terça-feira, 22 de março de 2022

Sérgio Porto teria que multiplicar Festival de Besteira para dar conta de governo Bolsonaro

Stanislaw Ponte Preta, heterônimo de Sérgio Porto, fustigou as arbitrariedades e a estupidez da ditadura militar em seu célebre Festival de Besteira que Assola o País, sucesso na imprensa e em livros nos anos 1960. Estivesse vivo, o escritor estaria mais atarefado que nunca nesses tempos bolsonaristas.

Se dependesse de Sérgio Porto, a "sua" Copacabana —onde ficavam a casa na rua Leopoldo Miguez em que nasceu e cresceu e muitas pensões para jovens— jamais mudaria. Não teve jeito: a casa da infância foi demolida para a construção de um edifício, mesmo destino das pensões alegres na orla da praia.

Durante o dia, Sérgio trabalhava no Banco do Brasil. Como cronista da noite, usava terno e gravata, sapatos lustrosos. Nas peladas da praia, pegava no gol, e seus cabelos castanhos claros sempre estavam aparados e alinhados. O melhor jazz era o de Nova Orleans; o melhor samba, o tradicional (ainda não se dizia "de raiz").

Nascido há quase cem anos, em janeiro de 1923, homem do seu tempo, gentil, inteligente e espirituoso, aos olhos de muita gente ele era um conservador —na antiga acepção da palavra, não um "conservador" como conhecemos hoje nas mídias sociais—, cujo comportamento em nada lembrava o anarquismo de Stanislaw Ponte Preta, seu famoso heterônimo. Até que veio o golpe militar de 1964.

Na verdade, Sérgio Porto era um democrata, a quem aquela história de consertar o Brasil e acabar com o comunismo, botando tanques na rua para assumir o poder, não cheirava nada bem.

Com um general na Presidência, o próprio Stanislaw mudaria de tom e conversa, não abandonando as crônicas e anedotas de humor nem seu alvo preferido de antes, a classe ociosa das colunas sociais, mas passando a castigar os novos modos e costumes da "redentora", como ele costumava se referir ao regime recém-implantado.

No mesmo ano de 1964, Stanislaw Ponte Preta publica "Garoto Linha Dura", título que já alude ao ambiente pesado do país, sobretudo à perseguição política, censura e deduragem. "Escolhi para título a história do garotinho que se deixou influenciar pelo mais recente método de democratização posto em prática no Brasil", explica o autor na nota que abre a coletânea.

Pedrinho, o tal garoto linha-dura, para fugir do castigo por ter quebrado uma vidraça jogando futebol na rua, entrega um colega e diz ao pai: "Esse menino do vizinho é um subversivo desgraçado. Não pergunta nada a ele não. Quando ele vier atender a porta, o senhor vai logo tacando a mão nele".

O texto "Militarização" fecha a antologia. Nele, um homem sonha que não existe mais emprego ou ocupação para civis no país. Era um pesadelo, mas ele acorda gargalhando, e a mulher pergunta o motivo: "É que, no sonho, eu passei em frente de uma boate e tinha um cartaz na porta escrito: ‘Hoje sensacional strip-tease com o major Pereira’".


Atuando na imprensa desde 1947 —fez de tudo, da crítica musical a colunas em que selecionava mulheres de maiô, as "certinhas"—, Sérgio Porto preservou a alma de repórter. Algumas de suas melhores crônicas são flagrantes tirados da rua. Daí ter retratado tão bem aquele tempo brasileiro atropelado a uma só vez pela modernidade e pelo atraso. Sem falar nas besteiras.

O Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País) surgiu nas páginas da Última Hora de Samuel Wainer, principal vitrine de Stanislaw Ponte Preta. Alimentado pelos leitores que enviavam recortes de jornais e atualizado diariamente, reuniu as façanhas de políticos, militares, funcionários públicos e demais "cocorocas" que gravitavam em torno do poder. A rigor era um relatório, com pequenas histórias absurdas. Hoje, é história do Brasil.

O material publicado em jornal foi depois agrupado em livro em três volumes (1966, 1967 e 1968), também com o título "Febeapá". A mais recente edição, da Companhia das Letras, reuniu todas as crônicas em um só volume.

Historiador honesto, Stanislaw não sabia precisar o dia em que tudo começou: "Notei o alastramento do Festival de Besteira depois que uma inspetora de ensino no interior de São Paulo, portanto uma senhora de um nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que seu filho tirara zero numa prova de matemática, embora sabendo que o filho era um debiloide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista".

Se o fato ocorresse hoje, ninguém estranharia. Em novembro, a Polícia Civil intimou o diretor da Escola Municipal Getúlio Vargas, em Resende (RJ), a prestar depoimento, baseando-se em denúncia anônima encaminhada pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Uma pessoa afirmava que os alunos estariam sendo "expostos a conceitos comunistas" e "ideologia de gêneros". A anônima inspetora de ensino dos tempos da ditadura transformou-se na poderosa ministra Damares Alves do governo Bolsonaro.

Não é preciso arrolar os inúmeros cacos de burrice explícita do presidente —como ter ido visitar a "Torre de Pizza" e confundido o político John Kerry com o humorista Jim Carrey— nem ressuscitar o ex-ministro da Educação que não sabia escrever a palavra "impressionante" (grafava "imprecionante") para notar as semelhanças de estilo, intenção e gesto dos tempos bolsonaristas com os da redentora. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, não deixa a peteca cair: "É melhor perder a vida do que perder a liberdade".

Na ditadura, quiseram prender Sófocles (que morreu por volta de 406 a.C.), autor de peça clássica, "Electra", considerada subversiva; o filme "Ivan, o Terrível", de Serguei Eisenstein, que conta a história do czar russo que viveu no século 16, teve sua exibição proibida em Belém para impedir que o "credo vermelho" fosse difundido entre nós. É bom ficar só nesses dois exemplos, para não dar munição ao secretário especial da Cultura, Mario Frias.

Até porque a pasta dele, em matéria de besteira, não precisa de incentivo. O braço direito de Frias, o capitão da PM André Porciuncula, ficou revoltado porque a imprensa brasileira repercutiu um comercial natalino da Posten, os correios da Noruega, que mostra o bom velhinho beijando um homem na boca.

Escreveu Porciuncula no Twitter: "Estou verificando cada veículo de mídia que divulgou a cena do São Nicolau (Papai Noel). O santo é parte integrante da fé cristã e, até onde eu sei, desrespeitar a fé alheia ainda é crime. Farei uma notícia-crime contra os envolvidos. A mídia tem de respeitar a fé cristã".

É por isso que, volta e meia, ouvimos em um papo de bar com amigos ou lemos nas redes sociais: o que Stanislaw Ponte Preta diria do Brasil sob Bolsonaro? Uma coisa é certa: ele estaria mais atarefado do que nunca.

Nos seus 45 anos de vida, Sérgio Porto jamais fugiu do trabalho. Ficcionista, jornalista, radialista, teatrólogo, humorista, compositor, roteirista e apresentador de televisão, ele tinha sempre um papel na máquina de escrever, só levantando os olhos dela "para passar colírio".

Para dar conta do governo atual, teria de inventar mais uns dez heterônimos e multiplicar os festivais —das tolices, das asneiras, das bobagens, das estultices, das parvoíces, das ignorâncias...

A maior diferença em relação ao passado é que o idiota de hoje faz um julgamento elevado de si mesmo, sente-se orgulhoso da própria idiotia. E as besteiras estão carregadas de maldade.

Filosofia

Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia
André Filho/ Noel Rosa

Vladimir Putin merece um monumento em bronze

A esta altura, não há mais dúvida de que Vladimir Putin é um criminoso de guerra. Além de invadir a Ucrânia sem que houvesse nenhum motivo para isso, a não ser erradicar o país do mapa, anexando-o à Rússia, em completo desrespeito às leis internacionais que regem as relações entre as nações, ele aterroriza a população civil ucraniana, principalmente os 130 mil habitantes de Mariupol, importante porto no Mar de Azov. A cidade vem sendo pesadamente bombardeada e a sua população é mantida como refém do exército russo. Em diferentes graus, a situação é aterrorizante nas cidades cercadas pelos invasores — que já mataram até o momento, de acordo com a ONU, 847 civis, entre os quais 109 crianças, uma monstruosidade.

