segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Bolsonaro, ano 1

Ele veio como um terremoto, mobilizando as profundezas da sociedade. Assustou, verdadeiramente. E continua a assustar, pois o tremor que se sentiu continua, dia após dia, sob fogo cerrado de um discurso intolerante e de uma linguagem marcada pela confrontação permanente, sem remissão nem acordos. Em meio ao turbilhão que se instalou com a vitória e ascensão ao poder de Jair Bolsonaro, já é tempo de entender que ele não veio “do nada”. O antipetismo que se formou desde as manifestações de 2013 até o impeachment de Dilma Rousseff foi o que essencialmente o elegeu. Mas há mais do que isso.

É necessário, de saída, reconhecer que Bolsonaro foi eleito dentro dos parâmetros democráticos que nos guiam e, portanto, sua vitória está coberta de legitimidade. Interessa a Bolsonaro ultrapassar a imagem de que seu êxito representou apenas um instante fugaz. Quer conclamar homens e mulheres a segui-lo e refazer o caminho de sua vitória eleitoral, rumo a outra, a de 2022. Mesmo com os olhos mergulhados no passado, busca alterar o tempo histórico. Mais importante do que conquistar posições que lhe garantam trânsito sustentável em direção ao futuro, importa instituir um movimento, em tempo curto, que o leve a mais um mandato.

No já longínquo 2018, o candidato derrotado do PT, Fernando Haddad, balbuciou palavras referentes à “resistência” de uma “outra nação”, mas permaneceu imóvel, como seu partido, esperando a “soltura” de seu guia, que continuaria a vociferar como antes, reiterando que nada mudara em sua visão. Diferentemente de Bolsonaro, Lula movimenta-se no sentido de voltar a ter posições mais favoráveis nas relações de força que compõem o difícil e complexo terreno da política brasileira nos dias que correm. Na linguagem preferida do velho líder: “corre muito, quer o jogo concentrado nele, mas marca poucos gols”!

A consigna de “resistência” a Bolsonaro foi aceita quase que generalizadamente, mas deveria ser traduzida por uma estratégia de construção de uma “oposição democrática” no corpo das instituições, na opinião pública e na sociedade, cuja principal missão deveria ser a de evitar que “as inclinações autoritárias do presidente eleito e do seu entorno” se transformem em “regime político”, como expusemos em Política Democrática Online 2, em novembro de 2018 (pp.18-19). Transcorrido um ano do governo Bolsonaro, não parece que tal objetivo tenha perdido sua validade, muito ao contrário. Atesta-se, por outro lado, a incapacidade do PT em dar corpo e solidez a essa estratégia.

O ano passou com Bolsonaro fazendo questão de se afirmar como o comandante de um governo de “destruição” de tudo que se havia construído nos 30 anos de vigência da Constituição de 1988. Fez questão de não evitar e mesmo assegurar suas posições homofóbicas, racistas, antiecológicas, antiparlamentares, anti-institucionais, antidemocratas ou similares. Foi mais corporativo, em defesa dos diversos grupos militares e religiosos que o apoiam, do que reformista. Mesmo quanto à Reforma da Previdência, aprovada em 2019, Bolsonaro não pode proclamar como uma vitória sua, uma vez que pouco ou nada fez para que ela passasse na Câmara e no Senado.

Diante das dificuldades de governança e do declínio em sua popularidade, atestado nas pesquisas, o presidente não se furtou a estimular especulações a respeito da sua sucessão. Sem um projeto claro a perseguir como marca de governo, Bolsonaro passou o ano fazendo com que a questão eleitoral de 2022 fosse o terreno oculto a lhe possibilitar uma contraposição retórica com seus possíveis adversários. O presidente da República não teve dúvidas em instrumentalizar antecipadamente sua sucessão para sondar como andam seus apoios, sem necessitar, mais uma vez, ceder à articulação com o mundo político.

Parece convencido de que investir suas fichas nas correias de transmissão que lhe deram a vitória eleitoral, com prevalência para as redes sociais, poderá lhe garantir a vitória novamente. Permanecer com o percentual de apoio que lhe assegure um lugar no segundo turno em 2022 é o objetivo almejado. Bolsonaro subiu a rampa do Planalto, mas imediatamente retornou ao palanque: é um presidente-candidato, como o foi Lula, o tempo todo, embora os estilos sejam notavelmente diferentes.

Ideologicamente, Bolsonaro é, sem dúvida, um político reacionário e regressivo que, para chegar a ser conservador, necessitaria de um programa de governo consonante com o desenvolvimento brasileiro e com os avanços civilizacionais do Ocidente, mas que supusesse um “freada de arrumação”, visando a garantir ou conservar parte do padrão histórico alcançado em ambas dimensões. Entretanto, Bolsonaro (e seu entorno, filhos inclusos) não chega a ser um conservador. Quer retroagir a marcha da história. Menos ainda um liberal, em termos políticos. Inúmeras vezes vociferou indiretamente contra a Constituição, a “Carta das liberdades e dos direitos”, como a ela se referia o liberal Ulisses Guimarães. Bolsonaro rejeita os vetores emancipatórios contidos nas transformações valorativas da modernidade. As metamorfoses atuais do mundo lhes são inadmissíveis. Identifica-se essencialmente com o mundo do pentecostalismo e seu cortejo de falaciosas restrições.

No plano internacional, Bolsonaro aposta na sua capacidade de anular a dinâmica e os efeitos da globalização entre nós e, por isso, se posiciona claramente contra o globalismo, sustentando um nacionalismo manchado de anacronismo. Diante do irredutível “conflito econômico mundial”, que se expressa de forma global, Bolsonaro não contempla uma perspectiva de cooperação entre os países, isto é, uma política de interdependência que favoreça a convivência entre diferentes e a busca de um destino comum para a humanidade. Sua postura extremista nos tem levado a uma posição subalterna ao atual governo norte-americano, além de vincular o país ao que há de mais reacionário na política europeia.

O “ano 1” projetou um líder que se recusou a formar uma base política no Parlamento, rifou o partido pelo qual se elegeu e busca construir um “novo partido” (Aliança pelo Brasil), de perfil personalista, seguindo as orientações de Olavo de Carvalho, um ideólogo saturado de nostalgia e extremismo. A construção desse partido seria então a resposta do presidente ao isolar-se do mainstream político e procurar consolidar, na sociedade, um movimento que possa lhe dar sustentação e lhe ser estritamente fiel.

Na dimensão reconhecidamente mais exitosa deste “ano 1”, os parcos resultados alcançados na economia são avaliados em meio a fortes suspeitas sobre sua sustentabilidade. A reforma da Previdência acionou, como afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros, “a força de uma recuperação cíclica tradicional, que já existia desde o governo Temer (e que) começou a ganhar tração ao longo dos últimos meses. Mas a lentidão desta recuperação, principalmente na questão do desemprego, criou um ambiente de ceticismo entre os analistas e mesmo junto à sociedade” (Valor, 16.12.2019). Em síntese, a economia deu sinais de que está saindo da recessão provocada pelos disparates efetuados no governo de Dilma Rousseff (PT), mas não tem como avançar senão lentamente, mesmo com o rebaixamento dos juros a um nível jamais visto na história recente.

Em um ambiente político mais apropriado à “guerra de posições”, Bolsonaro preferiu a “guerra de movimento”, como o comandante de um “exército” embrionário identificado no “bolsonarismo”. Entretanto, à diferença dos seus pares internacionais, o iliberalismo de Bolsonaro não demonstrou, neste “ano 1”, força real para impor derrotas à democracia, como sistema político. Embora haja uma sensação de ameaça permanente, não há posições conquistadas no sentido de destruir a democracia da Carta de 1988 em seus fundamentos. As oposições resistem institucionalmente, mas não demonstram capacidade de enfrentar a “guerra de movimento” do bolsonarismo.

O “ano 1” de Bolsonaro está focado no segundo mandato. Ele precisa desesperadamente de sua reeleição. Para isso, quer nos manter estacionados politicamente em 2018.
Alberto Aggio

É preciso estar atento e forte

Luzes, ainda que fracas, no túnel da economia, reforma da Previdência feita, até talvez tributária e administrativa ainda este ano. Aos trancos e a despeito dos barrancos e barracos que o presidente Jair Bolsonaro arma, o governo faz que anda. Mas a melhor parte, digna de comemoração, é o que não anda: a retrógrada agenda de costumes. Graças à grita de muitos, nela o governo só colhe reveses.

Bolsonaro já foi avisado pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) de que não há lugar em 2020 para temas como Escola sem Partido, reformulação do Estatuto da Família, Estatuto do Nascituro e questões que envolvam ideologia de gênero. Tudo sem chance de prosperar no horizonte próximo.

Pontos que não dependem do Congresso Nacional, como a vigilância digital de professores que o então ministro Ricardo Vélez tentou impor, foram rejeitados pela sociedade. Tampouco o sucessor Abraham Weintraub emplacou o controle pretendido nas universidades e dificilmente conseguirá manter limites ao ir e vir de cientistas e pesquisadores.



