segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

A grande guerra

As árvores sempre amaram os homens, desde o princípio dos tempos. Confessam este amor sem parar, as horas todas do dia. Mesmo quando a luz se retira e elas desaparecem de nossa vista, continuam a dizer que nos amam, fazendo perfume para a nossa noite e música para os nossos sonhos.

Mas as árvores não são apenas os maiores artistas que existem; são também os mais sábios cientistas. Se a gente lotasse o Mineirão de cientistas, os cem mil sábios ali reunidos saberiam muito menos do que uma árvore. E a mais profunda e indispensável ciência da árvore é transformar veneno em ar puro.

Muito poucos homens, por incrível que pareça, entendem a língua das árvores. Um em mil? Talvez nem isso. Um dia, por causa dessa ignorância, reunidos numa sala fechada, os homens declararam guerra às árvores.

Observados hoje, depois que tudo aconteceu, os motivos alegados parecem ridículos. Há árvores demais no mundo, diziam. – Já começam a invadir as nossas terras. – Melhor enfrenta-las e transformá-las em objetos úteis: casas, móveis, navios, lenha. – Não podemos é permanecer de braços cruzados. – O progresso exige que acabemos com as árvores.

Argumentos, de fato, ridículos; mas os argumentos a favor de todas as outras guerras são muito parecidos, depois de vistos (como se diz) à luz da história.

Foram mobilizados facões, machados, serrotes. O mais terrível guerreiro era um que ama o combate por si mesmo, capaz de lutar indiferentemente pelo bem ou pelo mal, capaz de cozinhar para o homem, sem que esse gesto simpático signifique bondade; em outra oportunidade, esse mesmo guerreiro poderá destruir sem remorso a humanidade inteira. Seu nome é Fogo.

E a guerra começou. As árvores, que também não entendem a língua dos homens, apesar de amá-los, continuaram em paz, a fazer o que sempre fazem: sombra, flores, frutos, desenhos, poesia. E a transformar veneno em oxigênio.

Foi uma guerra feia e covarde. Todos os homens, quase todos (com exceção das pessoas de ouvido fino, que entendem a língua dos vegetais), entraram na luta de extermínio. Quem não pertencia a um exército regular, punha o machado no ombro e saia de manhã para brigar sozinho. Os mais humildes, que nem dispunham de machadinha, armavam-se de fósforo ou isqueiro. Até as crianças, as mais assanhadas e menos inteligentes, participavam da guerra, e da maneira mais diabólica: construíam balões que, levados pelo vento, causavam perdas incalculáveis ao doce e inocente inimigo.

Essa guerra foi iniciada na era da civilização, há algumas centenas de anos, quando o homem aprendeu a fazer navios ligeiros, pontes sólidas, casas confortáveis e catedrais belíssimas.

Foi iniciada e jamais teve trégua, prosseguindo até o dia de hoje, auxiliada agora pelas armas modernas, como a serra elétrica e o trator.

Desarmadas, ou armadas apenas de boa vontade, as árvores opuseram uma única resistência: foram criando outras árvores, tantas quanto podiam no furor da batalha, na esperança de que, findas as hostilidades, outras plantas crescessem e continuassem a fazer oxigênio, sombra, flores, frutos, perfume, desenhos e poesia.

Mas acontece o seguinte: como imensas florestas já tombaram na luta, dando lugar a amplidões estéreis, o número de árvores em nosso tempo é insignificante. O número de homens, pelo contrário, tornou-se (como dizem) uma verdadeira explosão.

Assim, para dizer tudo em poucas palavras, a vitória dos homens contra as árvores está muito próxima. No ritmo que vamos, em pouco tempo não ficará uma floresta em pé.

Há um único problema: estamos enfrentando agora novos inimigos, aqueles que aparecem quando as árvores morrem: os riachos e os rios estão secando-se de sede, atormentando os homens; os temporais adoidados destroem as plantações, atormentando os homens; os animais desaparecem, atormentando os homens; a terra arrebenta-se e não presta mais para nada, atormentando os homens; o sol queima as sementeiras e castiga toda a criação, atormentando os homens. Em vez de dar música nas ramagens, a ventania dá vento; em lugar de perfume, aspiramos o fumo das máquinas; em troca de poesia, vamos entrando cada vez mais por uma paisagem sem flores, sem pássaros, sem verde. E já estamos sentindo falta de ar.

Superpovoada de homens e despovoada de árvores, a própria Terra, a única que possuímos, chega ao fim e aos poucos morre.

Resultado final: as árvores perdem a guerra e os homens ganham o inferno.
Paulo Mendes Campos

Palestina: o apartheid também é farmacêutico

A Teva Pharmaceuticals, sediada em Israel e globalmente reconhecida como uma das maiores produtoras de genéricos, fabrica diversos medicamentos essenciais, incluindo versões de sais de anfetamina mistos (geralmente comercializados sob o nome comercial Adderall), fluoxetina, ibuprofeno, entre outros. Em 2022, a empresa alcançou um lucro bruto de 6.973 milhões de dólares [33,8 milhões de reais]. Como uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, a Teva opera instalações na América do Norte, Europa, Austrália e América do Sul, com distribuidoras autorizadas como CVS Pharmacy, Walgreens e Wal-Mart. A Teva também é uma das empresas cúmplices na restrição do fornecimento de remédios à Palestina, que aumenta a carga sobre a saúde nos territórios ocupados.

A empresa enfrentou a possibilidade de ser incluída em uma lista negra pela Organização das Nações Unidas por operar em assentamentos ilegais na Cisjordânia. Ativistas palestinos anônimos que trabalham no acesso a medicamentos informaram ao People’s Health Dispatch que a Teva continua sendo um grande fornecedor de medicamentos na Cisjordânia. Outras empresas farmacêuticas que operam na área são a Taro Pharmaceuticals (anteriormente de propriedade israelense, agora de propriedade do fabricante indiano Sun Pharmaceuticals) e a empresa americano-irlandesa Perrigo.

Por outro lado, há seis farmacêuticas palestinas, das quais cinco estão atualmente ativas. Uma está inativa na Faixa de Gaza, devido à guerra e ao bloqueio em curso, o que impede a fabricação de medicamentos. Na Cisjordânia, a Pharmacare, Al-Quds Pharmaceuticals, Birzeit Pharmaceutical Company, Beit-Jala Pharmaceutical Company e Sama Pharmaceuticals conseguem fornecer parte dos medicamentos necessários. Juntas, essas empresas fabricam apenas 50% dos remédios vendidos na Palestina.

O Protocolo de Relações Econômicas, conhecido como Protocolo de Paris, que governa as relações econômicas, dita que Israel controla todas as importações e exportações palestinas por meio de impostos e controle de fronteiras, sujeitos às políticas econômicas israelenses. Essa classificação de “importações” para os medicamentos palestinos destinados a Jerusalém Oriental ocupada restringe sua distribuição a todos os palestinos.

A fabricação de medicamentos palestinos é ainda mais limitada pelo controle de Israel sobre a importação de matérias-primas e equipamentos nos territórios palestinos ocupados. Como resultado, muitos palestinos encontram os medicamentos israelenses a preços mais acessíveis, devido às altas taxas impostas por Israel aos produtos que entram na Cisjordânia. “Portanto, vemos o povo palestino consumir medicamentos israelenses”, disse um especialista palestino em farmacêutica que preferiu permanecer anônimo.

A situação deixa a Faixa de Gaza altamente dependente de organizações humanitárias, como a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) para medicamentos. O bloqueio agrava as infecções resistentes a medicamentos, pois os protocolos para combater a condição não podem ser seguidos consistentemente devido ao fornecimento inconsistente de antibióticos.


A indústria farmacêutica também causa estragos na Palestina por meio de violações ambientais e de direitos humanos. Ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) poluíram a água na Palestina por meio de esgoto não tratado nos territórios ocupados, representando riscos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana – levando à resistência antimicrobiana.

Relatos perturbadores sugerem que o Ministério da Saúde de Israel permitiu que grandes empresas farmacêuticas israelenses testassem produtos em prisioneiros palestinos mantidos em prisões israelenses. Essa alegação, feita pela professora Nadera Shalhoub-Kevorkian e por Mohammad Baraka, chefe do Comitê de Acompanhamento Superior para Árabes em Israel, levanta sérias preocupações éticas. Em 1997, a ex-política israelense Dalia Itzik relatou que mais de 5 mil testes haviam sido realizados nesses prisioneiros.

A recusa das autoridades israelenses em devolver os corpos de vários mártires palestinos, como Fares Baroud, levantou suspeitas de que eles foram submetidos a experimentos médicos. Em 2015, Riyad Mansour, embaixador palestino nas Nações Unidas, acusou as autoridades israelenses de retirar órgãos de corpos palestinos, possivelmente para experimentos médica – uma acusação que continua sendo feita durante o auge do conflito atual.

Israel é obrigado pela 4ª Convenção de Genebra (artigos 50, 55 e 56) a garantir o fornecimento adequado de suprimentos médicos na Palestina. No entanto, um ativista anônimo que falou com o People’s Health Dispatch afirmou que, durante conflitos, as farmacêuticas israelenses reduzem o fornecimento de medicamentos na Cisjordânia para fortalecer as reservas de medicamentos de Israel. Em Gaza, a capacidade de receber medicamentos externos é gravemente afetada pela guerra, o que significa que muitos pacientes não recebem as doses necessárias ou outras formas de cuidados de saúde.

