terça-feira, 16 de junho de 2026

Isto não é ficção: as empresas gostam de faquires

Anunciaram-lhe que tinha de passar o sábado numa formação da empresa. Não ia haver pagamento de horas extraordinárias. Só uma folga, num dia a aprovar pela diretora. Chegou lá depois de deixar a filha com os avós, que o pai nunca é solução. Teve sorte. Houve quem, sem avós por perto nem pai que valesse, tivesse de arranjar soluções mais criativas, recorrendo à bondade de quem pudesse ficar com os miúdos, que 1200 euros brutos não dão para andar a gastar dinheiro em baby-sitters. Lá chegada, encontrou o formador. Na verdade, um coach. Alguém pago para os pôr a fazer “provas de confiança”. Andaram a partir espadas de plástico com o pescoço, para perceberem o poder da mente e os bloqueios das “crenças limitativas”. Já ouvi falar de “formações” destas em que os trabalhadores passam um fim de semana a viver como se estivessem na tropa ou até a caminhar sobre vidro partido ou a atravessar o fogo. Pelos vistos, ser faquir é uma competência essencial para sobreviver nas empresas.


O dia estava quente, um daqueles primeiros dias bons de primavera, depois de um inverno cinzento de chuvas. Mas eles lá ficaram fechados a convencerem-se do poder da própria mente e de que são todos uma equipa e a empresa é uma família. Deve ser. Por isso, a família a sério e os amigos que se escolhem ficam à espera da tal folga que a diretora há de aprovar, num dia de semana, quando nem familiares nem amizades estiverem disponíveis. E até há de dar jeito, que há roupa para passar a ferro ou uma consulta pendurada ou uma burocracia que nunca há tempo para resolver. O lazer é luxo. Ir ao cinema está caro, estar com os amigos numa esplanada custa dinheiro, até uma ida à praia leva o couro e o cabelo. Assim, pelo menos usa-se o dia para o que é útil. O que é a vida se não tiver utilidade?

Informaram-na de que as comissões pelas vendas passam a ser pagas de três em três meses. Não teve voto na matéria. Pena que a renda, a água e a luz não se paguem de três em três meses. Já tem sorte em ter comissões. Agora, todas juntas, até parecem tanto dinheiro que fazem saltar de escalão de IRS. E se o recibo vem mais magro a culpa é do Estado. Não é do patrão que em vez de salário paga prémios.

Querem melhor? Esforcem-se. Já se esforçam muito? Esforcem-se mais. Trabalhem mais horas. Já trabalham horas extraordinárias sem receber por isso? E depois? O que é que vos custa?

O esforço é “premiado” e é por isso, por ser um presente que se dá por bondade, que não entra para os descontos da reforma (vamos lá a ver se ela chega e quanto chega) nem para o subsídio de desemprego nem para a baixa de doença. Mas é bom que não fique doente, que já viu colegas não terem o contrato renovado porque adoeceram e tiveram de faltar. E outros dois porque fizeram greve em dezembro. Ninguém disse que foi por terem feito greve, mas é uma grande coincidência. E a mensagem passou. Ficaram todos a perceber: ser grevista não é bem-visto. Ser doente também não. Mesmo que a empresa seja uma grande família, ninguém quer familiares que andam para aí a arrastar-se.

Há uns meses, deram-lhe mais responsabilidades. Ser chefe de equipa. Agora, além do trabalho no call center, tem de auditar as chamadas dos outros, fazer relatórios, garantir que a equipa não falta nem falha os objetivos. O dia está cada vez mais curto. Mas agora recebe mais 80 euros. Uma fortuna. E ganhou a ansiedade de garantir que ninguém na sua equipa falta, dê lá por onde der. Se alguém faltar, ela perde as comissões e o salário só vai cobrindo as despesas se receber os extras. Sem isso, anda em apneia até ao fim do mês. Mas levar os filhos para o escritório, se não tiverem escola ou estiverem doentes, não é bem-visto. A diretora deixou isso muito claro, quando lá apareceu uma trabalhadora com a filha. “Isto não é uma creche.” Ficou feito o aviso.

Dizem-lhes que é preciso vestir a camisola. E até vem a calhar, que o salário não dá para comprar muita roupa. E este ano não há aumentos. Não há margem, dizem. Mas houve uma grande festa de Natal. Afinal, isto é uma família. O dinheiro em casa está curto, mas ao menos naquele dia foram comer à grande num restaurante que o patrão escolheu e com os colegas que não se escolhem. Uma maravilha. Só têm de estar gratos.

Claro que há ingratos. Ela ouviu uma colega queixar-se a um diretor de que o salário não dava para chegar ao fim do mês. “Precisa de aprender a governar-se melhor”, respondeu sabiamente o chefe. “Podemos trocar. Vem governar-se com o meu e eu governo-me com o seu”, atirou a ingrata, que ouviu logo o responso, porque ela sabe lá as grandes responsabilidades que ele tem. E meteu a viola no saco, que daqui a uns meses há de chegar ao fim o contrato e depois logo se vê quem fica. A flexibilidade é uma grande maravilha, mas prende-nos a boca e os pés ao medo de ficar sem ter como pagar o teto e o pão.

Estes “colaboradores” têm de aprender a valorizar a sorte de ter um trabalho. Ou deveria escrever uma “colaboração”? No fundo, se a empresa é uma grande família com a qual até se passam sábados a aprender a partir espadas com o pescoço, isto não é bem um trabalho. E, claro, o salário não é o que se recebe em troca de vender as suas horas, o seu esforço e o seu conhecimento. E é por isso que não faz mal nenhum dar mais umas horas ao emprego em troca de coisa nenhuma ou da promessa de uma folga no dia em que calhar bem ao patrão. Estamos cá todos para fazer uns jeitinhos uns aos outros. Somos todos uma equipa, mesmo que no final do turno uns vão para a fila dos autocarros e outros saiam num carro topo de gama com combustível pago pela empresa.

Querem melhor? Esforcem-se. Já se esforçam muito? Esforcem-se mais. Trabalhem mais horas. Já trabalham horas extraordinárias sem receber por isso? E depois? O que é que vos custa? Não podem ser mesquinhos ao ponto de acharem que um emprego serve só para trocar trabalho por dinheiro. Afinal, é por isso que as empresas gastam tanto nestas formações para faquires. Vocês têm de ser flexíveis! Só não falhem a hora de picar o ponto e garantam que vos veem sentados na secretária tanto tempo quanto possível. E não se metam em greves nem em sindicatos, que isso é coisa de comunas e preguiçosos. Se vos atropelarem um direito, se vos encostarem à parede, se não vos aumentarem, aguentem. Isto é tudo psicológico. É só acreditar e pisar o vidro partido. Só é pena é que o senhorio ou o banco não percebam que a renda não é psicológica nem a conta do supermercado se pague com fé. Mas um dia isto vai melhorar. Vai mesmo. Será que vai?

PS: A cronista não teve de usar a imaginação, como aliás nunca faz. O relato é escrito com base num desabafo verídico.


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