Na sexta-feira, o governo tomou mais uma invertida quando a Defensoria Pública da União recomendou, “por falta de evidências científicas”, que não seja veiculada a campanha de estímulo à abstinência sexual, parte da política pública que a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves quer implantar em nome de reduzir a gravidez precoce.

Bombardeada por todos os lados ao lançar uma ideia que dizia de eficácia comprovada e que mais tarde admitiu não ter dados para tal afirmação, Damares até tentou, nas últimas semanas, argumentar que sexo zero era apenas um dos itens do cardápio de educação dos jovens. Nada crível vindo de alguém que associa sexualidade juvenil a “comportamentos antissociais ou delinquentes”, conforme nota técnica de seu Ministério, e que, publicamente, defendeu que “o método mais eficiente para a não gravidez não é a camisinha, não é o DIU, não é o anticoncepcional, o método mais eficiente é a abstinência".

Pastora e “terrivelmente evangélica”, como ela própria se define, Damares é quem melhor traduz a diabólica pauta de costumes do governo.

Embora diga que não mistura religião com política, antes de assumir o cargo se dedicava a sermões eloquentes com pregações contrárias ao Estado laico: “Chegou a nossa hora, é o momento de a Igreja ocupar a nação. É o momento de a Igreja governar” (Culto, 1/5/2016).

Assim como o chefe, que faz política espetando, mesmo ciente de que será alvo de críticas, Damares se sustenta com frases icônicas que já fizeram dela o melhor do anedotário bolsonarista – “meninos vestem azul, meninas rosa”, “mulher nasceu para ser mãe”, “como eu gostaria de estar em casa numa rede e o meu marido ralando muito para me sustentar e me encher de joias e presentes”, só para citar algumas.

Em defesa da abstinência sexual, chegou às raias da imprudência, ao expor como regra a exceção da sexualidade infantil: “Se vocês me provarem, cientificamente, que o canal de vagina de uma menina de 12 anos está pronto para ser possuído todo dia por um homem, eu paro agora de falar”. Como quem só pensa naquilo, já havia causado espanto (e delírio da plateia) no CPAC Brasil, convescote direitista promovido pelo deputado Eduardo Bolsonaro, ao afirmar: “Estou aqui há 24 horas e ninguém me ofereceu um cigarro de maconha e nenhuma menina introduziu um crucifixo na vagina.”

Para o bem dos direitos e das liberdades, Damares tem enfrentado uma sociedade diligente e atuante. Com isso, nem ela nem outros afoitos ideológicos, como o nazista demitido da Cultura, conseguem emplacar as loucuras que preconizam.

Mas a pastora-ministra vê sua popularidade crescendo na mesma proporção das asneiras que fala. Tem 43% de aprovação, segundo pesquisa Datafolha, perdendo apenas para os 53% do ex-juiz Sérgio Moro. Em um país em digladio constante entre ideologias extremadas, onde o gosto popular é medido por piadas e memes, isso é um perigo.

Ainda que essa turma não tenha conseguido legalizar o atraso, as tentativas continuarão. Na maior parte das vezes abusando, sem qualquer escrúpulo, dos quase irresistíveis apelos à fé e à família.

Mais do que nunca é preciso estar atento e forte.

Paisagem brasileira

Recanto de Goiás (1982), Edson Franceschini

Bolsonaro socorre por pressão patrícios que abandonaria na China por opção

Jair Bolsonaro assistia ao drama dos brasileiros assediados pelo coronavírus na China com a insensibilidade de um comandante que abandona sua tropa em situação adversa. Conversou com os repórteres duas vezes. Em ambas expôs sua resistência à ideia de resgatar os patrícios em apuros. De repente, caiu-lhe a ficha. Em pleno domingo, o capitão teve de fazer por pressão o que deixara de providenciar por opção. Ordenou a montagem de uma operação para resgatar os brasileiros que estão em Wuhan, na China.

Apenas 48 horas antes, o mesmo Bolsonaro empilhava diante de repórteres céticos os pretextos que o impediam de enxergar o óbvio: dificuldades de logística, falta de verba, ausência de autorização do Congresso para realizar despesa extra, inexistência de previsão legal para impor uma quarentena aos resgatados, isso e aquilo. Declarou que não repatriaria ninguém "se não estiver tudo redondinho no Brasil." Pressionado, Bolsonaro executou algo parecido com um cavalo de pau.


O capitão tocou clarins nas redes sociais para informar que "serão trazidos em segurança para nós" todos os brasileiros que estiverem no epicentro chinês do coronavírus e "manifestarem desejo de retornar." Sumiu sem deixar vestígios aquele presidente que há apenas dois dias encostava sua inação num lero-lero sobre o risco de contágio: "Se lá [na China] temos algumas dezenas de vidas, aqui temos 210 milhões de brasileiros."

Nem sinal daquele personagem sensível como um pedregulho que desdenhara no início da semana passada do sofrimento de um casal brasileiro que amargava isolamento hospitalar nas Filipinas porque a filha de dez anos apresentava os sintomas do coronavírus. "Pelo que parece, tem uma família na região onde o vírus está atuando. Não seria oportuno retirar de lá. É o contrário. Não vamos colocar em risco nós aqui por uma família apenas."

No intervalo entre o sumiço daquele Bolsonaro que enxergava o padecimento alheio sob a lógica redutora do vocábulo "apenas" e o surgimento deste presidente preocupado em trazer os cidadãos brasileiros "em segurança para nós" ocorreram fatos constrangedores. Afora as críticas que trovejaram no noticiário e os raios que o partam despejados nas redes sociais, Bolsonaro foi como que contraditado por Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.

Presidentes da Câmara e do Senado, Maia e Alcolumbre insinuaram que o governo não precisa do Congresso para socorrer os brasileiros em apuros na China. Ainda assim, imunizaram-se contra a terceirização de responsabilidades colocando-se à disposição para aprovar a toque de caixa medidas que Bolsonaro julgasse necessárias.

De resto, Bolsonaro foi abalroado no domingo nublado de Brasília por um vídeo levado ao ar na vitrine do You Tube. Nele, dez jovens brasileiros retidos na cidade chinesa de Wuhan se revezam na leitura de uma "carta aberta" dirigida ao presidente e seu chanceler Ernesto Araújo. Pedem para ser resgatados. Declaram-se dispostos a arrostar uma quarentena no Brasil. Realçam que cidadãos dos Estados Unidos, Itália, França, Reino Unido e Japão já foram levados de volta para seus países — evidência de que a China não opõe resistência à repatriação.

Supremo constrangimento: duas brasileiras que viviam em Wuhan e possuem também a nacionalidade portuguesa conseguiram embarcar num voo providenciado pela França para recambiar cidadãos da União Europeia. A dupla enfrentará a quarentena em Portugal. Tudo isso dois dias depois de o chanceler Ernesto Araújo ter declarado, ao lado de Bolsonaro, que as fronteiras de Wuhan estão fechadas. A retirada dos brasileiros envolveria intrincadas negociações. "Não é uma coisa óbvia e imediata", dissera Araújo.

Se Bolsonaro tivesse acomodado no Itamaraty um verdadeiro chanceler, não um áulico, talvez não tivesse que passar pela vergonha de esbarrar no óbvio, tropeçar no óbvio e passar adiante, sem suspeitar que o óbvio era o óbvio. Estava na cara que o abandono dos brasileiros em apuros na China exporia Bolsonaro no estrangeiro como um troglodita incapaz de perceber que um presidente é mais do que uma faixa. É preciso que por trás do pedaço de pano e da pose exista uma noção qualquer de honra e solidariedade.

Instabilidade dos buracos

Um governo tem que transmitir tranquilidade, união, um ambiente de trabalho onde as pessoas possam esperar com tranquilidade o desenvolvimento da sociedade. Não no tumulto de todo dia você ter uma intoxicação enorme de fake news e de grupos ideológicos espalhando conflitos. Não se pode viver num estado permanente pré-eleitoral
General Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo

O que a ciência tem a dizer sobre o Apocalipse

O fim do mundo sempre é pessoal, por vezes social e só uma vez literal. No entanto, a vivência irrefutável de que tudo nasce para decair costuma se trasladar para a ordem cósmica, e a ideia do Apocalipse é onipresente nas sociedades humanas. O universo costuma se encontrar entre uma criação onde tudo era bom e um final, muitas vezes próximo, que chegará porque, com nossa inépcia e maldade, corrompemos os dons que nos foram entregues. Dom Quixote recorda, ante um grupo de pastores, a visão da Grécia clássica quando fala de alguns séculos felizes “aos quais os antigos puseram o nome de dourados”, uma utopia comunista na qual “os que nela viviam ignoravam essas duas palavras de seu e meu”. Agora, após várias degradações, nós nos encontramos na idade do ferro, e a situação vai piorar. Algo similar contam os hindus, que dizem que vivemos no período Kali Yuga, uma era de disputas e hipocrisia que também é a última antes que algum tipo de cataclismo purifique o planeta.