As mesmas empresas farmacêuticas israelenses que exploram a situação nos territórios palestinos ocupados se beneficiam das políticas e incentivos fiscais dos EUA através de múltiplas vias. Ao mesmo tempo, os palestinos não recebem ajuda significativa dos EUA. Na verdade, o apoio dos EUA a essa ocupação insidiosa nega à Palestina a capacidade de prosperar. Até o momento, muito poucos políticos norte-americanos apoiaram um cessar-fogo, muitos permanecem em silêncio e vários políticos de alto perfil prometeram apoio a Israel.

A Teva Pharmaceuticals recebeu milhões de dólares em créditos fiscais e descontos de estados dos EUA ao longo dos anos. Tais subsídios são comuns nos país, uma vez que os governos estaduais fornecem benefícios fiscais para as empresas operarem no seu território. Os subsídios permitiram que a Teva obtivesse lucros maiores. A empresa anteriormente controlada por israelenses, Taro Pharmaceuticals, também se beneficiou das políticas de fabricantes de medicamentos dos EUA.

A influência da indústria farmacêutica se estende à exploração de políticas, como a reformulação de medicamentos sob a Lei de Medicamentos Órfãos [para doenças raras], permitindo que as empresas se beneficiem de créditos fiscais e exclusividade de mercado por sete anos. Isso pode resultar em preços exorbitantes de medicamentos. Por exemplo, antes de ser adquirida pela Sun Pharmaceuticals, a Taro comprou o Daranide, um medicamento para glaucoma, e o reformulou sob a Lei de Medicamentos Órfãos. O Daranide costumava custar cerca de 50 dólares por frasco, mas disparou para mais de 13 mil dólares após a reformulação. Da mesma forma, a Immunity Pharma Ltd, outra farmacêutica israelense, teve seu tratamento para esclerose lateral amiotrófica (ELA) designado como medicamento órfão.

As ações da Big Pharma estabelecem um precedente para outras indústrias conduzirem negócios às custas das vidas palestinas. Enquanto a Palestina estiver ocupada, sua indústria farmacêutica e economia nunca florescerão completamente. Para que a saúde prospere, a Palestina deve ser libertada.
Candice Choo-Kangno People’s Health Dispatch 

Os ombros não suportam mais o mundo

Pouco importa, venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo, e ele não pesa mais que a
mão de uma criança
Carlos Drummond de Andrade, em “Os Ombros Suportam o Mundo”

Outro dia, num banco debaixo do meu prédio, degustando o prazer e maléfico desbenefício de um cigarro — por incrível que pareça chamado Harmony (?), observava uma só formiga levando sobre seus ombros uma flor maior que ela. Parecia alegre e penosa, mas executava seu trabalho comunitário. Ela carregava nos ombros seu mundo!

E nós, humanos, ao contrário do que diz o verso drummoniano, “os ombros suportam o mundo”, deixamos nesse nosso tempo presente a intrigante pergunta: os homens suportam hoje a realidade mundana, tanto a externa, factual, quanto a interna, psíquica?

As guerras; a revolta da natureza ferida; a política mercenária e perversa; o ódio predominante entre as disputas de poder; as famílias desorientadas sem parâmetro ético; a falta de instituições que não são mais referências de identificação aos jovens; a Justiça partidária e os governos extremistas tanto à direita quanto esquerda; todos estes são fenômenos humanos (será que humanos de fato?) pesados demais para que nossos ombros suportem. Daí o abandono, a angústia e a ausência de acolhimento, gerando patologias do pânico, depressões e ideações suicidas num percentual nunca visto.

As fibras musculares dão lugar a uma “fibromialgia coletiva”. Salienta nosso poeta maior, quando inicia seu poema quando afirma: “Chega um tempo em que não se diz mais: ‘meu Deus…’/Tempo em que não se diz mais: ‘meu amor’/Porque o amor resultou inútil/ E os olhos não choram… /E o coração está seco”.

Contudo, aquela formiguinha que citei no início do texto caminhava tranquila, por amor à comunidade e afeto aos seus familiares. Por uma função social que os homens da pós-modernidade aposentaram. A beleza da flor avermelhada sendo carregada emanava um sentimento de cooperação, de trabalho coletivo, e mais, de uma atitude que caiu de moda — a compaixão!

O “social-ismo” está perdendo cada vez mais para o “narci-sismo” patológico, onde o ter, a ânsia pelo poder, o dominar e o escravizar podem proporcionar momentos de prazer. Prazer esse que, no entanto, termina em desprazer, pois o “social-capitalismo” deixa a marca do vazio existencial e da depressão.

Os ombros não estão mais suportando esse mundo atual. Dia após dia, o corpo está definhando, e a alma, sofrendo. Parece que não se tem mais força para reagir, a não ser os gritos, rebanhos de gente nas ruas, sem força nos músculos da fonação para dizer: “Ai, meu Deus!”.

sábado, 13 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


As estrelas

O ônibus para na frente do edifício do aeroporto.

Agora só restam três passageiros. Jenny, Camila e o pai de Camila. Eles procuram suas bagagens.

Depois da longa viagem de ônibus, a mais longa que Jenny fez em sua vida, ela tem a sensação de conhecer muito bem os outros dois. Eles estão mais próximos dela do que Siri, Ragnhild e as colegas do laboratório. Eles são mais do que companheiros casuais de viagem. Eles são seus semelhantes.

Jenny joga o sobretudo verde sobre um braço e com o outro puxa a mala para fora do compartimento de bagagem. Depois ela sai do ônibus, o motorista faz o motor roncar, fecha as portas e segue viagem.

Anoiteceu entre Soreide e Bergen. A Terra girou alguns graus em torno de seu eixo e fez o sol desaparecer no horizonte. As luzes vermelhas de sinalização no limite do aeroporto comprovam que Jenny morrerá no final do século XX.

Jenny movimenta-se com passos pesados em direção à entrada.

Embarque... Departure.

Sobre o baixo edifício do aeroporto, ela vê as primeiras estrelas da noite como pálidas manchas azuladas na penumbra.

Sóis distantes. E ainda assim nossos vizinhos mais próximos no Universo.
Jenny vai morrer num planeta que gira em torno de uma entre bilhões de estrelas da Via Láctea. E além da Via Láctea, mais além de onde alcançam os pensamentos de Jenny, existem outras centenas de milhões de galáxias como essa.

A morte tão perto — e as estrelas tão distantes.

Jenny teve uma fase em que se interessou por astronomia. Desde o segundo grau até quando foi para Trondheim fazer seus estudos de química, ela lia todos os livros que conseguia encontrar sobre o Universo. Era como uma obsessão.

Jenny sabia que toda a matéria no Universo formava uma unidade orgânica. Ela também sabia que, em tempos primordiais, toda a matéria havia se concentrado numa bola de massa tão desproporcionalmente densa, que a cabeça de um alfinete pesava bilhões de toneladas. Sabia que o átomo primordial explodira devido à imensa força gravitacional. Sabia também que o Universo que a cercava agora era resultado dessa explosão. E mais ainda: ela sabia que todas as galáxias ainda estavam se afastando umas das outras numa velocidade astronômica.

No segundo grau, uma vez Jenny se inserira dentro de um contexto maior. Ela traçara coordenadas de tempo e espaço e localizara sua própria cidade com toda a exatidão. Aprendera a lidar com os acontecimentos arbitrários com os quais os seres humanos inescapavelmente se confrontam na Terra. Depois a vida na Terra a agarrara cada vez mais firmemente.

Jenny vê uma estrela sobre o aeroporto de Bergen. Ela sabe que a luz dessa estrela percorreu bilhões de quilômetros antes de se encontrar com seu olhar no dia 5 de abril de 1983 às vinte e uma horas.

A luz dessa estrela precisou de tempo para essa longa viagem. A cada pulsação no corpo de Jenny, ela avançava centenas de milhares de quilômetros através da noite cósmica. E mesmo assim foram necessários dias e meses e anos. Dez anos, cem anos, milhares de anos...

Olhar para o espaço sideral significa retroceder no tempo. Não vemos o Universo como ele é, mas como foi há muito tempo...

Quando os radiotelescópios conseguem captar a luz de longínquas galáxias que estão a bilhões de anos-luz distantes de nós, eles desenham um mapa do Universo como ele era nos tempos primordiais após a grande explosão. Sim, pois o Universo não conhece uma geografia atemporal. O Universo é um acontecimento. O Universo é uma explosão.

Olhar para o espaço sideral significa viajar no tempo.

Jenny sabe disso. Ela sabe disso desde que tinha dezesseis anos.

Tudo o que uma pessoa pode ver no céu são fósseis cósmicos de milhares e de milhões de anos. Tudo o que um astrólogo pode fazer é interpretar o passado.
Quando uma química de vida atarefada que está com câncer levanta seu olhar da Terra e olha para o espaço sideral, está olhando retrospectivamente para a história do Universo. Numa noite clara, ela vê milhões, sim, bilhões de anos atrás no passado. De certa forma, está vendo o caminho de volta para casa, de volta para sua origem cósmica.

