar Mendes, votou dizendo que não se tratava de questão técnica processual, “mas algo que pode beneficiar quem tiver esse beneplácito” do desmembramento. Ele afirmou que a “pura e simples” divisão pode estar comprometendo o processo penal.
Ou seja: a Lava Jato sofreu uma pernada de anão para ser encaminhada para a pizzaria do PT.
Demorou mas fizeram no STF o que o PT sabe fazer de melhor: dividir para conquistar.
Dividir para conquistar (ou dividir para reinar) (derivado grego: διαίρει καὶ βασίλευε), é ganhar o controle via fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo que se mantenham individualmente.
O conceito refere-se a uma estratégia que tenta romper as estruturas de poder existentes e não deixar que grupos menores se juntem.
Dividir para conquistar foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filpe 2 da Madedônia e por ninguém menos que Napoleão(divide ut regnes). Aulo Gabíneo também repartiu a nação judaica em cinco para poder dominar, relata Flavio Josefo em A Guerra dos Judeus.
Maquiavel cita uma estratégia militar parecida no livro IV de Dell'arte della guerra: para Maquiavel, “ um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as”.
O STF do PT entra para a história das enciclopédias, contribuindo armagedonicamente para o verbete “Dividir para conquistar"
O inquérito 4130, integra a operação “lava jato” e no qual são investigados a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), o ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo e outros acusados sem foro por prerrogativa de função.
Por 8 votos a 2, o Supremo decidiu tirar o processo que investiga a ex-ministra da Casa Civil do governo Dilma, Gleisi Hoffmann, da relatoria de Teori. Por 7 a 3, o caso foi tirado das mãos de Sergio Moro.
A maioria do Supremo entendeu que, apesar de os fatos envolvendo a senadora terem surgido no âmbito da operação Lava Jato e tenham sido delatados por um mesmo colaborador ou tenham conexão, não significa que precisam estar atrelados ao mesmo juiz.
Vencido, o ministro Gilmar Mendes, votou dizendo que não se tratava de questão técnica processual, “mas algo que pode beneficiar quem tiver esse beneplácito” do desmembramento. Ele afirmou que a “pura e simples” divisão pode estar comprometendo o processo penal.
Ou seja: a Lava Jato sofreu uma pernada de anão para ser encaminhada para a pizzaria do PT.
Demorou mas fizeram no STF o que o PT sabe fazer de melhor: dividir para conquistar.
Dividir para conquistar (ou dividir para reinar) (derivado grego: διαίρει καὶ βασίλευε), é ganhar o controle via fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo que se mantenham individualmente.
O conceito refere-se a uma estratégia que tenta romper as estruturas de poder existentes e não deixar que grupos menores se juntem.
Dividir para conquistar foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filpe 2 da Madedônia e por ninguém menos que Napoleão(divide ut regnes). Aulo Gabíneo também repartiu a nação judaica em cinco para poder dominar, relata Flavio Josefo em A Guerra dos Judeus.
Maquiavel cita uma estratégia militar parecida no livro IV de Dell'arte della guerra: para Maquiavel, “ um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as”.
O STF do PT entra para a história das enciclopédias, contribuindo armagedonicamente para o verbete “Dividir para conquistar"
Pagando a dívida alheia
De. repente estamos todos endividados e inadimplentes - ao menos a maioria de nós brasileiros comuns, sem mansões, nem iates, nem:casas em Miami. Estamos assim porque fomos conclamados, tempos atrás, a consumir. Lembram? Eu não esqueci, e não consumi porque estava mais alerta e menos confiante: "Comprem seu carro! Troquem a geladeira! Comprem TV plana! Não deixem de fazer nada disso; as elites brancas não querem que vocês tenham nada'.
E saíram os brasileiros confiantes e crédulos a consumir - como se consumo, e não investimento de parte do governo, fosse crescimento. Realmente tivemos por um breve período uma sensação nova de confiança e bem-estar. Disseram (e acreditamos) que a miséria tinha sido liquidada no pais; e éramos todos da classe média: quem ganhava mais do que 350 reais era da classe média. Nós nos sentíamos modernos e potentes. Crédito abundante. Generosos prazos. Juros generosos também, mas isso não importava. E, agora, a surpresa: as dívidas. Passamos a endividados e inadimplentes porque obedecemos a quem nos conclamava a gastar, e possivelmente seremos desempregados porque essa ameaça se torna cotidiana.
O Estado que gastou mais do que podia e devia, com gestão equivocada, gastos faraônicos em empreendimentos luxuosos logo abandonados por falta de planejamento, agora nos convoca a pagar também suas dívidas - que não são nossas.
Há poucos dias fomos avisados: a caixa está vazia, o dinheiro do governo acabou, entrou no ralo da imprudência.
Suspendem-se bolsas de estudo, investimentos em saúde e infraestrutura, e abre-se a dura realidade de projetos, comissões, estudos, palavrórios, mas não sabem o que fazer com o Brasil.
Para consertar o que parece inconsertável, corta-se na carne ... sobretudo na nossa. Cortamse benefícios como tempo de trabalho para ter seguro-desemprego, dificultam-se condições para obter aposentadoria, reduzem-se pensões, e aumenta a angústia do povo. Cresce a inflação, sobe o desemprego, combinação fatal. Operários, funcionários, empregados domésticos, gerentes de lojas e de empresas, de repente às voltas com falta de trabalho e excesso de dívidas.
