terça-feira, 3 de outubro de 2023

Desigualdade deve indignar

O aumento da desigualdade de renda em países ocidentais está demonstrado em estudos de prestigiosos economistas, como o francês Thomas Piketty. No Brasil, esse aumento se potencializa desde os anos 1980, evidenciado por pesquisas do IBGE.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han tem afirmado que a desigualdade de renda e a deterioração dos empregos e profissões têm sido responsáveis pelo que considera a doença do século, a depressão.

Em recente discurso na ONU, o presidente Lula colocou o clima e a desigualdade como questões centrais destes tempos, chamando a atenção dos países ricos para suas responsabilidades — eles que são os maiores causadores dos danos ambientais.


Em reunião bilateral, os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos concordaram em fazer esforços para enfrentar os desafios das desigualdades e da precariedade de empregos, demonstrando a centralidade desses temas.

Porém: tais questões fundamentais estão espacializadas? Em que território?

Num mundo majoritariamente urbano, como dissociar as mudanças climáticas do tema das cidades? Onde estão as cidades na pauta política mundial?

No Brasil, precisamos ampliar a compreensão também para o vínculo entre a desigualdade de renda e o espaço da cidade, sobretudo das grandes cidades. Com a quase totalidade da população urbana, o Brasil não precisa — e não pode — esperar uma mudança nas políticas do mundo para enfrentar o drama urbano nacional.

Aqui, milhões de brasileiros a cada dia enfrentam um transporte público ineficiente que implica tempos excessivos para o deslocamento casa-trabalho e que exalta a desigualdade de renda, dificulta o emprego e abala a saúde.

Desde meados do século passado, o país só financiou 20% das moradias urbanas, o que empurrou as famílias pobres para a irregularidade urbanística, fundiária e precariedade construtiva. Persistindo nesse modelo, evidencia-se uma desigualdade que “precisa inspirar indignação” (Lula, ONU). Mas não basta, pois o Brasil tem capacidade econômica suficiente para tratar de modo mais equânime essa questão.

O tema habitacional tem implicações sanitárias imensas. Ao faltar saneamento para metade da população, a saúde pública fica impactada; crescentes recursos precisam ser aplicados na medicina curativa, ao mesmo tempo que a poluição das águas tem larga repercussão no planeta.

A violência urbana é vivida pela população no dia a dia, que, sentindo crescente insegurança, não precisa esperar pela confirmação dos indicadores oficiais, como condiciona importante autoridade. É no modo como o Estado brasileiro trata (ou destrata) favelas e bairros de periferia que cresce o ovo de serpente da violência e da bandidagem armada. É na desigualdade intraurbana, invisível aos olhares do poder e de parte da sociedade, que se instala esse ofidiário.

Mobilidade, moradia, saneamento, segurança são temas que, maltratados entre nós, potencializam a gigantesca e crescente desigualdade de renda. São temas fora da agenda política.

— Para vencer a desigualdade, falta vontade política daqueles que lideram o mundo.

Quem sabe essa expressão do presidente na ONU possa nos ser inspiradora no Brasil?

domingo, 1 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


O passado presente

Nos idos de 1983, o senador Roberto Campos, avô do nosso Campos Neto, prolatou suas sabedorias na Ordem dos Economistas do Estado de São Paulo. Entre outras pérolas do conhecimento, afirmou que o Brasil “é uma sociedade criptossocialista, apesar do sistema privado teoricamente praticado no País”. Então parlamentar mato-grossense, o vovô Campos fundava sua escatológica denúncia na constatação de que o governo, no Brasil, era responsável por em torno de 45% do dispêndio total e 60% dos gastos em investimento.

Se aceitarmos os critérios do ilustre senador, vamos chegar à conclusão de que não só o Brasil, como a totalidade dos países do Ocidente, passou-se para o outro lado, sem se dar conta do que estava ocorrendo. Éramos todos socialistas e não sabíamos.


Senão vejamos. Apesar das políticas soi-disant liberais e antiestatizantes praticadas pela maioria dos governos ocidentais, a participação dos gastos públicos no dispêndio agregado cresceu consideravelmente na década de 70, superando as marcas, já elevadas, registradas nos anos 50 e 60. Na Alemanha Ocidental da Economia Social de Mercado, a participação dos gastos públicos nos gastos totais foi, em média, de 44% no período que vai de 1974 a 1982. Na Grã-Bretanha, esta cifra atingiu 44,5%, na França 41,6%, na Itália 43,1%, nos Estados Unidos 35,1% e no Canadá 39,40%. Os dados mencionados acima são de fácil acesso. Basta compulsar com competência os relatórios da OCDE. O senador Campos não poderia, a qualquer título, justificar a omissão dessas informações numa palestra pública, sob pena de estar destilando pura “ideologia” e armando jogo de palavras.

Estamos curiosos para saber qual seria a reação dos economistas da Faria Lima diante dessa burla escandalosa e grosseira dos cânones de procedimento científico. Os sábios da Crematística vêm reclamando seguidamente a adoção de posturas mais “científicas” e menos “ideológicas” no debate sobre a política econômica. Nada haveria de reprovável nisso, não fosse a flagrante contradição entre as palavras e as atitudes, entre o gesto e a intenção. Mas deixemos nossos pequenos sabichões entregues às suas grandes contradições. O grande Campos era coerente em suas omissões, porque persistente em seus propósitos. Vendia suas idéias, a bon marché, neste país onde são precárias as defesas do consumidor. Declarar guerra à intervenção do Estado na economia é uma forma cômoda de evitar uma análise mais circunstanciada das seguidas crises estruturais que atravessam as economias contemporâneas. Só o caos ideológico em que mergulhou o pensamento conservador pode explicar a identificação entre intervenção estatal e estatização. Ou entre estatização e planejamento.

Os anos da ditadura brasileira são o exemplo acabado de como a estatização nasce, exatamente, da falta de planejamento. A intervenção do Estado foi desordenada, casuística e, por isso mesmo, incontrolável. Esse “padrão” absurdo de interferência estatal na economia banqueteou-se no rega-bofes autoritário do regime, sem que o liberalismo do senador Campos se tenha manifestado sequer através da eructação. A ignorância cevada no obscurantismo e na literatura de segunda classe incentivou a ideia de que há uma oposição irredutível entre planejamento e democracia. Qualquer cidadão medianamente informado – e o senador Roberto Campos está acima desta categoria – sabe que um dos debates mais importantes deste século tratou do problema de como submeter a inevitável intervenção do Estado ao controle democrático. Estão aí as contribuições de Karl Mannheim, Schumpeter, Keynes e, mais recentemente, de Norberto Bobbio, Claus Offe, Herbert Marcuse e outros menos votados. Só figuras antediluvianas como Hayek e Milton Friedman acreditam nas funções alocativas do “livre-mercado”.

Essa metafísica do mercado se torna ainda mais ridícula quando confrontada com uma situação de crise estrutural, em que os preços sinalizam na direção contrária àquela desejável para a reconstrução da economia. Basta olhar o que está acontecendo, hoje, no Brasil e no mundo.

Eugênio Gudin passou boa parte de sua vida pregando contra a irracionalidade dos nacionalistas, ou comuno-nacionalistas, que pretendiam impor restrições ao capital estrangeiro ou que advogavam medidas intervencionistas para promover o desenvolvimento do País. O liberalismo à brasileira sempre combinou a rejeição (de todos os liberais) às intromissões da política na economia com uma profunda e dissimulada desconfiança na capacidade local de alcançar por conta própria as conquistas da sociedade industrial e seus padrões modernos de convivência.

Também neste capítulo, a atualidade de Gudin é notável. É a recorrência do tema da abertura comercial, do estímulo à entrada do capital estrangeiro, das ineficiências da indústria nacional que deve ser eliminada através da maior exposição à concorrência externa.

Agora, outra vez, a vulgata do pensamento dominante proclama a queda das fronteiras, a internacionalização dos mercados, os formidáveis movimentos de capitais. Isto, como o demonstra a obra de Gudin, não tem nada de novo. Vem de longa data a atitude basbaque da fração majoritária das camadas dominantes, da classe média para cima, com o que vem de fora para dentro. Os endinheirados, os letrados e os bem-postos na vida cultivam o cosmopolitismo avant la lettre, o que, na realidade, expressa uma secular e singular repugnância pelas condições reais do ­País, especialmente pelas condições miseráveis das classes subalternas.

Apesar disso, nos 50 anos que terminaram no início da década de 1980, a economia brasileira cresceu de forma acelerada e sofreu notáveis transformações, transitando do modelo primário exportador para a etapa industrial. O ethos do desenvolvimento nasceu da percepção – das camadas empresariais nascentes, do estamento burocrático-militar, de algumas lideranças intelectuais e do proletariado em formação – de que o objetivo de aproximar o País das formas de produção e de convivência não poderia ser alcançado através da simples operação das forças naturais do mercado.

É inteiramente falso, no entanto, atribuir um papel hegemônico a estas forças ditas progressistas na definição dos rumos do desenvolvimento. O projeto de industrialização foi sendo construído através de alianças políticas, regionais e de classe, que não só atraíram os interesses mais retrógrados e reacionários para o bloco desenvolvimentista, mas também selaram compromissos com as forças reais do internacionalismo capitalista.

Algumas características mais marcantes do desenvolvimento brasileiro decorreram da repactuação continuada desse compromisso: a espantosa persistência da estrutura agrária, a reprodução e ampliação das desigualdades sociais, transportadas do campo para a cidade, o patrimonialismo da empresa industrial, o rentismo do sistema bancário, a eterna revolta contra o pagamento de impostos por parte dos endinheirados. Daí a dependência do financiamento externo, a desordem financeira do Estado, o protecionismo excessivo, a passividade tecnológica, o atraso organizacional, a posição subordinada da grande empresa privada nacional e o crescimento desmesurado do estatismo.

