quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Dilma cai caprichosamente nas suas armadilhas

Dilma Rousseff envelheceu os métodos clássicos de fazer política. Criou um modelo próprio, baseado num tipo revolucionário de irresponsabilidade. Sua prioridade é a autodesconstrução. A estratégia é revelar as armadilhas que montou no primeiro mandato caindo em todas elas nesta segunda gestão.


Dilma deixa os governistas indignados e os oposicionistas perplexos. Por um lado, tornou-se uma caricatura que fugiu do controle do Lula. Por outro, faz questão de produzir as crises que podem asfixiá-la, dispensando seus antagonistas do trabalho. A história fará justiça a Dilma. Ela se tornou um fator de progresso. Revitaliza as instituições nacionais.

Na noite desta quarta-feira, Dilma refundou o Tribunal de Contas da União. FHC dera suas pedaladas. Lula também acionara os pedais. Mas foi Dilma quem desvendou o crime cometendo-o em proporções amazônicas. Preparou o terreno para que os auditores a flagrassem. Graças ao desejo inconsciente de Dilma de ser desmascarada, o TCU, antes um tribunal de faz de conta, teve sua noite de glória.

Em sessão apinhada, transmitida ao vivo, os ministros do TCU reprovaram por unanimidade as contas do governo Dilma referentes a 2014. Coisa semelhante não sucedia havia 78 anos. O último presidente a ter as contas rejeitadas fora Getúlio Vargas, em 1937. Orçado pelos auditores em R$ 106 bilhões, o desprezo de Dilma pelo rigor orçamentário fez renascer a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Na véspera, a inviabilidade de Dilma já havia prestado outro inestimável serviço à democracia brasileira ao arrancar da letargia o Tribunal Superior Eleitoral. Pela primeira vez na história, o TSE abriu um processo que tem como objetivo a cassação de uma chapa presidencial —a titular e o vice. Antes, os comitês fingiam prestar contas e a Justiça Eleitoral fazia de conta que auditava.
Com o auxílio luxuoso da dicotomia de Dilma, produziram-se em volume jamais visto as pistas que podem asfixiá-la. A roubalheira político-empresarial jamais será a mesma. No seu esforço secreto para ser descoberta, Dilma percorreu distraída os dois lados do balcão. Na presidência do conselho da Petrobras, conviveu com as más companhias. No comitê eleitoral, beneficiou-se da verba suja.
Na economia, Dilma já havia se rendido ao programa do adversário. Joaquim Levy percorre Brasília como uma espécie de denúncia ambulante do desmantelo fiscal e monetário que madame legou a si mesma.

Na política, a recente conversão de Leonardo Picciani em herói da resistência escancara o desejo de Dilma de se autoflagelar, expondo sob a luz do sol transações que exigiriam luzes apagadas. 

Personagem complexa, Dilma luta para barrar o impeachment ao mesmo tempo que empurra seu governo para o beco-sem-saída. O grande acerto de Dilma é a revelação dos seus erros.

Resistir, é preciso!

A convicção de que tudo o que acontece no mundo deve ser compreensível, pode levar-nos a interpretar a História por meio de lugares comuns. Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós - sem negar a sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção e resistir a ela - qualquer que seja
Hannah Arend

Quem perde paga

É como acontece na guerra e se reproduz em jogos, desafios ou apostas: “QUEM PERDE PAGA!”

Assim estamos no Brasil, como na fase final de uma guerra.

A nação (cidadãos, famílias, comunidades e empresas), mais uma vez, derrotada pelos seus governantes.

O Brasil, por suas “estratégias”, no último período, distribuiu quantias astronômicas de dinheiro em operações não produtivas para, segundo seus mentores, obter resultados sociais e de desenvolvimento.

Foram realizados volumosos investimentos de infraestrutura em nações amigas como Bolívia, Venezuela, Cuba e Panamá, em estradas, portos, aeroportos e refinarias.

O Governo Brasileiro com o objetivo de “estreitar relações”, perdoou dívidas que superam US$ 1 Bilhão dos países africanos: Congo, Tanzânia, Zâmbia, Etiópia, Costa do Marfim, Senegal, Gabão, República da Guiné, Mauritânia, São Tomé e Príncipe, Sudão e Guiné Bissau. Conjunto de países que inclui algumas das mais violentas ditaduras da atualidade.

Perdoamos também a dívida da Bolívia (US$ 52 Milhões), da Venezuela (R$ 20 Bilhões) e ainda doamos US$ 800 Milhões para o governo de Cuba.
Aumentamos neste ano, o Fundo Partidário (dinheiro destinado ao “sustento” dos Partidos Políticos) de 289 Milhões, para R$ 868 Milhões em um aumento de mais de 200%.

Fizemos transferências diretas R$ 27 Bilhões via Bolsa-família, para 50 Milhões de pessoas, um exército que já representa ¼ da população total do País.

Para a Copa do Mundo de Futebol, foram gastos R$ 33 Bilhões, sendo R$ 1,1 Bilhão só para o estádio do Corinthians e R$ 1,05 Bilhão para o Maracanã.

Gastamos em 2014 para manter nossos inacreditáveis 39 Ministérios, a quantia de R$ 400 bilhões, remunerando mais de 113.000 empregados.
Cartões Corporativos do Governo Federal custaram em 12 meses aos cofres públicos, R$ 61,8 Milhões, sendo 49% deste montante, em gastos sigilosos.

Alguns bilhões ainda foram dedicados à ONGs, convênios, incentivos, patrocínios, participações, “comissões”, etc.

Alguns obtiveram grandes vantagens. Mas, ao final, pelo menos para nós, deu errado! Fomos os derrotados!

A economia encolheu, perdemos mais de meio milhão de postos de trabalho em seis meses, a inflação cresceu, a insegurança é assustadora, o sistema de saúde se deteriora, a educação diminui seu orçamento e não evolui, nossa infraestrutura é precária e a corrupção se dissemina implacavelmente em todas as dimensões e por todo território nacional.

E agora, a despeito de já pagarmos mais de 45% de tudo o que produzimos em impostos aos nossos governantes e de já possuirmos uma liderança mundial inalcançável na relação injusta entre a arrecadação de impostos e a entrega de serviços à população, nossos governantes chegam a conclusão de que devemos pagar mais impostos ainda, para acertar o caixa e manter o pais, minimamente, viável.

Dizem eles, que isso é o que precisa e o que deve ser feito. Mas não pode ser por necessidade! Não é possível que seja! Certamente, não é. Só pode ser pela lógica da guerra e pela execução de sua principal regra. Uma regra opressora, tacitamente estabelecida e aplicada por quem detém muito poder e nenhum senso de justiça.

Aos vencedores, cabe a apropriação da riqueza. Aos perdedores, a assimilação de seus prejuízos, a indenização dos custos e o pagamento da premiação aos vitoriosos.

Não deveria ser assim. Mas vai acontecer novamente... Mais uma vez nós perdemos... E QUEM PERDE, PAGA.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Brasil, pátria educadora

Ao tomar posse no dia 1º de janeiro, Dilma Rousseff anunciou o lema de governo de seu segundo mandato como Presidente da República:“Brasil, pátria educadora”. Para aqueles que, como eu, sonham com um país mais justo e mais digno, no qual a educação tem uma função fundamental de alicerce da cidadania, as palavras poderiam até soar como uma aragem de esperança. Não que confie em discursos de políticos – quaisquer que sejam eles, valem tanto quanto notas de três reais –, mas o desejo de mudança é tão grande que qualquer bafejo reacende a brasa dormida. No entanto, neste caso, sabíamos, “Brasil, pátria educadora” não passava de slogan publicitário, forma sem conteúdo. O desprezo do governo Dilma pela educação não é maior que o de todos os outros que a precederam. A diferença é que nenhum antes havia manifestado tamanho cinismo.
Com o anúncio da substituição de Renato Janine Ribeiro por Aloízio Mercadante, Dilma perfaz quatro diferentes nomes no cargo de ministro da Educação em apenas nove meses de mandato, um recorde. Desde o fim da ditadura, em 1984, passaram pela pasta 19 pessoas – sete apenas sob administração de Dilma Rousseff, ou seja, média de mais de um por ano. Com um histórico destes, torna-se difícil até mesmo formular políticas públicas de curto prazo – e absolutamente impensável elaborar projetos de longo prazo, que é o que necessitamos com urgência. Em maio, o governo já havia anunciado cortes de R$ 9,5 bilhões no orçamento destinado à educação – dois meses depois, a área perdeu outro R$ 1 bilhão, numa clara sinalização de que o setor nunca foi e continua não sendo prioridade do governo.

O Brasil ocupa o vergonhoso 60º lugar, numa lista de 76 países, no ranking de qualidade de educação, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que avalia o conhecimento de alunos na faixa de 15 anos em matemática, leitura e ciências. O resultado do Enem do ano passado revela a tragédia: 529 mil redações (8,5% do total) tiraram nota zero – e somente 250 de 6,1 milhões de candidatos alcançaram nota máxima (0,004% do total). Calcula-se que 15% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos sejam analfabetos funcionais – ou seja, não conseguem interpretar textos e limitam-se a compreender operações matemáticas simples. E a tragédia se estende ao ensino superior: o Instituto Paulo Montenegro concluiu que os analfabetos funcionais constituem 38% dos estudantes universitários.

Sucateadas, as universidades federais mantêm-se em greve há mais de quatro meses – nem durante a ditadura militar as instituições federais de ensino superior pararam por tão longo tempo. O Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), que custeia bolsas de estudos para alunos carentes em universidades privadas, sofreu uma redução de 50%: o número de novos contratos caiu de 480 mil em 2014 para 252 mil neste ano. E o programa Ciências sem Fronteiras, menina dos olhos do governo Dilma, teve congeladas as vagas: o orçamento para 2016 cobre apenas a manutenção dos estudantes que já se encontram no exterior. O Brasil não possui nenhuma universidade entre as 250 melhores do mundo, segundo ranking elaborado pela Times Higher Education – a primeira que surge, a USP, na faixa de 251º a 300º, é estadual; a primeira federal, a UFRJ, aparece classificada na faixa de 501º a 600º.