O Estado então pede nossa paciência e compreensão. Mas os brasileiros, sem a mínima segurança, morrendo mais do que em guerras, por toda parte sem escola, nem posto de saúde, nem condições de higiene, esmagados em ônibus velhos e estragados ou descendo do metrô, com problemas para caminhar nos trilhos, não podem ter compreensão; a doença, a inanição, o abandono, a ignorância, não podem esperar; a falta de esperança não pode esperar. Mulheres parindo no chão dos hospitais, doentes terminais sem remédio para suas dores, médicos desesperados porque não há nem aspirina nem água limpa para oferecer, não podem ter paciência. Os estudantes que dependem do Fies, os bolsistas no exterior, por exemplo, não podem esperar.
A explicação fornecida para a crise é de romance: a Europa e os Estados Unidos são os responsáveis, e São Pedro, que faz chover demais numa região e pouco em outra.
Se não formos um povo escolarizado, um povo informado, que lê jornal, assiste a noticiosos, conversa com família, amigos e colegas para saber o que se passa, é assim que seremos tratados. Promessas retumbantes e discursos otimistas e confusos não deviam mais nos enganar. A gente precisa da verdade. Precisa de respeito. Precisa das oportunidades que nos foram tiradas quando nos colocaram entre os últimos do mundo em educação, economia, confiabilidade e outros.
Mas talvez se possa ajudar o Brasil usando as armas mais eficientes que temos, se bem usadas: manifestações ordeiras, não acreditar em promessas vazias, nem dar atenção à dança de políticos que trocam de partidos e convicções, na festa das gavetas que reina no Congresso. E usar o "voto" gesto mínimo e definitivo que pode derrubar g.o estruturas perversas e chamar de volta entre nós as duas irmãs indispensáveis para uma nação soberana: esperança e confiança..
E saíram os brasileiros confiantes e crédulos a consumir - como se consumo, e não investimento de parte do governo, fosse crescimento. Realmente tivemos por um breve período uma sensação nova de confiança e bem-estar. Disseram (e acreditamos) que a miséria tinha sido liquidada no pais; e éramos todos da classe média: quem ganhava mais do que 350 reais era da classe média. Nós nos sentíamos modernos e potentes. Crédito abundante. Generosos prazos. Juros generosos também, mas isso não importava. E, agora, a surpresa: as dívidas. Passamos a endividados e inadimplentes porque obedecemos a quem nos conclamava a gastar, e possivelmente seremos desempregados porque essa ameaça se torna cotidiana.
O Estado que gastou mais do que podia e devia, com gestão equivocada, gastos faraônicos em empreendimentos luxuosos logo abandonados por falta de planejamento, agora nos convoca a pagar também suas dívidas - que não são nossas.
Há poucos dias fomos avisados: a caixa está vazia, o dinheiro do governo acabou, entrou no ralo da imprudência.
Suspendem-se bolsas de estudo, investimentos em saúde e infraestrutura, e abre-se a dura realidade de projetos, comissões, estudos, palavrórios, mas não sabem o que fazer com o Brasil.
Para consertar o que parece inconsertável, corta-se na carne ... sobretudo na nossa. Cortamse benefícios como tempo de trabalho para ter seguro-desemprego, dificultam-se condições para obter aposentadoria, reduzem-se pensões, e aumenta a angústia do povo. Cresce a inflação, sobe o desemprego, combinação fatal. Operários, funcionários, empregados domésticos, gerentes de lojas e de empresas, de repente às voltas com falta de trabalho e excesso de dívidas.
O Estado então pede nossa paciência e compreensão. Mas os brasileiros, sem a mínima segurança, morrendo mais do que em guerras, por toda parte sem escola, nem posto de saúde, nem condições de higiene, esmagados em ônibus velhos e estragados ou descendo do metrô, com problemas para caminhar nos trilhos, não podem ter compreensão; a doença, a inanição, o abandono, a ignorância, não podem esperar; a falta de esperança não pode esperar. Mulheres parindo no chão dos hospitais, doentes terminais sem remédio para suas dores, médicos desesperados porque não há nem aspirina nem água limpa para oferecer, não podem ter paciência. Os estudantes que dependem do Fies, os bolsistas no exterior, por exemplo, não podem esperar.
A explicação fornecida para a crise é de romance: a Europa e os Estados Unidos são os responsáveis, e São Pedro, que faz chover demais numa região e pouco em outra.
Se não formos um povo escolarizado, um povo informado, que lê jornal, assiste a noticiosos, conversa com família, amigos e colegas para saber o que se passa, é assim que seremos tratados. Promessas retumbantes e discursos otimistas e confusos não deviam mais nos enganar. A gente precisa da verdade. Precisa de respeito. Precisa das oportunidades que nos foram tiradas quando nos colocaram entre os últimos do mundo em educação, economia, confiabilidade e outros.
Mas talvez se possa ajudar o Brasil usando as armas mais eficientes que temos, se bem usadas: manifestações ordeiras, não acreditar em promessas vazias, nem dar atenção à dança de políticos que trocam de partidos e convicções, na festa das gavetas que reina no Congresso. E usar o "voto" gesto mínimo e definitivo que pode derrubar g.o estruturas perversas e chamar de volta entre nós as duas irmãs indispensáveis para uma nação soberana: esperança e confiança..