A intenção é abalar o moral dos ucranianos e também simplesmente vingar-se dos cidadãos que se recusam a entregar o seu país ao facínora do Kremlin. O governo da Ucrânia disse não ao ultimato dado no domingo pelos russos, para que Mariupol lhes fosse entregue, em troca da abertura de corredores humanitários. Não há nada a ser entregue, porque ninguém se entregará, nem mesmo se o presidente Volodymyr Zelensky assim ordenar. Em Kherson, a única grande cidade tomada pelas tropas de Moscou, em mais de 20 dias de guerra, a população enfrenta os blindados russos, com gritos para que saiam dali. A única arma desses bravos são bandeiras da Ucrânia.


Como esperado, os russos bombardearam hoje Odessa, o grande porto ucraniano no Mar Negro. A tática é a mesma: amedrontar a população, sob o falso argumento de que o exército ucraniano está usando prédios civis para estocar armas. Do ponto de vista estritamente militar, a Rússia fracassou no que era para ser uma blitzkrieg. Os seus soldados não se atrevem a entrar em Kiev, que parecia ser presa fácil no início da guerra, inclusive pela proximidade com Belarus, porque a cidade está inteiramente defendida por barricadas e os ucranianos prometem transformar a sua capital em uma Stalingrado, evocando a grande batalha da Segunda Guerra Mundial, quando os russos enfrentaram — e venceram — os alemães invasores, quarteirão por quarteirão, casa por casa. Só que agora os alemães são os russos. Os 2 milhões de habitantes que sobraram em Kiev, de um total de quase 3 mihōes, prometem não se render no que consideram ser uma guerra patriótica.

Além de censurar as notícias sobre a guerra — que só não é chamada pelo seu verdadeiro nome na Rússia, onde a agressão contra a Ucrânia virou “operação especial” –, Vladimir Putin quer evitar que os seus horrores e reveses militares possam ser noticiados pela imprensa ocidental. Depois de inviabilizar o trabalho de jornalistas na Rússia, ele e os seus acólitos agora ameaçam repórteres do Ocidente, ou que trabalham para veículos ocidentais, que estão na Ucrânia. Os dois últimos jornalistas da Associated Press que estavam em Mariupol deixaram a cidade hoje. O videorrepórter Mstyslav Chernov e o fotógrafo Eugeniy Maloletka foram avisados de que seus nomes constavam de uma lista de pessoas a serem presas pelos russos. A agência de notícias publicou no seu site o relato de Mstyslav Chernov.

O medo de jornalistas intrépidos tem razão de ser. Uma coisa é correr o risco de vida natural imposto pela cobertura de uma guerra no terreno em que ela se desenrola e ser atingido por tiros ou bombas quando se está na linha de frente ou próximo a um alvo. Coisa bem diferente é ser intimidado individualmente por uma das partes beligerantes. É o que os russos estão fazendo na Ucrânia. Além dos dois profissionais da Associated Press, um fixer (pessoa que assiste jornalistas num país estrangeiro) da Radio France foi sequestrado numa cidade localizada no centro da Ucrânia, trancado num porão e torturado durante nove dias pelo exército russo. Ele ficou sem comida durante dois dias, sofreu choques elétricos e cortes de faca na face e no corpo, além de ter a sua execução simulada, naquele que é um dos piores atos de sadismo que se pode cometer contra um prisioneiro. A Radio France comunicou o fato ao Repórteres Sem Fronteiras, mas mantém a identidade do fixer em segredo, por razões de segurança. Sabe-se que ele tem 32 anos, foi resgatado e agora está em outra cidade ucraniana.

Os russos têm no Kremlin um criminoso que agrediu a Ucrânia sob falso pretexto, bombardeia alvos civis, mantém uma cidade inteira como refém, vem causando um êxodo impensável no coração da Europa (quase 3,5 milhões de ucranianos já saíram do país) e intimida jornalistas, inclusive com tortura. As 109 crianças mortas foram homenageadas em Kiev, no fim de semana, com a colocação de um carrinho de bebê vazio para cada uma delas num praça da capital ucraniana (foto). Esse massacre dos inocentes deve fazer mais vítimas, infelizmente. Que a obra magna do carniceiro de Moscou ganhe um monumento perene, em bronze, quando ele for finalmente derrotado, para que ninguém jamais se esqueça dos seus crimes. E também de quem o defende e relativiza as suas atrocidades, relembrando a lambança americana no Iraque.

Temos Futuro?

Este projeto do governo de demonizar a política e de desacreditar os políticos faz todo o sentido para Bolsonaro. Ninguém destrói a política e faz algo pelo povo. Fazer algo pelo povo é política e Bolsonaro está longe disso. Nenhuma das suas atitudes, salvo as que ele foi obrigado a tomar como o auxílio emergencial e agora as jogadas eleitoreiras, beneficiou a população. E ele não faz nada, diz mentiras, se outorga medalhas de mérito e com isso mantém acesa a chama da aceitação na sua parcela fiel de seguidores.


Nunca vi, em toda a minha vida, um governo mais inútil do que esse. Na época da ditadura, que vivi boa parte na vida adulta, não víamos tamanho descaso pelo país. Os militares daquela época bem que tentaram, a seu modo tosco e autoritário, fazer o país crescer. Cresceu a dívida econômica e social. Até hoje pagamos o alto preço de tamanha incompetência. Mas o país voltou aos trilhos da democracia, pelo menos por um tempo e escamoteando seu verdadeiro espírito elitista e preconceituoso.

Tirando os períodos em que o PT governou ou tentou governar, o Brasil voltou a ser comandado por esta elite burguesa da pior qualidade que só quer encher os bolsos de dinheiro e, filosoficamente, acredita no destino, religioso ou não, que a colocou em boas condições de vida ao contrário do pobre que a fatalidade castiga. É assim que deus quer e assim que tentam viver.

Meu mundo ideal é diferente. Talvez nem exista. O que vemos em países da Europa (alguns agora estão dando péssimo exemplo com a guerra) nós dá a impressão de que esses países vivem uma justiça social maior pelo desenvolvimento que tiveram. Alemanha e países nórdicos mais, França, Itália e o resto menos, mas ainda assim num nível de convivência social que consegue equiparar padrões mais civilizados de sobrevivência. Os preconceitos persistem, a xenofobia idem, os imigrantes são mal vistos e a luta pela sobrevivência é capaz de criar guerras para se justificar.

Que mundo é esse? Talvez esse seja o verdadeiro mundo em que somos mera contingência. Mas podemos melhorá-lo? Sim, é o que tentaremos com nossa teimosia política em outubro deste ano. Tudo leva a crer que Lula vai vencer, em que turno for. Mas, qual será a reação da direita bolsonarista? Será que ela aceitará? Qual será a reação dos militares, os da ativa, os que comandam? Será que o STF vai ter força de manter suas decisões. Será que o povo vai se comportar, aceitar o resultado e festejar na praia ou num bar?

Apesar dos mitos não temos muito essa tradição da revolta popular, nem a instrumentalizada. Temos exemplos de resistência e exemplos de golpes articulados. Agora qual será a verdadeira intenção da imprensa oficial, da Fiesp, dos bancos, do Mercado e dos militares? Será que eles vão preferir a continuação do nada? Ou será que vão ouvir a voz da razão de vários especialistas pelo mundo que chegou a hora de interromper esse delírio inútil da direita que parece não ter mesmo nada na cabeça. A destruição do país está sendo enorme e vai continuar.

Precisamos eleger um congresso que dê apoio ao presidente. Precisamos mudar o país, trazer ele de volta para o caminho que vinha traçando mesmo com todas as dificuldades. Melhor passar por problemas do que viver esse nada idiota e sem sentido que estamos assistindo e vendo nossas riquezas sendo roubadas ou destruídas. O Bolsonaro de cocar foi a coisa mais patética que já vi, mais falsa e ao mesmo tempo significativa. Mostra do que eles são capazes para sobreviver. Índio não quer apito, mas Bolsonaro quer e se não der pau vai comer.

domingo, 20 de março de 2022

Brasil de amor novo

 


Há 'maus' que vão passar a ser 'bons'?

A velha e sábia frase de Lord Palmerston, primeiro-ministro da rainha Vitória, proferida no auge do império britânico, apesar de tantas vezes repetida, nunca terá sido tão atual e global como hoje: “Não há aliados eternos nem inimigos perpétuos, apenas interesses que são eternos e perpétuos.” Desde que, com a invasão da Ucrânia, Putin fez cair a peça da Rússia no dominó mundial, toda a reconfiguração de uma nova ordem global entrou em ritmo acelerado, com cada país, ou bloco de nações, a procurar aproveitar as oportunidades que o momento oferece. Nesta nova realidade, que ninguém consegue prever com exatidão quanto tempo irá durar, mais do que alianças, procuram-se, agora, interesses comuns – até porque o inimigo, por enquanto “perpétuo”, já foi encontrado, com a Rússia a transformar-se numa espécie de ativo tóxico, a que ninguém quer ver-se associado.