Se no topo do sistema educacional – os ensinos médio e superior – nos deparamos com esta desolação, não é melhor a realidade do ensino fundamental. Faltam bibliotecas – presentes em apenas 27,5% das escolas (no estado de São Paulo, o mais rico da federação, 85% das unidades estaduais e municipais não contam com biblioteca). Faltam 1,2 milhão de vagas nas pré-escolas. Os alunos, em todas as etapas do ensino, têm aulas em prédios mal conservados e ambiente pouco estimulante; os professores são em número insuficiente, recebem salários baixos e contam com poucos recursos didáticos — ambos, alunos e professores, são acossados pela violência. Se somarmos o número de analfabetos funcionais (68% da população) aos analfabetos (7% do total), teremos que apenas 25% dos brasileiros, ou seja, um em cada quatro, possuem pleno domínio da leitura, da escrita e das operações matemáticas. É evidente que essa situação é uma herança histórica e não pode e nem deve ser atribuída aos governos tucano e petista que comandaram o país nos últimos 20 anos. Mas também é verdade que nenhum deles fez, efetivamente, nada no sentido de reverter esse quadro.

Você (ainda) tem a força!

O PT – que já andou namorando a idéia de que um impeachment seguido de um governo “de união nacional” chefiado pelo PMDB presidindo a fome que será exigida pelo desastre que contratou para o Brasil daria o álibi perfeito para Lula voltar como salvador da pátria em 2018 – agora está pacificado e firmemente unido em torno da tese do tudo ou nada.

Se ha uma “qualidade” que não pode ser negada ao partido é a sua capacidade de enxergar clara e objetivamente a realidade dos fatos e não discutir com eles quando o que está em jogo é a disputa pelo poder. Quem se engana, quando o acusa de brigar com a realidade, são os críticos que medem as ações do PT pela lógica econômica ou pelo interesse da república que jamais entraram em suas considerações. Para a consecução do único objetivo que lhe interessa o que dizem os fatos é que a via eleitoral está esgotada, tanto mais quanto mais para frente se olhar no horizonte. Não é mais de anos, é de décadas de vacas magérrimas que estamos falando. Eleições, depois da última pela qual passou raspando a custa de quebrar a Petrobras (e não só a ela) para embalar em bilhões o maior conto do vigário a que o eleitorado nacional jamais foi submetido são, doravante e até onde se pode enxergar, o perigo a evitar.


Muito antes do previsto, portanto, o furacão Dilma combinado com o fim do milagre chinês empurra o PT para a segunda fase do seu projeto hegemônico antes, ainda, que a primeira tivesse sido completada. O marco oficial dessa inflexão está na desistência, sacramentada pela Fundação Perseu Abramo, de tentar curar a economia da doença que o lulopetismo instilou em suas veias para se agarrar à equação que até ha pouco ele próprio tinha admitido insustentável e tentar durar o bastante no poder, com expedientes protelatórios e a quantidade de “diálogo” ($) que for necessária no atacado e no varejo, para que a manobra se torne irreversível e passar, então, a ancorar de peito aberto seu projeto naquilo que seus liderados do Foro de São Paulo já ancoram o seu. É um ato de desespero mas é a direção para a qual apontam os fatos. Da combinação de aparelhamento do Estado e das instituições democráticas com farra fiscal para subsidiar a festa do consumo e derrotar opositores nas urnas, vamos sendo inexoravelmente empurrados para o funil da combinação de instrumentalização da miséria com violência para tirar opositores do caminho a qualquer custo que caracteriza todos os estados bolivarianos com economias agonizantes à nossa volta.

Para tanto será necessário acelerar o que ainda está por fazer da “Fase 1” que é a da ocupação do Estado (já completada) e da desmontagem das defesas democráticas da nação (ainda por completar). É esse o sentido da tentativa de golpe contra o TCU. Mesmo diante da inusitada resistência desse tribunal, porém, nada autoriza subestimar a capacidade do PT de conseguí-lo. O PMDB, por exemplo, acredita piamente nisso. Ao ver Lula assumir o leme e dobrar a aposta em sua inabalável convicção de que todo mundo é podre, bastando, para cavalgá-los, melhorar as condições ambientais para que apodreçam mais rapidamente, a raspa do tacho do partido que dias atrás ainda hesitava diante da perspectiva de tudo se esboroar nas mãos de Dilma entendeu que chegou a hora do “free for all” e perfilou-se, salivante, em ordem unida.

A “reforma ministerial”, que começou a pretexto do “ajuste”, converteu-se oficialmente em mais uma vasta operação de distribuição de postos de tocaia aos dinheiros públicos para os membros das organizações investigadas pelo juiz Moro para tratar de impedir que a lei alcance o PT antes que ele tenha tempo de colocá-la exclusivamente ao seu serviço. A crônica política está reduzida a um relato diário sobre quem comprou quem, por quanto e para quê. As “partes” negociam em público os nacos daquilo que a nenhuma delas pertence ameaçando represálias contra a Nação sequestrada. Cada etapa da farsa é encerrada com a manifestação regulamentar do jurista ou do “especialista” estrelados da vez para, invocando umas e esquecendo outras conforme a conveniência do momento, colocar as leis a serviço do crime e garantir que não ha nenhum “elemento técnico” que permita deter essa mixórdia. Quando até isso falha, recorre-se aos agentes do aparelhamento das instituições para exigir deles mais um passo em direção ao ponto de não retorno.

A capital federal é cada vez mais um gueto que o resto do país repudia. Trancados em suas “dachas”, impedidos de frequentar o Brasil que os brasileiros frequentam, ameaçados de linchamento onde quer que apareçam em público, não ha, porém, instituição que alcance os sócios do assalto ao Brasil. Mas não é mesmo em busca de aprovação que está quem troca abertamente nacos do orçamento público pela vontade manifesta de seus eleitores. Só uma ação decidida das ruas poderá alterar o rumo dos acontecimentos. E não ha nenhum “goplpismo” nisso. Ao contrário, é essa a essência do processo democrático. Nos governos “do povo, pelo povo e para o povo” não ha lei alguma que, legitimamente, possa tornar ilegal a vontade do povo. Ele é a unica fonte de legitimidade de onde, por enquanto até para a nossa “Constituição dos Miseráveis”, emana todo poder.


Não é o Brasil, portanto, que tem de perguntar a Brasília o que ele pode ou não pode fazer com os mandatos que temporaria e condicionalmente concede a seus representantes. É o contrário.

O povo põe; o povo “des-põe”.

Como está absolutamente só, traído por todos os seus representantes eleitos, se quiser manter abertos os canais que restam e alimentar a esperança de reconstituir os que estão obstruídos pela cooptação e pela corrupção, o povo brasileiro terá de demonstrar na rua o tamanho dessa vontade. Conseguirá o que estiver realmente disposto a conseguir pois a democracia brasileira está desorientada e cambaleando mas ainda não está completamente surda.

Portal do inferno

Quem circula pelo mundo da educação sabe da tremenda ressaca que se disseminou entre educadores brasileiros com a recentíssima troca de comando no Ministério da área. Foi a terceira em dez meses.

Com a demissão vexaminosa, foi pelo ralo a última réstia de esperança de surgir algo minimamente substantivo sob a batuta de Renato Janine Ribeiro.

Esqueçam. No governo da presidente Dilma Rousseff nada acontecerá no setor educacional, a não ser andar para trás. Ou para os lados, como caranguejo.

O agora ex-ministro foi recebido, quando de sua nomeação, com extrema boa vontade por educadores de diversos matizes, muito embora sua experiência como gestor público fosse escassa.

O acadêmico não disse a que veio, é verdade.

Impotente para fazer frente ao gigantesco corte do orçamento da Educação (o setor foi um dos mais afetados pelo ajuste fiscal de Joaquim Levy) o então titular da pasta assistiu, passivamente, o apagão das universidades federais, a drástica redução das vagas do Pronatec, o fim do Ciência sem Fronteiras, o aumento dos juros do Fies ou o brutal corte de verbas para a compra de livros paradidáticos e de ficção para os alunos do ensino básico das escolas públicas brasileiras.

Sem força política e carente de poder de aglutinação, Renato Janine travou sua batalha de Itararé com o também ex-ministro Mangabeira Unger, da finada Secretária para Assuntos Estratégicos - a Sealopra. Estabeleceu-se, assim, uma política educacional bicéfala, com Janine sendo responsável pelo Plano Nacional da Educação - uma miragem semelhante à Ferrovia Transoceânica e ao Trem-Bala - e Mangabeira por um “plano de concepção” com base em outra peça de ficção, o factoide Pátria Educadora.

Quem estabeleceu essa dualidade? A própria Dilma.

Na sua gestão, o acadêmico pagou outro mico. Anunciados os resultados catastróficos da Avaliação Nacional de Alfabetização de 2014, o Ministério da Educação simplesmente suspendeu o ANA de 2015, numa imitação daquela piada do marido traído e do sofá da sala.

Mas Renato Janine Ribeiro não caiu por qualquer um desses fatos.

O professor de ética e filosofia foi defenestrado precocemente porque a presidente precisava dar um prêmio de consolação a Aloizio Mercadante. E protegê-lo com o foro privilegiado.

O episódio é por si mesmo revelador da improvisação e da pouquíssima importância da educação no governo Dilma.



A descontinuidade e a alta rotatividade no MEC são a marca registrada desses tempos do lulopetismo. Dilma começou com Fernando Haddad que saiu para ser candidato a prefeito de SP. Foi substituído por Aloisio Mercadante que deixou o cargo em menos de dois anos. Veio então, por quase um ano, José Henrique Paim, um tecnocrata com carreira pública construída nas entranhas de governos petistas, que ficou no Ministério da Educação distribuindo vagas -sem transparência, controle ou critério- em cursos técnicos de escolas muitas vezes desconhecidas, e esquentando a cadeira enquanto Mercadante fazia a campanha eleitoral de Dilma Rousseff.