Lya Luft
Como o aquecimento global pode mudar o mapa
No pior cenário, completo derretimento das camadas de gelo de Antártida e Groenlândia elevaria mar em 60 metros. Continentes mais afetados seriam Ásia e Europa. Holanda, Bangladesh e várias capitais brasileiras sumiriam.
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| Região Metropolitana do Rio e Região dos Lagos fluminense |
De acordo com um estudo recém-publicado pelo Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático , a temperatura global pode subir em média 12 graus Celsius caso todos os recursos de combustíveis fósseis sejam esgotados na Terra. Isso resultaria no derretimento completo das camadas de gelo que cobrem a Antártida e a Groenlândia.
Embora o aumento de temperatura não deva acontecer repentinamente, a manutenção do atual comportamento da sociedade pode mudar a face da Terra, afirma Ricarda Winkelmann, principal autora do estudo alemão.
Segundo o estudo, caso todos os recursos disponíveis de combustíveis fósseis sejam queimados, a camada de gelo da Antártida entrará em colapso. Consequentemente, o nível do mar subiria três centímetros por ano. O ápice – depois de vários milhares de anos – seria de 58 metros, que corresponde à quantidade de todo o gelo derretido. Europa e Ásia seriam as regiões mais afetadas.
No norte da Europa, a Holanda seria completamente engolida pelo mar. As cidades alemãs de Hamburgo e Berlim estariam completamente submersas. E a costa alemã se moveria para aproximadamente 400 quilômetros ao sul. A Dinamarca ficaria reduzida a um minúsculo país insular. Veneza estaria submersa – apesar de todas as barragens para impedir inundações.
"Se quisermos que futuras gerações passeiem em cidades como Tóquio, Hong Kong, Xangai, Rio de Janeiro, Hamburgo ou Nova York, precisamos evitar o derretimento na Antártida Oriental", diz Andres Levermann, coautor do estudo do instituto de Potsdam, acrescentando que isso só poderia ser feito parando as emissões de gases do efeito estufa.
A Ásia seria o continente mais atingido. Todo o país de Bangladesh, que conta com uma população de 180 milhões de habitantes, ficaria submerso. Além disso, as cidades de Cingapura, Hong Kong, Xangai e Pequim não existiriam mais.
Se o aquecimento global pudesse ser contido em 2 graus Celsius, o nível do mar subiria cerca de um metro – o que ainda seria aceitável, segundo os autores do estudo. Mas mesmo assim, pequenos Estados insulares com as Ilhas Maldivas e Tuvalu desapareceriam da face da Terra.
No site geology.com é possível verificar os efeitos da subida do nível do mar em todas as regiões do globo terrestre. No Brasil, por exemplo, capitais como Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro, Vitória, Salvador, Aracaju, Maceió, João Pessoa, Natal, Fortaleza, São Luís, Belém, Macapá e Manaus ficariam completamente ou parcialmente submersas. As maiores invasões de água aconteceriam na Bacia Amazônia e na Bacia Platina, incluindo o litoral gaúcho.
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Eu quero ir para Plutão
Para o cidadão Gilmar Mendes
Quando Mario Batalha soltou essa frase no seu tom rabugento-beligerante, eu pensei que ele estivesse bêbado. Mas qual, o velho estava em forma e, como ele fala pausadamente, você fica intrigado com a próxima frase, que pode declamar um poema ou anunciar o fim do mundo. Olhamos para ele com os olhos de fora um tanto esbugalhados; enquanto os de Capitu tentavam adivinhar o que viria.
— Plutão! Na ausência de saída desta infindável crise cujo centro está brasileiramente em quem pode terminá-la, pensemos não em Platão ou Pluto, o cachorro do camundongo Mickey (isso é que é democracia: um rato ter um cachorro, enquanto aqui os ratos são também cachorros). Falo — continuou sem alegria Mario Batalha — no planeta mais longínquo, o que era tão desconhecido como os valores de um político nacional. Aliás — continuou —, as fotos de Dilma depois da tenebrosa perda do grau do investimento revelam olhos bonitos e um tanto plutônicos, como que situados na fronteira do nosso miúdo sistema político-planetário...
— Apaixonou-se pela presidente? — perguntou o gozador Beto Molhoterno, especialista nas plutônicas gatunagens da Petrobras.
— Não, não, e não! — reverberou Mario Batalha, falando ainda mais pausadamente.
Pensei no permanente drama do aluno deslumbrado pela professora, no legislador preso pela lei que proclamou, na cozinheira que come a própria comida, na mulher irresistível que não resiste a si mesma e não dá pra ninguém, no país que faz guerra em nome da paz e no partido que enriquece em nome do povo. Em suma, do criador arrebatado (e paradoxalmente encarcerado) pela criatura que inventou, a qual, uma vez fabricada, ganha presença e autonomia e faz suas exigências, embaraçando — como no velho mito — o criador. Galatea, relembro, logo que como estátua recebeu dos deuses o dom da existência, exigiu do seu ex-escultor apaixonado que ele raspasse a barba. Tal como as mulheres exigem um carinho esquecido, e o nosso Brasil — essa Galatea em forma de coração — demanda apego e, sobretudo, uma babaquice chamada honestidade. Que dizem ser coisa pra “trouxas”!