A mesma tendência dos humanos de realizar analogias que confundem o ciclo da vida e do mundo pode fazer desprezar o medo de um desastre de dimensões planetárias. Se tantos povos ancestrais acreditaram que o final estava perto e erraram estrepitosamente, é fácil descartar sem rodeios os arautos do Apocalipse. Isso é o que deveria ser feito, por exemplo, com os pesquisadores do Boletim de Cientistas Atômicos, que na semana passada adiantaram seu metafórico relógio do fim do mundo e o deixaram a apenas 100 segundos do trágico final. Mas as situações nem sempre são comparáveis, e nos últimos séculos a humanidade incrementou sua capacidade de causar desastres planetários —e também de prevê-los.


O relógio do fim do mundo foi criado, fundamentalmente, para advertir sobre os riscos de aniquilação da civilização humana se a Guerra Fria, na qual durante décadas os Estados Unidos enfrentaram a União Soviética, se transformasse num conflito atômico. Hoje, porém, avaliam-se muito mais riscos, como uma inteligência artificial e uma biotecnologia descontroladas. E, segundo escreveu o físico Lawrence Krauss, membro do conselho de cientistas do relógio do fim do mundo, “essa multiplicação das ameaças elevou a sensação de alarme”. “O relógio do juízo final está hoje mais perto da meia-noite que durante a crise dos mísseis de Cuba (na época, ficou a sete minutos do final, contra os 100 segundos atuais), quando o mundo esteve realmente à beira do holocausto nuclear”, acrescentou, num artigo publicado no The Wall Street Journal em que duvidava da validez do instrumento.

Nem todas as ameaças são iguais, e nem os cataclismos têm as mesmas dimensões. Como o próprio Krauss dizia, a mudança climática associada à atividade industrial, uma das supostas grandes ameaças para a continuidade da civilização, terá provavelmente efeitos devastadores, mas eles serão sentidos no longo prazo e não serão iguais no mundo todo. María José Sanz, diretora do Centro Basco para a Mudança Climática, afirma que o aumento de mais de dois graus na temperatura média do planeta “pode provocar danos muito importantes para as sociedades humanas, que terão dificuldade de se adaptar a uma frequência de fenômenos climáticos extremos nunca vistos”. Mas isso não significa que a Terra se transformará num planeta hostil à vida, como Marte, nem que uma espécie como a humana, que já conta com mais de oito bilhões de indivíduos e uma capacidade tecnológica impressionante, terá sua continuidade ameaçada.

Sanz aponta, no entanto, alguns perigos difíceis de prever. “Além do aumento progressivo da temperatura, o sistema climático tem alguns pontos de inflexão”, explica. A quantidade de gelo dos polos, o sistema de monções tropicais e a corrente norte-sul, que faz com que Nova York seja muito mais fria que Madri apesar de estarem na mesma latitude, e que tem a ver com a quantidade de água doce que desemboca nos oceanos —que, por sua vez, está relacionada com o gelo dos polos—, são mecanismos que regulam o clima planetário e que podem mudar de repente. “Se esses pontos forem ultrapassados, pode haver mudanças muito abruptas, e isso é o que não se pode prever. Sabemos que estão aí, que estamos acelerando o trajeto rumo a esses pontos de inflexão, mas não sabemos o que vai acontecer se eles forem ultrapassados. Nem as consequências disso”, completa.

Como deixa claro o sucesso do gênero zumbi, as doenças infecciosas, como o coronavírus de Wuhan, são também uma fonte de terror apocalíptico. E, nesse caso, o medo não vem sustentado apenas por possíveis padecimentos futuros, mas por milhões de mortos. Durante grande parte da história, quando não se sabia o que provocava as infecções, alguns micróbios podiam dizimar a população que atingiam. O historiador Eric Hobsbawm estimou que apenas 6% ou 7% dos marinheiros ingleses mortos entre 1793 e 1815, durante as guerras contra Napoleão, faleceram nas mãos dos franceses. “Oitenta por cento morreram por causa de doenças e acidentes”, escreveu. A sujeira, os serviços médicos e a falta de higiene eram inimigos muito mais temíveis que os canhões franceses.

Calcula-se que a peste negra, provocada por uma bactéria, acabou com um terço da população da Europa. A gripe espanhola matava até 20% dos infectados e aniquilou 6% da população mundial. Para muitos dos habitantes da América pré-colombiana, embora não os exterminassem completamente, os vírus provocavam uma espécie de fim do mundo. “Na colonização da América, o principal soldado foram os vírus”, afirma Víctor Briones, professor de saúde animal da Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madri.

“Que uma infecção coloque em perigo a continuidade de uma espécie é muito difícil, embora isso quase tenha acontecido com doenças às vezes banais, como a sarna na camurça-dos-pirineus [uma espécie de caprino]. E a peste bovina provocou tanta mortandade na Europa que levou à fundação das faculdades de veterinária”, prossegue Briones. Em humanos, a gripe espanhola de 1918 “despovoou as zonas rurais”, e a praga de Justiniano do século VII pôde ter influenciado o final do Império Romano. “Reduziu a população de tal maneira que não havia braços para cultivar a terra nem gente para defender a fronteira. A ordem social se alterou”, diz Briones. E conclui: embora ele veja a possibilidade de que uma doença provoque uma grande mortandade, considera muito difícil a extinção da humanidade por essa via.

Ainda que não haja extinção, algumas doenças que não chamam a atenção do público nos países desenvolvidos matam centenas de milhares de pessoas. Somente o HIV, a tuberculose e a malária acabam com a vida de cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano, a maioria nos países pobres. “Em cidades como Jacarta, Dar es Salaam [Tanzânia] e Cairo, onde a maior parte da população não mora em edifícios de vidro e aço, mas de chapa e latão, onde há uma imigração em massa, uma gestão deficiente dos resíduos e pouco acesso aos recursos sanitários, há doenças que provocam uma grande mortandade”, afirma Briones. A hecatombe ali não é um medo difuso no futuro, mas a vida cotidiana.

A gripe espanhola, uma das maiores pandemias conhecidas, acabou com apenas cerca de 6% da população mundial

Durante as guerras napoleônicas, 80% dos marinheiros ingleses mortos faleceram por doenças e acidentes, não pelas armas inimigas.

Os Correios vão fechar uma escola

A privatização de empresas públicas pode ser uma medida saudável na política econômica de qualquer governo. Mas se o preço da privatização for o fechamento de escolas, de centros de ensino que estão fornecendo mão de obra para o desenvolvimento de áreas importantes de nossa cultura e de nossa economia, ela só pode ser vista como uma ação selvagem, que não traz nenhum benefício para o país. Só prejuízo. É o que se está discutindo no atual debate entre os Correios e a Escola de Cinema Darcy Ribeiro, nome com que é conhecido o IBAV (Instituto Brasileiro do Audiovisual), sociedade civil, sem fins lucrativos, responsável pela escola.

Escola de Cinema Darcy Ribeiro
A eventual desestatização dos Correios parece ser uma fatalidade de nosso tempo. Sua privatização é um projeto permanente de quase todos os nossos ministros da Economia mais recentes. Não tenho uma posição muito definida sobre o assunto que, de um lado, deve levar em conta a inovação provocada pela revolução da internet; mas, por outro lado, tem-se hoje uma Empresa dos Correios, de natureza pública, que permite a comunicação e o comércio em todo o nosso território, do Oiapoque ao Chuí.

Enquanto ninguém chega a uma conclusão sobre qual será esse novo papel dos Correios, aqui e no mundo todo, quem está sofrendo as consequências é uma escola, por onde já passaram 20.000 jovens, em cursos regulares ou oficinas, vindos de todo o Brasil, alcançando todas as faixas sociais, exemplo de excelência pedagógica e social.

A Escola de Cinema Darcy Ribeiro (ECDR), comandada desde sempre pelo IBAV e pela obsessiva e eficiente professora Irene Ferraz, exemplo de servidora empenhada em seu papel, é um dos poucos centros que temos de ensino livre dedicado ao Audiovisual.

No ano 2000, ainda durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso, os Correios fizeram uma cessão de uso ao IBAV. Eram “restos” de um prédio em ruínas, confiscado durante a Segunda Guerra Mundial, por ser a sede do Deutsche Bank, nosso “inimigo de guerra”. Um prédio em desuso há muitos anos, na esquina da Rua Primeiro de Março com a Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, para que ali se instalasse o sonho raro de um centro de ensino e pensamento do Audiovisual. Para que isso se tornasse possível, os responsáveis pelo IBAV realizaram inúmeros investimentos para a restauração, recuperação, adequação e manutenção do edifício, utilizando-o em benefício da formação profissional na área.