Quem o substituiu em 1º de janeiro de 2015? Cid Gomes, aquele meteorito cuja passagem pelo MEC foi mais célere do que um raio.

Entende-se, portanto, o desalento dos educadores com a dança das cadeiras promovidas pelo governo do PT.

Em uma conjuntura de recursos escassos, de dicotomia entre a demanda da sociedade por uma educação de qualidade e a incompetência governamental para atendê-la, mais do que nunca se exige do Ministro da Educação capacidade de formulação além de habilidade para empolgar corações e mentes; pré-requisitos para comandar um grande pacto nacional, cuja agenda está dada desde o final do século passado e que começa com investimento em políticas públicas para a formação e capacitação permanente de professores.

Aloizio Mercadante é esse homem? Tem esse perfil?

De jeito nenhum. É o que se chama de liderança negativa, aquela que, tal qual Átila, onde pisa não nasce grama.

Como gestor, seu grande traço é a enorme capacidade de desagregar, para não falar de sua inapetência para ouvir, na sua soberba e arrogância. Ou não foram essas características que o levaram a se meter em tantas trapalhadas alopradas e a levar Lula a exigir a cabeça dele?

Nesse governo a educação chegou ao Portal do Inferno.

Nele, não tem mais jeito.

É como dizia Dante: "Deixai toda esperança, ó vos que entrais".

Cleptocracia

Estou estudando português. Preciso, pois o uso inadequado do tempo verbal, virgulas e palavras podem produzir desastres. Não desejo transmitir informações equivocadas, fruto da forma, distorcendo o conteúdo.

Fui aconselhado a ler, ler muito. Machado, Guimarães, Rubem Braga, me trouxeram mais inspiração e menos transpiração, restando a tristeza de ouvir que alguns políticos se orgulharem de jamais terem lido um livro.

Estava construindo o artigo sobre a CPMF - cachaça, politicagem, maconha e fumo -, quando precisei usar a palavra honesto. Recorri ao Aurélio e lá estava o adjetivo que indica qualidade, defeito, estado ou condição de um substantivo. Como exemplo citava governo honesto, político honesto, ato honesto, podendo ser substituído por correto, probo, digno. No entanto, pensei, haveria exceção para alguns governos, políticos ou a Volkswagen alemão, por ter utilizado um software para fraudar a avaliação dos poluentes de seus carros.

A questão na minha CPMF, indigna, improba e incorreta, era discutir como os poderes deveriam tomar decisões substantivas, na essência; pois nosso país cria leis passageiras, as que pegam e as que são esquecidas, nada substantivas, sem adjetivos ou dando margem a tantas interpretações. Ficando preso na legalidade, esquecendo o princípio da moralidade, o termo honesto vive sendo aplicado como um gerúndio: uma ação em movimento, que ainda não terminou, sempre esperando algo, às vezes uma grande surpresa ou decepção. Por mais que tentasse, não conseguia usar o honesto como substantivo, apesar de seu uso consagrado em nosso meio do tipo: “muito honesto” ou “bastante honesto”.

Precisava explicar que não é a honestidade da justiça curitibana, que está paralisando o país, ao desconsiderar as graduações e sofismas de nossa cultura em relação ao termo. Além disso há a questão da lei aprovada pelo legislativo, aplicada pelo executivo, com os conflitos arbitrados pelo judiciário. Seria simples se no Brasil não se buscasse o equilíbrio entre os três poderes, de forma fantasiosa, na figura de uma balança com três pratos, três pesos e três medidas.

Acabei capitulando na busca de uma construção elegante.

A maioria dos brasileiros sabe o que é honesto, paga 37% de sua renda em impostos e recebe migalhas para educação, saúde e segurança pública. Desconhece o nome do deputado ou senador que votou, passado um ano da eleição, apesar dos custos das campanhas. Mas esse mesmo eleitor é capaz de cantar a nova música de seu cantor eleito, assim como se lembrar dos títulos do seu time de futebol. É raríssimo um eleitor mudar de time de futebol, assim como votar no mesmo político.

Honesto é um adjetivo que falta aos políticos que alegam desconhecer que não existe almoço gratuito e que caixa-dois é crime. Deveriam estar presos, até por “incompetência criminosa”, pois mesmo gastando fortunas em marketing, continuam anônimos, fora do ritmo e jogando contra.

Chega de gastança para manter a cleptocracia.

A farra das fraudes fiscais dos ratos roendo os rotos

Ulula o óbvio de que a situação desesperadora pela qual passam trabalhadores perdendo os empregos e empresas prestes a fechar as portas só terá alívio quando se mudar o nome que há na placa que indica a usuária do gabinete mais importante do Palácio do Planalto, senha dos resquícios de poder que paralisam e empobrecem o País. Mas isso está a depender agora de alguns poucos fatores: a capacidade de praticar lambanças da gerenta inconsequenta e incompetenta; agentes policiais federais, procuradores da República e juízes honrados e preparados; além de profissionais de comunicação probos, corajosos e independentes.


Tudo o que de horripilante e nauseabundo a Nação vem tomando conhecimento nos últimos 20 meses, até agora, independeu de qualquer iniciativa da soit-disantoposição formal. O chefe dela, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), tem sido merecedor de piadas como a publicada por Jorge Bastos Moreno em sua coluna no Globo sábado passado: ele a exerce no horário comercial das terças às quintas-feiras, quando esporadicamente dá à Nação aflita a subida honra de ouvir sua voz. Mais frequente do que ele na tribuna na anterior gestão da presidente foi o tucano paranaense Álvaro Dias, que jogou no lixo seu cacife ao aderir freneticamente à candidatura de Edson Fachin ao Supremo Tribunal Federal (STF). E também o paulista Aloysio Nunes Ferreira, vice derrotado na eleição, agora investigado juntamente com governistas, velhos comparsas de luta armada contra a ditadura, no maior assalto a cofres públicos do mundo em qualquer época.

O escândalo que corroeu os pés de barro do mito do socialismo honesto do Partido dos Trabalhadores (PT) não foi revelado pela oposição. Mas pela mui pouco arguta gerenta deficienta que o padim Lula Romão Batista nos impingiu, levando-a ao citado gabinete da plaquinha. Foi ela que chamou a atenção para o caso ao inculpar Nestor Cerveró, meliante feito diretor da Petrobrás por esse padroeiro, pela compra da tal “ruivinha” em Pasadena.

Ao sincericídio de Dilma acrescentou-se, durante esse período, a diligente investigação do lava jato de dinheiro sujo do propinoduto da Petrobrás num posto de gasolina em Brasília por Polícia Federal (PF), Ministério Público Federal (MPF) e Justiça do Paraná, na pessoa do novo herói nacional, Sergio Moro. E isso só foi possível mercê de divisões inconciliáveis na PF; da honestidade e do preparo dos procuradores; e da expertise do juiz, enfronhado em práticas contemporâneas do crime organizado e que tinha prestado excelentes serviços ao assessorar a ministra Rosa Weber, no STF, durante o julgamento do processo conhecido como mensalão. E o tsunami de lama foi sendo publicado a conta-gotas.

O extenso aparelhamento da máquina pública federal e dos três Poderes, empreendido pelo trabalho efetuado “diuturnamente e noturnamente” (como diria a atual responsável por desligar e religar seus interruptores) por Zé Dirceu, já valeu a este uma condenação pelo STF no mensalão. E novos processos no que agora se convencionou chamar de petrolão. Uma sólida camada de teflon, contudo, ainda protege o grande chefe de todos, e sua sucessora, de algum constrangimento. Esta continua impávida no poder, sendo até, vez por outra, agraciada com definições de “honesta” pelos tucanos Fernando Henrique Cardoso e Aloysio Nunes Ferreira, dados como de oposição.

Com obsequiosa costura efetuada por Nelson Jobim, que na presidência do STF engavetou pedido de habeas corpus do acusado de mandante da execução de Celso Daniel, Sérgio Gomes da Silva, o máximo que se conseguiu em relação ao ex foi chamá-lo para se explicar na PF na condição de informante – nem acusado nem testemunha. Isso só lhe causa desconforto semântico, pois Romeu Tuma Jr. assegura, em Assassinato de Reputações, que ele foi o agente Barba de seu pai no Dops. E ninguém contestou.

No Tribunal Superior Eleitoral, ex-advogadas do PT não impediram a discussão sobre a existência de provas de uso de gráficas fantasmas e de suspeitas de financiamento do propinoduto à campanha da reeleição. Mas pedem vista ou fogem das sessões para interromper o julgamento. A julgar por fatos recentes, as suspeitas serão julgadas nas calendas, depois de o alvo das suspeições ter decidido se sairá pela porta da frente da História com a renúncia ou despejada por um processo legal, nada golpista.

Dilma, que não se destaca pelo excesso de inteligência, mas também não é tolinha, trata de ganhar tempo no TCU. Ali, como se diz em linguagem vulgar, o buraco é mais embaixo. O procurador Júlio Marcelo de Oliveira foi à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado descrever evidências técnicas de com quantas “pedaladas” a candidata disposta a fazer o diabo para ganhar uma eleição pôde levar a cabo esse feito. No entanto, o trio Panela Batida – Adams, Cardozo e Barbosa – anunciou que se propõe a anular o relatório de Augusto Nardes, que lista 18 infrações à lei nas contas federais de 2014. Nunca ninguém antes foi tão cínico na História deste país, diria Lula se fosse da oposição.

Para ganhar tempo no poder, este indicou a Dilma no pré-sal do baixo clero do Congresso quem a ajudará a adiar o impeachment. Um, Celso Pansera, o dono do quilão Barganha, vizinho do Sacana’s, que fez ameaças ao contador da lavanderia do PT, Alberto Youssef, é pau-mandado do ex-sócio e hoje pseudodesafeto dela Eduardo Cunha. Outro, Marcelo Castro, ignoto psiquiatra do Piauí, escreveu o relatório da reforma política, recusado pelo mesmo mandante, Cunha, e assumirá o caos da saúde pública nacional. Com cúmplices no governo e na oposição, que lhe concede o benefício da dúvida, segue Cunha incólume.

