domingo, 23 de novembro de 2014

Inundação à vista


Apocalipse, agora


Passada uma semana do juízo final, ainda me pergunto cadê a Dilma. Ela disse que as contas públicas estavam sob controle e elas aparecem com imenso rombo. Como superar essa traição da aritmética? Uma lei que altere as regras. A partir de hoje, dois e dois são cinco, revogam-se as disposições em contrário.

Os sonhos de hegemonia do PT invadem a matemática, como Lysenko invadiu a biologia nos anos 30 na Rússia, decretando que a genética era uma ciência burguesa. A diferença é que lá matavam os cientistas. Aqui tenho toda a liberdade para dizer que mentem.

Cadê você, Dilma? Disse que o desmatamento na Amazônia estava sob controle e desaba sobre nós o aumento de 122% no mês de outubro. Por mais cética que possa ser, você vai acabar encontrando um elo entre o desmatamento na Amazônia e a seca no Sudeste.

Cadê você, Dilma? Atacou Marina porque sua colaboradora em educação era da família de banqueiros; atacou Aécio porque indicou um homem do mercado, dos mais talentosos, para ministro da Fazenda. E hoje você procura com uma lanterna alguém do mercado que assuma o ministério.

Podia parar por aqui. Mas sua declaração na Austrália sobre a prisão dos empreiteiros foi fantástica. O Brasil vai mudar, não é mais como no passado, quando se fazia vista grossa para a corrupção. Não se lembrou de que seu governo bombardeou a CPI. Nem que a Petrobrás fez um inquérito vazio sobre corrupção na compra de plataformas. A SBM holandesa confessou que gastou US$ 139 milhões em propina.

E Pasadena, companheira?

O PT está aí há 12 anos. Lula vez vista grossa para a corrupção? Se você quer definir uma diferença, não se esqueça de que o homem do PT na Petrobrás foi preso. Ele é amigo do tesoureiro do PT. A cunhada do tesoureiro do PT foi levada a depor porque recebeu grana em seu apartamento em São Paulo.

De que passado você fala, Dilma? Como acha que vai conseguir se desvencilhar dele? A grana de suas campanhas foi um maná que caiu dos céus?

Um dos traços do PT é sempre criar uma versão vitoriosa para suas trapalhadas. José Dirceu ergueu o punho cerrado, entrando na prisão, como se fosse o herói de uma nobre resistência. Se Dilma e Lula, por acaso, um dia forem presos, certamente, dirão: nunca antes neste país um presidente determinou que prendessem a si próprio.

As instituições e a natureza das coisas



De forma lenta, gradual e segura, muitas instituições nacionais vão se desligando do governo. Anos atrás seria inadmissível imaginar a Polícia Federal trabalhando separada dos interesses do Executivo, agindo com independência. Pelo contrário, basta lembrar os tempos da ditadura militar, quando os policiais federais eram mero prolongamento do poder dos generais, um deles sempre comandando a corporação.

O Ministério Público atuava na mesma linha. Cabia aos procuradores federais denunciar subversivos e ameaçar jornalistas com a aplicação da lei de Segurança Nacional e da lei de Imprensa. Mesmo na Nova República, a Procuradoria Geral da República funcionava como advocacia do palácio do Planalto e adjacências.

O próprio Poder Judiciário acomodava-se à força maior, depois de aceitar a esdrúxula imposição de que determinados temas eram “insusceptíveis de apreciação judicial”. Extinto o regime militar, o uso do cachimbo ainda deixou a boca torta por longo tempo.

Quanto ao Congresso, libertado das tenazes do regime castrense, ainda subordinou-se por anos a fio aos caprichos do presidente da República, obrigadas as maiorias parlamentares a votar de acordo com os interesses do Executivo. Claro que já então exigindo compensações fisiológicas.