Quando Jenny era criança, muitas vezes a ideia de que o Universo era infinito lhe causava vertigens. Seu pai lhe explicara que o mundo era uma minúscula esfera que girava em torno do Sol. O Sol era uma estrela. E lá em cima no céu havia milhões e mais milhões daqueles sóis.

E depois das estrelas? Outros milhões de novas estrelas. E depois destas?
Em suas leituras, Jenny deparara com o fato de que essa já era uma visão ultrapassada do mundo. O Universo não era infinito. Ele era grande. Mas não infinito.

E não era para ter vertigens com essa ideia? Que o Universo fosse finito, a realidade, um enigmático colosso que se erguia do nada absoluto?

A caminho do setor de embarque, Jenny se lembra de que lera sobre um astrônomo que calculara o número total de galáxias no Universo. E, não se dando por satisfeito, além de contar as estrelas do firmamento, calculara também o número total de partículas elementares em todo o cosmo e determinara o peso do Universo.

Jenny fica emocionada com essa ideia.

A realidade, ela pensa, a realidade é um objeto que pesa determinado número de quilos.

Nesse momento, a massa do Universo está dividida em bilhões de galáxias numa área gigantesca. Mas nem sempre foi assim. Em algum momento, em tempos remotos, há dez ou quinze bilhões de anos, toda a massa existente no Universo formava um único objeto. Naquela época, um único objeto formava a realidade.

A pulsação de Jenny acelerou com esse pensamento.

Todas as estrelas e galáxias no espaço sideral compõem-se da mesma matéria. Aqui e ali foram se formando aglomerações dessa matéria. Uma galáxia pode estar a bilhões de anos-luz das outras. Mas todas possuem a mesma origem. Todas são da mesma linhagem...

Mas que matéria era essa que formava o mundo?

O que é isso que explodiu há bilhões de anos? De onde veio?

Essa questão afeta Jenny profundamente. Afinal, ela mesma é feita dessa matéria.
Jostein Gaarder, "O Pássaro Raro"

Os destrutivos 'homenzinhos'

As manifestações oficiais sobre a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 foram acompanhadas de análises e proclamações que celebravam a solidez da democracia brasileira. Vou buscar aqui um caminho um tanto acidentado para inspecionar os desvarios destrutivos das massas que invadiram prédios públicos e destruíram obras de arte e outras coisas mais. O leitor de CartaCapital há de tolerar minha busca de apoio em Hannah Arendt, Wilhelm Reich e Élisabeth Roudinesco. O personagem social que deambula nas páginas desses três autores é o indivíduo que carrega na alma as dores, aspirações e conflitos da sociedade de massa capitalista.

A busca pela diferenciação dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência de massas. Desgraçadamente para a maioria dos aspirantes, pobres e remediados, os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoa­dos se esboroam nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios, atolada no pântano da sociedade de massa. Os ganhos propiciados pela valorização da riqueza financeira sustentam o consumo dos ricos e, simultaneamente, aprisionam as vítimas da crescente desigualdade nos circuitos do crédito. No afã desatinado de acompanhar os novos padrões de vida, a legião de fragilizados compromete fração crescente de sua renda no endividamento.


Hannah Arendt abordou, em As Origens do Totalitarismo, as transformações sociais e políticas na era do capitalismo tardio e da sociedade de massa. A economia dos monopólios promoveu a substituição da empresa individual pela coletivização da propriedade privada e, ao mesmo tempo, engendrou a “precarização” do trabalho. A isso juntou-se a conversão ao regime salarial das profissões outrora conhecidas como liberais. A operação impessoal das forças econômicas produziu, paralelamente, o declínio do homem público e a ascensão do “homem massa, cuja principal característica não é a brutalidade ou a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais”.

Trata-se da abolição do sentimento de pertinência, sem a supressão das relações de dominação. “As massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cujas estrutura competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas quando se pertencia a uma classe. O fato de que o ‘pecado original’ da acumulação de capital tenha requerido novos pecados para manter o sistema em funcionamento foi eficaz para persuadir a burguesia alemã a abandonar as coibições da tradição ocidental… Foi esse fato que a levou a tirar a máscara da hipocrisia e a confessar abertamente seu parentesco com a escória.” Para Arendt, a escória não tem a ver com a situação econômica e educacional dos indivíduos, “pois até os indivíduos altamente cultos se sentiam particularmente atraídos pelos movimentos da ralé”.

Arendt escreveu sobre o totalitarismo no século XX e ressaltou a importância da esfera pública, na qual se formam os consensos pelo livre debate de ideias. O único remédio contra o mau uso do Poder Público pelos indivíduos privados está na constituição de um espaço público capaz de avaliar os procedimentos de cada cidadão, submetendo-os à visibilidade. Quando as opiniões são bloqueadas pela intimidação e desqualificação sistemáticas, a meritocracia das ideias sofre um grave dano e o debate democrático escapa às normas da razão e pode ser manipulado.

Em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social. O desemprego promovido pela transformação tecnológica e pela migração da manufatura para as regiões de baixos salários tromba com a igualdade de oportunidades.

A pressão competitivo-aquisitiva desencadeia transtornos psíquicos nos indivíduos utilitaristas-consumidores. Os trabalhos de destruição da subjetividade iluminista são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, algozes e vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os inimigos imaginários, produtores do seu desencanto. Os inimigos são os outros: os imigrantes, os pobres preguiçosos que preferem o Bolsa Família e recusam a vara de pescar, comunistas imaginários etc.

As normas sociais da concorrência utilitarista que guiam o sujeito pós-moderno levam à morte o indivíduo iluminista de Adam Smith, aquele consciente de sua liberdade e empenhado na preservação de sua autonomia. Ele foi substituído por um indivíduo depressivo em seus insucessos e frustrações, sempre preocupado em retirar de si, com doses maciças de Prozac, a essência de todo o conflito.

No livro The Mass Psychology of F­ascism, Wilhelm Reich assegura que a mentalidade dos destrutivos de 8 de janeiro é a mentalidade do “homenzinho”: escravizado, anseia por autoridade e, ao mesmo tempo, é rebelde. Não é coincidência que todos os aspirantes a ditadores, como Jair Bolsonaro, tenham surgido no meio reacionário do homenzinho.

A rejeição pós-moderna é mais profunda porque, de forma devastadora, erodiu os sentimentos de pertinência à mesma comunidade de destino, suscitando processos subjetivos de diferenciação e (des)identificação em relação aos “outros”. E essa recusa do outro vem assumindo cada vez mais as feições de um individualismo tosco, agressivo e antirrepublicano.

Na Genealogia da Moral, Nietzsche não hesita em afirmar que “o grande perigo para os homens são os indivíduos doentios, não os maus, não os predadores. Sãos os desgraçados, os destruídos, os vencidos de antemão – são eles, são os fracos que mais solapam a vida entre os homens, que envenenam e colocam em questão da maneira mais perigosa nossa confiança na vida e nos homens”. Os aforismos de ­Nietzsche exclamam protestos conta as virtudes do cristianismo, contra o ressentimento e a má consciência dos fracos, mergulhados na mediocridade da sociedade de massa.

A “psicologização” utilitarista da existência, diz Roudinesco, avassalou a sociedade e contribuiu para o avanço da despolitização, filha dileta do que Michel ­Foucault e Gilles Deleuze chamaram de “pequeno fascismo da vida cotidiana”, praticado e celebrado pelo indivíduo ressentido, ao mesmo tempo protagonista e vítima de um processo social que não compreende. O pequeno fascismo desliza sorrateiro para a alma de cada indivíduo, sem ser percebido, ainda que continue a simular a defesa dos sacrossantos princípios da família, dos costumes e da religião.

País mais pobre do Oriente Médio é alvo dos Estados Unidos

Cerca de 80% dos 31 milhões de iemenitas vivem abaixo da linha da pobreza e 70% da população sobrevive com ajuda humanitária. Apesar de ser o país mais pobre do Oriente Médio, Iêmen virou alvo de caças e mísseis de cruzeiro Tomahawk lançados pelos Estados Unidos e Reino Unido. Cada Tomahawk custa em média 1,87 milhões de dólares. A renda per capita da população iemenita mal chega a 750 dólares, 10 vezes menor que no Brasil.

Rachado por uma guerra civil, parte do Iêmen é controlado pelos rebeldes Houthis que, em apoio ao Hamas, passaram a atacar navios no Mar Vermelho. Prometiam mirar apenas embarcações de Israel, mas atingiram diversos alvos sem ligação com os israelenses. Eles são financiados pelo Irã.

Joe Biden, presidente dos EUA, explicou assim a mais recente ofensiva contra o Iêmen que, desde 2002, foi alvo de 400 ataques aéreos dos americanos:

“Hoje, sob minha orientação, as forças militares dos EUA – juntamente com o Reino Unido e com o apoio da Austrália, Bahrein, Canadá e Holanda – conduziram com sucesso ataques contra uma série de alvos no Iêmen usados ​​pelos rebeldes Houthis para pôr em perigo a liberdade de navegação no Iêmen, uma das vias navegáveis ​​mais vitais do mundo… Não hesitaremos em tomar novas medidas para proteger o nosso povo e o livre fluxo do comércio internacional, conforme necessário”.

