quarta-feira, 10 de abril de 2019

Banco Mundial pede à América Latina que fortaleça redes de proteção social contra a crise

Em “tempos desafiadores” para a economia latino-americana, os países da região devem prestar especial atenção aos mais pobres. É imprescindível que os Governos impulsionem planos de proteção social que moderem o impacto da desaceleração dos indicadores e permitam manter no futuro o terreno ganho na luta contra a pobreza durante os períodos de bonança. Estas são as conclusões do último relatório semestral regional do Banco Mundial, intitulado Como o Ciclo Econômico Afeta os Indicadores Sociais na América Latina e Caribe? – Quando os Sonhos Enfrentam a Realidade, que foi apresentado no final da semana passada.

O cenário econômico não é alentador para a América Latina, e o desafio da pobreza aumenta, segundo o Banco Mundial. “As expectativas iniciais de crescimento em 2018 não foram cumpridas, e as projeções para 2019 se deterioraram. A região cresceu 0,7% em 2018. As principais razões para esse fraco crescimento em 2018 são uma contração de 2,5% na Argentina, a lenta recuperação do Brasil logo depois da recessão de 2015 e 2016, o crescimento anêmico do México devido à incerteza política e o colapso da economia venezuelana”, diz o Banco Mundial, alertando que “o escasso crescimento econômico está tendo um impacto previsível nos indicadores sociais”. Deixando de lado a Venezuela, o caso mais dramático foi o do Brasil, que “experimentou um aumento da pobreza monetária de aproximadamente três pontos percentuais entre 2014 e 2017”. O dado brasileiro é especialmente relevante porque o país representa um terço da população da região.


A pobreza, portanto, precisa estar na agenda política e econômica dos Governos, onde os planos de contenção não abundam. “Os programas sociais que ajudam a absorver o impacto das crises econômicas são comuns nos países desenvolvidos, mas não estão suficientemente difundidos nesta parte do mundo”, disse Carlos Végh, economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe. “Esta é uma agenda social pendente na região para assegurar que aqueles que recentemente escaparam da pobreza não deem nenhum passo atrás”, acrescenta.

Végh se refere aos milhões de latino-americanos que saíram da pobreza durante a chamada Década de Ouro das matérias primas (2003-2013), uma etapa onde os indicadores sociais melhoraram notavelmente. A pobreza monetária, medida sobre a base de uma renda de até 5,50 dólares (21,30 reais) por dia por pessoa, passou de 42,2% em 2003 para 23,4% em 2014. A pergunta do Banco Mundial agora é: “Que proporção da queda foi permanente, e que proporção foi transitória?” “A importância relativa da redução permanente frente à redução temporária da pobreza tem implicações cruciais para medir a verdadeira magnitude da redução na pobreza e quão duradoura será, e as políticas públicas que podem ser implementadas para obter reduções permanentes na pobreza ao invés de temporárias”, afirma o relatório.

O Banco Mundial dedica especial atenção à necessidade de medições comparáveis para que haja um combate sério à pobreza. Os analistas que comemoraram as reduções da pobreza durante as fases econômicas expansivas “obteriam conclusões muito diferentes se avaliassem a mudança da pobreza durante um ciclo econômico completo (ou seja, auge e recessão)”, diz o relatório. “A importância do componente cíclico nos indicadores sociais se magnifica no caso dos mercados emergentes sujeitos a grandes choques externos. Todos estes choques são de natureza cíclica, por isso tenderão a amplificar os ciclos econômicos dos mercados emergentes e, por sua vez, os componentes transitórios dos indicadores sociais”, acrescenta o Banco Mundial. Por isso, insiste em que são necessárias políticas distributivas de fôlego prolongado. O Banco reconhece, contudo, que durante a Década de Ouro a América Latina avançou muito nesse sentido.

Os Governos de esquerda que dominaram a política regional impulsionaram programas de ajuda que agora conseguiram moderar o impacto da crise. O mais notável foi o programa Bolsa Família no Brasil, que condicionou a ajuda ao cumprimento de certos critérios de saúde e educação que ficaram nas mãos dos beneficiários. Entretanto, o exemplo não se estende a toda a região.

“Em tempos desafiadores para a economia, é mais importante que nunca que os países façam as reformas necessárias para impulsionar um crescimento sustentável e inclusivo. Não podemos dar como consumadas as conquistas recentes na redução da pobreza e devemos redobrar os esforços para consolidá-los e aproveitá-los”, disse Axel van Trotsenburg, vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe. Trata-se, em todo caso, de que em tempos de bonança os países possam “controlar de alguma forma os efeitos cíclicos sobre a pobreza antes de comemorar qualquer feito como permanente”. O desafio se torna especialmente complexo quando a tempestade aumenta.

Paisagem brasileira


Os ideólogos venceram

Uma leitura apressada pode nos induzir ao erro de considerar a nomeação do novo ministro da Educação, o economista Abraham Weintraub, como uma troca de seis por meia dúzia. Se o seu antecessor Ricardo Vélez oscilava entre pragmáticos e ideológicos conforme os ventos sopravam, o novo titular da pasta é um puro-sangue. Ascendeu ao cargo porque o presidente arbitrou a briga visceral no MEC em favor dos ideológicos.

O ministro Weintraub é bem mais do que um Vélez não-caricato. Tem alma olavista e foi bancado pelo que há de mais ideológico no clã dos Bolsonaro, o filho Eduardo. Ao lado do seu irmão, Arthur Weintraub, foi um dos primeiros a embarcar na nau bolsonarista, quando muitos não acreditavam na vitória. Assume o MEC com uma prioridade muito bem definida: levar adiante a guerra cultural contra o marxismo, que na visão do próprio presidente é a mãe de todos os males da Educação.



Se dúvidas ainda haviam, o ministro se encarregou de dirimi-las ao dizer que trabalhará conectado “às convicções do governo Bolsonaro, que tem uma ideologia clara”. É também profundamente esclarecedor o vídeo da palestra dos irmãos Abraham e Arthur Weintraub na Cúpula Conservadora das Américas, realizada em dezembro do ano passado, na qual o hoje ministro diz que é preciso vencer o marxismo cultural a partir dos ensinamentos de Olavo de Carvalho, levando a guerra às universidades.

Durante a palestra, seu irmão cospe toda vez que fala a palavra USP, num desrespeito àquela que é considerada internacionalmente como a melhor instituição do ensino superior do país.
O problema do MEC deixa de ser a falta de um norte e passa ser a existência de um eixo que aprofundará o desastre educacional. As universidades serão tratadas como bunkers da esquerda, inteiramente contaminados pelo “vírus do comunismo”, para usar uma expressão do novo ministro. Os professores, em vez de parceiros, serão estigmatizados sob a suspeita de serem agentes propagadores do “gramscismo cultural”.