Em nome dos interesses, assistimos à procura de novas alianças que, como Palmerston avisou, não serão eternas. E também não é de excluir que algumas inimizades, que pareciam perpétuas, passem, agora, para outra categoria, mais afável e de acordo com os alinhamentos geopolíticos que começam a ser formados.

Ahmad Qaddura (Suécia)

O interesse principal e mais urgente, como se percebe, é o das fontes de energia. Nesse campo, com o preço do barril de petróleo a subir e sem o fornecimento vindo da Rússia, começa a parecer já quase natural que a Venezuela possa, de repente, emergir de anos de sanções e de bloqueios e passe a vender novamente o seu “ouro negro” a norte-americanos e aos seus aliados. Isto porque, ao contrário até do que pensavam os EUA, os parceiros tradicionais de Washington no golfo Pérsico, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, receberam com frieza os apelos ocidentais para aumentarem a produção de petróleo, por forma a fazer baixar os preços.

Ao mesmo tempo, neste baralhar de cartas no jogo da geopolítica, também o Irão pode aproveitar a oportunidade, caso se conclua o novo acordo nuclear, garantia principal para que o seu petróleo possa regressar ao mercado mundial. E é muito significativo que, após meses de negociações, esse acordo esteja agora a ser bloqueado pela Rússia e não pelos EUA, como sucedia antes da invasão da Ucrânia.

A ironia (triste) não deixa de ser evidente: neste rearranjo de forças ao nível global, provocado por um autocrático Vladimir Putin, o Ocidente vai procurar alternativas energéticas noutros países… autocráticos. Entre eles, inclui-se, obviamente, a Arábia Saudita, onde o poder é exercido de facto pelo príncipe Mohammed bin Salman que, na última semana, mandou executar – de forma provocatória – 81 condenados “por terrorismo e crimes graves”, o que, naquele país, inclui todos e quaisquer opositores políticos do regime.

Quando, perante o que está a passar-se na Ucrânia, se traça uma linha divisória entre a autocracia e a democracia, era bom que o mesmo princípio fosse aplicado nas ações que se tomam a seguir. Embora o cinismo dos interesses tenha sido um dos pilares da ordem mundial saída da II Grande Guerra, também ficou provado que foi essa mesma postura que levou ao muito a que se assiste hoje, após o final da Guerra Fria. E há uma linha vermelha que os tempos atuais nos deviam traçar: não há ditadores “bons” – são todos maus, por definição.

O amanhã pós-guerra na Ucrânia

Até 25 dias atrás, excetuando os diretamente interessados, brasileiros podiam confundir Carcóvia, na Ucrânia, com Cracóvia, na Polônia — ambas majestosas segundas maiores cidades de seus países. Não mais. Também foi preciso desempoeirar às pressas nosso mapa-múndi escolar e aprender, com esta primeira guerra “live” da humanidade, a chamar Carcóvia de Kharkiv, versão anglicizada do nome original da cidade. Tudo em vão. Quando a guerra acabar não haverá mais a Kharkiv/Carcóvia de antes. Restarão apenas pirâmides de escombros e uma abissal dor coletiva, misturada a um oceano de luto individual. Serão inúmeros os horrores e as memórias a reparar por toda a nação invadida. Da eviscerada Mariupol, no sul do país, à europeia Lviv, no oeste, ficarão as marcas da desumanidade. A Ucrânia inteira, ou o que dela restar, precisará juntar seus cacos como sociedade.

Marian Kamensky (Áustria)

Mais uma vez, das ruínas desta quase Terceira Guerra, talvez não se aprenda a lição. Para restaurar a confiança do ser humano no mundo por ele fabricado, seria preciso não temer mudanças radicais, ter líderes com uma visão de futuro para além de seus cercadinhos de poder político. Difícil de imaginar, apesar da urgência de repensar a matriz capitalista em que o planeta está se destruindo a galope. Na devastação humana causada pela Covid-19, surgiu a possibilidade para todos entenderem que não existe país verdadeiramente civilizado sem saúde pública decente. O Brasil indecente de Jair Bolsonaro passou batido, com mais de 650 mil mortes de um vírus ainda longe de estar domesticado.

Por ora, as aflições gerais estão mais concentradas nesta guerra insana de que todos os envolvidos sairão perdedores, até os que vierem a comemorar alguma vitória. No fundo, somos todos perdedores, mesmo quando meros espectadores com continentes inteiros a nos separar dos combates. Perde-se em humanidade ao presenciar tanto horror, mesmo quando solidários e doloridos com a dor alheia.

A exceção, claro, são os gigantes da indústria armamentista mundial, que, a cada nova guerra, exibem capacidade de destruição mais sofisticada e precisa. Sem falar na temerária possibilidade de líderes de países sem guerras, mas com vocações aguerridas, se apropriarem da tática defensiva adotada pela Ucrânia para defender sua terra e povo do ataque invasor: armar a população civil e fazer dela uma milícia cívica de luta pela vida. A alma miliciana do Brasil bolsonarista teria propósito menos cívico — não devem faltar voluntários para defender o chefe de uma invasão democrática nas urnas.

Para momentos assim, decisivos e angustiantes, é bom lembrar vozes que conseguem nos ensinar a esperançar. A escritora americana Muriel Rukeyser é uma delas. No verão de 1949, aos 36 anos de idade, ela já havia militado junto aos anarquistas na Guerra Civil Espanhola, tinha atravessado as duas Guerras Mundiais, compartilhado um navio de refugiados com cinco vezes mais passageiros que o normal e sido presa por participar do emergente movimento em favor dos Direitos Civis dos negros, nos Estados Unidos. Então sentou-se e escreveu “The life of poetry”, uma coletânea de ensaios que falam de liberdade e resistência, tão indissolúveis da poesia como da vida.

“Em tempos de crise é preciso convocar nossa força interior”, ensina na introdução. Mas, para isso, precisará conseguir recorrer a todos os recursos de que dispõe o ser humano, lembrar cada momento em que soube usar seu poder. Só que essa dádiva exige um longo preparo no conhecimento de quem somos e do que queremos. Somente quando confrontados com horizontes e conflitos jamais vistos, testamos na totalidade nossa força. Para Rukeyser, só passamos para a etapa seguinte, a ação — seja escrever um poema ou engajar-se como cidadão — quando olhamos sem medo a vontade humana. E, se persistir a sensação de que ainda nos falta algo, ou de que perdemos ímpeto a caminho da ação, é porque não usamos tudo o que temos. Precisamos recomeçar a procura. Essa procura pode levar uma vida inteira, e há quem jamais se encontre. “À medida que vivemos nossas verdades, atravessaremos quaisquer barreiras, invocando as raízes da paz. Mas uma paz que não deve ser confundida com falta de guerra... Somos nós que vamos definir a paz, e viver para lutar pela sua chegada.”

A cada um de saber o que fazer do seu amanhã.

Das palavras e da guerra

Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos.(…) São a vida e quase toda a vida – a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. (…) Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.
Raul Brandão


Não sei que palavras utilizar , quando os dias que correm são dias de vergonha . Queria registar toda a perplexidade dorida que cresce , sempre que eclodem as notícias diárias. Mas « os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo» escreveu Wittgenstein, no século XX. Perante a barbárie, esgotam-se os caminhos da linguagem. Perante a crueza das realidades emergentes do mundo actual, é impossível ser claro, sem que a emoção nos embargue e o horror nos tome.

A verbalização é uma capacidade inerente à pessoa humana, à sua relação com o mundo e respectiva materialização. Eis porque se quedam as palavras numa agónica aporia, num silêncio de espanto perante o terror que milhares e milhares de seres humanos vivem, numa parte deste nosso mundo. E, quando esse terror é propagado pela tirana ambição de um só homem, de que nos servem as palavras que conhecemos? Recusam-se a traduzir a ferocidade do homem capaz de negar o outro homem. Teriam de ser medonhas , numa obscuridade indefinível , que logo ficariam opacas pela sua enormidade. Como criá-las? E inventá-las para quê , quando são glosadas infamemente pela boca do carrasco. A inversão de posições, o plano da realidade é empurrado para a vítima invadida, quando o agressor se diz ser ele próprio a vítima. O Ocidente está a sofrer o resultado da sua ambição, grita o louco facínora, enquanto lança bombas sobre crianças e gente desprotegida. Não lhe basta dizimar um país, mas quer estender a ameaça ao mundo ocidental. Que tipo de homem tem tamanha ambição?