Nós, como o mitológico Pigmalião, esculpimos uma democracia que transforma floristas analfabetas (como na peça de Bernard Shaw) em duquesas; e operários em presidentes. Sua incomensurável bonança abrange toda a sociedade, pois é isso que a distingue da aristocracia. Nela, não há segmentações estabelecidas, mas papéis e cargos a serem preenchidos por mérito. Sendo inclusiva, nela os excluídos são um problema, inclusive esse planeta Plutão que hoje faz parte do nosso conhecimento astronômico. O campo da democracia é imenso e nele nascem tanto mentira quanto verdade. Como o tão malfalado mercado, ela aceita tudo e, por isso, tem que ser medida e vigiada. No seu seio todos — f.d.p e planetas — são agasalhados.
Mas, como criatura e instituição, ela faz suas demandas. Tem, como Gelatea, suas cobranças. Uma delas é o limite do tempo de governo; outra é a honestidade; uma outra — dificílima num país de índole aristocrática — é a eficiência e o senso de limite ou de justiça.
— Governos democrático-liberais — prosseguiu — são irritantes porque eles têm um laço forte com o mercado autorregulado (que estabelece responsabilidade) e com um paralelo ao teste das urnas, o qual se decide por números mas se convalida pela eficácia e pela sinceridade, pelo chamado “bem-estar geral” que, graças a Dilma, acabou no Brasil.
E o que isso tem a ver com Plutão? — perguntaram a um só tempo o velho Perdigão, ao lado do Miroca e do Sivoca.
Tem tudo a ver. O planeta menos conhecido e bom porque estava longe faz agora parte do nosso mundo. Tornou-se parte da nossa consciência. Com isso, ele desmancha fantasias, revelando-se em sua realidade rochosa e infértil. Tal como a distante democracia liberal — que era um sonho numa sociedade de barões e milicos autoritários, bem como de gente que virava político para ser servido e não para servi-la e honrá-la — espanta ldarões difarçados de pais do povo.
A essa altura, Mario Batalha tomou um largo gole de uísque e olhou nos nossos olhos lavados de velhos. Chuck Snake, o americano que nada entendia de Brasil e pensava que o lulopetismo fosse igual ao tal “liberalismo ianque”, quis sair da roda mas eu o acalmei. “Take it easy”, disse.
— E como iremos para Plutão? — questionou o Miroca com um sorriso sacana.
— Vamos com gosto, tomando do bom e do ruim, mas obedecendo às demandas da nossa criatura, tal como o fazemos com o espirito arrolhado nessa bela garrafa — respondeu veloz um sério Mario Batalha.
Roberto DaMatta
A quem interessava enfraquecer o juiz Sérgio Moro?
Para começar a investigar um crime, os detetives de antigamente costumavam se fazer a mesma pergunta: “A quem interessa?” Ou seja: “Quem mais tiraria vantagens do crime?”
A pergunta pode ser aplicada também para elucidar ou pelo menos iluminar outros enigmas.
Por exemplo: por sete votos a três, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu fatiar a Operação Lava-Jato, subtraindo poderes do juiz Sérgio Moro, o comandante da operação até aqui.
Continuarão com Moro somente os processos que tenham conexão direta e robusta com a roubalheira na Petrobras. Os demais poderão ser repassados a outros juízes país a fora.
Montar um quebra-cabeça com muitas peças é um desafio complicado. Torna-se impossível de ser vencido quando faltam peças.
O relator da decisão do STF foi o ministro Dias Tóffili, ex-advogado de Lula, ex-assessor de José Dirceu, um petista de raiz. Tóffili desabafou irritado a certa altura do julgamento:
- Há Polícia Federal e há juiz federal em todos os estados do Brasil. Não há que se dizer que só haja um juízo que tenha idoneidade para fazer investigação ou para seu julgamento. Só há um juiz no Brasil?
Não, há muitos. Mas Moro já demonstrou à farta sua competência na condução do caso e seu rigor na aplicação das leis. Nada mais precisa provar.
Não existe outro juiz que conheça tão bem como Moro o que a Lava Jato investiga. Nem que opere como ele em tão fina sintonia com a Polícia Federal.
Embora sem esse nome, a Lava Jato começou em 2009. E seu objetivo inicial foi o de apurar lavagem de dinheiro entre empresas ligadas ao deputado José Janene (PP-PR), que já morreu.
A apuração levou à descoberta de um posto de gasolina, em Brasília, que lavava dinheiro. E em seguida ao doleiro que fazia a lavagem e que se escondia sob o nome de Primo.
Por conta do posto de gasolina foi que a operação ganhou o nome de Lava Jato.
Primo era o doleiro Alberto Yousseff. E foi por meio dele que se chegou a Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobras. O resto é história conhecida.
Portanto, é falsa a afirmação de que a Lava Jato, por vocação e em respeito ao seu escopo original, deve limitar seu interesse à roubalheira na Petrobras.
Como desvincular o que aconteceu na Petrobras com o que aconteceu em outras empresas e órgãos dos governos Lula e Dilma?
Os personagens, em várias ocasiões, foram os mesmos. Os crimes de igual natureza. E o produto deles serviu ao mesmo propósito – o de manter no poder quem nele queria se conservar.
Ela foi celebrada pelos advogados de presos, de ex-presos, de suspeitos e de quem mais receia cair nas malhas da Lava Jato.
Por que? Ora. Seguramente porque aumentam as chances de eles se darem bem.
No Congresso, ontem à noite, deputados e senadores não escondiam seu alívio com o enfraquecimento de Moro.
A blindagem da Lava Jato foi rompida pela primeira vez. Doravante será mais fácil rompê-la sempre que necessário.