Pois agora as coisas mudaram. Polícia Federal, Ministério Público, Judiciário e até o Legislativo dão mostras de não estar mais amarrados à vontade dos csares. Os poderes da União libertaram-se da tutela e passaram a exercer suas prerrogativas constitucionais, em especial depois de 1988.

Só os companheiros não perceberam isso, imaginando deter o mando absoluto que o Executivo não mais possuía. De Fernando Henrique ao Lula, os presidentes da República começaram a bater de frente com as instituições que a Constituição garantia, colhendo percalços sucessivos.

Assim estamos, consistindo as investigações, as denúncias, os julgamentos e até as CPIs e as cassações numa espécie de marco a delimitar e ampliar atribuições e prerrogativas que novas gerações assumiam e exerciam.


Por isso não se estranha estar o governo Dilma na defensiva, sendo enquadrado pelo exercício das instituições nacionais. O palácio do Planalto ainda dispõe de muito poder, mas não mais de todo o poder. Será aceitar o rumo dos ventos, porque insurgir-se contra a natureza das coisas não dá mais.

Paisagens Brasileiras

Oswaldo Teixeira, Correias, Petrópolis

Século XXI


No século XXI uma sonda, depois de 10 anos viajando pelo espaço, pousa num cometa e o que vejo é tão diferente da minha imagem poética de um cometa... Vejo pedras, aridez.

No século XXI todas as grandes Bibliotecas estão ao alcance das mão, realizando o sonho alucinante do poeta Borges de uma Biblioteca Infinita como paraíso.

No século XXI tudo o que acontece no mundo, eu sei agora, no minuto em que está acontecendo, tudo é instantâneo e se dissolve como leite em pó. Como poeira de um cometa fugaz.

No século XXI distância e tempo não existem mais como conhecíamos antes. Posso alcançar a voz de um ser amado a milhares de quilômetros de distância, agora no mesmo segundo em que penso em sua voz.

Mas no século XXI, como na Idade Média, como na Europa depois das grandes guerras, no século XX,como na Pré-história, as pessoas se deslocam de um lado para outro, caminham foragidas por grandes distâncias, açoitadas pela fome, pelo medo, pela saudade das suas casas ou cavernas perdidas.

São milhares os apátridas, os refugiados, as crianças que atravessam órfãs e sozinhas as fronteiras
Mas no século XXI, as atrocidades se parecem com atrocidades antigas, perdidas no fundo do poço do tempo.

O inimaginável acontece no século XXI . O mal em estado puro. O mal em estado absoluto. Pessoas desaparecem, e como na história da Alice no País das Maravilhas, que me dava tanto medo quando eu era criança, uma voz diz : "Cortem-lhe a cabeça". Seja no México, na Síria, no Iraque.

Precisamos abraçar nossas crianças, oferecer amor , o pão da beleza, arte, pedaços de aurora e sussurrar em seus ouvidos as mais lindas canções e dizer, podemos ser bons, podemos plantar, podemos cuidar, podemos guardar no coração o rastro azul de um cometa, podemos, como diz a Bia Bedran em seu livro "Fazer um Bem", fazer um pequeno bem cotidiano por qualquer ser vivo, e até mesmo pelas pedras.

Podemos afagar nossas crianças e sussurrar em seus ouvidos, vamos mudar o mundo.

Roseana Murray

Gotas de lágrimas (1930)


Mozart Bicalho (1901/1986) foi violonista, compositor e poeta pouco lembrado, mas que deveria figurar entre os mais importantes compositores brasileiros na primeira metade do século XX.

O eleitor consciente não sabia


A gasolina aumentou, a energia vai aumentar muito, o teto da meta de inflação virou piso e os juros voltaram a subir
Os eleitores progressistas de Dilma Rousseff estão radiantes. Foi muito importante a esquerda ganhar a eleição no Brasil. O candidato burguês da elite branca jamais celebraria o Dia da Consciência Negra como o fez a presidente mulher e oprimida. Devota de Zumbi (o que fica claro pelo estilo do seu governo), Dilma exaltou um Brasil que “se orgulha da sua cor”. Se você não sabia, eleitor derrotado da direita capitalista, agora ficou sabendo: o Brasil tem uma cor. E não é a sua, seu branco azedo. Aí você perguntaria: se o Brasil de Dilma é negro, não seria melhor ela entregar logo a Presidência a Joaquim Barbosa e se exilar na Argentina?

