sexta-feira, 27 de abril de 2018

Como caminhar para a saída

O Brasil precisa suspender as hostilidades. Manter essa briga de faca no escuro é o modo mais eficaz de não permitir que o que quer que seja mude. E não mudar tudo, e logo, vai nos levar reto para uma ditadura da violência organizada violenta o bastante para deter a violência desorganizada que está pondo o país em pânico.

Ditadura de que “lado”?

Daquele que nos manterá impossibilitados de aprender democracia, fora do nosso tempo e condenados a voltar sempre ao ponto de partida como estamos voltando mais uma vez agora…

Lava Jato?

É o que temos pra hoje. Quem ainda resiste ao desespero resiste agarrado a ela porque fora dela nada nos foi oferecido. Mas a esta altura todo mundo já aprendeu a manipulá-la. Ha lava jatos para todos os gostos e finalidades e só a menor e menos poderosa delas é realmente séria. O caminho para dar a cada um o que ficou devendo à justiça seria voltarmos a respeitar os pormenores, o que quer dizer reduzir drasticamente a velocidade. Deus (ou o diabo) está nos detalhes que o Brasil foi levado a deixar de enxergar porque essa era a unica maneira de evitar que os condenados na Ação Penal 470, do Mensalão, diferentes de todo o resto da boa e da má política do Brasil como de fato são, fossem expulsos para sempre do jogo democrático que trabalham para destruir por dentro.

A primeira parte das gravações dos 1829 candidatos de 28 partidos pedindo dinheiro de campanha que Joésley tem guardadas e às quais dá ou não “acesso” a jornais e TVs on demand, é igual para quem parou por aí ou para quem foi além vendendo favores para se locupletar. Apoiar só nessa parte as manchetes é a maneira mais fácil de seguir com o plano de desmoralização do único poder eleito da república excluido o Executivo que nomeia a cúpula do Judiciário. Aquele plano que começou pelo assalto aos fundos de pensão das estatais e pela criação de monopólios artificiais para financiar a compra de votos de congressistas no atacado, primeiro, e a de campanhas a granel mais adiante, para a consecução do projeto de poder antidemocrático com pretensões multinacionais que Lula descreve pessoalmente nas suas perorações ao Foro de São Paulo disponíveis no Youtube.

Diferenciar financiamento de campanha de corrupção e essas duas coisas de conspiração contra a democracia é perfeitamente possível como ficou demonstrado na sentença do Mensalão. Só que leva tempo. O tempo que a Lava Jato séria gasta nos seus processos e as lava jatos bandalhas atropelam nos delas. O tempo que deveria ser obrigatoriamente gasto em apuração independente dos fatos entre o “acesso” dado às gravações dos joésleys e a publicação das manchetes acusatórias. Um tempo, enfim, que este Brasil periclitante já não tem mais.

Eleições?

Ok. Mas quem for eleito terá de governar um país à beira do caos.
Montar um time tecnicamente capaz de deter a explosão da maior bomba fiscal jamais plantada nos alicerces da nação é o de menos. Mas até isso está prejudicado. No meio dessa guerra que fez a presunção de culpa substituir a presunção de inocência na cabeça das pessoas e na nossa (des)ordem judicial televisiva nenhum quadro técnico bem intencionado à altura do desafio terá coragem de vir trabalhar para governos. A chance de acabar incinerado é praticamente certa.

Mas parada dura mesmo é a política. Essa bomba fiscal não poderá ser desarmada sem uma mudança profunda nas regras de apropriação da riqueza nacional vigentes. Como construir maiorias para enfrentar 518 anos de corporativismo constitucionalmente “petrificado” num país conflagrado e com a política fechada à entrada de sangue novo?

Parece uma missão impossível mas a necessidade sempre fez milagres. O estado está a ponto de dissolver-se num país miserabilizado que emasculou a iniciativa privada e confiou tudo ao estado. Ha uma consciência clara até dentro da “privilegiatura” de que se não pusermos ao menos no horizonte visível o fim da desigualdade perante a lei que se traduz no sumidouro da previdência pública e está na base desse desastre ela vai morrer junto com o organismo que parasitou além do limite da sobrevivência. É uma faca de dois gumes pois para quem já não se vexa de abraçar ditaduras assassinas é a explosão que interessa, e para tê-la basta não fazer e não deixar fazer nada.

Mas para quem pensa no bem do Brasil é bom lembrar que para reformar um sistema defeituoso como o nosso é preciso antes de mais nada identifica-lo como tal . Reconhecer que, como comprova o fato de já termos dado a volta completa no circuito das ideologias no comando colhendo sempre o mesmo resultado, é o sistema que entorta todos que toca e não as pessoas que entortam o sistema.

Todas as forças necessárias para empurrar a mudança estão vivas e operantes. Mesmo diante da maior operação de patrulhamento jamais arquitetada na história da televisão brasileira, havia uma maioria no Congresso Nacional, como a que ha no Brasil aqui de fora e também dentro dos setores mais profissionais e pior pagos do serviço público, disposta a devolver privilégios em nome da salvação nacional. Mas ela foi bloqueada pelas defesas que o sistema erigiu contra a alteração de si mesmo, a mais forte das quais é a imprecisão da representação do Brasil Real no Brasil Oficial.

É preciso suspender a validade dessas defesas contra a devolução, em prazo marcado, de um país sob nova direção onde esteja absolutamente claro quem representa quem. Contra a entrega ao povo/eleitor, única fonte de legitimidade como reza a constituição, do direito à ultima palavra em todas as decisões que, ou afundam, ou fazem os países voarem. A receita é conhecida, testada e aprovada: eleições distritais puras, precariedade dos mandatos e empregos públicos retomáveis por iniciativa popular a qualquer momento (recall), direito ao referendo das leis dos legislativos, direito à reconfirmação periódica dos juízes encarregados de faze-las cumprir.

Isso – e só isso – cerca e mata a corrupção.

A eleição de outubro pode e deve ser plebiscitária. Quem propuser entregar ao povo o comando do seu próprio futuro, leva. Deixar rolar como está é suicídio.

Fernão Lara Mesquita

Falta de pressa

Um dos aspectos mais fascinantes da crise política brasileira e do comportamento de elites pensantes é a perda da noção de tempo. Não se detecta sentido de urgência no trato de qualquer questão essencial para arrancar o País do buraco ao qual teríamos chegado de qualquer jeito – à incompetência, irresponsabilidade e voracidade de governos do PT e seus associados devemos “agradecer” por terem apressado nosso encontro com a hora da verdade (a de que estamos ficando velhos sem termos ficado ricos).

