sábado, 17 de janeiro de 2015

O melhor é duvidar sempre, mas não se surpreender com nada

Depois de três semanas de ausência, tento compor estas linhas com o firme propósito de continuar a ser sincero e, agora, com o firmíssimo propósito de não permitir que nelas transpareça, neste início de 2015, a superdose de amargura que me coube (e coube a você também, leitor), em razão, sobretudo, do que de desastroso acontece em nosso país hoje. A tarefa, sei bem, não será fácil, mas há compensação: não somos exceção no planeta, incluímo-nos na regra geral. Só que essa constatação não nos vale para nada… Reinventemo-nos, pois!

Você merece, antes de tudo, os votos (atrasados) de muita paz no Ano-Novo. Mesmo assim, e ciente de que a esperança está em franca queda livre, convido-o a integrar o grupo dos guerreiros que vivem e morrem em nome dessa miragem sempre à mão: “Sem ela, não vivemos, murchamos”, disse Lia Luft, em sua primeira crônica deste ano. A tarefa é desumana, mas a esperança nunca morre, não é mesmo?

Sugiro-lhe, porém, acondicionar, em seu novo alforje, não só durante a difícil viagem que se iniciou há poucos dias, mas “ad aeternum”, o dever do exercício diário da dúvida. Repitamos, então, à exaustão, este mantra: “Duvido de tudo, mas nada me surpreende”. Com certeza, com essa precaução, daqui pra frente, como diz a canção, tudo será diferente, embora sejamos, nesse grande circo, o triste palhaço.

Por outro lado, não insistamos, por favor, no equívoco de achar, como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé, que “crer na evolução moral do homem é ignorância ou simples vaidade”; nem alimentemos a ilusão de considerar, como dizem os santos e espiritualistas, que o homem, por ser criatura de Deus, só pode ser bom. Sejamos prudentes.

Ou será que Pondé está mesmo certo ao afirmar que, “em termos morais e políticos, podemos voltar a qualquer instante à Idade da Pedra, ou pior? Dentro de cada um de nós – conclui ele – vive um neandertal (sem querer ofender seus descendentes, claro)”.

Nossa conversa pode se prolongar até o fim deste ano ou, talvez, até o fim de mais outro, de mais outro, de mais outro… Se isso o angustia, a mim angustia muito mais. Comecemos o ano, então, com esta simples pergunta: será que a presidente Dilma se sente tão apreensiva quanto nós? Ou o poder lhe ofuscou a visão de tal sorte que já não é mais capaz de enxergar um milímetro além do seu umbigo?

Não era intento meu falar sobre nossa presidente, mas sua figura, tanto no primeiro quanto agora, no segundo mandato, ainda que vista de longe, é a mesma: desperta não só em mim, mas em milhões de brasileiros, muitas dúvidas e aflições. Como, pois, distanciar-me de um assunto do qual depende, para o bem ou para o mal, o destino de mais de 200 milhões de humanos? Você conseguiria?

A Petrobras, de cujo Conselho Dilma foi presidente (após ter sido ministra de Minas e Energia), criou empresas de papel, segundo auditoria do Tribunal de Contas da União, para construir um gasoduto na Bahia. Lula e Dilma, em 2010, inauguraram a obra às vésperas da eleição que a elegeu. Mas não é só isso: a auditoria do TCU identificou, na execução da obra, um superfaturamento de 1.800%!

Nada melhor, para definir o momento por que passa o país, do que relembrar alguns versos de um poema de Pablo Neruda, em seu “Canto Geral”: “Por fim, levaram ao Congresso a Lei suprema, a famosa, a respeitada, a intocável Lei da Trapaça. Foi aprovada”.

É disso que se trata: da política que virou trapaça.

Acílio Lara Resende

As adversativas



Não vejo equivalência possível entre uma piada, ainda que ruim, e uma bala na cabeça
Tenho uma fantasia que se manifesta como se fosse um esquete do Porta dos Fundos. Estádio lotado, jogo decisivo, minutos finais. O camisa 10 mata no peito na entrada da área. Dá um chapéu no primeiro beque. Mete por baixo das pernas do beque na cobertura. Toca no contrapé do goleiro, que cai sentado, pateticamente. Golaço.

Então, o camisa 10 parte para a comemoração. Aponta para baixo, bota a língua para fora, faz o sinal do demo com os indicadores e os mindinhos. Por fim, sacode o escudo com o pentagrama antes de ser soterrado pelos colegas. O técnico beija a cruz invertida que oculta sob o agasalho. Os reservas encapuzados brincam de ciranda em torno do mascote do time, um sujeito vestido de bode preto com olhos vermelhos.

Talvez mais alguém ache graça nisso, lembrando dos jogadores que intercalam “toda glória a Deus” a cada declaração banal. Talvez alguém ache de mau gosto. Talvez alguém queira meter uma bala na minha cabeça. Talvez ninguém estranhe nada. Afinal, quando as pessoas perguntam se acredito em Deus, e respondo que sou ateu, sinto que se dissesse “eu acredito em Satã, Senhor de Todos os Infernos” elas ficariam menos decepcionadas. Nesse caso, como a maioria, eu ao menos acreditaria num outro mundo.