E lembro-me de repente dum filme muito antigo
Em que o criminoso perguntava:
“De quoi est fait un homme, monsieur le comissaire?”
e nos seus olhos lia-se o pavor
de quem viu um abismo e não lhe sabe o fundo...
De quoi est fait un homme? De que são feitos os homens
que queimaram vivos outros homens? Que tinham centos de crianças
a morrer de fome e pavor, escravos como os pais?
que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões,
que os faziam descer ao mais fundo da degradação,
torturados, esfomeados, feitos chaga e esqueleto?
Eram esses mesmos homens
que faziam pouco da liberdade,
que vinham salvar o mundo da desordem,
que vinham ensinar a ORDEM ao planeta!
Sim, que traziam a paz com as grades das prisões,
a ordem com as câmaras de tortura...

Assim disse Adolfo Casais Monteiro, no magnífico poema Europa.

Sei que não sei dizer as palavras nem exactas nem reais .Tento reconhecê-las em quem as soube produzir. Mas sei, isso sim, que há dor a mais nos rostos de quem sobrevive à morte encomendada por um só homem. Homem que traz as grades da tortura para impor a Ordem do seu amordaçado mundo. As palavras emudecem. E, se algumas sobreviverem, talvez repitam como Sartre: "Ces mots durs et noirs, je n’ en ai connu le sens que dix ou quinze ans plus tard et, même aujourd’hui, ils gardent leur opacité : c’est l’humus de ma mémoire."

Que Deus não salve Putin. Viva a Ucrânia.
Maria José Vieira de Sousa

sábado, 19 de março de 2022

Brasil em gestação

 


Educação é desenvolvimento

O Brasil é um país em compasso de espera. Seguimos aquém do nosso potencial, marcados por abissal desigualdade e um racismo que atravessa estruturas e instituições, sem conseguir projetar os caminhos para um desenvolvimento social, ambiental e econômico consistente, justo e adequado aos parâmetros do século XXI. Educação é variável chave para resolver essa equação.

Nesta coluna inaugural cito alguns trabalhos de economistas que se dedicaram a investigar a relação entre educação, desenvolvimento social e o crescimento econômico, sem pretensão de esgotar o debate que atravessa vários campos de saberes.

Em artigo de 2009, Eric Hanushek e Ludger Woessmann apontaram que maiores níveis de escolarização e da qualidade do ensino — medidos no Pisa, exame internacional da OCDE — geram maior crescimento econômico.

Em 2018, quando esteve aqui, Hanushek estimou que se todos os jovens completassem o ensino médio com qualidade, o PIB brasileiro seria elevado em 16%, e os salários médios seriam 30% maiores.


Investimentos que garantam a permanência na escola e uma educação com altas expectativas e qualidade para todos geram retornos além dos mensurados em testes ou indicadores econômicos.

Estudos de James Heckman, Nobel de Economia em 2000, e de vários pesquisadores demonstram que programas bem desenhados e implementados para a primeira infância têm impacto duradouro em toda a vida adulta, reduzindo taxas de criminalidade e gravidez precoce não planejada e aumentando a conclusão do ensino médio, empregabilidade e a renda do trabalho.

Considerando esses impactos mais amplos, Ricardo Paes de Barros e coautores estimam que o Brasil perde R$ 214 bilhões por ano por causa da evasão escolar. Naércio Menezes Filho e Luciano Salomão mostraram que cidades em que mais estudantes completam o ensino médio com melhores notas no Enem apresentam maior redução em homicídios entre jovens, aumento de matrículas no ensino superior e geração de empregos para essa faixa etária.

Mais ainda, a educação tem enorme potencial de redução da pobreza e das desigualdades, como indicam diversos estudos de Esther Duflo e Abhijit Banerjee, Nobel de Economia em 2019.

Vale lembrar que, além dos retornos econômicos e sociais, a garantia de educação de qualidade para todos é um direito constitucional. E na quadra atual — marcada pelo aumento da desigualdade interna e entre países; pela expansão de movimentos e governos autoritários que põem em xeque a democracia; pelo crescimento de movimentos anticiência; e pelos desafios da emergência climática e ambiental — trata-se também de um imperativo ético.

Nesse sentido, Amartya Sen, Nobel de Economia em 1988, vincula a expansão das liberdades substantivas e das capacidades individuais às possibilidades concretas de desenvolvimento. Ao propor uma visão de “desenvolvimento como liberdade” indica caminhos transformadores e opostos aos modelos que percorremos em nossa História, mais marcada pelo que eu denominaria de desenvolvimento como exclusão.

Nossas recorrentes opções pelo crescimento econômico esvaziado de sentido humano e dissociado do compromisso com a equidade, a mobilidade social e a responsabilidade socioambiental colocam a sociedade brasileira em estado de suspensão, na condição de um eterno vir a ser.

Sem uma educação que garanta o desenvolvimento pleno e integral dos estudantes, com as competências cognitivas, socioemocionais, morais e éticas aderentes aos desafios da sociedade contemporânea do conhecimento, consolidaremos uma restrição estrutural das potencialidades não só dos indivíduos, mas também do país.

Não podemos seguir negligenciando a educação, nem permitindo que o Brasil reproduza suas desigualdades, com concentração de oportunidades e a naturalização do abandono dos vulneráveis.

Decidir como será a nossa educação significa decidir também quem queremos ser e aonde queremos chegar. É a partir da garantia de uma educação de qualidade — e qualidade só faz sentido se for para todos — que teremos melhores cidadãos e profissionais, um ambiente politicamente mais estável e maduro, socialmente mais virtuoso e criativo, e economicamente mais dinâmico e produtivo.

A mudança é urgente e só vai acontecer a partir de um grande esforço coletivo pela educação. Iremos nos engajar? Como vamos colocar energia, talento e recursos nessa transformação?

Matar e morrer na Ucrânia por quê

Em meados do século XVI, Étienne de La Boétie escreveu o “Discurso da servidão voluntária”. Sua preocupação dizia respeito às causas da dominação de poucos sobre muitos, e a como estes aceitam: “De onde um só tira o poder para controlar todos?”.

Quando um homem determina que outros milhões caminhem para a guerra, é algo questionável, mas que alcança o paroxismo quando essas pessoas obedecem. A guerra não tem outro significado além de matar e morrer. Matar quem e morrer por que ou por quem? Certamente, soldados são enviados para guerras para eliminar pessoas que jamais viram na vida. Pessoas que têm famílias, paixões, histórias, sentimentos. Nesse ínterim, crianças, mulheres e idosos são assassinados; prédios, esculturas, estradas, construídos por várias gerações, são destruídos instantaneamente por bombas.

As perguntas que devemos fazer são:

1) o que pode justificar uma guerra que tire vidas?

2) como uma guerra pode ser aprovada sem um plebiscito que expresse a vontade da maioria? Regimes que aprovam guerras sem consulta popular podem ser considerados democracias?

3) por que quem declara guerra não vai para o front como parte da infantaria do seu exército? É covarde alguém declarar guerra e ficar num palácio em absoluta segurança? Os filhos das elites servem aos quartéis ou, majoritariamente, jovens pobres, sem perspectiva, seguem a vida militar? Os corpos dos soldados são tidos como sub-humanos e não representam nada para os governantes que impõem a guerra?

O militarismo e a sua lógica não existem apenas na Rússia e na Ucrânia. O colonialismo, como nos ensina Frantz Fanon, foi resultado direto do militarismo. Foram homens armados dos Estados europeus que subjugaram, escravizaram e humilharam milhões de indígenas e africanos que consideravam abaixo da linha da humanidade, como advogam teóricos contra os resquícios do colonialismo (da Teoria Decolonial). Os regimes nazifascistas do século XX tinham o militarismo e o paramilitarismo como pontas de lança, assevera Michel Foucault. Dessa maneira, judeus e todos considerados de esquerda foram perseguidos, presos e enviados para campos de concentração, como se animais fossem para o abate.

Nos dias atuais, milhões do nosso orçamento são destinados para compra e manutenção de armamentos, enquanto em escolas e hospitais falta o básico. É importante destacar que o atual governo incrementou o orçamento para a pasta dos militares.

