quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O bolsonarismo quer aparelhar o Supremo

Na campanha, Eduardo Bolsonaro expôs uma receita para submeter o Judiciário: “Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo”. Seu pai propôs uma fórmula alternativa: aumentar o número de cadeiras de 11 para 21, o que lhe permitiria indicar dez ministros de uma vez.

As duas ideias ficaram pelo caminho, mas o bolsonarismo não desistiu de aparelhar o tribunal. Há duas semanas, a deputada Bia Kicis propôs mudar a Constituição para antecipar a aposentadoria dos atuais ministros. Se o texto for aprovado, os juízes que já fizeram 70 anos terão que despir a toga e vestir o pijama. Isso dobraria o número de vagas à disposição do presidente até 2022.


Pela regra atual, Bolsonaro poderá indicar os substitutos de Celso de Mello e Marco Aurélio Mello. Com a mudança, ele também escolheria os sucessores de Ricardo Lewandowski e Rosa Weber. Dos 53 deputados do PSL, 46 subscreveram o texto. Na segunda-feira, Joice Hasselmann declarou que trocar ministros do Supremo “seria muito bom”. “Se a gente derrubar a PEC da Bengala, a gente numa lapada já tira dois, três”, empolgou-se.

A PEC que elevou a idade de aposentadoria para 75 anos foi aprovada em 2015, com o voto de Bolsonaro. O objetivo da proposta, articulada por Eduardo Cunha, era impedir que Dilma Rousseff indicasse mais cinco ministros do STF. Agora que chegou ao Planalto, o presidente quer desfazer a mudança em causa própria.

O bolsonarismo vê o Judiciário como um obstáculo a seu projeto político. O Supremo já criminalizou a homofobia, barrou o Escola sem Partido e derrubou a canetada que retirava da Funai a demarcação de terras indígenas. Apesar de algumas fraquejadas, a Corte ainda impõe limites ao poder do presidente. É isso que o capitão e seus soldados querem neutralizar.

Líderes autoritários não gostam de tribunais independentes. No ano passado, o governo de extrema direita da Polônia promoveu um expurgo na Suprema Corte. Depois teve que recuar, sob pressão da União Europeia. A Hungria criou um sistema judicial paralelo, subordinado ao Executivo. A medida fortaleceu o premiê Viktor Orbán, um dos autocratas mais cortejados por Bolsonaro.

Eternamente deitados no atraso

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis - tarde demais
Lourenço Diaféria, "Herói. Morto. Nós"

Visita ao rinoceronte

Com a viagem de Bolsonaro ao Japão, China e adjacências, Brasília está privada de sua maior atração turística: a saída do presidente do Palácio da Alvorada, todas as manhãs, e os minutos que ele concede aos cerca de cem sujeitos que chegam de ônibus, vindos das mais remotas grotas, e se postam ali desde a madrugada à sua espera. Por volta das 10h, surge Bolsonaro e não os decepciona. Posa para selfies e, para gáudio geral, distribui agressões, afrontas e imprecações contra os inimigos e até contra os amigos. Como tudo é gravado por eles, não pode haver desmentidos.


Mas não há o que desmentir. Bolsonaro usa esse canal para mandar recados. Só não se sabe quem ele atacará, difamará ou fulminará naquele dia --um alvo importante é seu ministro de estimação, Sergio Moro, em cuja face ele aplica frequentes bofetadas verbais, para mantê-lo em seu lugar. O próprio Bolsonaro, em seu português de quinta, foi quem melhor se definiu nessa pantomima: "É o zoológico. Quando você vai no zoológico, você vai sempre na jaula do rinoceronte. Eu sou o rinoceronte da política". Mas logo se corrigiu: "O chifre é no nariz, hein, não é na testa, não!". A plateia teve frouxos de riso.

Bolsonaro nunca aproveitou esse circo matinal para fazer uma declaração digna de um estadista. Nunca disse uma palavra de estímulo sobre o trabalho de recuperação do Museu Nacional. Nunca demonstrou comoção pelos mortos de Brumadinho ou do Ninho do Urubu. Nunca lamentou a perda de símbolos nacionais, como Bibi Ferreira ou João Gilberto. O país não existe.

Reduziu a presidência à função de um vereador. Para ganhar a eleição, precisou do povo, mas, como governante, seu único mérito é o de estar unindo contra si todas as forças conscientes do país.

Em breve, só lhe restarão os filhos e os cem robotizados que o prestigiam no papel de, segundo ele próprio, rinoceronte do zoológico.
Ruy Castro

Sujeira para o Brasil limpar


Quatro biscoitinhos e o capeta

Seja a viagem curta ou nem tanto, com passagem cara ou mais ou menos, a bordo da Latam o viajante tem direito a quatro biscoitinhos – doces, chinfrins, e embalados dois a dois. A maioria dos passageiros abre e come. Há fome no ar.

São três companhias operando nacionalmente. Se quer voar, se precisa voar, engula os biscoitinhos e não chie, como não chiou ao pagar pela mala despachada.

Em tempos de deselegâncias explícitas, é permitido dizer que os quatro biscoitinhos do faz–de-conta-que-servimos-lanche da Latam - um deboche – são o engole sapo do dia.

Há outros batráquios a serem oferecidos pelas aéreas.

Na sexta-feira, 1º de outubro, a atriz Nathalia Dill usou seu Instagram, para reclamar ter sido retirada de uma aeronave da Gol por “sobrecarga” não dela, mas do voo. O avião continha mais peso do que o permitido.

"Quero que todos saibam o que está acontecendo! Eu e mais seis passageiros fomos retirados do voo por sobrecarga! Mas como assim!? Pagamos as passagens e não pudemos voar. Agora estamos aqui esperando uma solução que não chega nunca! E ao lado do nosso grupo tem um casal que teve o voo cancelado sem aviso! Meu Deus!", escreveu.

O post de Nathalia fez eco e outras vítimas de sobrecargas da Gol chiaram. Não sabemos se – e como – os ejetados daquele dia voaram ao destino pretendido. A Gol continua no ar.


Na mesma semana, o noticiário local da Brasília contava que um dos maiores hospitais públicos da capital federal, Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), suspendeu cirurgias por tempo indeterminado porque o ar condicionado central pifou.

Nos centros cirúrgicos, relatavam profissionais entrevistados, a temperatura chega aos 38 graus e os médicos operam com um auxiliar abanando com leque, papel, mãos... para aliviar a escaldante temperatura ambiente.

Dá para imaginar a cena? O risco para os operados? O desalento dos cirurgiões?

Pois então a matéria seguiu relatando: há seis anos o ar condicionado em questão não recebia qualquer manutenção. Ou seja, passaram um governo inteiro (quatro anos!) e outro meio (dois anos!) sem que houvesse a providência de dar uma geral no resfriamento do HRAN, que atende perto de sete mil pessoas ao mês.

A voz oficial da Secretaria de Saúde/DF disse que o novo governo, empossado em janeiro, agora está providenciando uma licitação para o "causo". E não há prazo para resolução.

O portal da instituição informa: o HRAN é referência no atendimento às vítimas de queimaduras, lábio leporino, crisdown (atendimento aos portadores da síndrome de down), cirurgia bariátrica.

Os biscoitinhos tipo caridade da Latam, a sobrecarga que expulsa passageiros da Gol, os 38º de temperatura ambiente no centro cirúrgico do HRAN, em graus distintos, são retratos do Brasil operando no modo Vale Tudo, onde o presidente pode até ser chamado de vagabundo por seus pares do partido em convulsão – o PSL, segundo maior em número de deputados na Câmara Federal.

Seus 52 deputados federais eleitos rendem ao partido 8,3 milhões mensais do Fundo Partidário. Até as pedras sabem que esses $$ motivam a briga de foice entre as esquadrilhas do presidente do partido e do capetão PR alimentado por seus três capetinhas – Carlos, Eduardo e Flávio.

O PR viajou, mas a crise não. Aqui, o caldeirão do PSL ferve, espirrando tanto enxofre quanto o óleo (de galões com assinatura Shell) derramado nas praias nordestinas. No caso do enxofre, sem voluntários pra limpar.

Vai dar ruim?
Nem Lúcifer arrisca palpite. Certeza mesmo só os quatro biscoitinhos que a Latam oferece para quem escapa, pelas suas asas, do calor de Brasília.

Choro dos privilegiados

Vamos ter que diminuir nossos privilégios e compartilhar mais
Cecilia Morel, mulher do presidente Sebastian Piñera, um dos mais ricos do Chile, em áudio vazado no WhatApp

'Arrecua os arfes', presidente

‘Pode me levar até a outra margem?”, perguntou o escorpião. “Não, você vai me picar, e eu vou me afogar”, respondeu a rã. “De jeito nenhum, se eu te picar, morro também”. A rã aceitou o argumento, e carregou o escorpião, que, no meio do rio, a picou. “Por que você fez isso? vamos morrer os dois!”, gritou a rã. “Não pude evitar, é a minha natureza”, respondeu o escorpião enquanto ambos afundavam.

Nos últimos meses, Bolsonaro brigou com jornalistas, políticos, intelectuais, cientistas, professores, artistas, ambientalistas, mulheres, homossexuais, transexuais, negros, militares, policiais, auditores, ministros, secretários, líderes estrangeiros. O confronto é sua natureza: ele não tem adversários, tem inimigos, e seus aliados devem se comportar como súditos, sob pena de serem vistos como traidores e tratados como inimigos.