No Gabinete Ouro Preto, o baile da Ilha Fiscal prenunciou a queda do Império. O Gabinete do Doutor Picciani vem aí para garantir a farra das fraudes fiscais dos ratos que roem a roupa dos rotos. Amém!

Aquela praça, aquele banco...

Os tribunais de Contas, mesmo com a castração imposta pela Constituinte de 1988, que os classificou como órgãos auxiliares “do” Legislativo, em vez de órgãos auxiliares de informação “ao” Legislativo, ainda detêm alguma competência legal, desde que conselheiros e ministros, no caso do Tribunal de Contas da União (TCU), queiram trabalhar, o que não é comum nem fácil. Conselheiros viajam...


Quando trabalham, acontece o que está acontecendo no TCU. Dona Dilma pintou e bordou no ano passado com o dinheiro público, tomou emprestado dinheiro do próprio governo (sem devolvê-lo “oportuno tempore”), o que a Constituição Federal proíbe. Resultado: o ministro relator do TCU apontou o rombo e já anunciou que seu parecer sobre as contas da ilustre “doutora da Unicamp” será pela rejeição, um desviozinho de aproximadamente R$ 80 bilhões, e, por isso, Dona Dilma quer substituir o ministro relator porque ele teria vazado seu voto antes do julgamento, entendimento de terroristas... O ministro relator, ao abrir vista para a defesa, não tem como não dar publicidade do seu parecer. O Tribunal de Contas, Dona Dilma, não é órgão do Judiciário, é de instância administrativa. Assim, essa sua posição não pode ser de uma “mulher sapiens”, melhor é segurar o tcham ou perguntar o que fazer em algum posto Ipiranga...

E o que representa a rejeição das contas pelo TCU? Representa pouco, só o motivo para instruir o pedido de impeachment...

A reeleição também tem lá suas vantagens: paga quem gastou. Dona Dilma diz que todo mundo faz assim, e nunca o TCU rejeitou as contas de um presidente. Sim, azar o dela se topou com um ministro que estava a fim de trabalhar e meteu o fumo. Agora não adianta chorar. O Executivo da União e o do nosso Estado, colegas de assaltos a bancos em priscas eras, combinaram um procedimento maluco, talvez para mostrar poder: elaboraram seus Orçamentos com déficit, como se isso fosse legal e diferente. Não é nem uma coisa, nem outra... O procedimento teve repercussão negativa e serviu para mostrar que o ex-Luiz, que ainda está solto, não é o único analfabeto do pedaço.

Votei no Aécio sabendo que, dos males, o menor. Mas já imaginaram se ele tivesse sido eleito? Vejam o buraco de tatu em que teria entrado... Estou certo de que Aécio, perdendo a eleição, ganhou. Digo mais, se o país não tem dinheiro, por que patrocinar Olimpíadas?

Agora mesmo, a nossa augusta Assembleia vai inaugurar, com um mês de festas, uma praça pública que deveria ser obra da prefeitura. Será que Dona Dilma não acha estranho a Assembleia construir praça para fazer palanque para lançamento de futuras candidaturas? Eu acho.

Candidaturas a tudo, até a papa, se o Chico bobear, estão a pulular pelas praças públicas e nelas corrutelas das Gerais. Nem parece que os mandatos mal começaram.

Sei não, Dona Dilma, abra os olhos, não fique enxergando cachorro sempre que vê uma criança, lembre-se de que o lobisomem que persegue a senhora tem nove dedos e enxerga de noite o que malandro não vê de dia...

Lula, o entreguista

À medida que o tempo passa, mais se sabe quem é, de fato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O exemplo mais recente data da última segunda-feira, quando, em palestra em São Paulo para uma plateia formada por partidos de esquerda, ele abertamente confessou ter “doado” para a Bolívia as instalações que a Petrobras mantinha naquele país para extração de gás. A camaradagem já havia sido combinada com o ainda então candidato à presidência boliviana, Evo Morales – que, eleito, meses depois de sua posse pôs suas tropas para confiscar o patrimônio brasileiro, em maio de 2006.
Foi bem simples, segundo relato do próprio Lula: “O Evo me perguntou: ‘como vocês ficarão se nós nacionalizarmos a Petrobras?’ Respondi: ‘o gás é de vocês’. E foi assim que nos comportamos, respeitando a soberania da Bolívia”. O presente que Lula deu à Bolívia valia nada menos do que US$ 1,5 bilhão. E agora se sabe também que a ocupação militar das refinarias não passou de uma patética encenação para dar pretexto à colossal e despropositada oferenda.

É tosco o raciocínio de Lula para justificar a doação. Ele não tinha o direito, senão pisando sobre a soberania do país que governava, de alienar um bem do Estado. É de se perguntar: a seguir seu entendimento, bastaria deslocar nossos navios de guerra para tomar dos estrangeiros as plataformas instaladas para explorar o “nosso” petróleo? Evidentemente, nenhuma das opções pode nem sequer ser aventada por um chefe de Estado. No mundo civilizado devem prevalecer regras contratuais de direitos e deveres que regulam as relações entre nações.

O ex-presidente foi além em suas tardias confissões ao falar para o Foro de São Paulo, organização que reúne representantes de esquerda da América Latina. Ele deixou patente que, ao colaborar com o arroubo de Morales, sua pretensão era a de fortalecer os regimes bolivarianos que floresciam no continente – isto é, Lula foi movido por uma causa ideológica e, em nome dela, transferiu a outro país um patrimônio de que ele não podia dispor como se fosse sua propriedade particular.

Absolutamente nada autoriza um presidente da República a usar desta forma um patrimônio do Estado, dando sinal verde informal – como Lula atesta com suas próprias palavras – a um ato de expropriação por parte de um governo estrangeiro. Na verdade, ele confessou ter sido cúmplice de um atentado à soberania nacional, preferindo o interesse boliviano ao interesse brasileiro. A esquerda – nela incluída o próprio Lula – adora repetir que estatais são “do povo brasileiro”. Segundo a lógica das esquerdas, então, a conclusão é evidente: Lula entregou à Bolívia algo que era “do povo brasileiro”. Claro, sabemos que na realidade estatais pertencem ao Estado, e não ao povo. Mesmo assim, isso não autoriza o mandatário de plantão a dispor dos bens do Estado como bem lhe aprouver, especialmente quando isso significa um ataque à soberania brasileira.

Não causa surpresa, porém, o desdém que Lula dedicou à Petrobras no caso boliviano. A estatal foi contínua e permanentemente pilhada ao longo de seu governo e do mandato da presidente Dilma Rousseff, como bem demonstra a Operação Lava Jato. Fez-se dela, durante esse período, um caixa livre para abastecer partidos e enriquecer políticos, diretores e operadores que se fartaram de propinas. A empresa também foi sangrada como instrumento de política econômica; represava-se sua rentabilidade para conter a pressão inflacionária, impunham-se à estatal prejuízos reais ou tolhia-se sua capacidade de investimentos.

A Petrobras encontra-se, na prática, privatizada: foi transformada em propriedade do PT para fins partidários e eleitorais. E, agora, ficamos sabendo pela boca do próprio Lula que ela também foi usada para camaradagens ideológicas. Não por outras razões a empresa que já foi uma das maiores do mundo frequenta hoje posições muito mais modestas no ranking – liderança global, agora, só em endividamento.

Analisando apenas os valores, a “doação” de parte do seu patrimônio para o amigo Evo Morales poderia até ser considerada um “mal menor” diante de tudo quanto se fez para levar a Petrobras ao triste estágio em que hoje se encontra. Mas o significado do episódio vai muito além das cifras. Ele mostra como, desmoralizada e desvalorizada, a Petrobras se tornou o retrato pronto e acabado da ideologização irresponsável da administração petista.

O diário de um monarca

Os trechos do diário do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicados na última edição da revista "Piauí" são uma aula de vida, política e história. Mostram suas alegrias e ansiedades entre novembro de 1995 a abril do ano seguinte. Retratam um país que, visto do trono, parece ter mudado pouco. Visto da rua, mudou muito, em grande parte graças a ele. FHC conviveu com escândalos, teve medo de CPI, lidou com um PMDB rebelde, loteou ministérios, ouviu a maldita palavra "impeachment" e, por fim, aturou a imprensa fofoqueira.

Há duas semanas, FHC disse que a doutora Dilma "vai fazer um pacto com o demônio o tempo todo". No dia 25 de abril de 1996, ele ouviu de Dorothea Werneck, a ministra da Indústria e Comércio que dispensara para abrigar um acerto partidário que "estamos fazendo um pacto com o Diabo". Nessa penosa conversa, ambos choraram. "Fui ficando com raiva de mim mesmo", registrou horas depois.

Dois presidentes mantiveram diários. Getúlio Vargas falava consigo mesmo, com magistral precisão e sinceridade. Juscelino Kubitschek, proscrito pela ditadura, listava prazeres e penares pessoais. Fernando Henrique Cardoso escreveu para ser lido, como se à meia-noite ligasse o gravador, jogando confidências ao futuro. Foi ao mesmo tempo protagonista e observador. Um negociava ministérios, o outro sentia "o travo amargo do poder, no seu aspecto mais podre do toma lá, dá cá". Reconhecia, contudo, que "este é o Brasil de hoje, onde a modernização se faz com a podridão, a velharia".

Nos períodos publicados pela "Piauí", FHC vivia a primeira grande crise de seu governo. Sua maior realização, o Plano Real, tinha pouco mais de um ano e o sistema financeiro estava em crise. Haviam quebrado os bancos Econômico e Nacional. Uma pasta encontrada no arquivo do dono do Econômico revelava, pela primeira vez, o esquema de financiamento ilegal de campanhas eleitorais (dos outros) pela banca. Se isso fosse pouco, o presidente do INCRA, ex-chefe do seu gabinete pessoal, fora apanhado com gravações dos telefones do chefe do cerimonial do Planalto, metido em conversas impróprias sobre a compra de um sistema de vigilância eletrônica para a Amazônia. FHC dizia que "democracia não é fazer chacina pública". Queixava-se para o diário do que seriam "fofocas", mas reconhecia que "cai lama no governo". Caíram todos os envolvidos, inclusive o ministro da Aeronáutica. Escrevendo em 1995, FHC parece falar para a doutora Dilma de 2015: "Estou cansado de ser, digamos, atacado por força dos meus amigos do círculo íntimo. Esse circulo íntimo tem que ser quebrado. Tenho que nomear alguém no Palácio que não pertença a ele".