Pronto, lá vem a elite branca com a sua vocação golpista. É bem verdade que também há brancos entre os eleitores conscientes que salvaram o Brasil, garantindo mais quatro anos ao PT. Mas é só aparência. São todos negros por dentro. Negros como o petróleo viscoso que jorrou nas contas bancárias do PT e aliados nos últimos dez anos.

O eleitor progressista do bem votou na candidata do povo já sabendo o que tinha acontecido com a Petrobras. Desde o início do ano a Operação Lava-Jato da Polícia Federal veio mostrando, como numa novela de Aguinaldo Silva, capítulo por capítulo da privatização da maior empresa brasileira pela maior quadrilha brasileira — instalada na diretoria da estatal com as inconfundíveis digitais petistas. Nada disso abalou o eleitor de esquerda, porque ele sabe que privatização perigosa é a dos neoliberais. Se o PT e sua gangue tomam posse do que é do povo, isso é socialismo. No máximo na próxima encarnação você recebe a sua parte.

O que talvez tenha chateado um pouco o eleitor antenado de Dilma foi um detalhe desagradável do caso Petrobras. Só depois de passada a eleição, ele ficou sabendo o nome da empresa offshore do ex-diretor de serviços Renato Duque — um dos prepostos petistas no esquema, que está preso. A empresa depositária das propinas no exterior se chama “Drenos”. Isso magoa um progressista. Mensalão, petrolão, enfim, drenar o dinheiro do povo por 12 anos, prorrogáveis por mais quatro, tudo bem. Mas fazer piada interna com isso é demais. Os companheiros Valério, Delúbio e Vaccari jamais fariam isso. Parece até coisa da elite branca.

Os desvios criados pelo PT nesses três mandatos do governo popular sempre foram coisa séria — dinheiro sujo para financiar a revolução limpa e gloriosa (e os charutos do Delúbio, que ninguém é de ferro). Enfim, roubaram sem perder a ternura. O eleitor progressista e libertário do Rio de Janeiro — que junto com Minas Gerais decidiu a eleição em favor de Dilma — sabia de tudo isso, e explodiu de orgulho do seu voto no PT. Só não sabia que, no meio de toda a sucção revolucionária de dinheiro público, havia um engraçadinho batizando uma offshore do esquema de Drenos. Como assim? Como um companheiro do bem que ama o Nordeste, os negros e os pobres faz uma coisa dessas? Será que ele confundiu socialismo com drenagem?

sábado, 22 de novembro de 2014

Camada ideal pra governo


O arauto do que vem por aí


É melhor prestar atenção ao que anda dizendo o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, goste-se dele ou não

Quem ainda nutre a esperança de que o governo possa imprimir rumo mais promissor à política econômica, em 2015, deve acompanhar com atenção o que vem sendo dito por Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil da Presidência.

Em reunião com a bancada petista na Câmara, na semana passada, o ministro foi direto ao ponto: “A política econômica do segundo governo não pode ser a que foi derrotada. A nossa prioridade é emprego e renda. A nossa agenda não é a do mercado.” (O GLOBO, 14/11).

Dois dias depois, em entrevista no Palácio do Planalto a Míriam Leitão, na GloboNews, Mercadante deixou claro que, três semanas após o segundo turno, o governo continua aferrado ao discurso econômico descolado da realidade a que se apegou durante a campanha eleitoral.

Bem-falante, o ministro consegue repetir de forma mais articulada os argumentos que Dilma tentava brandir ao longo da campanha. Mas, ao ser mais claro, Mercadante torna ainda mais evidente a absurda dissonância cognitiva que vem marcando o discurso do governo.