Com isso, há o risco de o ensino básico ficar em segundo plano, pois a missão recebida pelo novo ministro, diretamente do presidente, foi a de dobrar a aposta no enfrentamento dos “problemas morais e ideológicos da Educação”. No radar da guerra ideológica entram a Base Nacional Curricular Comum, que pode passar. A fazer parte da nova redefinição para adaptá-la à “ideologia clara” do governo, e o Conselho Nacional de Educação, este sob a suspeita de ser um antro do marxismo cultural. Na mesma mira estarão os livros didáticos e a prova do Enem, objetos de críticas constantes do núcleo duro do bolsonarismo.

Bolsonaro desequilibrou a balança em favor dos ideológicos, impondo a mais drástica derrota do grupo dos militares nesse início de governo. Se a correlação de forças permitir eles serão expurgados do MEC, inclusive o secretário-executivo, o tenente-brigadeiro Ricardo Machado Vieira. Se satisfaz à sua ala anti-establishment, capitaneada pelo triunvirato Olavo de Carvalho, Filipe Martins e Eduardo Bolsonaro, o presidente cria novos contenciosos, compra briga com quem não devia. Espanta possíveis aliados que poderiam vitaminar sua base aliada no Congresso, mas não o fazem por aversão à agenda ideológica.

A opção pela guerra cultural é uma resposta enviesada e equivocada aos exageros cometidos nos governos lulopetistas. O fato é que a alternativa ao direcionamento de esquerda não deveria ser o “direita volver”.

Ambos são nefastos à Educação. E suas vítimas serão milhões de alunos espalhados Brasil afora.

Arrogância

Não é verdade? Um meneio com a cabeça, um passo para a esquerda ou para a direita e passamos de pessoas sábias, decentes e leais a todos arrogantes
Paul Harding, "A restauração das horas"

Cem dias jogados no lixo

E no centésimo dia do seu governo, por mais que possa dizer o contrário, o presidente Jair Bolsonaro pouco tem a comemorar.

Se até aqui há algo de original neste governo é o fato de que dispensa oposição. Ele detém o monopólio da oposição.

A oposição conhecida como tal ainda padece da surra que levou nas eleições do ano passado e se ocupa em lamber suas feridas.

O espaço reservado a ela por enquanto foi totalmente ocupado pelo governo. Ele é seu principal adversário. E à sua cabeça, Bolsonaro.


O ex-presidente Fernando Henrique notabilizou-se por desinflar as crises que batiam à porta do seu gabinete. Lula, também.

A exemplo de Dilma Rousseff, mas talvez muito mais do que ela, Bolsonaro faz justamente o contrário. Infla as crises. Ele é a crise.

Dois ministros foram decapitados, quatro secretários-gerais de ministérios e dois presidentes da Agência de Promoção das Exportações.

O novo ministro da Educação tomou posse dizendo que governará para todos. Em seguida, disse que demitirá quem pisar fora da linha.

Saiu da Educação um discípulo do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, o guru do clã Bolsonaro. Entrou outro.

Segue o governo dividido em três grupos: o dos militares, o ideológico de extrema direita, e o dos técnicos.

Os militares tentam apagar os incêndios provocados pelo capitão e sua turma ideologizada que nega ser ideológica.

Os técnicos tentam trabalhar – e à falta de um projeto verdadeiramente de governo, orientam-se pelo próprio faro.

A política externa foi entregue aos cuidados de um ministro que não se envergonha de dizer que é trumpista. É também incompetente.

O presidente da República mais viaja do que governa e dá a impressão de que trabalha pouco, e sem gosto.

O Congresso aprovará a reforma da Previdência. Mas não a reforma dos sonhos do ministro Paulo Guedes. Longe disso.

A maioria dos políticos pensa assim: se Bolsonaro os trata mal quando mais precisa deles, imagine depois se deixar de precisar?

Portanto, nada de lhe dar o que pede. Bolsonaro deve ser alimentado com pouca coisa e mantido sob rédea curta.

Se a receita serve para a reforma, servirá também para o pacote de medidas contra o crime do ministro Sérgio Moro, da Justiça.
A má vontade com o que Moro pede será maior porque Moro é Moro. Ninguém mais do que ele demonizou a política.

A não ser que mude de ideia, Bolsonaro celebrará seus 100 dias de governo com o anúncio do 13º salário para o Bolsa Família.

Para quem diz que programas sociais não tiram ninguém da miséria, o anúncio só prova que Bolsonaro não sabe o que fala.

Quartel não tem algemas

O general Leônidas Pires Gonçalves comandou o Exército de 1985 a 1990. Foi um daqueles chefes militares que viram de tudo. Em 1945, estava na cena da deposição de Getúlio Vargas. Em 1961, na escuta dos telefonemas de João Goulart durante a crise da renúncia de Jânio Quadros. Em 1964, viu quando o general Costa e Silva começou a emparedar o marechal Castelo Branco. Em 1984, foi um dos generais que garantiram a eleição de Tancredo Neves. Como ministro do Exército de José Sarney, manteve a disciplina na tropa, inclusive quando enquadrou o jovem capitão Jair Bolsonaro, que emergia como uma espécie de liderança sindical militar.

Leônidas ensinava: “Quartel não tem algemas”.

Ele era o ministro do Exército em 1988, quando mandou uma tropa para desocupar a usina de Volta Redonda, ocupada por grevistas, e morreram três operários. Passaram-se 31 anos, e uma patrulha do Exército disparou 80 tiros contra o carro que conduzia uma família e matou o motorista.


“Quartel não tem algemas”, os soldados não são profissionais treinados para operações policiais, e quando acontece uma dessas tragédias, quem vai para a frigideira são recrutas, um sargento ou, no máximo, um jovem oficial. Em menos de 24 horas, o comando do Exército prendeu dez militares envolvidos na fuzilaria do Rio. A informação inicial, falsa, de que a patrulha respondeu a “injusta agressão”, foi substituída pelo “compromisso com a transparência”.

Há épocas em que as eternas vivandeiras pedem aos militares que façam isso ou aquilo. A ideia de botar a tropa nas ruas do Rio podia parecer “golpe de mestre”, mas é apenas a criação de novos problemas. Passa o tempo, as vivandeiras vestem as camisetas da ocasião e mandam a conta para os quartéis.

Jair Bolsonaro entrou no Palácio do Planalto com um discurso popular de defesa da lei e da ordem, confundindo-se com as Forças Armadas. Há dias o presidente disse que “nasci para ser militar”. Só ele pode falar da própria vocação mas, de cadete a capitão, foi militar durante 14 de seus 64 anos de vida e deixou a carreira marcado por 15 dias de prisão por indisciplina. Daí em diante, Bolsonaro foi parlamentar por 29 anos. Parece mais precisa a avaliação de seu vice, Hamilton Mourão, para quem ele é “mais político do que militar”.

O general Mourão formulou uma perigosa profecia: “Se nosso governo falhar, errar demais, não entregar o que está prometendo, essa conta irá para as Forças Armadas, daí a nossa extrema preocupação.”