Durante 50 anos de industrialização acelerada, particularmente no pós-guerra até a crise da dívida externa em 1982, esse compromisso foi sendo continuamente renovado, apesar dos sucessivos conflitos entre os grupos dominantes, sempre acompanhados de agudas crises políticas. O fiador desse pacto instável foi a manutenção, ao longo de muitas décadas, de elevadas taxas de crescimento da economia.

A desorganização dos anos 80 não deve ser interpretada como uma crise que ocorre apenas no interior desse arranjo oligárquico. Desta vez, apesar das aparências, o estrago foi maior. Por um lado, caducou o consenso das camadas dominantes em torno do objetivo comum do desenvolvimento e, de outro, aumentaram as pressões das classes subalternas pelo reconhecimento integral de seus direitos políticos, sociais e econômicos.

Não é por outra razão que o ideário do liberalismo se transformou, outra vez, na força ideológica dominante. Diante da dificuldade de se reconstituir em novas bases um objetivo compartilhado, do visível enfraquecimento financeiro e da capacidade coordenadora do Estado, o liberalismo ressurge. Reaparece como a expressão imaginária e mágica do reconhecimento do interesse particular de cada grupo no interior das camadas dominantes e, ao mesmo tempo, como força política destinada a bloquear o avanço das classes subordinadas na conquista dos seus direitos.

O que vemos é a reiteração da crença no naturalismo do mercado, na rejeição da política, no cosmopolitismo. As possibilidades de crescimento estão todas depositadas no recuo do Estado, no ímpeto empreendedor do setor privado e, antes de mais nada, na força criadora do investimento estrangeiro. Roberto Campos parece ter razão quando diz que, finalmente, Gudin venceu. Ninguém sabe quanto tempo vai durar essa vitória.

Até hoje, o apocalipse foi desmentido 100% das vezes

Queria começar por descansar as jovens ambientalistas que acham que vão ver o mundo entrar em colapso durante as suas vidas: não vão. Podem voltar a respirar. Sim, o planeta está a aquecer. Sim, a acção humana está relacionada com isso. E, sim, temos de poluir menos, consumir menos, reciclar mais. Mas nada – repito: nada – indica que as meninas que lançam tinta verde a ministros ou sopa de tomate a pinturas estejam impedidas de um dia vir a brincar com os seus netos. E agora que cheguei aos 50 anos, permitam-me um conselho de velho: todos os discursos apocalípticos tendem invariavelmente para o ridículo. A razão é muito simples: foram desmentidos 100% das vezes.


Dir-me-ão que as alterações climáticas são um desafio como a humanidade nunca enfrentou antes. Será? Se andassem por cá no tempo da “peste negra”, tenho dúvidas que pensassem assim: estima-se que ela terá dizimado pelo menos um terço da população europeia no século XIV. Todos precisamos de um sentido para as nossas vidas, e por isso é natural que cada um de nós acredite que algo de absolutamente decisivo está em jogo na sua geração. A ideia de que a civilização como a conhecemos vai acabar, e que a culpa dessa tragédia incide sobre nós, parece, à primeira vista, desprovida de consolo. Mas não é. Ela tem um poder escondido extraordinário – transforma-nos em very important people à escala planetária.

Somos a plateia VIP do Armagedão. Reparem naquilo que os ambientalistas mais fervorosos nos dizem: temos, como os deuses de Homero, o destino do planeta Terra nas nossas mãos. É um poder destruidor? Com certeza. Mas é um superpoder. Significa que nós contamos. Fazemos a diferença. Não estamos condenados a ser aquilo que foram os nossos pais, avós e trisavós – simples pó da História.

A tinta verde derramada sobre o Cordeiro é um banho lustral, que ajuda a limpar os pecados do mundo. Estes discursos apocalípticos e milenaristas são uma constante ao longo dos tempos, e com isto não estou a negar o problema das alterações climáticas – estou a sublinhar, isso sim, a nossa absoluta incapacidade de prever o futuro, o que nos convida à modéstia no que diz respeito aos excessos de fatalismo.

Em 1798, Thomas Malthus lançou o famoso Ensaio sobre o Princípio da População, que demonstrava com inabalável certeza que a melhoria das condições de vida iria conduzir a um crescimento insustentável da população, que, por sua vez, daria origem a fomes, guerras e à miséria generalizada. Os argumentos eram tão convincentes que as teses malthusianas atravessaram todo o século XIX. Em 1800, a população mundial rondava os mil milhões de pessoas. Hoje vai a caminho dos oito mil milhões. E, no entanto, a percentagem de população com fome nunca foi tão baixa. Malthus enganou-se não porque não soubesse fazer contas (é o pai da demografia e influenciou economistas respeitáveis), mas porque foi incapaz de prever tudo aquilo que o futuro traria: novas terras, novas tecnologias, fertilizantes, o brain power da espécie humana e a sua infinita capacidade de inovação, que fez disparar a produção alimentar.

A História é um cemitério de previsões tontas. Um exemplo entre milhares: há 20 anos, um relatório secreto do Pentágono afirmava que por volta de 2020 – cito um artigo do The Guardian de 2004 – “grandes cidades europeias estariam abaixo do nível do mar e a Grã-Bretanha mergulhada num clima siberiano”. Preocupação com o clima? Com certeza. Histeria e tinta verde? É de evitar.

O chamado Brasil brasileiro

Comecemos por opiniões antigas, como esta de uma carta de Capistrano de Abreu a João d’Azevedo: O jaburu… a ave que para mim simboliza a nossa terra. Tem estatura avantajada, pernas grossas, asas for nidas, e passa os dias com uma perna cruzada na outra, triste, triste…

Paulo Prado abre seu livro Retrato do Brasil com esta afirmação: Numa terra radiosa vive um povo triste.

Tão triste que em 1925, em Petrópolis, Manuel Bandeira, que tinha “todos os motivos menos um de ser triste”, resolveu “tomar alegria”.

Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda. Ninguém se lembra de política… Nem dos oito mil quilômetros de costa… O algodão do Seridó é o melhor do mundo?…

Que me importa?


Não há malária nem moléstia-de-chagas nem ancilóstomos.

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. Eu tomo alegria!

E Sérgio Buarque de Holanda, na primeira página de suas Raízes do Brasil:

…Somos ainda hoje desterrados em nossa terra.

O consolo é lembrar aquela coisa de Euclides da Cunha em Os Sertões: O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Enchemos o peito de orgulho. Mas Euclides prossegue dizendo: Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

Viram? Para falar bem do homem do sertão ele desmerece o homem da praia.

Mas o próprio sertanejo, embora possa se transformar em “um titã acobreado e potente”, não é figura muito boa: … É desgracioso, desengonçado, torto… reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos…

E mais adiante Euclides proclama: Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma…

Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.

Este dilema me faz lembrar um outro que me assustava quando eu era menino. Não sei se era frase de homem célebre ou propaganda de algum formicida: Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.

Isto me dava aflição; eu me perguntava por que é que nós todos não íamos urgentemente matar saúvas.

Não matamos. Não morremos. Convivemos. Oswald de Andrade exclama, no seu “Manifesto Antropofágico”, de 1928: Tupi or not tupi that is the question.

E é outro paulista Andrade, Mário, que faz uma comovente confissão brasileira.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu, Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu…

Essa fundamental solidariedade me impressionou quando uma lavadeira que eu tinha aqui no Rio, Sebastiana, me disse que não tinha podido dormir aquela noite: uma chuva com vento invadira o seu barraco no morro do Cantagalo. Seu menino amanhecera doente, e ela também sentia uma dor no peito.

“Mas enfim”, disse, “isso é bom para a lavoura.”

A velha Sebastiana viera de Carangola e não tinha mais lavoura nenhuma; e até a casinha que ela fizera lá em Minas, “perto do comércio”, fora registrada em nome do seu marido, que não era seu marido porque era casado com outra. E ela descia os caminhos perigosos, escorregadios, do morro, com a trouxa de roupa na cabeça, e me dizia: “É bom para a lavoura.”

É uma maneira de dizer na roça. Pode ser maneira de pensar. O Brasil é, principalmente, uma certa maneira de sentir.
Rubem Braga

Catástrofes recentes são mesmo culpa do aquecimento global?

Desde incêndios florestais de costa a costa no Canadá até grandes ciclones e inundações no Sul do Brasil e a catastrófica cheia na Líbia, passando por ondas de calor no Hemisfério Norte, fortes eventos climáticos dominaram as manchetes nos últimos meses.

À medida que o planeta aquece por causa das ainda crescentes emissões de gases de efeito de estufa, as mudanças climáticas têm, em grande parte, levado a culpa por um aparente aumento de desastres climáticos.

"Os dias de cão do verão não estão apenas latindo: eles já estão mordendo. O colapso climático já começou", disse António Guterres, secretário-geral da ONU, reagindo à notícia de que entre junho e agosto de 2023 estiveram os meses mais quentes já registrados no Hemisfério Norte.

Mas até que ponto uma onda de calor ou uma tempestade violenta pode ser atribuída ao aquecimento global, e quanto isso se deve apenas à variabilidade natural do clima?

Agardi Sugdub, ilha panamenha superpovoada,
 começou remoção de moradores

A atribuição climática, uma ciência relativamente nova, procura responder essa questão. Seu objetivo é avaliar até que ponto as alterações climáticas causadas pelo ser humano, impulsionadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis, aumentam a probabilidade e a intensidade de um evento climático extremo.