O que se ouviu foi uma longa fieira de mistificações. A estagnação da economia é simples desdobramento da desaceleração da economia mundial. Se olharmos nosso entorno na América Latina, a situação não é diferente. Não há nada errado com a política de combate à inflação. O Banco Central sempre teve autonomia operacional. A presidente não fala sobre juros. A inflação sempre esteve dentro da meta. Não houve nenhum represamento de preços de energia elétrica e combustíveis. Ao contrário do que se alega, a política econômica foi uma escolha vitoriosa. O reconhecimento do êxito desse projeto foi dado pelos “54 milhões de votos, 3,5 milhões a mais que o segundo colocado, um Uruguai a mais”.

Em face do risco cada vez mais alto de um vergonhoso rebaixamento da dívida soberana do país, é espantoso que o Planalto se permita adotar discurso tão acintosamente explícito de defesa da irresponsabilidade fiscal. Já não há nem mesmo preocupação em manter as aparências.

O império da mentira

Marqueteiros políticos são uma espécie moderna de mentirosos profissionais de alta performance, que são mais eficientes quando distorcem fatos e números e ampliam supostos defeitos e suspeitas sobre os adversários. O problema é o candidato vencer as eleições e continuar acreditando na campanha do marqueteiro, mesmo diante da realidade adversa dos fatos e dos números.
 Leia mais o artigo de Nelson Motta 

O X da questão


E, no entanto, a Petrobras sem X já estava ‘privatizada’ há muito tempo... Profetas do passado, agora sabemos por que o estouro do mensalão não acabou com o governo Lula.
 Durante os oito anos de seu governo, palanque sim, palanque não, ao mencionar sua maior criação, a herança maldita, Lula criticava a audácia de FHC em querer trocar para Petrobrax o nome de nossa maior empresa.

Esse X seria a prova do que o governo tucano pretendia fazer: privatizar a joia mais brilhante de nossa coroa.

Dona Dilma, herdeira do Lula, também usou esse ‘dado concreto’ em seu governo e durante a campanha pela reeleição. A cada vez que não tinha como responder a Aécio Neves, lembrava o “crime” que se pretendeu cometer contra a estatal: trocar seu nome para privatizá-la! 

E, no entanto, a Petrobras sem X já estava ‘privatizada’ há muito tempo... Profetas do passado, agora sabemos por que o estouro do mensalão não acabou com o governo Lula. Ainda jorrava muito dinheiro e de uma fonte imensamente mais rica...

 Parece que desta vez o Brasil se livra desse clube. No entanto, tão importante quanto desconstruir o clube será o PT, o PMDB e demais partidos se convencerem que vencer eleições não é uma certidão de posse. Foram eleitos para administrar o país em nome do povo e não para embrulhá-lo e levá-lo para suas casas.



Governo novo, governo velho



Pronta a receber diariamente os jornalistas, falar pelos cotovelos, avacalhar e denegrir adversários, em campanha eleitoral, Dilma parece não ter mesmo a boa vontade de ser presidente quando o assunto é a governança em xeque. O país que assistia todo o dia suas diatribes direto do Planalto, mas em meio a uma crise tenebrosa para os destinos da nação a presidente se cala e se recolhe. Não é atitude de estadista, que aliás nunca foi, nem de governante. A fala na Austrália, que custou a sair, foi apenas um discurso ensaiado, preparado nas sombras de hotel.

Em todo o mandato que finda sempre tomou o silêncio como porta de escape para não dar satisfações satisfatórias à população, de quem parece fugir como o diabo da cruz quando não seja para pedir votos. Ou alguém já viu, ao menos em sonho, Dilma se prestar a falar sobre os grandes problemas que afetam a população? Nem morta. Prefere as citações econômico-financeiras, a falação politiqueira em idioma dilmês. Assim é a doutora, a sábia, a “presidenta”. Já viram sair em fala presidencial sobre os 50 mil assassinatos por ano, as estratosféricas cifras da violência, a medalha de ouro no uso de crack, a violência escolar, a mortandade nos hospitais de péssima qualidade?