Isso não deve acontecer. Primeiro, porque as Forças Armadas não são o governo. Há cerca de cem militares na nova administração, mas quase todos estão na reserva, inclusive Mourão. Apesar de poucas manifestações impróprias durante a campanha eleitoral, nos quartéis prevaleceram a disciplina e o silêncio. Três dos quatro comandantes do Exército deste século não disseram uma única palavra. Ganha um fim de semana em Caracas a vivandeira que lembrar os nomes desses generais.

Nenhuma conta pode ir para as Forças Armadas, a menos que se trapaceie o jogo, coisa que ocorreu no ocaso da ditadura, quando o andar de cima vestiu camisetas amarelas, foi para a campanha das Diretas e jogou o entulho do regime na porta dos quartéis.

Quem namora a ideia da expansão das atribuições dos militares sonha com impasses, talvez um conflito com o Congresso. Nesse sonho, “se o governo falhar”, as Forças Armadas ficariam com a conta. A conta será do governo. Os militares, calados, estão na mesa ao lado.

Brasil acima de tudo


Flerte de Bolsonaro com a reeleição é aberração

Jair Bolsonaro precisa socorrer Jair Bolsonaro. Num instante em que ostenta a pior avaliação já atribuída a um presidente em início de mandato desde a redemocratização, o capitão decidiu atravessar no seu próprio caminho uma nova pedra. Essa pedra se chama reeleição. "A pressão está muito grande para que, se eu estiver bem, que me candidate à reeleição", disse Bolsonaro em entrevista ao repórter Augusto Nunes.

Na recentíssima campanha eleitoral, Bolsonaro jurou que não disputaria um segundo mandato. Agora, reafirma que a reeleição tem sido "péssima" para o país, pois os governantes "se endividam, fazem barbaridade, dão cambalhota" para se reeleger. Mas Bolsonaro já não cogita pegar em lanças pelo fim da reeleição. Alega que não cabe a ele, mas ao Congresso promover uma reforma que apague a reeleição do ordenamento jurídico.



Bolsonaro levou o debate sobre a reeleição para o pântano das ambiguidades, o habitat preferido de certos políticos. Nesse pântano, o capitão executa uma coreografia enfadonha. Ele parece ser e não ser ao mesmo tempo. Afirma que se pensasse em reeleição faria uma reforma previdenciária "light". Mas realça que "está muito grande" a pressão para que concorra novamente.

Em condições normais, seria apenas constrangedor assistir a um presidente que acabou de se eleger com a promessa de ser o coveiro de velhos hábitos políticos comprometendo o seu governo com uma disputa pelo Poder que, além de prematura, pode ser paralisante. Quando isso ocorre no aniversário de 100 dias de uma Presidência decepcionante, o constrangimento descamba para a aberração.

Político que não ambiciona o Poder vira alvo. Mas político que só ambiciona o Poder erra o alvo. A única ambição que Bolsonaro deveria ter no momento é a ambição de trabalhar.

O Exército não pode voltar a sujar as mãos matando inocentes na rua

Fez bem a cúpula do Exército ao prender em flagrante, sem esperar, 10 dos 12 militares que na tarde do domingo alvejaram com 80 disparos de fuzil um carro onde viajava uma família inteira, com uma criança de 7 anos e uma menina de 12. O tiroteio acabou com a vida do músico Evaldo Rosa dos Santos e podia ter culminado no massacre de uma família inteira, em Guadalupe, área pobre da Zona Norte do Rio. O pequeno, filho do assassinado, continua gritando desconsolando: “O que fizeram com meu pai!”.

O Exército vive no Brasil um momento delicado e de algum modo decisivo. Com a chegada do ultradireitista capitão reformado Jair Bolsonaro à Presidência da República, entrou com força no novo Governo, com um terço dos ministros e um total de 103 militares em cargos importantes da administração. É algo inédito desde os tempos da ditadura.


Há quem já o descreva como um “governo militar” que chega ao poder pelos canais da democracia, o que não impede que, se esse governo fracassar, arrastará consigo a credibilidade do Exército. Algo que já começa a aparecer como possível, dada a queda vertical de popularidade de Bolsonaro em apenas 100 dias de governo. Nenhum outro presidente da democracia tinha visto seu prestígio desabar tão radicalmente em tão pouco tempo. Brincadeira ou não, não há dúvida de que os militares enxertados no Governo não gostaram da afirmação de Bolsonaro aos jornalistas: “Não nasci para ser presidente”. Mais ainda, contou que “nunca podia imaginar chegar a tanto”. Com essa baixa autoestima, que encerra o medo de não estar à altura do cargo, não é estranho que os militares, de quem se diz que passaram a “tutelar” o presidente, se sintam a cada dia mais preocupados.

Isso é ainda mais grave no momento em que 60% dos brasileiros, segundo a última pesquisa Datafolha, veem com bons olhos a presença dos militares no governo. Daí a que o Exército tenha a última palavra caso a Presidência entre em uma zona de perigo vai muito pouco.

Por isso o episódio sangrento do domingo, em que se envolveram 12 militares que atacaram com 80 disparos um carro com pessoas humildes e inocentes, que iam felizes comemorar uma festa de família, está sendo analisado como algo sintomático, possível fruto de uma política incrustada no Governo de caça aos bandidos a qualquer custo, sob o lema de que ”bandido bom é bandido morto”. Algo que contradiz a legislação das grandes democracias, onde as forças da ordem são castigadas sempre que fica demonstrado que um delinquente foi assassinado quando podia ser detido vivo. No Brasil, além disso, não existe a pena de morte. E aqui não importa se os exterminados afinal eram ou não bandidos.

Está sendo criado um clima, com o pretexto de exterminar a violência urbana, de que vale tudo, que nenhuma vida deve ser poupada se isso contribuir para a eliminação do perigo. As pessoas não contam. O caráter sagrado da dignidade humana, o maior valor da criação, é negado e pisoteado com desprezo. Matar vira um jogo. Não é mais obra da psicopatia. É o que a filósofa alemã Hannah Arendt cunhou em sua famosa obra A Banalidade do Mal. Segundo ela, uma das maiores analistas do Holocausto judaico, não é preciso ser psicopata para perpetrar um crime, por mais grave e monstruoso que seja. Basta entrar no que ela chama “a engrenagem do totalitarismo” para justificar tudo, como fizeram os criminosos do nazismo. Eles só cumpriam ordens, eram peças do sistema.

É algo que, de algum modo, começamos a ver no Brasil no âmbito da luta contra a violência. Não importam os meios usados, não interessa a verdade dos fatos, nem as leis que regem a convivência e colocam a defesa do inocente acima de tudo. Interessa ser fiéis à ideia, à ideologia. A pessoa como fim em si mesma deixa de existir. Prevalece a obediência ao sistema. Todo o resto são números, fichas, como nos campos de extermínio.