Esperem para ver.
A pergunta pode ser aplicada também para elucidar ou pelo menos iluminar outros enigmas.
Por exemplo: por sete votos a três, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu fatiar a Operação Lava-Jato, subtraindo poderes do juiz Sérgio Moro, o comandante da operação até aqui.

Montar um quebra-cabeça com muitas peças é um desafio complicado. Torna-se impossível de ser vencido quando faltam peças.
O relator da decisão do STF foi o ministro Dias Tóffili, ex-advogado de Lula, ex-assessor de José Dirceu, um petista de raiz. Tóffili desabafou irritado a certa altura do julgamento:
- Há Polícia Federal e há juiz federal em todos os estados do Brasil. Não há que se dizer que só haja um juízo que tenha idoneidade para fazer investigação ou para seu julgamento. Só há um juiz no Brasil?
Não, há muitos. Mas Moro já demonstrou à farta sua competência na condução do caso e seu rigor na aplicação das leis. Nada mais precisa provar.
Não existe outro juiz que conheça tão bem como Moro o que a Lava Jato investiga. Nem que opere como ele em tão fina sintonia com a Polícia Federal.
Embora sem esse nome, a Lava Jato começou em 2009. E seu objetivo inicial foi o de apurar lavagem de dinheiro entre empresas ligadas ao deputado José Janene (PP-PR), que já morreu.
A apuração levou à descoberta de um posto de gasolina, em Brasília, que lavava dinheiro. E em seguida ao doleiro que fazia a lavagem e que se escondia sob o nome de Primo.
Por conta do posto de gasolina foi que a operação ganhou o nome de Lava Jato.
Primo era o doleiro Alberto Yousseff. E foi por meio dele que se chegou a Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobras. O resto é história conhecida.
Portanto, é falsa a afirmação de que a Lava Jato, por vocação e em respeito ao seu escopo original, deve limitar seu interesse à roubalheira na Petrobras.
Como desvincular o que aconteceu na Petrobras com o que aconteceu em outras empresas e órgãos dos governos Lula e Dilma?
Os personagens, em várias ocasiões, foram os mesmos. Os crimes de igual natureza. E o produto deles serviu ao mesmo propósito – o de manter no poder quem nele queria se conservar.
A quem interessou a decisão do STF relatada por Tóffili?
Ela foi celebrada pelos advogados de presos, de ex-presos, de suspeitos e de quem mais receia cair nas malhas da Lava Jato.
Por que? Ora. Seguramente porque aumentam as chances de eles se darem bem.
No Congresso, ontem à noite, deputados e senadores não escondiam seu alívio com o enfraquecimento de Moro.
A blindagem da Lava Jato foi rompida pela primeira vez. Doravante será mais fácil rompê-la sempre que necessário.
Esperem para ver.
A inquilina
Num misto de justiça lenta com excesso de proteção ao inquilino, aquela desgraceira durou dois anos. Não sem antes minha mãe gastar uma pequena fortuna com advogados, ser acusada pelo resto do conjunto residencial onde morava de ser “dona de bordel” e entrar na fila do “fiel depositário” na prefeitura, pois o vigarista deixou mobília no imóvel, que tem que ser fotografada e retirada com a supervisão da prefeitura, sob o risco de cadeia para o proprietário, é mole?
Não restou a ela outra alternativa que não vender o imóvel para pagar as contas de água e luz deixadas para trás, as ligações clandestinas feitas pelo bandidão e outros prejuízos igualmente indecentes, impostos a uma “senhora exploradora do sistema” . Quem estiver pensando: “Puxa, que azar. Ainda bem que não foi comigo”, pode tirar seu cavalinho da chuva, que está molhando a crina.
É essa, exatamente essa, a história do Brasil. Ou alguém aqui acha que a inquilina daquele palácio está fazendo algo diferente do estelionatário que invadiu a casa de minha falecida mãe? O bordel é o mesmo, as ligações clandestinas as mesmas… Trabalho de profissionais do crime, meus caros. Gente disposta a não sair do lombo nunca. E com uma justiça ainda aparelhada em favor da criminalidade reinante.

E a inquilina, roubando água e luz dos brasileirinhos, afirmando que não fez nada de errado para ser defenestrada rampa abaixo? O Brasil precisa de uma limpeza ampla, geral e irrestrita, meus amigos. Se bobear, as duas poltronas deixadas para trás pelo vigarista profissional que atacou minha mãe anos atrás ainda dormem em algum galpão da prefeitura. Tudo pago com o meu, o seu, o nosso dinheiro. É uma afronta. Um embuste. Uma picaretagem. Até quando?
Vlady Oliver
A verdade dividida
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade
Sangue de barata

Quando a sociedade se vê ameaçada por prenúncios de desorganização do Estado, as instituições, por seus agentes, em muitas ocasiões como esta que vivemos se excitam em espasmos de arrogância ou de indiferença. Ou em ensaios de autoritarismo.
Quem não sabe como lidar com essas coisas e já se acha no salve-se quem puder, farinha pouca meu pirão primeiro, estufa o peito e pigarreia todo dono ou dona da autoridade que já não mais lhe resolve, mas que precisa ostentar.
Aí a compaixão é tangenciada junto com a cidadania. As leis do direito se desgarram da moral e da ética. O processo civilizatório não estanca, mas decai. A interpretação das normas só conhece a conclusão ignóbil – é até certo que o fato não se reveste de moral, mas o que fazer se não é legal?