Em vez de falar ao povo, prefere as conversas palacianas com um ex que ainda se acha no poder legítimo, quando não passa de poderoso chefão do tráfico de influência. Detalhe que a Sombra tomou chá de sumiço, silenciou, mas tem voz suficiente para suportar horas de conversas ao pé do ouvido presidencial de como ser canalha parecendo santa.

Dilma transforma assim o palácio em aparelho, onde se tramam as novas investidas, quando seria digno que ali tratasse com as lideranças, os políticos, os representantes da sociedade o seu novo governo. Não com meia dúzia de coronés, barões de tostão e outros que tantos do mesmo quilate.

Vive-se o governo em que a presidente ainda não se convenceu que é presidente. Prefere as confabulações palacianas, que nada têm de democráticas, que reveste com a maior desfaçatez em medidas para o bem estar do povo. É o vício da marquetagem. A mesma com que faz aparecer em celebrações se apropriando como sua a determinação de investigar os desmandos, de forma “firme e severa”, quando se está cansado de saber que não moveu uma única palha – até anda atrapalhando as investigações – em quatro anos de governo. Pior ainda, foi conivente com a má administração da Petrobras e até nomeou uma companheira do Clube da Luluzinha para garantir total acobertamento aos rombos na empresa.   

O país que Dilma governa não mudou. Continua a ser nação capitaneada por caciques que dirigem e determinam o que vão fazer para manter o tacape na mão. A indiada que se dane, aguente o sofrimento para felicidade geral dos governantes. Que esses estão bem, obrigado, com todas as benesses que negam à população. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Meras fofocas


Não podemos perder a capacidade de nos indignar


Na quarta-feira, o advogado de um dos investigados pela Lava-Jato disse que sem corrupção a empreiteira não ganha a concorrência. Me fez lembrar uma frase que usávamos na luta contra a ditadura: não podemos perder a capacidade de nos indignar. A corrupção não pode ser aceita como parte da paisagem brasileira.

Essa declaração do advogado é o começo daquele discurso de que as empreiteiras são vítimas. Não são. As que forem apanhadas em casos de corrupção têm que responder por isso. Muitas dessas grandes empreiteiras são eficientes como empresas de engenharia. Competentes, ganham concorrências em outros países onde os controles de desvios são muito rígidos.

Não podemos aceitar que a corrupção faça parte da paisagem e vire endêmica. Tampouco cabe banalizar algo que é gravíssimo, como tentou fazer o advogado.

Temos que nos indignar para que, de fato, a investigação seja uma oportunidade de mudarmos a forma de fazer negócios entre governos e empresas no Brasil.

Ninguém viu?


Como não desconfiaram dos seguidos aditivos, que adicionavam novos custos às obras e novos prazos?
 Como é que a Petrobras pode ter cometido tantos erros? Pois, antes de mais nada, é um erro empresarial brutal começar a construir uma refinaria, esta mesmo, a de Pernambuco, calculando que vai custar US$ 4 bilhões, depois gastar US$ 18 bilhões, e a obra ainda não está pronta. Mesmo que tudo tivesse sido feito com a maior honestidade, é evidente que as diretorias da empresa e seu Conselho de Administração fizeram uma péssima gestão. Como é que não perceberam que o negócio estava errado?

Essa mesma pergunta pode ser dirigida a todos os dirigentes honestos que não perceberam o tamanho do desastre e a corrupção que se praticava na empresa. Ou perceberam e não puderam contar aos demais órgãos de controle?

Como ninguém desconfiou dos seguidos aditivos, que adicionavam novos custos às obras e novos prazos? Reparem, não um, mas todos os investimentos relevantes ficavam cada vez mais caros e demoravam mais tempo.