Nesse prédio, hoje tombado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, por iniciativa do deputado Carlos Minc, sempre se praticou, antes de tudo, a pesquisa capaz de desenvolver, na prática e na teoria, uma enorme área de técnicos e criadores, homens e mulheres dedicados à cultura e à fabricação do Audiovisual brasileiro. Hoje a escola mantém o prédio funcional, com cinco pavimentos, todos recuperados e remodelados, que abrigam salas de aula, ilhas de edição, estúdios, biblioteca e filmoteca, sala de exibição de todos os formatos óticos e digitais, locais preparados para receber estudantes do Rio de Janeiro e de todo o Brasil, como vem acontecendo desde sempre.

São esses os elementos formadores dos profissionais que já atuam hoje ou que vão atuar amanhã na indústria criativa do Audiovisual. Um item hoje significativo em nosso PIB nacional. E também nas contribuições prestadas por alunos e ex-alunos, no debate cultural do país, um país que ainda inventa sua forma de pensar e de se comportar como nação. Nessa segunda feira, por exemplo, a escola começa a preparar uma nova turma de estudantes, fruto de emenda parlamentar da Câmara dos Deputados, que possibilitou a abertura de uma nova classe com 35 vagas de bolsas integrais para jovens de periferia, que por ela serão formados. Essa é uma das contribuições decisivas que a escola dá ao crescimento e à consolidação da atividade Audiovisual no país, em benefício sobretudo do que estará na televisão e no cinema, visando ao desenvolvimento democrático do Brasil.

O que os Correios fazem neste momento, pedindo de volta um prédio que não tem nenhuma utilidade para o serviço que prestam, apenas para valorizar seus bens imobiliários, na hipótese de uma privatização do que já não serve mais, é no mínimo medíocre e pouco patriótico. O que seu gesto vai certamente provocar, se por infeliz acaso for executado, é a interrupção da atividade letiva da Escola e do IBAV. E portanto um boicote ao futuro do Brasil. Fica Darcy!</p>
Cacá Diegues

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Brasil de Iemanjá


Humanos como nós

Considerado o pai da antropologia estruturalista, o franco-belga Claude Lévi-Strauss (1908 — 2009), entre 1935 e 1939, dedicou-se a estudar os índios do Brasil Central, base para a publicação de sua tese As estruturas elementares do parentesco, em 1949. Ele rompeu com a ideia de que os índios são apenas índios, porque não concordava com a divisão entre civilizados e selvagens. Lévi-Strauss foi professor da recém-criada Universidade de São Paulo, com sua esposa Dinah Lévi-Strauss, Fernand Braudel, Jean Maugüé e Pierre Monbeig, e realizou pesquisas de campo em Goiás, Mato Grosso e Paraná, que também resultaram no livro Tristes Trópicos (1955). Procurou decifrar as relações entre o ser humano, a natureza e a cultura.

Para o antropólogo, o ser humano se diferencia dos outros animais devido ao uso de símbolos para se comunicar, não importa as particularidades de cada grupo humano. Seu objetivo não era estudar uma sociedade específica, mas identificar o que há nela de universal; por exemplo, sistemas de parentesco e restrições matrimoniais. Graças aos índios, por exemplo, sua compreensão do incesto ultrapassou as explicações biológicas ou morais. A proibição de manter relações sexuais com certas mulheres (como a mãe ou a irmã) e a permissão para tê-las com outras teceram as alianças fundadoras da vida social. O sistema de parentesco é o meio pelo qual se cumpre a transição entre a natureza e a cultura. Explica, por exemplo, como se formou a economia do sertão no Brasil colonial, a partir da miscigenação e do escambo entre os tupis e os portugueses.

Na monumental Mitológicas, de 1960, com mais de 2 mil páginas, Lévi-Straus analisou 813 mitos originários de povos do continente americano, desde os bororos, os jês e os tupi-cavaíbas do Brasil até os hopi, os pueblo, os mohawk e os kwakiutl da América do Norte. No primeiro volume, intitulado O Cru e o Cozido, comparou a análise conjunta dos mitos americanos à audição de uma sinfonia. Os músicos, porém, estão separados no tempo e no espaço, e cada um executa seu fragmento sem saber a partitura completa. Só é capaz de ouvir a música inteira quem estiver a distância. O concerto, segundo Lévi-Strauss, iniciou-se há milênios e hoje poucos músicos remanescentes continuam a tocar na orquestra.

No Maranhão, Karapiru, um indígena Awá, é um dos remanescentes da orquestra. Sobreviveu a um ataque de homens armados e, durante dez anos, morou sozinho, se escondendo na floresta. Agora vive com outros Awá, que são caçadores-coletores e nômades em constante movimento. Em Rondônia, outro índio solitário talvez seja o único sobrevivente de uma tribo massacrada por grileiros que ocuparam a região de Tanuro. Vive em fuga e é conhecido como “homem do buraco”, porque escava grandes covas para se esconder e guardar seus alimentos. Desde 1987, a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem um departamento dedicado aos povos indígenas isolados, cuja política é fazer contato somente nos casos em que sua sobrevivência está em risco iminente. Em vez disso, a Funai busca demarcar e proteger suas terras de invasores.

Os povos isolados têm o direito de decidir se preferem viver em isolamento ou não. Para exercer esse direito, porém, precisam de tempo e espaço. É o caso dos Piripkura, ou o “povo borboleta”, como são chamados pelos “Gaviões”, com quem interagem. Eles falam Tupi-Kawahib, o mesmo tronco linguístico de vários outros povos do Brasil. Os Piripkura eram cerca de 20 pessoas quando a Funai fez o primeiro contato no final da década de 1980. Depois, voltaram para a floresta, e mantêm relações esporádicas com os sertanistas. Somente sobreviverão se suas terras forem protegidas. Há centenas de grupos isolados na Amazônia.

Agora, o presidente da Funai, Marcelo Augusto Xavier, pretende nomear o antropólogo Ricardo Lopes Dias para a Coordenadoria Geral de Índios Isolados e Recém Contatados. Formado pela Faculdade Teológica Sul Americana, atuou por mais de dez anos para a Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), organização que tem por objetivo evangelizar os indígenas. Lopes Dias terá a missão de tornar o índio cada vez mais “um ser humano igual a nós”, para usar a expressão do presidente Jair Bolsonaro.

Voltemos à antropologia, que explica muitas coisas. Papa do estudo das religiões, o escocês Victor Turner (1920 — 1983) também bebeu das águas das sociedades primitivas. Tendo por base os Lunda-Ndembus, na região Noroeste da antiga Rodésia do Norte, atual Zâmbia, entre 1950 e 1954, viveu na aldeia e estudou o papel dos ritos, dos símbolos e das metáforas nos dramas sociais. Nesse período, de tempos em tempos, eclodiram conflitos, nos quais Turner identificou um padrão universal:

Primeiro, uma crise irrompia no cotidiano, expondo as tensões existentes; depois, os envolvidos acionavam suas redes de parentela, relações de vizinhança e amizade, e a crise se ampliava; a seguir, surgia a turma do deixa disso, que buscava a conciliação e soluções em rituais coletivos; finalmente, havia um rearranjo e as posições e relações eram redefinidas, ou não se chegava a um acordo e a cisão se tornava inevitável, seguindo a clivagem de parentesco e suas alianças, o que daria origem a uma nova aldeia. Qualquer semelhança com o que também acontece nas religiões e na política não é mera coincidência.

Divulgação falha e parcial de dados entre em choque com discurso de transparência do governo

No mês em que completou um ano de mandato, o presidente Jair Bolsonaro recebeu reprimenda da Transparência Internacional por, segundo estudos da ONG, intervir nos mecanismos de fiscalização do país. O relatório divulgado em 23 de janeiro revelou que a percepção sobre corrupção no Brasil aumentou ao redor do mundo. Entre um dos fatores apontados pelo levantamento está a ingerência governamental nos órgãos de controle, como substituições em chefias da Polícia Federal e da Receita e a nomeação de um Procurador-Geral da República (Augusto Aras) fora da lista tríplice. Além das instituições anticorrupção, o diagnóstico indica que o Governo Bolsonaro segue a esteira de enfraquecimento dos instrumentos federais em prol da transparência, com acúmulo de episódios recentes de falhas ou divulgação parcial de dados.

Nesta sexta-feira, o EL PAÍS publicou uma reportagem em que mostra que o Governo não explica o tamanho real da fila de espera do programa Bolsa Família. O Ministério da Cidadania fala apenas em “uma média nacional” de 494.229 famílias à espera do programa em 2019, mas não disponibiliza os números absolutos mês a mês de entrada e saída de famílias e nem o número de habilitados a receber o benefício, mas que ainda estão sem a bolsa. Cálculos realizados pelo EL PAÍS, com base em dados públicos, estimam que 1,7 milhão de famílias, ou cerca de 5 milhões de pessoas, estariam atualmente aptas a ingressar no programa, ou seja, preenchem todos os critérios para receber o auxílio antimiséria —um valor três vezes maior do que o número divulgado pela pasta.