"Nenhum furacão é 100% causado pelas mudanças climáticas, mas é impactado por elas de muitas maneiras diferentes”, explica Delta Merner, cientista-chefe do centro científico para litígios climáticos da organização Union of Concerned Scientists (União dos Cientistas Preocupados). "A ciência da atribuição pode nos ajudar a realmente descobrir o papel das alterações climáticas nesses diferentes eventos.”

Quando se espalharam da costa leste para a oeste, em meados de 2023, os incêndios florestais do Canadá queimaram quase o dobro da área do recorde anterior.

Em resposta, os investigadores da iniciativa World Weather Attribution (WWA), sediada no Reino Unido, realizaram um estudo tipicamente rápido para determinar até que ponto as alterações climáticas de origem humana aumentaram a probabilidade de um incêndio sem precedentes.

Focado na província do Quebec, o levantamento concluiu que as mudanças ajudaram a criar um clima seco e entre 20% a 50% mais "propenso a incêndios" do que a média, mais do que dobrando a probabilidade de incêndios extremos no leste do Canadá.

O clima mais quente e seco fez fez a neve derreter-se mais rápido, por exemplo, antecipando o início da temporada de incêndios e aumentando sua duração.

A WWA afirma que os avanços na modelagem climática e o melhor acesso aos dados meteorológicos aumentaram a confiabilidade e a precisão dos estudos para avaliar a probabilidade de eventos climáticos extremos com ou sem mudanças climáticas.

A crise climática nem sempre pode ser diretamente responsabilizada por fenômenos meteorológicos extremos. Em maio de 2023, na região de Emília-Romagna, no norte de Itália, três tempestades provocaram deslizamentos de terra generalizados e inundações consideradas as piores em um século.

Mas embora a subida das águas se alinhe com a maior incidência, em nível mundial, de condições meteorológicas extremas provocadas pelo clima, os pesquisadores concluíram ter-se tratado de um evento isolado.

Depois de analisar os registros de precipitação na Emília-Romagna, datando desde 1960, cientistas, incluindo Friederike Otto, climatologista do Imperial College London e cofundadora da WWA, concluíram que as chuvas da primavera na região não estão se tornando nem mais nem menos intensas com as mudanças climáticas.

Ou seja: esse período específico de chuva de 21 dias – único num período de 200 anos e com apenas 0,5% de probabilidade de acontecer anualmente – poderia ter ocorrido com ou sem mudanças climáticas.

As inundações foram causadas por condições climáticas únicas e incomuns, "impulsionadas por uma sequência sem precedentes de três sistemas de baixa pressão no Mediterrâneo central”, explicou o autor do estudo Davide Faranda, pesquisador do Instituto Pierre-Simon Laplace.

Depois da tempestade Daniel ter desencadeado inundações que causaram o rompimento de duas barragens e mataram milhares na Líbia no início de setembro, um estudo da WWA descobriu que o aquecimento planetário de causas humanas aumentou em até 50 vezes a probabilidade de chuvas torrenciais. As enormes inundações no centro da Grécia provocadas pela mesma tempestade eram até 10 vezes mais prováveis.

Após um verão de ondas de calor e incêndios florestais recordes com "uma impressão digital muito clara das mudanças climáticas, quantificar a contribuição do aquecimento global para estas inundações revelou-se mais desafiador”, ressalta Otto.

Para descobrir se o aumento da temperatura provocara chuvas mais intensas na região, os cientistas compararam os dados meteorológicos do clima anterior à década de 1880 com o clima atual,1,2ºC mais quente.

O relatório registra que a análise inclui "grandes incertezas matemáticas”, uma vez que os padrões climáticos cobriam áreas relativamente pequenas e "a maioria dos modelos climáticos não representa bem as chuvas nessas pequenas escalas”.

No entanto, "os estudos projetam chuvas mais intensas na região à medida que as temperaturas sobem”, e os dados da estação meteorológica local na Grécia, por exemplo, mostram uma tendência para chuvas mais intensas. Uma atmosfera mais quente retém mais umidade, então, com apenas 1,2ºC de aquecimento "esperaríamos um aumento de 10%” da intensidade das chuvas, exemplifica Otto.
Ondas de calor recorde em 2023

A conexão entre temperaturas extremas e aquecimento global costuma ser muito mais clara do que no caso das chuvas. A WWA publicou um estudo mostrando que o calor extremo em julho de 2023 em regiões dos EUA, do México e no sul da Europa "teria sido virtualmente impossível de ocorrer se os humanos não tivessem aquecido o planeta com a queima de combustíveis fósseis".

No mês em questão, mais de 6,5 bilhões de indivíduos – ou cerca de 80% da população mundial – foram expostos a um ou mais dias de calor pelo menos três vezes mais prováveis de ocorrer por causa das mudanças climáticas, de acordo com a análise de atribuição da Climate Central, um think tank climático com sede nos EUA.

A análise avaliou 4.700 cidades em 200 países, tendo descoberto que os residentes de 15 grandes cidades com populações acima de 6 milhões foram expostos a temperaturas médias mensais elevadas tornadas mais prováveis pelo aquecimento global. Entre elas, estão Cidade do México, Cairo, Calcutá, Lagos, Hong Kong, Miami e Cartum.

"As mudanças climáticas causadas pelos humanos influenciaram as temperaturas de julho para a grande maioria da humanidade”, disse Andrew Pershing, vice-presidente de ciência da Climate Central. "Em todo o planeta, o ser humano médio esteve exposto a 11 dias em que a poluição por carbono tornou a alta da temperatura local pelo menos três vezes mais provável. Praticamente nenhum lugar da Terra escapou à influência das mudanças climáticas."

sábado, 30 de setembro de 2023

A anomalia da religião na política

Neste momento, onde estão as vozes que falam pelo povo brasileiro e nos dizem o que ele se tornou, com os transtornos políticos dos últimos tempos e a ação de grupos reacionários que se empenham em criar um estado de baderna e de desorganização social e política para assegurar seu poder de toscos e incivilizados?

Entre 2003 e 2022, o lugar de referência da fala política brasileira deslocou-se de cenário. Passou lenta e ocultamente das classes sociais e subclasses para as corporações de interesses antissociais. Basicamente porque a mudança do lugar da fala foi também mudança do ator que fala.

Aqui, desde os anos da ditadura militar, a rua tornara-se o lugar de expressão dos que tinham o que falar mas não tinham lugares de dizer. Isso tem expressado a desigualdade da representação política e o decorrente fato de que nem todos estavam ou estão representados nas instituições destinadas a isso.

Nos últimos anos, há, no Congresso, uma bancada da Bíblia, empenhada no enquadramento dos outros em valores de sua crença em vez de enquadrar-se prioritariamente nos preceitos e valores da Constituição que legitima sua diferença.

Já me referi aqui que a República separou o Estado da religião. Com esse ato, legitimou o direito dos evangélicos à diferença, para serem e não para negarem a pluralidade da diferença e o direito dos outros a ela.

A República universalizou a individualidade do direito de crença e de opção religiosa. Democratizou o exercício da fé e até mesmo atenuou e relativizou, em vários casos, as doutrinas em relação à sua interpretação. Abriu caminho para a criatividade religiosa, embora tenha tornado cada vez mais evidente o oportunismo confessional como instrumento de manipulação política mais do que de expressão da fé, que anula a política e a desconstrói. Sobretudo porque veta a democracia ao vetar o direito à diferença religiosa.

A lenta e prudente disseminação do protestantismo no Brasil alterou as referências sociais de conduta de quem se converteu, mas também de quem não se converteu, na medida em que a sociedade é relacional e nesse sentido ressocializadora a partir das mudanças que admite para alguns. Transforma e inova ao modificar os termos do relacionamento social.

Apesar do autoritarismo protestante, tão acentuado e intolerante nos séculos iniciais, que, no essencial se conserva, o protestantismo disseminou a cultura do livre exame da Bíblia e, portanto, uma das bases do pensamento crítico e politicamente transformador.

É significativo que, quando da fundação da Universidade de São Paulo, em 1934, seu inventor e criador, Júlio de Mesquita Filho, diretor do jornal “O Estado de S. Paulo”, estabeleceu que ela deveria ser pública, laica e gratuita, isto é, democrática. Orientou o professor Teodoro Ramos, da Escola Politécnica, matemático e positivista, enviado à Europa para recrutar professores: nada de clericais.

Pude compreender melhor o sentido dessa opção na cultura uspiana quando, professor catedrático na Universidade de Cambridge, fui convidado pelo master de St. John’s College para as celebrações da festa de São João Batista, na capela.

O sermão teve como título “A contribuição do calvinismo no desenvolvimento da ciência em Cambridge”. É significativo que um dos cientistas que revolucionaram a ciência no século XIX foi um cientista com formação em teologia, Charles Darwin, o pai da teoria da evolução, com o livro “A origem das espécies”. Exatamente o contrário de tudo que se diz sobre ele e sua teoria, especialmente em igrejas evangélicas.

O fato de haver em nossas casas legislativas a esquisita presença de uma bancada da Bíblia não quer dizer que nossos políticos evangélicos perfilhem os valores e a cultura da verdadeira tradição protestante nem quer dizer que a conheçam.

Há exceções, como a da senadora Eliziane Gama, maranhense, evangélica e filha de pastor pentecostal, que tem uma límpida biografia de compromisso ético e político com os valores da democracia em nome de sua fé, o que se reflete nas orientações que adota em face das questões candentes dos embates parlamentares.