Se essa filosofia de combate à violência e de fidelidade ao sistema totalitário — neste caso ao novo Governo extremista de Bolsonaro — acabar contagiando o Exército, o problema do Brasil poderia atingir extremos que ainda não imaginamos. Não se pode esquecer, embora a legião de bolsonaristas tente negar, que foi o Exército que manteve durante 20 anos o país sob um regime de exceção no qual o sangue correu e as torturas se multiplicaram. Goste-se ou não, foi um regime totalitário, onde, como no pensamento de Arendt, tudo estava permitido, sem sentir remorso, porque o indivíduo era apenas a peça de um sistema que assim lhe pedia. Era preciso obedecer. Explica-se assim a falta de remorso dos verdugos da ditadura e sua incapacidade de pedirem perdão.

O Exército brasileiro tem consciência dos anos de chumbo e de terror, cujo 55º aniversário não quis celebrar. Prefere esquecer o sangue derramado de então. Quer, com sua presença democrática no Governo, redimir-se de suas atrocidades passadas. Se assim for, deve continuar contendo a mão de quem sente saudades dos tempos de horror e medo. Porque, além disso, a sociedade brasileira hoje, até a sua parcela mais humilde, tomou consciência de sua dignidade e grita contra a violência gratuita. Basta recordar as palavras bradadas por um dos presentes ao lado do carro alvejado no domingo no Rio: “Olhem o que esses filhos de puta fizeram. Nós somos trabalhadores, vocês são assassinos”.

Os militares brasileiros, que tentam se redimir de um passado em que mancharam o país de sangue e morte, não podem deixar de refletir e de se assustar com o fato de gente trabalhadora e anônima desta vez não ter medo de chamá-los de “assassinos” à luz do sol.
Juan Arias

O futuro do passado já mudou irremediavelmente

Houve um tempo em que as pessoas mais românticas - ou mais organizadas -- voltavam de viagem com grandes envelopes cheios de lembranças: passagens de trem e de avião, bilhetes de metrô, entradas de cinema e de museu, folhetos, embalagens de balinhas e de chocolates, programas de teatro, contas de restaurantes e de compras variadas, recortes de jornais e de revistas. A viagem continuava em casa, quando esses papeizinhos todos eram amorosamente colados em álbuns junto com as melhores fotos do tour .

Nos Estados Unidos, a partir desse hábito, criou-se todo um universo comercial multicolorido, com papelarias especializadas vendendo adesivos, folhas estampadas, etiquetas, acessórios, papéis artesanais. Em fins dos anos 1990, o scrapbooking virou febre, especialmente entre adolescentes.

É uma ironia imaginar que, naquele exato momento, a tecnologia também começava a se popularizar: em breve, a fotografia tradicional, em papel, seria apenas um retrato na parede.


O scrapbooking , porém, não morreu. É bonito e atraente demais para isso. Papelarias continuam vendendo material e, paralelamente, há milhões de páginas e de imagens para imprimir online.

Mas os dias de febre passaram. A própria natureza das nossas lembranças está mudando. No outro dia, Peter Funt lembrou, no "The New York Times", que tíquetes para antigos jogos de baseball valem milhares de dólares -- mas já não há mais tíquetes no nosso universo digital, em que a entrada para o estádio (e a passagem de avião e o bilhete do metrô) estão em códigos QR no celular.

Temos uma quantidade de material para memória muito maior do que jamais tivemos, porque as nossas mínimas conversas - "Traz pão quando vier para casa!" - estão armazenadas no WhatsApp, e fazemos centenas de fotos por dia, mas na verdade é como se nada existisse para além do momento da sua criação. Muita coisa se perde, de fato, por um ou outro motivo técnico, mas desde que o backup em nuvem se tornou automático, isso já não é uma preocupação.

O que ameaça a lembrança dos dados que geramos e que recebemos é o seu volume descomunal: o Google já é capaz de encontrar fotos de animais de estimação pelos seus nomes, mas não há máquinas de busca nem inteligência artificial que consigam desencavar vagas recordações.

A última cena de "Indiana Jones e os caçadores da arca perdida" mostra a Arca da Aliança sendo fechada num caixote de madeira, que é guardado entre milhares de outros caixotes de madeira iguais, armazenados em pilhas num remoto depósito do governo: naquele momento, temos certeza absoluta de que lá ela jamais será encontrada, nunca, em tempo algum... ainda que esteja em perfeita segurança.

Nossos emails e fotos estão em perfeita segurança na nuvem, e em tese estão à nossa disposição quando precisamos deles -- mas a questão é que nem só de precisão se fazem as lembranças. Elas tinham o hábito de morar em gavetas e em álbuns e de nos assaltar inesperadamente. Continuarão fazendo isso por mais algum tempo, enquanto as últimas gerações que cresceram num mundo analógico ainda andarem sobre a Terra, mas o futuro do passado já mudou irremediavelmente.

Postais cariocas




Não passou

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estamos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.
Carlos Drummond de Andrade

Crônica de uma aberração

Passaram os primeiros cem dias do governo Jair Bolsonaro, e uma coisa está clara: o Brasil não virou uma ditadura, como alguns esquerdistas temiam. Essa é a boa notícia. A má notícia é: esse governo não teria condições para estabelecer uma ditadura nem que quisesse. Mas, de alguma forma, isso também é bom.

O governo age de maneira confusa, aparenta incompetência, lembra João e Maria perdidos na floresta. Muitos de seus planos parecem ter apenas uma motivação: o velho, o suposto "socialismo", precisa ser demolido – não à toa Bolsonaro chama sua eleição de "revolução". Mas não está claro o que se quer construir na realidade.

Esse governo não tem ideias. Não tem projetos. Não tem planos. Percorre em meandros a monotonia de seu radicalismo de direita. Quase que diariamente, ouve-se quaisquer anúncios semicozidos. Até mesmo a reforma do super-herói da Justiça, Sergio Moro, parece ter surgido num processo de copia-e-cola.

Sem falar nas púberes provocações do clã Bolsonaro pelas redes sociais. Em vez de governar, brinca-se com fogo. Mas o que há de esperar de um presidente cujo único projeto é acabar com um socialismo que não existe e não existia no Brasil? Bolsonaro parece cada vez mais um Dom Quixote. Luta contra moinhos de vento que, nos delírios dele, confunde com gigantes.

Os Bolsonaro percebem que o projeto deles é vazio (eles têm um instinto político brutal). Para desviar a atenção, criam conflitos nas redes sociais. Xingam, agridem e fazem barulho. Mas essa tática funciona só durante um tempo limitado, e "o deserto das ideias" desse governo já fica óbvio para quem entende que política é mais que gritaria e slogan de campanha.

Por isso, esse governo (que foi tão aplaudido pela direita moderada) agora não dá náuseas apenas à esquerda, mas também aos conservadores que percebem que o projeto bolsonarista é de destruição, e não de construção. Exemplos:

Escreve Merval Pereira: "O que não dá para minimizar é a bagunça em que o governo está metido. A cada vez que o presidente Bolsonaro abre a boca, uma crise se avizinha."

Rachel Sheherazade tuita: "Bolsonaro viajou pra Israel. Mourão assume a Presidência. Como cidadã me sinto mais segura com o general Mourão no comando da lojinha!"

Ricardo Noblat chama o chanceler Araújo "com todo respeito" de "um idiota".