Não acredito. Não vejo equivalência possível entre uma piada, ainda que ruim, e uma bala na cabeça. Se os jornalistas foram quase unânimes na condenação do atentado ao “Charlie Hebdo”, e nas implicações dele para a liberdade de expressão, base de todas as outras, inclusive a religiosa, também choveram adversativas relativistas. Sinal de que, pensando nos próprios credos, muitos estão dispostos a perdoar os terroristas.

“Atentados como os de Paris são condenáveis, mas uma coisa é a liberdade de expressão, outra é a mera provocação, e não se pode ridicularizar a fé alheia.” Esta frase é um pequeno frankenstein, que costurei a partir das coisas que li. Claro que também li observações argutas, como a de uma leitora deste jornal, chocada justo pela presença de “conjunções adversativas — mas, porém, contudo, entretanto, todavia etc. — antes de (...) ‘argumentos’ que, invariavelmente, pedem limites à liberdade de expressão.”

Pergunto-me se a turma do “mas” seria tão compreensiva se a redação de um jornal esportivo fosse massacrada por membros de uma torcida organizada furiosa com as gozações feitas ao seu time, algo simples assim, chão, terreno. Acho que não. Porque as adversativas indicam que, na cabeça dessa gente, é o discurso religioso que está a salvo de reparo, crítica ou sátira. Ele e o discurso do culto à personalidade. Porque, como escreveu George Orwell, “um Estado totalitário é na realidade uma teocracia”.

Leia mais o artigo de Arthur Dapieve 

Somos Atlas


Até tu, papa?

PODE
Francisco pisou na bola como qualquer perna de pau do San Lorenzo de Almagro. Preparou uma jogada de placa, mas deu um chutão para a galera.

Chico foi de uma santa infelicidade quando sugeriu que liberdade de expressão tivesse limites. Não foi capaz de lembrar a lição cristã de oferecer a outra face. Mas não que a ofensa, que é também uma forma de liberdade de expressão, tenha como resposta uma agressão física como o soco, ou uma AK-47.

Para agradar gregos e troianos, ou judeus e islâmicos, condenou o que seria um excesso dos chargistas ou humoristas, que deveriam ter medidas de até onde ir, respeitando a liberdade religiosa, que nada mais é o que outra liberdade de expressão.

O papa, nas entrelinhas, estaria censurando o riso, a brincadeira, a crítica, quiçá condenando o que é próprio do homem, portanto, vinda de Deus. Ou não somos imagem e semelhança como asseguram as Escrituras? Deus não sorriria de nossas brincadeiras? Ou seria um Carrancudo, com maiúscula? (Esqueceram da alegria e da brincadeira que tanto espalhou São Francisco de Assis, o menino alegre da Igreja dizendo verdades?)

Chico lembrou que tem que se respeitar a religião como se essa criação humana fosse sagrada acima mesmo da criação. Não são sagrados os vermes, as bactérias, os vírus, os animais, a natureza, o homem? São bem mais do que qualquer religião, expressões máximas de Deus, e, no entanto, não merecem o tratamento digno nem são condenadas com tanta veemência as agressões a elas.

O ataque ao Charlie Hebdo deixou mesmo muita cabeça tonta, porque a liberdade realmente tonteia. Tem que se condenar com rigor o terrorismo, a bandidagem, ainda mais feita em nome da religião, não se pode é ter a mesma medida condenatória à liberdade seja ela qual for, quando aí sim estaremos dando grande passo para satisfazer os falsos sérios, os falsos religiosos, os falsos de qualquer tipo.
NÃO PODE

Nossa dívida


Depois de tudo que logramos fazer, estamos deixando uma civilização do medo para nossos jovens, nossas crianças e aqueles que ainda não nasceram: o medo do aquecimento global e de todas as consequências de um clima enlouquecido; o medo do desemprego em uma economia capaz de usar tecnologias milagrosas que descartam trabalhadores, em vez de criar tempo livre para ser usado livremente; o medo da droga que corrói o cotidiano de cada dependente e sua família; o medo da crescente desigualdade mundial, revelada pelo fato de que as 85 pessoas mais ricas do mundo detêm patrimônio superior a US$ 1,7 trilhões (US$ 20 bilhões per capita) equivalente à riqueza da metade da população mais pobre (3,5 bilhões de pessoas, resultando em US$ 685 per capita); a desigualdade que atinge a mais imoral de suas manifestações ao desigualar a esperança de vida conforme a renda de que a pessoa dispõe para pagar por serviços médicos; uma civilização que superou as desigualdades nobiliárquicas e construiu a desigualdade no direito de viver mais ou menos conforme a renda; sobretudo o mais visível medo, o da violência urbana crescente e do terrorismo impossível de ser controlado se não barrarmos as causas que o fabricam.
Cristovam Buarque em "Nós somos Charlie, nós estamos indignados, nós temos esperança"

Nível do mar subiu mais do que se esperava

Intervenção do Greenpeace na cúpula do clima de Cancún, em 2010

Em seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore alertava que o aquecimento global provocaria uma elevação do nível do mar de mais de 6 metros num futuro próximo, sepultando cidades à beira-mar. Foi um dos exageros mais criticados do filme do Prêmio Nobel da Paz de 2007.