O inimigo da vez é o ex-aliado Luciano Bivar. Depois de meses de disputa com o presidente do PSL pelo controle da verba do partido, Bolsonaro declarou que Bivar está “queimado” e recomendou que se esquecesse o PSL. Quis sair do partido, mas percebeu que teria que deixar o dinheiro para trás, e recuou: “foi uma briga de marido e mulher” (não disse quem é o marido e quem é a mulher) — as analogias erótico-conjugais do presidente são interessantes: a relação com Paulo Guedes é um “casamento hétero”; o atrito com Rodrigo Maia foi uma briga de namorados; o encontro com Augusto Aras foi “amor à primeira vista”; Trump ganhou um “I love you”.

Bolsonaro passou a exigir que o partido publique suas contas, diz que a falta de transparência sobre o laranjal do PSL é motivo para que seus apoiadores abandonem o partido sem perder os mandatos (e o dinheiro) — mas não vê no laranjal motivo para demitir seu ministro do Turismo, já até denunciado pelo Ministério Público. Bivar retaliou contratando auditoria para examinar a campanha de Bolsonaro. Coincidência ou não, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão contra Bivar. Daí para a frente, foi ladeira abaixo.

O PSL obstruiu uma Medida Provisória. Bolsonaro foi gravado em uma conversa que sugere que ofereceu cargos e verbas para eleger seu filho líder do PSL. Bivar aumentou sua representação no diretório nacional, suspendeu cinco deputados, tenta cassar outro, e destituiu os que estavam nos comandos regionais do partido (incluindo Flávio e Eduardo). O líder do PSL foi gravado por um bolsonarista chamando o presidente de “vagabundo” e “essa porra”, e afirmando ter uma gravação capaz de “implodi-lo”. Bolsonaro passou pela humilhação de não conseguir eleger Eduardo líder do partido. Uma derrota acachapante.

Na manhã de ontem, entretanto, o PSL revogou a suspensão dos cinco deputados, e o governo usou suas assinaturas para fazer de Eduardo líder. Deputados bivaristas denunciaram que o governo traiu o acordo de paz que previa manter o líder Delegado Waldir em troca da revogação da suspensão dos deputados, entraram com pedido para reconduzir Waldir e anunciaram que serão suspensos não apenas os cinco deputados originais, mas outros mais. A guerra se acirrou.

A única maneira de vencer um divórcio litigioso é parar de brigar, mas a “natureza do escorpião” sugere que a guerra vai continuar. O espírito de confrontação do presidente pode vir a ser o que Aristóteles chamou de harmatia, a “falha trágica”: o traço de caráter que leva o herói à destruição. Falta grandeza a Bolsonaro para ser considerado um herói trágico: sua conduta é vulgar, sua motivação (o dinheiro, a reeleição) é mesquinha. Mesmo assim, sua “falha burlesca”, ou tragicômica, pode ser sua perdição. “Ao cercar o inimigo, deixe-lhe uma saída, ou ele lutará até a morte”, escreveu Sun Tzu em “A Arte da Guerra” (em 2005, em circunstância distinta, Roberto Jefferson acreditou que não tinha saída, e o resultado é conhecido).

Dada a estatura da personagem, o enredo não é digno de Sófocles, mas o lendário filósofo do futebol Neném Prancha, se analisasse a situação em que Bolsonaro está, lhe daria um conselho:

“Capitão, arrecua os arfes para evitar a catastre.”

Resta saber se o presidente conseguirá contrariar sua natureza e aceitar o conselho.
Ricardo Rangel

Restaurou-se a monarquia, reina a esculhambação

A crise do PSL juntou num mesmo caldeirão política, família e assuntos de Estado. Em Tóquio, Jair Bolsonaro declarou que, em vez de virar embaixador nos Estados Unidos, o filho Eduardo deveria permanecer no Brasil para "pacificar" o partido. O presidente também afirmou que ninguém o verá "jogando lenha na fogueira" em que arde o PSL. Disse, de resto, que falta "serenidade" a um pedaço do PSL. Repetindo: Bolsonaro usou o verbo "pacificar" e o substantivo "serenidade". Ou seja: estava completamente fora de si.



Há duas semanas, agindo como um piromaníaco, Bolsonaro riscou o fósforo que acendeu a fogueira que ele agora fala em apagar. Disse a um apoiador, na frente do Alvorada, que Luciano Bivar, o presidente do PSL, está "queimado para caramba". Como quem sai aos seus não endireita, Eduardo Bolsonaro aproveitou os seus primeiros instantes como líder do PSL não para pacificar, mas para acentuar a guerra.

O filho do presidente afastou deputados rivais dos postos de vice-liderança e trocou representantes do PSL na CPI das Fake News, grande preocupação do governo. A Executiva do partido, ainda nas mãos de Bivar, abriu processos disciplinares contra 19 deputados —entre eles Eduardo Bolsonaro. E o grupo leal ao presidente da República obteve na Justiça liminar suspendendo os processos. Não será por falta de lenha que a fogueira continuará ardendo.

Em meio às labaredas, Jair Bolsonaro disse a seguinte frase sobre a indicação do filho para embaixador: "Isso o Eduardo vai ter de decidir nos próximos dias, (...) se ele quer ter seu nome submetido ao Senado para a embaixada ou não. (...) Não vou interferir na vida dele, ele é maior de idade" [O Zero Três decidiu que não irá para Washington]. Ora veja. A principal embaixada do Brasil no exterior tratada assim, como um caso de família, não um assunto de Estado. Restaurou-se a monarquia no Brasil. Reina a esculhambação.

Pensamento do Dia


Paulo Freire, 'subversor dos menos favorecidos', na ditadura

Quando os militares tomaram o poder em 1º de abril de 1964, depondo o então presidente João Goulart, Paulo Freire vivia com a família em Brasília, a serviço do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Envolvido com o trabalho de formação de professores em Goiânia, era sua assistente, Carmita Andrade, quem o mantinha informado sobre a intensa movimentação política na capital. Apenas dois dias antes, Carmita havia sugerido que ele voltasse a Brasília de imediato, porque as tensões pareciam se agravar decisivamente. Retornado às pressas, Paulo se surpreendeu ao procurar Júlio Furquim Sambaqui e ser convidado a acompanhar a leitura de uma conferência que o ministro daria dali a alguns dias. O chefe queria sua opinião. Incrédulo com a ingenuidade de Sambaqui, Paulo o alertou para o que lhe parecia um quadro de grave instabilidade institucional — e para a improbabilidade de ocorrer qualquer nova atividade do governo que representavam. No dia seguinte, os militares se instalariam no poder.

O ambiente político tornou-se tenso, com notícias desencontradas de todos os lados: haveria resistência da população? O Governo deposto conseguiria reagir ao golpe de Estado? Diante do clima de insegurança e da incerteza sobre seu futuro no ministério, Paulo pediu à mãe que levasse os filhos dele para Recife, onde mantinha uma casa. Providências tomadas, ele e a esposa, Elza, permaneceram em Brasília, levando uma vida reservada na casa de amigos. Queriam ser notados o mínimo possível.


Com lançamento previsto para 13 de maio, o Programa Nacional de Alfabetização seria extinto em 14 de abril, treze dias depois do golpe militar. O novo Governo aproveitou a ocasião para fazer duras acusações ao trabalho que Paulo e sua equipe vinham desenvolvendo; apontaram o material didático produzido como contrário aos interesses da nação e acusaram seus autores de querer implantar o comunismo no país. Acabava ali o sonho de lançar 60.870 Círculos de Cultura para alfabetizar 1,8 milhão de pessoas ainda em 1964, 8,9% do total na faixa de quinze a 45 anos que não sabiam ler nem escrever. A preocupação maior de Paulo era agora com o imponderável, um futuro incerto e perigoso para ele e sua família diante de tais acusações e do clima de perseguição política que se instalara.

Ao extinguir o Programa Nacional de Alfabetização, os militares respondiam às pressões de parcela conservadora da sociedade brasileira que atacava e desqualificava o trabalho de Paulo Freire. As denúncias passaram a ser instrumento de luta dos partidos políticos que apoiavam o golpe contra as siglas ligadas ao ex-presidente João Goulart. Paulo viu sua situação se tornar cada vez mais complicada.

Condenação do método

Na Câmara dos Deputados, políticos conservadores se revezavam na condenação permanente de seu método de alfabetização. Em 18 de abril, o deputado Emival Caiado, do partido conservador União Democrática Nacional (UDN), denunciou Mauro Borges, então governador de Goiás e aliado do ex-presidente Jango, de implantar o comunismo no Estado: “O método comunizante do sr. Paulo Freire teve entusiástica acolhida do Governo goiano. O sr. Mauro Borges deu total e completa cobertura a órgãos estudantis dominados por comunistas”. Caiado concluiu, aos brados: “Não creio que em nenhum outro Estado o comunismo tenha se infiltrado tanto!”.

Intensamente debatido como uma questão social das mais relevantes, o analfabetismo exigia dos militares uma resposta rápida, algo concreto que pudesse ser contraposto ao que vinha sendo feito nos anos anteriores. Em 15 de maio, os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo repercutiram a proposta apresentada pela vereadora paulistana Dulce Salles Cunha Braga ao novo ministro da educação, Flávio Suplicy de Lacerda. Figura ativa na articulação do golpe, a advogada e professora afirmava poder erradicar o analfabetismo no Brasil em apenas oito meses. Denominado “Alfabetização para massas”, seu método teria se mostrado bastante eficiente ao ser aplicado a partir de veiculação na rádio Record, no estado de São Paulo. Dulce propunha, com base nessa experiência, uma cartilha a ser distribuída pelo MEC, com apoio radiofônico do pro- grama A voz do Brasil, a fim de alcançar todo o território nacional. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, uma nova versão da cartilha já estaria pronta para divulgação imediata, com leituras retiradas do “ideário democrático, numa espécie de réplica ao modelo comunizante do método Paulo Freire”. O ministro Suplicy de Lacerda respondeu que analisaria a proposta com atenção e que logo se manifestaria.