Sociedades caem vítimas de seus próprios mitos com mais frequência do que se pensa. Para permanecer em tempos recentes, e como caricatura para ilustrar o argumento, pensem nos nazistas (que se achavam imbatíveis) ou nos soviéticos (que se achavam donos do futuro). No caso brasileiro, o título do clássico de 1941 de Stefan Zweig – Brasil, Um País do Futuro – às vezes parece uma maldição. É óbvio que o livro não tem a menor culpa disso, mas a postura de boa parte de elites aqui sugere terem se tornado adeptas da crença de que o futuro nos pertence e inevitavelmente será risonho. Como se sabe, em História não há o inevitável.

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Em outras palavras, acreditamos que o tempo trabalha a nosso favor, sobretudo quando lidamos com prazos mais dilatados, e optamos por ignorar evidências. A principal chama-se janela demográfica, que está se fechando e foge ao nosso controle. Nos acostumamos a crescer nos últimos 30 anos incorporando ao mercado de trabalho um número grande e aparentemente inesgotável de jovens mal qualificados. Para crescer e enfrentar agora a competição lá fora teremos de melhorar índices de produtividade estagnados há décadas, e com menos jovens à disposição – algo que já se reflete no eleitorado: pela primeira vez a proporção de jovens entre 16 e 24 anos diminuirá em 2018 em relação à última eleição, enquanto cresce o peso relativo dos eleitores acima dos 60.

Para quem comemora o aumento da nossa renda per capita nos últimos, digamos, 15 anos, cumpro aqui o papel chato de lembrar que a diferença para a renda per capita dos países avançados permanece inalterada, ou até um pouco pior para nós. Embora briguem sobre quais fatores afetam diretamente o crescimento de países, economistas não duvidam da forte influência exercida por uma taxa mínima de investimento anual. A nossa é baixíssima e piorou, pois o setor público, do qual tanto dependemos, perdeu essa capacidade de investimento. Em outras palavras, estamos jogando contra o tempo.

Há outros sinais preocupantes, dos mais variados, indicando que nós gostamos de acreditar que as coisas se resolvem por decurso de prazo. Abominamos o sistema político-eleitoral, por exemplo, mas deixamos passar recente oportunidade para reescrever as regras das próximas eleições, que provavelmente asseguram a permanência de boa parte das figuras e dos métodos que detestamos. E, recentemente, ao considerar o habeas corpus para Lula, o Supremo Tribunal Federal forneceu um exemplo acabado da mentalidade dos estamentos burocráticos que mantém o País sob seu firme domínio: a mentalidade que prefere manipular prazos e evita abordar frontalmente problemas difíceis.

Filmes e exposições na Alemanha lembraram no ano passado os 75 anos do suicídio de Stefan Zweig (um dos escritores mais populares na Europa na metade do século 20) e sua mulher, ocorrido em Petrópolis. Ainda em vida seu livro sobre o Brasil como um país do futuro tinha sido criticado como ingênuo. Consigo entender o que Stefan Zweig, transformado em “Kulturpessimist” pela catástrofe europeia daquela era, enxergou como esperança no Brasil. O problema é a nossa falta de pressa.

Qual é a única coisa que une os brasileiros e que o poder prefere esconder?

Será verdade que, como injustamente se divulga no exterior, os brasileiros estão divididos em tudo? Que nada é capaz de unir os cidadãos de um lado e do outro do arco político? Há dois brasis irreconciliáveis em tudo? A julgar pelos resultados da última pesquisa nacional do Datafolha, a resposta é não.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

De acordo com essa pesquisa, quem aposta em um Brasil dividido em tudo deve se sentir frustrado. Existe um tema que vem incendiando a opinião pública nos últimos anos e que se intensificou com a condenação e prisão de Lula: o apoio à Lava Jato, cuja continuidade é defendida por 84% dos brasileiros. Apenas insignificantes 12% acham que deve terminar. O Brasil todo parece unido na luta contra a corrupção e contra as tentativas de “estancar a sangria”, sonho de tantos políticos e poderosos e até mesmo de boa parte do Supremo Tribunal Federal. Entre esses 84% que querem que a Lava Jato continue estão, por exemplo, 77% dos eleitores de Lula, algo que o PT, que acusa a Justiça de ser seletiva com seu partido, deveria explicar, se de fato a grande maioria de seus eleitores também defende essa cruzada contra a corrupção.

Outro dado importante de uma pesquisa anterior do Datafolha confirma que os brasileiros concordam, quase unanimemente, que a Lava Jato deve seguir seu caminho: em 22 anos, é a primeira vez que a corrupção é a maior preocupação do país. Não é a violência? Não. A corrupção já preocupava quatro vezes mais em 2015. E a educação? Também não. Preocupa quatro vezes menos que a corrupção. Não seria economia, ou o desemprego, a maior preocupação dos brasileiros? Não, a corrupção preocupa cinco vezes mais. E a saúde, a angústia das filas nos hospitais? Nem isso. A corrupção interessa duas vezes mais que a saúde.

Será que os pré-candidatos à presidência tomaram consciência de que a sociedade como um todo, pobres e ricos, continua a favor da luta contra a corrupção? E os governadores, senadores e deputados que pretendem ser reeleitos? Terão percebido os excelentíssimos magistrados do Supremo que a única coisa que parece unir os brasileiros é a luta contra a corrupção, e quase 60% defendem a prisão após condenação em segunda instância sem esperar pelos recursos a instâncias superiores? E que a grande maioria é contra o foro privilegiado?

Sabemos que mais de um magistrado disse não entender o que significa a voz das ruas e que lhes interessa mais a letra da lei que no seu espírito, que é o que deve ser levado em conta quando se trata de julgar indivíduos de carne e osso. Não é segredo que, no Brasil, antes da Lava Jato, a Justiça procurava ser humana e respeitosa com os condenados importantes, para quem a presunção de inocência deveria ser sagrada. O condenado sem nome tornava-se, por outro lado, um número frio e sem alma.

Um povo que foi capaz de metabolizar sem dramas nem tumultos a prisão de Lula e dos grandes industriais do país acusados de corrupção talvez seja mais solidamente democrático e socialmente mais saudável do que uma minoria exaltada se esforça para negar. Se for esse o caso, é uma injustiça grave apresentar, no exterior, um Brasil à beira de um descarrilamento democrático, um golpe militar ou uma guerra civil, como vi escrito em jornais sérios. É injusto porque é falso. O que o mundo deve saber é que, no Brasil, até os mais pobres estão mais preocupados com a corrupção dos poderosos do que com a própria economia, algo que só seria concebível em países com velhas raízes democráticas.

Às vezes, chego a pensar que este país pode até dar uma reviravolta na teoria de Murphy, segundo a qual “se algo pode dar errado, dará”. Talvez seja capaz de interpretar essa lei pessimista mudando-a para o lado positivo: “se algo pode dar certo, dará”. E se nas próximas eleições, apesar de todo o pessimismo, acabar, por exemplo, acontecendo o melhor?

Paisagem brasileira

ICAPUI, Ceara, Brasil
Icapui (CE)

A esquerda é o Titanic de 2018

Que a esquerda está em crise em boa parte do mundo não chega a ser uma grande novidade. Novidade é que significativa parcela do mais importante partido da esquerda brasileira, o PT, esteja contribuindo para esse cenário geral de crise com uma forte pitada de ridículo.