Na realidade, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, que compartilhou o Nobel com Gore, calcula que o nível do mar se elevou a um ritmo de 1,7 milímetro por ano durante o século XX. Durante o século XXI, estimam, o oceano subirá, em média, entre 0,22 e 0,44 metro em relação aos níveis de 1990.

Um novo estudo argumenta agora que as cifras do IPCC para o século XX também estão “superestimadas” e é necessário “revisar” as projeções para o futuro. Seus autores, da Universidade Harvard (EUA), reajustaram os modelos matemáticos com as últimas técnicas disponíveis e calculam que o nível do mar subiu apenas 1,2 milímetro ao ano entre 1901 e 1990.

O trabalho, publicado nesta quarta-feira na revista Nature, está longe de minimizar o problema. Os pesquisadores, liderados pela física Carling Hay, alertam que a aceleração da subida do nível do mar nas últimas duas décadas é maior do que se pensava, alcançando 3 milímetros ao ano entre 1993 e 2010.

O nível do mar sobe porque a água se expande à medida que se aquece e pelo derretimento do gelo terrestre. No entanto, a elevação não é uniforme, mas depende de uma multiplicidade de padrões geográficos analisados agora em detalhe pela equipe de Harvard, que também leva em conta os registros históricos das marés e os dados de satélite. Para o climatologista Jonathan Gregory, coautor dos informes do IPCC, a nova pesquisa é “um passo útil adiante”.

Carling Hay lembra que algumas projeções para o futuro “se embasam nas reconstituições do nível do mar no passado, por isso será importante ajustar esses modelos com os novos dados”.

O IPCC calcula que o nível do mar subiu 120 metros depois do último período glaciar vivido pela Terra, há uns 21.000 anos, até estabilizar-se há uns dois milênios. Depois disso, o mar ficou calmo, até que a Revolução Industrial fez dispararem as emissões de CO2, e o nível do mar voltou a subir. Um estudo recente financiado pelo Governo espanhol concluiu que o nível do oceano no litoral espanhol aumentará entre 0,6 e 0,8 metro ao longo do século XXI se nada for feito para reduzir as emissões.

Transcrito de El Pais

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O povo não é bobo



Os que estão no governo querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia

“Sim, eu sei o que fazem os editores, eles separam o joio do trigo e publicam o joio". A frase clássica de Adlai Stevenson, político americano do Pós-Guerra, pode ser utilizada com variadas intenções. Trata-se, claro, de uma divertida crítica à qualidade da imprensa. Por aí, as verdadeiras notícias estariam na lata de lixo das redações e, lógico, a sociedade ficaria sempre mal informada.

Mesmo quando não admitem, políticos de todas as tendências concordam com Stevenson. Os que estão no governo, então, acham que a frase é perfeita e justifica medidas corretivas. Não é censura, dizem, apenas encontrar meios para melhorar a qualidade da imprensa.

Conversa. O que querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia.

Jornalistas estão o tempo todo decidindo, primeiro, o que se vai apurar, segundo, o que se vai publicar e, terceiro, como se vai apresentar a notícia.

Tudo considerado, caímos na mais antiga questão da profissão: o que é notícia? Há várias respostas clássicas produzidas por jornalistas:

— Se o cachorro morde o homem, não é notícia, se o homem morde o cachorro, é;

— Notícia é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado, o resto é propaganda;

— Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados (Millôr Fernandes);

Examinamos essas teses em coluna aqui publicada em 22/12/2011, com o título “O povo não é bobo". Também pode ser encontrada no arquivo de www.sardenberg.com.br.

A questão hoje é anterior: quem decide o que é notícia? Os patrões, os donos dos jornais, rádios, TVs e sites — diz o pessoal que quer introduzir a censura prévia, perdão, o controle social.

Sim, há veículos nos quais as redações são instruídas a publicar apenas o que os patrões consideram a notícia correta. Exemplo? Todos os veículos cujo patrão é o governo — a conhecida imprensa chapa-branca.

Somos contra a censura prévia e/ou “controle social" — o leitor já terá notado — mas se a regra for introduzida, a aplicação tem que começar pelos veículos do governo. Estes publicam um enorme joio, as versões oficiais: ninguém rouba nada, não há mensalões nem petrolão, tudo funciona e, se não funciona, é por causa da seca, do azar, do mundo, da oposição ou da imprensa do contra.

Ainda tem aí uma baita farsa. O verdadeiro patrão é o povo, que paga os impostos e assim financia a chapa-branca. Mas os políticos, governantes de plantão, usurpam o papel de patrões e controlam essa mídia no interesse dos respectivos partidos. Sim, foram eleitos, e por isso representam a população. Mas, numa democracia, não podem esquecer que tiveram o voto de parte dos eleitores, havendo, pois, uma outra parte que merece respeito — e informação não partidária.

A saída — segundo uma velha tese — é colocar os veículos do governo sob controle de um comitê com representantes dos diversos partidos, em número proporcional aos votos por eles conseguidos.

Esqueçam. Não funciona. Um veículo público assim dirigido vai noticiar não uma, mas várias versões oficiais, o joio do governo e o da oposição. Duplo desperdício de dinheiro do povo.