Bombas disparadas do ar, da superfície e de subplataformas destruíram mais de uma dúzia de alvos Houthis, como depósitos de armas, radares e locais para armazenar drones, misseis balísticos e misseis de cruzeiro.

Apesar de contar com o apoio de países como Holanda, Austrália e Reino Unido, Biden terá que lidar com a oposição de cidadãos americanos que passaram a protestar contra os ataques horas depois dos primeiros misseis serem disparados contra a capital do Iêmen.

Dentro do Congresso americano, tem parlamentar insatisfeito com essa frente de batalha que acontece em meio à guerra de Israel contra Gaza. A Reuters separou algumas falas de congressistas republicanos e democratas. Pelo jeito, Biden terá mais trabalho para convencer seus aliados do que a oposição. Ele não pediu autorização dos senadores e deputados para lançar os ataques de ontem, como manda a lei. Segue traduzido o que disseram 3 democratas e 3 republicanos:

Gregory Meeks, Democrata de Nova Iorque:
“Embora apoie estes ataques militares direcionados e proporcionais, apelo à administração Biden para que continue os seus esforços diplomáticos para evitar a escalada para uma guerra regional mais ampla e continue a envolver o Congresso nos detalhes da sua estratégia e base jurídica, conforme exigido por lei”.

Mitch McConnell, líder dos Republicanos no Senado:
“Dou as boas-vindas às operações dos EUA e da coligação contra os terroristas Houthis apoiados pelo Irã, responsáveis ​​por perturbar violentamente o comércio internacional no Mar Vermelho e atacar navios americanos. Uma mudança duradoura na abordagem da administração Biden em relação ao Irã e aos seus representantes.”

Ro Khanna, Democrata da Califórnia:
“O Presidente precisa de vir ao Congresso antes de lançar um ataque contra os Houthis no Iêmen e de nos envolver noutro conflito no Oriente Médio. Esse é o Artigo I da Constituição. Defenderei isso independentemente de um Democrata ou um Republicano estar no poder.”

Roger Wicker, Senador Republicano pelo Mississípi:
“É importante que acompanhemos esta ação em estreita consulta com os nossos parceiros sauditas para garantir que estejam conosco à medida que a situação evolui… É hora de acabar com a conversa fiada de ‘resoluções conjuntas’ e ‘forças-tarefa marítimas’. Este ataque deveria ser um aviso aos Houthis e outros representantes iranianos de que sofrerão consequências catastróficas da escalada na região.”

Val Hoyle, Democrata do Oregon:

“Estes ataques aéreos não foram autorizados pelo Congresso. A Constituição é clara: o Congresso tem autoridade exclusiva para autorizar o envolvimento militar em conflitos no exterior. Cada presidente deve primeiro comparecer ao Congresso e pedir autorização militar, independentemente do partido.”

Susan Collins, Republicana do Maine:
“O Irã e os seus representantes devem compreender que os repetidos ataques às tropas dos EUA e a interrupção de rotas marítimas críticas não serão tolerados. Os ataques militares levados a cabo pela Administração em conjunto com os parceiros da coligação são uma resposta atrasada aos representantes apoiados pelo Irã que atacaram militares, bases e navios dos EUA mais de 120 vezes desde Outubro, resultando num militar gravemente ferido. Além disso, os terroristas Houthis lançaram dezenas de ataques a navios comerciais e não militares de vários países”.

Hipocrisia global

Relatório da ONG Human Rights Watch (HRW) afirma que a seletividade com que governos tratam direitos humanos mina a confiança nas instituições responsáveis por proteger esses direitos. Não vejo como discordar.

Líderes globais são rápidos em denunciar violações cometidas por países com os quais têm diferenças, mas mostram tolerância inesgotável para com abusos perpetrados por nações amigas. "Quando governos condenam veementemente os crimes de guerra do governo de Israel contra civis em Gaza, mas silenciam frente aos crimes contra a humanidade do governo chinês em Xinjiang, ou exigem punições internacionais em relação aos crimes de guerra russos na Ucrânia ao mesmo tempo que minimizam a responsabilização dos EUA pelos abusos no Afeganistão, enfraquecem a crença na universalidade dos direitos humanos e na legitimidade das leis destinadas a protegê-los", diz a HRW.


Na mosca. O nome disso é hipocrisia e, como já ensinava La Rochefoucauld, hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Cabe a ONGs, à mídia independente e a quem mais quiser apontar as contradições dos governantes e cobrar-lhes coerência. Mas não devemos ser ingênuos a ponto de achar que isso muda o jogo. Lidamos aqui com alguns dos mais profundos vieses humanos, que não serão revertidos com lições de moral.

O interessante é que, apesar dessa falha catastrófica, o sistema funciona. A analogia aqui é com a ciência. O ideal seria que cientistas, em nome da autocorreção, procurassem obsessivamente falhas em suas teorias e experimentos. No mundo real, porém, cientistas tendem a defender e não atacar suas próprias ideias. Erros e imprecisões costumam ser descobertos por grupos rivais. E é o que basta. O importante é que os desacertos sejam apontados, não importa tanto por quem.

Continuando com La Rochefoucauld, "a opinião que nosso inimigo tem de nós está mais perto da verdade do que a nossa própria".

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Colonização moderna

Quando pensamos no futuro do Brasil, não vemos futuro, mas tão somente a continuidade de um triste presente. Como é possível compreender, aceitar e viver sem indignação numa sociedade como a do nosso País, formada por:

1) uma multidão majoritária de pobres e negros, excluída, escravizada e inconsciente da realidade em que vive, sem condições de participar da vida política e econômica do país; 2) uma classe média sem qualquer noção de nacionalidade, que serve aos interesses dos poderosos, que odeia os pobres e que age como o capataz moderno, como bem define osociólogo Jessé de Souza;

3) uma elite econômica, que influencia na formação da classe política desqualificada e corrupta e que, em conjunto com a classe média, forma um bloco antipopular, que além de explorar o povo ainda tem “vendido” o País às nações estrangeiras.

Alia-se a isso, ainda, uma mídia em grande parte mantida pelo poder econômico, que tem exercido um crescente poder de manipulação da sociedade. São raros os veículos de comunicação que exercem a missão de fiscalizar, investigar, criticar, denunciar e cobrar, que se espera de uma imprensa livre, séria e compromissada com os destinos da Nação. Infelizmente, a publicidade pública quase sempre é usada com igual objetivo e não para educar, informar e bem orientar a sociedade, conforme determina a Constituição (art. 37, $ 1º).


Por tudo isso, estamos fadados a continuar sendo colônia das grandes potências, que aqui vêm buscar as commodities (matérias primas de baixo valor agregado) de que precisam para desenvolver as suas indústrias, gerar renda e empregos para os seus nativos, sob o olhar omisso da sociedade brasileira, uns por conveniência, outros por ignorância.

As ricas reservas de minérios, a exemplo do complexo minerário da Serra dos Carajás, no estado do Pará, o maior do mundo, estão sendo sugadas para sustentar a indústria da China e de países europeus, entre outros, deixando muito pouco ou quase nada para o Brasil além da degradação ambiental.

A desarticulação da Agência Nacional de Mineração, principal estatal voltada à organização e à fiscalização da atividade minerária, fez com que os garimpos ilegais se alastrassem, principalmente pelo território amazônico, avançando sobre áreas de proteção ambientais e sobre terras indígenas. Hoje a desordem impera nesse setor, situação que se agravou no governo passado, como vêm denunciando as poucas entidades da sociedade civil que atuam nessa área – Observatório da Mineração, site Amazônia real, sinaldefumaca.com, Brasil de Fato, entre outras.

A Vale S.A., por exemplo, usa tecnologia de ponta para extrair e transportar os minérios da Serra dos Carajás para fora do país, especialmente para China, principal compradora do minério de ferro, e também para a Europa e, em menor proporção, para Turquia, EUA, Argentina, Romênia, Omã, Ilhas Maurício, África do Sul e Egito. Mas nunca demonstrou o menor interesse em promover um processo de industrialização nacional. E nem nunca foi exigida pelo governo brasileiro a atuar nessa direção.

Segundo o site Brasil de Fato(2), só em 2021 a Vale deixou de pagar R$ 20,3 bilhões em impostos, sem qualquer contrapartida, o que faz com que as renúncias fiscais a ela concedidas sejam só um bônus para aumentar seu lucro. Em menos de dois anos, a Vale recebeu em benefícios fiscais do governo o equivalente a todo o acordo de reparação de Brumadinho.

Por isso, essa política de renúncias fiscais deveria ser revista, com urgência, pelo Brasil. Ela só se sustenta pelo forte lobby que as empresas mantêm no Congresso Nacional, a exemplo do que ocorre com o agronegócio. Aliás, saliente-se que os maiores investimentos da Vale e das grandes empresas do agronegócio são na manutenção dos lobbies e nas campanhas publicitárias.

O bom senso e os interesses do País indicam que essas benesses só se justificariam para empresas do setor industrial, que geram empregos qualificados e renda para os brasileiros. Para mineradoras que só exportam o minério in natura, que geram muito poucos empregos e renda no país, assim como para os grandes grupos empresariais do agronegócio que só produzem para exportar, é um verdadeiro crime de lesa-pátria conceder a elas incentivos fiscais.