E assim as leis do direito, editadas sob pressupostos morais e éticos, vão sendo desgarradas dos bons costumes que as inspiraram e servindo à facilidade de julgamentos que dispensam da inteligência humana o compromisso com a paz social, pois com injustiças, maus exemplos e impunidades não há sociedade que se segure organizada.
A justiça não pode ser aquela temeridade. Há que ser preservada como a cidadela em que todos possam depositar confiadamente as suas esperanças. Sobre ela não pode pairar a mínima suspeita de desconfiança. É operada por seres humanos e porque somos todos humanos nos resumimos a uma única meta – a perfeição. Se não a alcançamos conclusivamente, é nosso dever seguir perseguindo. Só assim nos aprimoramos como criaturas de Deus.
Se nos descuidamos podemos parecer que somos maus. Mas não basta parecer. Temos que acreditar na força do bem, praticar o bem do qual somos aliados porque só com atitudes firmes das pessoas de bem é possível estancar a enxurrada do mal cujos operadores são incansáveis.
Ora, quem iria imaginar que de um simples posto de lava jato se tiraria a ponta do enorme novelo dessa novela quase interminável? Gangues com imensa capilaridade pelo país a furtarem fortunas dos cofres públicos e a repassarem propinas milionárias a políticos, a candidatos e a partidos?
E os que embolsaram as propinas comprando eleições e a se investirem em mandatos sem legitimidade popular nenhuma se entregando ao desserviço à democracia. Não sabem e nem querem saber o sacrifício que deu e o trabalho que ainda está dando restabelecer no Brasil a plenitude democrática.
Os milicos do golpe militar de 64 acharam que cassando, exilando, enfim, deletando toda a geração dos políticos de então – gerações formadas sob valores firmes brotados da tradição secular tradição judaico-cristã, acharam aquelas pessoas que banindo o que ainda tínhamos de melhor, raras exceções à parte, ensejariam o surgimento de novas gerações de políticos dotados de mais espirito publico e imantados de firme patriotismo. É só olharmos os partidos da chamada primeira linha e os seus quadros, raríssimas exceções à parte.
Toda corrupção com o dinheiro publico no que temos de mais publico e notório brotou das maquinações dessa gente.
Toda essa onda que desnuda cenários e figuras insuspeitas até há algum tempo atrás, muitas das quais se igualam nos dias e noites dos cárceres, dizem as pitonisas do Estadão e da Folha, essa onde não passará tão cedo.
PS. A Dilma lê discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU. O texto guardado a sete chaves lhe será entregue pouco antes dela subir à tribuna. Há medos enormes que ela resolva improvisar em dilmês. Constrangimento maior já se iguala ao Mercadante, que está inarredável. O Brasil, que ainda se imagina em cadeira permanente no Conselho de Segurança, deve à ONU a bagatela de 184 milhões de dólares.
Edson Vidigal
Coxinha e caviar
“Coxinha” e “esquerda caviar” são estereótipos que prestam um desserviço ao debate político no Brasil, e pelos mesmos motivos. Estereótipos reduzem as complexidades, as muitas e variadas singularidades que coexistem dentro de um determinado conjunto a uma só substância negativa, alardeada como se fosse a essência mesma de tal conjunto.
Possuem função cognitiva, isto é, não são meros filtros que distorcem a posteriori uma realidade apreendida objetivamente, mas parte integrante da própria moldura perceptiva dentro da qual o sujeito apreende aquilo que lhe parecerá então digno de repúdio. Ajudam a criar e sustentar preconceitos.
Gíria paulistana, “coxinha” inicialmente designava o sujeito rico, arrumadinho e careta. Ressignificada em meio à recente turbulência política do país, tornou-se instrumento retórico via de regra empregado para desqualificar de antemão quem quer que se manifeste contra o governo, nas ruas ou em redes sociais.
Como se os protestos não comportassem insatisfações legítimas, oriundas de diversos estratos da sociedade, mas fossem apenas expressões de uma elite desde sempre autorreferida, carcomida pela ignorância de quem é incapaz de estender sua empatia para além do mundinho particular em que vive. É contra o PT? Coxinha.
A expressão “esquerda caviar”, cunhada na França dos anos 80, pretende denunciar o que seria a hipocrisia constitutiva da esquerda: condenar o capitalismo mas aproveitar suas benesses, vivendo de modo a contradizer os valores que prega.
A expressão não apenas pressupõe como também faz parecer que há algo como “a esquerda”, um bloco monolítico eminentemente socialista ou comunista. Nada mais distante da realidade. Basta pensar nas diversas formas de esquerda social-democrata existentes — os liberais americanos ou os quadros mais sóbrios do PSDB, por exemplo — e a suposta contradição ou hipocrisia que a expressão denota desaparece.
Além disso, como observou Francisco Bosco em coluna publicada no GLOBO, “a crítica é um princípio democrático de aperfeiçoamento, e não um instrumento de negação absoluta”. Critica-se o capitalismo para melhorá-lo, o que, na perspectiva de esquerda, significa principalmente reduzir as desigualdades que produz. Não importa: se é esquerda, só pode ser comunista; portanto, não pode usufruir dos frutos do capitalismo sem cair em contradição. Esquerda caviar.