Há quem recomende a proibição legal: governos, federal, estaduais ou municipais, não poderiam editar veículos de informação geral — de suposta informação geral, no caso. A TV pública, por exemplo, divulgaria apenas programas educativos, cursos e informação efetivamente pública, como campanhas para combater a dengue, chamada para vacinação, previsão do tempo, instruções para agricultores e assim por diante.

Seria mais barata e mais útil.

Outros sugerem que os veículos do governo sejam, afinal, dirigidos como os da imprensa privada de qualidade — aquela cujos jornalistas são guiados por um código formal ou informal, com o objetivo de apurar e publicar o que é notícia ou opinião relevante.

Na prática, é difícil conseguir tal isenção no setor público. Além disso, se a TV pública vai fazer a mesma coisa que a TV privada faz, por que gastar dinheiro do contribuinte com a primeira?

O que retorna a questão: como garantir que os jornalistas escolham o trigo? Ou como a lei pode garantir a qualidade da imprensa?

Não pode. A lei tem que garantir a liberdade da imprensa e, sim, dos jornalistas. A qualidade — ou, a notícia de interesse, publicada de forma correta, isenta e independente —, isso depende do público, do leitor, ouvinte, telespectador e internauta.

O povo não é bobo, sabe onde buscar a informação. Olhem as audiências. É eloquente a audiência zero dos noticiários das TVs púbicas. É evidente a baixa credibilidade dos veículos que só divulgam a voz do dono, seja o governo ou a empresa privada.

O tema seguinte é: como distinguir e quem pode distinguir entre ofensa e crítica? Na próxima.

Bicas continuam a jorrar


Blasfêmia


Tem gente dizendo que cartunistas foram longe demais, o que equivale a afirmar que mereceram. É o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada estava pedindo

Vamos combinar que não existe nada mais ofensivo do que um tiro na cabeça. Não posso imaginar uma blasfêmia maior do que espalhar os miolos de alguém com um AK-47. Porque tem gente dizendo que os cartunistas do “Charlie Hebdo" foram longe demais, o que equivale a dizer que mereceram o que lhes aconteceu. É o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada geralmente estava pedindo.

“Blasfêmia” quer dizer uma afronta ao sagrado. Assim, a verdadeira discussão não é sobre o que as pessoas consideram blasfêmia, mas sobre o que consideram sagrado. A descrença em qualquer divindade é uma blasfêmia perene — ou, visto de outra forma, quem não crê em nenhum deus não pode, por definição, ser um blasfemo.

Muitas vezes o que se faz em nome de uma crença ou de uma divindade é que é blasfêmia: uma ofensa a quem acha que sagrado deve ser a vida humana, o direito de pensar livremente e o direito de descrer. Não se está falando só do islamismo radical. Já houve tempo em que não acreditar no Deus da Igreja Romana era razão suficiente para ser queimado vivo. Levava mais tempo do que um tiro de AK-47. 

Leia mais o artigo de Luis Fernando Verissimo

O limite da liberdade de expressão



Qualquer limite à liberdade de expressão é o limite da lei. O que passar disso, tenha certeza, é vigarice
Quando alguém começa a colocar aspas antes e depois de liberdade de expressão é porque alguma coisa está errada.

É alguma coisa parecida com a “democracia relativa”, engenhosa criação da mente castrense do general Ernesto Geisel - que equivale mais ou menos a uma quase gravidez, alguma coisa produzida por um descuido, uma coisa que deveria ter sido evitada, mas como não foi, acabou produzindo resultados que desmoronam os nossos edifícios de certezas e atrapalham a pureza do discurso.

Nada mais reacionário do que alguma coisa que pode ser feita, mas só pela metade, por exigência da moral, dos bons costumas e da hipocrisia politicamente correta, a grande praga comportamental desta primeira metade de século.

O caso do massacre do Charlie Hebdo conseguiu produzir uma verdadeira teratologia de opiniões, mais chocante do que o traço irreverente que algumas das piadas pecaminosas dos gênios metralhados pelo fundamentalismo islâmico.

Mas eles abusaram…É sempre assim que começa a relativização dos neo-iluministas que acham as piadas uma grosseria inominável e uma ofensa “às crenças do outro”, mesmo desconsiderando que na cultura do “outro" as mulheres, os homossexuais e os infiéis não têm direito sequer à existência. Decapitar infiéis, por exemplo, deve ser uma característica respeitável de sua cultura.

A suposta “islamofobia” (não importa que o Charlie Hebdo seja também catolicofóbico, militarofóbico, politicofóbico, ladrofóbico, autoritáriofóbico e tudo mais que termina em fóbico) do pasquim humorístico francês é um pecado tão terrível que chega a justificar os 12 assassinatos.

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris escreveu em sua coluna semanal na Folha que na verdade o semanário humorístico atacado pelos fundamentalistas é culpado de “cretinofobia”:

“Charlie Hebdo” é uma publicação cretinofóbica, porque acha cretino qualquer um que adira a uma crença sem a capacidade de rir dela e de si mesmo enquanto crente”.
Leia mais  o artigo de Sandro Vaia

O gargalo permanece o mesmo


Cada vez mais as elites conservadoras acionam a velha cortina-de-fumaça para justificar sua inação e seus privilégios diante das agruras de quantos enfrentam a pobreza. Sustentam estar fazendo o máximo possível ao defender como sua única obrigação promover o que chamam de igualdade de oportunidades para todas as crianças e jovens. Nem isso é verdade, como demonstram as estatísticas do próprio governo, porque salta aos olhos não bastar, para vencer na vida, a frequência a escolas que fornecem merenda e providenciam uniformes de graça. Mesmo a quota para minorias, nas universidades, constitui enganação.