Aliás, no agronegócio a situação ainda é pior. Além de não pagarem impostos, as grandes empresas desse setor são beneficiadas com créditos a juros subsidiados e renúncias de receitas. Espertamente, os grandes empresários do agro procuram confundir-se com os pequenos e médios produtores rurais e com as empresas industriais, com o objetivo de usufruir dos benefícios governamentais a ambos concedidos. Reitere-se que os investimentos no País só são feitos para a manutenção de uma bancada aguerrida no Congresso e na promoção de campanhas publicitárias manipuladoras da opinião pública.

Em 2019, por exemplo, a exportação de produtos do agronegócio rendeu aos cofres públicos apenas R$ 16,3 mil em imposto, de acordo com os dados publicados no artigo Agrotóxicos, capital financeiro e isenções tributárias, de Marcelo Carneiro Novaes e Thomaz Ferreira Jensen, um dos textos que compõem o livro Direitos Humanos no Brasil 2020, lançado pelo Movimento Humanos Direitos e pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

E a situação de lá para cá só piorou. Nossas férteis terras estão sendo usadas por um seleto grupo do agronegócio para produzir alimentos destinados exclusivamente à exportação, atendendo aos interesses dos países importadores. Para nós estão sobrando tão somente a devastação dos biomas, a degradação e a contaminação por agrotóxicos dos solos e das águas.

Dados levantados pelo Repórter Brasil, resultantes do cruzamento de informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua) do Ministério da Saúde, com testes feitos em 2022, encontraram uma mistura de 27 agrotóxicos na água consumida pela população de 210 municípios brasileiros, como São Paulo (SP), Fortaleza (CE) e Campinas (SP).

Em 2022, o alerta máximo para contaminação da água acendeu em 28 cidades de Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Tocantins, nas quais testes de qualidade encontraram agrotóxicos na rede de abastecimento, ou em poços de uso particular, em quantidade acima do limite considerado seguro pelo Ministério da Saúde. Essa situação, segundo especialistas, representa um risco à saúde, principalmente se a água contaminada for consumida de forma contínua.

Esses são temas que deveriam preocupar a sociedade brasileira e, sobretudo, o Congresso Nacional e ensejar atuações visando uma mudança que melhor atenda aos interesses do País. No entanto, é utopia esperar que isso aconteça, uma vez que a maioria dos atuais parlamentares é comprometida com o grande capital, para o qual atuam como verdadeiros lobistas.

Resta esperar que setores mais conscientes da sociedade denunciem e pressionem por mudanças, fazendo com que eles passem a contribuir mais com o Brasil e menos com interesses particulares e pouco republicanos.

Grande civilizado

Eu penso que o riso acabou – porque a humanidade entristeceu. E entristeceu – por causa da sua imensa civilização. O Infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio – O Grande Civilizado.
Eça de Queiroz, “A Decadência do riso”

Luta de classes à maneira dos ricos

Um dia, os inquilinos do Belnord se revoltaram e resolveram entrar em greve, fazendo história; mas isso foi depois, já no final da década de 1970. O Belnord havia sido, no seu tempo, o maior e mais suntuoso edifício de apartamentos de Nova York. Construído em 1909 e ocupando um quarteirão inteiro do Upper West Side, tinha 175 apartamentos finamente decorados, com tudo o que era importante na época: salas de estar e de jantar, biblioteca, lareira, despensa, dois ou três quartos de empregada e amplo espaço na cobertura para cada unidade dispor da sua própria lavanderia — o que, na virada do século, queria dizer o seu próprio tanque, a sua própria tábua de passar e o seu próprio varal de roupas, luxo sem igual.

O Belnord fora obra de um consórcio de investidores, e trocou de mãos algumas vezes até se tornar propriedade de um único casal, os Seril. O marido morreu em 1981; a viúva ficou famosa por ser a proprietária mais incompetente do elegantíssimo Upper West Side. Lilian Seril era acusada pelos inquilinos de não só não fazer as obras de manutenção de que o prédio necessitava, como de impedi-los de fazê-las. Havia infiltrações, os elevadores não funcionavam, faltava água, o telhado era um problema, o delicado jardim interno havia sido fechado. Ela, por sua vez, acusava os inquilinos de não pagar o aluguel em dia e de vandalizar o edifício.

Os aluguéis haviam caído num desvio burocrático criado durante a Segunda Guerra para evitar especulação imobiliária, estavam congelados e custavam uma fração do seu valor de mercado.


Na verdade, todos os lados tinham razão, todos estavam errados e todos eram igualmente insuportáveis. O primeiro juiz designado para dar jeito no emaranhado de ações entre proprietária e inquilinos desistiu da causa, e disse ao New York Times, exasperado, que “as partes se mereciam”.

Sem solução à vista, os moradores entraram em greve, depositando os aluguéis em juízo; alguns aproveitaram e simplesmente deixaram de pagar. A briga só se resolveu quando, em 1994, aos 85 anos, Lilian Seril jogou a toalha e vendeu o Belnord para um grupo de investidores.

Os novos proprietários pagaram U$ 15 milhões por um edifício que, em circunstâncias normais, teria custado três vezes isso, e gastaram U$ 100 milhões na reforma. Lilian Seril continuou no seu apartamento de 300m² até morrer, em 2004: pagava um modesto aluguel (congelado) aos novos donos. Só em 2017 as unidades, reformadas, começaram a ser vendidas, as menorzinhas por pouco menos de U$ 4 milhões, as maiores por U$ 11 milhões.

A longa treta entre proprietários e inquilinos do Belnord daria uma série, mas eu só descobri isso depois de assistir — com muito atraso — a “Only murders in the building”, onde ele atende por Arconia e é apenas um dos personagens.

Fui para o computador atrás do prédio fictício e o Google me trouxe o filé-mignon da vida real.

“Only murders in the building”, comédia policial estrelada por Steve Martin, Martin Short e Selena Gomes, com participações especiais de nomes como Sting e Meryl Streep, é uma das melhores séries em cartaz. Foi lançada em 2021 no Star+ e já teve três temporadas perfeitas para maratonar: três vizinhos se transformam em improváveis podcasters e detetives tentando descobrir quem é o assassino que se esconde no seu velho edifício. A história é leve, os atores são maravilhosos, a direção é ótima e, para felicidade geral, ninguém se leva muito a sério.

Hora do educacionismo

Na última edição de 2023 do Correio Braziliense, o jornalista Luiz Carlos Azedo provocou nominalmente este leitor a refletir sobre o papel da educação na construção do futuro do Brasil. Entre envaidecido e comprometido, respondo que apenas educação não é suficiente, mas é absolutamente necessária para construir um país rico, democrático, justo, sustentável e pacífico. A his tória mostra que, além da educação, é preciso liberdade para fazer florescer a criatividade, que a cooperação internacional é necessária para aproveitar recursos externos, e a democracia, para corrigir rumos errados, mas a educação é o eixo central para enfrentar cada problema brasileiro e construir o progresso, especialmente nestes tempos em que a economia é baseada no conhecimento.


O Brasil tem o PIB elevado, mas não sai da armadilha da baixa renda per capita, por depender de aumento na produtividade, devido sobretudo à falta de educação em geral e sua vertente profissionalizante. Temos imensa renda social por causa do tamanho da população e do potencial natural, mas não conseguimos sair de sua perversa concentração, nem da baixa renda per capita. Em consequência, temos os péssimos indicadores sociais, todos vinculados à falta de educação de base. O desemprego depende, por um lado, de investimentos para criar vagas, e, por outro, do preparo profissional para preencher vagas criadas e preparar o trabalhador a adaptar-se à evolução tecnológica. O Brasil tem potencial para ser líder na nova indústria digital e sustentável, cuja base está no desenvolvimento científico e tecnológico que exige aproveitar todos os cérebros, não deixando nenhuma criança para trás em sua educação de base.

Apesar de décadas de crescimento econômico, dezenas de conquistas trabalhistas e diversos programas de assistência social, a pobreza e a desigualdade persistem no Brasil porque a distribuição de renda e dos benefícios sociais decorre da distribuição do conhecimento, graças ao acesso à escola com a mesma qualidade, independentemente da renda e do endereço da criança. A pobreza e a desigualdade só serão enfrentadas corretamente quando o Brasil superar seu sistema escolar dividido em "escolas senzala" e "escolas casa grande".

Nos últimos anos, vimos a fragilidade de nossa democracia, porque não basta ter Constituição cidadã se ela não for internalizada na alma da nação, graças à educação com qualidade e equidade. É a educação que fortalece e humaniza a democracia, transformando-a de um texto escrito em um guia da nação. Os constituintes fazem a Constituição, mas são os professores que a incorporam na alma do povo. Depois de 40 anos, temos uma democracia bárbara que divide as cidades na apartação de condomínios e ocupações, oferece os serviços sociais de qualidade, especialmente educação, apenas à parte rica da população. Sua transformação em democracia civilizada passa por educação de qualidade para todos.