E Reinaldo Azevedo constata: "Se continuar a fazer bobagem e se perder as condições políticas de governar, hoje precárias, cai, sim! Os crimes de responsabilidade já foram cometidos."

Fazer baderna, todo mundo consegue. Mas governar, assumir responsabilidades, mediar, é algo para profissionais; é para adultos, pessoas equilibradas, com empatia e caráter. Nessa enumeração, não são exatamente os Bolsonaro que vêm à cabeça.

A sempre perspicaz Eliane Brum escreve: "Jair Bolsonaro mostrou que pretende governar não por planejamento nem por projetos, não por estudos e cálculos bem fundamentados nem por amplos debates com a sociedade, mas sim pelos urros de quem pode urrar nas redes sociais."

Numa frase: Bolsonaro governa contra o Brasil. Por razões ideológicas, se distancia da China, o parceiro comercial mais importante do Brasil, e se joga nos braços do presidente americano Trump feito um amante. Ninguém sabe o que o Brasil vai lucrar indo para a cama com os EUA, um dos seus principais rivais econômicos (soja, milho, laranjas, etanol, etc.).

Mas o presidente simplesmente gosta de Donald Trump. Os americanos, que não são ingênuos, simplesmente passaram a perna em Bolsonaro. O brasileiro conseguiu ainda desmerecer seu ministro das Relações Exteriores por ter preferido levar seu filho, que não ocupa nenhum cargo no governo brasileiro, para a conversa com Trump na Casa Branca.

Bolsonaro consegue a façanha de comprar briga com todo mundo ao mesmo tempo. A determinação de comemorar o golpe militar de 1964 não irritou apenas esquerdistas e conservadores moderados, mas também os militares que obviamente não sabiam dos planos. Nos Estados Unidos, ele acusou imigrantes brasileiros de "não ter boas intenções". Em Israel, ofendeu palestinos e causou meneios de cabeça entre os israelenses. Também irritou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de quem ele precisa, na verdade, para realizar seus projetos. Por causa de todo esse jardim de infância, seu "superministro" Paulo Guedes já falou em renunciar.

Ou seja, não é à toa que o guru dos Bolsonaro, Olavo de Carvalho, aconselhe Bolsonaro a só governar com seu clã a partir de agora. Todos os outros, segundo Olavo de Carvalho, são traidores e deveriam "tomar no c*" (seu xingamento preferido). Dá para notar que o vice-presidente Hamilton Mourão também estaria entre os traidores.

É absurdo e triste constatar: mas esse governo, que se acha na missão quase-religiosa de "salvar a pátria", é tão violento, infantil, estúpido e desorganizado que os militares até estão parecendo uma opção melhor.
Philipp Lichterbeck

Bolsonaro tem razão

Enfim, sou capaz de concordar sem avarentas restrições ou manhosas adversativas com o presidente Jair Bolsonaro. Nosso acordo é mútuo e pleno de verdade. Ouso dizer: mais do que concordar com ele, ele concorda comigo. Não nos conhecemos, mas estamos em sintonia.

Num gesto de invulgar nobreza, afirmou sobre si o que eu sempre afirmei sobre ele: não nasceu para ser presidente, não faz ideia do que está fazendo no posto, não sabia que os problemas eram tantos e tamanhos. Que lhe desculpemos as caneladas, ele pede. Não é do ramo.


Antes tarde do que nunca, embora não precisasse demorar tanto. Tivesse reconhecido um pouquinho mais cedo sua dificuldade de dominar uma bola e ninguém teria incomodado ninguém: nem ele ao governo, nem o governo a ele. No fundo, de acordo com sua declaração, quem não votou em Bolsonaro lhe fez mesmo um favor. Não precisa agradecer, presidente, eu compreendo suas aflições. Também são minhas.

Não pensem vocês que ele está de brincadeira. Ele fala a sério, mortalmente a sério. Catapultado ao imaginário nacional diretamente dos programas de humor e entretenimento, Bolsonaro parece ter proposto candidatura com a certeza de que não corria risco nenhum de ser eleito, como adolescente que vai à rua procurar emprego temendo encontrar emprego.

Pois encontrou emprego.

Nós ficamos espantados.

Ele ficou espantado.

Irmanados no espanto, temos aí um inconveniente país com o qual lidar.

A prova de que Bolsonaro tem razão e fala a verdade é que nunca soube explicar de que se trata, afinal de contas, essa treta de governar. Quando lhe perguntavam sobre Previdência, ele remetia ao Paulo Guedes. Saúde? Falem com o Paulo Guedes. Privatizações? Guedes. Infraestrutura? Vão logo ao inferno ou ao Instituto Millenium.

Para quem insistia, tinha uma resposta na ponta da retórica: um presidente não precisa, e nem se quisesse conseguiria, saber tudo sobre todos os assuntos. O que é verdade. Contudo, é também verdade que um presidente carece de saber algo mais do que os nomes das pessoas e o número das respetivas salas. Precisa perceber algo de gestão, de princípios elementares de administração, de movimentos básicos do xadrez político.

Ele tem mostrado que sabe? Mistérios.

O affair Velez Rodriguez é mais eloquente que um Socrates na praça. O colombiano putativamente conhecedor de pensamento brasileiro foi escolhido não pelo presidente, que o ignorava, mas por aqueles que o presidente escolheu. Disseram a ele que o historiador de filosofia sabia tudo o que o presidente não sabia.

A fé move montanhas e nomeia ministros, sabemos todos.

Em três meses, o ministério com segundo maior orçamento e complexidade sem igual está à deriva. Sem planos, sem metas, sem projetos. O ministro, que fazia ponta de morto-vivo há semanas, foi demitido. Garanto que a culpa não é minha; não sou Charles Xavier nem Magneto, e o poder do meu pensamento negativo não chega a tanto. O fato é que quem o indicou já tinha se apressado a desindicar, quem viu fez de conta que não viu, quem sabia garante que não sabe do que estão falando.

Jair Bolsonaro afirmou que não nasceu para ser presidente. Finalmente está coberto, sufocado, soterrado de razão.

Oitenta tiros e nenhum tuíte


Desde a tarde de domingo, Jair Bolsonaro deu uma entrevista, fez dois discursos e publicou 17 tuítes. O presidente fez autopropaganda, atacou a imprensa, criticou um instituto de pesquisas e debochou dos antecessores. Só não comentou a morte de Evaldo Rosa, metralhado pelo Exército quando levava a família para um chá de bebê.

O carro dirigido pelo músico tinha a bordo duas crianças, uma mulher e um idoso. Os soldados abriram fogo sem aviso. Acertaram ao menos 80 tiros de fuzil.

Depois de morto, Evaldo foi vítima de outro assassinato. Desta vez, de reputação. Em nota, o Comando Militar do Leste chamou ele e o sogro de “criminosos”. Os dois foram acusados de atirar contra os militares, que teriam respondido à “injusta agressão”. “Como resultado, um dos assaltantes foi a óbito no local”, concluiu o CML.