E há, também, a do Pastor Henrique Vieira, fluminense, da Igreja Batista do Caminho, com três bacharelados, em ciências sociais, teologia e história. Excepcional conhecedor da Bíblia, faz parte do grupo de ministros evangélicos que entrou na política para o confronto desconstrutivo com as insuficiências teológicas e bíblicas de ativistas do fundamentalismo. Sua veemente e erudita contestação da interpretação anticristã da Bíblia na recente questão dos costumes foi um momento memorável na presença de um evangélico como ele na Câmara: a de um civilizador da política.

Você está mais próximo de cair num esquema de pirâmide do que imagina

O roteiro é sempre o mesmo. Você recebe o convite de um amigo para um jantar. No encontro, mal tem comida, mas uma proposta de investimento com altíssimos rendimentos. Você só precisa dar uma taxa de entrada. Parece irresistível, mas fuja. É um esquema de pirâmide.

Esquema de pirâmide é um modelo de negócios que garante o lucro dos “investidores” com o recrutamento de novos “investidores”. Chega uma hora em que não há mais recrutados e a galera da base fica chupando o dedo.

Se você acha que nunca caiu em um, engano o seu. Hoje em dia, praticamente tudo é um gigantesco esquema de pirâmide.

Se um amigo te pergunta se você tem fritadeira elétrica, cuidado, é o esquema de pirâmide da air fryer. A ideia era só ter um frango saudável empanado. De repente você está comprando fritadeiras para a mãe, o irmão, para o escritório e convencendo outras 50 pessoas a comprarem uma. Todo o lucro vai para a companhia de energia elétrica.


Seu médico te indicou exercícios? Atenção. Você vai cair no esquema de pirâmide da academia. Em pouco tempo, estará comprando marmita fitness, whey protein, creatina, lookinho de academia e espalhando a palavra da vida, fitness.

As redes sociais são um enorme esquema de pirâmide. Os usuários postam fotos felizes para outras pessoas que também postam fotos felizes. No fundo, todos estão tristes e o Mark Zuckerberg mais rico.

Adotar um gato: você adota um, pega outro para o primeiro não ficar sozinho e adota outro para não ter briga. Aí adota outro para não ser número ímpar e adota outro porque não acredita em superstição. Em pouco tempo, estão te chamando de “velho dos gatos” e você adota mais três só de raiva.

Podcast também é esquema de pirâmide. O podcaster grava um para outras pessoas, que também querem gravar um podcast para outras pessoas. No fim, não há ouvidos suficientes para ouvir tantos podcasts lançados.

É assim como a própria vida, na qual você trabalha com a promessa de ter dinheiro, mas seu dinheiro vai para quem tem mais dinheiro e, por isso, você tem que trabalhar mais e continua pobre e infeliz.

O pouco dinheiro que resta é gasto com psicólogo, que também tem que fazer psicólogo para lidar com seus pacientes, em outro enorme esquema de pirâmide.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Pensamento do Dia

 


E como dói!

Me permita a gramática o pronome enclítico, me permita Vieira o verso fraco e direto, me permita Camões usar sua língua, me permita Homero a rima tão curta, me permita Bandeira os noves fora da vida, me permita Cardoso o encontro dos ventos. Me permita Cecília o motivo da rosa, me permita Vandré o esquecer das flores, me permita Cascudo o ocaso perdido. Me permita Pessoa a alma pequena, me permita Zé Régio o não vou por aí, me permita Quintana a verdade esquecida. E me permita o pensador poeta, arrependido nos versos da dor, ao ver o destino que deram à Pátria, substituir sua Espanha. Não me doem as pernas, não me doem os braços, não me dói o coração. É o Brasil que me dói.

François Silvestre

O convite é para estar no futuro. Agora?

A IA pode ajudar à salvação? A criação artística é também uma construção dessa salvação? É também uma consciência em si? A Arte torna-se uma intrusa ao procurar soluções, por essa consciência feita de invenções. O desafio é aliar natureza, ciência e imaginação. Em perpétuos movimentos e efémeros presentes, para criar futuros de vida

A sala clara e ampla, entre as janelas translúcidas e as brisas do mar, define o ambiente. As Conferências do Estoril, A Future of Hope, aconteceram para a partilha e reflexão sobre ciência, tecnologia e esperança. O ambiente é sereno, sintonizado com a concentração necessária para ver e ouvir algumas das pessoas mais interessantes do mundo. A audiência espera pela conversa sobre Inteligência Artificial entre quatro cientistas: Aaron Ciechanover, bioquímico, Prémio Nobel da Química em 2004; Anindya Ghose, professor de Análise Económica na New York University’s Stern School of Business; Ricardo Gil da Costa, neurocientista e fundador da Neroverse; Chen Zhiyu, presidente da Metro da China, com a moderação de Leid Zejnilovic da Nova SBE.


O futuro está a acontecer, diz-se. E estamos todos convidados. Para o Nobel de Química, a questão é: “Porque precisamos uns dos outros? Estarmos juntos, é fundamental para a natureza humana? Responde, o cientista israelita de 75 anos: a sociabilização é fundamental para a Paz no mundo. Sem empatia, não há Humanidade.

Para Ricardo Gil da Costa, neurocientista formado nos Estado Unidos da América, a IA é uma ferramenta, com vários métodos diferentes. A IA pode ser eficaz e uma tecnologia muito importante ao serviço da humanidade, mas só se o seu desenvolvimento for feito de uma forma pensada, planeada e devidamente estruturada. Se a integração for feita sem precauções, as consequências da utilização desta ferramenta tão poderosa, podem ser devastadoras. A IA pode contribuir para a eficácia e para a justiça da humanidade e ser um recurso, tal como todos os outros, a ser utilizada de forma democrática. Por exemplo, ser utilizada em telemedicina em regiões pobres do mundo, é uma forma de ajudar a essa democratização. Se a IA pode salvar o mundo, essa é outra questão.

Para Ricardo Gil da Costa, nós podemos destruir o mundo, com ou sem IA. Não é a IA que determina a nossa ação. Somos nós. A IA não é mais eficaz que o cérebro humano. O facto de não ter emoções é uma das falhas. Mas não se deve comparar um sistema biológico com um sistema tenológico. Não deve ser acontecer. Não há comparação, acrescenta Gil da Costa. Não se deve perder a liberdade de pensar. A IA nunca deve pensar por nós. É uma questão central ética.

O segundo romance de Margaret Atwood, Ressurgir (Relógio d’Água, 2014) é, supostamente, uma viagem à procura do pai. Torna-se num encontro bruto com a sobrevivência da Natureza. Escreve a autora canadiana:

“O embaraço que algumas pessoas sentem por serem alemãs, pensei, eu sinto-o por ser humana. Em certa medida era estúpido ficar mais perturbada com a morte duma ave do que com aquelas outras coisas, as guerras e os tumultos e os massacres nos jornais.”

Em 1972, quis a romancista escrever sobre a consciência de que, ao matar-se uma ave, morre também o Planeta Terra. É dessa premonição que, à partida é “apenas” literatura, que nos fala António Damásio. Em entrevista ao jornal Público, em 2017, diz o neurocientista: “Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha área é Shakespeare.”

No livro Sentir e Saber (Temas e Debates, 2020) dá conta da importância dos sentimentos para a espécie humana, enquanto mecanismo essencial de sobrevivência, e acima de tudo, de evolução. Se os criadores da IA se baseiam em organismos vivos naturais para melhor eficácia da tecnologia, para Damásio, os cientistas omitiram os sentimentos. Enquanto a IA não for vulnerável à dor, ao frio, ao terror e à fantasia, não será IA suficientemente inteligente. Apenas simula. Não pensa. E sem alegria, não há poesia. Sem poesia, não há consciência. A consciência é a última fronteira entre a Máquina e a Humanidade?

Por coincidência, a autora e compositora Bjork veio a Lisboa, para apresentar a digressão Cornucopia. Em cada canção, em cada cenário, em cada tom, sublinhou a importância da tecnologia como ferramenta essencial para o combate às alterações climáticas. A IA pode ajudar à salvação? A criação artística é também uma construção dessa salvação? É também uma consciência em si? A Arte torna-se uma intrusa ao procurar soluções, por essa consciência feita de invenções. O desafio é aliar natureza, ciência e imaginação. Em perpétuos movimentos e efémeros presentes, para criar futuros de vida.

Apocalipse zumbi

Lembram da semana passada? Pois deu tudo certo. Fui num pé, voltei no outro e, no ínterim, passei três dias em San José, capital do Vale do Silício, terceira maior cidade da Califórnia (atrás de Los Angeles e San Diego) e uma das dez mais populosas dos EUA, lar de gigantes como Adobe, Cisco, eBay, PayPal, Zoom e várias outras de que não me lembro, maravilha do mundo ocidental. A parte de trabalho correu às mil maravilhas, mas a minha experiência pessoal com a cidade foi como abrir rapidamente uma janela e ver um pesadelo acontecendo ao vivo.

Não há ninguém nas ruas.

Há carros e, ocasionalmente, algumas bicicletas, mas viver a pé não é opção numa cidade onde cada empresa tem uma sede maior do que a outra no seu próprio campus. Ao mesmo tempo, nunca houve tanta gente na rua — em tendas, debaixo dos viadutos, em pequenas aglomerações precárias. Muitas dessas pessoas são dependentes químicas, mas outras tantas apenas não têm para onde ir.

A Califórnia vive uma crise de moradia sem precedentes, e San José não é exceção.