Polemistas, profissionais ou amadores, dependem da repetição de estereótipos para avançar seu trabalho de desqualificação do outro ideológico. Ao martelar incessantemente tais expressões em jornais, revistas e blogs, não estão apenas criticando algo de que discordam, mas ajudando a criar uma atmosfera hostil a este outro, com o intuito de negar inteligibilidade à sua visão de mundo.
Uma vez sedimentado um terreno discursivo suficientemente maniqueísta, qualquer coisa que o outro diga será recebida já dentro dos termos de uma percepção distorcida, preconceituosa porque sistematicamente estereotipada. Anula-se, assim, a possibilidade de um diálogo racional, pois os interlocutores passam a se comportar não como adversários honestamente permeáveis às opiniões uns dos outros, mas como inimigos cuja “ladainha” sequer deveria vir a público.
De modo geral, discursos estruturados por sobre estereótipos como “coxinha” e “esquerda caviar” renunciam à difícil tarefa de tentar compreender a realidade em toda a sua complexidade. Transformam posições políticas legítimas em espantalhos, para então enxovalhá-las justamente por isso. Contribuem para a polarização estéril do debate, pois que é próprio do preconceito reproduzir o antagonismo do qual é um sintoma.
Antonio Engelke
Possuem função cognitiva, isto é, não são meros filtros que distorcem a posteriori uma realidade apreendida objetivamente, mas parte integrante da própria moldura perceptiva dentro da qual o sujeito apreende aquilo que lhe parecerá então digno de repúdio. Ajudam a criar e sustentar preconceitos.

Gíria paulistana, “coxinha” inicialmente designava o sujeito rico, arrumadinho e careta. Ressignificada em meio à recente turbulência política do país, tornou-se instrumento retórico via de regra empregado para desqualificar de antemão quem quer que se manifeste contra o governo, nas ruas ou em redes sociais.
Como se os protestos não comportassem insatisfações legítimas, oriundas de diversos estratos da sociedade, mas fossem apenas expressões de uma elite desde sempre autorreferida, carcomida pela ignorância de quem é incapaz de estender sua empatia para além do mundinho particular em que vive. É contra o PT? Coxinha.
A expressão “esquerda caviar”, cunhada na França dos anos 80, pretende denunciar o que seria a hipocrisia constitutiva da esquerda: condenar o capitalismo mas aproveitar suas benesses, vivendo de modo a contradizer os valores que prega.
A expressão não apenas pressupõe como também faz parecer que há algo como “a esquerda”, um bloco monolítico eminentemente socialista ou comunista. Nada mais distante da realidade. Basta pensar nas diversas formas de esquerda social-democrata existentes — os liberais americanos ou os quadros mais sóbrios do PSDB, por exemplo — e a suposta contradição ou hipocrisia que a expressão denota desaparece.
Além disso, como observou Francisco Bosco em coluna publicada no GLOBO, “a crítica é um princípio democrático de aperfeiçoamento, e não um instrumento de negação absoluta”. Critica-se o capitalismo para melhorá-lo, o que, na perspectiva de esquerda, significa principalmente reduzir as desigualdades que produz. Não importa: se é esquerda, só pode ser comunista; portanto, não pode usufruir dos frutos do capitalismo sem cair em contradição. Esquerda caviar.
Polemistas, profissionais ou amadores, dependem da repetição de estereótipos para avançar seu trabalho de desqualificação do outro ideológico. Ao martelar incessantemente tais expressões em jornais, revistas e blogs, não estão apenas criticando algo de que discordam, mas ajudando a criar uma atmosfera hostil a este outro, com o intuito de negar inteligibilidade à sua visão de mundo.
Uma vez sedimentado um terreno discursivo suficientemente maniqueísta, qualquer coisa que o outro diga será recebida já dentro dos termos de uma percepção distorcida, preconceituosa porque sistematicamente estereotipada. Anula-se, assim, a possibilidade de um diálogo racional, pois os interlocutores passam a se comportar não como adversários honestamente permeáveis às opiniões uns dos outros, mas como inimigos cuja “ladainha” sequer deveria vir a público.
De modo geral, discursos estruturados por sobre estereótipos como “coxinha” e “esquerda caviar” renunciam à difícil tarefa de tentar compreender a realidade em toda a sua complexidade. Transformam posições políticas legítimas em espantalhos, para então enxovalhá-las justamente por isso. Contribuem para a polarização estéril do debate, pois que é próprio do preconceito reproduzir o antagonismo do qual é um sintoma.
Antonio Engelke
Integramos um teatro que torna mais real a nossa própria realidade
Em minhas longas noites de insônia, além da conversa silenciosa que costumo manter com os “meus mortos”, sinto a aguda sensação de que todos, vivos e mortos, fazemos parte de uma grande e miserável peça de teatro que torna mais real a nossa própria realidade.
De vez em quando, rompe o silêncio dessas noites a figura fantasmagórica da presidente Dilma, que está muito viva, mas que se parece cada vez mais com um zumbi, a perambular de bicicleta pelos suntuosos palácios de Brasília, acompanhada pelo ex-presidente Lula. Aproveito a oportunidade para lhe dizer coisas que ninguém lhe diz, nem mesmo o seu criador, e a primeira que me vem à mente, leitor, já deve ter passado infinitas vezes pela sua: o cargo de presidente da República nunca lhe pertenceu, foi-lhe delegado por voto direto pela maior parte do povo brasileiro, que acreditou nas suas promessas, embora tanto ela quanto ele e seus asseclas, ao fazê-las, sabiam que mentiam. Lembro-lhe que o apego ao mandato, além de perigoso, é masoquismo. E que o Brasil é muitíssimo maior do que os seus eventuais governantes.