Ao mesmo tempo, também o debate sobre o voto do analfabeto voltou à tona nos meses que se seguiram ao golpe militar. Em um país que historicamente proibia o voto aos iletrados, o Programa Nacional de Alfabetização representava uma ameaça aos redutos políticos cativos nas eleições seguintes. Em Sergipe, por exemplo, o Programa permitiria acrescer 80 mil eleitores aos 90 mil já existentes. Da mesma forma, em Recife, a iniciativa praticamente dobraria a quantidade de eleitores, elevando de 800 mil para 1,3 milhão o número de títulos. Projetados no cenário nacional, os exemplos demonstravam como o método do professor Paulo Freire, que propunha alfabetizar um iletrado em 40 horas, poderia alterar a correlação das forças políticas.

Como o programa de alfabetização, a questão do voto dos analfabetos também estava em debate e exigia uma resposta do novo governo. O marechal Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro militar a assumir a presidência depois do golpe, encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta de mudança tímida, que estendia o voto aos iletrados apenas nas eleições municipais — e de maneira facultativa. Ainda assim, a proposição foi derrotada, em parte pelo pouco empenho da bancada governista, fazendo crer que a medida era mero jogo de cena.

Intensiva propaganda comunista

Em sua edição de 30 de junho de 1964, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um artigo de Antônio Bernardes de Oliveira, médico, professor universitário e membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, intitulado “O voto do analfabeto, um desserviço à Nação”. O autor argumentava que tal possibilidade “só pode interessar ao demagogo e ao oportunista sem escrúpulos; não corresponde a nenhuma aspiração nacional; anula e avilta o voto consciencioso e de qualidade; compromete o regime; afasta as elites legítimas; reduz o papel dos partidos; convida ao suborno; nivela por baixo”. Sobre o método de Paulo Freire, em sua opinião adotado pelo governo deposto apenas para ampliar o colégio eleitoral, Bernardes de Oliveira dizia não passar de “uma manobra para alcançar dois escopos, uma intensiva propaganda comunista e a eclosão de uma invencível força eleitoral de índole facciosa onde a demagogia teria as portas abertas”.

Em Brasília, Paulo assistia a tudo com discrição. Elza já havia voltado para Recife para ficar junto aos cinco filhos do casal — Madalena, a mais velha, com dezoito anos, seguida por Cristina, Fátima, Joaquim e o caçula Lutgardes, então com cinco anos. Através de um intermediário com contatos entre os militares, Paulo sondou o então chefe do Gabinete Militar, o general Ernesto Geisel, e o general Antônio Carlos Muricy, comandante da 7ª Região Militar, se haveria algum impedimento para que deixasse Brasília e se juntasse à família. Quando soube que não, embarcou imediatamente para Pernambuco.

Chegando em Recife, tratou de retomar suas atividades acadêmicas e seus escritos, que havia deixado de lado com a mudança para Brasília. Paulo conquistara alta visibilidade a partir de 1963, quando encampou uma experiência de alfabetização em Angicos, no Rio Grande do Norte, trabalho desenvolvido com a equipe do Serviço de Extensão Cultural (SEC) da Universidade de Recife. Ali, 300 jovens e adultos participaram de seu processo de alfabetização em 40 horas. Amplamente propagandeados pelo governo estadual, os bons resultados levaram João Goulart a se deslocar de Brasília até o interior potiguar para participar do encerramento do curso. Com o sucesso e a repercussão da iniciativa, Paulo foi convidado pelo Ministério da Educação e Cultura a estender o trabalho para todo o país. Aceitou a proposta e se mudou com a família para Brasília. Em junho de 1963, começou a trabalhar na formação de futuros coordenadores dos núcleos de alfabetização, que seriam implantados em praticamente todas as capitais. Só no estado da Guanabara, cerca de 6 mil pessoas se inscreveram naquela ampla mobilização nacional pela educação, que seria interrompida pelos militares em abril do ano seguinte.

De volta a Recife, Paulo se apresentou voluntariamente à Secretaria de Segurança Pública e constatou que não havia qua quer ordem de prisão contra ele. Foi informado, no entanto, de que poderia ser chamado para depor a qualquer momento.

Intimidação durante a ditadura

O clima de intimidação era geral. As universidades e demais instituições de ensino público seriam afetadas diretamente pelos Atos Institucionais, que davam poder aos militares a partir de comissões de investigação instauradas para averiguar opositores, cassar mandatos políticos, destituir de cargos e retirar o direito ao voto. Com o objetivo declarado de voltar a integrar os alunos “na sua tarefa precípua de estudar e os professores na sua missão de ensinar”, as medidas estabeleciam um rígido controle sobre o universo estudantil com a pretensão de coibir os crescentes protestos e manifestações.

Atendendo às orientações impostas pelo Ato Institucional nº1, de 9 de abril de 1964, João Alfredo, reitor da Universidade de Recife, em que Paulo trabalhava, convocou uma reunião do Conselho Universitário para o dia 27 de abril. Decidiu-se instalar uma comissão de professores para apurar responsabilidades de docentes e servidores na “prática de crime contra o Estado e seu patrimônio, a ordem política e social, ou atos de guerra revolucionária”, conforme rezava a portaria. Essa co- missão deveria abrir rapidamente sindicâncias e analisar documentos a fim de elaborar relatórios para o reitor.

Paulo foi interrogado sobre sua atuação na universidade. A comissão solicitou que os esclarecimentos necessários à sua defesa lhe fossem passados por escrito. Os dias seguintes foram dedicados a produzir um documento descritivo de seu trabalho, em resposta às dezoito perguntas encaminhadas a ele. Paulo aproveitou para tecer considerações pessoais, indignado com a evolução dos fatos na instituição de ensino e no país. O documento seria entregue no dia 25 de maio. Ao esclarecer que atuava no SEC desde sua implantação, em 1962, Paulo chamava a atenção para o fato de ser amigo do reitor, a quem tinha o dever de lealdade: “Aprendi com meu pai e com minha Igreja que a lealdade, a coragem e a honradez, a retidão não podem ser desprezadas pelo homem, sob pena de se desprezar a si mesmo, e deixar de já ser homem”. O documento respondia às perguntas enumerando as atividades realizadas nos dois anos anteriores. Paulo mencionou que havia sido convidado pelo então ministro Paulo de Tarso para coordenar um programa nacional de educação para adultos, e não simplesmente de alfabetização. E que entendia o convite como honroso não só para ele, mas também para a universidade. Por isso havia exigido que o trabalho ocorresse por meio do SEC, em convênio do ministério com a Universidade de Recife, na qual continuaria com suas pesquisas regulares.
Atividades consideradas subversivas

Em relação às críticas da imprensa recifense sobre suas atividades, tachadas de subversivas ou propagadoras de ideias contrárias ao regime democrático, respondeu que não só tinha conhecimento do que se dizia na cidade “mas também em todo o Brasil e que a leitura dessas críticas lhe servira para fazer um verdadeiro curso de como se pode, por ignorância, má-fé, ou outras coisas quaisquer, distorcer o pensamento dos homens”. Em contrapartida, destacou a valorização e o apoio ao trabalho do SEC em artigos e depoimentos de nomes como o do sociólogo Gilberto Freyre e do professor Walter Costa Porto. Paulo fez referência também à Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, em Brasília, onde estivera para dar uma conferência que, seguida de debate, gerou muitos elogios ao seu trabalho. Todas essas pessoas, observou, não eram comunistas nem estavam interessadas em comunizar o país — e justamente por isso apoiavam o que estava sendo feito. Escreveu que não podia deixar de rir quando o acusavam de “lavador de cérebros”, pois a essência da sua teoria pedagógica era alérgica a regimes totalitários: “Nego, pois, a vera- cidade das acusações assacadas contra o SEC, anteontem, on- tem e hoje. Nego que o SEC […] exerça atividades subversivas ou contrárias ao regime democrático. Horroriza-me o assanhamento destas acusações”.

Em suas considerações finais, Paulo faria uma defesa intransigente da alfabetização de adultos. Escreveria: "Há até quem diga que não adianta alfabetizarmos esses 36 milhões de brasileiros porque talvez 'papagaio velho não aprende a ler'. Como se estas legiões de analfabetos não constituíssem, para nós, seus irmãos letrados, uma prova de nosso desamor. De nossa incúria. De nosso fracasso. Nunca pretendemos ser os donos da alfabetização nacional. Há analfabetos demais. […] Se tudo o que dissemos em nossa defesa pessoal e na defesa do SEC a ninguém convencer, paciência. Salvem-se, porém, os analfabetos".

Entregue o documento, Paulo ficou à espera do parecer da comissão e de como o Ministério da Educação e Cultura reagiria frente ao declarado. Cerca de três semanas depois, em 16 de junho, dia do aniversário de Elza, estava em casa trabalhando na reescrita para publicação de sua tese Educação e atualidade brasileira quando dois agentes bateram à sua porta e pediram para que os acompanhasse. Sem imaginar o que viria, vestiu-se, tomou um café, despediu-se da esposa e seguiu com os policiais. No trajeto, passaram pela Secretaria de Segurança Pública, pela polícia e de lá seguiram para o quartel do 4º Exército. Apresentado ao capitão de plantão, foi fichado e detido — sem nenhuma peça de roupa ou objeto de higiene pessoal, nenhum livro para acompanhá-lo. Paulo não tinha imaginado que de fato pudesse ser preso.