Para dar uma ideia: o aluguel de um conjugado não sai por menos de U$ 2 mil. Jovens desenvolvedores que precisam estar no coração do mundo da tecnologia pagam U$ 650 pelo aluguel mensal de cápsulas de dormir empilhadas, chamadas pods, que têm 1,20m de altura e onde cabe um colchão de solteiro (e acham bom negócio). Esses hostels supercompactos, onde é difícil conseguir vaga, têm áreas de convivência e banheiros compartilhados, exatamente como os hotéis cápsula de Tóquio ou os claustrofóbicos microapartamentos de Hong-Kong. Não cheguei a ver nenhum deles; descobri que existem ao pesquisar sobre a crise de moradia na cidade, que parece incongruente diante da vastidão dos espaços vazios.

O meu esquema de mala única falhou desta vez, e precisei comprar uma outra mala. O pessoal do hotel indicou um shopping a 15 minutos de Uber. Pois ele estava quase tão vazio quanto as ruas da cidade. Muitas lojas desoladas e caídas, quando não simplesmente fechadas.

Não achei nenhuma mala pequena e barata na gigantesca Macy’s, nem qualquer funcionário que pudesse me esclarecer os preços do que havia. Para não perder a viagem, resolvi comprar um jeans. São dezenas de marcas, centenas de modelos e tamanhos, milhares de unidades; quase todas já vêm rasgadas.

(Você sabe que está velha quando não consegue mais entender a moda.)

Um mar imenso e compacto de peças feias, cabide após cabide... para ninguém. Pensei em fugir correndo, mas encontrei três que poderiam servir; os provadores, porém, estavam fechados. Andei vários minutos com as peças na mão sem encontrar uma única pessoa.

Havia um provador aberto do outro lado da loja. Lá também não havia nenhuma funcionária, nem mesmo aquela clássica figura que costuma conferir, na entrada, quantas peças a gente está levando. As cabines pareciam todas ocupadas; na verdade estavam vazias, mas cheias de roupas que outras clientes haviam experimentado e deixado por lá mesmo.

Além da crise de moradia, a Califórnia vive também, desde a pandemia, uma tremenda crise de mão de obra.

Na Target havia um pouco mais de gente; em compensação, a seção de malas estava bastante desabastecida. Peguei a primeira que vi e pronto. O que havia em abundância eram produtos para o Halloween, um monte de bobagens que vão servir para um único dia e depois serão lixo até o fim dos tempos.

Ah, sim: havia uma funcionária na caixa. Ela não falava inglês.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Brasil de lixo

De um ato do nosso governo só a China poderá tirar lição. Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política nada temos a invejar ao reino de Lilipute.

Machado de Assis

A página do golpe só será virada depois da punição dos culpados

No passado, generais que falavam muito eram quase sempre da reserva que, à falta do que fazer, jogavam dominó em praças públicas do Rio e vestiam terno completo para frequentar a sede do Clube Militar, onde discutiam a situação do país.

Os generais calados eram da ativa, em comando de tropa. A esses, que de fato são os que decidem os rumos do Exército, junta-se agora um novo tipo de oficial: os Calados do B, da ativa, investigados por um golpe que falhou.

Cadê o general Freire Gomes, comandante do Exército até dezembro último? Oito oficiais-generais disseram ao repórter Cézar Feitosa que Freire Gomes relatou que Bolsonaro apelou às Forças Armadas por um golpe para impedir a posse de Lula.

À Polícia Federal, em delação premiada, o tenente-coronel Mauro Cid contou que Freire Gomes chegou a ameaçar prender Bolsonaro se ele insistisse com a proposta de golpe. Por que não o prendeu? Por que não o denunciou? Por que Freire Gomes está mudo?

Por que se calam o brigadeiro Baptista Júnior e o almirante Almir Garnier, à época comandantes da Aeronáutica e da Marinha, respectivamente? Dizem que o brigadeiro ouviu calado a proposta de Bolsonaro, e que a ela o almirante aderiu com entusiasmo.

Os dois e Freire Gomes são cúmplices de um crime. Bolsonaro não se reuniu com eles uma dezena de vezes apenas para trocar ideias sobre um golpe hipotético. Reuniu-se para avaliar se as Forças Armadas estariam dispostas a apoiá-lo no caso de um golpe.

Era o que mais desejavam os generais falantes da reserva, alguns também da ativa, além de oficiais de patente inferior, contrários à volta da esquerda ao poder, e que em 2018 votaram em Bolsonaro e em 2022 se frustraram com a sua derrota.


Os generais calados barraram o golpe. Em julho de 2022, o general Paulo Sérgio de Oliveira, ministro da Defesa, ouviu do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, que seu país não apoiaria um golpe no Brasil, mas sim o presidente eleito.

Os encarregados de negócios dos Estados Unidos no Brasil, Douglas Knoff, e do Reino Unido, Melanie Hopkins, participaram de reuniões secretas com generais para sondá-los sobre a posição das Forças Armadas se Lula vencesse Bolsonaro.

Quantas vezes de janeiro para cá você não ouviu militares e seus porta-vozes dizerem que “é preciso virar a página”? Por “virar a página”, entenda-se: pôr um ponto final na discussão e nas investigações sobre as tentativas fracassadas de golpe.

Sim, tentativas. Porque foi mais de uma: a que se daria entre novembro e dezembro para impedir a posse de Lula, e a amadora e atabalhoada de 8 de janeiro que resultou na invasão do Palácio do Planalto, do Congresso e do prédio do Supremo Tribunal Federal.

Nas últimas 48 horas, em sucessivas declarações, o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice de Bolsonaro, recomendou que se passe uma borracha no que aconteceu. Quem já foi pego que se defenda. Por que correr atrás de mais gente?

Mourão chamou de “revanchismo” do governo do PT a convocação para depor à CPI do Golpe do general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro:

“A CPI é para investigar o 8 de janeiro e essa turma aí já estava fora do governo, não teve nada a ver com esse processo. Então a minha visão é muito clara: isso é revanchismo. Não havia necessidade nenhuma (do depoimento de Heleno)”.

Na opinião de Mourão, a convocação de generais como Heleno e Braga Netto tensiona o ambiente com as Forças Armadas, “principalmente com o pessoal da reserva que pressiona, obviamente, o pessoal da ativa.”

Quanto a Bolsonaro, que corre o risco de ser indiciado pela CPI, Mourão afirma:

“É vergonhoso indiciar o Bolsonaro, com base em quê? Tem que aparecer uma prova concreta de que o Bolsonaro financiou, exortou, planejou e preparou os acontecimentos de 8 de janeiro. Ele não fez isso”.

Bolsonaro não é o foco das preocupações de Mourão, e sim seus colegas de farda. É com eles que também se preocupa o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, que diz que as “Forças estão cientes do seu papel de parceiras do governo”.

Parceiras, como assim? Os militares são servidores públicos, pagos por nós, obrigados a trabalhar com qualquer governo e a respeitar a lei acima de tudo. Os que não respeitarem, tanto mais porque andam armados, devem ser punidos com extremo rigor.

A corrente do esforço humano

Certo episódio como epígrafe


Faz pouco mais de um ano, em uma das minhas raras idas ao Rio, cidade sem tantas reservas e preconceitos como São Paulo, fui convidado por um amigo para comer rabada à moda da casa num restaurante típico, bem sujinho por sinal. Meu amigo se fez acompanhar então de um editor carioca especializado na publicação de obras científicas. Cara pálida, o editor, mal se sentou à mesa, começou a discorrer exasperado sobre a precariedade das nossas condições médico-cirúrgicas (soube depois que ele, gravemente enfermo, estava desenganado), passando daí, extensivamente, a invectivar contra o brasileiro. Como a rabada demorava, na primeira brecha arrisquei uma tímida explicação, cujo único pecado foi eu misturar uns parcos condimentos de sociologia e economia no meu papo, dizendo sempre, enquanto me referia à nossa suposta comunidade: “Nós… nós… nós…”. E não tinha desfiado mais do que três contas de um rosário sobejamente conhecido, quando o editor carioca, sempre abatido, me cortou com estranha vitalidade:

“Nós, não. Eu sou europeu!”

Me lembro que em Pindorama, pequena cidade do interior paulista onde nasci e passei a infância, me lembro que até as mínimas coisas de uso trivial, como agulhas de coser, fossem de mão (inglesas) ou de máquina (alemãs), as coisas todas do dia a dia só eram boas, como de fato eram, se fossem estrangeiras. Os produtos alemães gozavam naqueles anos 40 de um prestígio especial. A marca Solingen, de tesouras e outros artefatos de metal, era conhecida do mais remoto homem da área rural. Aos brasileiros, na época, era permitida uma autoconfiança na qualidade da sua produção agrícola e das matérias-primas em geral que eram exportadas para os países industrializados.

No campo da produção cultural, as coisas se passavam mais ou menos do mesmo modo. Apesar do movimento vigoroso, mas incipiente (como incipiente a indústria de manufatura), no sentido de se imprimir um caráter próprio ao que fazíamos, continuávamos importando ou copiando o que era feito lá fora, sobretudo na França. Os brasileiros, além de confiarem no seu futebol, podiam se sentir seguros da sua música popular, do seu Carnaval exuberante, quando as escolas de samba, compostas no grosso por pretos, com passistas e requebros admiráveis, rendiam inclusive homenagem à aristocracia, desfilando nas ruas com fantasias de reis e rainhas.

Podiam acreditar também na excelência de um samba que tematizasse a beleza da “mulata”, as crenças afro-brasileiras, ou a miséria descarnada das favelas, realidades fascinantes sobretudo para estrangeiros à procura de manifestações “exóticas”, no caso cuidadosamente patrocinadas pela classe dominante nacional.

