O brasileirinho sempre gostou de uma fezinha. Está na nossa cultura, impulsionada pela Família Real através do salvador “Jogo do Bicho”. Adoramos apostar no futebol, no carnaval, no namoro que começou no pagodinho e até na próxima cartada do “Trúmpi”, como fala o nosso presidente.
O problema começa quando o Brasil inteiro passa a viver dentro de um cassino como os de Las Vegas, aberto 24 horas por dia, com o Governo servindo dívida, em ficha de Vale Desgraça, para uma outra geração pagar.
Atualmente, o celular dos brasileirinhos virou uma mistura de Caixa Econômica, Igreja da Desesperança e caça-níquel. Você abre a tela para pagar um boleto e aparece um croupier sorridente prometendo que, com apenas cinco reais, você vai mudar de vida.
É a chegada do amigo “tigrinho”, da roleta, da raspadinha digital, do foguete que sobe, do aviãozinho que cai e de uma fauna inteira de bichos eletrônicos, famintos pelo Bolsa Miséria, que entra e só exige que você não trabalhe de “Carteira” assinada.
O japonês da esquina, o Hirano, vestido de Rubro-Negro e cansado de trabalhar 15 horas por dia, vendendo seus tomates e folhas, sentiu que o Flamengo perderia para o Palmeiras. O rasgado não titubeou, jogou 1000 pratas no Palmeiras. O Carrascal entendeu, operou o nariz do Alan e o Japa ganhou 5000 pilas. Até nisso o Brasil perde. E o Mengão também. Essa eu presenciei e me inspirei.
O mais espetacular dessa tragédia é que o Brasil conseguiu fazer algo inédito: transformou o desespero político em modelo de negócio. Deveríamos pedir para o Vorcaro, que já inventou tanto, pensar em uma aposentadoria assistida para os recebedores do Bolsa Tragédia.
Antigamente, o brasileirinho estudava para melhorar de vida. Hoje, uma parte da juventude acredita mais no seu método de apostar do que no estressante diploma. O garoto que aprendia inglês está estudando “estratégia” para liquidar o covarde Cassino. E o pior: ninguém percebe que, no fundo, não está jogando para ficar rico. Está jogando para tentar respirar.
O brasileirinho, aquele Super Homem que já não conseguia poupar, agora, faz fezinha… e perde. Os tigrinhos estão, a cada dia, mais fortes.
Na economia real, a coisa vai ficando parecida com churrasquinho de gato: sobra fumaça, gordura e alguém perguntando quem levou a picanha, o chopp e a abóbora. Pequenos comerciantes reclamam que o dinheiro sumiu da praça. Nas bancas do Mercadão, não existe mais troco para R$5,00.
O dinheiro sai do mercadinho, cresce e voa no “rolentrando”. Sai da livraria e entra no “pix dourado e premiado”. Sai do restaurante e entra no “aposte já”. O brasileirinho troca produtividade pelas fortes emoções. E fica mais liso a cada dia.
Somos um grande cassino incentivado. O cidadão aposta no aplicativo. O governo aposta no crescimento milagroso. O mercado aposta que as contas fecham. E o brasileirinho aposta que o boleto se perca antes do salário acabar.
O grande Roberto Campos dizia que “a inflação aleija, mas o câmbio mata”. Se estivesse vivo, talvez acrescentasse: “e a ilusão econômica hipnotiza”.
O meu professor de Economia Brasileira, o Senador Jefferson Peres, com sua reconhecida seriedade amazônica, talvez resumisse tudo numa frase seca: “uma sociedade desesperada vira presa fácil da fantasia”.
Japão, Coréia, Malásia, Tailândia, enriquecem, investindo em educação e produzindo tecnologia, ciência, aumentando eficiência e formando pessoas educadas e mão de obra qualificada. Já sociedades cansadas, universidades idiotizadas e colégios indisciplinados, costumam buscar atalhos emocionais: loterias, populismo, pagamentos à mídia, crédito fácil e promessas de felicidade no Enter e no click.
Os nossos cassinos adoram clientes esperançosos, principalmente os desesperados. E o brasileirinho anda bastante desesperadinho.
A inflação come, pelas beiradas, silenciosamente, no prato dos brasileirinhos. O crédito virou armadilha decorada com juros sorridentes. O aluguel sobe como foguete de São João. Os comércios tradicionais dos centros, fecham. O café virou artigo de luxo. O ovo já é filé mignon. Enquanto isso, alguém fantasia os números do IBGE.
Porque a verdade é simples: o brasileirinho não usa o aplicativo de apostas acreditando em matemática. Usa esperando o milagre. As nossas miraculosas igrejas e seus pastores já sentem o murro no fígado, no queixo e nos bolsos.
E enquanto a roleta gira, o brasileirinho continua apostando não para ficar milionário, apenas para sobreviver ao próximo mês sem perder a dignidade e o Bolsa Tragédia. O Céu só exige a virgindade da Carteira Profissional.
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