No Brasil de 2015, brilhou sua revelação de que se recusou a nomear Eduardo Cunha para uma diretoria da Petrobras. Tudo bem, mas a empresa continuou presidida por Joel Rennó, de quem só se livraria mais tarde, nomeando um substituto exemplar. Passados 20 anos, no Brasil de hoje, FHC dedica obsequioso silêncio à contabilidade financeira do atual presidente da Câmara.

Lutando para impedir uma CPI, diante do boato de que um banqueiro ameaçava contar tudo o que sabia sobre campanhas eleitorais, advertiu: "Esta gente está brincando com fogo"
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Honestidade intelectual faz falta para olhar a realidaded

Muito já foi escrito de 2 de outubro para cá sobre a reforma ministerial efetivada pela presidente Dilma Rousseff. E antes também, sobre quem ficaria e quem sairia, referente a ministérios e a quem ocuparia as pastas remanescentes.

Muito choro e ranger de dentes, desesperança e desânimo entre pessoas que apoiam o governo. Li bastante sobre o assunto, declarações favoráveis e desfavoráveis, para embasar a minha opinião na presente tentativa de análise de perdas e ganhos, ainda inicial e sem pretensões de esgotar o tema, que é vasto, complexo e eivado de paixões.

Tentei manter algum distanciamento das áreas nas quais tenho uma história militante: opressão da mulher, opressão racial/étnica e saúde, sobretudo a defesa do SUS – as mais ceifadas, inegavelmente, pela reforma ministerial. Parecia um pesadelo, mas era realidade, e ela se impôs.

A entrega do Ministério da Saúde (de porteira fechada?) a quem nunca deu um prego numa barra de sabão em defesa do SUS, ao contrário, é surreal! Considero fora de propósito e um equívoco ideológico e político a junção da Secretaria da Mulher com a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e a Secretaria de Direitos Humanos, configurando o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, que vejo como um ministério mala e, como tal, de pouca serventia, mas ter Nilma Lino como ministra é um alento.

Desanquei o patriarcado, que está vivíssimo e mostrou bem suas garras; o racismo é uma fé bandida e se mostrou de dentes arreganhados; e repeti à exaustão que saúde não é moeda de troca, mas foi, e para mãos não confiáveis! Quer mais? Não vou enumerar tudo para não sangrar mais minhas feridas. Me poupe: “Tire o seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor” (“A Flor e o Espinho”, de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Alcides Caminha).

Estou desde sexta-feira passada dando chiliques e pedindo “meus sais”! Maldisse Altamiro Borges, que teve o topete de escrever “Reforma ministerial desanima os golpistas”; maldisse Ricardo Kotscho e seu lúcido “Dilma sai das cordas; oposição apoia Cunha”; e maldisse o editorial do Portal Vermelho, que, com serenidade irritante, diz, sob o título “Reforma ministerial e a nova maioria pelo desenvolvimento”: “A reforma ministerial foi uma importante vitória do governo liderado pela presidente Dilma... Uma reforma da administração e uma recomposição do ministério, dentre outras medidas importantes”.

Um esforço que faço quando estou numa encruzilhada política é ter como guia uma visão panorâmica, no caso a conjuntura brasileira. Para tanto, recorro à metáfora de uma árvore que plantei – ela é minha – numa floresta pegando fogo!

A conjuntura nacional é uma floresta ameaçada pelo fogo, e as minhas áreas de militância são as minhas árvores que estão na floresta ameaçada de virar cinza. Lembrem-se de que, naquela floresta, eu tenho três árvores, a saber: as lutas pelos direitos da mulher, pela igualdade racial e pelo SUS! O que fazer?

É evidente que, se eu desejar preservar tão somente as “minhas árvores”, sem a preocupação de defender toda a floresta, corro o risco de perder as “minhas árvores” e toda a floresta!... De modo que urge que eu tenha honestidade intelectual de ver as “minhas árvores” como parte da floresta que está em chamas.

Maldisse todos que li e que me forçaram a ver a floresta que estava pegando fogo e um incêndio sendo contido. Resta-me o consolo dos versos de Brecht (1898-1956): “Fôssemos infinitos/ Tudo mudaria/ Como somos finitos/ Muito permanece”.

Matrioshka à brasileira

 De nada adianta expulsar José Dirceu do PT, porque há um José Dirceu dentro de cada petista, e um Lula dentro de cada José Dirceu, e um Marcelo Odebrecht dentro de cada Lula. 

A minha fundação

O Projeto do Memorial da Democracia, criado pelo Instituto Lula, que teve vetada a cessão do terreno pela Prefeitura paulista 

Ocorreu uma mudança significativa nessas organizações que funcionavam como bibliotecas e museus, parques temáticos do orgulho nacional


Desaprenda, se quer fugir ao desamparo e à profanação da politica. Afetado por uma espécie de paranoia branda no presente, com discurso desprovido de afeto, o político teme o esquecimento do futuro. E constrói uma saída para sua falta de recolhimento. A glória de imperar sem a economia, a benemérita fórmula de manejá-la: causa justa limpa dinheiro sujo.

As fundações, originadas da preocupação de ordens religiosas em preservar seu acervo, tradicionalmente homenageavam os santos. Do ramo da filantropia e fora do campo tributário, tais instituições não lembravam o mundo da economia. Até que chegaram os ex-presidentes.

O mais elogiado exemplo de ex-presidente operando entre um mundo e outro é o de Jimmy Carter. Embora tenha feito tais fundações adquirirem esse caráter de escritório que funciona como partido da pessoa, se dedicou a empunhar bandeiras humanistas. Ganhou o Nobel da Paz com sua agenda de pouco zelo lucrativo.

Para contornar desconfiança, o criativo Obama quer dar a largada em sua fundação ainda no governo e arrecadar mais do que seus dois antecessores. É inclusive uma sugestão pessoal do enrolado Clinton: angarie logo de uma vez o máximo de fundos para tocar seus projetos e, assim, enquanto é mais fiscalizado pelos poderes do Estado que dirige, se protege das críticas de que anda cobrando faturas atrasadas quando deixar a Presidência. Fuja da propina pós-paga, invenção supraideológica da periferia.

O fato é que ocorreu uma mudança significativa nessas organizações que funcionavam como bibliotecas e museus, parques temáticos do orgulho nacional. Época em que, o melhor do líder, era ser um polo do desapego diante da atividade lucrativa. Mas a vitória total do capitalismo foi assimilada com rapidez pelo sistema financeiro que formulou respostas habilidosas para os que queriam liderar o novo mundo. Ocuparam os governos, assessorando e financiando os eleitos. No Brasil, se uniram aos empreiteiros entusiasmados com a eloquente simpatia de Lula pela amizade prática dos ricos.

A realidade tumultuada de Clinton só existe por via de sua atuação extra, bolada pelos ideólogos do mundo sem ideologia. Avançou o sinal em direção ao lobby, fazendo tais fundações funcionarem como governo paralelo. Embaraçou a candidatura de Hillary.

A criatividade brasileira inventou o casamento do apetite neoliberal com o discurso da responsabilidade social. Mirou em Blair e seu mundo de negócios pós-políticos.

O caso de Blair é o mais sintomático. Seu escritório é um guarda-chuva de várias fundações e de uma multimilionária empresa de consultoria, a Tony Blair Associates. O financiamento da reconciliação politica é o principal ramo de negócio criado pelas fundações. Com sua ação, elas ajudam a consolidar um tipo de controle que faz a maioria, inclusive o líder, mero consumidor, espectador, assinante, ouvinte, apoiador: o mundo de quem sonha ter o status do outro.
Paulo Delgado

Estudantes brasileiros criam projeto para atender população do Camboja

Projeto poderá atender cambojanos que vivem em um lago cujo volume aumenta no período das chuvas
Um grupo de estudantes de arquitetura de universidades públicas brasileiras concorre a um prêmio concedido pela revista britânica “Eleven Magazine”, com um projeto para atender a demandas da população do Camboja que são bem familiares a parte dos brasileiros, especialmente na região Norte do país.

O trabalho foi produzido como projeto final de intercâmbio de três estudantes, pelo Programa Ciência sem Fronteiras, na Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e prevê a construção de módulos flutuantes e navegáveis para levar saúde, educação e pesquisa a comunidades que habitam o Tonle Sap, um lago no Camboja. Com mais de 2 mil quilômetros quadrados de extensão, o lago multiplica seu tamanho durante o período das monções, fortes chuvas que atingem o Sudeste da Ásia, o que desafia a construção de prédios em seu entorno e incentiva a adoção de estruturas capazes de boiar.

Da Universidade Federal de Viçosa, o estudante Humberto Amorim conta que o grupo se inspirou nas embarcações militares que atendem à população na Amazônia. Ele acredita que o trabalho poderia ser aproveitado no Brasil.

- A gente gostou do tema porque é um lugar tropical, um lago grande e uma população carente. Poderia ser adaptado para regiões com rios enormes no Brasil. Os materiais teriam que ser diferentes, mas não haveria problema em substituir - conta ele, satisfeito pelo trabalho ter dado uma resposta "plausível e realista" a problemas sociais.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Uma afronta às instituições

Não há motivo para surpresa, ou até mesmo para indignação – afinal, não se poderia esperar outra coisa –, diante da bisonha tentativa bolivariana da presidente Dilma Rousseff de provocar o impedimento, no Tribunal de Contas da União (TCU), do ministro-relator do processo de suas contas, Augusto Nardes. Esse é o procedimento-padrão dos petistas quando seus interesses são contrariados, inclusive pela Justiça. No limite, como aconteceu no caso do mensalão, os magistrados são mandados às favas e petistas “injustiçados” se transformam em “guerreiros do povo brasileiro”.