Manufaturados ou cultura, preferíamos então quase tudo que viesse de fora, do estrangeiro, da Europa. E o reverso dessas preferências não era só o desprezo pelo que produzíamos aqui, o reverso era também grande desrespeito por nós mesmos: éramos um povo indolente, lasso de costumes, de pouca inventividade, e outras pechas que maliciosamente nos atribuíam e que aceitávamos em decorrência de uma mitologia racial e de uma mitologia dos trópicos. Aquelas preferências confirmavam pois essas mitologias concebidas por europeus e introduzidas aos poucos entre nós, desde os primórdios pela catequese dos colonizadores e, depois, pela mediação da classe dominante brasileira, que se fazia educar na metrópole. Tanto que ainda hoje, quando alguma cidade do Sul do país se cobre de branco, em um desses raros dias de frio intenso, o orgulho nacional sobe uns graus em certos corações, desaparecendo com a mesma rapidez com que a neve se funde. Com a mesma exorbitância em relação ao clima, ou à etnia, passava-se conclusivamente na época da qualidade do produto para a avaliação do homem: bom era o produto importado, bom era o homem estrangeiro (europeu); ruim era o produto nacional, ruim era o próprio brasileiro. Interpretávamos corretamente então o papel que nos destinavam no contexto internacional. Com sua indústria tosca, o Brasil, em cada cidade ou vila, respondia eloquentemente a certa concepção racial, sentindo-se inferior. Mesmo porque o Brasil, ao mesmo tempo branco, negro e indígena, mas sobretudo pardo, não podia atender aos discutíveis padrões somáticos dos povos brancos supostamente superiores. É claro que, revigorados nas suas tradições racistas, ou então contaminados pela ideologia racial em voga, muitos brasileiros brancos deveriam ora sofrer a nostalgia de uma geografia perdida ora afagar no íntimo (embora nem sempre tão discretamente) suas origens europeias. Mas isso já é uma outra história.

Naqueles anos 40, o mundo estava sendo sacudido, os velhos impérios se desmoronando, novos polos de poder emergindo, novos impérios se esboçando, mas para nós prevalecia a estrutura de costume: o centro do mundo era a Europa (Paris o seu umbigo), o Brasil era parte da periferia, devendo ter os olhos submissos sempre voltados para a matriz. Matriz ao mesmo tempo única e polivalente, qualquer coisa assim beirando uma entidade atemporal, com nada antes, nem depois.

Apesar das mudanças ocorridas no pós-guerra, fossem as transformações no plano interno brasileiro, sobretudo a implantação de um parque industrial, fundamentado numa siderurgia própria e na transferência de técnicas devidamente acompanhadas de capitais estrangeiros altamente recicláveis; fosse o deslocamento dos polos de poder no plano internacional (URSS e EUA, mesmo com suas características e idiossincrasias culturais, seriam percebidos como prolongamento e desdobramento europeus, respectivamente); fossem enfim as transformações ocorridas na própria Europa (perda de hegemonia, situação política um tanto a reboque, “modernização” do seu velho colonialismo através das multinacionais etc.), o prestígio europeu ainda é enorme. Seja pelo seu acervo cultural, mais respeitado talvez que qualquer outro, ou pela sua matreirice política, capaz de lhe emprestar uns ares de autonomia e maturidade, a Europa desenvolvida de hoje continua como um dos referenciais do nosso “atraso”. Ainda recentemente, o humorista brasileiro Henfil, relatando uma viagem de volta, afirmou que saiu da Europa em 1980 e chegou ao Brasil em 1935.

A distância é sem dúvida grande, provavelmente até maior que a sugerida, desde que não se questione a noção de “progresso”, e que se aceite candidamente a Europa como referência, daí que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, aludindo ao potencial destruidor da tecnologia, afirmou: “Isso não é civilização, francamente; isso é uma porcaria”.


Seja como for, nossas atitudes mudaram ou continuaram mudando nessas quatro décadas. No Brasil tropical, é maior hoje o número de brasileiros que não levam a sério o preconceito quanto ao clima como fator impeditivo de realizações, pelo contrário. O Egito antigo, também tropical, construiu — da perspectiva europeia — uma “grande civilização”. E, note-se, o povo egípcio da Antiguidade não era branco, uma informação que nos foi sonegada pelos manuais escolares. Aliás, é maior hoje, no Brasil multirracial, o número de brasileiros que não se sentem inferiores com sua cor ou com sua mestiçagem, vislumbrando-se na miscigenação uma das nossas melhores contribuições. Sabemos que os europeus, quanto à etnia, são também formados por grupos híbridos, como certas espigas de milho; como de resto foram híbridos todos os grupos humanos das chamadas “grandes civilizações” anteriores. Inclusive a cultura europeia, impregnada de judaísmo e cristianismo, não é mais que o desenvolvimento de uma complexa mistura de elementos provenientes de várias fontes, ou seja, ideias de outras geografias migraram para lá como a migração das andorinhas. Se a imagem é muito lírica, não abarcando ideias inquietantes, digamos que houve também por muitos séculos uma dispersão de vespas em plagas europeias. É bom lembrar que o sucesso europeu, sobretudo nórdico, que não se confunde com as civilizações mediterrâneas da Antiguidade (a Grécia antiga tinha vínculos inclusive com culturas orientais), é fenômeno recente. Na Idade Média, que a ótica dos historiadores ocidentais insiste — com tanto mouro pela frente — em só ver uma idade de trevas, os nórdicos, hoje mencionados como protótipo de “civilizados”, eram povos que estavam se iniciando na história dos vencedores.

Nossas atitudes continuam mudando, embora essas mudanças não possam ser generalizadas, longe disso. O consumidor comum, que não faz turismo no exterior, se é que alguma vez faz pelo Brasil, não costuma pensar em produtos importados e adquire sem relutância o que é fabricado atualmente no país. E cada vez mais cidadãos brasileiros vão introduzindo componentes sociais e políticos nos critérios de avaliação do que é produzido aqui, em geral de qualidade inferior ao similar de lá fora, mesmo quando a marca é multinacional, e é quase sempre. Compreendemos cada vez mais essas diferenças de qualidade, e concluímos cada vez menos nossa suposta inferioridade humana, excluídas as elites brancas. Suspeita-se também cada vez mais que o florescimento cultural de uma nação — respeitado o seu próprio esforço — só acontece com o seu domínio sobre outros povos. É só virar a cabeça sobre o ombro e olhar para trás. Por sinal, a expressão civilized world, tão cara aos ingleses educados, e que inevitavelmente marca os discursos presidenciais americanos, tem muito a ver com sua atuação, não exatamente edificante, entre os povos da “periferia”. A esse propósito, muitos historiadores revelam uma irresistível vocação para o luxo ao exaltarem as realizações dos “grandes homens”, das “grandes civilizações”, sem passarem pelo “anonimato” e pela “periferia”. “Grandes em quê? Grandes por quê? Grandes em relação a quê?” questiona a pensadora brasileira Marilena Chaui. “Grandes e poderosos, isto é, os dominantes, cuja ‘grandeza’ depende sempre da exploração e dominação dos ‘pequenos’”, sem direito à História. Daí que o homem comum assim como os povos periféricos jamais tiveram seus nomes inscritos como vencedores. Entretanto, quando se entra em uma residência bem posta, é legítimo perguntar, diante do orgulho do dono da casa, onde estão os anônimos que assentaram os tijolos. Como seria legítimo perguntar, num giro pelos países desenvolvidos, onde estão os povos, humilhados e ofendidos, que concorreram para o seu brilho.

Dramatizando um pouco mais, mas nunca o suficiente, seria interessante inventariar o que propiciou os grandes surtos culturais, sempre percebidos como expressões maiores da inteligência e da sensibilidade. Quem levasse a cabo essa tarefa só haveria de ouvir gemidos.

Sem a menor dúvida, os colonizadores europeus poderiam realizar sua “tarefa histórica” sem maiores rodeios — a ferro e fogo — como efetivamente fizeram. Coube porém a intelectuais europeus, o que choca mas não surpreende, elaborar uma imagem dos povos que justificasse e legitimasse essa dominação, convertendo-a em “tarefa civilizatória”.

Já no século XVI, o reverendo pe. Sepúlveda justificava o Império Espanhol nas Américas, declarando que o estado de pecado dos nativos faria deles, por um lado, objetos de catequese e, por outro, “instrumentos dotados de voz” (nome dado por Aristóteles aos escravos). Depois do “bom selvagem” de Rousseau, houve o Sexta-Feira de Defoe, um nativo bem menor que o grande Robinson que “criou o mundo do nada”. Melhor que a teologia e o romance, a ciência europeia realizou o seu papel legitimador: além das teorias raciais que privilegiavam o homem branco, a sociologia alemã subestimou o homem dos trópicos ao trabalhar uma explicação sobre o desenvolvimento dos povos a partir das condições geográficas; a antropologia social francesa explicou a “mentalidade primitiva” como pré-lógica; e os pensadores liberais provaram, num passe de mágica, que o liberalismo era verdadeiro na Europa e falso nas colônias.