Apesar dos desmentidos de testemunhas e da Polícia Civil, o Exército sustentou a falsa versão até a manhã de segunda. Finalmente, admitiu “inconsistências” e informou que dez homens foram presos em flagrante. Eles serão julgados na Justiça Militar.

O falante Bolsonaro não se manifestou nem para consolar a viúva. O ministro Sergio Moro evitou dizer se o caso envolveria “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. O governador Wilson Witzel lavou as mãos. “Não me cabe fazer juízo de valor”, declarou.


O silêncio das autoridades soa como aval à escalada de mortes em ações policiais no país. Em 2017, foram 5.012, um salto de 19% em relação ao ano anterior. Fuzilado por engano, Evaldo se enquadrava no perfil mais comum das vítimas: 99% eram homens e 76% eram negros, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A retórica do “tiro na cabecinha” e a falta de punição por excessos servem como licença para novas mortes. O crime de Guadalupe poderia marcar uma virada, mas os políticos não parecem empenhados em fazer sua parte.

Depois de nomear mais um polemista de direita para o Ministério da Educação, Bolsonaro deveria atualizar seu slogan de campanha. Agora é “Ideologia acima de tudo, Olavo acima de todos”.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Plebeus do Brasil inteiro, uni-vos!

O presidente ainda não decidiu o que quer ser depois que cresceu. Sob a regência dele e família a “direita” e a “esquerda” velhinhas esbofeteiam as paixões vintage uma da outra via internet. Já o Brasil “indignado” ataca pessoas mas não ataca problemas. E a imprensa, participando ou não dela, só vê a política como disputa. Abriu mão do 4º Poder. Dispensa-se de buscar soluções; de informar como funciona o mundo que funciona. “O governo ganhou…”, “O governo perdeu…”. Brasil e brasileiros nem há…

É tudo isso junto que proporciona que a privilegiatura não seja denunciada como sistema e possa continuar defendendo anonimamente os seus privilégios.

Na tradição política brasileira onde quem não pede, aceita, da extrema direita à extrema esquerda e mais quase tudo que há no meio todos mutuamente se arrimam no quesito defesa de privilégios. O instinto natural do Congresso é ver como entregar o mínimo pra não matar a galinha dos ovos de ouro já e o resto é circo. É uma cultura. O que é a debandada dos substitutos dos médicos cubanos três meses depois de contratados senão o aproveitamento de mais uma oportunidade de por um pé dentro da nau dos exploradores pelos “concurseiros”, seguido do efeito obrigatório da garantia de que nada, pela eternidade, poderá tirar de lá quem conseguir essa proeza? O que mais é preciso para explicar porque mais de 100% do que arrecada o país expulso do mercado global pelos impostos mais altos do mundo já não basta para pagar os privilégios dos “embarcados”, aposentados ou não?


A “desarticulação política do Planalto” se dá em torno daquilo que nem ele, nem a oposição, nem a imprensa estão pedindo que mude desde a raiz, nem hoje, nem muito menos quando o problema era o excesso de “articulação política” entre o Palácio e o Congresso. Não há “desinteresse do presidente pelas tarefas inerentes ao cargo que ocupa”. O que há é o desinteresse de Brasília inteira, e adjacências, em acabar com esse nosso feudalismo extemporâneo.

O Congresso é a frente mais vulneravel dessa resistência. Todo mundo exposto ao voto sabe que o que lhe está sendo pedido não é nenhuma revolução, é apenas, como já tinha sido na reforma trabalhista, que remova da cena institucional aquilo que já está morto e nada poderá fazer reviver porque o dinheiro acabou. A confusão do presidente com seu novo papel é que reabriu a controvérsia. Jair Bolsonaro nunca saiu do território da privilegiatura. É até por balda, mais que por convicção, que é ele quem rege a pauta das capitulações. Ninguém exigiu nenhuma, ele é que ofereceu todas. Mas agora passou da conta. O sistema de capitalização é a fronteira real entre o fim previsível e o nunca acabar da privilegiatura. O regime de repartição mantém aberto o componente aleatório da conta da previdência que os políticos “arbitram”, ou seja, mantém aberto o comércio de favores que cria castas privilegiadas e arrebenta países como o Brasil. O de capitalização impõe o realismo matemático que mata esse comércio e, de troco, cria uma poderosa rede de fundos de poupança que provê o financiamento barato do desenvolvimento futuro. O “elevado custo de transição” alegado é pra quem tem o que perder nessa parada, que certamente não é o povo que já não tem nada.

Paulo Guedes também nunca saiu do País Real, esse mundo onde a realidade é senhora e ninguém dá murro em ponta de faca. Mas na arena da luta pelo poder aquilo que parece pesa muito mais que aquilo que é. Logo, submeter-se a longas seções de teatro sem ser ator não é o melhor meio de passar a reforma. Convencer o povo, que tira e põe políticos no poder, da indispensabilidade e da boa fé dos componentes essenciais da sua proposta é que é o caminho para extrair indiretamente dos deputados o voto que o Brasil precisa.

Uma imprensa que se negasse a disparar tiros alheios pelo “acesso” a dossiês nunca 100% desaloprados montados pelas facções em luta pelo poder; uma imprensa que resistisse a tomar 200 milhões de brasileiros por otários voluntários recusando o mito da “impopularidade” do fim da privilegiatura que todas as pesquisas mostram que não vai além das salas onde deveriam trabalhar mas estão dispensados de fazê-lo os “estáveis no emprego” para todo o sempre; uma imprensa que tudo referisse, enfim, à meta sacrossanta do privilégio zero, poderia fazer essa ponte. É pela falta dela que o povo tornou-se uma ficção distante para Brasilia assim como Brasilia tornou-se uma ficção distante para o povo. Não há nenhuma comunicação entre eles porque a intocabilidade de todos quantos conseguem por um pé dentro do estado, um dia, nunca é posta em cheque. Excluído o único remédio que cura, tudo que resta para a análise dos eruditos do nada são os protocolos da Corte. O que diz a regra (que nos mata)? De quem é a competência (de nos ferrar desta vez)? Os parênteses não sobem nunca às manchetes. Só o que não interessa interessa.

Levantar a censura sobre como funciona o mundo que funciona pouparia o país de ter de reinventar a roda. Mas se apenas a imprensa passasse a atribuir o comportamento da Corte às suas causas evidentes já começaríamos automaticamente a nos dirigir para a saída, que consiste apenas e tão somente em condicionar todos os dias, dia após dia, a permanência no emprego de políticos e funcionários públicos à obrigação de agradar os “clientes” que lhes pagam os salários como acontece aqui fora.

Democracia, no más…

Plebeus do Brasil inteiro, uni-vos! Este país está aquém do século 19 das revoluções democráticas. A parada aqui ainda é “nobreza, unida, jamais será vencida”. Pelo povão ninguém “é” senão o ministro que os deputados hereditários da bancada dos gigolôs de miséria querem carimbar como “rentista” ou “agente dos bancos”, a apelação que resta no seu arsenal esvaziado de argumentos. Paulo Guedes terá de recorrer a uma campanha profissional de esclarecimento do povo se quiser conseguir dar o seu recado inteiro. Nenhum dinheiro público poderia ser mais bem gasto.