Desgastado pela repercussão negativa dos problemas no Enem, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do exame, se recusou a recalcular o peso de questões após corrigir o gabarito de 6.000 provas que tiveram erro na gráfica, informou o jornal Folha de S.Paulo. O órgão argumentou que, por se tratar de uma amostra pequena de candidatos afetados, o cálculo não seria alterado por uma nova revisão, mas para fontes ouvidas pelo jornal, isso poderia afetar a entrada de candidatos na universidade. O contratempo motivou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) a apresentar requerimentos para convocar o ministro da Educação, Abraham Weintraub, a prestar esclarecimentos a respeito dos critérios de atribuição das notas.

Segundo o pesquisador Manoel Pires, economista do IBRE/FGV e organizador do Observatório de Política Fiscal, a qualidade e a frequência de informações estatísticas prestadas pelo Governo Federal tem apresentado queda nos últimos três anos. Ele salienta que o ponto de inflexão surge a partir da gestão de Michel Temer, reflexo da crise financeira que passou a afetar a prestação de serviços nos órgãos federais. Porém, a falta de transparência teria se acentuado no Governo Bolsonaro pela combinação de outros dois fatores ao cenário econômico. O primeiro tem a ver com as mudanças de pessoal promovidas pela administração, sobretudo pelo recrutamento de gestores oriundos do setor privado, pouco afeitos às práticas de governança pública. E o segundo, pelo apelo ideológico do Governo, com postura resistente à prestação de contas e a demandas da imprensa.

“Ainda é cedo para avaliar se a redução da transparência pelo Governo Federal será ou não uma tendência, mas, nos últimos anos, uma série de ocorrências nesse sentido tem se tornado cada vez mais comum, em vários órgãos”, afirma Pires. Como exemplo, ele cita os dados sobre gastos públicos, que não são atualizados desde março de 2018 pela Secretaria do Orçamento Federal, e os de carga tributária, que eram anualmente divulgados pela Receita Federal, mas pararam de ser publicados em 2017, tal qual o anuário estatístico da Previdência Social. Para o pesquisador, as informações são fundamentais em discussões em torno de reformas como a tributária e a administrativa, que estão na pauta do Congresso para este ano. “No aspecto doméstico, a falta de transparência dificulta a avaliação das propostas e políticas no debate público. Já do ponto de vista internacional, pode prejudicar alguns pleitos do país, como a intenção de ingressar na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).”

Dados sobre o funcionalismo público ainda não foram destrinchados pelo Governo Federal. Neste mês, o presidente Bolsonaro destacou em seu perfil no Twitter a divulgação em dados abertos dos pagamentos aos servidores aposentados e pensionistas, como parte de um suposto compromisso para “fortalecer a transparência em defesa do interesse público e combate à corrupção”. No entanto, a publicação das informações só aconteceu por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), que julgou procedente uma ação de 2017 protocolada pela agência de dados Fiquem Sabendo. De acordo com a entidade independente, “o atual Governo agiu contra a transparência ao tentar barrar a divulgação dos dados, apresentando recursos que atrasaram a decisão final do TCU”.

Na mesma semana, Bolsonaro reafirmou a pretensão de tornar seu Governo mais transparente, garantindo ter recomendado providências a todos os ministros e que deu mostras nesse sentido ao lançar painéis eletrônicos com informações relacionadas ao pagamento de benefícios do Bolsa Família e do INSS. “Nosso Governo tem o compromisso de apurar e sanar quaisquer irregularidades detectadas ou denunciadas e, acima de tudo, dar transparência às despesas públicas com o intuito de engajar nossa sociedade na fiscalização contínua dos recursos públicos”, disse o presidente.

Comparado a 2018, houve crescimento de 4,5% nas solicitações de dados federais, que podem ser feitas por qualquer cidadão, no primeiro ano de gestão bolsonarista, mas abaixo da média progressiva anual (5,1%) registrada desde a efetivação da Lei de Acesso à Informação (LAI), em 2012. Entretanto, segundo levantamento da Controladoria-Geral da União (CGU), o sistema ainda não é garantia de acesso irrestrito à prestação de contas dos órgãos públicos. Cerca de 8% dos pedidos são negados pelas instituições —a maioria por alegação de dados sigilosos—, enquanto 79% retornam aos solicitantes com atraso e 36% com informações incompletas.
Breiller Pires

Sem vergonha, sem respeito

Quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito
Georg Lichtenberg (1742-1799)

E se um filho de Bolsonaro estivesse lá na China

O coronavírus produz um desses episódios que fazem com que o contribuinte tenha vergonha do serviço público que sustenta. Há na China brasileiros que desejam retornar ao seu país. Coisa de três dezenas de pessoas. O desejo desse grupo é tratado pelas autoridades de Brasília com a sensibilidade de um cubo de gelo.

Num instante em que outros países resgatam seus cidadãos do confinamento chinês, Jair Bolsonaro e sua equipe entoam um lero-lero glacial. A turma oscila entre o desrespeito e a crueldade.

O blá-blá-blá soa desrespeitoso quando Bolsonaro declara não dispor de verba para recambiar poucas dezenas de nativos. "Se você me arranjar recursos e meios a gente começa a providenciar a partir de agora", disse ele, irritado, a um repórter.

O palavrório se torna cruel quando o risco de contágio serve de pretexto para justificar o abandono: "Se lá temos algumas dezenas de vidas, aqui temos 210 milhões de brasileiros.".


Bolsonaro falou sobre o problema como se aguardasse por uma solução caída do céu. Primeiro, empilhou as dificuldades: da falta de aval do Congresso para realizar a despesa até a ausência de lei para impor uma quarentena aos resgatados.

Recordou-se ao presidente que para casos assim, urgentes e relevantes, a Constituição dá ao inquilino do Planalto o poder de editar medidas provisórias.

O capitão não se deu por achado: "Vamos discutir isso daí, porque pode a MP chegar lá e simplesmente alguém julgá-la inconstitucional, numa ação judicial. Vocês sabem que nosso Judiciário é bastante rápido nessas questões."

Infectados pelo descaso do chefe, os ministros ecoaram Bolsonaro. "Não temos voo direto", declarou Henrique Mandetta, da Saúde. "Sai da China e faz conexão. Paris, Frankfurt..." Bolsonaro reforçou: "Temos que negociar essas escalas também".

Puxado por Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo expressou-se como se desejasse confirmar a superstição segundo a qual diplomatas detestam os patrícios que lhes pagam o contracheque:

"A região da China que está mais sujeita [à proliferação do coronavírus] está fechada para qualquer pessoa sair. É preciso negociar com o governo chinês primeiro para que deixe sair os brasileiros, como outros países fizeram. Não é uma coisa óbvia e imediata."

Enquanto o linguajar de Araújo rodopia como parafuso espanado, outros países agem. Na terça-feira, um avião enviado pelos Estados Unidos resgatou 195 americanos na província de Hubei, onde fica a cidade chinesa de Wuhan, epicentro do surto de coronavírus.

Na quarta, o Japão levou embora 206 cidadãos, dos quais cinco tiveram que ser isolados porque tinham febre. Equipavam-se para resgatar seus nacionais na China: Alemanha, França, Coréia do Sul, Marrocos, Cazaquistão, Canadá, Rússia, Holanda, Mianmar, Austrália.

No início da semana, ao retornar da Índia, Bolsonaro já havia sinalizado que trataria com desapreço os nacionais em apuros no oriente. "Pelo que parece, tem uma família na região onde o vírus está atuando. Não seria oportuno retirar de lá, com todo o respeito. É o contrário. Não vamos colocar em risco nós aqui por uma família apenas."

O presidente se referia "apenas" ao drama de um casal brasileiro que amargava um isolamento hospitalar nas Filipinas porque a filha de dez anos apresentava os sintomas do coronavírus. O contágio da garota não se confirmou. Mas o surto de insensibilidade de Bolsonaro dispensa exames laboratoriais.

No ano passado, quando cogitou indicar o filho Eduardo Bolsonaro para o posto de embaixador do Brasil em Washington, o capitão deixou claro que não mede esforços para favorecer seus rebentos. "Pretendo beneficiar filho meu, sim. Pretendo! Se puder dar filé mignon, eu dou."

Cabe perguntar: o que faria Bolsonaro se "apenas" um filho seu estivesse confinado num hospital filipino ou na cidade chinesa de Wuhan? Decerto já teria providenciado o resgate, com jato da Força Aérea Brasileira.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Coronavírus espalha também antigos preconceitos sobre a China e seus hábitos culturais

Na cidade chinesa de Xangai, para onde se mudou a trabalho, o arquiteto Gabriel Kyoshima está cauteloso diante do novo tipo de coronavírus que teve origem no país. Mas há outra coisa o preocupando, e ela vem do Brasil diretamente para seu celular.

"Minha mãe me mandou um vídeo que recebeu em grupos — de pessoas correndo, caindo, parecia vídeo de ataque de zumbi. Nem era na China. A gente está sendo bombardeado de fake news", desabafa Kyoshima, de 30 anos, sobre informações falsas sobre a China e o surto atual de coronavírus.

"É fácil divulgar vídeo da China sem conhecer o país. No mundo é normal isso: o chinês é tratado como uma invasão. Estou muito cansado disso e bravo com esse preconceito", diz o arquiteto, que é descendente de japoneses, à BBC News Brasil.