Os poderosos lavam as mãos a partir dessa premissa, visando manter como estão as relações econômicas, sociais e políticas da sociedade desigual. Eximem-se da responsabilidade como se fossem as mesmas as preliminares do sucesso. Esquecem-se, ou não se lembram, de ser ilusória a livre concorrência entre quantidades desiguais. Só como exceção um menino nascido na favela ou na periferia, muitas vezes sem saber quem é o pai, mesmo frequentando a escola, jamais terá as mesmas condições de competir com um pimpolho bem nascido e bem criado.

Não é por aí, assim, que se chegará à igualdade e ao aprimoramento das sociedades e das nações. O papel do Estado não pode resumir-se a prestar educação a todos, apesar de ser imprescindível essa primeira etapa. Torna-se necessário exigir as outras obrigações do poder público, desde o aprimoramento dos direitos sociais do trabalhador, que governos recentes vem suprimindo ao invés de ampliar, até a gradativa redução de privilégios das elites. Parece impossível nivelar num único denominador a capacidade de cada ser humano, mas reduzir as diferenças materiais entre todos constitui meta fundamental.

O preâmbulo se faz a propósito do início do segundo mandato da presidente Dilma. Inexiste um programa capaz de objetivar a igualdade, mesmo como objetivo longínquo. Não será através do Bolsa Família e outros programas assistencialistas que se chegará a lugar algum. Em especial com a supressão de direitos trabalhistas, como acaba de acontecer. De nada adiantarão os tais “ajustes” preparados pela nova equipe econômica, com ênfase para o aumento de impostos. As elites continuarão onde sempre estiveram, ou seja, muito bem, enquanto a ilusão da mesma escola para todos permanecerá favorecendo os bem nascidos, até muito mais do que os bem dotados.

Em suma, falta ao país um governo decidido a reduzir as diferenças sociais, apesar da intensa propaganda em sentido contrário. O gargalo permanece o mesmo.

Carlos Chagas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Insatisfação geral e irrestrita


A busca desesperada por algo que gere prazer e satisfação de modo rápido, intenso e constante tem sido uma das marcas de nosso tempo. A grande questão é que o envelhecimento das novidades se tornou um processo tão rápido que embriagar-se perdeu a graça, pois a ressaca invade a ilusão do falso relaxamento, que era o desejo buscado.

Somos vorazes e intensos, queremos tragar o mundo como um ébrio vira seu quarto copo de cachaça. Como se o beber social fosse perda de tempo, esquecemos que o mundo deve ser degustado, e não deglutido e devorado. Vagamos feitos zumbis afetivos, guiados pelos GPS de celulares onipresentes, gerando conteúdos tão descartáveis quanto as selfies do mês passado. Abrimos mão das lembranças, esquecidos que a cultura nada mais é que o acúmulo de vivências do passado, ensinadas por quem nos antecedeu. Sabedoria é a transmissão oral de experiências dos pais e avós, e além deles.

A mudez e inibição entre as atuais gerações, assim como a inibição afetiva entre elas, está por trás da constatação que a geração Y é a menos qualificada dos últimos dois séculos. Tirem os eletrônicos deles, impeçam que acessem ao Google ou aplicativos, desativem a internet e vamos ver a inteligência deles. Sem esquecer que o atual conceito de inteligência é a capacidade de sobreviver e adaptar ao mundo que o cerca. Para uma geração dos nem-nem, que não querem estudar nem trabalhar, é difícil imaginar que eles serão nossos futuros líderes. Mesmo porque futuro é algo que eles não projetam, afinal, no mundo das telas, não há tempo ou espaço; apenas o vício de conectar e não sentir o ciclo dia-noite, meses-ano, apenas o agora e a agonia de acessar a rede social, a escravidão do WhatsApp,de superar a fase do game atual ou o do que viralizou no YouTube.

Transtornos de ansiedade severos aparecem a cada dia para essa geração, como temor de desconectar-se mesmo à noite, abstinência de celular levando pânico quando o mesmo é roubado, perdido ou simplesmente esquecido em casa, com sensação de impotência, fraqueza, como se estivesse despido ou perdido em um mundo estranho. Sem contar o transtorno de sentir-se desatualizado quando desliga o celular, nas férias ou fins-de-semana, e mesmo para o almoço ou um lazer mínimo que seja. Quanta agonia,quanta correria e ... Todo mundo insatisfeito! E, na época do descartável, tudo perde a graça rapidamente.

Nas relações afetivas, sempre tem alguém que desejamos apenas por ser de outro, enjoa-se rápido, se quer sempre o que não se tem e desvaloriza-se o que já se conquistou, sem curtir a satisfação, a recompensa, o relaxamento e prazer pós conquista. Trabalho? A rotina, o salário, as pessoas e lá vem o desejo de trocar de emprego, que nunca foi tão frequente, mal criando vínculos afetivos ou ascensão profissional.