Duas semanas depois, em 1º de julho, prestou novo depoimento sobre suas “atividades subversivas antes e durante o movimento de 1º de abril, assim como suas ligações com pessoas e grupos de agitadores nacionais e internacionais”, agora em inquérito policial militar chefiado pelo tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima. Duro nos interrogatórios, em 2014 Ibiapina Lima foi apontado no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, junto a outros 376 agentes do Estado, por violação dos direitos humanos e crimes cometidos durante o regime militar.

O tenente-coronel iniciou o interrogatório pela formação e pelas atividades profissionais de Paulo; questionou-o em seguida sobre inúmeros autores e seus métodos pedagógicos: Dalton, Montessori, Mackinder, Decroly, Kilpatrick, Peter- sen, Cousinet, Laubach, Alfredina de Paiva e Souza, sintético, analítico-sintético… Surpreso, Paulo respondeu sobre aqueles que conhecia, afirmou que, em sua maioria, eram integrantes de uma pedagogia moderna, defensora de uma educação ativa na qual o educando pudesse superar a passividade característica da escola antiga e assumir uma posição participante em seu aprendizado.

Na sequência viriam perguntas para testar seu conhecimento específico sobre os autores e métodos apresentados, os resultados que produziram, onde foram aplicados. Depois, sobre sua avaliação dos sistemas de ensino adotados pelo Exército dos Estados Unidos e do Brasil a partir de 1941. Em seguida, Paulo foi questionado sobre a diferença entre sua visão pedagógica e a perspectiva de cada um dos outros educadores citados. E, finalmente, sobre o seu método de aprendizado — destinava-se apenas à alfabetização ou ao ensino de maneira geral?

Em relação ao último questionamento, Paulo se deteve mais pacientemente, explicando com didatismo para Ibiapina Lima que sua principal preocupação era educar, e não só alfabetizar. Esclareceu que era um método baseado no diálogo, que abordava situações da vida cotidiana e pretendia fazer com que os alunos se tornassem pessoas ativas a partir das discussões sobre o contexto em que viviam. Descreveu os procedimentos para a escolha das palavras, o modo como elas eram decompostas em sílabas que depois se juntavam em outras combinações para construir novas palavras. Para concluir, disse que todo seu trabalho educativo se fundava no absoluto respeito ao ser humano e que o importante era educar, não doutrinar.

Nesse momento do inquérito, tendo ouvido Paulo com atenção, Ibiapina Lima tornou-se mais agressivo; perguntou como ele poderia se considerar um educador se demonstrava desconhecer parte dos teóricos citados. Paulo argumentou que não lhe cabia julgar a si próprio e que não tinha nada a acrescentar sobre os demais autores.

O tenente-coronel então fez referência à duração do método de alfabetização de Paulo Freire, questionou o porquê das 40 horas — rapidez tão alardeada pelos meios de comunicação. A busca por uma solução ágil, respondeu Paulo, era necessária porque o problema era muito grave, e argumentou que a alfabetização deveria ser aprofundada em fases subsequentes. Quanto à originalidade de seu trabalho, afirmou que não tinha pretensões de ser original, mas de dar sua contribuição ao combate do analfabetismo.

Ibiapina Lima então questionou Paulo sobre seu suposto envolvimento com o comunismo ou com regimes totalitários, comparando seu método àqueles utilizados por Hitler, Mussolini, Stalin e Perón. Quis saber também sua opinião a respeito de Cuba, da União Soviética e da China. E o que pensava sobre Brizola, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Francisco Julião e Gregório Bezerra. Em uma guerra entre o Brasil e um país comunista ou socialista, de que lado Paulo estaria? Paulo se defendeu de todas as perguntas. Constrangido pelas circunstâncias, repudiou o comunismo, expressou-se como apoiador das reformas do marechal Castello Branco, mostrou-se satisfeito com sua liderança, negou vontade de deixar o país e, por fim, colocou-se na condição de cristão que valorizava o ser humano e que se orientava pela doutrina da fé. Depois de horas de tensão e afrontamento, pôde enfim voltar para a cela. Dois dias depois, em 3 de julho, foi solto.

Mitos ou verdades

A reforma administrativa do governo federal nem chegou ao Congresso Nacional, mas a mobilização contrária já ganha corpo. Na última semana, antes mesmo do governo trazer a público o teor da sua proposta, um conjunto de entidades representativas dos servidores públicos federais divulgou um extenso documento em que verdades absolutas são questionadas e seus objetivos desvirtuados. Há que se reforçar, portanto, as motivações que justificam uma reforma da máquina pública brasileira. E elas são, fundamentalmente, a melhora da qualidade do serviço público, o aumento da produtividade da economia brasileira e a necessária redução dos gastos obrigatórios que vêm comprimindo a capacidade do Estado de investir e melhor servir a população.

Embora legítimo na defesa dos interesses das entidades que apoiaram a sua elaboração, o documento da Frente Parlamentar Mista pela Defesa do Serviço Público precisa ser confrontado com dados e informações que jogam por terra as teses que ele busca defender. Afinal, há fartas evidências na direção contrária. Além disso, a necessidade de se reformar a máquina pública não está vinculada ao seu desmonte, mas sim à sua melhora operacional, com impactos positivos significativos também para o servidor público.


O Brasil tem gastos públicos que atingem hoje o equivalente a 39% do PIB. Boa parte disso, com o financiamento da máquina pública. Esse número, calculado pelo Tesouro Nacional com informações de 2016, é muito superior ao que países como México ou Chile gastam e se aproxima dos níveis de gastos observados em países como Inglaterra ou França. Pode-se argumentar (corretamente) que o Brasil, sendo um país em desenvolvimento e com uma população tão carente, deve mesmo ter uma máquina pública maior e mais cara. Verdade, desde que a contrapartida fossem serviços públicos de qualidade e uma população bem atendida. Não é o caso. Estamos dentre os países com pior avaliação na qualidade dos serviços públicos, segundo pesquisa da OCDE. Portanto, relativamente ao que deveríamos estar oferecendo à população brasileira, sim, o Estado no Brasil é muito grande e a máquina pública está inchada, consumindo recursos em níveis e trajetórias que não se refletem na qualidade do serviço público e no atendimento à população.

E a explicação principal está na alocação dos recursos públicos. Gastamos, segundo dados do Banco Mundial publicados recentemente, cerca de 10% do PIB com o pagamento de salários e benefícios a servidores da ativa. Somando as despesas com os regimes próprios de Previdência, chega-se a cerca de 15% do PIB. Como o número de servidores não parece alto em relação à população empregada no setor privado, o gasto de pessoal no serviço público se mostra elevado quando comparado a outros países.

Some-se a isso a desigualdade salarial no setor público brasileiro, há disfunções que precisam ser corrigidas se quisermos melhorar os serviços públicos na ponta, o atendimento ao cidadão. A Inglaterra, por exemplo, gasta cerca de 6% do PIB com salários e benefícios dos seus servidores e tem o melhor serviço público do mundo, segundo índice da Blavatnik School. Além disso, as despesas de pessoal no serviço público brasileiro vêm consumindo parcelas crescentes das receitas totais graças ao crescimento orgânico e vegetativo dos gastos com salários no setor público. Tanto que, entre 2008 e 2018, o crescimento acumulado real do gasto com servidores ativos foi de 26%, ainda segundo o Banco Mundial. Sim, as despesas de pessoal são muito altas e estão descontroladas.

As outras quatro verdades divulgadas como mitos no documento da Frente Parlamentar Mista tratam da ineficiência do Estado, do privilégio da estabilidade, do fato de que chegamos ao colapso fiscal e finalmente da importância das reformas estruturais para a retomada do crescimento. Todas questões amplamente debatidas e amadurecidas e que merecerão mais algumas linhas nesse espaço nas próximas semanas.

Mas vale aqui ressaltar a relevância do tema e comemorar a entrada desse debate na pauta nacional. A construção de uma reforma estrutural da máquina pública se dará a partir do Executivo, passará pelo necessário debate legislativo e pela negociação com os servidores e seus representantes e carecerá do entendimento do Judiciário. Mas para que os resultados convirjam para o seu objetivo, qual seja o de melhorar o funcionamento do setor público brasileiro e garantir que os serviços públicos básicos sejam instrumento de justiça social, gerando igualdade de oportunidades para os mais pobres, ele terá de contar com o envolvimento da sociedade. Daí a importância de deixar claro desde já que verdades são verdades. Não são mitos.

O bolsonarismo é uma força de traição

O contrato de aluguel firmado entre Gustavo Bebianno e Luciano Bivar era claro: o presidente do PSL entregaria o partido ao bolsonarismo, com porteira fechada, durante o processo eleitoral, e o teria de volta, robusto, ao fim da eleição.

Era – para quem desconhece a natureza do fenômeno bolsonarista – um típico acordo de ganha-ganha. Jair Bolsonaro levaria a plataforma burocrática necessária ao pleito pela Presidência; e Bivar a retomaria adiante com, na pior das hipóteses, uma bancada parlamentar encorpada e maior valor no mercado dos fundos públicos partidários. Em tese, um baita negócio.