Nosso presidente declarou neutralidade diante do que vem acontecendo na Ucrânia. É desalentador, mas talvez explique por que nossos militarismo e paramilitarismo matam jovens negros e indígenas, também considerados sub-humanos, nas favelas, periferias e florestas. Passaram-se cinco séculos, porém, infelizmente, ainda não temos respostas à questão de La Boétie.

Wallace de Moraes

À beira do céu e do inferno

Para satisfazer otimistas e pessimistas, podemos concluir dizendo que estamos no limiar do céu e do inferno, movendo-nos nervosamente dos portões de um para a antessala do outro. A história ainda não se decidiu sobre nosso destino, e uma série de coincidências ainda pode nos colocar em uma ou outra direção.
Yuval Noah Harari, "Sapiens: uma breve história da humanidade"

É por isso que as autocracias falham

Nos últimos anos, as autocracias pareciam ter a vantagem. Na autocracia, o poder é centralizado. Os líderes podem responder aos desafios rapidamente, transferir recursos de forma decisiva. A China mostrou que as autocracias podem produzir prosperidade em massa. A autocracia obteve ganhos globais e a democracia continua a declinar.

Nas democracias, por outro lado, o poder é descentralizado, muitas vezes polarizado e paralítico. O sistema político americano tornou-se desconfiado e disfuncional. Um aspirante a autocrata caseiro ganhou a Casa Branca. Acadêmicos escreveram livros populares com títulos como “Como as democracias morrem”.

No entanto, as últimas semanas foram reveladoras. Ficou claro que quando se trata das funções mais importantes do governo, a autocracia tem graves fraquezas. Esta não é uma ocasião para triunfalismo democrático; é uma ocasião para uma avaliação realista da inépcia autoritária e talvez da instabilidade. Quais são essas fraquezas?


A sabedoria de muitos é melhor do que a sabedoria dos megalomaníacos. Em qualquer sistema, uma característica essencial é: como a informação flui? Nas democracias, a formulação de políticas geralmente é feita mais ou menos em público e há milhares de especialistas oferecendo fatos e opiniões. Muitos economistas no ano passado disseram que a inflação não seria um problema, mas Larry Summers e outros disseram que sim, e eles estavam certos. Ainda cometemos erros, mas o sistema aprende.

Muitas vezes, nas autocracias, as decisões são tomadas dentro de um círculo pequeno e fechado. Os fluxos de informação são distorcidos pelo poder. Ninguém diz ao homem superior o que ele não quer ouvir. A falha de inteligência russa sobre a Ucrânia foi surpreendente. Vladimir Putin não entendia nada sobre o que o povo ucraniano queria, como eles iriam lutar ou como seu próprio exército havia sido arruinado pela corrupção e cleptocratas.

As pessoas querem sua maior vida. Os seres humanos hoje em dia querem ter uma vida plena e rica e aproveitar ao máximo seu potencial. O ideal liberal é que as pessoas sejam deixadas tão livres quanto possível para construir seu próprio ideal. As autocracias restringem a liberdade em nome da ordem. Muitos dos melhores e mais brilhantes estão fugindo da Rússia. O embaixador americano no Japão, Rahm Emanuel, destaca que Hong Kong está sofrendo uma devastadora fuga de cérebros. Bloomberg relata : “Os efeitos da fuga de cérebros em setores como educação, saúde e até finanças provavelmente serão sentidos pelos moradores nos próximos anos”. As instituições americanas agora têm quase tantos pesquisadores de IA de primeira linha da China e dos Estados Unidos. Dada a chance, as pessoas talentosas irão para onde está a realização.

O homem da organização se transforma em homem gângster. As pessoas ascendem através das autocracias servindo impiedosamente à organização, à burocracia. Essa crueldade os torna conscientes de que os outros podem ser mais cruéis e manipuladores, então eles se tornam paranoicos e despóticos. Eles geralmente personalizam o poder para que sejam o Estado, e o Estado são eles. Qualquer dissidência é considerada uma afronta pessoal. Eles podem praticar o que os estudiosos chamam de “seleção negativa”. Eles não contratam as pessoas mais inteligentes e melhores. Essas pessoas podem ser ameaçadoras. Eles contratam os mais fracos e os mais medíocres. Você obtém um governo de terceiros (veja os líderes das forças armadas russas).

O etnonacionalismo embriaga-se. Todo mundo adora alguma coisa. Em uma democracia liberal, o culto à nação (que é particular) é equilibrado pelo amor aos ideais liberais (que são universais). Com o fim do comunismo, o autoritarismo perdeu uma importante fonte de valores universais. A glória nacional é perseguida com fundamentalismo inebriante.

“Acredito na passionaridade, na teoria da passionaridade”, declarou Putin no ano passado. Ele continuou: “Temos um código genético infinito”. A passionaridade é uma teoria criada pelo etnólogo russo Lev Gumilyov que sustenta que cada nação tem seu próprio nível de energia mental e ideológica, seu próprio espírito expansionista. Putin parece acreditar que a Rússia é excepcional em frente após frente e “em marcha”. Esse tipo de nacionalismo maluco ilude as pessoas a perseguirem ambições muito além de sua capacidade.

Governo contra o povo é receita para o declínio . Líderes democratas, pelo menos em teoria, servem a seus eleitores. Líderes autocráticos, na prática, servem ao seu próprio regime e longevidade, mesmo que isso signifique negligenciar seu povo. Thomas J. Bollyky, Tara Templin e Simon Wigley ilustram como as melhorias na expectativa de vida diminuíram em países que recentemente fizeram a transição para autocracias. Um estudo com mais de 400 ditadores em 76 países por Richard Jong-A-Pin e Jochen O. Mierau descobriu que um aumento de um ano na idade de um ditador diminui o crescimento econômico de seu país em 0,12 pontos percentuais.

Quando a União Soviética caiu, soubemos que a CIA havia exagerado na economia soviética e no poderio militar soviético. É muito difícil administrar com sucesso uma grande sociedade por meio do poder centralizado.

Para mim, a lição é que, mesmo quando enfrentamos autocracias até agora bem-sucedidas como a China, devemos aprender a ser pacientes e confiar em nosso sistema democrático liberal. Quando enfrentamos agressores imperiais como Putin, devemos confiar nas maneiras como estamos respondendo agora. Se aumentarmos de forma constante, paciente e implacável a pressão econômica, tecnológica e política, as fraquezas inerentes ao regime crescerão cada vez mais.
David Brooks, The New York Times

Queremos liberdade! Por que então defender ditadores?

É assustador ver regimes autoritários como os da Nicarágua ou da Rússia serem defendidos. A democracia não era um valor universal, principalmente para a esquerda?

Cresci na Europa ocidental durante os anos 80, no auge da Guerra Fria. Na escola, os professores passavam vídeos em que se explicava como se comportar durante um ataque com bombas atômicas. Vindo da União Soviética. E no cinema passavam filmes que falavam sobre um mundo pós-destruição nuclear. Tudo muito assustador para uma criança como eu.

A única coisa que nos salvaria eram as bombas atômicas dos Estados Unidos, ou melhor: a "promessa" de que os EUA iriam responder a um ataque russo na mesma moeda. E funcionou: a Guerra Fria nunca esquentou.

Com meu pai, eu ia até a fronteira das duas Alemanhas, observando de longe os soldados da Alemanha Oriental que vigiavam aquele corredor da morte, a fim de não deixar ninguém passar do lado "comunista" para o lado "capitalista". Cada família tinha amigos ou parentes no outro lado, e todos sabiam de histórias de compatriotas tentando fugir da ditadura "comunista". Poucos conseguiam.

Para aos do outro lado, a história vinha sendo cruel: depois de 12 anos de ditadura de Hitler, tiveram que engolir ainda mais 40 anos de ditadura soviética. Lembro-me de um amigo da minha avó, preso durante o Terceiro Reich, depois prisioneiro de guerra na Rússia, para então ser preso na Alemanha Oriental. Uma vida destruída pelo cruel caminho da história.

Para muitos europeus que conheço, como amigos poloneses e búlgaros, a queda da União Soviética foi um alívio, a melhor coisa que poderia acontecer. A partir de então conseguiam estudar e trabalhar em outros países da União Europeia, viajando pelo mundo, matando toda aquela vontade que se acumulara durante a Guerra Fria. Liberdade, ar para respirar! Finalmente.