O relato de Kyoshima se junta a outros pelo mundo de reações preconceituosas contra pessoas associadas à China — seja por sua nacionalidade, ascendência familiar ou aparência física.

Na França, por exemplo, relatos de hostilidades vividas por estas pessoas no transporte público, em escolas e em unidades de saúde estão sendo reunidos pela hashtag #JeNeSuisPasUnVirus (#NãoSouUmVírus).

A Associação de Jovens Chineses na França publicou em suas redes sociais estar recebendo pedidos de ajuda psicológica por vítimas de discriminação desde o surgimento do novo tipo de coronavírus — não só de pessoas de origem chinesa, mas também coreana, cambojana, vietnamita e filipina.

Na Coreia do Sul, mais de 500 mil pessoas assinaram uma petição na plataforma online Blue House (criada pelo governo para receber petições dos cidadãos) exigindo que visitantes chineses sejam impedidos de entrar no país — apesar de restrições a viagens de pessoas de um país inteiro irem contra normas internacionais, o que foi endossado no último dia 27 em comunicado da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmando que a entidade "não recomenda a aplicação de qualquer restrição no tráfico internacional, de acordo com as evidências existentes até agora".


Pesquisadores consultados pela BBC News Brasil apontam que preconceitos, como em relação a comidas consideradas exóticas consumidas na China ou a turistas saudáveis vindos de países asiáticos, podem mascarar problemas concretos e até atrapalhar a tomada de decisões em relação a eles — como uma vigilância sanitária eficiente em mercados que vendem alimentos de origem animal ou a transparência na circulação de passageiros por aeroportos.

"Segundo o Regulamento Sanitário Internacional, nenhum país pode tomar medidas consideradas extremas que não tenham evidências que as sustentem — por exemplo banimento de voos, fechamento de fronteiras. Essa proteção existe para evitar impedimentos ou restrições não justificáveis de viagem e comércio. Lutamos contra isso durante a pandemia de influenza em 2009, que alguns lugares estavam chamando de 'gripe mexicana'", explicou à BBC News Brasil o médico sanitarista e epidemiologista brasileiro Jarbas Barbosa, atualmente diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da OMS.

"Em 2015, havia três países com transmissão de ebola na África — mas outros países estavam inclinados a considerar como caso suspeito qualquer pessoa que vinha do continente africano, mesmo que 5 mil km longe dos locais de transmissão."

"Esse tipo de medida (restritiva) é excessiva, não protege nenhum país de importar casos e, pelo contrário, termina incitando as pessoas a não agirem com transparência — e nem os países que precisam comunicar os dados. Além de ser ética e moralmente desaconselhável, porque induz à xenofobia", diz Barbosa, indicando que em crises como a atual, a atuação nos aeroportos deve ser mais vigilante na saída de passageiros de locais com transmissão (como Wuhan, por exemplo) e, no mundo todo, deve fazer desses locais meios de divulgação de informações sobre sintomas e locais de atendimento.

Para cientistas sociais que vêm estudando especificamente a contaminação de questões de saúde por preconceitos culturais, o episódio do novo coronavírus não é novo: é uma atualização de antigos preconceitos associados à China e à Ásia que já apareceram desde em uma epidemia de peste bubônica no século 19 ao surto mundial da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) no início dos anos 2000.

"A expressão 'perigo amarelo' (usada no Ocidente como designação preconceituosa contra o Leste asiático a partir do século 19) pode parecer datada, mas definitivamente vemos que algumas narrativas tradicionais contra os chineses continuam hoje — em particular na forma com que eles são estimatizados como bodes expiatórios em questões médicas", apontou em entrevista à BBC News Brasil o historiador Sören Urbansky, especialista em Rússia e China do Instituto Alemão de História em Washington, EUA.

"Na situação de agora (do coronavírus), algumas representações na mídia e falas de políticos ou pessoas comuns certamente têm paralelos no passado", diz Urbansky, citando como exemplo um cartum publicado por um jornal dinamarquês em que uma bandeira chinesa é formada por partículas representado o coronavírus.

"O mais preocupante em conteúdos como esse é a xenofobia que podem estimular entre pessoas comuns. Nas redes sociais, você pode encontrar muitas postagens e tuítes com avisos para que não se coma comida chinesa ou pedidos de proibição de viagens."

Urbansky é organizador do livro Yellow perils: China narratives in the contemporary world ("Perigo amarelo: Narrativas sobre a China no mundo contemporâneo", em tradução livre), lançado em 2018, ao lado do antropólogo Franck Billé, da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Na introdução do livro, Billé destaca que há muito a Ásia representa culturalmente "o outro" para os europeus, o que é perpetuado na cultura ocidental também contemporaneamente pela preponderância dos EUA — como em papéis estereotipados nos filmes de Hollywood, cujo poder de influência é global.

Os chineses, por sua vez, foram muitas vezes representantes de estigmatizações relacionadas à Ásia como um todo. Mas, como os estudos da cultura não são uma ciência exata, o autor destaca que os ocidentais não têm "monopólio" dessas discriminações — elas variam de local para local e, inclusive, acontecem dentro das fronteiras da própria Ásia e China.

O livro traz capítulos de diversos autores, entre eles Christos Lynteris, antropólogo da medicina e professor na Universidade St. Andrews, no Reino Unido. Ele estuda especificamente aspectos sociais de epidemias e escreveu um capítulo sobre como, ao longo da história, surtos e doenças contribuíram para a estigmatização dos chineses.

"O surto do novo coronavírus trouxe de volta à tona a sinofobia (xenofobia contra a China) em formas veladas ou abertas. A mais nociva, talvez, como no caso anterior de Sars, seja o ódio digital e a difamação dos hábitos alimentares dos chineses", escreveu Lynteris à BBC News Brasil por email.

Um símbolo disso, diz o antropólogo, são os chamados wet markets ("mercados molhados"), usualmente caracterizados por vender animais vivos e abatidos no local — "um termo que não ajuda, porque abrange vários tipos de mercados", explica o antropólogo.

No início de janeiro, a própria China informou à OMS que os primeiros casos de coronavírus podiam ter ligação com um mercado de frutos do mar na cidade de Wuhan.

Lynteris critica o habitual retrato desses variados mercados na mídia ocidental, com imagens "destinadas a chocar o público" de animais apresentados como exóticos; que misturam capturas de diferentes mercados ao redor da China apesar das diferenças locais e culturais; e que excluem "a maior parte das atividades desses mercados, que seriam absolutamente familiares (aos ocidentais)".

"Essa é uma forma sutil, mas perniciosa, através da qual até a mídia mais esclarecida estimula a sinofobia: retratando os hábitos chineses de alimentação e consumo como em descompasso com a modernidade; como resquícios irracionais, nojentos e patogênicos de um passado obscuro", afirma, apontando que essa estigmatização contribui para uma pressão internacional pelo banimento desses mercados.

"O que é preciso é uma regulação melhor, mais intensa e baseada em evidências desses mercados, e não levá-los para a ilegalidade", diz.

O consumo de animais como cachorros, cobras e ratos atende a diferentes habitos culturais locais na China e podem ter finalidades tanto alimentícias quanto místicas. Estudiosos, porém, são cautelosos quanto ao alcance deste tipo de alimentação no país.

Nas redes sociais, inclusive no Brasil, circularam fotos e vídeos do que seriam sopas de morcegos consumidas em Wuhan — apontadas, nos boatos, como possível origem do novo coronavírus. Checagens profissionais posteriores mostraram, por exemplo, que uma dessas imagens era antiga e feita em outro país; tampouco foi encontrada comprovação de que alguma das imagens de sopa de morcego fosse verdadeira.

Inclusive, nada menos do que 35 cientistas, a maioria da China, publicaram nesta semana um artigo no Lancet, um dos periódicos de medicina mais importantes do mundo. No trabalho, eles frisam que não havia venda ou presença de morcegos no mercado de Huanan.

Estes animais entram, sim, na hipótese dos acadêmicos para a origem do coronavírus — comparando a sequência genética do vírus encontrado em humanos com uma "biblioteca" de vírus já sequenciados, os cientistas encontraram compatibilidade de 88% com coronavírus encontrados em morcegos.

No entanto, estes seriam hospedeiros do vírus, por sua vez possivelmente transmitido por algum outro animal ainda indeterminado e vendido no mercado de Wuhan.

Sobre a época do surto de Sars, Lynteris e Sören citam relatos de queda no comércio de imigrantes chineses em metrópoles ocidentais, como em Toronto, no Canadá (o país teve o maior número de casos fora da Ásia, com mais de 40 mortes).

Também houve casos de consumidores chineses saudáveis sendo impedidos de comprar ou se hospedar em acomodações pelo mundo; ou ainda a ilustração de reportagens sobre a síndrome com uma enxurrada de fotos de Chinatowns (bairros com muitos imigrantes chineses) e pessoas com traços asiáticos, ainda que estas não tivessem infecções.