Nunca houve santos nesse trato; sendo a desqualificação partidária contida no business mais um golpe desferido pelo bolsonarismo contra a democracia representativa. Todos os que, filiando-se ao partido de aluguel, associaram-se ao projeto autoritário de poder bolsonarista – tanto os de boa vontade quanto os em busca de uma boquinha – são responsáveis pela depreciação político-institucional que o arranjo PSL/Bolsonaro desfecha. Entre os signatários do pacto vil, porém, foi Bivar quem cumpriu sua parte; decerto iludido sobre o caráter bolsonarista e a inevitabilidade de que, cedo ou tarde, para além do simples desrespeito a acordos, traísse.


Essa gente trai. Tem a índole para o expurgo. Atrai e trai. Atrai, instrumentaliza, manipula, gasta, desgasta – e trai. Então, passada a eleição, com Bolsonaro consagrado presidente, e não sem rápidos indícios de que seu controle sobre o Estado pudesse se estender também à Polícia Federal, era questão de tempo até que a engenharia de intimidação bolsonarista se concentrasse em assaltar e tomar o partido; em rebaixá-lo para melhor capturá-lo segundo o interesse autocrático: uma mera estrutura sem identidade, para fins formais, mas com fundos para bancar a conta do projeto personalista de poder do bolsonarismo.

Sob esse movimento reacionário populista, apenas os Bolsonaro terão vez; todos os demais a engordar, com cargos, influência e até votos, somente se submetidos à ordem familista, sem aspirações pessoais que extrapolem as do presidente e filhos. Quem, por exemplo, tiver visto o discurso leninista do assessor especial da Presidência Filipe Martins no tal CPAC Brasil, o piquenique de Eduardo Bolsonaro pago com dinheiro público, terá percebido que ele entendeu essa dinâmica; daí por que tenha falado, sem sombra de vergonha, em amor dos brasileiros a Carlos Bolsonaro e irmãos.


Martins vai tão longe por quão longe for o bolsonarismo. O mesmo não se pode dizer de Joice Hasselmann, degredada pela fátua bolsonarista ainda sem saber por quê. Ora, ela desejou ser prefeita de São Paulo; cultivou relações com João Doria e Rodrigo Maia; e ainda crê que os ataques de que é vítima, decorrentes de uma crise artificial forjada pelo próprio Bolsonaro e disparados por seus filhos e asseclas, ocorram sem o aval do presidente.

No universo do bolsonarismo, para que se meça a flexibilidade da República dos Emojis, Hasselmann é considerada independente em excesso.

Hoje me parece óbvio que um dos fatores decisivos para a queda de Bebianno tenha sido a pretensão de honrar o contrato com Luciano Bivar. Não porque símbolo da virtude, mas por conhecer a operação partidária levantada para eleger Bolsonaro e temer que a ruptura do acordo – considerados o nível indigente e o grau de ambição da bancada eleita pelo PSL – resultasse numa convulsão no baixo clero que ascendera surfando a onda bolsonarista e, pois, na multiplicação de franco-atiradores como delegado Waldir.

Todo mundo ali sabe o que se fez no verão passado. Esta é a razão por que, em resposta ao pedido bolsonarista para ter acesso às contas do PSL, venha a demanda dos aliados de Bivar para examinar os extratos do partido durante o período eleitoral. Pode isso acabar bem para uma administração ainda aos dez meses do primeiro de quatro anos? Que tenhamos uma certeza, contudo: o bolsonarismo esticará essa corta ao máximo da tensão, ainda que com prejuízos – a parca agenda travada no Congresso – para o governo.

Para a agenda revolucionária bolsonarista: tanto melhor. Apostando no peso da caneta do presidente e na musculatura de seus braços difamadores, o bolsonarismo sabe que terá o partido. Se não o PSL, outro.

Aqui, por fim, é necessário distinguir a primazia do projeto de poder bolsonarista sobre qualquer projeto de Brasil que franjas liberais do bolsonarismo possam tentar esboçar a partir da economia. Não importa o país real, o do desemprego. Somente uma abstração de um tal Brasil conservador cujos princípios vão longamente violados.

O governo Bolsonaro – apenas a chave que franqueia a máquina federal ao avanço de uma autocracia – não pode ser lido por olhos que busquem o valor republicano da estabilidade, da governabilidade. O projeto prospera no caos. O Brasil vai mal. Não tenhamos dúvida de que o bolsonarismo vai bem.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Estamos em face da ignorância moderna

A sociedade brasileira carece de uma atenção crítica quanto às mudanças no conhecimento de senso comum que mediatiza condutas e deforma a compreensão social da realidade. O senso comum é a necessária, ainda que precária, certeza numa sociedade de incertezas cada vez maiores. Sua compreensão científica esclarece a função que tem na contínua regeneração dos mecanismos de reprodução das relações sociais contra a possibilidade de transformações e inovações.

Há um empobrecimento cultural mais intenso em países subdesenvolvidos, como o Brasil, do que nos países de tradicional valorização do conhecimento na formação das pessoas desde a infância, o que se reflete no senso comum. Com os recursos modernos de difusão da cultura, como o celular e a internet, entre os desprovidos do discernimento apropriado, o senso comum já é outro. Mais informadas estão as pessoas e menos conhecedoras são da diversidade cultural que é própria da sociedade atual.


O fenômeno sugere aos especialistas a inovação de uma sociologia do desconhecimento, um campo aberto à indagação científica. Tanto no que é o conhecimento insuficiente, quanto em suas variantes, como a mentira e a mistificação nos modos sociais de conhecer, desconhecendo, a realidade profunda. O desconhecimento como meio de preservação popular da ordem. Como o é o conhecimento distorcido do mundo por um modo de vida aquém do que é direito e necessário.

Estamos em face de uma crise do senso comum, que expressa mudanças profundas na organização da sociedade. No caso brasileiro, representadas por perdas próprias de um subcapitalismo que tolhe nosso desenvolvimento econômico e social.

Há fatores históricos por trás dessas anomalias do saber. O trabalho fragmentado da produção moderna sonega cada vez mais a íntegra do conhecimento técnico à maior parte dos trabalhadores. O saber está hoje sob o domínio impessoal dos meios institucionais de acumulação do conhecimento, que separaram quem trabalha de quem sabe como e por que o trabalho é daquele jeito.

Essas alterações no âmbito da produção disseminaram uma concepção hierárquica do conhecimento com base no privilegiamento da utilidade e da lucratividade. Minimizaram a relevância social e histórica do saber pelo saber, fundamento do conhecimento erudito, como a ciência e a arte. Na contrapartida geraram as condições culturais e sociais de um novo senso comum, abundante e pobre, que bloqueia o interesse pelos desafios da erudição.

No contrafluxo desses dilemas, e já fora do âmbito da produção industrial e agrícola, o conhecimento pulverizado e as tecnologias de acesso superficial e fácil, colocaram ao alcance do homem simples conhecimentos enciclopédicos. Reduzidos, porém, ao banal. Hoje, qualquer pessoa, mesmo a de insuficiente escolaridade, pode ter acesso à vulgarização do saber para conhecer o supérfluo e desconhecer o essencial.

Quanto à consciência social, de que todos carecemos para viver em sociedade, a informação superficial torna a nossa vaga e imprecisa. Tateamos no que não sabemos, mas julgamos saber sobre nós mesmos. Há um século tínhamos aqui mais clareza quanto ao que éramos. Podíamos, por isso, fazer demandas sociais e políticas mais consequentes, tínhamos consciência de quais eram as privações que nos faziam pobres, não só do essencial à vida. Mas também do conhecimento intuitivo e cotidiano dos nossos enganos. Nosso senso comum era o fundamento de nossa consciência crítica. Hoje é o fundamento do nosso conformismo.

Se hoje nosso senso comum e nossa consciência social tivessem a mesma qualidade de 1917, não estaríamos sujeitos à cultura de manipulação que nos subjuga e engana, nem teríamos aceito com tanta facilidade a pilhagem de nossos direitos sociais em questões como o emprego e a previdência social. Não teríamos aceito a tese de que os idosos que trabalharam a vida inteira por menos do que valia seu trabalho são os causadores dos prejuízos da Previdência.

Estaríamos perguntando quem foi que ganhou com esse prejuízo.

Com os recursos modernos, a grande massa marginalizada pela desinformação e pela subinformação reelabora, nesse novo senso comum, sua alienação social. Estamos em face de uma nova ignorância, a ignorância moderna, insuficiente, a do saber fundamentalista sobre todos os assuntos. Religiões têm sido inventadas em cima dessa precariedade. Crendices anticientíficas competem com a ciência. Política antipolítica ergue e renova o Estado populista e antissocial.

Em outros tempos, o saber dos simples era um indício de consciência social verdadeira, das contradições e suas injustiças. Hoje, a nova ignorância é a grande expressão de uma consciência social falsa e cúmplice.
José de Souza Martins

Governo ligeirinho?

Não há lentidão nenhuma. Tudo foi feito e continua sendo feito rapidamente pelo governo federal
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente

Merdunchos

O escritor João Antônio (1937-1996) andava na rua com o ouvido espichado para a fala do povo. Um hábito adquirido em São Paulo, sua cidade natal, e que trouxe para o Rio, onde se fez carioca de Copacabana. Ao capturar uma gíria, uma expressão, um xingamento, anotava no papel do maço de cigarros Plaza --"qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir", costumava dizer-- para depois passar a limpo num caderno de telefones com sua letra miúda. Em vez de números, definições do que foi pescado ao sabor das circunstâncias. Um exemplo do dicionário das calçadas: "Água (aquela): situação ruim".