Estudar? As relações nas comunidades escolares tornam as escolas, berço de distúrbios comportamentais, fabricantes de transtornos psíquicos que acometem desde professores e alunos até pais e funcionários. E o que dizer das relações entre pais e filhos, das famílias conectadas e individualizadas nas suas insatisfações do dia-a-dia, incapazes de dialogar, sem tempo para trocas afetivas e sem conseguir comunicar-se?

Vale pois um princípio básico, cognitivo, comportamental: relaxamento é o passaporte para o prazer natural. Temos cinco antenas parabólicas que nos desvendam o universo: os cinco órgãos do sentidos ver, ouvir, tocar, cheirar e degustar. E o mundo é tão maior e mais satisfatório para os que têm tempo para perceber esse mundo, experimentá-lo, observá-lo e senti-lo. Mas esse milagre exige que possamos nos desconectar. Afinal, a tela não faz carinho, cafuné, nem tem ombro amigo para oferecer. Apenas o vício e ilusão de um mundo virtual inodoro, sem gosto ou sabor. A decisão é sua...

Eduardo Aquino

Central telefônica


O novel teatro do absurdo


Venho, há algum tempo, procurando entender os acontecimentos que estamos vivendo no Brasil e imaginando o que a história dirá a nosso respeito ao final deste primeiro século dos anos 2000. Tenho receio de que passemos à história como um povo “meio doido, meio sem-vergonha, desonesto e convictamente mentiroso”. Uma pena, porque, na verdade, só merecem esses qualificativos os que compõem a minoria alimentada pelas tetas da nação, liderada por analfabetos fanáticos, que exploram a boa-fé dos menos favorecidos, retirando sua dignidade e sua necessidade de trabalho honrado em troca de bolsas e alguns trocados.

São maldosos e pilantras que alimentam a boa-fé do nosso povo com promessas vãs, tentando imprimir em suas atitudes uma espécie de espiritualidade, amparando líderes bêbados e paus-mandados de países que se dizem de esquerda apenas para serem diferentes. Vide o exemplo de Fidel Castro, que vive em sua ilha particular ao estilo Côte d’ Azur, enquanto o povo come o pão que o diabo amassou. Outro podre, com nome de Maduro, “gigola” nosso país para gáudio dessa meia dúzia de mentirosos e ladrões da pátria.

Resolvi, mesmo a contragosto, ver o surrealismo da posse daqueles que se dizem vitoriosos de uma batalha em que todos morreram. Em Minas Gerais, a inovação foi fantástica. O novo governador, não satisfeito com as 21 secretarias de Estado já existentes, nomeou mais seis ou sete secretários sem secretarias. Então, primeiro nomeiam-se os secretários e depois criam-se as secretarias. Fazem um tipo de “grilas” de ministérios ou secretarias e jogam para cima. Quem pegar é dono...

No plano federal, não podem mais nomear ministros, senão inteira 40, o número de ladrões de Ali-Babá. Nós temos um governo de duas cabeças, quatro mãos, quatro pernas e 39 dedos. Mitologicamente, qualquer coisa parecida com a Hidra.

Escutei dois discursos, ambos patéticos. O primeiro, de Dona Dilma, a assaltante, vestida com uma roupa parecida com toalha de altar: “É preciso defender a Petrobras dos inimigos externos e dos predadores internos”. Oh, meu Deus, mas não foi ela quem fez essa lambança que desmoralizou e ferrou o país, quando presidia o Conselho da Petrobras, composto por nove membros, no governo do ex-Luiz, ganhando R$ 87 mil por mês mais o salário de ministra? Dona Dilma sofre de amnésia? Não foi ela, como ministra, que criou uma “empresa de papel” para construir e operar a rede de gasodutos, conforme constatação da ANP, a Gasene, que, de acordo com o TCU, teve custos superfaturados em mais de 1.800%? Ah, me poupe ou me desminta...

Bem, outro discurso foi daquele tal de Gilberto Carvalho (ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência), um comunista implicado na morte do prefeito Celso Daniel, de Santo André, até hoje sem solução, por conveniência. Sua Excelência me convenceu de que eu sou o culpado por toda essa desgraceira que está corroendo as entranhas do nosso país. Sendo assim, peço que me desculpem, mas eu não sabia de nada, pô...

Educação zero


Governo e Petrobras encenam tragédia de erros



Temos algumas opções para avaliar as reações do governo em torno dos escândalos de corrupção na Petrobras. A primeira é a de que o governo tenta empurrar o problema com a barriga, na esperança de que o tema faça parte da paisagem e todos se acostumem.

A segunda hipótese é a de que o governo não sabe o que fazer, por isso teme dar um passo adiante e piorar tudo. Além disso, teme que um simples mexer nas peças do tabuleiro possa desencadear novas investigações. Como se, ao abrirmos o armário, caíssem dezenas de esqueletos.

A terceira hipótese é a de que o governo está dividido sobre o que fazer. Caso se leve ao pé da letra o que a presidente Dilma Rousseff disse em sua posse sobre o combate à corrupção, não ficará pedra sobre pedra, e o PT, entre outros partidos, vai sangrar muito. Haverá também gente muito importante sangrando.