A síndrome surgiu em 2002 na Província chinesa de Guangdong, ficando por meses desconhecida da comunidade internacional, o que motiva críticas à transparência do governo chinês até hoje. Com ápice em 2003, ela chegou a mais de 26 países e matou quase 800 pessoas ao redor do mundo.

Lynteris destaca que questões de saúde recentes como essa vão ao encontro de uma noção de crescimento, populacional e econômico, descontrolado da China. Outros estudos no livro Yellow perils: China narratives in the contemporary world apontam para uma "ansiedade" quanto ao poder da China, perceptível também na recorrência de palavras como "ameaça" em publicações científicas e leigas.

Mas, no passado, doenças e infecções eram associadas a uma outra imagem da China: a de decadência, aponta Lynteris.

No fim do século 19, uma terceira epidemia de peste bubônica teve início em Hong Kong (quando era parte do Império Britânico; hoje, ela é uma Região Administrativa Especial da China).

De acordo com o antropólogo, uma extensa bibliografia já mostrou como, nesse período, publicações da imprensa e relatos de médicos britânicos contribuíram para associar a doença às casas e aglomerações chinesas — inclusive em comunidades de imigrantes no exterior.

Somaram-se a isso pressões internas e externas contra a última dinastia imperial da China, a era Qing, vista por médicos coloniais como resistente à vacinação e associada a uma ideia de decadência da civilização chinesa e sua suposta resistência a se adaptar à modernidade.

Nas Chinatowns dos EUA, por exemplo, além de serem encarados pelos americanos como competidores em negócios e postos de trabalho, os imigrantes asiáticos passaram a ser relacionados a doenças.

"Estudo a história de várias comunidades da diáspora chinesa no Pacífico. Na virada do século 20, os imigrantes chineses eram vistos como mais perigosos do que outros grupos de imigrantes — não apenas na Califórnia, mas também em lugares como o Extremo Oriente russo", aponta Sören.

"Por exemplo, quando um surto (de peste bubônica) eclodiu em São Francisco em 1900, apenas os chineses foram colocados em quarentena. Naquela época, era bastante normal descrever os migrantes chineses como uma ameaça à segurança física da maioria (branca) da população."

"O que as pessoas daquela época ignoravam completamente eram vários fatores estruturais que eram as principais causas da miséria: os residentes chineses eram forçados a viver em certos guetos étnicos que muitas vezes eram negligenciados pelas autoridades."

"Penso que o perigo hoje é que as pessoas também tendem a ignorar problemas estruturais que certamente são diferentes daqueles do passado e, ao negligenciá-los, estigmatizam completamente o povo chinês."

Brasil na rua


O triunfo da barbárie

O Brasil continua a ser, provavelmente, o país que mais lincha no mundo. É que temos fatores diferenciais para que aqui o linchamento tenha se tornado uma modalidade cotidiana de violência coletiva. Em outros países, em que ele ocorre de modo intermitente, existem circunstâncias não cotidianas, que o favorecem, como as de situação de guerra e de conflito político.

Há cinco anos, no Brasil, havia um linchamento ou tentativa de linchamento por dia. Hoje, são cerca de dois, em média. Uma área mais ampla do território nacional foi incluída na geografia do justiçamento. Linchamos, aliás, desde o século XVI.

Que a violência coletiva persista depois de cinco séculos, indica que é desencadeada pelo modo como está organizada a sociedade brasileira e que, nestes cinco séculos, o país não conseguiu dar passos decisivos em direção à civilização.


Criamos uma sociedade sociologicamente superficial, determinada por deficiências crônicas, decorrentes da sobrevivência de referências de conduta de quando apenas ensaiávamos o que seria a sociedade brasileira que nascia. Uma carta do padre Manuel da Nóbrega, do século XVI, nos dá preciosas indicações nesse sentido.

Linchamento não inclui o indevidamente chamado “linchamento moral”. O verdadeiro linchamento incide fisicamente sobre o corpo da vítima. Nos casos brasileiros, implicitamente e subjacente a essas ocorrências, há um “protocolo” de procedimentos, uma gradação da violência praticada, que vai da perseguição, do apedrejamento e do espancamento até a mutilação e a queima da vítima ainda viva.

Os extremos e os momentos desse “protocolo” são a referência para cálculo do índice de crueldade de cada ocorrência. É, portanto, possível medir a intensidade do ódio que move a multidão na execução do destinatário da fúria, seja ele culpado ou inocente.

E, nesse sentido, ao longo do tempo ou no recorte de um período determinado, por esse meio, pode-se avaliar não só o agravamento do problema em si, mas, sobretudo, a intensificação da crise social de que é indício.

Os linchamentos daqui são o termômetro da desorganização social que se expressa no estado de anomia. O da transformação social patológica que não gera as correspondentes regras de conduta social que lhe deem sentido.

Continuamos mergulhados nessa situação crítica e nada indica que os governantes estão dotados da lucidez civilizada necessária àquilo que é próprio da governação. Ao contrário, presidente, ministros e acólitos enviam reiterados sinais à sociedade em favor do conflito e da violência e de explícitas medidas em favor da anomização crescente do país.

É uma técnica de dominação política. Mesmo que estimular os linchamentos não seja intenção confessa de quem governa, a indução de uma suposta legitimação da exclusão social dos diferentes e dos que estão à margem da vida social e política incita à prática do justiçamento como apropriada decorrência de uma concepção fascista de ordem política.

O retorno ao tema decorre das novas evidências de mudanças tanto na geografia dessa violência de contrapartida, a vingança coletiva, quanto nas características das vítimas da violência original que motiva o justiçamento. Há 30 anos, os linchamentos estavam concentrados em São Paulo, na Bahia e no Rio de Janeiro, nas próprias áreas metropolitanas das capitais.

Aos poucos as ocorrências foram se deslocando em direção ao Centro-oeste e ao Norte e aos municípios interioranos. Nos últimos meses, tornaram-se mais evidentes e mais violentos no Amazonas, embora continuem a ocorrer no país inteiro.

Em três casos ocorridos nesse Estado, as vítimas estavam presas, foram tiradas da cadeia pela turba enfurecida, em dois casos foram mortas e mutiladas e queimadas, a multidão gritando ao redor da pira sacrificial. A vítima sobrevivente era uma mulher grávida, que incendiara a casa de uma rival, em consequência do que morreu um menino de dois anos.

Nos outros dois casos, de um jovem de 18 anos e de um homem de 28 anos, o motivo foi estupro e assassinato de criança. Num dos casos, o estuprador era filho de pastor evangélico e namorado de sua vítima. No outro, escondeu a morta sob a cama e ali foi o corpo descoberto pela companheira do criminoso. Portanto, pessoas à margem de relações sociais estáveis.

O ódio nos linchamentos é expressão de medo e de covardia. São de preferência praticados à noite, para evitar o reconhecimento dos participantes.
José de Souza Martins


Os participantes sabem que estão violando a lei e a concepção de punição restitutiva, a que permite a reintegração do criminoso na sociedade. O justiçamento sumário objetiva impedir que isso aconteça. É decretação da morte física, mas também da morte social do linchado.


*José de Souza Martins

Multidão à margem

Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.

Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.

Carolina Maria de Jesus


Mercados se tornam parceiros de governo obscurantista

A existência de um mercado forte no Brasil sempre funcionou como uma barreira de contenção a governantes com parafusos a menos. Ou por outra: “Não fale e não faça besteira, ou os indicadores econômicos degringolam, as expectativas se deterioram, o pessimismo aumenta, e tudo se complica”.

É assim, mais marcadamente, desde a redemocratização. A rigor, os estertores do regime militar já traziam os indicadores de mercado a dizer: “Acabou o ciclo; hora de voltar para a casa e deixar que a sociedade se vire”. Em síntese: os mercados atuavam como agentes civilizadores da política.

Ainda que o capital, por si, seja amoral e não olhe a cor dos gatos desde que cacem ratos, o fato é que, há muitos anos, no Brasil, os mercados resolveram apreciar a democracia. Se seus valores são referendados pelas forças políticas influentes, sobe o preço dos ativos; se o contrário, então o contrário. Há muitos anos não é bom negócio especular contra direitos fundamentais e valores civilizatórios.


Um fenômeno, no entanto, se dá com o governo de Jair Bolsonaro — a rigor, manifestou-se já desde a sua candidatura — que consiste num completo descolamento entre a política e a economia. Uma hora, é claro, isso acaba. E muita gente pode ser surpreendida pelo estouro da bolha. Por enquanto, não há sinais de que vá acontecer.

Os indicadores de mercado deixaram de servir de advertência contra destrambelhamentos do chefe. Não importa o número de besteiras que façam o mandatário e seus comandados, o otimismo resiste, como a dizer: “Ah, isso tudo é só política! Danem-se! Não temos nada com isso”.

Conversem com um desses agentes de mercado e peçam que citem, deixem-me ver, três fatores objetivos que justifiquem o otimismo. E vocês vão constatar que as pessoas não têm o que dizer a não ser repetir um elenco de promessas ainda eleitorais, na certeza de que Paulo Guedes vai realizar um milagre — afinal, fingem ser ele o presidente da República, não Jair Bolsonaro.