Na novela "Paulinho Perna Torta", essa coleta vira literatura num chorrilho de sinônimos para dinheiro: "o carvão, o mocó, a gordura, o maldito, o tutu, o poroló, o mango, o vento, a granuncha, a seda, a gaita, o capim, o cobre, a manteiga".

Entre todas, no entanto, João Antônio tinha predileção por determinada palavra, que ele aplicava a seus personagens marginalizados. São os "merdunchos", que vivem naquela água e se viram justamente para conseguir algum dinheiro.


Eles nunca foram tantos como no Brasil atual. A desigualdade no país, que já é um dos mais desiguais do mundo, só faz crescer. Pesquisa recente divulgada pelo IBGE mostra que, por qualquer medida, no último ano os mais ricos ganharam e os mais pobres perderam renda. O efeito da crise econômica no mercado de trabalho conseguiu até que os desempregados mudassem de nome --agora são chamados de empreendedores.

No conto "Três Cunhadas - Natal 1960", um personagem de João Antônio mal consegue andar na rua da Carioca de tanta gente: "A gritaria dos camelôs parece um comando. E os óculos franceses vieram de Cascadura, a seda do Japão saiu de algum muquinfo das beiradas da Central". Experimente passar lá hoje. Não tem ninguém.

Pensamento do Dia


A arte de escrever para não matar e para não morrer

Aos oito anos, Eliane Brum (Ijuí, Rio Grande do Sul, 1966) virou uma assassina. Pelo menos foi o que sentiu no dia em que matou um filhote de barata. A culpa foi tamanha que a menina ficou imaginando a vida que aquela criatura já não teria. Assim nasceu A biografia de uma barata, o primeiro texto da jornalista, escritora e documentarista, escrito em primeira pessoa em um caderno de capa vermelha que ela conserva até hoje. A colunista do EL PAÍS conta, entre gargalhadas, que esse foi o jeito que encontrou para "dar memória e uma vida" ao ser que havia matado. De certo modo, essa continua sendo a motivação da sua escrita. "Sempre digo que eu escrevo para não matar e para não morrer", conta do outro lado do telefone, em Londres, em uma tarde cinzenta e de chuva fina.

Há poucas semanas, uma obra de Eliane entrou em um seletíssimo grupo de um dos mais prestigiosos prêmios literários dos EUA, ao lado do Pulitzer. The Collector of Leftover Souls (Graywolf Press), que reúne crônicas e reportagens produzidas entre 1999 e 2015, foi publicada nos Estados Unidos e no Reino Unido e entrou na lista das dez indicadas para o Prêmio Nacional de Literatura dos EUA (National Book Award) deste ano. A crítica especializada o define como uma coletânea de "vidas comuns tornadas extraordinárias por uma mestra em jornalismo que capta toda a sua perplexidade e rebelião silenciosa" e destaca a habilidade da autora em "habitar a vida de suas fontes enquanto suprime seus próprios preconceitos, julgamentos e visões de mundo". Enquanto isso, no Brasil, Eliane, que é finalista do Prêmio Comunique-se como melhor jornalista de mídia escrita, prepara-se para lançar, no mês que vem, um novo livro. Brasil, construtor de ruínas (Arquipélago), parte de reportagens e artigos de opinião escritos nos últimos anos, especialmente o EL PAÍS.


Filha de professores que trabalhavam de manhã, de tarde e de noite para sustentar a ela e seus dois irmãos mais velhos, Eliane apaixonou-se pela palavra através da escuta. "Antes mesmo de aprender a ler ou escrever, sempre gostei muito de escutar e de ficar ouvindo histórias. Eu botava um banquinho num canto e ficava ouvindo as histórias dos adultos e observando muito as coisas. Sempre gostei muito mais de escutar do que de falar". Ela lembra, no entanto, de uma sensação de "estar presa, um pouco encarcerada em um mundo pequeno", sentimento que só dissipou quando começou a juntar as letras e fazer sentido com elas.

"Ler me deu essa possibilidade de ser muitas coisas, de não ficar presa no meu corpo. Eu podia ser homem, monstro, fada, planta, alienígena, podia ser um monte de coisa. O meu mundo ficou muito maior". Foi assim que começou a trancar-se no quarto, ainda criança, com vários livros, sem querer sair sequer para comer. A escrita veio logo depois.

"Eu tinha nove anos quando acordei um dia, em uma manhã super melancólica. Estava chovendo, e eu me senti tão triste, tão sem saída, um sentimento insuportável... Aí escrevi minha primeira poesia, que era muito ruim", conta e ri. "Aquilo me mostrou que escrever era um ato de vida. Para mim, até hoje, escrever é um ato de vida, um ato de fazer viver, de poder estar viva e de lutar pela vida e por tudo aquilo que é vivo. Essa menina, essa experiência com a palavra, pariu a mulher que eu sou hoje".

Eliane fala com a voz suave e calma. Tem um jeito tranquilo que convive com o ímpeto de uma mulher determinada. Em 2017, mudou-se para Altamira, no Pará, para estar mais perto da pauta que tem motivado a maior parte de sua vida profissional e pessoal: a defesa da floresta e a vida (todo tipo de vida) no planeta. Ela conta que começou a ir para a Amazônia em 1998, quando trabalhava para o jornal gaúcho Zero Hora. Conheceu a floresta em cada Estado brasileiro onde ela nasce, cresce e é desmatada ou incendiada. Em 2011, começou acompanhar as histórias das pessoas que seriam afetadas pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, principalmente as populações ribeirinhas. Depois, decidiu instalar-se ali.

"Eu quis ficar mais perto. Coloco-me ao lado das pessoas que defendem que a Amazônia é o centro do mundo, principalmente no momento histórico em que o maior desafio da nossa espécie é a emergência climática. Aí eu pensava: se eu digo que ela é o centro do mundo, por que eu não estou lá? Resolvi ir para o centro do mundo e queria ter também essa experiência de ver o Brasil a partir da Amazônia, olhar de lá para o Sudeste, para Brasília, para o Sul, olhar da Amazônia para o mundo, mudar meu ponto de vista", diz.

Essa determinação já havia nascido com a menina que pariu a mulher. Quando tinha cinco ou seis anos, durante a ditadura militar, seu pai era presidente de uma faculdade comunitária em Ijuí, e um de seus projetos era uma escola "que tinha muito o espírito do Paulo Freire". Naquela época, a prefeitura achou aquela escola subversiva e, em uma reunião, Eliane viu o pai ser humilhado pelo prefeito. A escola foi retirada da administração da faculdade. "Aquela experiência foi tão chocante para mim, que voltei para casa e fiquei pensando em como eu ia responder àquela injustiça. E aí, na minha cabeça de criança, resolvi botar fogo na prefeitura", conta. De madrugada, antes de todos da casa acordarem, Eliane colocou uma caixa de fósforo dentro do bolso do vestido e atravessou a praça que separava sua casa da sede municipal. "Eu fui e acendi o fósforo. Na minha cabeça, era só acendê-lo que conseguiria queimar a prefeitura. É claro que gastei a caixa de fósforos inteira e não consegui. Aí, voltei para casa com uma mistura de humilhação e alívio. Meu primeiro ato revolucionário, rebelde, foi fracassado. Mas serviu para descobrir, aos poucos, que escrever era um jeito de lutar sem botar fogo".

Eliane tem muito "estranhamento", não acha normais as coisas. "Descobri que estranhar era ser repórter. E eu sempre estranhei e sempre me interessei menos pelo que está no palco iluminado e mais pelo que está na coxia, os detalhes ao redor. É o que me interessa. Os detalhes e as subjetividades às vezes contam mais". Para ela, são esses elementos que determinam o que chama de desacontecimentos e que são a principal matéria-prima do seu trabalho. As pessoas cujas histórias não são ouvidas ou contadas, as passagens do cotidiano que, de tão corriqueiras —mas não menos fantásticas, emocionantes ou importantes— não costumam aparecer nos noticiários. Foi com essas histórias que conquistou o prêmio Jabuti em 2007, com A Vida que Ninguém Vê, uma coletânea de textos sobre desacontecimentos diários que vão desde o mendigo que jamais pediu coisa alguma ou um álbum de fotografias encontrado no lixo até o carregador de malas do aeroporto que nunca voou.

"Nos primeiros anos de repórter, as pessoas diziam que eu fazia as pautas humanas. E eu sempre fiquei pensando: mas existem pautas não humanas?", gargalha Eliane. "Sempre foi difícil dizer sobre o que eu escrevo. Acabo dizendo que escrevo sobre direitos humanos, mas não acho que seja isso, até porque eu acho que as gentes não são só humanas. Os animais são gente, as plantas são gente, eu vejo o mundo de um outro jeito".

Autora de outros quatro livros —Coluna Prestes - O Avesso da Lenda (1994), O Olho da Rua (2008), A Menina Quebrada (2013) e Meus desacontecimentos – A história da minha vida com as palavras (2014)—, Eliane também faz ficção. Publicou em 2011 o romance Uma Duas (LeYa), onde transforma em palavra, com a mesma força e sensibilidade de seus textos jornalísticos, a intrincada relação entre mãe e filha.