Digo-lhe que o italiano Giacomo Puccini, que viveu entre 1858 e 1924, jamais imaginou que a ária “Nessun Dorma”, da sua ópera “Turandot”, serviria hoje para titular um dos atos desse teatro miserável, que leva o nome de operação Lava Jato, o mais importante de todos – passados, presentes e futuros. Digo-lhe, também, que o ex-presidente deve botar suas barbas de molho e refletir sobre a afirmação, feita em entrevista pelo procurador Fernando dos Santos Lima, de que o mensalão, o petrolão e a corrupção na Eletronuclear tiveram origem na (sua) Casa Civil, chefiada então por José Dirceu, preso pela segunda vez. E sugiro-lhe conhecer o papel que desempenha na ária o príncipe Calaf.
Ou a presidente ainda não dedicou nem um minuto sequer à reflexão para concluir que já foi longe demais nessa sua viagem? Não percebeu que é responsável pelo sacrifício de milhões de brasileiros?
Lembro-lhe, então, que a Presidência da República lhe caiu nas mãos de graça, mas quem a recomendou – um mestre na astúcia – nunca a quis senão até o seu retorno, com pompa e glória (que ela, em boa hora, simplesmente impediu), e sem compromisso com ninguém, ao cargo que deixou há quase cinco anos. E que o seu criador, na verdade, jamais lhe foi leal e, como se fosse dono do país, nunca escondeu seus reais objetivos. Mesmo assim, ela aceitou que, juntos, praticassem falta gravíssima ao contrair dívida absurda e cruel em nosso nome, e ainda jogaram no lixo os fundamentos éticos que nortearam a maioria dos fundadores do Partido dos Trabalhadores – um partido que, sem dúvida, reacendeu a fé e a esperança em milhões de brasileiros, sobretudo pobres. Praticaram, à luz do dia, um verdadeiro estelionato!
Ou a presidente não se convenceu, definitivamente, de que não pode mais contar com o apoio (que um dia recebeu) dos 54 milhões de votos que lhe foram concedidos, provenientes dos que foram iludidos pelas suas mentiras? A presidente está, afinal, à espera de quê?
Encerro essa noite insone suplicando ao criador e à criatura que, para o bem de todos, reconheçam os erros imperdoáveis que praticaram e deem um adeus definitivo ao sofrido povo brasileiro. E aceitem, finalmente, que nosso país siga feliz e em paz o seu destino, empurrado pela tenacidade da sua gente e pela riqueza da sua natureza!
Os brasileiros têm o direito de tentar uma nova era!
“Sursum corda”!
De vez em quando, rompe o silêncio dessas noites a figura fantasmagórica da presidente Dilma, que está muito viva, mas que se parece cada vez mais com um zumbi, a perambular de bicicleta pelos suntuosos palácios de Brasília, acompanhada pelo ex-presidente Lula. Aproveito a oportunidade para lhe dizer coisas que ninguém lhe diz, nem mesmo o seu criador, e a primeira que me vem à mente, leitor, já deve ter passado infinitas vezes pela sua: o cargo de presidente da República nunca lhe pertenceu, foi-lhe delegado por voto direto pela maior parte do povo brasileiro, que acreditou nas suas promessas, embora tanto ela quanto ele e seus asseclas, ao fazê-las, sabiam que mentiam. Lembro-lhe que o apego ao mandato, além de perigoso, é masoquismo. E que o Brasil é muitíssimo maior do que os seus eventuais governantes.
Ou a presidente ainda não dedicou nem um minuto sequer à reflexão para concluir que já foi longe demais nessa sua viagem? Não percebeu que é responsável pelo sacrifício de milhões de brasileiros?
Lembro-lhe, então, que a Presidência da República lhe caiu nas mãos de graça, mas quem a recomendou – um mestre na astúcia – nunca a quis senão até o seu retorno, com pompa e glória (que ela, em boa hora, simplesmente impediu), e sem compromisso com ninguém, ao cargo que deixou há quase cinco anos. E que o seu criador, na verdade, jamais lhe foi leal e, como se fosse dono do país, nunca escondeu seus reais objetivos. Mesmo assim, ela aceitou que, juntos, praticassem falta gravíssima ao contrair dívida absurda e cruel em nosso nome, e ainda jogaram no lixo os fundamentos éticos que nortearam a maioria dos fundadores do Partido dos Trabalhadores – um partido que, sem dúvida, reacendeu a fé e a esperança em milhões de brasileiros, sobretudo pobres. Praticaram, à luz do dia, um verdadeiro estelionato!
Ou a presidente não se convenceu, definitivamente, de que não pode mais contar com o apoio (que um dia recebeu) dos 54 milhões de votos que lhe foram concedidos, provenientes dos que foram iludidos pelas suas mentiras? A presidente está, afinal, à espera de quê?
Encerro essa noite insone suplicando ao criador e à criatura que, para o bem de todos, reconheçam os erros imperdoáveis que praticaram e deem um adeus definitivo ao sofrido povo brasileiro. E aceitem, finalmente, que nosso país siga feliz e em paz o seu destino, empurrado pela tenacidade da sua gente e pela riqueza da sua natureza!
Os brasileiros têm o direito de tentar uma nova era!
“Sursum corda”!
De quatro
Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissãoMiguel Torga
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