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Se a única ideia que os petistas podem oferecer é essa estupidez de acrescentar “Lula” ao nome, é melhor chamar o Tiririca para substituir a Gleisi Hoffmann na presidência do partido. Palhaçada por palhaçada, fiquemos com quem é mais autêntico.

Idiotice à parte, passemos a uma crítica fulminante à esquerda vinda de um acadêmico, Wanderley Guilherme dos Santos, de impecáveis credenciais esquerdistas e um propagandista entusiasmado do governo Lula.

“Esse é um mundo no qual a esquerda do século 20 não tem mais lugar. Por isso toda esquerda no mundo hoje é obsoleta, conservadora e reacionária. Ela se organizou em termos de pensamento e ação no século 19 para concorrer com o liberalismo em termos de imaginário futuro de organização social. O liberalismo oferecia o progresso, a esquerda oferecia a revolução pela ruptura. A queda do muro de Berlim destruiu esse projeto alternativo. A esquerda desde então tem estado na defensiva e não é à toa que sua palavra de ordem seja resistência”, escreveu esse cientista social para o último número de 2017 da trimestral revista Inteligência.

Sou obrigado a concordar com ele, até porque já escrevi inúmeras vezes que a esquerda — não só a brasileira — não conseguiu ainda sair dos escombros do muro de Berlim, mesmo passados quase 30 anos da queda. Foi também o fim do comunismo e é intrigante que mesmo a esquerda que não comungava com o comunismo soviético tenha se ressentido.

Se a obsolescência da esquerda tivesse provocado apenas a ascensão de uma direita civilizada, não haveria grandes problemas. Veja-se o Chile: a esquerdista Michelle Bachelet dá lugar ao direitista Sebastián Piñera, que, quatro anos depois, devolve a cadeira a Bachelet para que ela a entregue, após outros quatro anos, a Piñera. E o Chile vai em frente, tropeçando às vezes, mas sem uma crise tremenda como a que devorou o Brasil e ainda se faz sentir.

O problema é que o vácuo deixado pela esquerda foi preenchido pela extrema-direita, como escreve Dani Rodrik, um heterodoxo professor de economia política internacional na Escola de Governo John F. Kennedy, da mitológica Harvard:

“Tivessem os partidos políticos, particularmente os de centro-esquerda, perseguido uma agenda mais ousada, talvez o crescimento de movimentos de direita, nativistas [nacionalistas], pudesse ter sido evitado”.

O raciocínio parece correto, mas o problema é que nem a direita (civilizada) nem a esquerda puseram de pé até agora uma agenda capaz de contrapor-se “às queixas que autocratas populistas exploraram com sucesso — desigualdade e ansiedade econômica, a percepção de declínio do status social e o abismo entre as elites e os cidadãos comuns”, para citar de novo Rodrik.

A esquerda brasileira acha mesmo que pôr “Lula” no nome é uma agenda suficiente?

Comparsas S.A.

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Em Brasília, todos são inocentes e todos são cúmplices
Nelson Rodrigues

Dois cremes afanados, um diploma falso: adeus, governadora

Uma mulher loira, bem vestida, de salto alto e bolsa elegante, passa por um constrangimento de feitura própria.

Pega furtando dois potes de creme antirrugas num supermercado, é levada por um segurança para a “salinha”. Recusa-se a reconhecer o flagrante até que um policial é chamado.

Acaba vasculhando a bolsa em busca de notas e moedinhas. O vídeo de 2011, divulgado agora, acabou com a carreira política de Cristina Cifuentes. Teve que renunciar ao cargo de presidente da Comunidade de Madri, equivalente a um governo estadual no Brasil.

Foi um castigo merecido. Que político, num país decente, pode resistir a um “engano”, como ela tentou disfarçar, no valor de “pouco mais de 40 euros”? Ao mais vergonhoso dos vídeos íntimos?

Como no caso do furto, ela vinha se recusando a reconhecer as evidências de outra trambicagem: um mestrado fake em Direito Público.

Cristina Cifuentes é de direita, do partido do austero primeiro-ministro Mariano Rajoy. Ganhou a antipatia redobrada da esquerda quando comandou a segurança de Madri durante o período de grandes manifestações de protesto na época em que, na prática, a Espanha faliu.

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Com a mão dura de Rajoy e sacrifícios de todo o país, a Espanha se recuperou. Como os Borbons, a casa real da monarquia parlamentarista, a esquerda não esquece e não perdoa nada.

Ninguém deveria saber melhor disso do que Cristina Cifuentes, boa de briga e de fazer listas de inimigos.

Uma das virtudes da democracia, este sistema tão imperfeito, é justamente a ideia de que um partido vigia o outro – em vez de ambos se associarem para a formação de quadrilha contra o dinheiro do povo.

Incorrer na mesa estranha obsessão de políticos por diplomas falsos e teses plagiadas demonstra o gosto pelo risco da governadora caída.

Em 2012, o presidente da Hungria, Pal Schmitt, foi obrigado a renunciar ao cargo, mais cerimonial do que importante, por plágio em tese de doutorado sobre Olimpíadas na era moderna. Nada menos que 180 páginas haviam sido copiadas de um autor búlgaro.

O mesmo desvio de caráter havia levado à queda, um ano anos, de Karl-Theodor Friherr von und zu Guttenberg como ministro da Defesa da Alemanha. A tese de doutorado plagiada era sobre direito constitucional. Como indica o sobrenome cheio de preposições, ele é de uma família nobre.

Gente com menos pedigree já teve currículo com inexistentes mestrado e doutorado em economia. Corrigiu-se com uma declaração antológica, entre tantas. Antologia tal como concebida por Stanislaw Ponte Preta.

“Lá, tem um equívoco, sim: a parte relativa ao mestrado está errada. A relativa ao doutorado não está errada no que se refere a ser doutoranda. Mas está errada no que se refere ao curso que eles me botaram.”

Lembraram-se?

Cristina Cifuentes ainda tentou se segurar, renunciando ao mestrado que nunca fez. Pediu desculpas por “aceitar as facilidades” oferecidas pela Universidade Rei Juan Carlos, numa prova adicional de cinismo autodestrutivo.

Já estava com o filme queimado quando apareceu o vídeo do furto. Não renunciou de moto próprio, como ficou evidente com a declaração seca de Rajoy: “Podia ter nos poupado disso”.

Pelo menos, não disse que foi golpe.

América Latina é a região mais violenta do mundo

A América Latina é a região mais violenta do mundo, segundo estudo feito pelo Instituto Igarapé e publicado, nesta quinta-feira (26/04), pelo diário americano Washington Post. O think tank brasileiro com sede no Rio de Janeiro compilou as estatísticas num relatório em forma de aplicativo interativo, no qual o internauta pode obter informações sobre homicídios mundo afora.