Não cresci na América Latina ou no Brasil. Só cheguei aqui quando já tinha 26 anos, no final dos anos 90. Mas fiz muitas entrevistas com pessoas que lutavam contra as ditaduras latino-americanas. E a maioria dessas cruéis ditaduras foi apoiada pelos Estados Unidos, durante a Guerra Fria. Os Estados Unidos que libertaram os alemães do monstro Hitler e que salvaram a gente de um ataque russo, aqui causaram muito sofrimento. Entendo que muitos latino-americanos desconfiem dos Estados Unidos.

Mas isso não os abstém da obrigação de refletir e de se atualizar. Havia muitos argumentos para derrubar ditadores como Fulgencio Batista em Cuba, em 1959, ou Anastasio Somoza na Nicarágua, em 1979. Mas nada justifica defender, em pleno 2022, a falta de liberdades impostas pelos regimes que sucederam àqueles ditadores. Hoje em dia, falo com ex-combatentes sandinistas que me dizem que Daniel Ortega se transformou num ditador tão cruel - ou até mais cruel - que o próprio Somoza.

Não entendo como parte da esquerda latino-americana pode defender esses regimes. Como, também não entendo como defendem o regime russo de Vladimir Putin. Um regime que cala a oposição, envenenando ou prendendo-na, botando ativistas gays na prisão e desrespeitando direitos fundamentais dos seus próprios cidadãos. Além de achar ter o direito de ditar o modo de vida de povos que habitam países vizinhos.

Entendo o desejo de pessoas do Leste Europeu de levar uma vida de liberdade de escolher, liberdade de viajar, de viver em paz onde quiser, ou melhor dizendo, de se tornar um cidadão da União Europeia. Voltar para o colo esmagador da Rússia seria inaceitável!

Mas é difícil encontrar pessoas aqui no Brasil que levem em conta a vontade dos povos e países do Leste Europeu sobre como viver a própria vida. São brasileiros que defendem a própria liberdade - e com toda a razão -, mas não dão o mesmo direito às pessoas no Leste Europeu.

Não espero nada do campo da extrema direita bolsonarista. Bolsonaro gosta automaticamente de líderes tipo macho alfa que topam tirar foto com ele, como Donald Trump ou Vladimir Putin. No tabuleiro das ideologias, ele não sabe se é para jogar com as figuras brancas ou pretas. Não tem bússola ideológica ou norte moral nenhum.

Mas da esquerda eu esperava mais. Mais capacidade de refletir e abstrair. De se colocar no lugar do outro. Vladimir Putin mudou a Constituição russa para ficar no poder até 2036. Seriam 37 anos no poder, pois assumiu em 1999. E o líder da oposição Alexei Navalny corre o risco de passar o resto da vida na prisão, depois de sobreviver a uma tentativa de envenenamento.

Na Nicarágua, Daniel Ortega está no poder desde 2006 e agora tem mandato até 2026. Mandou condenar os políticos da oposição para que fiquem uma eternidade na prisão.

Até quando haverá apoio a esses regimes? Aqueles que reclamam para si direitos democráticos têm de defender os direitos democráticos em outras partes do mundo. Afinal de contas, não existia um compromisso com uma democracia universal? Cadê?

sexta-feira, 18 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


A mãe de todas as bombas

O ponto central do debate sobre as diferentes tragédias sociais em todas as épocas foi sintetizado por Jeffrey Sachs: “Todos os anos mais de 8 milhões de pessoas morrem no mundo por causa da miséria” (O Fim da Pobreza).

Nesse cenário, fica engraçado o hábito de se atribuir uma mãe a todo problema que acomete a humanidade. Reparem que, no caso do telefone, avião, luz elétrica e outras boas novas, nomeia-se um pai.

Enquanto isso, tragédia só tem mãe. Por exemplo, pandemias, guerras e bombas têm “a mãe” e essa maternidade superlativa se renova de tempos em tempos. São recorrentes as “mães de todas as guerras” (provocadas por homens) e as “mães de todas as pestes” desde a lepra até a Covid-19.

Porém, a mãe que mais evoluiu foi a das bombas. No séc. XVI canhões chineses lançaram as primeiras “mães de todas as bombas”. Não havia muralha que resistisse a tanta mãe. Os espanhóis e os turcos também tiveram suas próprias mães (de todas as bombas) disparadas por canhões gigantes.

As últimas balas de canhão de porte descomunal foram usadas na I Guerra Mundial (outra “mãe de todas as guerras”). Depois de então, os artefatos mais destrutivos passaram a ser despejados de aviões.

Foi o caso da bomba atômica, a mais poderosa “mãe de todas as bombas” já usada em um conflito. Curioso é que essa mãe das bombas recebeu um nome inocente, de filho – “Fat Boy” – pelo seu design rechonchudo. Enquanto isso, o piloto que a lançou sobre Hiroshima escreveu na fuselagem do seu B-29 o nome da sua mãe – “Enola Gay”.

Após tantas candidatas nucleares terem enferrujado nos mísseis da Guerra Fria, a última “mãe de todas as bombas”, lançada em uma operação militar, acabou sendo um dispositivo convencional norte americano, a MOAB, jogada sobre o Afeganistão numa demonstração de força do presidente Trump.


Entre tantas mães explosivas, seria razoável encontrarmos um pai à altura. Para poupar uma busca improdutiva pelos possíveis pais de cada bomba em sua época, podemos refletir sobre a hipótese de haver um único “pai de todas as bombas”.

E, antes que alguém, por distração ou vontade, resolva atribuir tal título de genitor universal a algum canhão, um avião, ou talvez um cientista, vale a pena considerar que o pai de todas essas bombas pode ser, também, pai de uma prole maior, incluindo a pobreza, a fome, aquecimento global, criminalidade e o racismo.

Desvendar paternidade nunca é tarefa fácil, porque os pais que não assumem seu ato disfarçam-se de formas sutis. Além do mais, para o tipo de ascendência em questão, não há exame de DNA. É preciso procurar rastros e vestígios.

Ocorre que, em uma sociedade narcisista orientada pelo acúmulo de riquezas e pela obsessão do consumo, inevitavelmente a digital mais nítida estará no dinheiro. Seguindo as pegadas dos fluxos financeiros, não será difícil concluir que o “pai de todas as bombas” sempre foi a desigualdade social.

A desigualdade é o maior mecanismo de devastação inventado até hoje. À primeira vista pode parecer que as bombas provoquem pobreza. Contudo, olhando com atenção, o ciclo é inverso.

A desigualdade social financia as aventuras belicosas por meio das transferências de renda e riqueza, das populações e territórios mais pobres para os segmentos econômicos capazes de investir no negócio da guerra.

Basta observar que durante a pandemia a receita anual dos 100 maiores grupos do setor mundial de defesa manteve-se acima de meio trilhão de dólares, concentrados em 15 países, enquanto a economia mundial diminuiu mais de 3% ao ano (fonte: SIPRI, Estocolmo). Vejamos, nos eventos da Ucrânia, quem terá lucrado ou empobrecido ao final.

Triunfo do populismo

É preciso ter clareza sobre a real natureza do risco político a que estará submetida a condução da política econômica nas eleições de outubro.

Quando se trata de outras dimensões de política pública — relacionadas, por exemplo, a educação, saúde, segurança pública, costumes, cultura e meio ambiente — faz algum sentido perceber a disputa presidencial polarizada, entre Bolsonaro e Lula, como um embate entre direita e esquerda.

No que tange à condução da política econômica, essa percepção de um embate entre direita e esquerda até chegou a fazer sentido na eleição de 2018, pelo menos para quem se deixou cair no conto de que Bolsonaro passara a ser um discípulo convicto e disciplinado de Paulo Guedes.


Na atual campanha presidencial, contudo, tal percepção já não faz nenhum sentido. O que estará em jogo, em outubro, será um embate entre duas visões populistas da condução da política econômica. Tentar reduzir tal embate a um entrechoque entre direita e esquerda só dificulta a compreensão do que de fato estará em jogo.

Que diferença fundamental há entre as propostas de alteração da política de preços de combustíveis que vêm sendo defendidas por Lula e o PT, de um lado, e por Bolsonaro e o Centrão, de outro?

Que diferença há entre a obstinação com que o PT se propõe a afrouxar o teto de gastos, de um lado, e o inconformismo de Bolsonaro e do Centrão com a limitação da expansão de despesas no Orçamento da União, de outro?

