terça-feira, 16 de junho de 2026

Eleição é uma arena estética

Os gregos na Antiguidade já sabiam que a estética é o fundamento sensorial da nossa racionalidade e, portanto, o alicerce sobre o qual a pessoa e a sociedade conseguem construir o esclarecimento, a descoberta, o deslumbramento ou a indignação. É assim que a nossa expressão política e científica – e não apenas a artística, a cosmética ou a arquitetônica – permite nos desenvolvermos (ou não), como indivíduos e como civilização. Como dizia a pedagoga pernambucana Dosa Monteiro, “viver é aumentar-se”.


Política é uma manifestação estética desde sempre. Contudo, ultimamente usou-se diminuir o sentido da palavra ‘estética’ à aparência das coisas. Nada contra, mas não é (apenas) sobre isso. E a redução do significado da estética não é incidental. Favorece a precarização da capacidade da sociedade de fazer escolhas acertadas, de distinguir o que é ruim, o que é feio e o que é errado. Nessa toada, turva-se convenientemente a noção de bem e mal. Aquilo que é caro ou performático passa a ser o desejável. Vale até piratear a beleza ou a alegria inalcançável dos bem-nascidos e influencers, deixando em segundo plano as questões reais (como a desigualdade social e as mudanças climáticas, por exemplo). Fica difícil identificar o que de fato importa.

Não é à toa que os primeiros alvos das investidas antidemocráticas são a cultura, o conhecimento, as liberdades, o diálogo e o convívio. Afinal, tudo isso aprimora nossos sentidos, nossa percepção, nosso ideário. Ou seja, nossa capacidade de interpretar a realidade. Nosso senso estético. Ao contrário, os regimes autoritários preferem a homogeneidade, que é o rebaixamento de toda forma de diversidade a um degrau medíocre, onde as noções de belo, certo e bom sejam igualadas por baixo, conforme a moda ou as tendências fabricadas. Pregam a polarização e o ódio. Democracia é diversidade sem fronteiras postas por preconceitos induzidos.

Não esqueçamos que também há refinamento na cosmética dos extremistas. O alto clero nazista trajava modelitos dos medalhões da moda e transitavam em limusines exclusivas, cujas marcas habitam os shoppings até hoje. Vale lembrar as ditaduras igualmente bem-vestidas do Chile, Brasil, Espanha ou Rússia. Por isso mesmo, é especialmente na política que nossa sensibilidade estética não pode se deixar impressionar pelos relógios de marca, pelos salões de festas e, hoje, pelos perfis digitais bem seguidos. É indispensável conseguirmos interpretar as sutilezas (nem sempre tão sutis) maquiadas nas falas, nas atitudes e nos posts. Estética é aumentar-se e, não, abobalhar-se.

Por mais colorido e moderno que pareça o mundo atual, vivemos um espetáculo dominado por tons cinzentos, melodias pobres e ideias primitivas, onde a verdadeira estética (aquela que nos faz sair do nosso lugar usual de acomodação) é tratada como bobagem antiquada. A democracia sofre – no mundo e no Brasil – uma nova fase de confrontação estética. Estamos em uma espécie de guerra fantasiada, onde formas de pensamento rasas que imaginávamos caducas ressurgem para reagir ao avanço dos valores e visões contemporâneos. Mesmo a “nova política” nem sempre é nova. É preciso mantermos o rumo para uma realidade em que prevaleça o verdadeiramente belo, bom e certo. Sem nos distrairmos com as mungangas que geram likes e compartilhamentos. Estética tem a ver com lucidez, principalmente na política.

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