Considerando o governo, sua competência política e sua estratégica e, ainda, a fratura em sua base política, onde se inclui o próprio PT, a hipótese mais provável é uma quarta que junta todas as três anteriores.

Vamos à quarta: o governo espera que o tema deixe as páginas principais dos jornais ou seja relegado a espaços menos nobres. Até lá, confia em conseguir juntar sua base política para impor uma estratégia que reduza os danos causados pelos escândalos. Porém, não sabe como fazer isso e tampouco tem competência para tal.

Além do mais, está dividido sobre o que fazer. Teme que mais ex-diretores da Petrobras resolvam confessar outros crimes; assim como teme os acordos de delação premiada e os acordos de leniência que estão a caminho.

Dilma insiste em manter como presidente da empresa Graça Foster, que está completamente desmoralizada. Sobretudo após a acusação do Tribunal de Contas da União de que a estatal criou empresas de fachada com laranjas para operar a construção de gasodutos no Nordeste.

Considerando as opções mencionadas, a reação do governo é equivocada. O certo, neste momento, é demitir toda a diretoria, profissionalizar a escolha e empreender uma ampla limpeza na empresa. O governo comete um grave erro, pois demonstra ser conivente com os malfeitos que ocorreram no interior da maior empresa da América Latina. O entorno político do governo se fecha para ver se o tsunami passa. Mas não vai passar.

O potencial destruidor do caso Petrobras é monumental. E não apenas em nível nacional. Internacionalmente, o tema já está fora de controle. Existe quase uma dezena de ações contra a empresa, além das investigações que correm na Securities and Exchange Commission (SEC) e no Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Todos os conselheiros da Petrobras, inclusive Dilma Rousseff, podem ser investigados e, eventualmente, punidos criminalmente pelo ocorrido. Tempos atrás, quando ainda era ministra da Casa Civil, Dilma disse, em uma declaração à televisão (que circula na internet), que a empresa seguia padrões SOX de legislação anticorrupção.

Fica patente que ela tinha completa noção das consequências de eventuais malfeitos na empresa. Portanto, salvo a proteção diplomática de ser presidente da República do Brasil, tudo conspira a favor de uma punição exemplar para diretores e conselheiros. Imaginem o vexame para o país.

Sem uma reação digna e corajosa, a tragédia de erros vai continuar e pode levar o governo para um beco sem saída. 

Murillo de Aragão

Lição sobre fome e dinheiro

 
Eu lembro quando no Congo eu recebi as diárias, o dinheiro para sobreviver naquele lugar. E eu lembro que eu estava morrendo de fome, e era de tarde já, e não tinha nada para comer na casa. Lembro que eu perguntei: “Não tem nada aí para comer? Estou com muita fome”. E a moça disse: “Teve um ataque ontem, lá no mercado, e não sobrou nada. Não tem nada”. E você se dá conta do valor do dinheiro – um pedaço de papel que é significado puro. E, naquele dia, por exemplo, ele não significava nada. Eu não podia comprar nada com o meu dinheiro. Estava lá, com o dinheiro dentro do bolso e não tinha um grão de arroz para comprar porque não havia paz naquele lugar. E aí você começa a se dar conta de qual é o valor das coisas materiais. Você não come o seu dinheiro. Você não come o seu salário. Há outras coisas ali que têm uma importância e um significado muito maior e que não são coisas físicas. As coisas materiais te dão uma sensação de paz, mas é apenas uma sensação de paz, não é a paz. Não é a saúde, não é a riqueza. É uma sensação de tudo isso. Que pode ser destruída muito rapidamente. Talvez isso tenha ficado mais evidente para mim. Já tinha um significado, mas não tinha essa força que tem hoje
Debora Noal, Médicos Sem Fronteiras 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A depressão causada pelo futuro incerto desta cleptocracia


Recebi coincidentemente três mensagens nos últimos dias de pessoas que declaram não ter comemorado tradicionalmente a passagem de ano. Não encontraram motivos de alegria para prolongar a noitada. Sentimento de melancólica tristeza, apreensão e incerteza. São eles uma parte deste mundo verde-amarelo, captando as radiações do momento nacional. Que motivo têm de ter orgulho nacional? Quebra de autoestima brota das circunstâncias reais.

Confesso que, pela primeira vez na vida, eu também, um otimista contumaz, um desabrido enfrentador de dificuldades, não comemorei como de costume a passagem de ano. Arrumei um jeito de ficar sozinho, olhando da varanda para o céu, rezando. Sem copo e sem champanhe. Rezando para este mundo de jovens que vem aí. Rezando para que aconteça algo que alimente a esperança, a última a morrer.

Não tenho o que reclamar para mim, nada me falta, minhas exigências pessoais vão se encolhendo a cada ano, assim como se afunila o horizonte de vida. Peço a Deus que me evite a dor, mantenha minha mente lúcida e a vista suficiente para ler e aprender. Que mantenha o cálice amargo afastado, o resto é prêmio.

Mas no papel de pai, de condutor de empreendimentos, como gerador de empregos que envolvem famílias, feitas de gente, me assombro com tantas dificuldades. Uma situação a cada dia mais complexa, ninguém neste país fala de descomplicar, leis enganosas para sugar de quem trabalha e transferir para encastelados e corruptos instalados no topo da pirâmide do poder.