Para ficarmos bem perto dos nossos dias, não foram os psicólogos sociais americanos que demonstraram que os orientais — os vietnamitas, of course —, devido à grande densidade demográfica, não valorizam a vida, acham a morte algo banal, e desconhecem a dor por ela causada? É de se supor que essas ideias, e muitas outras, foram em parte concebidas pelo pietismo cristão dos europeus, em parte pelo humanismo renascentista, e em parte sob a luz do Iluminismo, cujo clarão permitiu aprimorar também a racionalidade do capitalismo. Sem se confundirem com vespas, menos ainda como andorinhas, aquelas ideias todas migraram até nós, desde os primórdios, como aves de mau agouro, mas sobretudo como aves de rapina. Quebraram o nosso moral, levando-nos a recusar nossas próprias potencialidades humanas, tornando-nos dóceis e servis diante da vontade do colonizador. Aliás, ainda hoje, apesar de mudanças de atitudes, brasileiros, inclusive letrados, continuam a interiorizar ideias colonialistas, não tão grosseiras quanto as ostensivamente racistas. “Este não é um país sério” repete-se com frequência de norte a sul, e quem sabe até com certa exorbitância semântica, o que De Gaulle disse por ocasião da “Guerra da Lagosta”, quando Brasil e França disputavam sobre a pesca em águas territoriais brasileiras.

Homem por excelência da “grandeur” (mereceu uma cama de tamanho especial quando visitou o Brasil), De Gaulle, além de uma envergadura de dois metros, e não obstante autêntico estadista, resvalou no piadismo: existiriam países sérios e países que não são sérios.

Seríamos contudo parciais se não reconhecêssemos que muitos dos antídotos contra a ideologia colonialista nos foram fornecidos por europeus. Nesse sentido, se antes falamos de um modo um tanto pejorativo em importação e cópia, seria agora o momento de falarmos — sem arremedos — em absorção do que interessaria à suposta comunidade brasileira e a que tem legitimamente “direito”, seja à reflexão, à pesquisa, ou às conquistas técnicas (já que certas opções não teriam retorno) realizadas na Europa. Afinal, descartáveis ou não, as ideias são universais, no sentido de que sua produção dependeu da “periferia”, dos “pequenos”, de onde o acervo cultural, pelo menos, não ser patrimônio só da “matriz”, dos “grandes”, pertencendo antes à corrente do esforço humano, marcado por tantos erros e alguns acertos, sempre comovente quando percebido no seu conjunto. Como comovente seria uma esteira ladeada por catadeiras de café, procurando deitar fora os grãos estragados e só deixando passar os sadios, reabastecendo-se no seu curso para repor os grãos sadios que porventura se estragassem com o tempo. Importaria então fazer uma triagem escrupulosa da “cultura europeia” para não se incorrer no cochilo do autor de Os sertões, marco do pensamento voltado para a terra e o homem brasileiros.

Mesmo com claras intenções científicas, afirmando inclusive que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, Euclides da Cunha deixou passar um grão virulentamente contagioso ao endossar a inferioridade racial da mestiçagem, confundido talvez por seus predecessores que escreviam a história do Brasil (Varnhagen, em especial), assim como por seus contemporâneos da imprensa, em geral porta-vozes eficientes dos preconceitos europeus.

***

“Brasil, país do futuro.” Num país de 120 milhões de habitantes, a mesma minoria, que domina no plano interno o grosso da população, se empenharia em reproduzir no plano externo o modelo de dominação. Tentando dar existência àquela profecia dos anos 40, enunciada por Stefan Zweig, um europeu, profecia que veio crescendo no mesmo ritmo da industrialização do país, os últimos governos de exceção acabaram por transferir suas obsessões a um suposto Brasil que, nas suas fantasias precoces de menino, vinha se apresentando sem qualquer pudor ao mundo como “potência emergente”. E quem fala em “potência”, segundo o jargão dos moralistas, está pensando na obscenidade do poder, investido de autoridade. A maioria dominante, por sinal, dividida, na medida em que é ameaçada, entre a cooperação com o capital estrangeiro e o posicionamento nacionalista, não só adotou a ideologia do desenvolvimentismo (o país tem de crescer a qualquer custo, conforme a concepção do “Brasil Grande”), mas ao mesmo tempo começou a incomodar, no plano externo, alguns humildes vizinhos sul-americanos, tentando por outro lado atravessar ousadamente o Atlântico, de olho numa fatia da África, exportando em manufaturados quase o equivalente ao que exporta em matérias-primas, vislumbrando até, no incipiente comércio de armas, uma galinha de ovos de ouro, sem falar que ensaia, de lápis sobre a orelha, uma meia dúzia de multinacionais. Dizem que o “milagre” acabou, mas o que não acabou e nem vai acabar é o sonho de grandeza: haverá com certeza novas arrancadas. E depois, é tudo tão imprevisível que até uma surpresa apocalíptica, aí pelo meio da década, pode dar uma ajuda generosa aos imediatistas da grandeza nacional.

No campo da produção cultural, a autoconfiança aumentou muito nas últimas décadas, fundamentada em parte nas atividades intelectuais, que se esforçam intensamente em esboçar a fisionomia brasileira, procurando descolonizar-se mentalmente, insistindo em que devemos nos voltar para a nossa realidade, tentando afirmar com decisão nossa própria personalidade, no que vêm conseguindo resultados realmente consideráveis. Mas, a longo prazo, tudo no fim converge, não importam os motivos: em meio à miséria de hoje, essas mesmas atividades, sobretudo as artísticas, mal suspeitam que já podem estar modelando a máscara de futuros homens arrogantes.

O pecado original. Pensando nas atuais hegemonias, ou nas futuras, e em como foram, são, ou serão transitórias tantas hegemonias ao longo da História (afinal, o que é um século, o que é um milênio, o que é qualquer medida como segmento de tempo?), somos remetidos para as inevitáveis relações de poder, sempre investidas de autoritarismo.

Supondo-se que todo homem seja portador de uma exigência ética, não há como estar de acordo com a dominação de uns sobre outros. Penso, como muitos, que seja possível imaginar caminhos diferentes para as relações entre indivíduos e entre povos, e penso mesmo que não existe nada mais belo e comovente do que perseguir utopias. Só que não seria fácil resistir à crença, como não se resiste a uma paixão, de que, em certo sentido, o homem é uma obra acabada, marcado não só pela sua experiência passada, mas marcado sobretudo — e definitivamente — pela sua dependência absoluta de valores, coluna vertebral de toda “ordem”, e encarnação por excelência das relações de poder. Incapaz de dispensá-los ao tentar organizar-se, é este o seu estigma; sempre às voltas com valores, vive aí sua grande aventura, mas também sua prisão. Pode ao reorganizar-se arrefecer desequilíbrios entre dominadores e dominados, pode inclusive subverter a “ordem” estabelecida, mas estaria sempre reproduzindo a estrutura de poder.

Se é assim, é também mais ou menos óbvio que, entre os dominados, só os tolos se comprometem com a “ordem” que os subjuga. Aos lúcidos, como sugeriu um pensador do século passado, tudo seria permitido.
Raduan Nassar, "Lateinamerikaner über Europa"

terça-feira, 26 de setembro de 2023

A defesa do golpista está pronta

Em 2022, o vereador Camilo Cristófaro usou em plenário a expressão "é coisa de preto" para se referir a sujeira nas calçadas. A frase foi captada pelo sistema de som e originou uma cassação por quebra de decoro. Esse tipo de fala é desgraçadamente comum no Brasil, todos sabemos. O que espanta é que só agora, pela primeira vez na história da Câmara Municipal de São Paulo, um parlamentar tenha perdido o mandato por ato de racismo. E antes, quantos casos passaram batido?


Também corriqueira no país foi a impostura adotada pelo advogado de Cristófaro, que comparou seu cliente a Adolf Eichmann, nazista responsável pela deportação de judeus para campos de concentração. Após a derrota na Segunda Guerra, ele fugiu, foi capturado em Buenos Aires pelo Mossad, serviço secreto israelense, e executado por enforcamento. "Eichmann não foi julgado, foi prejulgado", discursou o doutor, desqualificando o tribunal de Jerusalém.

Por desencargo, alguns vereadores reagiram aos argumentos falaciosos –os quais, igual ao racismo, estão assumindo um caráter estrutural e permanente no Brasil. No fundo, ninguém se surpreendeu com a peroração que, não por acaso, lembra a defesa dos réus no julgamento sobre os atos golpistas de 8 de janeiro pelo STF.

Mais do que o surgimento de um hábito jurídico –em que a regra é atacar, ofender, mentir e viralizar na internet com gafes tão absurdas que parecem propositais–, o método fortalece um novo direito, o de falar qualquer coisa no modo "pra lá de Marrakech", como na canção de Caetano Veloso. Porque alguém sempre há de concordar e aplaudir. Acontece que, hoje, esse alguém são multidões.

"Eu posso discutir qualquer coisa, posso pensar qualquer coisa, mas, se não botar em prática, não tem problema", disse Bolsonaro ao jornalista Lauro Jardim sobre o teor das conversas secretas no Palácio do Planalto. Está pronta a defesa do golpista.

Os 'corredores verdes' de Medellín para combater calor extremo

Moisés Castro trabalha vendendo frutas em uma banca na Avenida Oriental, na cidade colombiana de Medellín, há mais de 30 anos.

Ele se lembra de uma ocasião, décadas atrás, em que o governo local derrubou as árvores da avenida como parte de uma alteração de trânsito.

Atualmente, a Avenida Oriental continua a ser uma típica via repleta de tráfego e comércio local. Mas, revertendo as decisões anteriores sobre a arborização, a área também recebeu grandes árvores frutíferas, arbustos e flores.

Para Castro, a qualidade do ar e a temperatura do local melhoraram com a medida.

De fato, a temperatura parece agradável todo o ano. Aqui, é claramente mais fresco do que em outras partes da cidade que não contam com a cobertura verde. Ciclovias margeiam as ruas e os pedestres descansam em bancos na sombra.