Ao menos 437 mil pessoas são assassinadas no mundo a cada ano – uma média de 6,2 assassinatos por 100 mil habitantes. A América Latina e o Caribe abrigam 8% da população mundial, mas concentram 33% dos homicídios globais. Dezessete dos 20 países com as maiores taxas de homicídios estão localizados na América Latina e no Caribe. Quatro países da região – Brasil, Colômbia, México e Venezuela – são responsáveis por um quarto (25%) dos assassinatos globais.

Mais de 130 grandes cidades latino-americanas (com mais de 250 mil habitantes) podem ser consideradas altamente perigosas, pois têm taxas de homicídios superiores a 25 para cada 100 mil habitantes.

Entre as 50 cidades mais violentas do mundo, 43 estão localizadas na América Latina e no Caribe. As quatro primeiras são San Salvador, em El Salvador, Acapulco, no México, San Pedro Sula, em Honduras, e Soyapango, em El Salvador. O Top 10 tem três cidades brasileiras: Marabá, São Luís do Maranhão e Ananindeua.

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Dos aproximadamente 437 mil assassinatos anuais pelo mundo, quase metade são cometidos com armas de fogo – na América Latina e no Caribe este número sobe para 66%. Mundialmente, 74% das vítimas são homens, enquanto na América Latina e no Caribe a cifra sobe para 81%. Além disso, mais da metade das vítimas latino-americanas e caribenhas têm idade entre 15 e 29 anos. A região tem as maiores taxas mundiais de feminicídio: encabeçam a lista Haiti (57%), Suriname (46%) e Granada (36%).

Existem 36 países com taxas de homicídios abaixo de um por 100 mil habitantes. Vinte estão na Europa, 11 na Ásia, três na Oceania e dois na África. Os países com as menores taxas de homicídio no mundo são Andorra, o principado de Mônaco e a Grécia. Na América Latina, o Chile apresenta a menor taxa de homicídio: 2,7 assassinatos para cada 100 mil habitantes.

Os autores do relatório do Instituto Igarapé tentaram dar uma explicação para o problema endêmico de homicídios na América Latina e no Caribe. Eles fizeram questão de esclarecer que não é que toda a América Latina seja violenta, mas que há áreas determinadas nas quais ocorre uma quantidade desproporcional de homicídios.

A América Latina é particularmente suscetível a condensações de crimes por causa de sua urbanização desenfreada. As cidades latino-americanas cresceram mais rápido do que na maioria das outras partes do mundo durante os últimos 50 anos. Em 2000, por exemplo, três quartos da população vivam em cidades – praticamente o dobro da proporção na Ásia e na África.

Segundo a publicação britânica The Economist, "a mudança do campo para a cidade concentrou os fatores de risco para violência letal – desigualdade, jovens desempregados, famílias deslocadas, serviços governamentais deficientes, fácil acesso a armas de fogo".

Além disso, os autores do relatório do Instituto Igarapé afirmaram que, em muitos casos, não há forças de segurança suficientes, particularmente em áreas de alta criminalidade. E, em diversos casos, os policiais estão envolvidos com o crime organizado. Além disso, a maioria dos assassinatos não é resolvida. Em algumas partes da América Latina, apenas um em cada 20 homicídios reportados é solucionado.

Deutsche Welle

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Boulos: o florescimento da 'ideia' à sombra silenciosa das autoridades

Então atire a primeira cobrança quem nunca deixou de cumprir uma promessa. Volto a falar de Lula tendo prometido a mim mesma que não mais o faria depois de comentar a prisão dele. Não previ isso, mas, como diz Genoveva, quando prometi era verdade. Pertence à fase madura de Machado de Assis o famoso conto Noite de Almirante (publicado pela primeira vez em 1884, no Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro) que me traz Genoveva para minha defesa e refúgio. Nesta fase, praticamente extinguiu-se o verniz sutil de sofisticada ironia que nosso magnífico autor derramava sobre a superfície das coisas e que, num prazer adicional da leitura, o leitor mais lapidado o penetra e descobre, como num palimpsesto ─ e a cada nova leitura, novas camadas interpretativas se revelam ─, o profundo das coisas na fundura da galhofa apenas residual e da melancolia predominante. Exemplo máximo disso entre os contos, acho eu, é o duro “Pai Contra Mãe” em que a linguagem exata e a sintaxe enxuta agudizam a crueza de uma realidade sem concessões e em que os personagens fazem escolhas como a pedra que, lançada, decidisse onde cair, segundo a imagem com a qual Espinoza define o livre-arbítrio.

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Assisti ao vídeo em que Guilherme Boulos destampa um trololó aparentemente delirante sobre a invasão do prédio do triplex do Lula comandada pelo sem-teto de boutique, aterrorizando moradores. Aí, sabe como é: uma coisa desagradável leva à outra coisa desagradável, então acabei revendo o último discurso de Lula em liberdade para averiguar nexos no palavrório de Boulos. Naquele discurso, o caudilho dialogou com os próprios afetos e desordens (essencialmente, a horrenda “ideia” Lula), ainda que numa fala racional, coesa e coerente para determinada essência política ─ e, nesse sentido, dirigiu-se à militância, que é o que os consubstancia externamente. Inertes, MPF e demais autoridades deixam um bando autoritário colonizar o espaço no noticiário sem lhe fazer um contraponto nesta que é também uma guerra de valores. E a militância chafurda na sua libido deformada. É para a sustentação do moral dela que Boulos e seus bandidos amestrados continuam delinquindo já que a pátria dos petistas não é o Brasil, mas o petismo. Seus habitantes, alheios à realidade exterior, não são apenas aquelas poucas centenas que se entrincheiraram no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo (aliás, a legislação proíbe atividade político-partidária de sindicatos, não é, Ministério Púbico?) ou os acampados em Curitiba emporcalhando tudo em volta e infernizando o cotidiano dos moradores.

Eles são também “a ideia” no palimpsesto de certa imprensa escrita e falada que ainda escolta o triplex de Lula com um “suposto”, mantendo a mentira, substância última dessa porcaria toda, na crônica dos fatos. São a “ideia” que aparelhou o MPF (que, muitas vezes, me lembra um PSOL concursado) e porções do Judiciário, desde antes de o PT assumir a presidência, que silenciam diante da carreira criminosa de Boulos. À sombra desse frondoso silêncio, o PT sustenta seu enredo embusteiro também pela omissão de agentes da lei que decidiram participar politicamente do debate público ─ sobretudo procuradores do MPF ─, desrespeitando os limites de suas funções institucionais, atacando todos-os-políticos, mas, nominalmente, quase sempre apenas contra aqueles opostos ao campo ideológico da “ideia”. A choldra deita e rola.