Tanto a corrupção no comportamento de políticos quanto na definição de prioridades pela política tem várias causas, mas todas têm a ver com a educação. Os políticos corruptos são doutores instruídos, mas não foram educados para a cidadania, os eleitores sem educação se submetem por necessidade à venda do voto ou são enganados mais facilmente pela demagogia. A violência urbana exige polícia e justiça eficientes, mas requer ampla educação para quebrar a desigualdade que insufla violência, e também para educar ao desarmamento e pacificar a população.

Educação não faz tudo, mas faz o que é preciso para que tudo seja feito. O Brasil já tentou independência, república, ditadura, democracia, desenvolvimentismo, marcha para o oeste, governos de direita e esquerda, mas nunca tentou o educacionismo. Só uma radical estratégia educacionista vai permitir ao Brasil dar o salto que precisa e ter condições para aproveitar seu maior recurso potencial: nossa população educada.

Talvez, os maiores entraves para isso sejam a mentalidade, que vê educação como um serviço social e não como fator de produção e de distribuição no mundo moderno, e a cultura atávica, que não vê os brasileiros como possíveis campeões em educação, nem acredita na possibilidade de os filhos dos pobres terem escolas com a qualidade dos filhos dos ricos. Os desafios do educacionismo são convencer o Brasil de que isso é preciso, é possível, esta é a hora, este é o caminho, e definir a estratégia para realizá-lo: criar um Sistema Único Nacional Público de Educação de Base com a máxima qualidade, independente da renda e do endereço da pessoa.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Tolerância com valores autoritários resistiu ao fracasso do 8/1

O fracasso da tentativa de golpe, a punição aos invasores e a relativa tranquilidade desde 8 de janeiro de 2023 não eliminaram um fator que foi determinante para os ataques e que se incorporou ao ideário de agentes políticos e de um largo contingente de eleitores: a tolerância com princípios antidemocráticos.

A ascensão do bolsonarismo elevou a uma posição central no debate público uma doutrina baseada em tendências autoritárias. O líder, seus auxiliares e muitos apoiadores seguiram uma linha que rejeitava controles institucionais, admitia o atropelo das regras do jogo e considerava o uso da força para fazer valer suas vontades políticas.


Grupos dominantes da direita brasileira mantêm essas preferências ou exibem complacência exagerada em relação a esses valores. A dependência da força política de Jair Bolsonaro e a ausência de um polo alternativo nesse campo une extremistas convictos, beneficiários políticos do radicalismo e aqueles que temem desafiar o ex-presidente.

A normalização, ao longo de quatro anos, dessas disposições autoritárias facilitou a disseminação da ideia de que aquele era um caminho legítimo ou, ao menos, uma transgressão aceitável quando usada a favor de um propósito político. Anabolizada por informações falsas, essa distorção foi absorvida por uma fatia ampla do eleitorado.

Esse é o efeito de um certo tipo de populismo. Nos EUA, uma pesquisa do Democracy Fund mostrou que 58% dos eleitores republicanos concordavam, em 2019, que Donald Trump poderia agir fora da Constituição se soubesse que era "a coisa certa". Só 12% dos simpatizantes do mesmo partido diziam, em 2022, que Joe Biden poderia fazer o mesmo.

No Brasil, a desconfiança artificial sobre o processo democrático e o antagonismo fabricado em relação às instituições estão sedimentados entre os bolsonaristas mais fiéis. A exclusão do ex-presidente do jogo eleitoral e a condenação de golpistas dificilmente mudará esse quadro de um ano para outro.

Para sobreviver em 2024

Passado o ano, as listas pessoais de desejos, nada mais a fazer do que encarar a realidade. Mesmo um tipo de realidade sobre a qual nada podemos fazer: as eleições nos Estados Unidos, o esforço da China para anexar Taiwan. Até na guerra no Oriente Médio, tudo o que pudemos fazer foi sofrer e reclamar, exceto, é claro, a iniciativa oficial de trazer brasileiros de Israel, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

O ano entrou com o terremoto no Japão. É um ano de eleições municipais no Brasil. Pensei em ligar o progresso japonês em prevenção e resposta aos grandes eventos naturais a um debate sobre as cidades brasileiras. As mudanças climáticas estão aí, é preciso tirar gente de área de risco, preparar comunidades para uma resposta de emergência.


No primeiro artigo que escrevi no ano cheguei a sugerir que bons planos nesse campo poderiam sonhar com financiamento internacional. Afinal, é o esforço de adaptação às mudanças, e já no Acordo do Paris se falou numa verba para financiá-lo.

Confesso que senti uma ducha de água fria quando vi o Congresso aprovar uma verba de quase R$ 5 bilhões para financiar a campanha eleitoral. É algo distante de nossa realidade e muito distante também de quem se dispõe a considerar as mudanças climáticas e a necessidade de transitar para outro tipo de economia, outro tipo de produção e consumo.

Os gastos eleitorais são previstos como se tivéssemos uma fortuna para esbanjar, como se a tecnologia não tivesse simplificado a relação com o eleitor, como se imaginação fosse banida das eleições e houvesse lugar apenas para grana, muita grana.

A esta altura, creio, já não adianta reclamar. As coisas acontecem, surgem rapidamente no noticiário, desaparecem, e você se torna um chato se ficar repisando.

As mudanças climáticas e o El Niño não nos darão trégua neste ano. Será preciso insistir em algumas teses, ainda que os políticos não as ouçam. É preciso se adaptar, fazer planos, fortalecer a Defesa Civil, educar a população, sobretudo em áreas vulneráveis.

Outro dia, numa reunião no Senado, soube que a Defesa Civil de Santa Catarina se inspira no Japão. Reconheço que não podemos transplantar a mentalidade japonesa, muito menos investir como eles na resiliência urbana.

Existem algumas ilusões que precisam ser desfeitas. Uma delas é supor que temos muito poucos recursos para realizar esses planos. Podemos não ter abundância, mas existem recursos, e mais existiriam se aceitássemos a realidade e os usássemos racionalmente.

Outra ilusão é supor que os brasileiros sejam totalmente refratários à preparação para desastres. Ela parte do princípio de que a indisciplina faz parte de nossa natureza.

Entrevistando algumas brasileiras no Japão, ouvi delas que estão perfeitamente integradas ao trabalho de resposta rápida, fazem simulações e seguem à risca todo protocolo que os japoneses adotam. Isso é válido para toda a colônia brasileira no Japão.

Se começarmos um trabalho de treinamento nas escolas, as próprias crianças podem transmitir ensinamentos para suas famílias. Quando deputado, apresentei um projeto nesse sentido. Não foi aprovado, mas creio que funcionaria melhor se fosse uma disposição das próprias cidades. Talvez nem precise de lei, mas de estímulo, uma espécie de concurso entre escolas.

No encontro no Senado, Esperidião Amin lançou a ideia de premiar cidades com os melhores planos de prevenção e resposta. Se for algo substancial, pode atrair prefeitos. Tudo vale para mudar o quadro no Brasil. Anualmente, somos atingidos pelos eventos naturais, perdemos gente e quase não nos sentamos, como fazem os japoneses, para avaliar nossa vulnerabilidade e tentar reduzi-la.

O ano eleitoral começou com um terremoto à distância e previsões pessimistas sobre o El Niño, num contexto de aquecimento global. Não importam as dificuldades nem o perigo de parecer chato, mas é necessário insistir com políticos e eleitores. Alguma coisa está acontecendo. Por favor, tragam seus guarda-chuvas para a tempestade que nos espera.

A extrema-direita continua à espreita

A tentativa de golpe e os crimes do ex-presidente Jair Bolsonaro são nítidos para a bolha progressista. Critica-se a lentidão da Justiça para julgar os peixes grandes e uma ação mais efetiva do governo Lula para enquadrar os militares. Entretanto, pesquisas mostram que essa é uma realidade de nicho. E que a rede de desinformação da extrema-direita está funcionando com eficiência.

Bolsonaro teve influência nos atos antidemocráticos do 8/1? Parece uma resposta óbvia, mas para a pesquisa Quaest, 43% dos entrevistados não enxergam relação entre os criminosos e o ex-presidente. 47% culpam Bolsonaro. A maioria (51%) acredita que os participantes da invasão são radicais e não representam os eleitores de Jair Bolsonaro.


Outro dado da pesquisa. Em um ano, recuou em 5% – de 94% para 89% – a porcentagem de entrevistados que condenam a destruição dos edifícios na Praça dos Três Poderes.

Certa vez ouvi uma bolsonarista dizer a uma amiga que criticava o ex-presidente: “Você está se informando pelos lugares errados. A Globo e os grandes jornais só mentem”. E certamente ela não falava da Jovem Pan. Quem não lembra das campanhas, com posts do ex-presidente inclusive, para que seus apoiadores seguissem apenas seus canais de informação?

A inaceitável fake news do vídeo de conteúdo sexual com o Padre Júlio Lancellotti é mais um exemplo de como as milícias digitais funcionam. Por mais que os veículos apontem as fraudes e mentiras, elas alcançam um número muito menor de pessoas. Há um método comum. Atacar personagens da esquerda com elementos conservadores: relação com a criminalidade, misoginia, sexo, etc.. E tudo isso com a conveniência ou a omissão das redes sociais. O algoritmo tem partido.