Que forças políticas no Congresso dão, hoje, respaldo inequívoco à preservação do teto de gastos e da responsabilidade fiscal? É bom lembrar do apoio maciço de supostos “partidos de oposição” à aprovação da PEC dos Precatórios, no final de 2021. O PT só votou contra porque, na verdade, defendia um Auxílio Brasil de R$ 600 por mês.

A seis meses e meio do primeiro turno da eleição presidencial, Bolsonaro, articulado com o Centrão, continua investindo contra o alambrado das restrições fiscais para, na medida do possível, tentar compensar, com farta distribuição de benesses ao eleitorado, a expansão medíocre do PIB e do emprego.

Não parece haver limite para o vasto cardápio de medidas populistas que vêm sendo aventadas e anunciadas. Para tentar manter as aparências, iniciativas mais desabridamente irresponsáveis vêm sendo levadas adiante por uma tabelinha entre o Planalto e o Centrão, em que se reserva ao ministro da Economia o papel de quem está na defesa, tentando tomar a bola.

Nas últimas semanas, esse quadro já desalentador tornou-se ainda mais difícil, na esteira das ondas de desestabilização deflagradas pela invasão da Ucrânia. Em meio ao sério descontrole inflacionário com que o Banco Central já vinha tendo de lidar, o país se vê, agora, às voltas com forte choque de preços externos advindo dos abalos nos mercados internacionais de commodities, especialmente de petróleo.

O repasse da elevação dos preços internacionais aos preços internos de combustíveis foi o que bastou para deflagrar um verdadeiro festival de populismo, em que os dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de votos se têm alternado, na formulação de propostas estapafúrdias que possam impedir o encarecimento de derivados de petróleo em ano eleitoral.

Na esteira do esgarçamento do compromisso do governo com uma política econômica realista e coerente, pautada pela responsabilidade fiscal, há alto risco de que, mais uma vez, a campanha presidencial passe ao largo das questões que verdadeiramente importam.

Se, de fato, ficar restrita à polarização Lula-Bolsonaro, a eleição promete se converter em mero embate entre variantes de populismo, mal disfarçadas em programas econômicos anódinos dos dois candidatos. O que marcaria abandono explícito — a meio caminho, se tanto — da agenda de reconstrução de política econômica que, aos trancos e barrancos, o país vinha tentando levar adiante, desde 2016.

Essa é a essência do risco político que permeia a disputa presidencial de outubro.

Os frutos da guerra

Zap (França)
O horror tornou-se quotidiano,

a destruição transformou-se em hábito,
o mundo foi ficando kafkiano,
o morrer, agora, volveu-se súbito,

as lindas crianças servem de alvo,
e os olhos das mães gritam de espanto!
Se nada do que temos está a salvo,
fina-se a fala e também o canto.

A morte agora veste-se de aço
e vomita incêndios majestosos:
volatiliza com desembaraço

o museu, o palácio esplendoroso,
o hospital, o armazém, a praça
e tudo quanto o horror devassa!
Eugénio Lisboa

Na Ucrânia, mas sem celular

Durante a primeira semana após a invasão russa da Ucrânia, a vida de Bobuubi e sua família só não foi pesadelo maior porque sua comunidade, no Twitch, o salvou. Ele é um streamer. Seu trabalho, sua profissão, é jogar videogames ao vivo. Seu rosto aparece pequenino num canto da tela, o jogo preenche o resto. Bobuubi é polonês, mas vivia na Ucrânia, próximo à fronteira russa. Streamers costumam ter games preferenciais — no caso dele, é “Escape from Tarkov”, um detalhado simulador de guerra baseado no conflito entre Rússia e Chechênia. O público de Bobuubi estava assistindo ao vivo quando as primeiras bombas reais começaram a cair perto de onde ele estava. Ele se despediu emocionado. Precisava encontrar a família e fugir.

Bobuubi, por formação, entende de tecnologia e de guerra. Por isso mesmo, quando entrou em seu carro com a família, sabia que precisaria manter o celular desconectado. Celulares ligados à rede são guias para a localização de quem os carrega. Isso quer dizer, também, que ele precisava atravessar um país em guerra sem usar Waze. Contou com a ajuda de seu público, gente que ficou on-line por dias acompanhando a viagem pelo Google Maps e pelo noticiário, simultaneamente. A cada vez que o streamer ligava o celular para se conectar com o mundo por um tempo curto, mandava sua localização para os amigos virtuais. Eles retornavam com capturas de tela dos mapas com rotas possíveis desenhadas, todas contornando os lugares onde, segundo a imprensa, existiam tropas russas. Bobuubi atravessou a Ucrânia com mapas estáticos e o celular no modo avião.

Essa compreensão, de que celulares em guerra são delicados, escapa aos brasileiros. O exibicionismo de Instagram dos voluntários que saíram daqui é um dos suspeitos de ter ajudado os russos a localizar uma base da Legião Estrangeira em Lviv, cidade próxima à Polônia. A base foi dizimada. Posar com uniforme camuflado e arminha não está entre os hábitos de outros voluntários. Talvez porque a estética do bolsonarismo seja só nossa.

Tristan Harris, o ativista pela humanização dos algoritmos das redes, fala muito sobre como nosso ego é acarinhado pelo código. Os diversos filtros de fotografias se popularizaram tornando a pele mais lisa, os traços mais suaves, afinando rostos. Nossa versão na rede é parecida o suficiente conosco, mas é aquela versão aperfeiçoada. Quanto mais fragilizada está a pessoa a respeito da autoimagem, mais quer se ver na rede. A submetralhadora e o uniforme representam o mesmo mecanismo.

Há outra forma como as redes alimentam o ego — é pelas ideias. Elas vão forçando pessoas a pensar de forma cada vez mais parecida, vão pasteurizando o debate. Quanto menos novidade alguém trouxer, quanto mais parecido for seu discurso com o da tribo, maior o número de likes. Ninguém muda de ideia.

Há uns dias, Bernardo Mello Franco, meu vizinho cá nesta página, fez uma pergunta fundamental. O presidente chileno Gabriel Boric seria eleito no Brasil? Não é difícil responder. Que parlamentar de esquerda, no Brasil, tem coragem de ir ao Twitter escrever que o PT fez um governo corrupto, que Venezuela, Cuba e Nicarágua são ditaduras, ou de denunciar sem condicionantes a bárbara invasão russa de um país soberano? Receberia o tratamento que a militância de esquerda concedeu à deputada Tabata Amaral (PSB-SP).

Os líderes jovens da esquerda brasileira têm as mesmas ideias que septuagenários. No Brasil, Boric seria chamado de neoliberal em dois tempos.

Receita para uma guerra civil

Quando a guerra civil começou em Angola, em 1975, eu tinha 15 anos. Vivi aqueles dias com mais euforia do que inquietação. Acreditava, como a maioria dos angolanos, que a guerra era um episódio terrível, mas que depressa passaria, e que depois disso viveríamos dias luminosos num país independente e mais justo.

Lembro-me que dançávamos enquanto os morteiros explodiam, e balas tracejantes riscavam as noites. Os jovens militantes dos diferentes movimentos saíam das festas para fazer a guerra e voltavam ao amanhecer para terminar as cervejas, como se os combates fizessem parte da folia.

Logo a euforia acabou, mas os tiros não. Finalmente, a 22 de fevereiro de 2002, o líder da guerrilha, Jonas Savimbi, foi morto em combate. A bala que o matou foi a última a ser disparada. Contudo, já Angola estava destruída.



Não consigo imaginar pior tragédia para um país do que uma guerra civil. Uma guerra civil começa antes que alguém dispare o primeiro tiro, e as suas consequências prolongam-se décadas para além do último morto.

A receita para uma guerra civil exige, em primeiro lugar, a criação de uma cultura de exclusão. Regra geral, os movimentos em confronto não defendem posições novas. A novidade é a agressividade com que as defendem e a convicção de que não existe conciliação possível entre os diferentes projetos.

Amigos de toda uma vida zangam-se. Famílias separam-se. As mães proíbem os filhos de conversar sobre política à hora das refeições. Emergem líderes messiânicos, com um discurso de ódio, eventualmente exibindo armas de fogo, enquanto exploram velhos rancores partidários e fraturas sociais.

Logo surgem os primeiros assassinatos e atentados com motivação política. O Estado vai-se esboroando e perdendo terreno.

Muitas vezes, a cultura de exclusão, que serve de gatilho à guerra, é importada, obedecendo a interesses ou estratégias de outros países. Foi o que aconteceu em Angola, com os Estados Unidos e a União Soviética a combaterem no terreno através não só dos movimentos angolanos, mas também de tropas sul-africanas, cubanas e zairenses, bem como de mercenários portugueses, ingleses e americanos.