Lembram-se do que disse o ex-diretor Paulo Roberto Costa quando perguntado, no Congresso, sobre o aumento dos custos da Refinaria Abreu e Lima? Que o projeto inicial estava errado, fora feito em cima das pernas. Na ocasião, não falou das propinas que entregaria na delação premiada. Mas ele tinha razão em apontar o improviso como uma das causas do problema.

E isso remete a responsabilidade administrativa e política ao ex-presidente Lula. Foi ele mesmo que disse, em entrevista publicada pelo jornal “Valor”, em 17 de setembro de 2009, quando o país saía da crise. O então presidente reclamava que empresários brasileiros eram conservadores no investimento, que era preciso partir para o ataque.

Exemplificou contando que até a diretoria da Petrobras lhe apresentara um plano de investimento que ele considerou pífio. O que fez? “Convoquei o Conselho da Petrobras para dizer: ‘Olha, este é um momento em que não se pode recuar’. Até no futebol a gente aprende que, quando se está ganhando de 1 x 0 e recua, a gente se ferra.”

A Petrobras partiu para o ataque, programou não uma, mas logo quatro refinarias e ampliou o projeto do complexo Comperj, no Rio. As sucessivas diretorias, já entrando pelo governo Dilma, foram levando a coisa (sem notar nada?), até que a situação tornou-se absurda. Diziam: qual o problema com a refinaria de Pasadena? Apenas um mau negócio. Abreu e Lima vai custar cinco vezes mais? Acontece nas grandes obras.

Paisagens Brasileiras

Edgar Oehlmeyer, "Rua no interior"

A honesta honestidade



Um partido político não começa a morrer quando conquistado de fora, pelos adversários, mas no momento em que passa a ser destruído de dentro, por seus próprios integrantes. A regra milenar serve para civilizações, países, corporações, até clubes de futebol.

O PT encontra-se nessa situação. Pouca influência tem em sua sobrevivência os ataques do conservador PSDB ou a histeria do PSOL e penduricalhos, do outro lado. Os companheiros estão entrando em colapso por conta de suas atividades. Uma vez conquistadas as primeiras vitórias, mesmo aquelas menores, como as prefeituras do interior de São Paulo, o partido chegou ao poder maior, com a vitória do Lula. Aí se intensificaram as atividades agora responsáveis pela deturpação, a desmoralização e agonia da legenda. O capítulo dos escândalos na Petrobras é apenas mais um, envolvendo outros anteriores.

Encontra-se o PT em pleno conflito entre a honesta desonestidade ou, se quiserem, entre a desonestidade honesta. Fora aquela parcela de aproveitadores existentes em toda comunidade, sempre interessados em aumentar suas contas bancárias, a grande maioria do partido justifica o assalto à coisa pública como decorrência natural da luta para reformar e até revolucionar costumes e instituições. Trata-se, para eles, de um confronto ideológico, necessário para a concretização de suas propostas. Se é para promover a justiça social, a igualdade e as mudanças imprescindíveis à construção de uma nova sociedade – tudo será válido. Até superfaturar preços, cobrar propinas, fraudar contratos e comprar opiniões. Imaginam que o objetivo final justifica todos os instrumentos utilizados.

O problema, para os companheiros, é que ao construir uma nova ordem, geraram a desordem. Pergunte-se a seus líderes se estão arrependidos e eles ficarão surpresos e irritados. Para eles, tudo é permitido no rumo do final projetado. Apenas, esqueceram-se dos valores fundamentais que deveriam pautar a vida em sociedade. Não há, para o PT, uma ética universal e permanente, mas diversas éticas capazes de anular-se.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Própria para delinquentes