O Brasil ordeiro merece um gesto das autoridades repudiando o terrorismo de Boulos, não pode mais ficar à disposição das patologias ideológicas da súcia terrorista nem das “patologias de consciência” dos representantes da lei que se calam. Integrantes do Judiciário/MPF não são todos lulopetistas, claro, mas predominam entre eles teses caras ao PT dos anos 1980, de um PT limpinho que, grosso modo, reencarna no PSOL. É a “ideia” lavada a jato. Imunda, ela ainda lidera as pesquisas eleitorais de dentro da cadeia (o Brasil vai me intrigar para sempre), seguida pelas versões higienizadas: Marina Silva (que sugere a PMDB, PSDB e PT que se aposentem para que ela governe com a Rede e o PSOL), Joaquim Barbosa (o candidato da agenda policial) e Jair Bolsonaro (o autoproclamado liberal que aplaude agressões ao estado de direito quando elas não o atingem, conduta que nega a essência do liberalismo). Três figuras autoritárias revigoradas no lixo tóxico produzido pela criminalização da política como via institucional para encaminhar as demandas da sociedade, criminalização esta promovida pelos mesmos agentes que, em nome do combate aos políticos corruptos, aproveita para combater também os políticos de que não gosta inspirando na população o desejo de eleger alguém-que-ponha-ordem-em-tudo-isso-que-está-aí. Enquanto isso, Boulos não é incomodado e nem sequer agradece, ele quer é mais, pois essa gente não deseja participar democraticamente da disputa legítima pelo poder, mas se impor pela truculência e pela mentira, chegando ao limite do grotesco e dando mais um passo sem ativar o ativismo blogueiro do MPF. Autoritários do bem e os do mal debocham do Brasil ordeiro.

O marujo Deolindo partiria numa viagem de 10 meses e trocou promessas de fidelidade com a mulata Genoveva. Quando os amantes se reencontraram, Genoveva se apaixonara por outro. Deolindo, do fundo de seu desencanto, ainda balbuciou uma cobrança que era menos isso e mais uma verbalização de seu choque: “mas você prometeu, Genoveva”. “Ah, Deolindo, deixe disso, quando eu prometi era verdade”. Depois de ouvir Lula, me sinto suja da voz roufenha excretando senhas para a barbárie e, para lidar com essa realidade incessante, faço um tipo de profilaxia com algum humor ou ironia, alguma literatura, música ou poesia porque a beleza ─ em qualquer forma ─ é, para mim, revestimento pessoal para sobreviver às mazelas do mundo. Por isso afirmei que o conto é um refúgio, essa encantadora narrativa de um desencanto amoroso com toda a breguice de uma ilusão amorosa ─ claro, não é todo amor que é brega, só os verdadeiros, ou você nunca ouviu Roberto Carlos ou Billie Holiday (cuja morte completa 50 anos em 2019) se acabando em “I’m a fool to want you”? ─ tratada com a genialidade de Machado para falar da volubilidade do coração humano, de fidelidade, inconstâncias e a imprevisibilidade da vida, que a faz menos perigosa. Já pensou que perigo uma vida sem imprevistos? A vida acontece à nossa revelia. Uma “ideia”, não. Portanto, senhores e senhoras agentes da lei, ajam.

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Supremo vira ioiô e perde a própria supremacia

Marcado por suas idas e vindas, o Supremo tornou-se o epicentro de um fenômeno que corrói o prestígio da Justiça brasileira: a insegurança jurídica. A Suprema Corte virou um ioiô. Ora joga a delação da Odebrecht sobre Lula para Sergio Moro, ora manda o material para São Paulo. Num instante, aprova a prisão na segunda instância. Noutro, ameaça rever a novidade. Afasta Eduardo Cunha do mandato e delega ao Senado a palavra final sobre o afastamento de Aécio Neves. Cede poder aos senadores e, depois, ressuscita Demóstenes Torres, devolvendo-lhe direitos políticos que o Senado havia cassado. Nesse vaivém, o Supremo-ioiô perde a própria supremacia.

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Há no Brasil uma sólida e inquestionável certeza: o Judiciário é lento, concordam todos, do advogado de porta de cadeia até a presidente do próprio Supremo. Pois na decisão sobre a delação da Odebrecht, três ministros da Segunda Turma —Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes— transferiram provas contra Lula da azeitada engrenagem de Curitiba para a São Paulo, onde a Lava Jato caminha na velocidade de uma lesma tetraplégica. Ofereceram matéria-prima para a defesa de Lula enfileirar recursos, embargos e todo tipo de petições contra decisões de Sergio Moro.

Poucas vezes o Brasil teve um Supremo tão desatento com suas responsabilidades institucionais. Há de tudo na Suprema Corte —de ministro reprovado em concurso para juiz até magistrado que mantém negócio privado. Decisões colegiadas são solenemente desrespeitadas. Há na prática não um, mas 14 supremos: os 11 ministros, as duas turmas e o plenário da Corte. O Brasil perdeu as esperanças de ter no topo do sistema judicial um tribunal que seja Supremo. Mas merece ter pelo menos um Supremo que tenha lógica.

Justi$$a?

No Brasil, juízo de exceção é quando a Justiça funciona contra poderosos delinquentes
O Antagonista 

Um MP para os ratos

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Não sei o nome pelo qual atende entre os seus, os da sua praia ou tribo, mas o que sei é que, embora não saiba o seu nome, já estamos na terceira rodada e agora estou sem saber se eu o venci ou se ele me venceu.

Os médicos deram para receitar banana porque descobriram, enfim, que os macacos nunca se deprimem. Estão sempre alegres, bem dispostos e salientes. A razão de tanta exuberância é o potássio que na banana está em maior quantidade.

Manhã bem cedo quando vou à bacia de frutas pegar minha banana noto que uma delas está comida até a metade. Separo-a das outras e me detenho examinando. Por duas ou três manhãs, a mesma coisa.

Se não foi dente de gente nem de macaco, dente de que bicho seria? A Iraci, que sabe tudo desses meandros, lança a suspeita – isso é coisa de rato.

Ora, se rato gosta tanto assim de banana então ele se aparenta dos macacos, por conseguinte também dos homens, todos necessitados de doses e mais doses de potássio.

Daí, fico a imaginar querendo encontrar razões para o fato de ter homem tão parecido com rato e também com macaco e de ter homem com atitude de rato ou com atitude de macaco.

Se tu reparas bem, o macaco não é larápio. Ele te surrupia a banana em gestos engraçados, não espera tu dares as costas para o objeto do desejo dele, não age nas caladas da noite. O macaco é transparente.

O rato, não. O rato que nem algumas categorias de homens sem categoria não age às claras, prefere sempre as caladas da noite para suas práticas deletérias.

Então, a banana que amanhece mordiscada até quase pela metade na bacia de frutas na cozinha é coisa de rato. Mas que calhorda!

Se eu continuar leniente ele vai espalhar out-dor pelas esquinas da ilha, num rasgo de bom mocismo, me agradecendo as quase vinte bananas que ele comeu pelas beiradas nas madrugadas lá em casa, enquanto todos dormiam.