No limite, uma guerra civil pode destruir completamente um país, apagando-o dos mapas, como aconteceu com a Iugoslávia. Viajando pela Sérvia ou pela Croácia anda é possível encontrar pessoas que continuam a reconhecer-se como iugoslavos: “Antes de a guerra começar”, disse-me um desses órfãos, “eu nem sequer sabia que a minha família era sérvia ou que os meus vizinhos eram muçulmanos. Éramos todos iugoslavos, falávamos a mesma língua e tínhamos um destino comum”.

É possível identificar no momento que se vive hoje no Brasil alguns dos ingredientes necessários para o desastre. Em épocas assim, a primeira vítima costuma ser o bom senso.

Quero acreditar, porém, que ainda exista espaço para um diálogo o mais aberto possível, de forma a permitir a convergência de todas as forças políticas e da sociedade civil que defendam a paz e a democracia. Ao longo das próximas semanas assistiremos a um combate entre construtores de pontes e construtores de muros. Pobre Brasil se os construtores de muros ganharem.

O Brasil, um país amado no mundo inteiro pela sua cultura, pela sua alegria e generosidade, não pode permitir que o ódio se alastre e triunfe.
José Eduardo Agualusa

quarta-feira, 16 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


Os frutos da guerra

O horror tornou-se quotidiano,
a destruição transformou-se em hábito,
o mundo foi ficando kafkiano,
o morrer, agora, volveu-se súbito,

as lindas crianças servem de alvo,
e os olhos das mães gritam de espanto!
Se nada do que temos está a salvo,
fina-se a fala e também o canto.

A morte agora veste-se de aço
e vomita incêndios majestosos:
volatiliza com desembaraço

o museu, o palácio esplendoroso,
o hospital, o armazém, a praça
e tudo quanto o horror devassa!

Eugénio Lisboa

Era um dia frio

Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.


O saguão cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do fundo fora pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna. Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos, mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a eletricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha de economia, preparatória da Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada acima do tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda.

Dentro do apartamento uma voz sonora lia uma lista de cifras relacionadas com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica retangular semelhante a um espelho fosco, embutido na parede direita. Winston torceu um comutador e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. Winston foi até a janela: uma figura miúda, frágil, a magreza do corpo apenas realçada pelo macacão azul que era o uniforme do Partido. O cabelo era muito louro, a face naturalmente sanguínea, e a pele arranhada pelo sabão ordinário, as giletes sem corte e o inverno que mal terminara.

Lá fora, mesmo através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Na rua, pequenos redemoinhos de vento levantavam em pequenas espirais poeira e papéis rasgados, e embora o sol brilhasse e o céu fosse dum azul berrante, parecia não haver cor em coisa alguma, salvo nos cartazes pregados em toda parte. O bigodudo olhava de cada canto. Havia um cartaz na casa defronte, O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia o letreiro, e os olhos escuros procuravam os de Winston. Ao nível da rua outro cartaz, rasgado num canto, estalava ao vento, ora cobrindo ora descobrindo a palavra INGSOC. Na distância um helicóptero desceu beirando os telhados, pairou uns momentos como uma varejeira e depois se afastou num vôo em curva. Era a Patrulha da Polícia, espiando pelas janelas do povo. Mas as patrulhas não tinham importância. Só importava a Polícia do Pensamento.

Por trás de Winston a voz da teletela ainda tagarelava a respeito do ferro gusa e da superação do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Qualquer barulho que Winston fizesse, mais alto que um cochicho, seria captado pelo aparelho; além do mais, enquanto permanecesse no campo de visão da placa metálica, poderia ser visto também. Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que freqüência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Era concebível, mesmo, que observasse todo mundo ao mesmo tempo. A realidade é que podia ligar determinada linha, no momento que desejasse. Tinha-se que viver - e vivia-se por hábito transformado em instinto na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro.

Winston continuou de costas para a teletela. Era mais seguro, conquanto até as costas pudessem falar. A um quilômetro dali o Ministério da Verdade, onde trabalhava, alteava-se, alvo e enorme, sobre a paisagem fuliginosa. Era isto, pensou ele com uma vaga repugnância - isso era Londres, cidade principal da Pista Nº 1, por sua vez a terceira entre as mais populosas províncias da Oceania. Tentou encontrar na memória uma recordação infantil que lhe dissesse se Londres sempre tivera aquele aspecto. Haviam existido sempre aquelas apodrecidas casas do século dezenove, os flancos reforçados com espeques de madeira, janelas com remendos de cartolina e os telhados com chapa de ferro corrugado, e os muros doidos dos jardins, descaindo em todas as direções? E as crateras de bombas onde o pó de reboco revoluteava no ar e o mato crescia ao acaso sobre os montes de escombros; e os lugares onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e tinham nascido sórdidas colônias de choças de madeira que mais pareciam galinheiros? Mas era inútil, não conseguia se lembrar: nada sobrava de sua infância, exceto uma série de quadros fortemente iluminados, que se sucediam sem pano de fundo e eram quase ininteligíveis.

O Ministério da Verdade - ou Miniver, em Novilíngua - era completamente diferente de qualquer outro objeto visível. Era uma enorme pirâmide de alvíssimo cimento branco, erguendo-se, terraço sobre terraço, trezentos metros sobre o solo. De onde estava, Winston conseguia ler, em letras elegantes colocadas na fachada, os três lemas do Partido: GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORÂNCIA É FORÇA. Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos sobre o nível do solo, e correspondentes ramificações no sub-solo. Espalhados por Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatro ao mesmo tempo. Eram as sedes dos quatro Ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto.
George Orwell, "1984"

Heróis

Você acorda, Petrópolis foi destruída pela chuva. Mais de duzentos mortos, um monte de gente sem ter para onde ir. Você dorme e, no dia seguinte, a Rússia invadiu a Ucrânia. Você começa a ter medo de dormir, mesmo não estando em área de risco, mesmo não estando em zona de guerra. Você está no mundo, e o mundo é um desacerto com belas paisagens e poucos encontros.

Na televisão, as imagens dão a dimensão da catástrofe, enquanto mostram aqueles que, dilacerados, transformam-se em heróis. No Morro da Oficina, um pedreiro, ó, meu Deus, qual é o seu nome? Jefferson? Não sei. Meu esquecimento já mostra como esse heroísmo é efêmero. Mas vamos adiante. Jefferson perdeu mulher e filhos e cavucava o chão atrás da família. Naquele momento, os bombeiros não o ajudavam, e ele usava o que tinha: mãos, unhas, pá e picareta. Seu sonho era dar um enterro digno a cada um dos seus. Jefferson é um herói com todo caráter.


Na Europa, uma brasileira, Clara (dela guardei muito bem o nome), saiu da Alemanha e, dirigindo por mais de dez horas, foi até a fronteira da Polônia com a Ucrânia. Seu objetivo era simplesmente colocar brasileiros em seu carro e levá-los a uma cidade estruturada e capaz de abrigá-los. Depois eu soube que ela não era a única, vários brasileiros, saindo de outros pontos da Europa, faziam o mesmo. Essa carona acabou servindo não apenas a nossos compatriotas e enfrentou problemas adicionais, uma vez que eram impostos bloqueios nas estradas, tornando necessário tomar caminhos alternativos, cruzar outros países. Clara e os demais voluntários também são heróis plenos de caráter.

Jefferson e Clara serão esquecidos.

Einstein teria dito que não sabia como seria a terceira guerra, mas, na quarta, as armas seriam tacapes e braços, uma tremenda briga de rua. Sem rua. Se o conflito entre Rússia e Ucrânia não se difundir e o mundo não se acabar, ao fim da guerra, como sempre acontece, os heróis da morte serão eternizados em estátuas, nomes de rua, de praças etc.

Já em Petrópolis, nenhum monumento exaltando os heróis ou homenageando as vítimas será levantado. Os que sofreram perdas estarão marcados para o resto da vida, e os que podem mudar a situação permanente de risco, depois de discursos e promessas, voltarão a não gastar a verba nas obras de prevenção, se é que não a excluirão do orçamento. Até que nova chuva caia e eles chorem, em alguns casos até arregacem as mangas e se misturem aos despossuídos como se fossem um deles. Não são. Nunca foram. Eles acham que a culpa da tragédia é de quem construiu a casa lá na ribanceira.
Alexandre Brandão