A foto estampada na matéria publicada ontem pelo Estado sobre a decisão de Dilma ilustra à perfeição a farsa encenada como derradeiro recurso para impedir que a rejeição das contas do governo pelo TCU resulte na abertura de um processo de impeachment no Congresso. Tendo ao fundo uma foto oficial com a imagem desbotada da presidente da República, o protagonista da pantomima, Luís Inácio Adams, de olhos arregalados e dedo em riste, verbera contra a “politização” do processo que corre no TCU. A seu lado esquerdo, com a expressão de alheamento de quem gostaria de estar em outro lugar, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. À direita, com indisfarçado constrangimento, está o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Dilma poderia ter escalado dois avalistas mais convincentes para a performance de Adams.


O argumento central do governo contra o relator Augusto Nardes é daqueles que só se atreve a usar quem sabe que não tem nada a perder: Nardes teria “deixado claro”, em mais de uma oportunidade, sua opinião sobre o assunto que lhe cabia relatar e julgar: “Essa reiterada manifestação vem em claro conflito com uma regra que se dirige aos magistrados (a isenção)”. E enfatizou: “Esse processo está eivado de politização, por conta dessa postura particular, e que se agrava pela intencionalidade, que ficou clara, pela rejeição”. Num caso de óbvias e importantes implicações políticas, as irregularidades apontadas nas contas do Planalto, especialmente as famosas “pedaladas”, não poderiam deixar de ter, como estão tendo, grande repercussão na mídia, que por dever de ofício tem procurado adiantar a posição do relator e demais juízes do TCU sobre o assunto.

Augusto Nardes, no entanto, embora tenha de fato deixado transparecer – consequência natural do intenso assédio dos jornalistas – sua tendência pela rejeição das contas do governo, jamais havia explicitado seu voto, que ficou claro quando, atendendo ao Regimento Interno do tribunal, distribuiu para os demais ministros a minuta de seu relatório e do parecer prévio, documentos cujo teor inevitavelmente caiu no domínio público. De resto, é óbvio que o governo jamais se teria dado ao trabalho de questionar como antirregimental e acusar de “politização” o comportamento do juiz relator se ele tivesse alardeado voto pela aprovação das contas.

De qualquer modo, o relator não pode ser acusado de ter tentado obstruir a defesa do governo, até mesmo diante de recursos claramente protelatórios, como os pedidos de ampliação dos prazos para que a Advocacia-Geral da União apresentasse seus argumentos. Luís Inácio Adams teve um tempo extra de 30 dias para expor suas razões numa peça de defesa adicional de mais de mil páginas.

O recurso agora anunciado em desespero de causa pelo governo constitui, além de um escárnio a quem não é idiota, uma afronta à instituição e aos ministros do Tribunal de Contas. Pedir o afastamento de um relator de cuja opinião o Poder Central discorda equivale a sujeitar todos os membros daquela Corte – vinculada ao Poder Legislativo – ao arbítrio político dos donos do poder. Esse é o padrão “bolivariano” imposto em países admirados – e invejados – pelo lulopetismo, como Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina. Felizmente, porém, as instituições democráticas, que repousam em fundamentos como a distinção entre Estado e governo e a consequente separação e autonomia dos poderes, têm-se revelado suficientemente sólidas entre nós para impedir o avanço de aventuras autoritárias.

O voto será mais crítico

Com a bruxa solta e o clima de fim de festa no meio político, a pergunta que surge natural neste momento: como será daqui pra frente e como imaginar as próximas eleições municipais, em 2016?

Falta exatamente um ano, e as coordenadas, que em outras épocas eram previsíveis, estão agora muito incertas. Os nomes de candidatos favoritos inexistem. Pretendentes sobram, mas viabilidade, credibilidade e autoridade para dar consistência à pretensão carecem.


O conceito de partidos – rótulo que engarrafa um conteúdo por demais conhecido e parecido – sofreu uma corrosão até então desconhecida. O que faz a diferença não são os programas, mas são os nomes referenciais. Contudo, até nisso, não existe segurança para prever as condições em que chegarão à data de outubro do ano vindouro, e se chegarão lá.

Embora a incerteza seja a única certeza, o prognóstico favorece quem encarar a “novidade”, a “ética”, a “não submissão aos acertos tradicionais”, a “independência” para poder exercer cargos em favor do bem comum, e não de quem, como o petróleo escancarou, se locupleta com a coisa pública e seus anexos.

Chegar ao nível de conseguir viabilizar uma candidatura, partindo do nada e sendo obrigado a atravessar pedágios, gargalos e complicações das normas eleitorais, representa um desafio terrível para quem não é do meio.

As regras favorecem a manutenção do poder, foram criadas por quem chegou lá e lá quer ficar, cria barreiras intransponíveis para quem não tem faro e faróis para transitar nessa dantesca, no sentido de infernal, “foresta oscura”.

Pode-se imaginar, faltando 12 meses, que o eleitorado exigirá do candidato um perfil despojado, de conversa simples e de propostas moralizadoras e austeras, com passado de respeitabilidade. A tradicional demagogia que prevaleceu em outras eleições não deverá dar resultados compensadores. As redes sociais, no auge que alcançaram, serão a grande novidade apesar do mau uso a que estão expostas.

A crise econômica, com os tormentos que trouxe ao eleitor, deve aumentar a importância dos aspectos éticos dos candidatos, da honestidade. O “rouba, mas faz” já está em crise e mais ainda estará, e quem “faz o que a honestidade permite” deverá ter vantagem.

A mesma onda moralizadora que se levantou em países da Europa, com aspectos desatrelados do clichê político tradicional, vem se formando aqui também, em lugares distantes do que vige nos parlamentos atuais. E, como surpreendeu lá fora, tem tudo para surpreender aqui.

A clareza do discurso, sua simplicidade, a capacidade de convencer que uma administração municipal pode ser acessível a qualquer um. O desmonte da burocracia cartorial e sua substituição por métodos ágeis, econômicos, previsíveis. Acesso aos serviços públicos e sua previsibilidade precisarão ser explicados.

No Brasil as eternas e insolúveis demandas, como educação, saúde pública e segurança, pautarão obviamente as discussões, mas, se anteriormente eram acenadas e prometidas como prioridade, desta vez se exigirá explicação técnica e consistente, mostrando os caminhos para realizá-las.

As dificuldades enfrentadas pelo cidadão e a decepção com administradores que não conseguiram atender os compromissos e as juras anteriores imporão aos candidatos a necessidade de comprovar preparo e capacidade. Os candidatos serão questionados e cobrados como nunca.

O eleitor cansou-se de desperdiçar seu voto.

PT provoca até revolta em velório

"Petista bom é petista morto" é o texto de panfletos jogados durante o velório do ex- presidente do PT José Eduardo Dutra

As manifestações contra a governança petista de 13 anos se tornam mais radicais. Não por culpa de extremistas de direita, como sempre pregaram os paus-mandados do PT. O governo destrambelhado, corrupto, agora caçando dinheiro dos mais necessitados para cobrir os rombos dos companheiros, é o responsável pelos excessos de uns poucos. 

Como aconteceu no velório do ex-senador José Eduardo Dutra (PT), em Belo Horizonte, quando panfletos com a frase "Petista bom é petista morto" e uma fotomontagem da presidente Dilma Rousseff, como se estivesse sentada em um vaso sanitário, foram lançados no local.


Uma manifestação extremada e condenável, mas que surge devido à lambança petista. Se querem flores em velório, façam por onde. 

O dever de falar

Certa vez, lá se vão três décadas, Jânio Quadros foi indagado sobre como ele, um homem que se dizia sem grandes posses, fazia campanha à prefeitura de SP (que acabou conquistando, em 1985, ao derrotar FHC de forma surpreendente) com tanto dinheiro. Jânio respondeu com sagacidade:

- Por favor, alguém me cede um cigarro? – começou. Choveram maços sobre sua mesa.

- Também estou sem isqueiro... – continuou o ex-presidente, apalpando os bolsos do paletó. Várias pequenas chamas iluminaram seu rosto, completando a senha para sua resposta, com o inconfundível sotaque e seu dom de iludir:

- Está explicado como consigo tantos recursos, não?

Jânio Quadros e Leonal Brizola (Foto: Arquivo)

Na outra ponta do espectro político, Leonel Brizola costumava dizer, quando indagado sobre como teria fundos para tantos projetos, como os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), que queria construir no Rio de Janeiro, “que os recursos estão na cabeça do bom administrador”.

Verdade ou não, esses e outros políticos ‘antigos’ sempre respondiam ao que lhes era indagado. Não fugiam da liça, bem ao contrário de Paulo Maluf, que ainda está em cena, e de várias ditas ‘lideranças’ políticas atuais. Investigações da Lava Jato? Assunto incômodo. Contas na Suíça? Deixa isso para lá.

O pior: quase todos os parlamentares, da quase totalidade dos partidos, também não se dispõem a ‘incomodar’ Suas Excelências, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. No caso de Eduardo Cunha, acusado de ser beneficiário de contas no exterior, a ‘proteção’ é edificada por razões baixas: uns se calam por considerá-lo útil ao processo de impeachment de Dilma; outros, para não melindrá-lo, evitando que, assim, ele acelere o impeachment. É também patético que não ocorra a quase ninguém que seria estranho, à luz da moralidade pública, ter um processo de cassação por supostos mal feitos coordenado por alguém que é investigado pelos Ministérios Públicos da Suíça e do Brasil por mal feitos similares aos que atingiriam o Executivo.

Diante desse “mar de cumplicidades”, expressão usada recorrentemente por Brizola, só mesmo a vassourinha de Jânio – operadas para valer, pelas mãos da indignação cidadã. Para varrer todos os que, na vida pública, preferem o silêncio quando seus aliados são flagrados.