Estou sabendo sobre uma senhora Karen Robbins que mantém uma ONG nos Estados Unidos voltada para a proteção dos ratos, os quais são tratados com estima e carinho.

Aqui também nesta quase França Equinocial, incluindo a do Amor, tem pessoas com seus ratinhos de estimação, tratados como leais companheiros, gordinhos, rechonchudos, alguns até lembrando gorgulho, aquele bicho que ataca sacas de feijão.

Os ratos, aliás, ajudaram os romanos num sentido inverso a conquistarem muitos territórios.

Muitos lugares tinham ratos demais, os povos em meio a tantas doenças não sabiam o que fazer. Àquelas alturas, os romanos já haviam descoberto o gato como invencível devorador de ratos.

E levavam centenas de milhares de gatos famintos em suas expedições. Muitas vezes nem precisavam fazer guerra. Era soltar os gatos atrás dos ratos e os povos, aliviados, se entregavam logo aos romanos.

Voltando ao rato devorador de bananas aqui de casa, já estou na terceira rodada e não sei quem venceu a parada.

Na primeira, misturei bifinho da Miúcha com chumbinho. O danado comeu tudo. Na noite seguinte peguei apara de pizza e fiz sanduíche de chumbinho. Não amanheceu nada. Sinal de que comeu tudo. Na terceira eu deixei só caroços de chumbinho espalhados no roteiro dele. Amanheceu tudo do mesmo jeito. Mas a banana sempre mordiscada.

No reino animal deve ter um ministério publico para ratos. Não é possível. Deve ter.

Edson Vidigal

É simplesmente ridículo

Estamos perdendo a noção do ridículo. Só pode ser isso. Estamos tratando como normais certas situações - na política, na economia, no judiciário - que são simplesmente ridículas.

Querem começar pelo judiciário? Serve. Observem esta ementa do Superior Tribunal de Justiça, emitida em 20 de junho de 2012. Depois de repetir que se tratava da análise de embargos de declaração, um sobre o outro, conclui negando o último deles, "embargo de declaração no agravo regimental no recurso especial". Não é gozação.

Tratava-se de um caso simples. Um servidor aposentado do governo de Goiás que pretendia voltar ao trabalho na mesma administração estadual. O primeiro recurso chegou ao STJ em abril de 2008, negando a volta ao emprego. Seguiram-se oito embargos de declaração e três recursos e agravos, todos negados por unanimidade nas turmas. Mas a coisa só terminou em agosto de 2012.

Ocupou tempo de magistrados, a burocracia dos tribunais, para repetir a mesma decisão 11 vezes.

Esqueçam os termos jurídicos, o formalismo. É simplesmente ridículo.

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Vamos para a política? É até difícil escolher, mas considerem o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira. Na terça, a Polícia Federal deu uma batida no gabinete, na casa e nos escritórios do parlamentar. Entre outras coisas, encontrou 200 mil reais em dinheiro vivo. O senador tem três inquéritos no âmbito da Lava Jato e é acusado de ter ameaçado uma testemunha, um ex-assessor.

O partido, o antigo PP, é o principal freguês da Lava Jato. Lembram-se do Paulo Roberto Costa, o primeiro diretor da Petrobras a ser apanhado no petrolão? Pois então, era indicação do PP.

Joesley Batista diz ter a gravação de uma conversa em que combina entregar uma mala de 500 mil para o senador.

E sabem o que aconteceu com o PP nesse tempo todo? Mudou o nome para Progressistas e, no troca-troca partidário, recebeu o maior número de deputados federais. Chegou a 50.

Ocorre que o partido controla três ministérios, mais a Caixa Econômica. Ou seja, vagas e verbas. O senador Ciro Nogueira ainda distribuirá o dinheiro do fundo partidário que vai financiar as campanhas eleitorais.

Progressistas? Ridículo, não é mesmo?

Pode um partido assim e um senador assim continuar no controle de boa parte do governo? Dizem: qual o problema?

No dia das batidas, o senador, acompanhado da esposa, estava em "missão oficial" no exterior, o que significa pago com o seu dinheiro, caro leitor. E sabe o que ele mandou dizer ao advogado? Fica tranquilo.

Aí já não é mais ridículo, é gozação com a gente.

Mas certamente foi ridícula a decisão de três ministros da Suprema Corte - Suprema! - ao determinar que as delações da Odebrecht a respeito da compra do prédio do Instituto Lula e da reforma do sítio de Atibaia sejam retiradas dos processos que correm em Curitiba sobre o que? O prédio e o sítio.

Dizem os ministros Gilmar Mendes, Lewandowski e Dias Toffoli que essas delações não têm nada a ver com a corrupção na Petrobras, caso que está na corte do juiz Moro. Logo, as delações devem ir para a Justiça Federal de São Paulo, onde não corre nenhum processo a respeito.

Reparem: na delação, o pessoal da Odebrecht afirma ter participado do petrolão e que os recursos ilícitos ali gerados eram distribuídos, entre outras pessoas, a Lula, propina materializada no prédio e no sítio. Os dois casos foram apurados pela Lava Jato de Curitiba, processados na Justiça Federal de lá, depoimentos tomados, provas colhidas - e aí vêm os três magistrados dizer que os processos ficam lá, mas não as delações que tratam exatamente daquela corrupção.

Tentam recuperar um formalismo jurídico cuja função é simplesmente anular processos. Assim: a prova existe, todo mundo sabe, mas a justiça não pode considerar.

Na delação, Emílio Odebrecht diz que preparou o sítio para Lula, que estava na conta da propina. Nada a ver, decidem os três juízes.

Esqueçam o Direito. É simplesmente ridículo.

Querem uma na economia? Temos. O cadastro positivo, a relação dos bons pagadores, cuja função, provada em outros países, é aumentar as garantias na concessão de crédito. E, pois, reduzir os juros ao tomador final.

Tem um projeto tramitando no Congresso, há anos. Opositores dizem que o cadastro é contra os pobres, as pessoas mais simples, que ficarão excluídas.

De onde tiram que "gente simples" é caloteira? O cadastro, onde existe, exclui, principalmente, os ricos caloteiros, os que dão grandes calotes.

Mas estão dizendo que o cadastro positivo é coisa da direita neoliberal. O Congresso está nisso há anos. E ainda esgoelam contra os juros altos. Ridículo.

A Ilha

Nossas elites odeiam o Brasil, que só serve para que façam fortunas

O Brasil é um país muito estranho, não há nada igual sobre a face da Terra. Tem todas as condições para ser o melhor do mundo, seu potencial é incomparável, mas está sempre refugando, não consegue decolar. Faltam-lhe governantes que saibam identificar quais são os verdadeiros interesses nacionais.