O romance nasceu em 2010 quando, depois de duas décadas como repórter, ela quis dedicar-se exclusivamente à ficção. Hoje, ainda escreve contos em algumas coletâneas, mas o plano foi adiado porque o Brasil aconteceu. "O país se convulsionou, digamos, e eu fui capturada por essa super realidade. Mas espero voltar para a ficção, porque tem realidades que a gente só consegue contar através dela. Há realidades que precisam ser inventadas para serem contadas", diz.

Para escrever, depois de anos acostumada a trabalhar em meio ao barulho das redações, ela constrói um mundo próprio em qualquer lugar. "Em meu processo, sinto que escrevo primeiro dentro, vou costurando as coisas dentro de mim. Aí, quando sento mesmo para escrever, sou bem rápida". Mantém o hábito da infância e tenta ler ao menos um livro por semana. Atualmente, está entregue ao romance Como ser as duas coisas, de Ali Smith, e Outras Mentes, de Peter Godfrey-Smith, que mistura história natural e filosofia. "Além dos que estou lendo, tenho meus livros de cabeceira. Nos últimos anos, são dois: Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio, da Hertha Müller, que é um livro lindíssimo, que me ajuda a resistir em cotidiano de exceção. O outro é Teoria King Kong, da Virginie Despentes, um livro selvagem, que segue ecoando em mim e para onde volto muitas vezes", conta.

Hoje, Eliane entra na floresta para contar seus acontecimentos e desacontecimentos. "Minhas reportagens são por minha conta e são de longuíssimo prazo, podem durar anos", ri. Ela conta que uma das melhores coisas de entrar na natureza é ficar sem conexão à Internet. "Só deixo uma mensagem no e-mail e aviso às pessoas mais próximas que eu vou sumir e depois volto. Isso é maravilhoso. Ainda bem que não tem Internet ainda por lá, porque aí dá para fazer realmente essa imersão profunda, que muda muito a gente". Eliane ainda prefere ouvir —a si mesma, à floresta, à vida—. Entre matar e morrer no turbilhão do mundo, ela continua a escrever.

Polarizar alimenta ódio

Minha guerra com Bolsonaro será sem sentimentos até o fim. Meu nojo, desprezo e ódio por ele são tão grandes que vale até o Lula solto para criar um clima de radicalismo no Brasil
Alexandre Frota, deputado federal eleito pelo PSL de Sao Paulo que migrou para o PSDB

E assim se passa 1 ano da eleição de Bolsonaro

A uma semana de sua eleição completar um ano, em périplo pela Ásia que começa com uma visita ao Japão, o presidente Jair Bolsonaro haverá de se lembrar (ou alguém fará isso por ele) de uma de suas primeiras declarações feita sob o calor da vitória:

– Quero que ele mofe na cadeia.

Referia-se a Lula, àquela altura encarcerado em Curitiba há quase 7 meses. Lula está com um pé fora da cadeia. Avançará o outro se o Supremo Tribunal Federal, esta semana, restabelecer a prisão só depois que a sentença transitar em julgado.

É o que prevê a Constituição e o que, por aqui, deixou de valer desde que foi permitido à segunda instância da Justiça prender quem ela condenasse. Daqui a mais um mês, caso o Supremo venha a anular sua condenação, Lula deixará de ser ficha suja.

Com a ficha limpa, poderá sair por aí na condição de candidato à sucessão de Bolsonaro, o que para o ex-capitão não será nenhum incômodo. O contrário. Bolsonaro precisa de Lula para se reeleger. E Lula de Bolsonaro para governar o país pela terceira vez.


E tudo isso terá se passado antes mesmo de um ano da posse do presidente eleito em 28 de outubro de 2018. Foi outro dia! Com apenas 10 meses de governo, Bolsonaro perdeu o controle sobre o partido pelo qual foi eleito, o nono de sua carreira.

A Lava Jato está nos seus estertores. Gorou o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro. A reforma da Previdência ainda se arrasta no Congresso. Flávio “Zero Um” Bolsonaro virou refém da Justiça que suspendeu por ora a investigação dos seus rolos fiscais.

Eduardo “Zero Três” Bolsonaro é chamado de “moleque mimado” por antigos parceiros depois de derrotado por um delegado de polícia na disputa pelo cargo de líder do PSL na Câmara dos Deputados. Quanto ao sonho de ser embaixador em Washington…

Os militares apoiaram a eleição de Bolsonaro com a pretensão de tutelá-lo mais tarde. Uma vez que não querem abrir mão dos bons salários que complementam suas aposentadorias, parecem conformados em ser tutelados pelo ex-capitão. Selva!

Havia um vice-presidente da República disposto a ser sensato em contraponto a um presidente insano. Muita gente aqui e lá fora o escutava com admiração.
Foi abatido por Carlos “Zero Dois” Bolsonaro com meia dúzia de mensagens postadas no Twitter.

Onde anda o presidente da maior potência mundial, cortejado pelos Bolsonaros, e que prometera ao chefe do clã uma vaga para o Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), uma espécie de clube dos países mais ricos?

Donald Trump deu a vaga para a Argentina. Depois lembrou que havia uma fila e que o Brasil terá de respeitá-la. Sem poder passar recibo da frustração, o governo brasileiro foi forçado a avalizar a desculpa e a dar razão a Trump. Vexame!

Com o vexame, Bolsonaro deveria aprender que política externa obedece unicamente a interesses econômicos de Estados. Nada a ver com ideologia, religião, muito menos relações pessoais. Se duvida, pergunte aos curdos, largados de mão por Trump.

Sim, Bolsonaro poderá celebrar os sinais de recuperação da Economia e a paralisia da oposição. Se a ele falta um projeto para o país, à oposição também. Mas é Bolsonaro quem governa. E, embora, muito loquaz, o líder da oposição ainda está preso.

Responda rápido se puder: Para que serve o PSL?

A essa altura, diante da insensatez que prolonga a crise no partido de Jair Bolsonaro, cabe formular uma pergunta básica: para que serve o PSL? No momento, a única utilidade visível para o partido é a de servir como exemplo nos debates sobre a falência do sistema partidário no Brasil. No meio de tantas listas para trocar o líder na Câmara, um deputado que apresentasse uma proposta de dissolução do partido, a bem do serviço público, seria aplaudido nas ruas. Um outro deputado que enganchasse nessa proposta uma emenda sugerindo a extinção de todos os partidos seria aclamado nas praças públicas.

Na teoria, os partidos representam segmentos da sociedade. Na prática, tornaram-se representantes dos seus próprios interesses. Partidos pequenos são perspectivas de grandes negócios. No caso do PSL, o negócio fechado com Jair Bolsonaro resultou em milhões de dividendos. E o partido tornou-se mais uma superestrutura pendurada nos cofres públicos.

O PSL tem um grande passado pela frente. Segue o exemplo de legendas como PT, PSDB, MDB e outras logomarcas que migraram da condição de partidos para o estágio de meras cascas, esvaziadas de qualquer tipo de conteúdo. O caso do PSL é ainda mais grave, porque a legenda ficou vazia antes de obter o recheio. No papel, é Partido Social Liberal. Na prática, não é partido, virou uma guerrilha. Não é social. E segue a lógica do patrimonialismo, não do liberalismo.

Quem ainda encontra tempo para desperdiçar com o acompanhamento da política encontra quase tudo no processo de derretimento do PSL, exceto interesse público. A consequência disso é que, a partir de uma crise que teve origem em declarações de Jair Bolsonaro, criou-se uma turbulência política num instante em que o governo do mesmo Jair Bolsonaro precisa de tranquilidade para produzir prosperidade. A maior vítima da insensatez é você.

Relaxe


No rastro da inépcia

Chegou na maré da Lua nova, no 4 de setembro, em Pernambuco. Avisos chegaram às prefeituras, governo estadual e, também, a Brasília, mas o ministro do Meio Ambiente estava ocupado — “gravação do Hino Nacional”, segundo a própria agenda.

Cavalgando correntezas, a goma negra e contaminante invadiu 43 praias do Rio Grande do Norte nas três semanas seguintes. O ministro Ricardo Salles viajava por São Paulo, Bonito (MT), Cartagena, Washington, Nova York, Paris e Berlim. Foi mostrar que o desmatamento da Amazônia é coisa de comunistas.

Declarou guerra na redes sociais a quem “viaja ao exterior para ficar falando mal do seu próprio país”. De Washington, escreveu: “O Brasil está se modernizando”. De Nova York, registrou: “O Brasil é exemplo de sustentabilidade!” Enquanto isso, a mancha negra se espraiava por Sergipe, levando o estado à emergência.


Quando setembro terminou, estava em Berlim. O petróleo cru já vazara em 72 municípios dos nove estados do Nordeste. Oleara dois mil quilômetros de praias, provocando inquietude na região que é um terço do país. Na volta ao Brasil, ele emitiu um autoelogio: “Estamos a serviço das boas causas em benefício dos brasileiros e do meio ambiente!”

Havia um mês de escória enlutando a costa do Maranhão à Bahia, quando anunciou: “O Pres. @jairbolsonaro determinou urgência na apuração de responsabilidades (...) Faremos vistoria in loco.” Era sábado, 5 de outubro. Ao meio-dia da segunda-feira foi a Aracaju. Lá ficou por 125 minutos— com fotos. Às 18h20 desceu em Brasília. Na Câmara, lamentou a “enorme dificuldade” (com o óleo).

Voltou a São Paulo, “com nosso querido Pres. @jairbolsonaro”, quando o petróleo já ondeava na Baía de Todos os Santos e decretava-se emergência em oito municípios.

Quarta-feira passada fez outra “vistoria nas áreas atingidas”. Novas fotos em Salvador, Maceió e Aracaju. Às 19h30, retornou a Brasília.