A vida pública não comporta esse nível de degradação. Os que calam vão se encaminhando para a vala comum do lamaçal onde chafurdam quem não têm a mínima grandeza para ocupar as funções para as quais foram investidos. Logo serão cobrados pela omissão cúmplice
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No desespero, o PT tenta implantar a 'ditadura constitucional'

O governo não existe mais, a economia continua derretendo, os empresários não acreditam em retomada do desenvolvimento a curto ou médio prazo, os investidores, menos ainda – este é o quadro real do país. No desespero, o governo (leia-se: a presidente Dilma Rousseff, o PT e o Instituto Lula, mas não necessariamente nesta ordem) não se interessam pela grave situação do país, todos os seus movimentos objetivam apenas evitar o impeachment e se fixar no poder até 2018, quando Lula vai tentar o terceiro mandato.

Sem ter condições concretas de administrar o país, Lula, Dilma e o PT (não necessariamente nesta ordem) tentam criar um novo modelo republicano, que funciona da seguinte maneira: o governo pode fazer o que bem entender, descumprir qualquer legislação, especialmente a Constituição Federal, mas todos os seus atos precisam ser considerados válidos, porque teriam sido tomados em favor do povo, sem o governo jamais ter demonstrado intenção de desobedecer as leis.

Em tradução simultânea, o triunvirato PT, Lula e Dilma (não necessariamente nesta ordem) tenta implantar uma “ditadura constitucional”, de estilo culposo e não doloso, como se isso fosse possível.

Esta estranha deformação político-administrativa está diante de nós, mas passa despercebida à maioria da população, que ainda se deixa iludir pela repetição de uma espécie de ladainha, nos seguinte termos:

1) a corrupção não é só petista e sempre existiu;

2) não existe nenhuma prova que envolva diretamente a presidente Dilma Rousseff ou Lula;

3) o impeachment é uma tentativa de golpe na ordem constitucional.

A chamada realidade dos fatos, porém, é exatamente inversa, porque a corrupção sempre existiu, mas foi o governo do PT que a “institucionalizou”, ao estabelecer a cobrança de percentual fixo e desestabilizando a empresa que representava o maior orgulho do país e dilapidando outras estatais. Já existem provas abundantes de crimes de responsabilidade e crimes eleitorais contra o PT, Lula e Dilma. E a ordem constitucional é que foi inteiramente subvertida nos governos petistas e agora precisa ser restabelecida.

Os crimes de responsabilidade, que justificam impeachment, são abundantes:

1) grande número de pedaladas fiscais, maquiando ilegalmente as prestações de conta do governo, a tal ponto que a própria Caixa Econômica Federal está processando a União;

2) emissão de dez decretos inconstitucionais, assinados por Dilma para o governo fazer despesas não autorizadas pelo Congresso;

3) legislar por decreto para modificar lei complementar, conforme denúncia do jurista Jorge Béja, aqui naTribuna da Internet (Decreto 8535, de 2 de outubro de 2015, e que já se encontra em vigor, alterando ilegalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal):

4) tentar usar recursos do chamado Sistema S, desrespeitando expressamente norma constitucional, segundo denúncia do jurista Ives Gandra Martins em O Globo.

Há, ainda os crimes eleitorais, passíveis de cassação de mandato, já configurados na condenação do ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e numa série de depoimentos colhidos na operação Lava Jato, que confirmam o uso de recursos da propina do esquema da Petrobras nas campanha eleitorais que elegeram Lula em 2006 e Dilma em 2010 e 2014, inclusive com prática de chantagem pelo hoje ministro Edinho Silva, já sob investigação do Supremo Tribunal Federal.

Apesar de tudo isso, a ladainha continua, repetindo-se que a corrupção não foi criada pelo PT, não existem provas contra Lula e Dilma, e por isso pedir impeachment seria uma atitude golpista. Até agora, tem dado certo a estratégia, mas é um castelo de cartas que não tarda a desmoronar.

À margem do novo mundo

Dilma parece não entender o mundo à sua volta: a Parceria Transpacífica afeta o interesse nacional brasileiro, e pode ter efeitos devastadores para o país.

“É ‘mulheres’ primeiro”, corrigiu, em tom irritadiço. “Eles insistem em escrever errado, mas o ministério é das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.” Dilma Rousseff, ontem à tarde, mostrava-se muito preocupada com a imagem do novo ministério. Era sua grande novidade, com 31 integrantes.

Na essência, nada mudou. Antes, se resolvesse reunir e ouvir cada um dos 39 ministros por cinco minutos, a presidente passaria três horas e 15 minutos sentada, apenas escutando. Agora, com 31 ministros, ficaria duas horas e 35 minutos ouvindo. Sem intervalo.

No palácio, ninguém demonstrava uma réstia de preocupação com o mundo à volta: a 7,6 mil quilômetros do Planalto, governos dos Estados Unidos, Japão, México, Canadá, Austrália, Chile, Peru, Malásia, Cingapura, Vietnã e Brunei, anunciavam o maior acordo de comércio regional da história, que vai mudar as bases de produção e do trabalho em 40% da economia mundial.

A Parceria Transpacífica afeta direta e profundamente o interesse nacional brasileiro. Impõe novas facilidades de acesso a mercados de bens, serviços e investimentos, menores tarifas comerciais, unificação de regras para a propriedade intelectual das grandes corporações e limites à exclusividade de patentes, para impulsionar a inovação e produtividade — da fabricação de carros aos remédios.

Seus efeitos podem vir a ser devastadores para o Brasil, cuja participação no comércio mundial se mantém estagnada há mais de uma década, com tendência ao declínio. Ficou em xeque a tática brasileira do último quarto de século de avançar dentro de um sistema multilateral de negócios, com algum poder decisório — a “centralidade”, no jargão da diplomacia — na Organização Mundial de Comércio. A OMC agora está sob evidente risco de esvaziamento.

Perdeu-se na poeira do tempo a última iniciativa brasileira para se ajustar ao mundo contemporâneo. Foi há 24 anos, em 1991, quando construiu o Mercosul, obra de engenharia política relevante para aquele período.

Desde a virada do milênio o país se contentou em desenhar o futuro com base em apenas três acordos comerciais nem um pouco significativos — com Israel, Palestina e Egito.

Entrou no século XXI sem sequer sinalizar entendimento sobre as mudanças nas cadeias globais de produção, a força da inovação e o novo papel do Estado na economia.

O impasse de década e meia nas negociações comerciais com a União Europeia é exemplar, porque deixa transparecer a perda de referências governamentais sobre os reais interesses nacionais neste início de século.

Preocupada com reverências ao PMDB e os erros de protocolo (“Hoje, o pessoal aqui está meio esquecido” — queixou-se sobre a ausência de alguns nomes na papeleta que lhe entregaram antes do discurso), Dilma ontem demonstrava estar alheia à natureza da mutação do mundo à sua volta.

Os riscos para o Brasil são evidentes, e altos. E não há alternativa nesse novo mundo. Como dizia o ex-presidente italiano Giorgio Napolitano, que no pós-comunismo se reinventou na social-democracia, “quem não se internacionaliza, será internacionalizado”.

José Casado

Gasto público, o exorbitante e o supérfluo

Enxugar gastos não é tarefa agradável nem simpática. Dela não se colhe sorrisos, embora o bom líder, o líder respeitado, colha solidariedade.

Mas esse não é mais o caso do governo petista. O país já reconhece o partido que pretendeu ser hegemônico como uma organização tomada por criminosos. As pessoas bem informadas têm plena consciência, também, de que a nação, por motivos eleitoreiros, foi irresponsavelmente levada a uma crise pela qual não precisava estar passando. O PT e seu governo estão desqualificados para a tarefa que o país tem pela frente. Não há mais, na alma brasileira, ao alcance desse partido, apoios que não precisem ser comprados com sanduíche de mortadela nas ruas e cargos nos gabinetes. Portanto, as sugestões deste artigo vão para a reflexão dos leitores e não para o governo.


No ambiente familiar, quando se torna imperioso cortar gastos, circunstancial ou permanentemente, a tesoura vai atrás dos considerados exorbitantes ou supérfluos. Dependendo de cada realidade, saem as viagens, as roupas novas, os restaurantes, as pizzas delivery, as novidades tecnológicas, os jogos de futebol. Os espetos vão para a churrasqueira com cortes mais baratos. Enfim, cada família busca a seu modo o próprio superávit primário.

Agora, olhemos o Estado. Sob esse guarda-chuva, se abrigam o Estado propriamente dito, o governo, a administração, o Legislativo e o Judiciário. Todos competem pelas fatias do orçamento, todos se consideram irredutíveis, insuficientemente agraciados e remunerados, e só conhecem a solidariedade interna - aquela que une os iguais em torno deste interesse comum: o "nosso" é sagrado. A despeito do preceito constitucional que impõe harmonia aos poderes, na hora do dinheiro prevalece o outro, o da independência.

A presidente Dilma reduziu de 39 para 31 o número de seus ministros e cortou 10% dos vencimentos do topo da cadeia alimentar do gasto governamental. Um ato simbólico. Uma merreca. Economizaríamos muito mais se ela reduzisse as despesas, inclusive as próprias, com cartões corporativos, com as numerosas comitivas ao exterior e com o luxo dos hotéis que frequenta. Ganharíamos muito mais ainda se parasse de usar nosso dinheiro para fazer publicidade de seu desditoso governo. E estou falando dos cortes supérfluos.

Para atingir o exorbitante teríamos que impor limites à licenciosidade com que o Legislativo e o Judiciário e a grande cascata das carreiras jurídicas definem seus ganhos e, muito especialmente seus privilégios. Sim, são privilégios, leizinhas privadas (que sequer leis são porque fixadas por atos administrativos validados por decisões liminares). São benefícios que ninguém mais tem, que geram direitos retroativamente e periódicos pagamentos de "atrasados". A república, além de conviver com enorme desnível entre os maiores e os menores salários, disponibiliza a uma parcela da elite funcional, na União e nos Estados, contracheques que, ocasionalmente, se elevam a centenas de milhares de reais. Não há pagador de impostos que não se escandalize ao saber que isso é feito com o fruto de seu trabalho.