Daqui a cinco meses teremos nova eleição, é recomendável que os brasileiros raciocinem sobre isso, porque nem sempre as necessidades nacionais se confundem com os interesses dos países que disputam a liderança mundial, como Estados Unidos, Rússia e China.

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Muito pelo contrário, no Brasil os interesses nacionais quase sempre não têm nada a ver com as diretrizes preconizadas pelas grandes potências, é preciso encontrar um caminho próprio, embora este tema suprapartidário jamais seja discutido cá entre nós.

Em termos de debate político-institucional, na verdade estamos sempre rastejando. Ao invés de identificar os interesses nacionais, nossas lideranças se perdem em discursos inconsistentes sobre direita e esquerda, chega a ser ridículo e até patético.

O Brasil é diferente. Em relação a seu território contínuo, é o quarto maior do mundo, somente superado pelos EUA quando incluem o Alasca e o Havaí. Quanto à população, estamos na quinta posição, com quase 209 milhões de habitantes, atrás da China (1,384 bilhão), Índia (1,296 bilhão), Estados Unidos (329 milhões) e Indonésia (263 milhões), e à frente do Paquistão (208 milhões) e da Nigéria(195 milhões).

Logo seremos suplantados por Paquistão e Nigéria, porque nossa população está parando de crescer e tende a ficar estacionária, o que pode ser bom ou ruim, depende do ponto de vista. População crescente evita problemas com a Previdência, mas população estacionária pode significar melhor qualidade de vida. Os países europeus, com população estagnada ou decrescente, não precisam investir em novos hospitais, escolas, estradas, saneamento, energia etc. Pense nisso.

Aqui no Brasil é diferente e muito há a ser feito, mas as elites não querem esperar. Para elas, o Brasil só serve para fazer fortuna e ir viver lá fora. Foi modificado, portanto, o slogan do regime militar. Naquela época era “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Agora é “Brasil, explore-o e deixei-o”.

É nesse clima de baixa-estima que a nação vai às urnas para escolher o menos pior. Pretendo votar no candidato que apresente os melhores planos para conter a dívida pública e aprimorar a Previdência, com uma reforma que não mantenha privilégios de nenhuma classe profissional.

Gostaria que esse candidato retomasse os CIEPs de Brizola, Darcy e Niemeyer, transformar os presídios em colônias agrícolas e polos industriais e prestadores de serviços às comunidades. Que investisse em energia solar e eólica, ferrovias, portos e rodovias, para diminuir o custo Brasil. E que adotasse um plano de carreira no serviço público, com progressões por mérito e produtividade.

Cynara relembra Millôr e nos dá uma lição

Depois de ler a entrevista de Fernando Henrique Cardoso à última revista “Época”, em defesa do novo na política, e após refletir sobre as respostas do ex-presidente às perguntas formuladas pelos repórteres Daniela Pinheiro e Plínio Fraga, passei à leitura do excelente depoimento a Sílvio Essinger, na mesma revista, da cantora Cynara Faria.

Cynara foi responsável, ao lado de Cybele, Sonya e Cyva, pela criação do saudoso Quarteto em Cy. Ele gravou, desde 1964, mais de 30 discos e conquistou, com a canção “Sabiá”, uma composição de Tom Jobim e Chico Buarque, na noite de 26 de setembro de 1968 (tempos brabos!), o 3º Festival Internacional da Canção (FIC). O público que lotou o Maracanãzinho se revoltou com o resultado e lhe despejou tremenda vaia pelo fato de haver batido, na final, a bela canção de Geraldo Vandré “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”.

No depoimento prestado a Essinger, Cynara, que ficou revoltada com as vaias não apenas em razão da qualidade da canção vitoriosa, mas, sobretudo, porque Jobim e Chico não mereciam aquele tratamento, concluiu dizendo que aprendeu muito naquela noite: “O que aprendi ali, com a vaia do Maracanãzinho, pode ser resumido numa frase do Millôr Fernandes: o importante é nada. Tudo passa mesmo, e essa raiva que está aí, rondando todo mundo, vai passar”.

Nesta antevéspera de eleições, que se espera que sejam efetivamente livres, o Brasil vive o agravamento de uma crise política que fez retornar à cena essa raiva à qual se referiu Cynara Faria. Tanto os partidos quanto os políticos, de modo geral, perderam credibilidade e, hoje, são objeto de puro ódio. Mesmo assim, pelo menos para mim, e exatamente por isso, por mais paradoxal que lhe possa parecer, leitor, o momento por que passa o país, em razão das eleições que vêm por aí, deveria ser considerado por todos nós rico de oportunidades.

O jornalista, dramaturgo e escritor Millôr Fernandes foi muito bem lembrado por Cynara Faria. Na verdade, Millôr disse muito mais em seus famosos textos e frases. Uma delas poderá nos servir de estímulo e, ao mesmo tempo, de alerta: “Tudo passa. Chuva passa, tempestade passa, até furacão passa. Difícil é saber o que sobra”.

As eleições, essa real oportunidade que, mais uma vez, se abre a nossa frente, com certeza acontecerão e, obviamente, passarão. A ocorrência delas, por si só, não basta ao país. O importante depende do que vai sobrar delas. Teremos, a partir de 2019, um país dividido? Ou, ao contrário, lutaremos para debelar o ódio que parece ter tomado conta da sociedade brasileira? Ou, enfim, por meio do diálogo, proporcionaremos às gerações novas um futuro realmente esperançoso?

Esse futuro esperançoso a que me refiro depende de nosso voto. Temos que escolher, com responsabilidade e conhecimento de causa, os que nos representarão na Presidência da República, nos governos estaduais, no Senado, na Câmara e nas Assembleias legislativas. Só nosso voto terá o condão, leitor, de torná-lo realidade.

O paradigma, a conduta e o comportamento adotados há muitos anos por grande parte de nossos políticos e, em menor escala, pela sociedade brasileira terão que mudar. Essa mudança, com certeza, nos livrará desse pântano no qual o país afunda a cada dia que passa. Lembremo-nos, por fim, mais uma vez, de Millôr Fernandes: “Ser feliz é tão simples, mas tão simples, que todo mundo esqueceu como é”.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Controlar o purgatório?

A noção de um lugar intermediário, marcado por intensidades e definido por pertencer simultaneamente a dois hemisférios (céu e inferno, culpa e inocência, casa e rua, pessoalidade e impessoalidade), manifesta uma óbvia visão relacional. Um ponto de vista no qual o elo (o meio ou a ponte) é mais saliente do que regras e indivíduos. Não há nenhum cisma social sem relações, mas não é em todo lugar que elas são valor e ética, como no caso brasileiro.

Da beatitude celestial ninguém sai, tal como acontecia com as arcaicas garantias legais dos senhores sobre seus escravos ou a das generosas aposentadorias dos funcionários do Estado que, sendo seus filhos, passavam seus cargos para seus descendentes. Da punição que o grande Dante etnografou descrevendo em detalhes os castigos do inferno, ninguém igualmente sai exceto, talvez, no maravilhoso dia do Juízo Final, no qual os vivos e os mortos vão se reunir e, quem sabe, a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vai redimir esse vale de lágrimas no qual estamos encerrados.