Deve haver nisso elementos de psicologia social. Esses tais mercados não queriam o PT de jeito nenhum — embora não conseguissem, do seu exclusivo ponto de vista, explicar por que não, já que ganharam dinheiro como nunca na era petista. Os demais candidatos identificados com teses de mercado não emplacaram — Geraldo Alckmin em particular.

E aí sobrou o candidato exótico, com sua impressionante capacidade de dizer asneiras sobre todos os assuntos — e isso incluía os mercados. Ocorre que Paulo Guedes entrava na equação: o candidato, de verdade, para aquele público em particular, seria ele, Guedes, não aquele adulto infantilizado e truculento que fazia arminha com as mãos...

E foi assim que os mercados aprenderam a não dar bola para Bolsonaro e, de modo mais amplo, para a política. Por óbvio, isso só torna mais agudos os nossos problemas e nos conduz ao atraso com mais determinação. Sim, uma hora a bolha estoura. Mas esse é só o contratempo de curto prazo. Há os prejuízos de longo prazo, para os quais Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, chamou a atenção na quarta (29), durante um seminário sobre economia.

Tivessem os tais mercados reagido às coisas estúpidas que já fez o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, por exemplo, e ele já estaria cuidando de seus assuntos privados, e o país certamente estaria recebendo um fluxo maior de investimentos estrangeiros. Guedes sentiu em Davos o peso da repulsa à política ambiental. Bolsonaro teve de tirar da cartola, da noite para o dia, um conselho para tratar da Amazônia e a Força Nacional Ambiental.

A pressão veio de fora. Os nossos caramurus não estavam nem aí. Se o presidente cismar em derrubar metade da Amazônia, o negócio é comprar papeis de alguma madeireira...

É essa alienação da realidade que permite que um Abraham Weintraub continue a produzir atraso histórico a cada hora que permanece à frente do Ministério da Educação, multiplicando ignorância e incompetência. No longo prazo, é um desastre. No curto, rende alguns memes nas redes sociais e ponto.

Os mercados se tornaram parceiros do obscurantismo. Até quando?

A democracia não é mais aquela

Tem muita gente festejando o resultado da pesquisa da Universidade de Cambridge que mostra descontentamento crescente com a democracia em todo o mundo. Segundo a pesquisa, 58% das pessoas entrevistadas em 154 países estão insatisfeitas com este sistema de governo. No Brasil, apenas 20% das pessoas ouvidas aprovam o regime democrático. Os que comemoram este péssimo resultado são aqueles que acreditam que um regime totalitário pode ser mais útil ao país, acreditando que um governo de força acabaria com a corrupção e a violência, entre outros problemas.

A História prova que eles estão enganados, e a pesquisa revela as limitações dos que pensam assim, não importando de que ângulo enxergam o cenário. No Brasil, cidadãos de orientação política de direita estão da mesma forma equivocados sobre a democracia quanto os de esquerda. Aqueles bolsonaristas que aplaudem de modo entusiasmado tanto os acertos do governo quanto seus erros grosseiros e antidemocráticos imaginam que um regime totalitário salvaria o Brasil. Da mesma forma, há lulopetistas que prefeririam um governo centralizador, sem o contraditório, sobretudo sem imprensa, como imaginou um dia José Dirceu.

Supor que um governo não democrático acabaria com a corrupção é o mesmo que acreditar que há democracia na Venezuela e que os generais de Maduro não são os mais corruptos da América Latina. Pensar que um regime fechado terminaria com a violência é tão absurdo quanto ignorar o poder global da máfia russa, a mais cruel e sanguinária do mundo.


A pesquisa mostra que as pessoas não confiam em regimes democráticos em razão dos sucessivos escândalos de corrupção e nepotismo que produziram, sobretudo na América Latina, pela sua incapacidade em lidar com a criminalidade e por se revelarem inúmeras vezes incompetentes na busca de soluções para crises econômicas. O problema não é apenas enxergar a democracia por esta ótica. Mais grave é imaginar que há solução mágica fora dela. No Brasil, por exemplo, a pesquisa demonstra que 37% dos entrevistados acreditam que um golpe militar resolveria os problemas de corrupção e seria capaz de reduzir os índices da violência urbana.

Rematada bobagem. Nostalgia da ditadura brasileira revela não apenas desconhecimento histórico, mas também ignorância antropológica, por ser impossível comparar qualquer dado dos anos 60 e 70 com seus similares de hoje. Para começar, o Brasil de 1970, por exemplo, tinha 93 milhões de habitantes, sendo que 42% viviam na zona rural. Hoje, o Brasil tem 215 milhões, e 85% habitam as cidades. São obviamente dois países distintos. Mesmo os que acreditaram cegamente no regime militar daqueles anos não conseguiriam explicar de que forma ele se cristalizaria em 2020.

No mundo, segundo a pesquisa da Universidade de Cambridge, o desencanto com a democracia cresceu exponencialmente na última década em razão da crise econômica de 2008, por causa da insolúvel crise dos refugiados, em razão da polarização política e pela falta de respostas dos governos em atender questões sociais urgentes. Claro que o regime de governo não é o culpado por estes problemas, mas os entrevistados não pensam assim.

Somam 2,4 bilhões as populações dos países ouvidos na pesquisa. China e Cuba obviamente não foram consultados. Da mesma forma que há quem apoie uma ditadura militar, há também quem defenda o modelo de meritocracia do Partido Comunista chinês, onde os melhores ascendem na burocracia chinesa depois de serem testados em várias instâncias administrativas. Outros acham perfeito o regime cubano, onde escolas e hospitais funcionam melhor que no Brasil e o acesso é universal. Tudo bem, mas tente discordar de uma decisão de um chefe de quarteirão em Havana. E vai ver como funciona o mercado popular de Wuhan.

É hora de solidariedade com a China, não de racismo

Um passageiro chinês começou a tossir a bordo de um voo da Lufthansa de Frankfurt para a China, criando a maior confusão ao seu redor, nesta quarta-feira (29/01). A situação não melhorou nada depois de ele declarar que, duas semanas antes, estivera em Wuhan, a metrópole que é o epicentro do surto de coronavírus e que foi isolada pelas autoridades locais.

A confusão chegou até a cabine. O capitão, porém, permaneceu calmo e seguiu viagem, pousando sem problemas no seu destino. A tripulação e os passageiros das poltronas perto do chinês foram logo examinados. Horas depois veio o alívio: ninguém estava infectado pelo coronavírus.

A rápida propagação desse vírus potencialmente letal deixa gente de todo o mundo insegura. E a ampla cobertura da mídia sensibilizou para o problema. Só que muitas vezes a distância entre sensibilização e reação exagerada pode ser curta: asiáticos tossindo logo viram alvo de olhares ameaçadores, como se todos fossem portadores do perigoso coronavírus 2019-nCov. Em Hamburgo, um deles foi alvo de insultos racistas.

"Ih, você está com o vírus da China?" é uma pergunta comum nestes dias. Basta um nariz escorrendo. A expressão "vírus da China" joga a culpa sobre quem é vítima: a China é o país que mais sofre com o surto e está fazendo um enorme esforço, com uma transparência única, para quebrar a onda de infecções.


Na China, evita-se usar a expressão "vírus de Wuhan" pois estigmatiza toda uma cidade. Não são os moradores de Wuhan que transmitem a doença ou espalham o pânico, mas o vírus, que poderia ter surgido em qualquer lugar do planeta.

Em Wuhan, onde as autoridades aconselham os residentes a não saírem de casa, milhões dão prova de disciplina e sacrificam sua liberdade de ir e vir para que a doença não se espalhe ainda mais. Vídeos mostram moradores de um bairro que se comunicam por megafones em vez de se encontrarem.

A melhor proteção contra uma infecção é lavar as mãos com frequência, é sobretudo assim que se minimiza o risco. Segurança total não existe, muito menos num mundo tão globalizado, em que não só pessoas e produtos, mas também agentes patogênicos, viajam ao redor do planeta em poucas horas.

Afastar-se de indivíduos de aparência asiática não oferece nenhuma proteção adicional. O coronavírus não precisa de visto para entrar num país e não escolhe suas vítimas pelo tamanho do nariz ou formato dos olhos.

Neste momento, a palavra de ordem é solidariedade. Enquanto não se souber exatamente onde o vírus surgiu, de nada servem acusações de culpa, pânico e muito menos comentários racistas sobre supostos hábitos de alimentação e higiene dos chineses.

Pelo que se sabe até agora, o coronavírus não é mais perigoso do que, por exemplo, as ondas de gripe que atingem a Alemanha todos os anos. Vamos, portanto, superar as barreiras emocionais e analisar a situação de forma serena e racional, para chegar a recomendações de ação sensatas.

Em chinês, afinal, a Alemanha se chama De Guo: Terra da Moral.

Dang Yuan

Pensamento do Dia