quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Portal do inferno

Quem circula pelo mundo da educação sabe da tremenda ressaca que se disseminou entre educadores brasileiros com a recentíssima troca de comando no Ministério da área. Foi a terceira em dez meses.

Com a demissão vexaminosa, foi pelo ralo a última réstia de esperança de surgir algo minimamente substantivo sob a batuta de Renato Janine Ribeiro.

Esqueçam. No governo da presidente Dilma Rousseff nada acontecerá no setor educacional, a não ser andar para trás. Ou para os lados, como caranguejo.

O agora ex-ministro foi recebido, quando de sua nomeação, com extrema boa vontade por educadores de diversos matizes, muito embora sua experiência como gestor público fosse escassa.

O acadêmico não disse a que veio, é verdade.

Impotente para fazer frente ao gigantesco corte do orçamento da Educação (o setor foi um dos mais afetados pelo ajuste fiscal de Joaquim Levy) o então titular da pasta assistiu, passivamente, o apagão das universidades federais, a drástica redução das vagas do Pronatec, o fim do Ciência sem Fronteiras, o aumento dos juros do Fies ou o brutal corte de verbas para a compra de livros paradidáticos e de ficção para os alunos do ensino básico das escolas públicas brasileiras.

Sem força política e carente de poder de aglutinação, Renato Janine travou sua batalha de Itararé com o também ex-ministro Mangabeira Unger, da finada Secretária para Assuntos Estratégicos - a Sealopra. Estabeleceu-se, assim, uma política educacional bicéfala, com Janine sendo responsável pelo Plano Nacional da Educação - uma miragem semelhante à Ferrovia Transoceânica e ao Trem-Bala - e Mangabeira por um “plano de concepção” com base em outra peça de ficção, o factoide Pátria Educadora.

Quem estabeleceu essa dualidade? A própria Dilma.

Na sua gestão, o acadêmico pagou outro mico. Anunciados os resultados catastróficos da Avaliação Nacional de Alfabetização de 2014, o Ministério da Educação simplesmente suspendeu o ANA de 2015, numa imitação daquela piada do marido traído e do sofá da sala.

Mas Renato Janine Ribeiro não caiu por qualquer um desses fatos.

O professor de ética e filosofia foi defenestrado precocemente porque a presidente precisava dar um prêmio de consolação a Aloizio Mercadante. E protegê-lo com o foro privilegiado.

O episódio é por si mesmo revelador da improvisação e da pouquíssima importância da educação no governo Dilma.



A descontinuidade e a alta rotatividade no MEC são a marca registrada desses tempos do lulopetismo. Dilma começou com Fernando Haddad que saiu para ser candidato a prefeito de SP. Foi substituído por Aloisio Mercadante que deixou o cargo em menos de dois anos. Veio então, por quase um ano, José Henrique Paim, um tecnocrata com carreira pública construída nas entranhas de governos petistas, que ficou no Ministério da Educação distribuindo vagas -sem transparência, controle ou critério- em cursos técnicos de escolas muitas vezes desconhecidas, e esquentando a cadeira enquanto Mercadante fazia a campanha eleitoral de Dilma Rousseff.

Quem o substituiu em 1º de janeiro de 2015? Cid Gomes, aquele meteorito cuja passagem pelo MEC foi mais célere do que um raio.

Entende-se, portanto, o desalento dos educadores com a dança das cadeiras promovidas pelo governo do PT.

Em uma conjuntura de recursos escassos, de dicotomia entre a demanda da sociedade por uma educação de qualidade e a incompetência governamental para atendê-la, mais do que nunca se exige do Ministro da Educação capacidade de formulação além de habilidade para empolgar corações e mentes; pré-requisitos para comandar um grande pacto nacional, cuja agenda está dada desde o final do século passado e que começa com investimento em políticas públicas para a formação e capacitação permanente de professores.

Aloizio Mercadante é esse homem? Tem esse perfil?

De jeito nenhum. É o que se chama de liderança negativa, aquela que, tal qual Átila, onde pisa não nasce grama.

Como gestor, seu grande traço é a enorme capacidade de desagregar, para não falar de sua inapetência para ouvir, na sua soberba e arrogância. Ou não foram essas características que o levaram a se meter em tantas trapalhadas alopradas e a levar Lula a exigir a cabeça dele?

Nesse governo a educação chegou ao Portal do Inferno.

Nele, não tem mais jeito.

É como dizia Dante: "Deixai toda esperança, ó vos que entrais".

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