Passaram-se 50 dias. No rastro da inépcia, a Justiça mandou o governo federal tomar providências. O ministro Salles, agora, tem ordem judicial para trabalhar.
José Casado

Há quem não ficará vivo

O planeta sobreviverá, claro, mas não tenho certeza de que a humanidade conseguirá sobreviver
John Le Carré, romancista de 88 anos, depois de participar de mais uma manifestação contra o Brexit

As receitas dos prêmio Nobel de Economia para reduzir a pobreza

A decisão da academia sueca de conceder a Banerjee, Duflo e Kremer o Nobel de Economia de 2019 é muito significativa, indo além do fato duplamente incomum de premiar Esther Duflo, mulher e jovem (46).

O prêmio reconhece as contribuições desses economistas no campo da pobreza, uma questão que continua sendo um dos principais problemas do mundo.

Embora a pobreza absoluta, medida pela proporção da população que vive com 1,9 dólar (7,81 reais) por dia, tenha diminuído muito nos últimos anos, é importante lembrar que também há pobres nos países desenvolvidos. Neste caso, não vivem abaixo da linha de pobreza de 1,9 dólar/dia proposta pelo Banco Mundial, mas são classificados como “relativamente pobres”, pois possuem uma proporção muito pequena da renda média do país onde vivem.

Portanto, a pobreza continua sendo, infelizmente, um problema de máxima urgência no século XXI. A contribuição de Banerjee, Duflo e Kremer é relevante, pois aborda a pobreza a partir de dimensões muito específicas. Ou seja, eles se baseiam na ideia de pobreza como um problema multidimensional, que vai muito além da falta de recursos.

Segundo Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia de 1998, “a pobreza é a privação de capacidades”, incluindo, por exemplo, o acesso à educação, limitações nas condições de saúde, exclusão social e financeira, entre outros.

O trabalho dos premiados é inovador porque foge de grandes soluções e projetos para combater a pobreza e se baseia em agir de forma mais específica em cada uma de suas dimensões.
Economia é, em essência, o estudo da pobreza
O Banco Mundial considera extremamente pobres aqueles que vivem com menos de 1 dólar (4,11 reais) por dia. Mas como é viver com menos que essa quantia? Um dos trabalhos de Banerjee e Duflo, The Economic Lives of the Poor (“a vida econômica dos pobres”) responde a essa pergunta. E também a estas outras: como é a vida econômica dos pobres? Que decisões e, portanto, que renúncias ele têm de enfrentar? Que desafios eles precisam encarar diariamente?

O estudo abrange 13 países, entre eles Índia, México, Nicarágua e Peru, e explica determinados padrões de consumo. Por exemplo, por que os pobres não gastam mais em nutrição, coisa que melhoraria sua produtividade?

Também mostra o gasto desproporcional (em relação à sua renda) em bens de entretenimento (o que parece ser explicado pela necessidade de estar à altura de seus vizinhos) e a falta de reação diante da má qualidade das escolas, muitas vezes pelo analfabetismo dos próprios pais, que os impede de reconhecer que seus filhos não aprendem o suficiente.

É interessante que um de seus artigos, The Miracle of Microfinance? Evidence from a Randomized Evaluation ("O milagre das microfinanças? Evidências de uma avaliação aleatória”) critique abertamente os microcréditos como instrumento de redução da pobreza baseando-se em evidências empíricas. Sua conclusão é que os microcréditos não conseguem aumentar o investimento, nem o consumo, nem as condições de saúde e educação, nem o empoderamento das mulheres.

Então, quais são suas receitas para reduzir a pobreza? Muito concretas. Por exemplo, os ganhadores do Nobel estudam os efeitos de fortalecer e melhorar aspectos específicos relacionados à pobreza, como educação e infraestrutura.

Em Additional Resources versus Organizational Changes in Education: Experimental Evidence from Kenya (“Recursos adicionais versus mudanças organizacionais na educação: evidências experimentais do Quênia”), de 2009, e Remedying Education: Evidence from Two Randomized Experiments in India (“Remediando a educação: evidências de dois experimentos aleatórios na Índia”), de 2007, eles argumentam que mudanças organizacionais e projetos ad hoc são muito mais eficazes do que a disponibilidade de recursos adicionais.

Nessa linha, o último trabalho de Banerjee e Duflo em formato livro foi um sucesso editorial por abordar um tema conhecido por todos, a pobreza, sob uma perspectiva radicalmente diferente: aproximando-se da realidade e complexidade da vida com menos de um dólar por dia.

Um dos artigos dos premiados critica abertamente os microcréditos como instrumento de redução da pobreza baseando-se em evidências empíricas

Poor Economics: A Radical Rethinking of the Way to Fight Global Poverty (“Economias pobres: um repensar radical da forma de combater a pobreza global”) aborda, por exemplo, a forma como os pobres veem a educação: consideram um desperdício gastar com educação para todos os filhos, e preferem concentrar o gasto em apenas um, geralmente do sexo masculino. Explicar aos pais que os benefícios da educação são lineares é muito mais eficaz do que construir mais escolas.

A decisão da academia sueca enfatiza os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que constituem a agenda mais ambiciosa da história para superar os grandes desafios sociais, começando por erradicar a pobreza, o objetivo número um. Os próprios ODS são enunciados de tal forma que se complementam, de modo que o ODS 1 (pobreza) se beneficia com os avanços no ODS 4 (educação de qualidade) ou no ODS 3 (saúde e bem-estar). Portanto, muito em linha com as conclusões de Banerjee, Duflo e Kremer.

Além disso, para alcançar os ODS é necessária a colaboração e o esforço conjunto dos setores público e privado, além de todos os agentes sociais, empresas, ONGs, veículos de comunicação, universidades... Nesse sentido, tenho muito orgulho do impulso que nossa Universidade Pontifícia Comillas, em Madri, vem fazendo nessa direção, incluindo a Agenda 2030 e a conquista dos ODS em seu plano estratégico, a fim de avançar em nossa missão de formar “líderes compassivos”.

Afinal, a economia é, em essência, o estudo da pobreza.
Elisa Aracil 

Bolsonaro precisa escolher um caminho. E tem uma oportunidade

Os principais complicadores potenciais para a presidência de Jair Bolsonaro são três. 1) Uma base congressual apenas programática, 2) a ausência de partido(s) forte(s) para chamar de seu(s) e 3) o ritmo lento de recuperação da economia. Enquanto o povão não se cansa deste terceiro item, dá para ir levando os dois primeiros. Mas a paciência não é eterna.

Falar em crise política no Brasil de Bolsonaro em outubro de 2019 é jornalisticamente sexy, mas talvez algo exagerado. Basta ver as atribulações, por exemplo, de Donald Trump, Boris Johnson, Pedro Sánchez, Lenín Moreno, Sebastian Piñera, Benjamin Netanyahu e Carrie Lam. Shaky governments parece ser o novo normal na era da hiperconectividade e das redes sociais.


Todos esses nomes têm base congressual. Bolsonaro por enquanto não.

Até agora, mesmo sem resultados brilhantes, Bolsonaro vem se sustentando 1) no crédito de confiança do eleitor dele, que numericamente continua com ele, ou pelo menos não está contra. Como mostrou esta semana a pesquisa Veja/FSB. E 2) no fato de o Congresso, majoritariamente pró-mercado, não ter como rejeitar a agenda econômica liberal capitaneada por Paulo Guedes.

Mas a guerra no PSL deveria acender uma luz amarela no Planalto. Presidente sem partido e sem base congressual própria alguma hora acaba sinucado. Pode demorar, mas a conta chega. Enquanto tem um terço de bom/ótimo e meio a meio no aprova/desaprova, dá para manter o stand by. O problema? Não haver nenhuma previsão de retomada brilhante do emprego no curto ou médio prazos.

Esta costuma ser a época em que os políticos estão recolhidos, apenas amolando as facas à espera do momento em que o governante vai perder força e vai depender deles para atravessar o rio cheio de crocodilos. E esta é a hora em que o presidente pode ainda negociar em vantagem com o Congresso. Basta consultar a literatura. Quem fez se deu bem. Quem não...

E o cenário está montado. Há uma avenida aberta. O dito centrão anda com síndrome de abstinência de governo, E agora ele viria algo repaginado, depois de eleito pela imprensa como o salvador das reformas. E afinal o chamado centrão é de direita mesmo. Não à toa Bolsonaro ostenta uma média alta de apoio nas votações congressuais. Seria o casamento da fome e da vontade de comer.
Claro que precisaria ser feito sem macular muito o brand da “nova política”, mas não falta aos próceres do centrão expertise nesse tipo de coisa. Fazer sem parecer que está fazendo. E aliás Bolsonaro foi dessa turma, o dito centrão, durante todo o tempo de deputado federal. Tem muito mais a ver com esse pessoal do que com o jacobinismo do PSL, ainda que os mais jacobinos até ali estejam espremidos.


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É preciso reconhecer em Bolsonaro um sujeito de sorte. A pipocada nos Estados Unidos no tema “Brasil na OCDE” abriu uma janela de oportunidade para o presidente fazer o que precisa ser feito: atrair os capitais chineses, especialmente em infraestrutura e tecnologia.

Vamos ver se a viagem à China vai ser um sucesso no estabelecimento de parcerias que ajudem a alavancar nosso desenvolvimento ou se as viseiras ideológicas vão impedir o governo de fazer o que é melhor.

Alon Feuerwerker