Bolsonaro está inelegível, mas enquanto o ex-presidente, empresários, militares e políticos envolvidos no 8 de janeiro e nos crimes da pandemia não forem à Justiça, legitimará o discurso da extrema-direita que nada foi tão grave assim, e que na verdade não passa do discurso ideológico da esquerda.

Sem passar esses episódios a limpo, a extrema-direita continuará à espreita, apenas aguardando um novo Bolsonaro surgir ou o próprio renascer. A anistia de 1979 continua viva e novamente protege criminosos.

O perseguido

Actualmente, estou a tentar fazer amigos fora do Facebook … mas usando os mesmos princípios.

Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas.

Entrego-lhes fotos da minha mulher, da minha filha, do meu cão, minhas no jardim, na piscina, e fotos do que fizemos no fim de semana.

Também caminho atrás das pessoas, a curta distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me e digo-lhes que “gosto” do que ouvi, peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos e também faço algum comentário sobre o que ouvi. Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas.

E funciona…Já tenho 3 pessoas que me seguem…

São dois polícias e um psiquiatra. 

domingo, 7 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia


 

Em três meses, 1% da população de Gaza morreu na guerra; entenda

A guerra entre Israel e o Hamas já causou a morte de ao menos 22.600 pessoas na Faixa de Gaza, segundo o último balanço do Ministério da Saúde do grupo islâmico palestino, divulgado na sexta-feira. O valor corresponde a cerca de 1% da população total do enclave no período anterior a 7 de outubro, quando teve início o conflito armado, em resposta à ofensiva lançada pelo Hamas em território israelense — o pior desde a formação do Estado judeu, em 1948, com 1,2 mil mortos e 240 reféns.

Vista de maneira isolada, a proporção parece pequena. Mas 1% da população de um país como o Brasil, por exemplo, seria o equivalente a 2,14 milhões de pessoas — ou todo o estado de Sergipe (2,22 milhões), segundo dados do IBGE. Se compararmos com a Índia, que em 2023 se tornou o Estado mais populoso do mundo, a fatia de 1% representaria a morte de mais de 14 milhões de pessoas, um valor superior à população da cidade de São Paulo (12,33 milhões).

No Rio de Janeiro, 1% significaria exterminar, em apenas três meses, a população inteira da Rocinha, a maior favela do país, onde moram cerca de 67 mil pessoas, de acordo com o censo de 2022. A proporção de mortos também seria suficiente para quase lotar o Estádio do Maracanã, o maior do Brasil, cuja capacidade total é de 78.838 pessoas.

As comparações são infinitas. Um por cento da população de São Paulo, por exemplo, daria para encher o Estádio do Morumbi duas vezes e o Estádio do Pacaembu três.


Se considerado o número absoluto de mortos em Gaza desde o início da guerra, seria o mesmo que imaginar o bairro do Catete, no Rio, ou a região da Sé, no centro de São Paulo, completamente desabitados. Os 22.600 palestinos que perderam a vida no conflito também correspondem a mais de 16 vezes o número de mortes entre judeus nos últimos três meses — foram 1.200 em 7 de outubro, a maioria civis, e 175 soldados desde então.

Conflitos entre Israel e árabes por causa da ocupação da Palestina causaram mortes em praticamente todos os anos deste milênio, mas a violência dos ataques terroristas da organização Hamas em outubro de 2023, seguida de uma ação militar israelense, equivale a uma década inteira de conflitos.

Já nos primeiros oito dias de guerra, o número de mortos em Israel e Gaza superou a soma dos últimos oito anos de conflitos na região, com mais de 2 mil vítimas fatais em ambos os lados, entre civis e grupos armados, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês).

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, o número de civis mortos em Gaza é “incomparável e sem precedentes” em relação a qualquer conflito desde 2017, quando ele assumiu o cargo nas Nações Unidas.

— O que está claro é que em poucas semanas tivemos milhares de crianças mortas — disse Guterres, no final de novembro, durante uma entrevista coletiva. — Estamos testemunhando uma matança de civis sem paralelo e sem precedentes em qualquer conflito desde que sou secretário-geral.rem à espera de acordo para libertação de entes mantidos prisioneiros em Gaza

Os números devem continuar aumentando. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visitou Gaza no dia do Natal e prometeu intensificar ainda mais a ofensiva contra o Hamas, dizendo que continuará lutando e que a guerra está longe do fim, segundo um comunicado de seu partido, o Likud.

"Será uma guerra longa que não está perto de terminar", afirmou, após uma visita ao território sitiado.

O chefe de assistência da ONU alertou na sexta-feira que a Faixa de Gaza se tornou "inabitável" e pediu o fim imediato do conflito.

"Três meses após os terríveis ataques de 7 de outubro, Gaza se tornou um lugar de morte e desespero", disse o subsecretário-geral para Assuntos Humanitários e coordenador de ajuda emergencial, Martin Griffiths, em um comunicado.

É possível ensinar felicidade?

Sim, é verdade que nas prestigiadas universidades de Harvard e Yale o conceito de felicidade é hoje estudado como um novo assunto, algo que começa a se espalhar por outras universidades ao redor do mundo. No Brasil, por exemplo, vários centros universitários já começam a se interessar pelo que se chama de “psicologia positiva” para desvendar o complexo conceito de felicidade.

A questão que se coloca é se não seria melhor, neste momento histórico, estudar mais do que a felicidade, a infelicidade, a inquietação universal, o medo do futuro, a síndrome de ansiedade e o aumento dos medicamentos anti-pânico .

É sintomático, de fato, que o número de estudantes destas novas faculdades sobre o tema da felicidade aumente a cada dia. E talvez o que esteja a acontecer é que o aumento da inquietação universal, da incerteza sobre como será o futuro dos nossos filhos, esteja a fazer florescer em todo o mundo inúmeras receitas e ensinamentos sobre como alcançar a felicidade.
O problema subjacente é que ao mesmo tempo que cresce o desejo pelo estudo da felicidade , é cada vez mais difícil especificar as coordenadas desta dimensão humana que atinge também os animais. E o curioso em nossos dias de busca frenética pela felicidade é que o novo tema da psicologia positiva está simultaneamente mergulhando nos clássicos da antiguidade em busca de fórmulas contra a infelicidade.

Desde o conceito de inteligência emocional, que revolucionou a forma como nos relacionamos com os outros para aliviar as nossas frustrações, surgiram fórmulas para contrariar a infelicidade, por vezes à custa do falso escapismo através da química.

Não é de estranhar que na busca frenética se multipliquem publicações sobre a tentativa de definir felicidade ou infelicidade. No Brasil, na editora Sextante, o psiquiatra Daniel Martins de Barros acaba de publicar Viver é melhor sem precisar ser o melhor. Isto mostra que no final a felicidade não consiste, como sempre se pensou, na corrida para ser o primeiro, o mais inteligente, o mais rico, o mais aplaudido.

É por isso que acredito que mais do que fórmulas novas e criativas sobre como alcançar a felicidade, devemos estudar o que torna o ser humano infeliz hoje. Seria a melhor forma, mesmo sem atalhos e através de labirintos complexos, de descobrir o que é a verdadeira felicidade, ou melhor, o que não é.

E neste sentido é verdade que talvez a melhor forma de chegar a uma possível definição de felicidade, o que é seguramente impossível, seja a procura do que hoje gera infelicidade e inquietação, palavras hoje muito atuais.

Foi, com efeito, a chamada sociedade de consumo, o santuário do pior capitalismo, que injetou nas veias da modernidade aquela inquietação que obscurece qualquer esforço para adquirir a felicidade. Se um dia se identifica felicidade com riqueza e comodidade, com acumulação de dinheiro e de objetos, com a ambição de possuir, hoje começamos a entender, e isso, sim, é digno de novos estudos, o velho adágio de “Menos é mais”.

E essa é a sabedoria dos antigos filósofos e escolas de espiritualidade. Na verdade, um local repleto de móveis, por mais luxuoso que seja, não exala mais beleza do que a simplicidade das celas dos antigos monges que, despojados de quase tudo, eram os que mais viviam no seu ambiente e certamente os menos infelizes.

Sempre me impressionou, quando estudei os clássicos gregos e latinos, como eles conseguiam, com o mínimo de palavras, abraçar toda uma filosofia de vida que, curiosamente, hoje volta a ser atual em meio à novidade da inteligência artificial, para citar a última loucura inventada pelo Homo Sapiens e da qual talvez um dia ele se arrependa.

Os filósofos latinos cunharam uma expressão com apenas três palavras que poderia ser o coração de todos os estudos universitários hoje: In medio virtus . A virtude, e por ela os antigos filósofos entendiam a felicidade, está no meio, não nos extremos. O centro é o equilíbrio, calma, alegria contida. Também o silêncio que é o prelúdio da criatividade.

Na minha vida me deparei com personagens que sofreram não porque lhes faltasse alguma coisa, mas o contrário: porque tinham tudo de sobra e queriam mais. Não é verdade que a maior inquietação, a maior amargura se encontre entre os pobres, porque eles, ao contrário daqueles que têm muito de tudo e se cansam de ter tanto, sabem tirar alegria até dos poços mais profundos do seu abandono.