Lobo em pele de ovelha


Assim ofuscados pelo cetro, pelas insígnias reais, por seu cortejo, títulos fulgurantes de sereníssimo, clementíssimo, alto e poderoso senhor, reverenciamos num príncipe uma espécie de divindade terrestre, de natureza mais que humana. Mas abre esse anti-sileno e não encontrarás mais que um tirano, quer dizer, um inimigo mortal dos cidadãos, que detesta a paz interior e está disposto a suscitar a discórdia e perseguir as pessoas de bem, flagelo das leis, destruidor das cidades e devastados da Igreja, ladrão sacrílego, incestuoso, em suma, como diz o provérbio grego, um amontoado de todos os vícios

Erasmo de Roterdã

Lição para o Brasil de hoje


“Era uma bela manhã de agosto. O vento era suave. Uma tripulação contente e satisfeita levantava a vela, disparava uma saudação, e navegava para fora do local onde hoje fica Slussen (nota: a área da eclusa que separa o lago Mälaren do Mar Báltico, no centro de Estocolmo).

Milhares de moradores contemplavam o orgulho da superpotência, um dos maiores e mais fortemente armados navios de guerra, o que faria a guerra contra os católicos no continente.

Em vez disso, eles viram o Vasa dar uma violenta guinada assim que saiu do abrigo. O navio se endireitou, mas foi  logo empurrado para baixo por uma rajada. Desta vez tão fortemente que a água começou a jorrar para dentro das aberturas dos canhões.

O maior navio da frota adernou rapidamente, virou e afundou em 10 de agosto de 1628, após uma viagem de 1300 metros.

Neste domingo, faz 50 anos que o Vasa foi resgatado pelo engenheiro naval Anders Franzén, depois de uma longa luta contra aqueles que queriam explodir os destroços e com eles fazer móveis de madeira.

Isso deu à Suécia seu mais impressionante museu, com os mais bem conservados restos de um naufrágio dos anos 1600 que o mundo já viu.
Como bônus, nós também temos um permanente lembrete sobre o perigo do autoritarismo e do pensamento de grupo - partidos, organizações e empresas deveriam fazer visitas regulares ao Museu Vasa, para sempre lembrar-se dos riscos que correm.

Para os responsáveis, o naufrágio do Vasa não foi uma surpresa. Os interrogatórios revelaram mais tarde que eles provavelmente suspeitavam de que as coisas não iam bem, mas cada um culpava o outro.

Ninguém se atreveu a informar o rei de que seus planos forçados não eram factíveis.  O Almirante de Esquadra alegou que o Capitão deveria ter protestado, e o Capitão disse que era o Almirante Clas Fleming quem deveria ter feito isso.
O Rei Gustav II Adolf havia exigido um navio poderoso e o queria imediatamente. O projeto não foi testado e o barco tinha não apenas mais canhões na parte superior, como também menos peso na parte inferior, do que o habitual. Já no porto o defeito era óbvio.

Na primavera de 1628, a estabilidade do Vasa foi testada por 30 marinheiros correndo para trás e para frente no convés. O Vasa começou a balançar violentamente.

O Almirante Fleming reagiu imediatamente, interrompendo o teste e fingindo que tudo estava em ordem. Ele era um dos homens mais talentosos da frota, mas ele também queria agradar, ele não queria criar problemas e decepcionar o chefe.

Soa um pouco como algum local de trabalho perto de você? Em 400 anos, a construção de navios conseguiu se transformar, mas o ser humano continua o mesmo”.

***
O texto acima é de Johan Norberg, publicado originalmente em sueco no jornal Metro de Estocolmo, em 20 de abril de 2011, sobre o fim do Vasa, único navio de guerra do século XVII existente no mundo. Com 95% do casco original do barco preservado é um tesouro artístico único e uma das maiores atrações turísticas do mundo. Afundou no dia do lançamento ao mar, após percorrer apenas 1 milha náutica (menos de 2 km). Graças às condições especiais das águas do Báltico, foi recuperado mais de 330 anos depois, praticamente intacto. O navio encontra-se exposto num museu especialmente edificado para acolher o navio, em Estocolmo.

O texto foi traduzido por Sandra Paulsen no artigo O Vasa -Lições para o Brasil de hoje