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A grande novidade do purgatório, como só um erudito francês - Jacques LeGoff - foi capaz de aquilatar, introduz no cosmo cristão a intensidade ambígua de um brasileirismo. Com o purgatório legitima-se o “mais ou menos”; reacende-se o elo entre os puros e os pecadores que se comunicam e têm a oportunidade de adiar, anular ou diminuir suas penas graças a instâncias, recursos e demandas dos seus parentes, amigos, companheiros e advogados terrenos.

Lutero mudou o curso da religiosidade ocidental no seu protesto contra todo tipo de meio-termo, sobretudo das indulgências como um comércio. Esse vosso cronista tem vergonha de um sistema judiciário no qual o larápio da coisa pública é diferenciado do bandido comum e‚ colocado no purgatório legal dos que cometem crimes especiais, eufemisticamente chamados de “colarinho branco” - delitos obviamente superiores; livram-se da cadeia por meio de embargos, protelações e recursos - essas indulgências brasileiríssimas vigentes no grande purgatório que é o sistema jurídico nacional. Na Europa do século 16, elas acenderam a Reforma; no Brasil do século 21 elas podem ou não confirmar a impunidade dos poderosos ou a grande transformação igualitária desejada pela maioria.

*

Seria um delírio do cronista sugerir que no mundo global o mais ou menos do purgatório existe a seu modo no Brasil?

Esse Brasil republicano que não deixou de ser imperial nas práticas políticas e nos estilos de manter privilégios e empenhos - uma sobrevivência aristocrática num sistema destinado a ser meritocrático, competitivo e impessoal.

A grande tarefa do Supremo Tribunal Federal é a de conjugar e balizar o que vem da sociedade e o que está consagrado na Lei Maior.

O bom senso é contrariado quando se tenta mudar jurisprudência sobre a prisão após julgamento em segunda instância e quando se passa por cima da Lei da Ficha Limpa, uma norma popular e inovadora. Teria o STF a índole de ser contra esses marcos da experiência democrática brasileira?

Penso que é imprudente ficar tanto ao lado das hermenêuticas atadas à lei vigente quanto ouvir as demandas da sociedade convulsionada e revoltada precisamente pelos privilégios e conchavos facilitados por um sistema legal ultrapassado. Nem tanto ao céu nem tanto ao inferno e nem tanto ao brasileiríssimo purgatório. Não se fica contra a Lei Maior, mas a quem serve a Constituição senão à sociedade brasileira? Ouvir a sociedade não é abandonar a Constituição.

A grande demanda é acabar com a transformação da política numa atividade compadresco-partidária desonesta e alérgica ao republicanismo que exige a igualdade meritocrática e eficiente na distribuição de recursos públicos. Não se trata de acabar com a política pelo legalismo. A questão é não deixar que o legalismo jurídico afeito ao purgatório acabe com a política!

Qual é a única coisa que une os brasileiros e que o poder prefere esconder?

Será verdade que, como injustamente se divulga no exterior, os brasileiros estão divididos em tudo? Que nada é capaz de unir os cidadãos de um lado e do outro do arco político? Há dois brasis irreconciliáveis em tudo? A julgar pelos resultados da última pesquisa nacional do Datafolha, a resposta é não.

De acordo com essa pesquisa, quem aposta em um Brasil dividido em tudo deve se sentir frustrado. Existe um tema que vem incendiando a opinião pública nos últimos anos e que se intensificou com a condenação e prisão de Lula: o apoio à Lava Jato, cuja continuidade é defendida por 84% dos brasileiros. Apenas insignificantes 12% acham que deve terminar. O Brasil todo parece unido na luta contra a corrupção e contra as tentativas de “estancar a sangria”, sonho de tantos políticos e poderosos e até mesmo de boa parte do Supremo Tribunal Federal. Entre esses 84% que querem que a Lava Jato continue estão, por exemplo, 77% dos eleitores de Lula, algo que o PT, que acusa a Justiça de ser seletiva com seu partido, deveria explicar, se de fato a grande maioria de seus eleitores também defende essa cruzada contra a corrupção.

Outro dado importante de uma pesquisa anterior do Datafolha confirma que os brasileiros concordam, quase unanimemente, que a Lava Jato deve seguir seu caminho: em 22 anos, é a primeira vez que a corrupção é a maior preocupação do país. Não é a violência? Não. A corrupção já preocupava quatro vezes mais em 2015. E a educação? Também não. Preocupa quatro vezes menos que a corrupção. Não seria economia, ou o desemprego, a maior preocupação dos brasileiros? Não, a corrupção preocupa cinco vezes mais. E a saúde, a angústia das filas nos hospitais? Nem isso. A corrupção interessa duas vezes mais que a saúde.

Será que os pré-candidatos à presidência tomaram consciência de que a sociedade como um todo, pobres e ricos, continua a favor da luta contra a corrupção? E os governadores, senadores e deputados que pretendem ser reeleitos? Terão percebido os excelentíssimos magistrados do Supremo que a única coisa que parece unir os brasileiros é a luta contra a corrupção, e quase 60% defendem a prisão após condenação em segunda instância sem esperar pelos recursos a instâncias superiores? E que a grande maioria é contra o foro privilegiado?

Sabemos que mais de um magistrado disse não entender o que significa a voz das ruas e que lhes interessa mais a letra da lei que no seu espírito, que é o que deve ser levado em conta quando se trata de julgar indivíduos de carne e osso. Não é segredo que, no Brasil, antes da Lava Jato, a Justiça procurava ser humana e respeitosa com os condenados importantes, para quem a presunção de inocência deveria ser sagrada. O condenado sem nome tornava-se, por outro lado, um número frio e sem alma.

Um povo que foi capaz de metabolizar sem dramas nem tumultos a prisão de Lula e dos grandes industriais do país acusados de corrupção talvez seja mais solidamente democrático e socialmente mais saudável do que uma minoria exaltada se esforça para negar. Se for esse o caso, é uma injustiça grave apresentar, no exterior, um Brasil à beira de um descarrilamento democrático, um golpe militar ou uma guerra civil, como vi escrito em jornais sérios. É injusto porque é falso. O que o mundo deve saber é que, no Brasil, até os mais pobres estão mais preocupados com a corrupção dos poderosos do que com a própria economia, algo que só seria concebível em países com velhas raízes democráticas.

Às vezes, chego a pensar que este país pode até dar uma reviravolta na teoria de Murphy, segundo a qual “se algo pode dar errado, dará”. Talvez seja capaz de interpretar essa lei pessimista mudando-a para o lado positivo: “se algo pode dar certo, dará”. E se nas próximas eleições, apesar de todo o pessimismo, acabar, por exemplo, acontecendo o melhor?