Opção preferencial pelo abismo

Não vejo como alguém na plena posse de suas faculdades mentais pudesse esperar um governo de boa qualidade depois de uma eleição polarizada entre o petismo e o bolsonarismo.

O barco que temos é esse aí: um rei-filósofo na Virgínia, uma tetrarquia familiar (Jair e filhos) no Planalto, dois ministros sérios tentando trabalhar — mas enfrentando as pirraças habituais dos três Poderes — e algumas almas penadas que até agora não encontraram seus respectivos papéis na peça. Três meses se passaram e só com muito esforço consigo acredito que possa melhorar.


Seria melhor com Haddad e o PT? Quem afirma isso o faz como ato de fé, pois nada do que fizeram em seus dezesseis anos e meio de governo autoriza tal crença. Com o agravante, é claro, que o PT tem um arremedo de ideologia imprestável e um projeto de permanecer indefinidamente no poder.

Mas o que acima foi dito é só uma parte, não necessariamente a pior, de um quadro muito mais amplo que deveríamos examinar com seriedade, não fôssemos um País de irresponsáveis. Chegarmos a 2022 com um resultado medíocre significa postergar mais uma vez a recuperação econômica do País e reduzir a pó o que nos resta de esperança. Hoje, além dos problemas reais que nos assustam a cada dia, temos uma penca de problemas imaginários, frutos amargos de nossa insanidade, de uma sociedade que se tornou raivosa e se recusa a imaginar o futuro que a espera.

Aqui mesmo neste espaço, já escrevi várias vezes, mas faço questão de repetir. Com a renda anual medíocre que temos hoje e prevendo o mesmo crescimento a passos de cágado para os próximos anos, levaremos uma geração inteira para dobrá-la. Algo entre 25 e 30 anos.

Para não nos precipitarmos nesse abismo, temos que elevar vigorosamente a produtividade, o que significa, em primeiro lugar, um sistema político muito mais confiável, com os três Poderes fazendo jus à elevada missão que a Constituição lhes confere. Significa investimento, muito investimento. E um programa enérgico de qualificação de força de trabalho, o que desde logo requer uma revolução organizacional e pedagógica em nosso sistema educacional.

A iniciativa de tudo isso cabe, evidentemente, ao governo, mas as elites também são responsáveis. Deveriam, no mínimo, forçar o Executivo a sair de sua letargia, mas nem isso fazem.

80 tiros e o risco da impunidade

O músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, levava a família para um chá de bebê de uma amiga no último domingo quando teve o carro alvejado por mais de 80 balas disparadas por militares que patrulhavam a Estrada do Camboatá, no bairro de Guadalupe, zona oeste do Rio de Janeiro. Foi atingido por algumas dessas balas e, pouco antes de morrer, ainda virou o carro na tentativa de proteger a esposa, o filho de sete anos e a afilhada de 13, que estavam no banco traseiro. Eles saíram ilesos, mas o padrasto da esposa de Evaldo, que estava ao lado do motorista, ficou ferido, assim como uma pessoa que passava pelo local no momento em que os militares abriram fogo, segundo eles em resposta a uma "injusta agressão" de "assaltantes" que teriam iniciado o tiroteio.


A versão dos militares, porém, contrasta com os depoimentos dos vizinhos e com a perícia que a Polícia Civil teve que realizar por conta da dificuldade dos próprios militares para examinar a cena do crime diante da revolta da população. O delegado Leonardo Salgado, que assumiu os trabalhos, disse que tudo indica que os militares fuzilaram o carro da família por "engano". Já o Comando Militar do Leste, que investiga o caso e havia emitido nota corroborando com a versão dos membros que participaram da operação, precisou voltar atrás "em virtude de inconsistências identificadas entre os fatos inicialmente reportados e outras informações que chegaram posteriormente". E determinou o afastamento imediato e a prisão de dez dos doze militares que participaram da operação por "descumprir as regras de engajamento".

Tanto as investigações quanto os possíveis processos criminais gerados por elas estão a cargo das Forças Armadas, conforme estabelece uma lei sancionada pelo então presidente Michel Temer em 2017. Nos últimos três anos, o Exército vem ganhando protagonismo em ações de segurança pública no Brasil. Foi nesse contexto que os militares conseguiram aprovar a lei 13.491/2017, que transfere para as Forças Armadas os casos de crimes dolosos contra a vida de civis durante operações de garantia da lei e da ordem. A legislação é interpretada como uma espécie de foro privilegiado para os militares por ativistas de direitos humanos. Agora, o caso de Guadalupe reabre o debate sobre a possível falta de isenção da Corte Militar para investigar e julgar membros da própria corporação, e entidades de direitos humanos pedem a revogação da lei.

"Existe um risco maior de impunidade quando você tem pessoas da mesma corporação julgando seus colegas", argumenta o advogado e diretor-adjunto da ONG Conectas, Marcos Roberto Fuchs. Ele chama atenção para a letalidade em ações de segurança pública desenvolvidas pelo Exército no Brasil, com vários casos de morte nos últimos anos. É o caso, por exemplo, do assassinato do capixaba Matheus Martins da Silva, de 17 anos, com um tiro de fuzil disparado por um soldado a um quarteirão de sua casa em fevereiro de 2017 durante uma ação de segurança pública. "Existe um procedimento padrão para abordar. Agora, dar 80 tiros [como fizeram no domingo] é uma letalidade abusiva e desproporcional. Esta é a nossa primeira preocupação. A segunda é a de que o crime vai ser levado à Justiça Militar, então não vai ser um julgamento isento e imparcial, já que os próprios militares vão julgar os colegas", diz Fuchs.

No caso de Guadalupe, o Comando Militar Leste instaura o inquérito e designa um encarregado para apurar o crime militar através do Inquérito Policial Militar (IPM), que, assim como o Inquérito Policial, reúne os elementos necessários para propor uma ação penal. É nesta fase que se colhem dados e se realizam diligências que seriam difíceis ou impossíveis de ocorrer no curso do processo, como exames periciais, interrogatórios e reconstituições. Esta peça é então encaminhada ao Ministério Público Militar, que oferece a denúncia na Justiça Militar. O prazo para conclusão do inquérito quando os supostos autores do crime estão presos — como é o caso dos militares que participaram do fuzilamento em Guadalupe — é de 20 dias. Mas, segundo fontes da Justiça Militar, não há um prazo específico para finalização do processo judicial.