Na mesma linha do exorbitante temos a corrupção endêmica; as aposentadorias precoces, incompatíveis com o mais desatento cálculo atuarial; os incontáveis benefícios fiscais que orientam bilhões para usos que nada têm a ver com as funções essenciais do Estado; a legião dos cargos de confiança, que deveriam ser restringidos a um número mínimo, na ordem das centenas e não das dezenas de milhares; a atribuição ao setor público de atividades que poderiam, perfeitamente, ser desenvolvidas pela iniciativa privada; a sinecura de tantas ONGs que funcionam apenas como custeio público para o empreguismo de apadrinhados políticos; a centralização que derroga o pacto federativo e leva o dinheiro de quem produz para longe de suas vistas e para fins inconcebíveis; a gratuidade do ensino superior público para quem pode pagar, exemplo de injustiça que clama aos céus.

Se quiserem mais sugestões tenho inúmeras outras a fornecer.

Percival Puggina

Obscenidade

Num dia qualquer de 1964, o poeta Manuel Bandeira passou de ônibus diante do prédio em que morava o ex-presidente Café Filho. Na realidade, era o vice de Vargas, que se suicidara na véspera. Alegando uma crise cardíaca, Café se internara num hospital e assim ficara livre de não participar daqueles dias tumultuados que levariam ao suicídio do presidente em exercício.

Tão logo correu a notícia da morte de Vargas, deram alta hospitalar ao vice para que ele assumisse a Presidência, mas os militares que haviam dado o golpe que instauraria a ditadura, consideravam Café Filho comprometido com a situação deposta.

Cercaram com tanques e tropas o prédio para impedir que Café saísse de casa e fosse ao Catete para tomar posse na Presidência da República. No dia seguinte, o poeta escreveu um artigo no "Jornal do Brasil" considerando obscena aquela manifestação de força contra um homem desarmado que, naquela hora, já era presidente do Brasil.

Lembrei esse episódio porque tive sensação igual, a da obscenidade da reforma ministerial promovida por Dona Dilma. Ficou escancarado o recurso obsceno usado pela presidente que enfrenta a possibilidade de um impeachment. Ela teve tempo para testar os ministros que nomeara ao tomar posse numa data anterior.

Para contentar os congressistas que poderiam cassá-la das funções presidenciais, ela organizou um grupo de auxiliares comprometidos com os partidos que a defenderão em plenário. Não foi uma medida tomada por um chefe de Estado e sim de uma oportunista que se agarra ao poder sem nenhum escrúpulo moral.

Pessoalmente, não vejo necessidade de um impeachment. Mas Dona Dilma de tal maneira se avacalhou, que não mais merece a função de presidir um país bichado pela obscenidade de um governo em falência.

DNA de bandido

Nos últimos anos, tenho recebido em silêncio os sucessivos ataques do doutor Hélio Bicudo, pontuados de rancor. Eu até pensei em tomar medidas judiciais a propósito dessas injúrias. Mas não o farei em atenção a você e a seus familiares. Eu e seu pai somos cristãos e ele tem consciência de que Deus sabe que ele está mentindo
Lula em carta a José Eduardo, filho petista de Hélio Bicudo, numa intimidação ao jurista depois da entrevista do jurista ao programa Roda Viva

A Inteligência da vida


Gun Semin, 71 anos, é um psicólogo turco que estudou na Alemanha e no Reino Unido, trabalhou na Holanda, e atualmente vive em Lisboa, dirigindo um centro de investigações que se ocupa, entre outros temas, da transmissão de sentimentos através do suor. Ao que parece, o suor de pessoas felizes contagia quem quer que o respire. Também a tristeza, a cólera, o medo, todos esses sentimentos se podem transmitir a outros, sem necessidade de palavras ou gestos, simplesmente através de delicados (e eventualmente mal cheirosos), processos químicos. Semin fala disso numa recente entrevista a um jornal português, explicando, com algum detalhe, todo o mecanismo da pesquisa que dirige.

Nada disso constitui novidade. A novidade é que talvez essas formas de comunicação sejam mais importantes do que imaginamos.

A entrevista de Gun Semin foi publicada mais ou menos na mesma altura em que a Nasa divulgou, numa concorrida conferência de imprensa, uma série de fotografias e outras evidências que confirmam não só a presença de água em Marte, mas também que a mesma ocorre em estado líquido, deslizando, nos meses de verão, pelas altas montanhas do planeta vermelho. Como seria de esperar, os cientistas da Nasa foram confrontados, logo a seguir, com a estafada questão da existência de vida em Marte. Sim, disseram, existindo água em estado líquido é provável que exista vida. Pergunta seguinte: e existindo vida, pode existir vida inteligente?

Esta sempre me pareceu uma questão equivocada. Em primeiro lugar, teríamos de discutir a que nos referimos quando falamos em vida inteligente. Imaginemos um pé de ipê, um abacateiro, um baobá, para referir apenas três espécies de árvores que eu amo muito. Todas elas me parecem formas de vida incrivelmente inteligentes. Alimentam-se de água, de luz e de terra. Não matam para se alimentarem. Desenvolveram habilidosos e generosos mecanismos de disseminação, os frutos, sem precisarem se locomover. Além disso, são capazes de comunicar através de complexos processos químicos — semelhantes aos estudados por Gun Semin — não apenas umas com as outras, mas inclusive com diferentes formas de vida, como as abelhas. “Vida inteligente” parece-me uma redundância. Toda a vida é inteligente. A inteligência é uma das propriedades da vida.

Por outro lado, se mal conseguimos compreender como comunicamos entre nós; se não somos capazes de nos comunicarmos com as diferentes formas de vida que nos cercam e com as quais convivemos desde sempre — se não conseguimos conversar com um abacateiro, por exemplo — como diabo conseguiremos bater um papo com um marciano?

A comunicação não se esgota na palavra. A partir do momento em que formos capazes de decifrar outras formas de transmissão de informação, como a que Gun Semin estuda, estaremos talvez mais aptos para iniciar os diálogos de que falo atrás. Conhecem-se, desde há séculos, experiências de comunicação com espécies diferentes, sobretudo com aquelas que nos estão mais próximas, e que consideramos “inteligentes”, ou seja, que se servem de uma inteligência semelhante à nossa, como os primatas ou os golfinhos. Contudo, mesmo essas experiências passavam, até há poucos anos, por forçar essas outras espécies a servirem-se das nossas formas de comunicação. A famosa gorila Koko recorre a mais de mil sinais da língua gestual americana para comunicar com os seus tratadores. As imagens de Koko chorando, ao receber a notícia da morte de Robin Williams, de quem era amiga, comoveram o mundo.

Aprendi em criança que “o homem é o único animal que se serve de instrumentos”. Já nessa altura, contudo, se conheciam inúmeros exemplos de animais que se serviam de instrumentos. Também aprendi que “o homem é o único animal que constrói artefatos complexos”, até que começamos a perceber a maravilhosa complexidade e inteligência das colmeias ou dos morros de cupins. “O homem é o único animal que tem consciência de si”, dizia-se, e experiências recentes demonstraram que não. À medida que o nosso conhecimento sobre as outras espécies progride vamos percebendo que aquilo que achávamos ser algo exclusivo da nossa “inteligência” é, afinal, comum a muitas outras formas de vida.

Teremos primeiro de abandonar a nossa arrogância fundamental para, finalmente, começarmos a dialogar com a vida. Não com a “vida inteligente”, mas com a “inteligência da vida”. Descobriremos talvez, nessa altura, que os marcianos já se encontram entre nós há muito tempo. Simplesmente não estávamos a olhar para eles. Durante todo esse tempo, mesmo com os olhos voltados para as estrelas, não temos feito outra coisa senão olhar para nós próprios.

José Eduardo Agualusa

A Velha Política

O governo recupera o fôlego com cargos e verbas para o PMDB e o fatiamento das investigações do Petrolão. As práticas fisiológicas no Legislativo e as manobras de abafamento das investigações e de influência sobre os julgamentos no Judiciário são a essência da Velha Política. As sugestões de Sarney a Lula para escapar do mensalão foram repassadas e finalmente ensaiadas por Dilma Rousseff. A cooptação parlamentar e a perspectiva de ajuste fiscal compram tempo e acalmam os mercados.


A má notícia para o governo é que o fôlego de suas manobras pode se revelar curto. Pois têm dimensões oceânicas os vagalhões da crise atual. As irresponsáveis pedaladas fiscais vão a julgamento pelo Tribunal de Contas da União. As suspeitas de irregularidade no financiamento da campanha presidencial serão avaliadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Os pedidos de impeachment serão celeremente encaminhados pelo presidente da Câmara dos Deputados, indignado com as acusações de malfeitos milionários, cuja coordenação e vazamento são por ele atribuídos aos responsáveis por malfeitos bilionários.

O principal obstáculo às táticas anacrônicas e desmoralizantes do governo é a dinâmica de comunicações de uma sociedade aberta em evolução. Pois o fisiologismo dos parlamentares e a cumplicidade do Judiciário são apostas contra o inevitável aperfeiçoamento de nossas instituições. Ignoram a voz das ruas. A opinião pública já tem a desconcertante percepção de que o establishment trabalha de fato pela impunidade. Quando Dias Toffoli, em defesa do fatiamento no Supremo Tribunal Federal, perguntou se existia apenas um juiz no Brasil, deveria perceber que o entusiasmo da opinião pública pelo desempenho de Sérgio Moro sugere atordoante resposta: “Competentes e probos como ele, poucos.” Afinal de contas, são décadas de escândalos, roubalheiras e impunidade.

Lula quer ainda mais de Dilma. Abafar as investigações e abraçar o PMDB para evitar o impeachment e aprovar o ajuste fiscal seriam apenas uma estratégia de sobrevivência política acompanhada de um “feijão com arroz” na economia. Uma “sarneyzação” do segundo mandato de Dilma, que apenas evitaria o destino de Collor, mas não a tragédia eleitoral que devastaria o PT e inviabilizaria o retorno de Lula em 2018.
Paulo Guedes