Não estou falando de política, mas de psicologia, porque a política, que hoje, em vez de imitar os sábios latinos de que a virtude está no centro e não nos extremos, insiste em correr cada vez mais para o extremismo e acabar assim desequilibrando a convivência universal. Extremistas de qualquer cor triunfam contra toda a sabedoria ancestral. A razão, a calma, a justiça, a moderação e a luta contra a injustiça estão em crise. Até as eleições políticas são vencidas pela estridência, pela extravagância, ou mesmo pelo regresso às velhas tiranias, embora por vezes disfarçadas de modernidade e novidade.

Nada é mais antigo, mais ultrapassado, mais desanimador, mais enlouquecedor do que o barulho não só dos velhos canhões de guerra, mas dos disfarces sutis da felicidade moderna.

Menos coisas, mais liberdade

E se lhe apresentassem uma oportunidade maravilhosa e única na vida, mas você tivesse de atravessar o país em três dias para aproveitá-la? Você ficaria entusiasmado e começaria a fazer planos? Ou pensaria na sua casa, preocupado em como encaixotar tudo a tempo? Entraria em desespero com a ideia de transportar suas coisas por milhares de quilômetros (ou, pior, acharia isso completamente absurdo)? Será que acabaria concluindo que não vale o esforço, que você está “acomodado” aqui e que talvez, mais para a frente, surja outra oportunidade?

Sei que a pergunta a seguir parece loucura, mas será que as suas coisas teriam o poder de prendê-lo a um lugar? Para muitos de nós, é bem provável que a resposta seja “sim”.

As coisas podem funcionar como âncoras. Elas nos fixam e nos impedem de explorar novos interesses e desenvolver talentos. Elas podem atrapalhar nossos relacionamentos, o sucesso profissional e o tempo com a família. Podem sugar nossa energia e nosso espírito de aventura. Você já evitou uma visita porque sua casa estava bagunçada demais? Já perdeu um jogo de futebol do seu filho porque estava fazendo hora extra a fim de pagar as prestações do cartão de crédito? Já deixou passar uma viagem para um lugar exótico porque não tinha ninguém para “cuidar da casa”?

Olhe para as coisas à sua volta no cômodo em que está agora. Imagine que cada um desses itens — cada objeto pessoal — está ligado a você por uma corda. Alguns estão presos a seus braços, outros à sua cintura e outros a suas pernas. (Se quiser ser mais dramático, visualize correntes no lugar de cordas.) Agora tente se levantar e dar uma volta com todas essas coisas se arrastando e ressoando atrás de você. Não é fácil, hein? Acho que você não vai conseguir chegar muito longe nem fazer muita coisa. Vai logo desistir, voltar a se sentar e se dar conta de que é preciso muito menos esforço para ficar onde está.

Da mesma forma, bagunça demais também pode pesar no humor. É como se todos os objetos tivessem seu próprio campo gravitacional e estivessem nos puxando constantemente para baixo e para trás. Podemos nos sentir literalmente pesados e letárgicos num cômodo abarrotado, cansados e preguiçosos demais para nos levantar e fazer alguma coisa. Compare isso com um ambiente limpo, iluminado e com poucos móveis — num espaço assim, nos sentimos leves e cheios de possibilidades. Sem o peso de todos os pertences, sentimo-nos com energia e prontos para tudo.

Com isso em mente, podemos nos sentir tentados a fingir uma arrumação rápida e criar a ilusão de um espaço organizado. É só dar uma passada na loja de departamento, comprar algumas caixas bonitas e criar um cômodo minimalista instantâneo. Infelizmente, o simples ato de enfiar tudo em gavetas, cestas e latas não resolve o problema: a máxima “o que os olhos não veem o coração não sente” não funciona aqui. Mesmo coisas escondidas (seja no armário do corredor, lá na despensa ou num depósito do outro lado da cidade) continuam pesando em nosso coração. Para nos libertarmos mentalmente, precisamos nos livrar de verdade das coisas.

Algo mais a se considerar: além de nos comprimir fisicamente e nos sufocar psicologicamente, as coisas também nos escravizam em termos financeiros, através das dívidas que adquirimos para pagar por elas. Quanto mais devemos, mais insones são as noites e mais limitadas as nossas oportunidades. Não é nada agradável levantar toda manhã e ir se arrastando para um trabalho de que não gostamos a fim de pagar por coisas que não temos, não usamos nem queremos mais. É possível pensar em muitas outras coisas que preferiríamos estar fazendo!

Além disso, se esgotamos nosso salário (e mais um pouco) em bens de consumo, secamos os recursos para outras atividades mais gratificantes, como fazer aulas de artesanato ou investir num negócio novo.

Viajar é uma analogia perfeita da liberdade inerente a um estilo de vida minimalista. Pense em como seria chato carregar duas ou três malas pesadíssimas durante as férias. Faz séculos que você está ansioso para essa viagem e, quando desembarca do avião, mal pode esperar para explorar as paisagens. Não tão rápido — antes você precisa esperar (e esperar e esperar) que as malas apareçam na esteira de bagagem. Depois, precisa arrastá-las pelo aeroporto. É provável que você siga direto para o ponto de táxi, porque manobrá-las no metrô seria quase impossível. E nem pense em tentar pegar lugar no city tour que está começando — você tem de ir primeiro ao hotel e se livrar desse fardo gigantesco. Quando você finalmente chega lá, desmaia de cansaço.

O minimalismo, por outro lado, o deixa ágil. Imagine viajar apenas com uma mochila leve — a experiência é definitivamente revigorante. Você chega ao destino, desce do avião e passa pela maré de gente esperando pela bagagem. Depois entra no metrô, pega um ônibus ou anda em direção ao hotel. No caminho, experimenta todas as visões, sons e aromas de uma cidade estrangeira, com o tempo e a energia para saborear tudo. Você tem a liberdade e a flexibilidade de um pássaro para se movimentar por aí — pode levar a mochila a museus e a pontos turísticos e guardá-la num armário quando for preciso.
Diferente do primeiro cenário, você começa com tudo e passa a tarde vendo as paisagens em vez de arrastar suas coisas de um lado para o outro. Chega ao hotel energizado por sua experiência e pronto para outra.

Quando não estamos mais acorrentados às nossas coisas, podemos saborear a vida, nos relacionar com outras pessoas e ser participativos em nossa comunidade. Ficamos abertos a experiências e mais capazes de reconhecer e aproveitar as oportunidades. Quanto menos bagagem carregamos (tanto física como mentalmente), mais podemos viver!

Francine Jay, "Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida"

Ninguém aqui é mestiço

Segundo a mais confiável fonte de dados primários do país, a maioria da população brasileira é parda. O IBGE falou, está falado. Mas cabe uma ressalva sobre certa recepção pública desse achado. É que da palavra pardo se deduziu mestiço (do latim "mixticius", misturado). Em termos etnológicos, a mistura seria combinar duas etnias. Dentro dessa lógica, se um louro dolicocéfalo alemão se casa com uma morena francesa, o filho será mestiço. O mesmo acontece com uma japonesa e um chinês. E, claro, uma ruandesa hutu com um tutsi.


Mas pode não ser nada disso. Troque-se o critério de etnia por cor da pele, o filho da francesa será branco europeu, o da japonesa branco asiático, e o da hutu, de cor preta, também não será considerado mestiço. Para dar credibilidade à mestiçagem, é preciso primeiro acreditar em raça, depois na realidade humana da mistura. Por isso, na prática, aquele nipo-chinês seria considerado mestiço tanto por japoneses como por chineses: predominaria a ilusão da raça, não a evidência da cor.

No paradigma colonial de branquitude, todo desvio desse padrão reprodutivo significa mestiçagem. Nos EUA, pode-se ser branquíssimo, mas uma "gota de sangue negra" (leia-se parentesco afro) produz o "half bred", mestiço. Como sangue nenhum tem cor além da vermelha, fica evidente que essa classificação é fake, manipulação de raça como categoria ideológica de dominação social.

A intelectualidade latino-americana embarcou na canoa da originalidade étnica, com prolíficas reflexões para-literárias. Entre nós, o luso-tropicalismo de Gilberto Freyre outorga à mestiçagem um singular estatuto civilizatório. Razão: "uma poligamia suavemente disfarçada, que teria obtido a aprovação de especialistas em eugenia, pois os pais, em muitos casos, eram homens de primeira qualidade". Logo, "uma escravidão desse tipo foi útil ao desenvolvimento social no Brasil" (em "Escravidão, monarquia e o Brasil moderno").

Respaldado pela biologia de machos brancos, o mestiço justificaria a própria escravidão. Aos pretos, caberia extinção progressiva. Mas esse desejo de morte, genocida, foi vencido pela vontade vital: dez por cento declaram-se negros, a maioria se diz parda, gradação cromática que não resulta de "raças" mescladas, e sim da força latente de uma diversidade a fogo brando, imperturbada pelo Estado. Na Colônia, indígena era "negro da terra". Não por cor, por categorização. Hoje, negro é pertencimento político-existencial, embasado num fenótipo que varia do mais ao menos escuro, dito pardo. É categoria de biopoder, designativa de um lugar móvel na luta contra a dominação da farsa histórica da raça. O que de fato somos todos: fenotipicamente diversos. Mestiço é uma carapuça racial, matizada por meio-sorriso literário.