A Human Rights Watch Brasil, entidade que atua na defesa dos direitos humanos, emitiu uma nota pedindo a revogação da lei de 2017 que coloca nas mãos das Forças Armadas as investigações de homicídios cometidos por membros das Forças Armadas em operações, como a de domingo. "Qualquer julgamento seria realizado perante um tribunal que também não é independente, pois é composto por quatro oficiais militares e um juiz civil", alega a entidade. O pesquisador sênior da Human Rights Watch Brasil, César Muñoz, afirma que a lei brasileira vai de encontro ao que defende o direito internacional, de que as justiças militares devem julgar apenas infrações internas, como por exemplo desacato e indisciplina. "Os juízes militares estão numa hierarquia e têm que obedecer seus superiores. Talvez não haja uma pressão direta, mas há uma relação ali. Não é uma situação que tem um juiz independente", diz.

Muñoz diz que é difícil para as entidades da sociedade civil acompanharem os casos investigados e julgados pela corte militar. "Não é uma justiça muito aberta ao olhar externo", avalia. E levanta questionamentos sobre a atuação dos militares na condução de um caso emblemático: o da chacina de Salgueiro. Em novembro de 2017, um comboio de dois blindados do Exército e um da Polícia Civil entrou no complexo de favelas do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, e realizou uma operação que terminou com sete mortos. Uma investigação conjunta entre Polícia Civil e Exército foi criada para investigar o primeiro caso concreto desde a sanção da lei que amplia a jurisprudência da corte militar, mas os responsáveis por essas mortes ainda são um mistério.

O caso foi acompanhado de perto pela Human Rights Watch. Um ano depois do episódio, a Justiça Militar sequer havia ouvido todas as testemunhas e sobreviventes. "Nós, uma entidade da sociedade civil, entrevistamos essas pessoas, como eles não conseguiram?", questiona Muñoz. A Polícia Civil ficou com parte das investigações, mas, como envolvia militares, não pôde avançar nas investigações. Testemunhas contaram às autoridades que os atiradores vestiam roupas pretas, tinham fuzis com mira a laser e capacetes luminosos. A descrição bate com os equipamentos disponíveis aos militares, mas a Polícia Civil não pôde apreender as armas para averiguar se os tiros foram disparados por eles, e o Exército deu poucas respostas sobre isso. "A gente já teve esse problema [de risco de impunidade na investigação de crimes praticados por militares pelas Forças Armadas] antes. Foi uma investigação que até hoje não foi esclarecida", declara Muñoz, ressaltando que a corte militar não tem um sistema adequado para julgar crimes que ferem os direitos humanos.

Marcos Roberto Fuchs, da ONG Conectas, teme que o discurso do presidente Bolsonaro de parabenizar oficiais que matem bandidos em serviço e mesma a proposta do pacote anticrime do ministro Sérgio Moro para que agentes de segurança tenham a pena reduzida ou eliminada caso matem em serviço pode agravar casos como este. "Parece que vai ser um expediente recorrente no Rio de Janeiro. Quando não se tem mais poder da Policia, se usa o Exército. É uma política que está errada no nosso modo de vista. Tudo isso junto com governantes que dizem que pode reagir e atirar. Há um impulsionamento que pode agravar esses casos sem dúvida", avalia.

Pensamento do Dia


Pobre Brasil do aqui e agora

O que fazer quando o presidente e o chanceler de seu país dizem, em Israel, que o nazismo foi um movimento de esquerda? O ideal é dar de ombros e seguir na vida cotidiana. Essas afirmações bombásticas são feitas para provocar debate. Não tenho tempo para ele.

Sinto muito pelos professores de História no Brasil. Terão de explicar como um movimento de esquerda invadiu a União Soviética, uma espécie de meca da esquerda mundial naquele período. E como milhões de pessoas morreram a partir desse fogo amigo.


Os professores de História terão de se consolar com os de Geografia, que ainda acham que a Terra tem uma forma arredondada. São colegas com uma tarefa mais dura: explicar que a Terra não é plana, como querem os novos ideólogos.

Estamos passando por uma revisão completa. Seus autores se acham geniais. O chanceler Ernesto Araújo disse que o nazismo é de esquerda, dentro do Museu do Holocausto, em Israel. Ali, o nazismo é considerado um movimento de extrema direita.

Mas o chanceler disse que há teorias mais profundas. Os judeus, que sofreram com o nazismo e ergueram um museu para lembrar suas vítimas, são superficiais: ainda não descobriram a verdade das obscuras teorias conspiratórias que embalam o governo brasileiro.



A direita embarca na canoa usada pela esquerda no passado recente. Não há mais respeito às evidências ou provas científicas. O que importa é a versão. Não houve desvio de dinheiro público, apenas procuradores e juízes perseguindo honestos políticos.

Eles convergem na tentativa de conformar os fatos às suas convicções ideológicas. O que foi aquela gritaria na Câmara? Nada mais que uma aversão compartilhada à palavra tchutchuca.

Suspeito que direita e esquerda são machistas da mesma maneira que suspeito que a Terra seja arredondada, e o nazismo tenha sido um movimento de extrema direita. Tenho pavor dessas gritarias noturnas na Câmara. Na minha época descobri: servem apenas para prejudicar o sono. Saem todos tensos e irados e têm dificuldade em dormir. Só isso.

Uma reforma da Previdência é coisa séria. É possível alterar a proposta do governo. Mas é muito difícil negar a importância de alguma reforma, antes que a Previdência quebre como na Grécia.

Há mais de um século a esquerda desenvolve suas técnicas de provocação. Guedes precisa mais que o curso de alguns dias para enfrentá-la com êxito.

Minha experiência mostra que nessas constantes trocas de insultos, sempre alguém vai insinuar que o outro é gay. Com o tempo, certas pessoas se acostumam. É o meu caso. Tive a sorte, como na música de Cazuza, de ser chamado de viado e maconheiro. O único problema era ser chamado de apenas um desses dois nomes. Ficava esperando o outro como se estivesse faltando algo.

É como a piada de um homem que vivia no andar de baixo, e todas as noites o vizinho de cima chegava meio bêbado e tirava as botas ruidosamente. O homem reclamou. O bêbado voltou do botequim, jogou a bota esquerda com força, mas se lembrou do vizinho. Tirou a bota direita com muito cuidado, silenciosamente. O vizinho de baixo não dormiu esperando que ele jogasse a outra.

Todas aquelas pessoas xingando as outras na Câmara: não há nada de pessoal naquilo. Apenas histeria política.

É preciso superar logo essa fase de sensibilidade à flor da pele. Entender que é o país que está em jogo. E não depende apenas da reforma da Previdência.

A política externa toma um rumo radical, sem que o tema seja discutido adequadamente no Congresso. Nesse sentido, é uma política tão autoritária como a que nos ligou ao bolivarianismo. Não expressa a visão nacional.

O Ministério da Educação não funciona. Todos as semanas demitem e contratam. A ida do ministro Vélez à Câmara mostrou que não tem projeto. Exceto o de reescrever sua parte da história do golpe militar. Ele é modesto diante do chanceler que quer reescrever a história da Segunda Guerra Mundial e levar sua mensagem cristã a todos os recantos do mundo.

O velho cardeal Richelieu já dizia no século XVII: o homem é imortal, sua salvação está no outro mundo. O Estado não d ispõe de imortalidade: sua salvação se dá aqui ou nunca.

Fernando Gabeira