Já surge em muitos o sentimento da greve civil, deixar de pagar impostos para emparedar os governantes à moralidade. Mas isso também é ilusório e complicado. Entretanto, a não violência e a desobediência aos tiranos fizeram de Gandhi o maior político de todos os tempos.

Eu sou da geração que vestiu a camisa com flores, os jeans coloridos, usou cabelos compridos, adorava Bob Dylan, viajava de moto e dormia em qualquer lugar sem sentir desconforto. Um dos tantos que tinham no orientalismo uma referência. Quer saber como? Leia a biografia de Steve Jobs nas “loucuras juvenis”, que fizeram dele uma personalidade valiosa para este planeta.

Eu posso me dar luxos que já não me interessam, me sinto um Qoelet, me espelho no Eclesiastes, perdi as ilusões dos brilhos efêmeros do meio-dia. Prefiro as cores tênues do pouso do sol, aquelas que permitem ver com suavidade. Eu vou à praia quando os outros voltam e fico até o sol cair, sentindo a brisa sem protetor solar.

Prefiro de um Fiatzinho assistir ao desfile de carrões e me sentir seguro de não ser assaltado.

Felicidade não se mede em Ferraris na garagem ou no salão de casa, felicidade é não sentir falta de algo que não temos.

“Per aspera ad astra”, como sustentou Pietro Ubaldi, o caminho do sofrimento é o mais curto. Impérios se ergueram na capacidade de sacrifício, na seriedade e duraram até o momento em que os princípios éticos predominaram na condução do destino de uma sociedade.

Nada disso enxergamos hoje por perto, menos ainda no horizonte. Daí quem tem percepção costuma se encolher e ficar espectador do inevitável.

O Brasil está corroído pelo “bizantinismo burocrático”, que vem sempre associado ao imperar da corrupção. Democracia se transforma em cleptocracia. De um mensalão que desviou R$ 300 milhões se passa a um petrolão que amealhou R$ 21 bilhões. Se a progressão é essa, e a sociedade não tem como conter o avanço da imoralidade, pode-se prever que Sodoma e Gomorra serão incineradas muito em breve.

Tem esperança de evitar uma catástrofe? Gostaria sinceramente de enxergá-la.

O que é um partidaço


Macaco, cuida do teu rabo!


São tantas as investidas do governo da União contra a autonomia dos Estados e municípios que já não as vemos como investidas nem como anomalias institucionais. Quando a presidente Dilma convidou José Eduardo Cardozo para o Ministério da Justiça, ela estava sinalizando para um agravamento dessa situação e para uma radicalização à esquerda em seu governo. O novo ministro pertence à nata do Foro de São Paulo, em cujas reuniões desfia sua oratória revolucionária. Por convicção política o novo ministro só pode ser partidário da centralização, do acúmulo de poder, da unidade de comando.

Não apenas o Ministério da Justiça operará com tais propósitos. Assim será, também, o conjunto do governo por imposição racional das convicções políticas petistas. A democracia como vista por nós, cidadãos comuns, não é a mesma que o PT propõe. Para o partido governante no Brasil, a nossa democracia é burguesa, frágil e pronta para ser comida pelas bordas.

O senhor Cardozo, em recente entrevista ao Estadão, expôs seus projetos para a Segurança Pública, com destaque para a construção de uma estrutura permanente de colaboração das polícias estaduais com a federal. Editorial do mesmo jornal informa que o governo encaminhará ao Congresso um projeto de emenda à Constituição, ampliando o elenco de crimes em relação aos quais passaria a haver competência da União para intervir. No outro lado da cancha, garante o ministro, os Estados conservariam as prerrogativas atuais. Com as palavras de Sua Excelência: “Hoje não posso impor para a PM do Estado normas operacionais. Mas, se tiver uma competência concorrente, posso ter a União estabelecendo diretrizes gerais sem suprimir a possibilidade de os Estados tratarem do mesmo assunto”.

Enquanto planeja uma nova maneira de intervir nas competências dos entes federados, o governo petista descuida do próprio rabo. Sim, porque existe um bom elenco de crimes constitucionalmente postos na alçada federal. Entre eles, estão os crimes praticados por autoridades da República, que têm sido investigados com maior sucesso pela mídia nacional do que pelos órgãos federais incumbidos de fazê-lo. E vale lembrar ao ministro que também são de competência federal, entre outros, os crimes sempre bilionários contra o sistema financeiro, a lavagem de dinheiro, o contrabando e o descaminho. E lá também está o rabo do macaco estendido no meio da avenida.

Nas modernas democracias constitucionais, descentralização é um quase sinônimo de democratização. Pelo viés oposto, centralização é um quase sinônimo de autoritarismo, ou totalitarismo, ou tirania. É algo assim que está em curso no Brasil, de um modo escancarado. O governo da República se sente dispensado de disfarçar o caráter autoritário, totalitário ou tirânico de suas incursões pelas unidades federadas distribuindo dinheiro e brindes como se a vida nacional fosse um grande programa de auditório em que a falsa generosidade arranca abobalhados aplausos.

Percival Puggina