Conhecida como a Cidade da Primavera Eterna, Medellín e seu clima temperado costumam atrair turistas por todo o ano, mas o aumento da urbanização expôs a cidade ao efeito ilha de calor das áreas urbanas, que causa a absorção e a retenção do calor pelas ruas e construções da cidade.

Os novos corredores verdes de Medellín mostraram-se claramente eficientes para reverter este impacto. A temperatura caiu em 2° C por toda a cidade, segundo dados da prefeitura local aos quais a BBC teve acesso.

Medellín é a segunda maior cidade da Colômbia, ficando atrás apenas da capital, Bogotá. Em 2016, ela deu início ao seu programa de "corredores verdes" devido às preocupações com a poluição do ar e o aumento do calor.

O programa inclui mais de 30 corredores verdes, que conectam calçadas de ruas recém-arborizadas, jardins verticais, cursos d’água, parques e morros próximos.

Inicialmente, o projeto envolveu o plantio de cerca de 120 mil plantas individuais e 12,5 mil árvores nas ruas e parques. Em 2021, ele atingiu 2,5 milhões de plantas menores e 880 mil árvores plantadas em toda a cidade.

A ideia era conectar as áreas verdes de Medellín por meio de ruas e avenidas rodeadas por árvores e sombra.

O investimento inicial para implantar o projeto foi de US$ 16,3 milhões (cerca de R$ 80,8 milhões) e o custo anual de manutenção em 2022 foi de US$ 625 mil (cerca de R$ 3,1 milhões), segundo a prefeitura da cidade.

O projeto de Medellín agora é conhecido em todo o mundo, devido aos resultados expressivos obtidos para o resfriamento da cidade.

E, além de reduzir o calor, especialistas afirmam que os corredores verdes também melhoram a qualidade do ar e trouxeram a vida selvagem de volta para a zona urbana.

Em uma época de crescentes preocupações com as ondas de calor relacionadas às mudanças climáticas, especialmente nas cidades, onde o efeito ilha de calor pode aumentar ainda mais as temperaturas, o projeto de corredores verdes de Medellín oferece uma solução popular, de baixo custo, que cada vez mais cidades estão procurando reproduzir.

Ao lado das preocupações com o calor urbano, o projeto dos corredores verdes de Medellín foi colocado em ação devido à preocupação com a baixa qualidade do ar, causada, em grande parte, pelo enorme crescimento do transporte particular.

A localização da cidade no vale do Aburrá – uma formação geológica que pode capturar a poluição entre as montanhas – não favorece a situação.

E as condições climáticas e meteorológicas também são desfavoráveis para a dispersão vertical dos poluentes, segundo Maurício Correa, pesquisador de engenharia ambiental da Universidade de Antioquia, na Colômbia.

Segundo a empresa suíça IQair, que mede a qualidade do ar em todo o mundo, os níveis anuais de matéria particulada (PM2,5) de Medellín não são os piores da América do Sul, mas são três vezes maiores que o limite de segurança da OMS (Organização Mundial da Saúde), que recomenda média máxima de 5 µg/m3 ao longo do ano. Eles ainda estão acima dos níveis de Bogotá e de São Paulo.

A poluição de Medellín é muito menor do que a de outras cidades conhecidas pelo mesmo problema – como Nova Déli, na Índia, cujas medições em 2022 foram 18 vezes maiores que o limite anual da OMS, por exemplo.

Mas, durante a estação seca, a cidade enfrenta seu pior período de condições do ar devido à redução das chuvas (que, normalmente, ajudam a dissipar a poluição). Nesse período, Medellín pode atingir 55 µg/m3 de PM2,5 – nível suficiente para fazer soar o alarme das autoridades.

A relação entre a exposição a PM2,5 (partículas minúsculas no ar) e doenças respiratórias é bem conhecida.

Quando a poluição sobe acima de 38 µg/m3, o sistema de alerta precoce do vale gera um alarme que pode gerar restrições ao uso de automóveis e aconselhar as pessoas, especialmente as mais vulneráveis, a permanecer em casa.

"Em 2015 e 2016, nós atingimos o pico da poluição do ar", segundo Paula Palacio, secretária de infraestrutura local de Medellín na época. "Foi um momento crítico para as questões ambientais."

Ela destaca que, naquele momento, cresceu a pressão popular por medidas mais sistemáticas sobre a poluição. "A população se sentia muito prejudicada pelas restrições."

Em estudo de 2020 da Universidade de Antioquia, em Medellín, concluiu que a poluição causou 1.971 mortes prematuras na região do vale do Aburrá em 2016 – e que as mortes causadas pela poluição aumentariam substancialmente até 2030, se as emissões dos veículos não fossem controladas.

Correa explica que as árvores usadas nos corredores agem como "barreiras verdes" contra os perigosos materiais particulados, absorvendo níveis significativos de poluição.

Segundo ele, algumas das espécies empregadas no projeto de Medellín são conhecidas por serem muito eficientes na absorção de poluição, como a mangueira (Mangifera indica).

Correa é um dos autores de um estudo de 2021, que identificou Mangifera indica como a melhor dentre seis espécies vegetais encontradas em Medellín para absorção de PM2,5 e sobrevivência em regiões poluídas, devido aos seus "mecanismos biológicos e bioquímicos".

"Esta planta é muito resistente à contaminação", afirma Correa. "Outras plantas não têm a mesma capacidade de sobreviver em regiões poluídas."

Até agora, nenhum estudo ou análise geral examinou a quantidade de poluição efetivamente reduzida pelo projeto dos corredores verdes. Mas Correa afirma que sua equipe está nos primeiros estágios de estudo desse impacto e os resultados devem ser publicados no início de 2024.

Ao lado dos 30 corredores verdes, cerca de 124 parques também são parte do projeto. Conectados pelos corredores, eles também receberam plantio de nova vegetação. E este aumento das áreas verdes também trouxe impactos positivos para o clima da cidade.

Um estudo de 2019, da Faculdade de Engenharia de Antioquia, estimou que apenas dois desses parques – os morros Nutibara e Volador – foram responsáveis por remover da atmosfera 40 toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano.

León Dário trabalha perto da Avenida La Playa, perto da Avenida Oriental, vendendo batatas fritas. Ele trabalha na região há duas décadas e conta que o projeto dos corredores verdes tem forte apoio popular.

Além das árvores, Dário acredita que a introdução dos veículos elétricos foi outra boa medida para melhorar a qualidade do ar. Nos últimos anos, a prefeitura local substituiu ônibus a diesel por elétricos na região.

O apoio dos moradores de Medellín foi fundamental para o sucesso do projeto dos corredores verdes, segundo Lina Rendon, atual subsecretária da prefeitura de Medellín para recursos renováveis.

Um dos motivos, segundo Rendon, é o orçamento participativo do município. O caixa permite aos moradores locais escolher iniciativas que eles querem ver financiadas. Nos últimos anos, a população escolheu muitas iniciativas verdes para a cidade desta forma.

O governo atual do município assumiu em 2019. Desde então, foram plantadas mais 9.332 novas árvores, segundo os dados oficiais. O total da área verde de Medellín, agora, é de cerca de 4 milhões de metros quadrados.

Rendon afirma que a comunidade local também auxilia na manutenção direta do projeto, por meio de jardineiros voluntários.

O projeto dos corredores verdes também gerou um programa de contratação de pessoas que chegam a Medellín, deslocadas pela violência em outras partes da Colômbia. O programa ajuda essas pessoas a encontrar empregos fixos como jardineiros.

"Os jardineiros eram [pessoas] socialmente vulneráveis e [o projeto] ofereceu dignidade", conta Palacio.

Para o secretário do Meio Ambiente de Medellín entre 2016 e 2019, Sergio Orozco, os resultados do projeto foram surpreendentemente positivos.

"A redução da temperatura, em algumas regiões em mais de 3° C, foi maior do que o esperado", ele conta. "Também observamos o retorno de animais que não haviam sido vistos por ali há muitos anos."

O governo local mediu a temperatura em alguns locais no centro da cidade antes e depois do projeto, segundo Paula Palacio. A conclusão foi que algumas regiões observaram redução média da temperatura de até 2° C após a implementação dos corredores.

O monitoramento da vida selvagem local também observou pássaros, lagartos, sapos e morcegos nos corredores.

As autoridades locais afirmam que alguns desses animais não eram vistos em Medellín há anos – o que também ajudou a controlar os ratos e outras pragas, segundo acreditam diversos moradores da cidade.

Em 2019, Medellín recebeu o Prêmio Ashden – concedido a soluções para transformar o clima – na categoria "Resfriamento pela Natureza".

"A reação da cidade reúne as pessoas, plantando vegetação para criar um ambiente melhor para todos", segundo os jurados.

Estas conquistas tornaram o projeto de Medellín famoso em todo o mundo. Outras cidades colombianas, como Bogotá e Barranquilla, também adotaram planos similares.

Bogotá, por exemplo, planeja formar um corredor verde em uma das suas principais avenidas. E, no Brasil, a capital de São Paulo também ampliou recentemente sua versão local dos corredores verdes.

Uma das medidas mais ambiciosas para transformar Medellín em uma cidade verde são os planos da prefeitura local de fechar o aeroporto central e transformá-lo em um parque.

A ideia é desviar os voos para outros aeroportos próximos. Mas o projeto, no momento, está suspenso por decisão dos vereadores locais.

Os debates sobre como transformar Medellín em uma cidade ainda mais verde e adaptada ao clima irá continuar nos próximos anos. Mas os moradores da cidade já podem contar com locais com mais sombra e clima mais ameno, enquanto planejam suas próximas medidas.